Destemida
Etapa Dois - Sul rumo ao Chile e Cabo Horn
Terça-feira, 24 de novembro de 2009
Sul outra vez
Atravessamos o equador outra vez essa tarde, voltando ao hemisfério
Sul. É bom estar de volta em casa! Dei um olá rápido para Netuno e
agradeci a ele pelo peixe. Mas continuo sem nenhum sinal da grande
linha vermelha, estou começando a suspeitar que essa água toda acabou
apagando-a!
O dia foi tranquilo, sem maiores emoções, dando prosseguimento à
rotina de altos e baixos. Fiz alguns deveres de casa, li e cochilei. Na
maior parte do tempo, progredimos bastante e tivemos algumas
pancadas leves de chuva. As pancadas não ofereceram mais do que
ventos de 20 nós, mas foram suficientes para deixar o ambiente úmido
demais para que a escotilha ficasse aberta, tornando meu mundo quente
e pegajoso. Já mencionei que estou ansiosa por um clima mais frio?
Muito mar aberto pela frente nos próximos dias. Será bom voltar a
dormir sem interrupções e estou louca para deixar mais algumas milhas
para trás. A última previsão de Bob indica ventos no sentido sudeste,
então poderemos avançar bastante para o sul, mas, por enquanto, nada
de irmos para o leste.
Quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Máquina de lavar roupa
O dia de hoje não foi dos mais incríveis por aqui, com céu nublado e
chuva, e o mar estava uma bagunça – acho que deve ser assim a
sensação de estar dentro de uma máquina de lavar roupa! Bob previu
que as ondas ficariam um pouco incômodas com a colisão da corrente
que segue para o leste com o vento que vem do sudeste e, acreditem,
ele tinha razão! Devo admitir que meu humor refletiu o céu acinzentado
em alguns momentos dessa tarde, então precisei ter uma boa conversa
comigo mesma. Pouco depois, voltei a me sentir cem por cento positiva.
Não há por que gastar um único minuto do meu tempo aqui me sentindo
mal! Realmente não tenho do que reclamar: embora o sol não esteja
brilhando, fizemos um ótimo (e um tanto balançante!) progresso em
direção ao sul! Ah, e mesmo quando as coisas estão um pouco tristes,
não consigo pensar em nada que preferiria estar fazendo. Tenho certeza
de que não há muitas pessoas que podem dizer isso. Sou uma garota de
sorte!
Ainda temos um longo caminho pela frente, mas comecei a contar as
milhas que faltam para o Cabo Horn (5450 milhas náuticas restantes!), o
que me ajuda a manter o foco. Mal posso esperar para ver um albatroz
outra vez e ver como são as tais ondas imensas do Oceano Antártico.
Parece que já começaram a pendurar os enfeites de Natal em terra,
mais uma data para esperar!
Deveremos navegar com muito mais velocidade nos próximos dias
em mares bastante vazios, exceto quando passarmos perto da ilha
Starbuck. Se eu não estivesse fazendo uma viagem desassistida, daria
uma paradinha para um café!
Hora de ir atrás da janta outra vez. Estou pensando em algo na linha
de espaguete à bolonhesa e talvez eu dê uma boa fuçada no armário de
doces para ver se encontro alguma coisa.
Eu não estava escondendo nada dos leitores do blog, mas relutava em dar
detalhes dos meus dias tristes. Fazia isso mais para a minha proteção do que qualquer outro motivo, mas também porque não queria que meus pais se
preocupassem. Dependia de mim sair dos momentos difíceis e escrever a
respeito não ajudava. Eu precisava me distrair ou me ocupar com outra
coisa.
Não houve muitos momentos difíceis, mas as coisas nem sempre eram
fáceis do ponto de vista emocional. No início, tentei esconder qualquer sinal
disso da minha família, mas percebi que isso fazia parte do processo de
autoconhecimento. Uma das grandes motivações para navegar sozinha ao redor do mundo era ver se eu era capaz, descobrindo minha força e o
quanto eu podia lidar com os momentos difíceis. Tive alguns momentos
péssimos naquela semana e me senti sozinha, com dor de cabeça e letárgica,
mas tentei manter as coisas em perspectiva. Eu estaria muito pior em casa. Era estranho, porque na maior parte do tempo eu estava bem e adorava car
sozinha, e então, bum! Do nada, só o que eu queria era alguém para me
abraçar e cuidar de mim. A certa altura daquela semana, havia coisas que eu
de nitivamente precisava fazer e precisei me obrigar a seguir em frente quando tudo o que queria fazer era deitar na cama e dormir por vários dias.
Eu estava apavorada para falar com meus pais e Bruce no estado de espírito
em que me encontrava, mas consegui romper aquele estado de pânico.
Realmente, eram as coisas pequenas que ajudavam, como organizar a cabine, conversar com os amigos, ler, escrever e comer bem – algo que nem sempre fazia! Acho que não mencionei no blog que comi pipoca de café da manhã algumas vezes. Eu tendia a escrever sobre comida só quando estava
fazendo tudo certo.
Eu tinha conversas ocasionais com Mike Perham, Tom, Hannah, Emily e
outros amigos e familiares. Era ótimo conversar com Mike, pois ele estava em casa havia três meses e estava se readaptando à vida em terra. Era bom
compartilhar os altos e baixos com alguém que entendia exatamente o que
eu dizia. Eu também recebia notícias do progresso de Abby Sunderland.
Abby estava planejando navegar sozinha, desassistida e sem paradas ao redor do mundo e havia escolhido um veleiro Open 40 para a sua tentativa.
Mike havia navegado em um Open 50 e teve problemas. Eu estava muito
contente com a decisão de utilizar um S&S 34 e já sabia que a Ella’s Pink
Lady era um pequeno veleiro muito durão e a escolha perfeita para mim.
Sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Voando baixo e mangas
Com a proa empinada, velas içadas e atirando água em todas as
direções, a Ella’s Pink Lady passou o dia “voando baixo”. Pelo visto, não
sou só eu que quero ir logo para o sul! O vento virou para o leste mais
uma vez, de modo que conseguimos amansá-lo para tornar o avanço
mais confortável e nos dirigirmos diretamente para o sul.
Enquanto dava uma organizada na cozinha hoje, fiquei emocionada ao
me deparar com um esconderijo de mangas em lata! Ouvi muito que lá
em casa as mangas andam deliciosas e encontrar meu próprio estoque a
bordo deu uma sensação de noite de Natal! Claro, não é o mesmo que
frutas frescas, mas não são ruins. Tenho a impressão de que não
conseguirei racioná-las! Ah, e acho que posso dizer que mangas em lata
são tão complicadas de comer quanto as frutas frescas... ou talvez o
problema seja comigo.
Não tenho muito para contar hoje, então pensei em explicar um
pouco melhor o plano para a próxima etapa, que nos levará até o cabo. A
distância (5450 milhas náuticas) até o Cabo Horn que forneci ontem seria
a distância em linha reta, mas estranhamente percorreremos uma rota
um pouco mais rápida. Sei que soa muito estranho, mas tem algo a ver
com um fenômeno chamado “círculo máximo” e a curvatura da terra.
Provavelmente, não sou a melhor pessoa para explicá-lo, mas vou dar
um exemplo: se eu fosse traçar um trajeto que levasse direto para a
América do Sul levando em conta a curvatura da terra, o caminho mais
rápido para chegar lá seria navegar em arco para o sul. Nossa rota de
círculo máximo, ou a maneira mais rápida de chegar ao Cabo, é navegar
para o sul e então arquear de leve para o leste (5130 milhas náuticas).
Assim, se conseguirmos manter uma velocidade média de cinco nós, o
TEC para o Cabo Horn deve ser a primeira semana de janeiro. Mas como
ter certeza? Há uma boa chance de pegarmos um pouco mais de
velocidade no sul e chegar lá um pouco mais cedo.
Seria muito conveniente, mas é preciso levar em conta todas as ilhas
e recifes de corais chatos que estão no meu caminho! Para deixar tudo
ainda mais divertido, o vento não nos deixa ir exatamente para onde
queremos.
Vou terminar pedindo desculpas pela minha explicação, talvez eu
tenha confundido muito vocês! Por hoje é isso: o Parker está saindo um
pouco do curso porque o vento está perdendo velocidade, então é
melhor eu nos colocar de volta na direção certa. Depois terei que encarar
uma decisão difícil: abrir ou não outra lata de manga?
P.S. Muito obrigada por todos os desejos de Feliz Ação de Graças,
Estados Unidos!
Domingo, 28 de novembro de 2009
Mais um dia
Tivemos mais um dia típico por aqui. Continuamos avançando de
maneira satisfatória. Alguma dica para evitar os pardais? Mantive-me
ocupada devido a algumas pancadas de chuva que me obrigaram a
colocar e retirar os rizos da vela, e passei boa parte do tempo de folga
dormindo após ter passado a última noite em claro por causa de um
barco que passou perto de nós e algumas pancadas de chuva.
Não sei a melhor maneira de dizer isso, mas diversas pessoas tem
pensado a respeito e perguntado, então vamos lá: sim, sou eu mesma
que escrevo o blog (e meu livro)! Para mim seria inviável ter alguém
escrevendo em meu lugar. Já pensou como seria deixar sua mãe ou
qualquer outra pessoa descrever seus sentimentos para o mundo em seu
lugar? Ai! Bem, talvez seja coisa de adolescente! Mas devo confessar
que minhas atualizações precisam passar por um corretor ortográfico
antes de serem publicadas. Minha ortografia é, digamos assim, um
pouco chamativa!
Já que estou fazendo todas essas confissões, tenho mais uma para
vocês. Peço desculpas a todos, mas não escrevo no blog só para sanar
sua curiosidade, mas porque amo escrever! Ah, e sim, abri aquela lata de
manga ontem e diversas outras na sequência. Tenho justificado minha
fome devastadora por mangas com o argumento de que devo comer
todas enquanto ainda estiver nos trópicos, pois se trata de uma fruta
tropical. Há muitas outras delícias estocadas para as etapas mais gélidas.
Hoje à noite, o pessoal lá de casa vai se divertir no desfile de luzes de
Natal. Estou com um pouco de inveja, mas estar na Ella’s Pink Lady ainda
é minha primeira opção. Então, para não ficar para trás, acho que farei
outra noite de filmes com muita pipoca e chocolate. De qualquer
maneira, as estrelas por aqui tirariam o primeiro lugar em qualquer
competição de luzes fácil, fácil!
Não, comer tanta manga não me deixou mal. Afora eventuais dores de
cabeça e um ou outro dia mais triste, eu me sentia ótima. Acho que as dores
de cabeça se deviam em parte ao calor e em parte aos meus padrões irregulares de sono. Ou seja: o motivo era o horário da Pink Lady. Se eu não
precisasse fazer skeds, a minha rotina seria um samba do crioulo doido. A
obrigação de fazer as ligações programadas em momentos especí cos e
telefonar para casa signi cam prazos a cumprir. E eu sabia o que aconteceria se perdesse um deles! Todos cariam preocupados com a minha segurança,
mas, como disse antes, às vezes eu só queria car totalmente sozinha. Isso
soa estranho... eu estava sozinha. Mas às vezes ter que dizer o que estava
comendo, como estava dormindo e se tinha checado um ou outro equipamento me dava nos nervos. É claro que meus pais sempre queriam
saber como eu estava, mas eu só queria falar sobre o que estava acontecendo
por lá e o que Tom, Emily, Hannah e meus amigos andavam fazendo. Não
era comum, mas de vez em quando eu me incomodava com aquilo tudo e
cava rabugenta, dando respostas curtas durante nossas conversas.
Segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Vento ganhando força outra vez
Hoje amanhecemos com uma chuva que me fez começar o dia
ensopada enquanto rizava a vela e tentava filmar o processo. Eu achava
que já estaria bem acordada após a primeira onda, mas aparentemente
não. Só de pensar que algumas pessoas começam seu dia tranquilas
tomando café!
Como de costume, a tempestade ladrou, mas não mordeu. Parecia
bem grandiosa quando se aproximou na forma de uma grande nuvem
escura, mas não gerou mais do que 30 nós de vento e um pouco de
chuva. Mesmo assim, surpreendeu-me a velocidade com que as ondas
encresparam. Desde então, tivemos tempo nublado e garoa, mas ao
menos o vento estacionou em 18 nós ao longo da tarde. A Ella’s Pink
Lady está navegando contra o vento forte outra vez, mas a vida segue
normal. Passo meu tempo lendo, fazendo deveres de casa ou, minha
opção favorita, ficando atrás da capota levando vento e espuma na cara
enquanto observo o nosso caminho. Acho que nunca ficarei entediada
com isso!
Retirei da estante as cartas da Polinésia Francesa e estudei com afinco
a nossa rota para o futuro breve. Tenho pensado sobre alguns dos
trabalhos que precisam ser feitos antes de chegarmos ao sul. Andei um
pouco preguiçosa para cozinhar nos últimos tempos, limitando-me quase
sempre a esquentar alguma refeição da Easyfood ou lanchando bolachas
água e sal. Provavelmente eu não devesse contar isso (vou arruinar
minha reputação), mas tenho comido até macarrão instantâneo quando
estou sem saco para cozinhar.
Terça-feira, 1º de dezembro de 2009
Tempo mais fresco, lixo e nova sacola de comida
Continuamos progredindo bastante em direção ao sul, mas a grande
notícia do dia é que consegui desligar um dos meus pequenos
ventiladores Hella da cabine pela primeira vez em semanas!
Provavelmente, dois ventiladores pequenos não parecem importantes
para virar notícia, mas eles foram um item fundamental de sobrevivência,
funcionando sem parar e fazendo um ótimo trabalho de me manter
refrescada. Talvez seja cedo demais para começar a nutrir esperanças,
mas parece que finalmente o tempo começou a ficar mais fresco nas
últimas semanas. Tenham certeza de que reclamarei do frio em um piscar
de olhos!
Ainda há muita umidade e pancadas de chuva que deixam as ondas
encrespadas e zombam de minhas tentativas de dormir por intervalos
consideráveis. Tenho tirado sonecas a tarde inteira para tentar
compensar o sono atrasado. Nesse instante, a Ella’s Pink Lady está
percorrendo uma boa distância em direção ao sul. Amanhã de manhã,
teremos que cruzar em algum momento para avançarmos um pouco em
direção ao leste, na esperança de pegar um vento leste mais forte.
Passamos mais uma vez pela linha da data hoje, chegando à zona de
horário GMT-12. Não que isso signifique muito para mim, pois continuo
seguindo o horário de Queensland!
Uma das tarefas de hoje foi minha tentativa semanal de empacotar e
compactar meu lixo para alojá-lo na popa. É claro que todo o material
degradável é arremessado na água e tudo o que sobra (basicamente
embalagens plásticas) é lavado quando necessário e cuidadosamente
empacotado até o meu retorno.
Não havia nada na última sacola de comida além de uma lata de
feijões assados e um pacote de bananas crocantes (o jantar não foi dos
mais convidativos!). O dia de hoje marcou o início de uma nova sacola.
Há diversas novas guloseimas e até um presente da minha avó!
Para mim, a privação de sono é um dos aspectos mais difíceis de uma
navegação solitária. Aprender a ter uns minutos de sono sempre que
possível e sobreviver com o sono interrompido é essencial para garantir a segurança. Admiro muito o que as mães enfrentam com seus bebês e o que a
minha própria mãe enfrentou para criar quatro crianças. Estudos recentes
apontam que... adolescentes adoram dormir! Fomos criticados pela Polícia
Marítima de Queensland após a colisão com o Silver Yang por não termos um “plano de gerenciamento de fadiga”. Havíamos dedicado muito tempo e
re exão para encontrar uma maneira de administrar o sono irregular que
faz parte de uma viagem solitária. Contudo, como não tínhamos nada no
papel para comprovar nossas a rmações e mostrar que estávamos preparados, os policiais me consideraram despreparada. Eles sugeriram que
colocássemos todas as informações em um único documento. Minha tia
Vivienne (irmã de minha mãe) veio da Nova Zelândia para car conosco na
etapa nal de nossa preparação e se ofereceu para anotar o plano de gerenciamento de fadiga para mim. Tenho muito orgulho daquele documento detalhado, lindamente pesquisado e de excelente visual que levei comigo a bordo. Sou a primeira navegante solitária de que tenho notícias
que tinha uma prova física da existência do plano no veleiro!
Quinta-feira, 2 de dezembro de 2009
Rapidinho
Só uma atualização rápida. Tivemos outro dia nublado com pancadas
de chuva e hoje à noite o mar está balançando muito com o vento de 30
nós e se erguendo à nossa frente quando descemos pelos vales das
ondas. O vento tem mudado o tempo todo e cada vez que encosto a
cabeça no travesseiro para dormir um pouco alguma coisa acontece,
obrigando-me a voltar ao convés. É uma pena que o Parker não possa
ajustar a posição das velas e navegar! Mas não tenho do que reclamar e
ainda estamos progredindo bem em direção ao sul. As nuvens
finalmente cederam um pouco e a luz da lua que incide sobre o mar
revolto deixa-o parecido com uma folha de papel-alumínio amassada,
mas muito mais brilhante e, é claro, movimentado!
Domingo, 5 de dezembro de 2009
Não fica muito melhor do que isso!
Tivemos aquele mar revolto e as pancadas de chuva nos últimos dias,
mas as nuvens e garoas se recolheram de vez hoje, deixando a Ella’s Pink
Lady navegar com condições perfeitas e ventos de monções. Monções é
o nome dado à casta de ventos sudeste nessa parte do mundo, mas o
que os livros não contam é como o brilho do sol fica lindo, como é bom
ter uma brisa constante e como a água fica incrivelmente azul, salpicada
de branco pela espuma na crista das ondas. Talvez eu só esteja de bom
humor, vendo o mundo através de óculos de alegria, mas acho que a
vida não fica muito melhor do que isso!
Era engraçado como comentários como esse sobre ver tudo através de
“óculos de alegria” eram escolhidos e citados por diversas pessoas que
acompanhavam o blog. Para mim, era incrível que outras pessoas lessem o
que eu escrevia, e ainda mais incrível que aplicassem minhas estratégias de pensamento positivo às suas vidas. Por mais bobo que possa parecer,
acredito muito em ver o mundo através de “óculos de alegria”. Uma coisa
que aprendi no mar é que há pouquíssimas situações que não possamos
reverter com uma simples mudança de perspectiva, tornando-as mais positivas e menos ameaçadoras. É claro que eu tinha meus momentos de
choramingos e lamentos quando cava triste ou assustada. Mas no m eu
percebia que dependia só de mim mudar o meu humor (não havia mais
ninguém lá para fazer isso por mim) e eu conseguia levar meus pensamentos para outra direção.
O lado negativo é que as monções que sopram do sudeste são um
problema, pois é exatamente para o sudeste que pretendo ir!
Conseguimos avançar bastante para o sul, mas praticamente não
avançamos para o leste. Ainda assim, não há por que se preocupar, pois
mais para o sul o vento vai ceder e deverá soprar um pouco de cada
direção (na área conhecida como variável, ou subtropical) antes de virar
para oeste quando estivermos chegando nos Roaring Forties. A última
previsão de Bob mostra que temos mais ou menos uma semana nesse
percurso com condições similares até que possamos pegar uma via mais
direta para o Cabo Horn.
A essa altura, já deixamos a Polinésia Francesa bem para trás. Com o
vento que encontramos, conseguimos evitar a maioria das ilhas e recifes
de coral. Afora algumas ilhazinhas pelas quais deveremos passar
amanhã, só há mar aberto entre nós e o Cabo Horn... 4380 milhas
náuticas de mar aberto!
Ah, e tem uma coisa que, tenho certeza, todos andam pensando em
silêncio: não, ainda não enjoei do rosa! A cor um pouco “diferentona” da
Ella’s Pink Lady ainda me faz sorrir e se mostrou ótima para os trópicos,
mantendo a cabine fresca e dando uma folga para os meus olhos, tão
acostumados ao cinza e ao azul, que é só o que vejo aqui! Mesmo assim,
ainda tenho muito tempo pela frente, então manterei vocês atualizados
sobre minha relação com o rosa conforme os meses passarem!
Bem, vou sair para aquecer minha refeição favorita da Easyfood,
estrogonofe, e jantar cedo. Após o sucesso dos meus bolinhos ontem à
noite, pode ser que eu tente fazê-los de novo, talvez com um pouco de
queijo.
Domingo, 6 de dezembro de 2009
Domingo silencioso
O dia de hoje foi agradável e sem muitos acontecimentos. Pode
parecer estranho, já que estou tão longe de casa e da terra firme, mas
aqui está um clima bem dominical! A Ella’s Pink Lady ainda segue veloz
para o sul e o tempo definitivamente está esfriando. Até precisei vestir
um suéter para sair no vento hoje à noite. Ainda não está exatamente
frio: a temperatura do ar é de 28 graus (registrei um recorde de 38 na
cabine próximo à Ilha Kiritimati), mas o que me surpreendeu foi a
mudança na temperatura da água durante o dia de hoje. Ela caiu de 26
mais cedo para 24,5. Comparado aos 30 graus que tivemos por tanto
tempo, o banho dessa tarde pareceu bem frio – brrr!
Com o mar ainda mais calmo, tenho feito as coisas típicas de um
domingo: dei uma dormidinha a mais e não saí muito da cama. Passei a
maior parte do dia vidrada em um livro, bem o que eu precisava. Foi
muito bom desligar totalmente por um dia, e me senti com as baterias
recarregadas, pronta para uma nova semana.
Quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Pronta para um pouco de vento!
Tive alguns dias movimentados porque concluí diversas tarefas e
chequei tudo duas vezes antes de nos dirigirmos muito para o sul.
Continuamos avançando sob ótimas condições climáticas. Talvez o
trabalho mais importante de todos tenha sido a instalação de uma tira de
segurança para a tripulação – meus bichinhos de pelúcia!
A cabine passou por uma reorganização total para garantir que tudo
esteja em um local seguro. As velas para ventos leves foram colocadas
na parte de baixo da pilha para serem substituídas pelas velas de
tempestade e deixei todas as minhas roupas de frio e o equipamento
para clima úmido em locais de pronto acesso.
A perspectiva de organizar a proa vinha me causando calafrios,
porque essa parte do barco se tornou uma espécie de depósito onde
enfio as coisas, mais ou menos como faço com o espaço debaixo da
cama quando estou em casa! Mas acabou sendo divertido, pois descobri
um monte de coisas que eu já não sabia onde estavam, incluindo todos
os meus presentes de Natal! Não se preocupem, consegui me conter e
guardá-los para o Natal.
A escolha do momento para fazer isso foi acertada, porque
aparentemente teremos um clima bem pesado amanhã. Embora o vento
não ande nada severo nos últimos dias, as nuvens começaram a
aparecer e espera-se que o vento comece a ganhar força a partir de
amanhã. É provável que o mar esteja revolto. Podem me chamar de
louca, mas ouvir que a Ella’s Pink Lady e eu finalmente vamos enfrentar
mares difíceis foi um grande alívio. Eu não aguentava mais a angústia da
espera!
Estou um pouquinho nervosa, mas contente por saber que fiz tudo o
que podia. Bem, por hoje é isso, preciso comer bem e tentar dormir um
pouco enquanto as coisas estão bem.
Sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Muffins de banana e ver o mundo
seguir seu curso
Nos últimos dias, tivemos céu escuro e um pouco sinistro e o mar
ficou mais revolto. O vento ganhou um pouco de força e era esperada
uma velocidade de 40 nós. Eu estava pronta para a ação, mas parece que
perdemos a oportunidade, porque passamos tranquilamente pela zona
onde dois sistemas climáticos coexistem. Fazer o que, sempre há uma
próxima vez. Acho que não faltarão ventos fortes mais ao sul. Vamos
encarar isso como uma prática!
Nos últimos tempos, meu passatempo preferido é ficar na cabine em
frente à escada, protegida do vento pela capota enquanto assisto ao
mundo seguindo seu curso. Pode-se dizer que me entretenho com coisas
pequenas, mas ainda acho fascinante ver as ondas passando pela Ella’s
Pink Lady, com uma ou outra eventualmente quebrando sobre nós.
O tempo não tem sido nada de especial, marcado pelo céu nublado e
chuvas ocasionais que comprometem nossa visibilidade. Ainda assim,
esses dias são tão espetaculares à sua maneira quanto aqueles sem
nenhuma nuvem.
Já ando ansiosa para entrar em meu confortável saco de dormir. Mas
sair dele tornou-se um desafio. Hoje até peguei alguns cobertores
térmicos, o que é um exagero, visto que a temperatura ainda está em 20
graus. Mas o tempo frio ainda é uma novidade.
Como sempre, estou de bom humor, mas hoje de manhã não pude
evitar o pensamento de como seria bom tirar uns dias de folga para
baixar a guarda por um tempo e pensar em outra coisa além de navegar.
Só um desejo vazio. Afinal de contas, isso tudo faz parte do desafio.
Descobri uma coisa hoje de manhã que provavelmente se tornará
uma de minhas comidas favoritas: creme de ovos quente para comer no
café! E por falar em comida, tentei fazer bolinhos de banana hoje à tarde
em um esforço para me livrar de algumas das bananas crocantes que
minha mãe embalou (apostando na possibilidade remota de que eu
começasse a gostar delas!). Todos aqui presentes declararam que
ficaram perfeitos! Eles deviam estar muito bons, pois estou comendo o
último nesse instante.
O mais importante em uma viagem sem paradas é que não há a
possibilidade de tirar um tempo de folga e jamais pode-se deixar de prestar
atenção no clima e no barco. Por mais que eu tivesse escolhido fazer aquilo,
era muito cansativo. Embora na maior parte do tempo eu achasse tudo o máximo, teria dado qualquer coisa para tirar uma “folguinha”, relaxar, rir
bastante com meus amigos e ignorar a última medição da pressão
atmosférica no barômetro. Quando estava no mar, eu jamais podia desligar
completamente, era muito difícil me concentrar em um livro para escapar da dura realidade, porque eu precisava parar a cada poucos minutos e
colocar a cabeça para fora da escotilha e ver se tudo estava em ordem. Sabe
quando dizem: “é uma maratona, não uma corrida de cem metros rasos”?
Bom, isso se aplica perfeitamente a uma navegação solitária!
Domingo, 13 de dezembro de 2009
Sortuda, não solitária!
Pela primeira vez em muitas semanas, vi algo fabricado por seres
humanos que não é a Ella’s Pink Lady. Rufem os tambores! Era um
pequeno pedaço de plástico que passou flutuando na manhã de hoje
durante uma breve calmaria. Não foi nada demais, mas isso me fez
pensar que estou absolutamente no meio do nada. A cada milha, nos
dirigimos mais para um trecho vazio de oceano. Ainda é estranha a ideia
de que devo estar a centenas de milhas da pessoa mais próxima. Na
verdade, faz quase dois meses que não vejo ninguém. É claro que vi
outros barcos, mas nenhum chegou perto o suficiente para que eu
pudesse enxergar a tripulação.
Talvez seja ainda mais estranho dizer que não me senti solitária aqui
nenhuma vez. É claro que tenho saudades de casa e de todo mundo a
cada momento desde que parti de Sydney, mas jamais me sinto solitária.
Solitária é a palavra para uma noite de sexta-feira em que não temos
aonde ir e ficamos sentados em casa com pena de nós mesmos. A
diferença é que escolhi estar aqui. Por algum motivo doido, optei por
estar em um barquinho no meio do oceano. Talvez o dicionário explique
melhor do que eu (sim, estou mesmo citando um dicionário!): “Solitário:
o sentimento deprimido de estar sozinho”. Posso estar tão fisicamente
sozinha quanto possível, mas não estou nada deprimida. Como posso
me sentir solitária com pessoas no mundo todo pensando em mim,
falando sobre mim (estou sempre com a orelha vermelha!), e em alguns
casos debatendo fervorosamente até agora se eu deveria ou não estar
aqui? Sem falar na minha família e em meus amigos que esperam por
meu retorno. Solitária não é a palavra. Na verdade, me sinto a menina
mais sortuda do mundo!
Outra novidade do dia foi o céu azul. Estávamos sem nenhum sol
havia quatro dias e eu não tinha percebido a falta que ele me fez. Como
vivo na Sunshine Coast, que muitas vezes tem períodos intermináveis de
clima perfeito, estou acostumada a amar a chuva e os dias nublados que
quebram a monotonia, mas por aqui nada me arranca um sorriso tão
rápido quanto um pouco de sol. Até vi algumas estrelas hoje à noite. É
muito privilégio, né?
Apesar daquele período quase sem vento na manhã de hoje em que a
Ella’s Pink Lady ficou sacudindo desconfortavelmente ao sabor das
ondas, conseguimos percorrer uma boa distância na direção leste.
Vamos encarar um dia por vez!
Segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Pôr-do-sol incrível
Em termos gerais, tivemos um dia normal e sem muito vento, mas o
suficiente para nos manter em movimento sobre o mar calmo a uma
velocidade de cinco nós. Mas o pôr-do-sol de hoje esteve longe de ser
normal. Foi incrível! No começo achei que seria bom, mas então as cores
começaram a melhorar cada vez mais conforme o sol desaparecia.
Bem, hoje teremos apenas essa atualização rápida, pois minha barriga
está me avisando de que já passou da hora de comer alguma coisa!
Assistir a um incrível nascer do sol ou pôr-do-sol me deixava animada,
especialmente depois de alguns dias sombrios. As diferentes cores que se movem pelo céu enquanto o sol se põe, os tons de azul, rosa, anil escuro e roxo às vezes eram de tirar o fôlego. Mas sempre que eu via o céu vermelho à
noite, não conseguia deixar de recitar um antigo ditado de marinheiros:
Céu vermelho ao sol poente, marinheiro contente
Céu vermelho quando desperta, marinheiro alerta
Mesmo se a previsão de Bob dissesse exatamente o contrário, eu tinha a
ideia de que a cor do céu podia dizer o que estava por vir. Vai saber de onde veio esse ditado! Pesquisei um pouco na internet e quei fascinada ao
descobrir que remonta aos tempos bíblicos. Não havia pessoas como Bob
para fornecer previsões climáticas, então os marinheiros (ou pastores, em
outras versões da rima) aprenderam a perceber as mudanças ao seu redor, como a cor do céu ou a direção do vento, e memorizar o clima que vinha em
seguida. Eu gostava de imaginar os marinheiros de antigamente, como
Joshua Slocum, olhando para o céu da mesma forma que eu enquanto
viajavam sozinhos pelo mundo. Eu podia contatar minha casa sem esforços, coisa que eles não podiam. Mas acho que a sensação de ser uma pequena
parte de algo muito maior quando há vento forte, mar revolto e nada ao
nosso redor além de um oceano sem m que se encontra com um céu
igualmente interminável não mudou muito ao longo dos séculos. Slocum disse em Sailing Alone Around the World: “mais de uma vez, me vi
navegando por um mar solitário e cercado de uma solidão suprema”.
Algumas pessoas acham a ideia de passar um longo tempo sozinhas
horripilante, mas isso nunca me assustou, embora às vezes tenha desejado com todas as minhas forças a companhia de alguém, um abraço e um pouco
de companhia. Mas na maior parte do tempo, a solidão descrita por Slocum
é uma das coisas que me atraem na navegação. Eu já disse isso antes, mas quando estou navegando o mundo desacelera e, se eu permitir, só o que interessa é o momento presente. Tudo ca muito fácil.
Quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Subindo o mastro e entrando nos
Roaring Forties
O dia de ontem foi calmo, então decidi que era o momento de tentar
subir no mastro. Recolhi a vela mestra e o piloto automático principal
entrou em cena, assim como meu ridículo capacete. E lá fui eu. A Ella’s
Pink Lady não tem um mastro tão grande e o mar estava muito calmo,
mas dava para sentir cada onda lá de cima!
Foi bom dar uma olhada nas redondezas lá de cima após estar no mar
por tanto tempo e antes de chegarmos às regiões de mais ondas. Estou
contente por informar que tudo aparenta estar em perfeitas condições. A
vista era ótima e foi muito legal ver a Ella’s Pink Lady navegando de um
novo ângulo. Sou suspeita para dizer, mas que barquinho fofo! A viagem
de descida foi a parte mais interessante, porque não consegui ter muita
suavidade. Ai!
O tipo de coisa que acontece comigo: enquanto estava balançando no
topo do mastro, o vento, que estivera calmo a manhã inteira, veio para
cima de nós com força (e mudou de direção, passando a soprar na rota
contrária à que fazíamos). Por sorte, eu estava com meu comando
remoto (um aparelho que controla o piloto automático e apresenta dados
como o sentido em que estamos indo, a força do vento, etc.) e consegui
nos redirecionar para uma trajetória melhor. Não foi exatamente uma
situação de risco, pois era apenas uma brisa leve. Na pior das hipóteses,
eu teria uma descida ainda mais desconfortável, mas foi prazeroso
balançar no topo do mastro da Ella’s Pink Lady com ela navegando como
se fosse um carrinho de controle remoto. Incrível!
Só percebi na manhã de ontem que não passei incólume pela minha
aventura no topo do mastro. Estou com dores musculares e um ou outro
arranhão. Mas está tudo bem.
Eu tinha doze anos na primeira vez em que subi no mastro de um veleiro
e estava muito assustada. Foi no mesmo dia de outro importante
acontecimento inédito: a primeira vez que naveguei em mar aberto. Aprendi
uma lição muito valiosa naquele dia: jamais solte a adriça (a corda usada para erguer ou baixar uma vela pelo mastro). A pessoa que largar a ponta da
adriça quando ela está presa a uma vela (nesse caso, eu) tem que subir no
mastro para prendê-la!
Naquela primeira vez, escalar o mastro foi bem fácil, pois sentei em um arnês em forma de cadeira e fui içada até o topo. Como era pequena e
geralmente a integrante mais leve da tripulação, eu era sempre a escolhida
quando havia a necessidade de subir no mastro.
É claro que quando navegamos sozinhos não há ninguém para nos içar, o que complica um pouco as coisas. Muitas pessoas têm degraus nos mastros e
simplesmente atam seus ganchos em diferentes pontos ao descer. Eu não
queria pôr degraus na Ella’s Pink Lady porque as adriças e a vela podem car
presas neles, causando problemas – algo que eu queria evitar. Em vez disso, usei um equipamento de escalada com arnês para subir e depois escorregar
de volta. Quando comecei a navegar com Bruce, ele me mostrou o sistema e eu pude praticar muito no imenso mastro do Big Wave Rider enquanto estávamos atracados no porto. Depois que peguei o jeito, comecei a praticar
no mar. Aprendi que o ideal é me prender à estrutura de uma vela na parte
posterior do mastro sempre que possível para evitar chacoalhar demais com
o movimento do barco. Isso prova que somos capazes de coisas inimagináveis se não deixarmos que nossos medos tomem conta (como
quase aconteceu naquela primeira vez).
Avançamos bastante nos últimos dias com um vento estável de 14
nós. A Ella’s Pink Lady adora navegar sob condições como essa, e ontem
nossa velocidade quase não baixou de seis nós. Também amo navegar
assim, porque o movimento e a inclinação do barco são muito
agradáveis.
É um perigo se movimentar pela cabine sem apoiar os braços e as
pernas por todos os cantos (encarnando uma aranha!), o que muitas
vezes é necessário para impedir que eu seja arremessada em várias
direções.
Outra coisa: ontem entramos nos Roaring Forties. O vento não
começou a rugir de repente nem nada do tipo, mas tenho certeza de que
chegaremos nisso mais tarde. Hoje foi um dia bem regular. Não regular
em um sentido ruim, pois todo dia é ótimo: é só que não houve nada de
novo fora do comum.
Hoje separei minhas músicas de Natal (sem dúvida, minhas favoritas
são Snoopy at Christmas e Christmas with the Wiggles) e passei o dia
todo cantando bem alto e muito, muito mal!
Quarenta Bramadores é outro daqueles nomes náuticos que
instantaneamente trazem à minha mente imagens de ondas imensas e ventos inclementes. Esse é o nome dado à área entre 40 e 50 graus ao sul. É uma área sobre a qual li o tempo todo e mal podia acreditar que estava
passando por aquela experiência. Eu estava um pouco nervosa em relação
àquele trecho da viagem, pois sabia das tempestades que podiam se formar
na região. Por mais que dissesse a mim mesma para não imaginar o que aconteceria e viver cada momento, lidando com os problemas conforme
surgissem, não conseguia deixar de pensar nas palavras de Francis
Chichester: “Nem cavalos selvagens conseguiriam me arrastar outra vez para
o Cabo Horn e aqueles sinistros oceanos do sul em um pequeno barco. Aqueles mares profundos de águas inclementes e ventos uivantes parecem
saídos de um pesadelo. Senti-me desamparado com aquelas ondas
quebrando em cima de mim”.
Eu não me sentia nem um pouco desamparada, mas sim um pouco nervosa. Eu estava aprendendo que a minha imaginação era o pior de tudo e
se eu conseguisse me apegar ao momento, caria bem... Ou ao menos tão
bem quanto se pode estar em meio a ondas de 12 metros!
Sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Breve atualização
Hoje tivemos um dia nublado e ventos fracos, mas conseguimos fazer
um progresso razoável com uma genoa grande para ventos leves.
Aquela era uma vela que eu não esperava usar nessa latitude! O tempo
esfriou outra vez e a temperatura caiu para 17 graus. Nos próximos dias,
acho que chegaremos a 12.
Passei a tarde resolvendo um problema elétrico. O monitor de baterias
(um medidor que indica a situação das baterias e todas as entradas e
saídas de energia) parou de funcionar. Achei que tinha “ido pro saco” de
vez e, paciência, seguiríamos em frente sem ele, mas graças às
instruções realmente úteis e detalhadas de Neil, nosso astuto eletricista,
e uma tarde de trabalho duro, fico muito contente em anunciar que levei
a melhor! Como o processo envolvia muitos detalhes minuciosos, eu não
estava muito confiante de que aquilo voltaria a funcionar. Vocês
precisavam ver minha emoção após substituir o último fusível e ver o
aparelho em atividade outra vez!
Por hoje é isso, já passa de meia-noite no horário local e estou
precisando pregar os olhos.
Boa noite!
Segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Cinza e nevoeiro
Acabo de entrar – eu estava lá fora sentada no vento com uma caneca
de chocolate quente, assistindo à luz desvanecendo. Não houve pôr-do-
sol, pois há muitas nuvens e a visibilidade está ruim, mas a chuva leve
acompanhada de névoa e as grandes ondas cinza são tão encantadoras
quanto qualquer pôr-do-sol.
Tenho visto muitas aves por aqui e adoro observá-las voando sobre as
ondas e ao redor da Ella’s Pink Lady. Estou um tanto aborrecida por não
ter trazido comigo um livro de pássaros, mas acho que são na maioria
grandes mergulhões, e hoje de manhã avistei o primeiro albatroz da
viagem.
Foi um dia bem parado e não fiz nada além de limpar a cabine.
Também pendurei mais algumas decorações de Natal. Temos mantido
uma boa velocidade, mas os movimentos andam mais bruscos. Navegar
contra o vento não é o ponto forte da Ella’s Pink Lady. Precisarei me
acostumar a isso, contudo, pois uma boa porcentagem da viagem a
partir daqui deverá ser contra o vento – navegação rápida contra o vento!
Meus cálculos indicam que faltam uns vinte dias para o Cabo Horn e
só mais quatro noites até o Natal!
Quinta-feira, 22 de dezembro de 2009
Neblina
Não fomos a lugar nenhum hoje, pois havia muito pouco vento. A
manhã foi marcada por nevoeiros e céu nublado outra vez, mas a tarde
foi bem especial: fomos envoltas em neblina bem fechada. Era como se
houvesse um grande cobertor cinza de umidade estendido sobre o
mundo e, um pouco antes de escurecer, a neblina ficou tão cerrada que
eu mal conseguia ver 50 metros à minha frente. Foi um cenário
espetacular, mas com o silêncio quase absoluto ficou meio sinistro.
Tenho trabalhado duro para não deixar minha imaginação vagar por
conta própria, mas é muito surreal a sensação de estar sentada e quase
estática enquanto ondas imensas passam por baixo de nós e a névoa
branca rodopia ao nosso lado. Agora que já escureceu, as luzes de
navegação da Ella’s Pink Lady no topo do mastro estão iluminando
grandes feixes de neblina vermelha e verde. Parece cena de cinema!
Acho que tenho o exato oposto do Natal de sol, calor e loucura das
compras de último minuto que todos estão vivenciando lá em casa. Aqui
em meu pequeno mundinho, as coisas não poderiam ser mais
diferentes!
Devo admitir que senti um pouco de saudades de casa em diversos
momentos do dia, mas me recuso a deixar que isso me impeça de
apreciar cada instante que vivo aqui. Andei planejando cuidadosamente
minha ceia de Natal e os ventos suaves me obrigam a passar quase todo
o tempo na ponta dos pés ajustando a direção do Parker. Não é uma
tarefa das mais difíceis: normalmente, consigo corrigir Parker sem nem
sair da cabine. Basta colocar uma mão para fora e ajeitar a linha do piloto
de vento no timão, mas os ajustes constantes ficam um pouco tediosos
quando estou tentando ganhar tempo.
Restam menos de 2300 milhas náuticas até o Cabo Horn, então,
apesar de todo o progresso lento, estamos chegando lá aos poucos. Se a
neblina continuar, terei um famoso Natal branco, ainda que não por
causa da neve!
Houve um momento em que me assustei um pouco com a cerração. Eu
havia desligado a música para poder escutar a Ella’s Pink lady e vivenciar a
neblina espessa que nos envolvia. Era como um cobertor pesado cobrindo tudo ao nosso redor e era muito lindo à sua maneira bizarra. Mas depois de
alguns instantes comecei a ter um mal pressentimento e foi angustiante não
poder ver o que havia ao nosso redor. Eu sabia que não havia mais ninguém
comigo, mas isso não me impediu de surtar um pouco e imaginar que havia alguém ou algo muito perto. Era um sentimento bobo, e me livrei dele, mas não posso dizer que quei triste quando o nevoeiro começou a dissipar e voltei a ver as ondas ao meu redor. Havia ondas típicas do Oceano Antártico
no mar e bolsões de névoa se acumulavam em meio às ondas de três metros,
parecendo nuvens em meio às montanhas – o que, por algum estranho
motivo, fez com que eu me sentisse muito melhor.
Estar tão longe da minha família com o Natal tão próximo foi difícil. Eu
estava exatamente onde escolhera estar, mas quei um pouco emotiva. Eu
andava tão centrada em mim mesma e em minhas oscilações de humor que
esqueci de fazer algumas ligações para minha mãe e fazia um tempo que não nos falávamos direito. Quando nalmente tivemos uma conversa, camos as
duas emocionadas. Sei que se espera que eu seja uma adolescente egoísta,
mas percebi que meus pais me deram um grande presente ao con ar em
mim e em minhas habilidades. Assim, saber que as coisas estavam difíceis para ela me entristecia. Comecei a sentir ainda mais saudades e tive muita
vontade de abraçá-la. Em seguida, bati um papo com Hannah, o que piorou
ainda mais as coisas. Hannah é muito engraçada e eu estava com saudades
dela. Quando soube que Tom havia arranjado seu primeiro trabalho, quei muito orgulhosa e comecei a chorar por não estar lá para dizer isso
pessoalmente. (Sorte que eles não podiam ver minhas lágrimas, porque
teriam cado assustados!) A combinação de Natal e neblina estava destinada
a me deixar meio chorosa, então pendurei uma porção de enfeites de Natal para espantar os sentimentos ruins.
Quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
Natal no meio do nada!
Ainda há muito cinza e nevoeiro por aqui, mas conseguimos fazer um
bom processo com o vento de 15 nós vindo do oeste. A temperatura
tanto do ar quanto da água caiu mais alguns graus e hoje de manhã
passamos por Ponto Nemo, conhecido por ser o ponto do oceano mais
distante de qualquer pedaço de terra. Pode-se dizer que vou passar o
Natal no meio do nada!
Com condições climáticas boas e uma previsão razoável para os
próximos dias, subi o nível das decorações de Natal na cabine com
enfeites cintilantes e bolas de Natal que balançam com o movimento da
Ella’s Pink Lady.
Bem, por hoje é isso, pois já está ficando tarde e é melhor eu ir para a
cama antes que o Papai Noel me pegue acordada. Espero que ele
consiga me encontrar aqui!
Até amanhã!
O Ponto Nemo também é conhecido como Polo de Inacessibilidade do
Pací co (que é um nome e tanto... dá para entender por que precisou de um
apelido) e é o ponto mais distante de qualquer pedaço de terra. É um dos
locais mais remotos do mundo, situado nas coordenadas 48°52.6’S, 123°23.6’W. Disseram-me que o nome é uma homenagem ao Capitão
Nemo, do livro de Júlio Verne Vinte Mil Léguas Submarinas. Ainda não li,
mas talvez faça isso em breve.
Sexta-feira, 25 de dezembro de 2009
Feliz Natal!
Feliz Natal a todos desde o Oceano Antártico! Já é manhã de Natal e
estou prestes a começar a abrir minha pilha de presentes. Meu plano é
telefonar para casa em seguida e conversar com todo mundo no telefone
via satélite. Depois disso, tenho muita comida para ingerir. Vou começar
com a minha favorita da Easyfood, pernil de cordeiro, e vegetais em lata
assados, e continuarei com um creme de ovos com nata e muito pudim
de Natal e mousse de chocolate – então, estou bem ansiosa! Vou ter um
Natal branco por aqui: há muita neblina outra vez, tudo está cinza e
enevoado. Está bem frio, o que chega a causar alguns arrepios, mas
estamos nos movendo com tranquilidade, o que é ótimo.
Quero mandar um grande agradecimento a todos pelo apoio. É muito
importante para mim saber que todos estão pensando em mim hoje e
espero que tenham um Natal maravilhoso!
No dia de Natal, eu já estava me sentindo bem outra vez e embora tivesse
atravessado a linha da data e tecnicamente ainda não fosse Natal no lugar
onde eu estava, continuei seguindo o tempo de casa para comemorarmos
juntos. Quando eu disse que iria para a cama para não ser pega pelo Papai Noel, z algo que não havia feito desde a saída de Sydney: dormi por cinco
horas seguidas! Claro que o vento virou enquanto isso e acabamos
navegando na direção errada por mais de uma hora. Acho que perdemos
umas seis milhas náuticas (doze, se contarmos as que poderíamos ter percorrido). Fiquei muito surpresa por não ter acordado com a mudança de
direção como costumava acontecer.
O meu dia foi ótimo: conversei com a família e os amigos e me diverti interrogando-os sobre o que exatamente estavam comendo e o que estavam fazendo no dia de Natal. Eu estava com muita preguiça e z o mínimo
necessário para manter a Ella’s Pink Lady em movimento, mas após todas
aquelas conversas eu me sentia como se tivesse participado de diversas
celebrações de Natal. De qualquer forma, todo mundo dá uma relaxada na tarde de Natal, não é? Além disso, estava tão frio lá fora que era muito
melhor car quentinha na cabine. Apesar das preocupações das pessoas e de
minhas próprias dúvidas de como seria passar sozinha um dia que, em
situações normais, seria um tempo especial com a família, eu estava alegre. Fico feliz por ninguém ter me visto falando sozinha e rindo enquanto abria
os presentes, pois teriam achado que estou louca.
Minha mãe me deu quatro cadernos chiques, dentre outras coisas.
Sempre tenho di culdades para escrever em cadernos bonitos, porque sinto que estou arruinando-os com meus erros de ortogra a e minha letra feia.
Normalmente, uso cadernos velhos e simples sem muita importância. Mais
tarde, quando perguntei à minha mãe como faria para preenchê-los, ela me
disse que este era o desa o. Como eu poderia deixar de fazer isso, se estava sempre dizendo que nada é impossível?
Sábado, 26 de dezembro de 2009
Aterrorizantes Cinquentas
O Natal não foi um dia empolgante apenas pelos motivos óbvios
(comida e presentes!), mas também porque entramos nos Aterrorizantes
Cinquentas, e agora restam apenas 2000 milhas náuticas até o Cabo
Horn. Além disso, como muitas pessoas afirmaram, sim, celebrei o Natal
um dia antes para a zona temporal em que estou, mas achei que seria
muito mais legal celebrar com o pessoal de casa do que um dia mais
tarde, totalmente sozinha!
O Natal foi o dia mais nublado do ano até agora e devo admitir que foi
também um dia de muita preguiça, em que fiz apenas o mínimo
necessário para nos manter em movimento e mais ou menos na direção
certa enquanto me abrigava do frio. Passei o dia ocupada fazendo
telefonemas, comendo minhas comidas favoritas e abrindo os presentes
guardados na Ella’s Pink Lady. Adorei cada presente, mesmo as coisas
mais simples e bobinhas, muito mais do que teria gostado se estivesse
em casa. E tenham certeza de que havia coisas muito bobinhas, incluindo
um kiwi inflável (sei que chamam os neozelandeses assim, mas era um
boneco inflável da ave nacional da Nova Zelândia, e não de uma pessoa!)
e uma boneca rosa que aumenta de tamanho na água (conhecida como
“veja sua melhor amiga crescer!”). Também havia as meias quentinhas
de praxe, livros e outras coisas.
Não pude assistir ao início da regata Sydney-Hobart, mas estou bem
contente por ter sido presenteada com algumas horas de sol e com o
voo de um albatroz que descreveu círculos no ar sobre a Ella’s Pink Lady.
O albatroz é de fato uma ave incrível. Não importa quanto tempo você
olhe para eles, a impressão é de que nunca batem as asas. Voar parece
tão fácil para eles que seu estado aparenta ser de total relaxamento,
mergulhando nas ondas a milhares de milhas da terra.
Domingo, 27 de dezembro de 2009
Os não tão aterrorizantes Cinquentas!
O dia foi bem calmo hoje, com um pouco de vento e uma garoa. Nem
dá para dizer que esse é o Oceano Antártico! Bem, exceto pelas grandes
ondas, os albatrozes e, é claro, o frio.
Tenho achado os ventos fracos e o progresso lento um pouco
frustrantes, mas não devo reclamar, pois a vida fica muito mais
confortável em condições como essa, e o vento frio será bem
complicado quando acabarmos chegando ao sul. Graças a Deus por toda
roupa de frio da Musto e pela capota para me proteger!
Uma coisa de arrepiar (perdão pelo trocadilho!) aqui no sul é que há
poucas horas escuras.
Nos últimos tempos, tenho mantido contato com outro navegante
solitário, Dilip Donde, que é da índia e está em meio à sua própria
circum-navegação. Tem sido ótimo falar com ele e comparar a situação
climática, já que ele não está próximo a nós (mas um pouco para o
oeste) e também se dirige ao Cabo Horn. O barco de Dilip, Mhadei¸tem
47 pés (um pouco maior que a Ella’s Pink Lady), então ele vai nos
alcançar logo, logo!
Por hoje é isso!
Dilip Donde é um mergulhador militar da marinha indiana com
quarenta e dois anos de idade. Ele partiu da Índia em 19 de agosto de 2009
para tentar se tornar o primeiro indiano a navegar ao redor do mundo e
estava fazendo isso a bordo do primeiro veleiro de bra de vidro construído na Índia. Gostei muito de trocar gurinhas com Dilip. Ele é um homem encantador nos e-mails e no telefone, e espero ter a chance de um dia conhecê-lo pessoalmente. Foi incrível saber que ele estava apenas a algumas
centenas de milhas náuticas de distância e enfrentando condições
semelhantes. É estranho como me senti próxima dele. Era bom conversar
com Bruce ou meus pais, mas por mais que eles tentassem entender como era a minha vida, não sabiam de fato. Dilip sabia, e foi incrível compartilhar
com ele parte de minha viagem (bem, até onde é possível compartilhar
quando se está em barcos tão distantes um do outro).
Eu não sabia se ele pensava da mesma maneira, até que alguém me mandou o seguinte trecho do blog dele:
Meia-noite da noite de Ano-Novo. Bem no instante em que eu estava
saindo para ajustar o piloto de vento porque o vento havia mudado, o
telefone tocou. Achei um pouco estranho receber uma ligação tão perto
da meia-noite e ao atender o telefone tive uma surpresa agradável! Era
Jessica telefonando para me desejar feliz Ano-Novo! Muito querido da
parte dela! Em meio a todos os votos de Ano-Novo que recebi ao longo
dos anos em diversos lugares, acho que lembrarei deste, de uma garota
cheia de colhões a 350 milhas náuticas de distância, o ser humano mais
próximo de mim, como o mais especial de todos! Com votos como esse,
é impossível que 2010 não seja ótimo!
Em 19 de maio de 2010, Dilip entrou novamente no Porto de Mumbai
após 276 dias no mar. Ele havia se tornado o circum-navegador solitário de
número 175 e alcançou seu sonho de se tornar o primeiro indiano a
conseguir essa proeza.
Terça-feira, 29 de dezembro de 2009
Ventos melhores
Estou muito feliz por termos feito um bom progresso para o leste nos
últimos dois dias. Finalmente temos ventos constantes entre 15 e 20 nós
e a Ella’s Pink Lady tem avançado agradavelmente. O esperado é que o
vento continue ganhando força, então não é possível saber ao certo, mas
pode ser que as coisas comecem a ficar com a cara do Oceano
Antártico!
A garoa leve se tornou uma constante e a temperatura parece cair um
pouquinho mais a cada dia. Ao menos acho que a serração desapareceu.
Ainda há muitos pássaros por perto, mas não estou me saindo bem nas
tentativas de tirar fotos porque eles não sentam nem fazem poses!
Quando me aventuro pelo convés, sinto-me um pouco como um elefante
desastrado, de tantas roupas e equipamentos que preciso usar. Há
agasalhos térmicos com diversas camadas, botas e roupas
impermeáveis, um chapéu, um colete salva-vidas e o que parece ser
metade da carga do barco enfiado nos bolsos dos casacos de cima.
Sempre levo comigo a minha faca, a PLB (EPIRB pessoal), uma chave
inglesa e, na maior parte das vezes, uma seleção de diversas outras
ferramentas. É muito mais simples levar diversas chaves inglesas de uma
vez, pois se escolho uma do tamanho errado preciso soltar e prender
outra vez todas as amarras de segurança e substituir as falcas.
Ainda estou me divertindo como nunca, lendo um monte, ingerindo
um fluxo constante de bebidas quentes, curtindo meu tempo na cozinha
(ontem o meu pudim de chocolate foi um grande sucesso junto à
tripulação!), e hoje tive algum trabalho quando algumas manilhas do
burro (que segura a retranca) e o piloto de vento resolveram parar de
funcionar do nada. Mas um pouco de improviso foi o suficiente para
deixar tudo em ordem.
Só faltam 1500 milhas até o Cabo Horn e 2009 está chegando ao fim.
Não consigo acreditar como esse ano passou rápido. Já estamos quase
em 2010!
Quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
Primeiro vendaval com um golfinho
ao nosso lado
Desculpa por não ter atualizado o blog ontem. Estava recuperando um
pouco o sono. Sem dúvida, os dias têm sido interessantes. O vento
começou a ganhar bastante força após a postagem de terça-feira e
atingiu um ápice de 44 nós em meio à manhã de ontem: meu primeiro
vendaval do Oceano Antártico. A Ella’s Pink Lady e eu nos saímos muito
bem e vi sua capacidade de resistir ao mar ruim. Há boas chances de nos
depararmos com situações piores ao longo do caminho, mas afora o
avanço rápido (um pouco rápido demais para chamarmos de
confortável!), dessa vez tudo transcorreu suavemente. Depois de um
tempo, algumas das ondas começaram a nos pegar de lado, o que me
deixou um pouco nervosa. Mas estou muito contente com o ótimo
trabalho de Parker para nos manter no curso!
O mar estava incrível. Arredondando para baixo, eu chutaria que as
ondas tinham em torno de cinco metros, além de serem muito mais
incríveis do que eu jamais tinha imaginado! O oceano estava
absolutamente espetacular e fascinante, mas acho que se trata de uma
daquelas coisas que é preciso vivenciar em primeira mão. Não sou capaz
de descrevê-lo e as fotos não fazem jus.
Mas o mais incrível de tudo foi o golfinho que nadou ao lado da Ella’s
Pink Lady por mais de seis horas enquanto o vento estava no máximo de
suas forças, como se estivesse cuidando da gente! Sempre que eu
espiava pela escotilha, vislumbrava novamente uma nadadeira ou a
cauda, como se ele quisesse me tranquilizar por ainda estar ali. Eu não
via um golfinho há semanas, então ter um nos vigiando em meio ao
vendaval foi especial e muito reconfortante!
Achei que o vento estava cando mais fraco e me sentei junto à mesa de
navegação, sentindo-me tranquila e orgulhosa por termos enfrentado tudo com tanta serenidade quando, do nada, fomos atingidas por uma onda
enorme. Um monte de água se embrenhou pela entrada de ar logo acima de
mim (que estava fechada), e quei coberta de água congelante. A mesa de
navegação não é o lugar ideal onde derrubar um monte de água, mas após alguns gritinhos tudo cou bem.
O vento retomou a força e se manteve entre 36 e 44 nós enquanto as
ondas aumentavam outra vez. Depois de me secar, passei um bom tempo
encostada na vigia observando os tons de verde e cinza e os jatos brancos. Por m, depois do que pareceu dias, o vento se acomodou entre 20 e 25 nós.
Eu me sentia exausta. Consegui dormir umas três horas em um intervalo de
vinte e quatro, e sabia que precisava cuidar de mim mesma. Fiz uma lista de
tarefas.
Alocar a nova carta náutica e deixar as cartas do Cabo à mão.
Limpar a cozinha (trabalho interminável).
Recondicionar e organizar a cabine (depois da entrada de água).
Checar devidamente o convés atrás de eventuais desgastes. Lavar o cabelo e tomar um banho de corpo inteiro.
Muita comida quente e gostosa!
Descansar.
O vento e o mar continuam perdendo força hoje e estamos
percorrendo uma boa distância com ventos de 15 a 20 nós e ondas de
até três metros. Agora estamos no meio da noite, mas quase não está
escuro, pois temos um céu cheio de estrelas e uma lua cheia e brilhante
pela primeira vez em semanas! É uma novidade tão grande que passei as
últimas horas sentada no cockpit, enfrentando o frio com mais camadas
de agasalho do que julgava possível para aproveitar o visual ao máximo.
Como minha cabeça andou ocupada com outras coisas nos últimos
dias, a noite de Ano-Novo se aproximou bem mais rápido do que
percebi, então acho que terei que guardar a festa para amanhã, de
acordo com a zona temporal onde me encontro. Mas gostaria de desejar
um Feliz Ano-Novo para todos os que estão celebrando hoje à noite.
Parece que vou perder os fogos de artifício, então curtam muito por
mim!
Sexta-feira, 1º de janeiro de 2010
Feliz Ano-Novo!
Hoje tive um dia muito diferente outra vez. Passamos a maior parte do
dia em calmaria total. Mas a novidade de ter céu aberto, luz solar,
temperaturas ligeiramente mais altas e a companhia de dois albatrozes
me impediram de ficar muito frustrada.
Havia tão pouco vento hoje que até os albatrozes estavam batendo as
asas. Tive a chance de vê-los bem de perto, pousando na água bem ao
lado da Ella’s Pink Lady. Quando não há vento, os albatrozes são muito
desajeitados ao levantar voo, e precisam bater as asas com força para se
erguerem da água – algo bem atípico para aves tão graciosas.
Essa é a minha noite de Ano-Novo e só faltam cinco minutos para a
meia-noite. Temos uma festa muito louca planejada, diversas presenças
vindas de terras distantes. As opções de entretenimento incluem
serpentinas e serão servidos os meus doces preferidos – acreditem,
vocês não vão querer perder os doces de jeito nenhum!
Este será o segundo réveillon que passo no mar. No ano passado eu
estava na Tasmânia a bordo de outro veleiro de 34 pés com destino à
Nova Zelândia. Como era recém o terceiro dia e o mar estava bem
agitado, ainda estávamos um pouco enjoados. Então, os doces de minha
mãe que havíamos levado conosco foram completamente ignorados.
Mas este ano será diferente.
Decidir minha resolução de ano não foi difícil. Acho que voltar a
Sydney sã e salva já é desafio o suficiente e é o meu principal desejo
para 2010. Feliz Ano-Novo a todos e muito obrigada mais uma vez por
todo o apoio!
Era aquele momento do ano em que as pessoas re etem sobre o que
zeram e o que querem fazer no ano seguinte. Eu sempre me perguntava se
havia mudado muito durante a viagem. Fazer algo assim o transforma de
alguma maneira, mas no primeiro mês eu não sentia nenhuma diferença. Sei
que soa estranho, mas nos dias em que me dirigia ao Cabo, algo mudou e passei a me sentir diferente. Não sei explicar ao certo – talvez mais calma,
mais centrada, mais velha? (Rá!). Não tenho certeza. Só sei que me sentia
diferente. Não escrevi sobre isso no blog porque não queria parecer tola e
quase não incluí isso no livro porque não há nenhum exemplo especí co que eu possa citar. Algo em mim mudou e isso é tudo.
Sábado, 2 de janeiro de 2010
Calmaria antes da tempestade
Hoje o tempo está calmo e ensolarado outra vez. Passei a manhã
trabalhando no convés, de molho no sol. Que condições ótimas... Isso é
que é bênção! Fiz acabamentos nas escotas da vela de proa, nos estais
volantes e nos cabos do piloto de vento (que estavam demonstrando
sinais de desgaste), reatei os paus de spi ao mastro, esfreguei algumas
manchas de ferrugem e reorganizei todas as minhas tralhas no armário
de popa.
Não parece que a calmaria vá durar muito, pois a previsão indica que
o vento voltará amanhã. Parece que estará muito traiçoeiro, então é
provável que vocês não tenham notícias minhas por alguns dias. Mas,
por favor, não se preocupem: a Ella’s Pink Lady e eu estamos totalmente
preparadas. Não se espera que o vento seja muito mais forte do que da
última vez, mas como está soprando direto da Antártida deverá ser muito
frio – o pequeno aquecedor a diesel provavelmente terá que se esforçar
um pouco. Meu plano de ação é bem simples: manter-me calma e
confiante. Se eu fracassar, o Plano B é fingir!
Vou lá dormir um pouquinho enquanto posso.
Aquele foi o único momento durante a viagem em que me preocupei com os icebergs e com o possível congelamento do convés e da mastreação.
Havíamos programado a data de minha partida para que eu já estivesse
contornando o Cabo Horn a essa altura do verão, reduzindo as chances de
me deparar com um iceberg. Mas o vento soprava diretamente da Antártida, então havia a possibilidade de que pequenos volumes de gelo fossem
trazidos com os ventos frios. Não havia muito que eu pudesse fazer, pois era
impossível me manter atenta 24 horas por dia, sete dias por semana. Na
verdade, eu estava mais preocupada em me manter aquecida do que com colisões com gelo naquela época do ano.
Pouco antes de chegar em casa, em 7 de maio, uma família inglesa de
quatro pessoas estava navegando com seu veleiro de 55 pés chamado
Hollinsclough no Atlântico Sul após ter partido de South Georgia quando colidiu com um growler às duas da manhã. Growler é um tipo de iceberg que
ca logo abaixo da superfície da água. Já são muito difíceis de detectar em
situações normais, mas às duas da manhã é praticamente impossível desviar.
Por sorte, quando o veleiro estava afundando, a família foi resgatada por um navio de guerra britânico, o HMS Clyde, que navegou 200 milhas náuticas
para resgatá-los.
Terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Frio!
A boa notícia é que, até agora, a força do vento não chegou nem
perto do que eu esperava. A ruim é que ele tem sido – e está neste
momento – muito frio!
A temperatura na cabine oscila em torno dos 4 graus e o vento do
lado de fora é de arrepiar. Na maior parte do tempo, fico bem quentinha
com todas as minhas camadas de roupa, mas manusear cabos molhados
no convés é bem desagradável. Infelizmente, o aquecedor não ajuda
muito: ele escolheu este ótimo momento para soltar ar frio em vez de
quente! Acho que o problema tem conserto, mas precisará esperar até
que as coisas fiquem um pouco mais calmas.
Na verdade, já fazia alguns dias que o aquecedor não funcionava, mas não contei para ninguém porque, após olhar a previsão do tempo, meu pai e
Bruce caram bem preocupados comigo por ter que enfrentar as baixas
temperaturas durante a ventania. Achei que já estavam preocupados o
su ciente e não quis botar mais pressão até que o pior já houvesse passado.
Também tive um probleminha com o moitão da escota do grande (o
cabo que controla a vela mestra). Não é um grande empecilho, mas por
ora estou com a vela mestra abaixada e percebo que, como há bastante
vento, a Ella’s Pink Lady está mantendo uma boa velocidade mesmo
contando apenas com a vela de proa.
Enquanto escrevo isso, o vento sopra a cerca de 30 nós e a luz do dia
surgiu outra vez, revelando um oceano cinzento e agressivo. Nada muito
sério, mas ainda estou um pouco agitada, pois se espera mais vento para
hoje, e as ondas grandes ocasionais nos desviam um pouco do rumo.
Como tudo está em ordem, ainda não há muito que eu possa fazer.
Portanto, aproveito os intervalos entre as frequentes espiadas nos
instrumentos e na situação para ler, assistir a um DVD ou checar todas as
mensagens e comentários no blog.
Espero não ser muito repetitiva, mas gostaria mais uma vez de
agradecer pelas mensagens de apoio. Quando me sento para vê-las,
costumo rir e sorrir durante toda a leitura!
A Ella’s Pink Lady aguentou o tranco com a buja de tempestade, mas
depois de um tempo comecei a perceber como estava cansada. Havia ondas
quebrando por todos os lados e ao escrever isso não parece nada demais, mas mesmo que não fosse muito perigoso eu senti a pressão e quei com os
nervos exaltados. Às vezes eu conseguia escutar uma grande onda se
aproximando e me segurar, mas em outras estava concentrada em algo e não
percebia até ser arremessada no ar. Eu estava com algumas batidas e ferimentos e não foi nada divertido. Eu estava conversando com Bruce em
uma sked quando talvez a maior onda daquela ventania nos atingiu com
força. Não foi das melhores ligações, porque estávamos os dois meio mal-
humorados, de modo que fomos sucintos. Depois que desliguei, me distraí por um minuto e derramei algumas lágrimas. É curioso, mas sempre que eu
estava surtando, falar com alguém me tirava de eixo. Eu cava muito melhor
se guardava tudo para mim. Normalmente se pensa que conversar com
alguém reconforta ou a gente se sente melhor, mas comigo quase sempre isso só tornava as coisas piores. Por m, o vento se acalmou e tirei algumas
sonecas. No dia seguinte eu estava me sentindo muito melhor, apesar do frio e do aquecedor quebrado. Bob enviou uma previsão do clima que me deixou bem contente, pois parecia que não teríamos mais tempo ruim até que eu
contornasse o Cabo. Após recuperar o sono, comecei a desejar
fervorosamente uma xícara de café decente, mas isso teria que esperar até
que eu chegasse em casa – o café não dava certo com minha água de gosto ruim e leite em pó.
Quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Chegando perto do Cabo
O vento atingiu os 40 nós outra vez na terça-feira, o que manteve as
coisas interessantes e o chão instável por aqui. Desde então, ele caiu de
maneira constante até os atuais oito nós, que mal são suficientes para
nos manter em movimento.
No estilo típico do Oceano Antártico, a visibilidade não tem sido boa,
com luz quase constante, garoa acompanhada de neblina e nem um
cantinho do céu aberto. Mas não tenho do que reclamar. Como disse
antes, isso é tão bonito à sua maneira quanto sol e mar azul. Olhando de
outro ângulo, podemos dizer que ao menos uma má visibilidade significa
que não dá para ver muito do tempo ruim!
A boa notícia é que consegui consertar o probleminha no moitão da
escota da vela mestra. A má notícia é que, apesar de ter passado a
manhã de ontem tentando arrumar o aquecedor, ele continua sem
funcionar direito! Bem, em uma escala de prioridades, um aquecedor
estragado não é exatamente o maior dos problemas, apenas um
adicional.
Estou começando a ficar bem empolgada com o Cabo Horn, porque
estamos nos aproximando dele. Restam apenas 500 milhas náuticas.
Por hoje terei que ficar por aqui, porque meus dedos estão ansiosos
para voltarem a uma luva quentinha!
Sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
Calmaria
Só uma atualização rápida. As coisas estão calmas hoje, mas os
albatrozes se juntaram a nós outra vez. Apenas 450 milhas náuticas até o
Cabo Horn e estou ainda mais empolgada agora que meu pai e minha
mãe pegaram um voo da Austrália hoje para ver a Ella’s Pink Lady
contornando o Cabo!
Aquela postagem intitulada Calmaria foi bem curtinha e havia um
motivo para isso. Eu estava tendo que lutar para não entrar em colapso e eu
sentia que estava no limite suportável da tristeza e da frustração. Foi a primeira vez na viagem em que passei por um momento ruim de verdade.
Ter mantido a cabeça em ordem e reunido força mental para fazer aquela
viagem são o meu maior orgulho, então é duro admitir que perdi o controle,
mesmo que apenas por alguns instantes. A empolgação por estar me aproximando do Cabo Horn não era su ciente para me manter rme e cedi
à pressão. O motivo era a falta de avanços. Eu quase tinha a sensação de
estar regredindo. Naquela sexta-feira me senti contente e o sábado foi tolerável – quase curti ver as vagas re etindo o céu nublado. Mas quando o domingo chegou e tivemos calmaria outra vez com o barco balançando sem
sair do lugar, não consegui parar de chorar.
Estávamos muito perto do Cabo e aquilo era muito frustrante, sobretudo
porque meus pais haviam ido até o Chile com a News Limited e pegariam um voo de Punta Arenas para me ver contornando o Cabo. Alguns dias
antes disso, disseram-me que haveria um avião para tirar uma foto do
momento em que eu dobrasse o Cabo e quei muito empolgada com isso.
Daí me contaram que meus pais estariam naquele avião. Foi quase mais do que eu era capaz de suportar. Eu não queria mantê-los esperando e causar
prejuízo às pessoas, mas não havia nada que pudesse fazer. Provavelmente,
eu teria lidado melhor com o progresso lento se estivesse nos trópicos, onde
poderia relaxar ao sol e navegar manejando as velas. Mas estava muito frio e eu passava o menor tempo possível no convés. Ficava en ada na cabine
escutando os puxões constantes da escota da vela mestra contra a retranca.
Os ruídos da Ella’s Pink Lady costumavam ser reconfortantes, mas como não
estávamos avançando, as pancadas, baques e estrondos monótonos me deixaram doida. Eu não tinha energia nem para pôr uma música e não z
nada além de chorar e sentir pena de mim mesma. Acho que sair da rotina e
saber que meus pais estavam em um lugar diferente eram parte do motivo.
Eu estava muito contente por eles e senti que era uma pequena recompensa após tudo o que haviam feito por mim, mas quando me sentia um
pouquinho triste ou com saudades eu gostava de imaginá-los em casa, o que
me animava no mesmo instante. Escutar que eles estavam voando sobre os
Andes e ouvir o relato de todas as coisas incríveis que eles estavam vendo me deixou com um pouco de inveja. Eu não estava indo a lugar nenhum!
Mal podia esperar para chegar eu mesma no Chile, então quei com ciúmes.
Esse foi um daqueles dias em que não consegui reunir a energia ou a motivação para chacoalhar o desânimo. Não havia muito que eu pudesse fazer além de sentir pena de mim mesma, e eu não queria escutar que todos
estavam mergulhando, nadando e surfando no sol lá de casa enquanto eu
estava triste e com frio, então telefonemas e e-mails não ajudariam muito. As
coisas pareceram se acumular e o frio penetrou na minha pele e tornou difícil qualquer tipo de ação. Eu só podia ignorar os barulhos e tentar não
pensar que estávamos à deriva e seguindo na direção errada, mas não
conseguia sair do buraco emocional. Depois de chorar bastante, nalmente
tive uma conversa comigo mesma. Peguei um livro para tentar me distrair. Nem consigo dizer o quanto quei aliviada quando o vento nalmente
ganhou força e começamos a progredir outra vez!
Segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Aproximando-me do Cabo. Devagarinho!
O dia não está dos mais empolgantes por aqui. Ainda temos
pouquíssimo vento, o que significa pouquíssimo avanço em direção ao
cabo. Tanta lentidão e ventos leves não eram o esperado nessa latitude,
mas tive que rever minhas expectativas. Ontem o vento caiu outra vez ao
ponto de deixar a Ella’s Pink Lady totalmente parada, chacoalhando sobre
um mar plano por algumas horas. Para percorrer qualquer distância
nessas condições é preciso um bom tempo no frio, seja para ajeitar as
velas manualmente ou ajustar o rumo do Parker o tempo todo. Confesso
que estou muito mais inclinada a desistir e nos deixar à deriva enquanto
fico na cabine quentinha do que estava durante as calmarias na zona de
convergência, uma região mais quente!
Para tentar desviar os pensamentos das velocidades entediantes e da
ondulação desconfortável, tenho me dedicado a alguns livros e entrado
de cabeça nas histórias. Minha mãe sempre me pergunta o que estou
lendo, e acho que fica um pouco surpresa com minhas respostas. Não
peguei quase nenhuma história de aventura ou navegação desde que
parti. Em vez disso, tenho lido e relido as histórias mais toscas e
despretensiosas que tenho por aqui. Tendo parte de minha mente (ou,
muitas vezes, ela inteira) pensando o tempo todo em navegar e nos
diversos cuidados que a Ella’s Pink Lady exige, a última coisa que desejo
é ler ainda mais sobre navegações!
As coisas por aqui não poderiam ser mais diferentes das histórias
com nados, raios de sol, mergulhos e surfe que escuto de casa. Mas,
como sempre, não há nenhum lugar onde eu preferiria estar. Ficar sem
vento é muito irritante, mas ao mesmo tempo é incrível ver a superfície
de ondas grandes e suaves tão aplainadas que refletem o céu nublado.
Há coisas boas mesmo nos momentos ruins.
De qualquer forma, mãos à obra. O vento finalmente subiu para 12
nós nas últimas horas, então a Ella’s Pink Lady está navegando bem outra
vez. Vocês não têm ideia de como é bom voltar a se mexer! Ainda temos
cerca de 270 milhas náuticas até o Cabo Horn, e se o vento se comportar
conforme o esperado, pretendemos contorná-lo em algum momento do
dia treze.
Estou com todos os dedos da mão e do pé, braços, pernas e tudo o
mais cruzados para que o tempo ajude o avião que irá me sobrevoar
com meus pais a bordo. Sem dúvida, contornar o Cabo será um grande
marco.
Aconteceu algo muito bizarro depois que o vento ganhou força. Quando
eu estava navegando a cerca de 213 milhas náuticas do Cabo, o sol apareceu
e tive uma sensação fortíssima de déjà vu. Estávamos 56 graus ao sul e por
alguns instantes me senti como se estivesse em Mooloolaba navegando em direção a Mudjimba, um lugar também conhecido como Ilha da Velha, com
Emily e Nick. Não dava para acreditar que eu já havia dado quase meia-volta
ao mundo e ainda me sentia como se estivesse em casa. Conforme o vento
cou mais forte e o sol desapareceu, a sensação se dissipou, mas foi ótima
enquanto durou.
Quinta-feira, 13 de janeiro de 2010
A um passo do Cabo
Com o vento soprando a 35 nós, a Ella’s Pink Lady está praticamente
surfando sobre as ondas nessas últimas 80 milhas náuticas que restam
até o Cabo Horn. Parece que contornaremos o Cabo no início do dia de
amanhã – superempolgante! Estou cruzando os dedos para que as
nuvens abram um pouco e eu consiga uma visão semidecente ao
passarmos por lá. Em Punta Arenas, no Chile, meus pais estão se
preparando para decolar hoje mais tarde e sobrevoar o barco em
círculos. Estou ansiosa para conversarmos pelo rádio da VHF.
Além disso, navios das Marinhas Chilena e Argentina devem aparecer
para nos saudar. Passou-se mais de um mês desde que vi o último navio
e faz quase três que não vejo outra pessoa, então estou muito
emocionada e me sentindo querida por receber tantas visitas de uma vez
só! Tomei cuidados extras ao pentear o cabelo hoje de manhã (o que,
com esse vento, obviamente não faz nenhum sentido!).
Outra notícia entusiasmante é que Dilip me contou que ele e o Mhadei
contornaram o Cabo antes de nós e estão se dirigindo às Malvinas para
resolver seus problemas de pilotagem.
Enfim, tem muita coisa acontecendo e demandando minha atenção,
então por hoje é isso.
Naquele dia, e especialmente na tarde em que me aproximei do Cabo
Horn, eu estava dando pulinhos de alegria porque estava a apenas algumas
horas de contornar o Cabo e meus pais passariam voando a qualquer
momento. O mar revolto e o céu nublado só serviram para tornar a atmosfera mais interessante, e estar en ada no espaço reduzido da cabine
provavelmente deixou tudo ainda mais extremo. Quando de repente avistei
as Ilhas Diego Ramirez a sudoeste do cabo, senti um arrepio. Terra! Depois
de tanto tempo no mar, foi um grande alvoroço. Conforme o tempo passou e não tive notícias dos meus pais, comecei a suspeitar que algo havia dado
errado e quei um pouco preocupada. Achei que talvez eles não tivessem
conseguido nos ver do avião. Finalmente, meu pai telefonou para o telefone
via satélite e disse que o piloto precisou dar meia-volta porque o tempo estava muito ruim, então eles nem sequer chegaram perto de mim.
Conversei com meus pais e ambos estavam bem desanimados. Havia sido
um voo conturbado, com muita turbulência, e meu pai cou enjoado. Eles
estavam desapontados, mas nem isso foi capaz de estragar meu humor enquanto eu me aproximava cada vez mais de um marco tão relevante. Eles
disseram que ainda estavam determinados a me encontrar, então
começaram a planejar uma nova tentativa para o dia seguinte assim que desligaram o telefone. O fotógrafo que os acompanhava, Gary, também estava determinado, então cruzei os dedos para que rolasse.
Sábado, 16 de janeiro de 2010
Principais momentos de dias incríveis!
Já vou pedir desculpas antecipadamente pelo uso excessivo de
pontos de exclamação (!), mas sem dúvida os últimos dias foram
incríveis! Peço desculpas por não ter atualizado vocês mais cedo, mas
depois de ter sido movida por pura adrenalina durante quatro dias, eu só
tinha um plano em mente: dormir!
Muitas coisas aconteceram nos últimos tempos. Diversos pontos
altos. Mas vou começar pelo começo, com a quinta-feira e as 80 milhas
náuticas entre nós e o Cabo. Rajadas de vento passageiras, ondas se
elevando um pouco enquanto passávamos por águas mais rasas, vento
estacionado em consistentes 40 nós ao cair da noite... Tudo serviu para
deixar a vida interessante.
Mas as milhas entre nós e o Cabo, que desapareciam com velocidade,
e a visão de terra à tarde me deixaram exaltada e dando pulinhos de
excitação! Ver terra depois de tanto tempo foi incrível. Não consigo me
lembrar de ter ficado tão emocionada antes, e quando penso a respeito
tenho a impressão de que exagerei um pouco em minha reação, levando
em conta que não vi mais que uma linha de rochas acinzentadas que
desapareciam com frequência enquanto abríamos caminho em meio às
ondas.
Naquela ocasião, aos meus olhos as rochas distantes foram a coisa
mais incrível que eu já havia visto. É espantoso como a privação pode
tornar algo milhões de vezes mais especial. Imagino que meu primeiro
banho quente ao voltar para casa será parecido!
Aquela noite foi bem movimentada e fiquei em claro ao nos
aproximarmos do Cabo. Para garantir que não deslizássemos muito
depressa no escuro, me esforcei para reduzir nossa velocidade, e bem
quando a luz estava surgindo, lá estava ele... O contorno característico do
Cabo Horn!
Contra o céu acinzentado e com os albatrozes voando à nossa frente,
a cena foi bem como eu havia imaginado por tanto tempo. Mítica e
admiravelmente linda é uma boa descrição! Aquele tempo de baixa
visibilidade não oferecia a visibilidade ideal, mas se tivéssemos chegado
lá flutuando confortavelmente em um belo dia de verão não teria sido
nem perto de tão especial. Em meio às fotos e ligações, tive um
momento de extremo orgulho!
O sobrevoo de meus pais acabou sendo uma aventura à parte. Com
condições climáticas bem ruins, eles só conseguiram encontrar a Ella’s
Pink Lady na terceira tentativa. Vocês bem imaginam a mistura de
emoções que aquilo foi para mim e para os meus pais. Primeiro, escutei
que eles haviam recém-decolado e estariam me sobrevoando em
algumas horas. Então veio a má notícia de que haviam precisado voltar!
Quando o avião finalmente nos encontrou, os quarenta e cinco minutos
que ficaram sobre nós passaram em um piscar de olhos. Fiquei bastante
zonza e me emaranhei toda nas amarras de segurança ao observá-los
voando em círculos! No fim, acho que foi bom não ter discernido meus
pais através da janela, caso contrário acho que teria perdido a
compostura.
Devo um grande agradecimento a todos que possibilitaram o sobrevoo.
Eis o que minha mãe escreveu para um amigo sobre a ocasião:
ENCONTRAMOS JESS! E não me admira os problemas que tivemos
nas tentativas antecedentes, ela parece tão pequena lá no oceano...
Havia muita empolgação na cabine do avião e as janelas ficaram
embaçadas. Quase fizemos Gary, o fotógrafo, enfartar (mas ele lidou com
aquilo com sua calma e dignidade de praxe!). A tarefa já era difícil o
bastante sem janelas embaçadas... Enfim, conseguimos dar um jeito
nisso e passamos os quarenta e cinco minutos seguintes voando em
círculos sobre ela. Às vezes alto, às vezes baixo, às vezes em curvas
fechadas e às vezes em linha reta. Fizemos de todas as maneiras
possíveis! Foi fantástico vê-la junto com o barco e as velas... Parecia que
ela estava indo direto para Sydney, foi perfeito!
Estabelecemos contato por VHF antes de vê-la e conversamos um
pouco e então acho que perdemos a comunicação por um bom tempo.
Assim, depois de nos recompormos, acionamos o rádio outra vez. Ela
queria saber qual era a sua aparência vista de cima! E como estava seu
pai (ele já estava ficando bem verde). Perguntei se já tinha feito os temas
e ela respondeu que talvez fosse melhor que eu estivesse aqui em cima!
Ela reclamou que havia ficado toda emaranhada nas linhas de segurança
enquanto seguia os movimentos circulares do avião! (Então significa que
deve estar em boa forma). Fiquei muito orgulhosa ao vê-la seguindo em
frente, onda após onda. Lá está ela, tornado realidade aquilo com que
sonhou e planejou por tanto tempo!
Nos últimos dois dias, o vento tem sido bom na maior parte do tempo
e já estamos muito perto das Malvinas. Mas há um movimento
considerável de navios ao nosso redor, e, somando-se a isso os efeitos
colaterais de toda aquela adrenalina, mal consegui dormir até o dia de
ontem. Hoje fui recebida com um céu limpo e à noite tivemos um céu
estrelado que não aparecia há muito tempo!
Mas não fui só eu que não dormi muito nos últimos tempos. Meus
pais, Bruce e Andrew têm mantido horários bem estranhos e são apenas
alguns da longa lista de pessoas que tiveram um papel crucial para que
eu fosse vista contornando o Cabo em segurança a bordo da Ella’s Pink
Lady. Mil obrigadas!
Algumas pessoas podem se perguntar: “O que tem demais em navegar ao
redor de um amontoado de pedras em um oceano cheio de vento?”. As
condições climáticas me impediram de ver muito mais do que isso. Não é uma maravilha da natureza como Uluru ou Twelve Apostles. Mas quando
nalmente vi a silhueta do Cabo em meio às ondas, quei parada olhando
por séculos. Eu queria absorver cada instante daquele momento. Telefonei
para meus pais no Chile e então para Bruce e o resto da minha família, que haviam se reunido com parte da equipe lá em casa.
Foi ótimo compartilhar o momento com eles, pois todos haviam me
ajudado a chegar até ali. Era o aniversário de Bruce e ele me disse que
contornar o Cabo foi o melhor presente que eu poderia ter-lhe dado.
Após a última ligação, foi como se houvessem desligado um interruptor
em meu cérebro. Durante as conversas, eu estivera cheia de energia, mas
assim que parei mal consegui manter a cabeça erguida. As condições ainda não estavam muito boas, mas eu precisava fechar os olhos um pouquinho. Nem peguei uma roupa seca e praticamente desmaiei atada ao assento
úmido.
Para mim, o poder que emanava do ato de contornar o Cabo Horn vinha
da soma da reputação de ser uma área exigente e traiçoeira, dos anos que passei sonhando em fazer isso e das semanas de expectativa enquanto nos
aproximávamos cada vez mais daquela conquista. Após a semana de desa os
físicos e emocionais que antecedeu nossa chegada, contornar o Cabo Horn
foi melhor do que jamais esperei. Desculpem-me pelo clichê, mas realmente foi um sonho que se tornou realidade.
O êxtase absoluto de contornar o Cabo Horn foi brilhante, mas ainda
havia um longo caminho pela frente e eu precisava me manter atenta e
pronta para qualquer coisa. Além de falar com Bruce, meus pais, meu irmão e minhas irmãs, telefonei para Don. Eu queria compartilhar minha
empolgação com alguém que entendia de fato como era o sentimento. Don
estava no navio Orion, retornando com quase cem passageiros de uma
expedição que liderara na Antártica. Foi ótimo falar com ele e ele me colocou no sistema de som para que todos os convidados a bordo pudessem
ouvir. Não conseguimos falar por muito tempo, mas mal acreditei quando
soube que Kay Cottee estava a bordo com Don. Que mundo pequeno, hein?