Epígrafes e diálogos na poesia de Machado de Assis
Americanas
4.1 O livro fora da curva
Impressas na Tipografia Cosmopolita no Rio de Janeiro e chanceladas pela B. L. Garnier, as Americanas foram publicadas em dezembro de 1875 e por elas Machado de Assis recebeu 200 réis
para cada exemplar vendido. O volume que abriga treze poemas584 (e por isso foi o que menos sofreu corte nas Poesias completas) chamou atenção, sobretudo, pelo título, o qual invoca duas hipóteses: estaria o poeta fluminense participando de um nacionalismo tardio; seria essa publicação uma espécie de resposta ao que a crítica cobrara das suas publicações anteriores. Magalhães Júnior acredita numa resposta afirmativa para essa segunda hipótese:
Não há dúvida de que o moderado indianismo em que se engajou fora o resultado da crítica em que seu amigo Luís Guimarães Júnior, referindo-se às poesias das Falenas, lhe censurara o desinteresse pelos temas nacionais. (…) A reação de Machado fora tão imediata que, saindo essa crítica em fevereiro de 1870, já a 29 de junho do mesmo ano iniciava a publicação de “Potira” no Jornal do Comércio, com o título de “Fragmentos de uma elegia americana” e sob a assinatura de “Y”. E, em 28 de agosto,
saía a segunda parte.585
Não discordamos que, de uma maneira ou de outra, as Americanas possam ser uma resposta à crítica, todavia, parece-nos mais pertinente que o volume de poemas tenha sido composto e organizado no sentido de afirmar o que, no entendimento machadiano, era o nacionalismo. Isso responde a primeira hipótese que levantamos, pois, a acreditar no que os textos machadianos de crítica vinham anunciando e na advertência que o poeta escreve para o livro, o movimento nacionalista tal qual Machado o concebe não teria data marcada. Assim, apesar do título das Americanas, não podemos entender esse livro de poemas na mesma linha dos
poemas ufanistas do romantismo brasileiro. Marques586 já questionara o porquê de a poesia machadiana ter tardiamente se enveredado pela temática indianista. O pesquisador também recorre a Magalhães Júnior, mas aponta o importante detalhe do conselho dado ao poeta fluminense por Manuel de Araújo Porto-Alegre: “em 1871, por ocasião de sua última vinda ao Brasil, aconselhou Machado de Assis a procurar na Revista do Instituto Histórico e Geográfico temas que efetivamente refletissem o passado colonial
brasileiro”. 587 Pouco tempo depois, por intercessão de Joaquim Norberto, o cantor de Potira recebera uma coleção completa
daquela 588 Revista . Assim, concordamos com Marques, quando sugere que, fosse pela repreensão da crítica ou pelo conselho do amigo, Machado de Assis passa a se interessar pelo indianismo, o
que é materializado em forma de poesia na publicação de 1875. 589
Machado tinha um modo bastante particular de entender o nacionalismo na literatura e já expressara essa posição em 1858, num dos seus textos mais conhecidos de crítica literária: “O passado, o presente e o futuro da literatura brasileira”, publicado n’A Marmota. Naquele ensaio, Machado toma uma posição arriscada para a época em que se respirava o nacionalismo caricato impregnado de cor local quando diz que “a poesia do boré e do
tupã, não é a poesia nacional” 590 e questiona o que teriam os brasileiros dos oitocentos em comum com aquela raça. A mesma ideia, com maior elaboração, é trazida em 1873, dois anos antes da publicação das Americanas, na “Notícia da atual literatura brasileira: instinto de nacionalidade”: “é certo que a civilização brasileira não está ligada ao elemento indiano, nem dele recebeu influxo algum; e isso basta para não ir buscar entre as tribos vencidas a nossa
personalidade literária”. 591 O fundador da Academia Brasileira de Letras não condena o indianismo na literatura brasileira, mas condena o fato de ele ser, por vezes, tomado como um “exclusivo patrimônio” da literatura nacional. Como afirmara no mesmo ensaio, “tudo é matéria de poesia, uma vez que traga as condições do belo
ou os elementos de que ele se compõe”.592 Na “Advertência” das Americanas, Machado reforça sua posição com relação ao que deve ser matéria de poesia quase que repetindo o que dissera no ensaio de crítica: “tudo pertence à invenção poética, uma vez que traga os
caracteres do belo e possa satisfazer as condições da arte”. 593 Desse modo, a reunião de poemas sob o título de Americanas nos mostra uma reunião de composições com o belo e que tinham como denominador comum a americanidade e não exclusivamente a cor local das nossas matas e dos nossos índios.
Sendo esse o único livro de poemas para qual o escritor carioca escreve uma “Advertência”, fica claro que ele tenta conduzir o olhar do leitor para que leia os poemas que seguem de acordo com o que fica explicado no texto que abre o livro e que, inclusive, vem antes da epígrafe gonçalvina adotada para essa obra. Tendo isso em vista, é importante que nos debrucemos sobre os três parágrafos da “Advertência” para que possamos melhor compreender a americanidade que Machado alega ter tentado imprimir nos seus poemas.
O título de Americanas explica a natureza dos objetos tratados no livro, do qual excluí o que poderia destoar daquela denominação comum. Não se deve entender que tudo o que aqui vai seja relativo aos nossos aborígines. Ao lado de “Potira” e “Niâni”, por exemplo, quadros da vida selvagem, há “Cristã Nova” e “Sabina”, cuja ação é passada no centro da civilização. Algum tempo, foi opinião que a poesia brasileira devia estar toda, ou quase toda, no elemento indígena. Veio a reação, e adversários não menos competentes que sinceros, absolutamente o excluíram do programa da literatura nacional. São opiniões extremas, que, pelo menos, me parecem discutíveis. / Não as discutirei agora, que não é azado o ensejo. Direi somente que, em meu entender, tudo pertença à invenção poética, uma vez que traga os caracteres do belo e possa satisfazer as condições da arte. Ora, a índole e os costumes dos nossos aborígines estão muita vez nesse caso; não é preciso mais para que o poeta lhes dê a vida da inspiração. A generosidade, a constância, o valor, a piedade hão de ser sempre elementos de arte, ou brilhem nas margens do Scamandro ou nas do Tocantins. O exterior muda; o capacete de Ájax é mais clássico e mais polido que o canitar de Itajubá; a sandália de Calipso é um primor de arte que não achamos na planta nua de Lindoia. Esta é, porém, a parte inferior da poesia, a parte acessória. O essencial é a alma do homem. / Das qualidades boas, e ainda excelentes, dos nossos índios, andam cheias de relações históricas. Era agreste e rudimentário o estado deles; medeia um abismo entre a taba de Uruçumirim e qualquer dos nossos bairros inferiores. Mas com todas as feições grosseiras de uma civilização
embrionária, havia ali os caracteres de uma raça forte, e não comuns virtudes humanas. Montaigne, que lhes consagrou um afetuoso capítulo, enumera o que achou neles de grande e bom, e conclui com esta pontazinha de maliciosa ingenuidade: “Mais quoi! Ils ne portent point de
hault de chausses! 594 ”.
Logo no primeiro parágrafo, Machado alerta para a presença no livro de poemas que não se passam nas virgens matas brasileiras – “A cristã nova” e “Sabina” – e com isso mostra que a poesia brasileira não precisa exclusivamente trazer o “elemento indígena”. Além disso, o poeta fluminense evidencia sua opinião adversa aos extremos, que, para ele, são discutíveis. O parágrafo que segue vem completar e explicar ao leitor o que, então, para o autor das Americanas, pertenceria à invenção poética. Assim, como já citamos, pertenceria a tal invenção poética aquilo que é belo e que satisfaz as “condições da arte”, independentemente de estar ou não relacionado aos nossos indígenas. Ao final do parágrafo, Machado acentua, numa frase única e isolada por pontos, o que é essencial:
“o essencial é a alma do homem”.595 Assim, os elementos exteriores que muitas vezes caracterizam o que a crítica de então entendia como nacionalista – o nome das aves, dos rios, das tribos, das plantas etc. – são mutáveis e constituem a parte acessória e menos importante da poesia. E, talvez para que a “Advertência” não soasse em desfavor aos indígenas, o escritor traz um último parágrafo que ressalta a “raça forte” e dá a essa raça “não comuns virtudes humanas”. O texto se encerra com citação de Michel Montaigne, autor que também será fonte da epígrafe de “Última jornada”. A citação, um tanto maliciosa, diz respeito à vestimenta dos índios, que não precisavam usar calças para garantir seu caráter: “mas
quê! Eles não usam calças!”.596
Desse modo, Americanas soa como o livro fora da curva no sentido de ter ele o denominador comum da americanidade, ao passo que as Crisálidas e mesmo as Falenas parecem reunir poemas aleatórios. Ainda que acessórios, o ibake, os tajaçus, o calumbi, a sucuriúba, a tagapema, o caium e outros estão diluídos pelas 213 páginas do livro de 1875, e não poderia ser diferente, especialmente no caso das composições em que os personagens pertencem a alguma tribo. Porém, o que diferencia esse livro de outras composições nacionalistas é o tratamento dispensado por Machado a esses elementos, menos importantes em sua poesia que os valores carregados pela “raça forte”.