Destemida

Jessica Watson · Capítulo 4 de 20

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Destemida

Parte dois - A Viagem

PARTE DOIS

 

- A Viagem

 

A Viagem

 

“Daqui a vinte anos, você se decepcionará mais com o que deixou

de fazer do que com aquilo que fez. Então, ice as velas. Viaje para

longe dos portos seguros. Encontre ventos exóticos em suas viagens.

Explore. Sonhe. Descubra.”

 

MARK TWAIN

Você lembra de quando era uma criança e ficava tão

empolgada com o Papai Noel na noite de Natal que não conseguia dormir, mas achava ainda mais difícil car acordada? Eu esperava que minha última

noite antes de partir fosse um pouco assim. Mas não foi. Fiquei um pouco

alvoroçada com a organização das coisas na cabine, mas não quei de pé até

tarde e sei que dormi bem, pois só acordei quando o despertador tocou. Fiquei deitada por alguns instantes, sentindo-me cômoda na cama e

escutando uma leve chuva cair. Não me levantei até Bruce aparecer me

procurando. Ele bateu na lateral da Ella’s Pink Lady e me disse que Pat e Judy

estavam preparando café da manhã para todos no Big Wave Rider. Bem, a ideia de comer me pôs em movimento.

Após o café da manhã, minhas lembranças se embaralham um pouco. A

aglomeração da mídia começou bem cedo e tornou tudo um pouco

estranho. Tivemos que restringir o acesso a determinadas áreas e todas as pessoas que trabalhavam na marina ou estavam lá com seus barcos foram

maravilhosas. Elas ajudaram a manter as câmeras a uma boa distância para

que eu e minha família tivéssemos um pouco de espaço. Na verdade, foi

hilário, pois Bruce e Scott Young tiveram que agir como guarda-costas para me ajudar a furar a multidão de repórteres e cinegra stas apontando

câmeras, estendendo microfones e gritando perguntas. Eu estava com um

sorriso no rosto desde que havia acordado, pois O DIA nalmente havia

chegado, mas quase comecei a gargalhar por causa de todo aquele exagero. Só lembro de duas perguntas, repetidas por diversos repórteres: “Como você

está se sentindo?”. Acho que dava para ver o sorriso no meu rosto, né? E

“Como está o tempo hoje?”. Eles não conseguiam ver isso sozinhos?

Tomei um cuidado especial para curtir cada segundo do meu último banho quente. Após me secar e me vestir, saí por outra via de acesso e fui

correndo até a marina antes que tivessem tempo de virar as câmeras e focar

novamente. Outra vez a bordo da Ella’s Pink Lady, guardamos algumas

coisas de último minuto e preparamos as velas para nos mantermos ocupados e tentarmos não pensar na iminente despedida. Diversas pessoas

apareceram para me desejar sorte, e quei contente com isso, mas também

quei um tanto sensível. Precisei me esconder na cabine depois de um

tempo para me despedir de minha família com privacidade. Consegui conter as lágrimas nos primeiros “até logo”, mas depois disso perdi qualquer

esperança. Não eram lágrimas tristes, de pavor ou nervosismo – era só a

perspectiva de não ver as pessoas que eu amava por tanto tempo. As risadas

e brincadeiras pararam. Foi uma cena muito dramática e era difícil não chorar se todos ao meu redor estavam fazendo isso. Nem lembro quem

começou, mas foi uma reação em cadeia que nos atingiu um por um.

Quando todos acenavam para mim e começamos a soltar as amarras, a doca

parecia lotada de gente chorando, com lágrimas caindo sobre sorrisos orgulhosos.

Despedir-me de meu pai foi provavelmente a parte mais difícil, pois ele

estava tendo muitos problemas com minha partida. Ele me apoiou ao ver

como eu estava focada, mas sei bem que ele sempre manteve a esperança de que eu desistisse. Naquele momento, eu queria dizer a ele como tudo estava

perfeito e como eu estava feliz por ir atrás de meu sonho, mas não consegui

conter minhas lágrimas. Também fui um pouco melodramática com

Hannah e Tom. Segurei a mão de Hannah e abracei os dois diversas vezes. Eu já havia me despedido de Emily, pois ela tinha outro compromisso

naquele dia. Abracei minha mãe forte e quei olhando para ela, tentando

estampar na retina cada detalhe de seu rosto. Não acho que ninguém tenha reparado na equipe de lmagem do 60 Minutes, mas eles devem ter captado algumas cenas repletas de emoção.

Quando nalmente liguei o motor, até mesmo o velho jornalista Charles

Wooley estava chorando com o resto do pessoal. Ligar os motores e

conduzir a Ella’s Pink Lady para fora do ancoradouro pareceu surreal, mas assim que estávamos prontas olhei por cima do ombro e vi minha corajosa

família, a memorável equipe e diversas outras pessoas incríveis, como James

Castrission, de pé olhando para mim. Finalmente caiu a cha do que

havíamos conquistado, e fui tomada de orgulho.

Mas não havia tempo para re exões, pois eu precisava me concentrar

totalmente em içar as velas para conduzir a Ella’s Pink Lady através dos

barcos de espectadores até Heads e passar pela linha de partida. As coisas

estavam bem doidas: havia helicópteros acima de mim e mais de trinta embarcações na água para me ver. Fiquei tocada ao perceber que tanta gente

havia reservado seu tempo para demonstrar apoio, mas eu precisava prestar

atenção, pois só havia um vento de proa muito suave, e com toda a espuma

dos barcos e as ondas que havia por lá era quase impossível fazer qualquer avanço. Mal percebi que estava mesmo cruzando a linha de partida, pois

demorou muito tempo com o barco seguindo aos trancos e barrancos.

Havíamos pedido ao administrador do porto, Steve Young, da Sydney Ports

Corporation, que desse a largada e testemunhasse minha partida. Ele estava

a bordo do Big Wave Rider para anotar o horário em que eu passaria pela linha imaginária que corta o mar de norte a sul e marcou o início do que eu

esperava ser uma jornada de sete ou oito meses. Não havia nenhuma regra

que dissesse que precisávamos de alguém lá, pois tudo é gravado digitalmente, mas para mim e minha equipe foi importante ter aquele

momento reconhecido por alguém de um cargo o cial.

Conforme me afastei de e Spit, a frota de barcos se afastou, e o barco com meus pais deu meia volta mais cedo do que eu esperava. O Big Wave

Rider foi a embarcação que passou mais tempo comigo, mas então, de um momento para outro, eles também desapareceram. Eu estava nalmente

sozinha e comecei a chorar outra vez. Eu cambaleava e não me sentia muito

bem. Todas aquelas emoções haviam mexido comigo mais do que eu esperava. Mas isso não durou muito, e tampouco a solidão, pois os

helicópteros me encontraram outra vez!

Passei o resto do dia trabalhando para nos manter em movimento com

aqueles ventos fracos, mas, apesar de todos os meus esforços, eu ainda avistava a terra ao anoitecer. Eu havia me livrado daquela tristeza vaga e me

sentia animada. Escutei uma estação de rádio de Sydney enquanto pude e

aproveitei ao máximo a cobertura telefônica irregular para gastar o resto de

crédito do meu celular para telefonar para meus amigos. Não havia por que deixá-los perder a validade, né?

A chuva havia parado e o dia cou claro e bonito. Quando o sol se pôs

dramaticamente sobre o horizonte, onde as luzes brilhantes da Sydney

Harbour Bridge pareciam se desvanecer, eu me sentia restabelecida e pronta para tudo o que estava por vir.