Destemida
Etapa Cinco - Contornando a África do Sul
Domingo, 21 de fevereiro de 2010
Atualização rápida sobre navegação veloz
Navegamos com calma e velocidade nos últimos dias. Agora, faltam
apenas 250 milhas náuticas para passarmos pelo Cabo da Boa
Esperança!
A Ella’s Pink Lady vem surfando pelas ondas e tem mantido um ótimo
ritmo de 25 nós. Apesar das condições úmidas e chuvosas, tenho
passado muito tempo no convés para observar nosso avanço.
Decidi dar uma folga para o Parker ontem e passei um bom tempo
navegando manualmente, o que gostei muito de fazer. Ainda fico
eufórica ao sentir que estamos descendo uma onda e acho que jamais
ficarei enjoada de ver as ondas e os pássaros!
Segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Quase contornando o Cabo e por que estou
navegando ao redor do mundo?
Vou começar pelas boas notícias ou, melhor dizendo, pelas melhores
notícias, pois não há nenhuma notícia ruim por hoje. Agora faltam
apenas 120 milhas náuticas para passarmos pelo Cabo Agulhas (eu vinha
dizendo Cabo da Boa Esperança, mas na verdade o ponto mais ao sul da
África é o Cabo Agulhas) e para eu riscar oficialmente mais um cabo da
minha lista!
O vento caiu um pouco hoje e com isso o ótimo ritmo da Ella’s Pink
Lady. Mas ainda estamos avançando bem e pela primeira vez em mais de
uma semana tivemos sol e calor. Após tanto tempo de chuvas, nevoeiros
e céu nublado, o sol parece particularmente encantador! Como há um
sistema de alta pressão passando por nós no momento, parece que a
navegação tranquila (dedos cruzados para que não fique calma demais!)
ainda vai durar um tempo.
Quando estava navegando ao sol hoje, fiquei pensando um
pouquinho (sim, era isso o cheiro de queimado!). Como já passamos da
metade da volta ao mundo, pode ser um bom momento para repensar o
que exatamente estou fazendo aqui e se as minhas expectativas
mudaram.
Na primeira vez que sonhei em dar uma volta ao mundo navegando, a
primeira coisa que me atraiu foi a curiosidade de saber se era uma meta
atingível ou não. Eu queria me desafiar e conquistar algo que me desse
orgulho. E, sim, queria inspirar as pessoas. Odeio o fato de que muitos
sonhos nunca se tornam mais do que isso, um sonho. Não estou dizendo
que todos deveriam comprar um barco e partir para uma volta ao
mundo, mas espero que, ao realizar meu próprio sonho, eu mostre às
pessoas que elas são capazes de atingir seus próprios objetivos, grandes
ou pequenos, sejam eles quais forem.
Agora que estou aqui, também acho que grande parte do objetivo era
me divertir e aproveitar ao máximo cada dia. Outra coisa incrível é que
essa viagem e esse sonho já não são só meus. Cada marco alcançado
também é um êxito de todos os que dedicaram tanto tempo e esforço
para me ajudar a chegar aqui...
... Além disso, como sempre odiei ser julgada por minha aparência ou
idade, espero ajudar a provar que não deveríamos julgar os outros pela
aparência ou por nossos preconceitos. Quero que o mundo saiba
exatamente do que as “garotinhas” e os jovens são capazes!
Mas chega desse papo. Mudando de assunto, hoje consegui cortar
meu joelho em alguma coisa. Sangrou um pouco (rosa e vermelho não
combinam!), mas nada muito sério, o que me fez perceber como tenho
me saído bem em termos de saúde e ferimentos (três batidinhas na
madeira). A água salgada não causou nenhum dano à minha pele (não é
difícil saber por quê: obrigada, Ella Baché!), e conforme o tempo passa
até estou conseguindo me machucar menos.
Fiquei sabendo do incrível esforço de Torah Bright, que rendeu à
Austrália a medalha de ouro no snowboarding nas Olimpíadas de
Inverno. Sei que às vezes estou um pouco desatualizada, pois as notícias
podem demorar a chegar, mas gostaria de dizer “uau” e dar os parabéns
a Torah!
Conversei com Mike e Don naquele dia – foi uma conversa cheia de
palhaçadas e os dois caram me enchendo o saco! Papos como aquele valiam ouro, pois era a minha chance de dar algumas risadas
despreocupadas e desviar a mente do que precisava fazer na Ella’s Pink Lady.
Conversávamos sobre qualquer coisa boba. Uma vez, Mike e eu passamos
um bom tempo discutindo e comparando a qualidade de nossas chaleiras, e noutra Don passou quase meia hora tentando me ensinar uma rima para lembrar quantos dias cada mês tem. Não é exatamente o tipo de conversa que se espera entre circum-navegadores.
Mike estava planejando se juntar a Don para recriar a famosa viagem
épica do Capitão Bligh após ter sido expulso de seu barco, o Bounty, durante
um motim da tripulação, quando precisou navegar de Tonga ao Timor Ocidental. Eles navegariam em uma réplica do barco de madeira e sem teto
utilizado por Bligh e não levariam consigo nenhum equipamento moderno
como cartas náuticas, bússolas, luzes ou mesmo papel higiênico. Era algo
incrível e desa ador e Don usava isso para levantar fundos para pesquisas de doenças motoras neurais, como mal de Parkinson e mal de Alzheimer.
No m, Mike precisou retirar o apêndice logo antes do início da viagem e
não estava totalmente recuperado na data de partida, então não conseguiu
ir. Mas Don partiu em 19 de abril de 2010. Em um triunfo memorável de resistência e poder do espírito humano, ele chegou no Timor com sua
população de três pessoas, David Pryce, David Wilkinson e Chris Wilde, em
15 de junho. Aparentemente, Don perdeu 18 quilos durante a recriação da
viagem. E vocês precisavam ter visto a barba dele!
Quinta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Mais um cabo para trás e entrando no Índico!
É isso mesmo. Outro oceano e outro cabo para trás! Levou um tempo
com os ventos leves que tivemos nos últimos dias, mas a Ella’s Pink Lady
passou sob o Cabo das Agulhas, embora eu não tenha conseguido ver
nada desta vez devido à distância de 400 milhas náuticas até a costa.
Uma lua crescente brilhante e alaranjada sobre um céu espetacular e
cheio de estrelas foram uma boa comemoração. Mas claro que também
ataquei minhas reservas de chocolate e abri algumas serpentinas!
Ainda há muitas milhas a serem cobertas no Oceano Índico e no
contorno da parte sul da Austrália, mas agora já me sinto no caminho de
casa. Restam apenas 4.200 milhas náuticas até o Cabo Leeuwin e a
Austrália, um dado que me deixa muito empolgada e um pouco
assustada! O clima excelente dos últimos dias mais do que compensou
nossa baixa velocidade. Como um sistema de alta pressão passou sobre
nós, tivemos céu perfeito, sol quentinho, mar tranquilo, muitos pássaros
e um ou outro albatroz para nos fazer companhia. Quando não estava
curtindo o sol ou contemplando a perfeição da cena, aproveitei o clima
tranquilo para botar em dia algumas tarefas e dar uma boa checada em
tudo. Fiz uma grande bagunça ao aplicar novamente Sikaflex em alguns
vazamentos persistentes.
Também peguei outras duas agulhas e abri alguns buraquinhos nas
mãos ao costurar um dos rasgos na vela mestra. Depois passei novo
cabo pelo piloto de vento após finalmente desistir do velho conjunto, que
estava gasto e encardido.
...Como sempre, o que é bom dura pouco, e amanhã deveremos
receber uma frente e enfrentar climas traiçoeiros. Parece que meus dias
de calma estão contados. De volta à realidade e às condições típicas do
Oceano Antártico. Espero que possamos aproveitar os ventos fortes para
reduzir bastante a distância até o Oceano Índico!
Contornar o sul da África foi outro passo importante da viagem, mas
nem se comparava à empolgação de contornar o Cabo Horn. Sinto muito,
mas o nome simplesmente não tem o mesmo peso, nem está tão encravado na mitologia dos navegantes quanto o Cabo Horn.
Vendo na carta náutica, trata-se de um marco importante, a bordo da
Ella’s Pink Lady e tão longe da costa, tive que trabalhar duro para criar uma
atmosfera e um sentimento solenes para a ocasião. Foi mais como um dia
típico de navegação... Mas um dia bom!
Quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Acelerando, surfando e dançando pelo caminho
Hoje é o aniversário de dezoito anos da minha irmã, portanto, antes
de qualquer coisa, feliz aniversário, Emily!! É o segundo ano seguido que
não estou lá para comemorar, então precisaremos descobrir uma
maneira especial para compensar os presentes atrasados no ano que
vem!
Estou amando nosso deslocamento veloz no momento. Está um
pouco ventoso e o mar está agitado o suficiente para que a Ella’s Pink
Lady tenha que surfar um pouco. Ela está dançando pelo caminho,
subindo em cada onda, surfando e balançando com as lufadas de vento.
Mas não é muito desconfortável, pois o vento está soprando a pouco
mais de 30 nós e estamos com o terceiro rizo na vela mestra. O sol
apareceu outra vez após uma noite e uma manhã nubladas e de chuva, o
que deixa as ondas com um tom lindo de azul turquesa e torna as cristas
brancas bonitas em vez de ameaçadoras.
Tenho achado um pouco difícil me concentrar em qualquer coisa
nesse momento devido às espiadas frequentes no registro que exibe
nossa velocidade. Percebo que estou olhando para ele o tempo todo e
nossa velocidade varia entre seis e nove nós, subindo um pouco de vez
em quando com a passagem de algumas ondas. Acho que posso ter
deixado algumas pessoas confusas ontem ao dizer que restavam apenas
4.200 milhas náuticas até a Austrália, mas isso é apenas para chegarmos
até o Cabo Leeuwin, na parte ocidental da Austrália. Sydney fica a uma
grande distância dali, sem contar com os prováveis ziguezagues ao redor
dos sistemas climáticos.