Epígrafes e diálogos na poesia de Machado de Assis
Falenas
3.1 O segundo livro
Em meados de janeiro de 1870 são publicadas, também pela B. L. Garnier, as Falenas do Sr. Machado de Assis. Esse segundo livro de poemas cumpre parte do que fora acordado entre o então noivo de
Carolina Augusta Xavier de Novais458 e Baptiste Louis Garnier em contrato de 11 de maio de 1869. Naquele ano de 1869, o escritor e o editor firmaram dois contratos: o primeiro deles, como citamos, em maio, o qual tratava da venda das Falenas e dos Contos Fluminenses, ambos publicados em 1870; o segundo contrato datava de setembro de 1869, nele estavam previstas três obras que deveriam ser publicadas em novembro de 1869, março de 1870 e final de 1870, sendo, respectivamente, Ressurreição, Manuscrito do Licenciado Gaspar e Histórias da meia-noite. Havemos de observar que Machado não cumpriu o contrato, haja vista que o romance Ressurreição veio a público somente em 1872 e Histórias da meia-noite, livro de contos, em 1873. Sobre o Manuscrito do Licenciado Gaspar, não se tem notícia até hoje. Se a amizade entre Garnier e Machado já podia ser considerada desde 1863, quando o escritor passa a publicar seus contos no Jornal das Famílias, periódico chancelado pelo editor, ela é confirmada em 1869 com a promessa de cinco publicações, com o pagamento adiantado pelos livros que constavam no contrato de maio (Garnier, ao contrário do que fizera em 1864 com as Crisálidas, paga o poeta a partir da assinatura do
contrato e não do início das vendas do volume)459 e com a impressão desses mesmos livros em Paris, sem que isso tenha sido previsto no referido contrato. Esses apontamentos nos mostram certo esforço de Machado em viver da própria pena (especialmente após o matrimônio), seu crédito moral enquanto escritor e, principalmente, sua afirmação enquanto poeta.
Não se sabe a data exata da publicação desse segundo livro de poemas, todavia, podemos tomar como ponto de partida a notícia estampada na primeira página do Diário do Rio de Janeiro em 27 de janeiro de 1870, que dizia:
Foi impresso em Paris, edição do Sr. B. L. Garnier, o brilhante volume de poesias Falenas, do mavioso e ilustrado poeta fluminense, o Sr. Machado de Assis. Em tempo faremos um estudo sobre esse belo livro, um dos mais felizes acontecimentos do presente ano literário. A edição é elegante
e esmerada.460
Somos levados a crer que a publicação tenha se dado poucos dias antes. O poeta fluminense, como o noticiário o chama, não aumentou o número de poemas em seu livro quando comparado ao primeiro. Novamente temos 28 poemas entre traduções, paráfrases, imitações e composições machadianas, de modo que a “Lira Chinesa” traz oito partes. O volume de poemas de 1870 se assemelha ao de 1864 também na falta de unidade. Novamente estamos diante de uma obra que não traz uma unidade temática, ainda que, a exemplo das borboletas noturnas que são as falenas, muitos poemas tragam no seu interior, ou já no título, certa escuridão, como “Sombras” e “Luz entre sombras”. Apesar da falta de unidade temática, as Falenas de alguma forma se organizam por meio de suas seções: “Varia”, “Lira Chinesa”, “Uma ode a Anacreonte” e “Pálida Elvira”. A última dessas seções se constitui num único e longo poema sobre o desventurado amor de Elvira e um poeta, ao passo que a penúltima é uma ode composta com os olhos voltados para a tradução emprenhada por Antônio Feliciano de Castilho. Em nota, Machado explica ao leitor:
É do Sr. Antônio Feliciano de Castilho a tradução desta odezinha, que deu lugar à composição do meu quadro. Foi imediatamente à leitura da Lírica de Anacreonte, do imortal autor dos Ciúmes do Bardo, que eu tive a ideia de pôr em ação a ode do poeta de Teos, tão portuguesmente saída das mãos do Sr. Castilho que mais parece original que tradução. A concha não vale a pérola; mas o delicado da pérola disfarçará o grosseiro da
concha.461
A “Lira Chinesa”, por sua vez, é a reunião de oito pequenos poemas adaptados da tradução feita por Judith Walther de poetas chineses. Por fim, “Varia”, como o título anuncia, é a reunião de variados poemas de diferentes temas. Em “Varia”, são 25 poemas com métrica e rima bastante trabalhada (dois aspectos criticados das Crisálidas) e uma extensão, em grande parte dos poemas, maior em relação aos poemas do primeiro livro. Além disso, ao contrário do que acontecia na publicação de 1864, apenas cinco poemas das Falenas já teriam tido sua primeira representação
pública antes da publicação em livro.462 São eles: “Estâncias a Ema”, tradução de Alexandre Dumas Filho, publicada sob o título “Versos a Ema” em 6 de abril de 1860 no Diário do Rio de Janeiro, publicação que, inclusive, intitula as partes I e II do poema, chamando-as, respectivamente, “Um passeio de Carro” e “Um ano depois”; oito anos depois, o mesmo poema, com o mesmo título das Falenas, é publicado em 23 de fevereiro no Semanário Maranhense; “No espaço”, declamado em reunião da Arcádia Fluminense de 14 de outubro de 1865, segundo notícia de três dias depois do Diário do Rio de Janeiro; “Cegonhas e Rodovalhos” e “Menina e Moça”, ambos publicados na Semana Ilustrada em 24 de janeiro de 1869; e “Pálida Elvira”, publicado no volume Lamartinianas (1869), livro de poemas de Alphonse de Lamartine traduzidos por poetas brasileiros. “Varia” será a parte predileta pela crítica, a qual reconhecerá a correção na métrica, mas ainda apontará a falta de cor local nos versos e a leveza que se perdeu das Crisálidas para as Falenas.