Epígrafes e diálogos na poesia de Machado de Assis
3.3 Os poemas e as epígrafes
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
A epígrafe do livro
Falenas, o segundo livro de poemas de Machado de Assis, veio a público seis anos depois das Crisálidas. O título sugere uma continuidade do labor poético, já que da crisálida teria se feito a falena. No que diz respeito às epígrafes que constam no livro, teremos, de antemão, algumas novidades. A primeira delas é a presença de epígrafes em língua inglesa, o que pode nos indicar um novo aprendizado do poeta no estudo das línguas estrangeiras. A epígrafe escolhida pelo poeta para o livro como um todo (o que não aconteceu com o volume de poemas anterior) já nos traz essa novidade, trata-se de uma pequena frase que está no poema “Elaine”, que compõe um poema maior que narra a história da lenda do Rei Arthur, por sua vez intitulado Idylls of the King (reunião de poemas publicada em 1885), de Alfred Tennyson. Na epígrafe do livro, o nome do autor, grafado, talvez por uma gralha tipográfica, “Tennyon”, assina os versos sem indicação da obra. Trata-se, mais especificamente de um trecho do décimo quinto verso da terceira
estrofe de “Elaine”: “and Arthur came, and labouring up the pass”. 483
Do verso, Machado se aproveita apenas de “labouring up”,484 que é uma expressão no inglês que significa se mover devagar, com
alguma dificuldade.485 Podemos interpretar ser esse o momento em que a falena sai da sua crisálida. No poema de Tennyson, é o momento em que Arthur encontra os diamantes da coroa do morto.
Prelúdio
Prelúdio
… land of dreams.
… land of song.
Longfellow
Lembra-te a ingênua moça, imagem da poesia,
Que a André Roswein amou, e que implorava um dia,
Como infalível cura à sua mágoa estranha,
Uma simples jornada às terras da Alemanha?
O poeta é assim: tem, para a dor e o tédio,
Um refúgio tranquilo, um suave remédio:
És tu, casta poesia, ó terra pura e santa!
Quando a alma padece, a lira exorta e canta;
E a musa que, sorrindo, os seus bálsamos verte,
Cada lágrima nossa em pérola converte.
(…)486
Tal qual a “Última folha” nas Crisálidas, o primeiro poema das Falenas não poderia ter título mais adequado: “Prelúdio”. Esse exercício preliminar de poesia foi publicado somente nas Falenas e a epígrafe que o acompanha vem de solo norte-americano, trata-se justamente do “Prelude” escrito por Henry Longfellow para as suas Voices of the night (originalmente datado de 1839), que está no primeiro volume da coleção The poetical works of Henry Waldsworth Longfellow (1866), o qual consta a biblioteca machadiana ao lado dos outros três volumes da mesma coleção e da obra traduzida Poemas da escravidão (1887), também de Longfellow. Além disso,
Glória Vianna487 coloca a obra de Longfellow entre os livros mais manuseados que ela encontrou em sua pesquisa na biblioteca de Machado. Para o estudo dessa epígrafe, optamos por ler Longfellow na possível mesma fonte que Machado usara para compor sua epígrafe, todavia, o fizemos em versão digital.
O “Prelude” de Longfellow também funciona como introdução aos demais versos, como parece funcionar o “Prelúdio” de Machado para a parte do livro que ele chama “Varia”. O eu poético norte-americano compõe seu poema em meio às fantasias de infância e juventude, que vêm a ele durante um passeio numa floresta. Os versos recortados por Machado para a epígrafe são os últimos da sétima estrofe de “Prelude”: “rega a terra verde dos sonhos, / A
sagrada terra da canção”.488 Comparando esses versos à epígrafe, notamos que eles foram duplamente recortados por Machado: primeiro, se deu o recorte em relação ao todo do poema, e num segundo momento, o recorte do final de cada verso, o que já era esperado, dadas as reticências empregadas por Machado na
epígrafe: “… terra de sonhos. / … terra de canção”.489 Além disso, Machado faz uma pequena alteração na pontuação do original, já que o primeiro desses dois versos terminava em vírgula, a qual fora substituída pelo ponto na epígrafe. Coincidência ou não, parece interessante que Machado tenha retirado sua epígrafe para um poema intitulado “Prelúdio” justamente de outro “Prelude” e que, além do nome em comum, os dois estejam de alguma maneira ligados ao que é noturno. O “Prelude” de Longfellow abre um conjunto de poemas reunidos sob o título “Voices of the night”, já o “Prelúdio” de Machado é o primeiro de um livro intitulado Falenas, que também são seres noturnos. Assim, parece fazer todo sentido a escolha dessa epígrafe.
“Prelúdio” nos traz os versos alexandrinos ovacionados pela crítica que reconhecia o talento machadiano para tal métrica. Esses versos são agrupados em três estrofes assimétricas e de rimas emparelhadas. O verso que encerra o poema, “a terra da poesia é a
nossa Alemanha”, 490 está destacado da estrofe a que pertence possivelmente por uma questão de ênfase, já que pelo esquema rímico – rimas emparelhadas para todo o poema – fica claro que ele faz parte da estrofe que o antecede. Além disso, verificamos, na maioria dos versos desse poema, um corte no verso posto pela vírgula que o divide em dois versos de seis sílabas poéticas cada. Tamanho cuidado em versificar revela um metapoema, ou seja, um poema que tem por assunto o próprio labor poético.
A primeira estrofe do poema traz a poesia, adjetivada casta, como “um refúgio tranquilo, um suave remédio” para a dor e para o tédio do poeta:
Lembra-te a ingênua moça, imagem da poesia,
Que a André Roswein amou, e que implorava um dia,
Como infalível cura à sua mágoa estranha,
Uma simples jornada às terras da Alemanha?
O poeta é assim: tem, para a dor e o tédio,
Um refúgio tranquilo, um suave remédio:
És tu, casta poesia, ó terra pura e santa!
Quando a alma padece, a lira exorta e canta;
E a musa que, sorrindo, os seus bálsamos verte,
Cada lágrima nossa em pérola converte.491
A “casta poesia” também é chamada “terra pura e santa”. Contudo, ainda não temos nessa estrofe a definição de que terra seria essa, onde ela estaria, a não ser pela pista que nos é dada no início da estrofe, quando o eu poético traz o personagem André
Roswein, do drama 492 Dalila (1857), de Octave Feuillet. Na verdade, Machado se utiliza desse personagem para falar de Marthe, ou Amélia, na tradução para o português, a “ingênua moça” que amava o aluno de seu pai, o músico Roswein, e que ansiava, como “(…) cura à sua mágoa estranha, / Uma simples jornada às terras da
Alemanha”. 493 Para finalizar a estrofe, é no último verso que o eu poético se coloca enquanto poeta, pois compartilha da inspiração da musa, que faz pérola “cada lágrima nossa” (grifo nosso). Assim, é por meio do pronome possessivo empregado na primeira pessoa do plural que o eu poético se revela também poeta.
Os cinco primeiros versos da estrofe seguinte falam sobre o abatimento do poeta quando está distante daquele asilo, mesmo a vitória, se está longe da “terra pura e santa”, é sem conquista:
Longe daquele asilo, o espírito se abate;
A existência parece um frívolo combate,
Um eterno ansiar por bens que o tempo leva,
Flor que resvala ao mar, luz que se esvai na treva,
Pelejas sem ardor, vitórias sem conquista!
Mas, quando o nosso olhar os páramos avista,
Onde o peito respira o ar sereno e agreste,
Transforma-se o viver. Então, à voz celeste,
Acalma-se a tristeza; a dor se abranda e cala;
Canta a alma e suspira; o amor vem resgatá-la;
O amor, gota de luz do olhar de Deus caída,
Rosa branca do céu, perfume, alento, vida.
Palpita o coração já crente, já desperto;
Povoa-se num dia o que era agro deserto;
Fala dentro de nós uma boca invisível;
Esquece-se o real e palpa-se o impossível.
A outra terra era má, o meu país é este;
Este o meu céu azul.
Se um dia padeceste
Aquela dor profunda, aquele ansiar sem termo
Que leva o tédio e a morte ao coração enfermo;
Se queres mão que enxugue as lágrimas austeras,
Se te apraz ir viver de eternas primaveras,
Ó alma de poeta, ó alma de harmonia,
Volve às terras da musa, às terras da poesia!494
A partir do sexto verso será dado ao leitor o quadro inverso, o que já é marcado no verso pela conjunção adversativa “mas”. E são mostradas nos versos as alegrias do eu poético ao avistar tal terra, ou os “páramos”, como ele chama no sexto verso. Então, “transforma-se o viver (…)” do poeta, a tristeza é acalmada; a alma canta e suspira, resgatada pelo amor que vem da “gota de luz do alhar de Deus”, logo, é um amor santo; a dor cessa; o deserto é povoado; e no décimo quinto e décimo sexto versos são construídas as imagens mais fortes do poema: “fala dentro de nós uma boca invisível; / Esquece-se o real e palpa-se o impossível”. O primeiro desses dois versos imprime a imagem da boca do poeta quando está na terra da casta poesia. A fala, que costuma ter um movimento para fora (vem de dentro para fora do corpo humano), agora está dentro e é proferida por uma boca que não há, uma boca invisível. O segundo verso nos revela que essa terra faz com que o poeta se desligue do que é real e, a partir de então, consiga palpar o impossível. Palpar o impossível parece, no verso, ser consequência do esquecimento do real. Nos próximos dois versos o eu poético se reafirma na terra de que vem falando e a contrasta com uma terra outra, a qual caracteriza “má”. Daí para o final da estrofe o eu poético estabelecerá uma condição dirigida, pelo vocativo, à “alma de poeta”, “alma de harmonia”. Para por fim à “dor profunda” e ao “ansiar sem termo”, para que as “lágrimas austeras” sejam enxugadas, para que se viva de “eternas primaveras”; é preciso que essa “alma de poeta” volte “(…) às terras da musa, às terras da poesia”. Essa terra, capaz de tão poderoso alento, ainda não foi claramente revelada no poema, apesar da hipótese que a primeira estrofe nos permite levantar. Além disso, nesses últimos versos podemos enxergar uma possível referência a Casimiro de Abreu, o poeta d’As Primaveras (1859), quando o eu poético traz a condição de “viver de eternas primaveras”. Notemos que quando da publicação de “Prelúdio” nas Falenas o poeta Casimiro já era morto, o que pode justificar chamar “eternas” as tais primaveras.
A travessia para tão querida terra é feita de maneira metafórica pelas “(…) asas do céu: a esperança e a saudade”:
Tens, para atravessar a azul imensidade,
Duas asas do céu: a esperança e a saudade.
Uma vem do passado, outra cai do futuro;
Com elas voa a alma e paira no éter puro,
Com elas vai curar a sua mágoa estranha.
A terra da poesia é a nossa Alemanha.495
O eu poético logo nos diz que uma dessas asas “vem do passado”, que supomos ser a saudade; outra, “cai do futuro”, a esperança. E é com tais asas que alma, aquela mesma “alma de poeta” da estrofe anterior, voara para curar sua “mágoa estranha”, que é a mesma mágoa de que sofria aquela que, na primeira estrofe, sofria por amar Roswein. O destino da travessia se finda no último verso do poema, destacado da estrofe que o compõe num exercício de ênfase, “a terra da poesia é a nossa Alemanha”.
Diferente do que faz o eu poético de “Prelude”, o eu poético machadiano não caracteriza essa terra, apenas nos dá a reação que ela provoca nos poetas quando estão longe ou perto dela. Não lemos muito do poema norte-americano nas linhas brasileiras. O recorte da epígrafe parece colaborar para o poema machadiano justamente no sentido de acentuar a caracterização dessa “terra da poesia” e chamá-la também “… terra dos sonhos. / … terra da
canção”. 496 Machado de Assis nunca viajou à Alemanha, mas parece uma escolha lúcida chamar essa terra, berço de Johann Bach (1685-1750), “terra da canção”, como também fora lúcida a escolha, como apontamos, de uma epígrafe retirada do “Prelude” de um conjunto de poemas reunidos sob o título “Voices of the night”. Além do prelúdio em comum, epígrafe e poema carregam consigo marcas noturnas, aquela, da voz, este, na falena. Não bastasse, esse poema ainda dialoga com outras duas referências, a da obra de Feuillet e da obra de Casimiro. A primeira serve para acentuar o caráter de alento que a Alemanha ganha no poema, a segunda, para fazer coro à qualidade dos versos de Casimiro, já que estamos diante de um poema sobre o labor poético. Ademais, parece audacioso, quando ainda cobravam a cor local nos versos dos poetas dos oitocentos, que o poeta fluminense tenha escolhido para abrir seu livro um poema que imprime, numa primeira leitura pelo menos, a Alemanha como sendo a terra de desejo do poeta, ainda que essa terra aparentemente não seja real, mas dos sonhos. A reação da crítica que, na publicação das Falenas, cobra essa cor local nos versos machadianos pode ter sido encorajada a partir daí. Todavia, a lição mais clara que retiramos do poema no que diz respeito à epígrafe é o cuidado que o poeta fluminense revela ao selecioná-la, o que nos mostra que seus recortes não serviam apenas para preencher o espaço em branco da página, mas estavam ali no trabalho engenhoso de costurar um texto ao outro.
Ruínas
Ruínas
No hay pájaros en los nidos de antaño.
Provérbio espanhol
Cobrem plantas sem flor crestados muros;
Range a porta anciã; o chão de pedra
Gemer parece aos pés do inquieto vate.
Ruína é tudo: a casa, a escada, o horto,
Sítios caros da infância.
Austera moça
Junto ao velho portão o vate aguarda;
Pendem-lhe as tranças soltas
Por sobre as roxas vestes.
Risos não têm, e em seu magoado gesto
Transluz não sei que dor oculta aos olhos;
— Dor que à face não vem, — medrosa e casta,
Íntima e funda; — e dos cerrados cílios
Se uma discreta muda
Lágrima cai, não murcha a flor do rosto;
Melancolia tácita e serena,
Que os ecos não acorda em seus queixumes,
Respira aquele rosto. A mão lhe estende
O abatido poeta. Ei-los percorrem
Com tardo passo os relembrados sítios,
Ermos depois que a mão da fria morte
Tantas almas colhera. Desmaiavam,
Nos serros do poente,
As rosas do crepúsculo.
(…)497
“Ruínas” é o segundo poema das Falenas e além dessa só teve a publicação das Poesias completas (1901), a qual elimina o último
verso do poema: “o poeta e a saudade”, 498 que, como veremos, é a chave de resposta para toda a metáfora construída na composição poética. É importante notar que, diferentemente do que acontece com a maior parte dos poemas das Crisálidas publicados nas Poesias completas, “Ruínas” conserva sua epígrafe.
A fonte da epígrafe que acompanha esse poema, “não há
pássaros nos ninhos de outrora”,499 é referenciada por Machado como “Provérbio espanhol”. Todavia, vasculhando sua biblioteca encontramos trecho semelhante no El ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha (catalogado por Massa como s/d), de Miguel de Cervantes, quando no último capítulo da segunda parte, já perto de sua morte e após recobrar a sanidade, Dom Quixote diz: “(…) vamonos poco á poco, pues ya en los nidos de antaño no hay pájaros ogaño: yo fui loco, y ya soy cuerdo; fui D. Quijote de la
Mancha, y soy ahora, como he dicho, Alonso Quijano el Bueno”.500 Apesar da inversão, o sentido geral do provérbio e as palavras são
as mesmas. 501 Contudo, parece ainda não ter sido essa a fonte da epígrafe machadiana. Poderíamos acreditar que o escritor tenha simplesmente utilizado um provérbio que conhecia, haja vista que era estudioso do espanhol, mas essa hipótese parece bastante rasa quando nos deparamos com o poema “It’s not always May”, de Longfellow, que é o mesmo autor da epígrafe do poema anterior, e, coincidentemente ou não, esse poema também está no primeiro volume do The poetical works (1866), que, como dissemos, está na biblioteca machadiana, de acordo com os estudos de Massa, e é
uma das obras mais folheadas, segundo Vianna. 502 Em “It’s not always May”, Longfellow utiliza o mesmo provérbio espanhol (escrito
inclusive naquela língua e assinado “Spanish Proverb”503) para servir de epígrafe para suas seis quadras de oito sílabas poéticas e rimas alternadas. Assim, somos levados a crer que Machado recortara sua epígrafe daí. Longfellow utiliza o provérbio de tal maneira em seu poema que chega a traduzi-lo para o inglês nos últimos versos da terceira e da sexta estrofes: “there are no birds in
last year’s nest”. 504
Veremos, porém, que a leitura do provérbio espanhol que Machado faz em seu poema se distanciará quase que antiteticamente da leitura de Longfellow. O sentido desse provérbio será de um tempo que passou e que já não é o mesmo. O poeta norte-americano o aproveita no sentido de construir um poema que
encoraje a donzela 505 a aproveitar o tempo presente, a primavera de maio, já que, como o título acentua, “nem sempre é maio” (tradução nossa). Assim, esse maio em que se passa o poema é o momento em que ainda há os pássaros no ninho e se deve aproveitá-lo, pois haverá um tempo futuro em que eles não mais estarão lá. Machado, porém, constrói seu poema nesse último tempo, em que maio já foi, bem como os pássaros de outrora, e sobram as “Ruínas”.
As ruínas de que fala o eu poético refletem até mesmo na estrutura do poema, o qual traz quarenta e quatro versos brancos distribuídos assimetricamente em duas estrofes, sendo a primeira mais longa. Além disso, a métrica varia entre hexa e decassílabos, não havendo uma regra para a disposição dos versos.
O lugar de ruína é descrito logo no início da primeira estrofe do poema, os muros são cobertos por “plantas sem flor”, a porta range, o chão de pedra geme:
Cobrem plantas sem flor crestados muros;
Range a porta anciã; o chão de pedra
Gemer parece aos pés do inquieto vate.
Ruína é tudo: a casa, a escada, o horto,
Sítios caros da infância.
Austera moça
Junto ao velho portão o vate aguarda;
Pendem-lhe as tranças soltas
Por sobre as roxas vestes.
Risos não têm, e em seu magoado gesto
Transluz não sei que dor oculta aos olhos;
— Dor que à face não vem, — medrosa e casta,
Íntima e funda; — e dos cerrados cílios
Se uma discreta muda
Lágrima cai, não murcha a flor do rosto;
Melancolia tácita e serena,
Que os ecos não acorda em seus queixumes,
Respira aquele rosto. A mão lhe estende
O abatido poeta. Ei-los percorrem
Com tardo passo os relembrados sítios,
Ermos depois que a mão da fria morte
Tantas almas colhera. Desmaiavam,
Nos serros do poente,
As rosas do crepúsculo.
“Quem és? pergunta o vate; o sol que foge
No teu lânguido olhar um raio deixa;
— Raio quebrado e frio; — o vento agita
Tímido e frouxo as tuas longas tranças.
Conhecem-te estas pedras; das ruínas
Alma errante pareces condenada
A contemplar teus insepultos ossos.
Conhecem-te estas árvores. E eu mesmo
Sinto não sei que vaga e amortecida
Lembrança de teu rosto.”506
A escolha vocabular para esse início descritivo parece bastante importante. A planta poderia ser simplesmente uma folhagem, que comumente não tem mesmo flor. Todavia, dizê-la “sem flor” dá um ar mais triste ao lugar. Também o barulho da porta é descrito pelo verbo “ranger”, que carrega uma carga semântica um tanto quanto sombria, e essa porta, como é de se supor para um lugar que está em ruínas, é velha, no poema eufemisticamente dita “anciã”, um adjetivo que costumamos dar às pessoas e não às coisas. Ademais, o chão era de pedra e aqui estamos diante do mesmo caso da “planta sem flor”. Não é algo que foge do comum o chão ser de pedra, mas a partir do momento que esse material é dito, especialmente no ambiente em ruínas em que estamos, ele colabora para a caracterização e o ar sombrio do lugar. Esse chão não faz simplesmente barulho enquanto o poeta, romanticamente chamado vate, caminha por ele. O chão “geme”. O que chama atenção não é a personificação somente, mas esse som, o gemido. Não é de se estranhar que, estando num lugar com tais características, o vate esteja inquieto. O quarto verso resume a paisagem do lugar: “ruína é tudo: a casa, a escada, o horto”. Até a pontuação do verso, seca, exata, contribui para a ambientação do lugar. Os dois-pontos marcam essa exatidão e as vírgulas, sem muita descrição, são pontuais.
O vate vai até esse lugar ao encontro de uma “austera moça” (o adjetivo parece combinar bem a quem está em meio a ruínas, e o fato de ser moça a coloca em contradição com a “porta anciã” e o “velho portão” daquela paisagem), que é descrita nos versos que seguem. Seus cabelos estão trançados e ela veste roxo. Diferente do lilás, uma cor que divide a cartela nos tons de roxo, o roxo nas vestes da moça imprime uma cor forte, às vezes associada à morte, à tristeza. Assim, podemos acreditar que a cor apenas reflita o estado emocional dessa criatura que “risos não tem (…)”. Apesar de não se deixar mostrar nos olhos, a mágoa que carrega “transluz” em seu gesto. Do mesmo modo, a dor “medrosa e casta”, “íntima e funda”, não está em sua face. As tristezas da moça não refletem em seu rosto, como o eu poético nos aponta no décimo quinto verso para o caso de a moça chorar: “(…) não murcha a flor do rosto”. Não bastasse, ela guarda a tristeza para si, sua melancolia é “tácita e serena”, não acorda os ecos com suas queixas. Toda a descrição da moça se reduz às suas tristezas e a como ela as cala e não deixa que transpareçam em seu rosto. O vate toma a moça pelas mãos e eles percorrem os sítios que, possivelmente, já haviam percorrido outrora, pois ele os chama “relembrados”. Além disso, tais sítios foram cenário mortuário, pois a “mão da fria morte” colhera almas por ali, e mais a frente, já no final da estrofe, eles contemplam os “insepultos ossos”. Esse lugar que está em ruínas parece, então, não apenas sombrio, mas quase que um leito mortuário. Notemos que, apesar de descrever a moça e tomá-la pela mão, o leitor e nem mesmo o vate sabem ainda quem é tal moça. Isso será revelado apenas no último verso do poema, e é importante dizer, nesse momento, que o poema é narrado em terceira pessoa. Na tentativa de saber quem era a moça, o vate pergunta “quem és?” e revela que as pedras e as árvores daquele lugar em ruínas a conhecem e mesmo ele tem uma lembrança dela, mas uma lembrança “vaga e amortecida”. É comum que o adjetivo “vaga” seja atribuído à lembrança, todavia, nos chama atenção o segundo adjetivo: “a(morte)cida”, pois ele não costuma ser ligado a sentimentos e se trata de uma lembrança “quase morta”. Assim, o tom ermo do lugar parece ter chegado até mesmo à lembrança do vate.
Colaborando para o ar sombrio dessas ruínas, anoitece. Essa noite que chega também traz uma carga semântica forte, pois a noite “arrasta” seu “manto escuro” e mesmo a Vésper da mitologia grega, a encarnação do planeta Vênus, a primeira estrela a brilhar no céu à noite, é invocada para os versos para prender nos seus ombros aquele manto:
Desceu de todo a noite,
Pelo espaço arrastando o manto escuro
Que a loura Vésper nos seus ombros castos,
Como um diamante, prende. Longas horas
Silenciosas correram. No outro dia,
Quando as vermelhas rosas do oriente
Ao já próximo sol a estrada ornavam
Das ruínas saíam lentamente
Duas pálidas sombras:
O poeta e a saudade.507
O vate e a moça ficam ali até o outro dia e possivelmente as horas que passaram não foram agradáveis, pois o eu poético as chama de “longas horas”. Quando amanhece, é revelado ao leitor quem era a moça: “das ruínas saíam lentamente / Duas pálidas sombras: / O poeta e a saudade”.
Dessa maneira, notamos que todo o poema fora construído numa metáfora. Trata-se de um vate que estava acompanhado de sua saudade, metaforizada na moça, a qual ele mesmo já conhecia, de uma lembrança “vaga e amortecida”. Do mesmo modo, as ruínas descritas podem não ser reais, mas serem uma representação das emoções do vate. Com relação à epígrafe, o eu poético machadiano escreve no momento de tristeza dos ninhos já sem pássaros; o contrário do que acontece com o eu poético de Longfellow, que escreve na alegria dos ninhos ainda habitados, na primavera de maio, mas que alerta para que se aproveite aquele momento, pois outro virá em que os pássaros já não estarão nos ninhos. Assim, para escrever “Ruínas” faz todo o sentido que os pássaros já não estejam nos ninhos, um ninho vazio combina perfeitamente com uma paisagem e um poema que estão a ruir.
La Marchesa de Miramar
La Marchesa de Miramar
A misérrima Dido
Pelos paços reais vaga ululando
Garção
De quanto sonho um dia povoaste
A mente ambiciosa,
Que te resta? Uma página sombria,
A escura noite e um túmulo recente.
Ó abismo! Ó fortuna! Um dia apenas
Viu erguer, viu cair teu frágil trono.
Meteoro do século, passaste,
Ó triste império, alumiando as sombras.
A noite foi teu berço e teu sepulcro.
Da tua morte os goivos inda acharam
Frescas as rosas dos teus breves dias;
E no livro da história uma só folha
A tua vida conta: sangue e lágrimas.
(…)508
“La Marchesa de Miramar” afirmará o interesse machadiano pelo México, já desperto nas Crisálidas no poema “Epitáfio do México”. Nas Falenas quem ganhará espaço é a imperatriz Carlota da Bélgica (1840-1927), esposa do imperador do México e arquiduque da Áustria Maximiliano de Habsburgo (1832-1867), chamada por Machado de Marquesa de Miramar. Esse poema, além das páginas das Falenas, ocupou também, sem nenhuma alteração, as páginas das Poesias completas.
A primeira coisa que chama atenção no poema é o título, que vem justamente em língua espanhola. Num primeiro momento o leitor pode estranhar, todavia, parece fazer sentido tal título quando percebemos que se trata da imperatriz do México, país de língua espanhola. Após esse título temos a epígrafe do português Pedro António Correia Garção, retirada do quinto e sexto versos da primeira estrofe da “Cantata a Dido”, publicada postumamente nas Obras poéticas (1778) do autor. Dido sofre profundamente e chaga ao suicídio após ter sido abandonada por Eneias. A epígrafe adianta ao leitor o teor do poema narrado em terceira pessoa: o intenso sofrimento amoroso de uma dama real. A Dido de Machado será
Carlota, cujo nome só é revelado na última estrofe.509
Sem a doçura da rima, “La Marchesa de Miramar” é composto de 101 versos brancos distribuídos em seis estrofes assimétricas. Também é assimétrica a distribuição da métrica, que combina hexa e decassílabos. A falta de exatidão nos versos pode sugerir a loucura de Carlota após se tornar viúva no poema e na história. É de se notar ainda, antes do estudo do enredo do poema, que, publicado em 1870, a história da morte de Maximiliano e a consequente dor sentida por sua esposa ainda estavam frescas, haja vista que o imperador teria sido fuzilado somente três anos antes. Talvez seja por isso que o eu poético, na primeira estrofe, chame “recente” o túmulo que, ao lado da “página sombria” e da “noite escura”, restou dos sonhos que um dia a marchesa teve:
De quanto sonho um dia povoaste
A mente ambiciosa,
Que te resta? Uma página sombria,
A escura noite e um túmulo recente.
Ó abismo! Ó fortuna! Um dia apenas
Viu erguer, viu cair teu frágil trono.
Meteoro do século, passaste,
Ó triste império, alumiando as sombras.
A noite foi teu berço e teu sepulcro.
Da tua morte os goivos inda acharam
Frescas as rosas dos teus breves dias;
E no livro da história uma só folha
A tua vida conta: sangue e lágrimas.510
A história de Maximiliano enquanto imperador do México durou pouco mais de dez anos, e desde o princípio seu trono estava ameaçado pelas alianças políticas feitas entre outros países da Europa. A fragilidade e brevidade desse trono são retratadas na segunda estrofe, na qual o “frágil trono” se ergue e cai no mesmo dia e é metaforicamente chamado “meteoro”: “meteoro do século, passaste”. Quando morreu, Maximiliano contava apenas trinta e cinco anos. Teve vida breve, bem como seu império. Os “breves dias” do imperador estão no final dessa mesma estrofe, resumidos poeticamente no final dela: “e no livro da história uma só folha / A tua vida conta: sangue e lágrimas”. A história da vida de Maximiliano, de fato, não conta muitos louros e suas tentativas de alianças políticas foram em grande parte frustradas, como a tentativa de aliança com o Brasil, então governado por D. Pedro II, seu primo. Não seria possível ao leitor pensar que a estrofe tratasse da morte da marquesa. Pelo menos não a morte física, haja vista que Carlota morrerá apenas em 1927, dezenove anos após a morte de Machado.
A terceira estrofe será destinada a cuidar dos amenos dias no Castelo de Miramar:
No tranquilo castelo,
Ninho de amor, asilo de esperanças,
A mão de áurea fortuna preparara,
Menina e moça, um túmulo aos teus dias.
Junto do amado esposo,
Outra c’roa cingias mais segura,
A coroa do amor, dádiva santa
Das mãos de Deus. No céu de tua vida
Uma nuvem sequer não sombreava
A esplêndida manhã; estranhos eram
Ao recatado asilo
Os rumores do século.
Estendia-se
Em frente o largo mar, tranquila face
Como a da consciência alheia ao crime,
E o céu, cúpula azul do equóreo leito.
Ali, quando ao cair da amena tarde,
No tálamo encantado do ocidente,
O vento melancólico gemia,
E a onda murmurando,
Nas convulsões do amor beija a areia,
Ias tu junto dele, as mãos travadas,
Os olhos confundidos,
Correr as brandas, sonolentas águas,
Na gôndola discreta. Amenas flores
Com suas mãos teciam
As namoradas Horas; vinha a noite,
Mãe de amores, solícita descendo,
Que em seu regaço a todos envolvia,
O mar, o céu, a terra, o lenho e os noivos.511
O “tranquilo castelo” é dito “ninho d’amor” e o eu poético quase que profeticamente deixa prever que dias ruins virão quando, no quarto verso da estrofe, revela um túmulo preparado pela fortuna. Carlota é chamada “menina e moça”, o que parece assertivo, pois quando se casou com Maximiliano a jovem tinha dezessete anos. Maximiliano, por sua vez, será o “amado esposo”. A história conta que Carlota recusara várias propostas de casamento para poder se casar com Maximiliano, por quem se apaixonara. Ele, contudo, em primeira instância se casou com a jovem por interesse econômico, pois estava endividado após iniciar a construção justamente do Castelo de Miramar. O dote da “menina e moça” foi utilizado para acabar a construção. É pintado na estrofe um quadro de amor e amenidade. Nada parecia fazer sombra aos dias do casal, nem mesmo as incongruências pelas quais passava o século chegavam a eles: “(…) estranhos eram / Ao recatado asilo / Os rumores do século”. Um amor em exagero figura entre os amantes, Carlota e Maximiliano não tinham as mãos dadas, mas “travadas”, e os olhos, mais que unidos, “confundidos”. Nessa imagem, um não parece estar ao lado do outro, mas “no” outro, tal era a união do casal, ou a “efusão”, como chamará o eu poético na estrofe seguinte, acentuando o amor entre eles. As Horas, grupo de deusas da mitologia grega responsável pelas estações do ano, são evocadas no final da estrofe para marcar o tempo que passaram ali.
Contudo, a paz desse amor era contemplada pelo “sombrio destino” na quarta estrofe, que já lhes preparava “terríveis lances”:
Mas além, muito além do céu fechado,
O sombrio destino, contemplando
A paz do teu amor, a etérea vida,
As santas efusões das noites belas,
O terrível cenário preparava
A mais terríveis lances.
Então surge dos tronos
A profética voz que anunciava
Ao teu crédulo esposo:
“Tu serás rei, Macbeth!” Ao longe, ao longe,
No fundo do oceano, envolto em névoas,
Salpicado de sangue, ergue-se um trono.
Chamam-no a ele as vozes do destino.
Da tranquila mansão ao novo império
Cobrem flores a estrada, – estéreis flores
Que mal podem cobrir o horror da morte.
Tu vais, tu vais também, vítima infausta;
O sopro da ambição fechou teus olhos…
Ah! Quão melhor te fora
No meio dessas águas
Que a régia nau cortava, conduzindo
Os destinos de um rei, achar a morte:
A mesma onda os dois envolveria.
Uma só convulsão às duas almas
O vínculo quebrara, e ambas iriam,
Como raios partidos de uma estrela,
À eterna luz juntar-se.512
Na quarta estrofe, como adiantamos, a união do casal é efusão (o que já era de se esperar depois das “mãos travadas” e dos olhos
confundidos”).513 Um amor tanto que se derrama e que não se guarda, não é reprimido, mas se declara. Essas efusões são adjetivadas santas, o que aproximará o casal do amor verdadeiro, o amor que, na fé cristã, se aproxima de Deus. O “sombrio destino” dessa estrofe também estará na seguinte, e será ele quem chamará Maximiliano ao trono, como as bruxas – ou feiticeiras, dependendo da tradução – fizeram com Macbeth, que é retomado no quarto verso da quinta estrofe: “tu serás rei, Macbeth!”. É interessante notar que esse mesmo trecho é utilizado por Machado no centésimo capítulo de Dom Casmurro (1900) ao tratar da felicidade de Bentinho. A recorrente frase shakespeariana está na terceira cena do primeiro ato da tragédia Macbeth (1606). Macbeth ambiciona e acaba por ter o trono da Escócia. Essa mesma ambição parece ter cegado Maximiliano quando lemos no décimo segundo verso: “o sopro da ambição fechou teus olhos”. A saída do Castelo de Miramar com destino ao Império do México também está na estrofe, quando os amantes saem “da tranquila mansão ao novo império”. O verso que segue traz uma imagem curiosa, as flores da estrada são “estéreis flores”. Essa imagem não apenas revela um caminho que já é de tristezas, como também pode pretender ilustrar a própria esterilidade de Carlota, que, segundo rumores, não podia engravidar. O destino aparece novamente na estrofe, no décimo sexto verso, revelando a futura morte do futuro rei: “os destinos de um rei, achar a morte”. O final da estrofe tenta sugerir outro destino para o casal sem fugir da morte. O eu poético sugere então que poderiam ter morrido juntos, no caminho, envoltos pela onda do mar.
Na última estrofe do poema há a morte de Maximiliano no fuzilamento, por isso tal quantidade de sangue na noite mexicana no sexto verso: “orvalhava sangue a noite mexicana”.
Mas o destino, alçando a mão sombria,
Já traçara nas páginas da história
O terrível mistério. A liberdade
Vela naquele dia a ingênua fronte.
Pejam nuvens de fogo o céu profundo.
Orvalha sangue a noite mexicana…
Viúva e moça, agora em vão procuras
No teu plácido asilo o extinto esposo.
Interrogas em vão o céu e as águas.
Apenas surge ensanguentada sombra
Nos teus sonhos de louca, e um grito apenas,
Um soluço profundo reboando
Pela noite do espírito, parece
Os ecos acordar da mocidade.
No entanto, a natureza alegre e viva,
Ostenta o mesmo rosto.
Dissipam-se ambições, impérios morrem.
Passam os homens como pó que o vento
Do chão levanta ou sombras fugitivas.
Transformam-se em ruína o templo e a choça.
Só tu, só tu, eterna natureza,
Imutável, tranquila,
Como rochedo em meio do oceano,
Vês baquear os séculos.
Sussurra
Pelas ribas do mar a mesma brisa;
O céu é sempre azul, as águas mansas;
Deita-se ainda a tarde vaporosa
No leito do ocidente;
Ornam o campo as mesmas flores belas…
Mas em teu coração magoado e triste,
Pobre Carlota! O intenso desespero
Enche de intenso horror o horror da morte.
Viúva da razão, nem já te cabe
A ilusão da esperança.
Feliz, feliz, ao menos, se te resta,
Nos macerados olhos,
O derradeiro bem: – algumas lágrimas!514
A nacionalidade da noite é uma grande pista para revelar qual a história retratada no poema. Aquela “menina e moça”, da terceira estrofe é chamada, agora, “viúva e moça” e sua loucura, após saber da morte do “amado esposo” (Carlota não estava no México quando aconteceu o fuzilamento. A imperatriz estava na Europa em busca de alianças políticas), não tarda a chegar. O primeiro indício de loucura está no décimo primeiro verso, nos “sonhos de louca”, e estará também mais para o final da estrofe, no trigésimo terceiro verso, quando ela, além de viúva do esposo, está “viúva da razão”. Pouco antes, a estrofe traz “no entanto, a natureza alegre e viva”. A alegria e vivacidade da natureza servirão no poema para contrastar com a tristeza da “pobre Carlota” (assim chamada apenas no trigésimo primeiro verso). O poema se encerrará dando à Carlota a condição de feliz, mesmo com a tragicidade de sua história, caso reste a ela “o derradeiro bem: – algumas lágrimas”.
O poema é, sobretudo, uma história de amor, ou dessa mulher que ama tanto, que tem sua própria racionalidade morta junto do esposo. Em 1870, ela se aproxima de Dido apenas pelo sofrimento de amor e pela realeza a que pertenciam, todavia, houvesse Carlota morrido antes dessa data, ela se aproximaria da personagem de Garção também pelo triste fim. Apesar disso, nossa Carlota foi mais feliz que Dido, pois não fora abandonada pelo esposo e teve a chance de, nos breves dias de Miramar, viver a paz daquele amor.
Sombras
Sombras
Que tienes? Que estás pensando
Gloria de mi pensamiento
Cervantes
Quando, assentada, à noite, a tua fronte inclinas,
E cerras descuidada as pálpebras divinas,
E deixas no regaço as tuas mãos cair,
E escutas sem falar, e sonhas sem dormir,
Acaso uma lembrança, um eco do passado,
Em teu seio revive? O túmulo fechado
Da ventura que foi, do tempo que fugiu,
Por que razão, mimosa, a tua mão o abriu?
Com que flor, com que espinho, a importuna memória
Do teu passado escreve a misteriosa história?
Que espectro ou que visão ressurge aos olhos teus?
Vem das trevas do mal ou cai das mãos de Deus?
É saudade ou remorso? É desejo ou martírio?
(…)515
“Sombras”, tal qual “Ruínas”, trará um ar de escuridão para as Falenas, o que colabora para o fato de estarmos diante de um livro que evoca a noite já em seu título. Além desse livro, “Sombras” também fora publicado nas Poesias completas e, antes delas, em 1897, transcrito no Machado de Assis, de Sílvio Romero. Não houve alteração no poema, com exceção da publicação de 1901, na qual o poema perde a epígrafe. Sobre ela, Machado apenas indica o autor, Cervantes. Desse autor, encontramos na biblioteca machadiana dois volumes: o primeiro, como já citamos no caso do estudo de “Ruínas”, é o El ingenioso Hidalgo Don Quijote (s.d.); o segundo,
são as 516 Novelas ejemplares de Cervantes (1883). Os versos que servem de epígrafe para o poema brasileiro, “o que tens? Em que
estás pensando / Glória de meu pensamento?”, 517 foram retirados da tragédia La Numancia (1585), que, de modo geral, retrata a história da guerra que se deu durante a conquista da Espanha pelos Romanos e a resistência dos espanhóis a essa conquista, em especial dos habitantes de Numancia. O trecho recortado por Machado está na primeira cena do terceiro ato, na fala que Morandro dirige à sua amada Lira. Morandro era um dos grandes soldados de Numancia, enamorado de Lira, ele dá a própria vida para que ela não morra de fome. Lira, contudo, se recusa a comer o pão comprado com a vida de seu amado e acaba morrendo por sua pátria. O trecho da epígrafe está justamente no momento em que Morandro pergunta à Lira o que ela tem, e ela, por sua vez, se queixará de fome.
O poema é composto de 28 alexandrinos de rima emparelhada distribuídos em três estrofes de treze, onze e quatro versos, respectivamente. O título sugere que o poema traga em seu corpo elementos que retomem a escuridão e que tenham certo ar de tristeza. Essa escuridão estará logo no primeiro verso do poema no vocábulo “noite”, usado para indicar em qual momento do dia se dá o que o eu poético se põe a questionar:
Quando, assentada, à noite, a tua fronte inclinas,
E cerras descuidada as pálpebras divinas,
E deixas no regaço as tuas mãos cair,
E escutas sem falar, e sonhas sem dormir,
Acaso uma lembrança, um eco do passado,
Em teu seio revive? O túmulo fechado
Da ventura que foi, do tempo que fugiu,
Por que razão, mimosa, a tua mão o abriu?
Com que flor, com que espinho, a importuna memória
Do teu passado escreve a misteriosa história?
Que espectro ou que visão ressurge aos olhos teus?
Vem das trevas do mal ou cai das mãos de Deus?
É saudade ou remorso? É desejo ou martírio?518
Durante todo o poema, o eu poético se dirige a alguém que não sabemos quem é, é esse alguém que coloca as mãos no rosto à noite “e escutas sem falar, e sonhas sem dormir”. O verso, composto especialmente de contradições, revela que essa pessoa a quem o eu poético se dirige parece estar atormentada, e veremos adiante que alguma lembrança pode estar causando esse tormento. Desse verso em diante, até o final da estrofe, o eu poético formulará uma série de questionamentos, e o primeiro deles será sobre a lembrança, “eco do passado” que poderia estar revivendo. O segundo questionamento nos indicará que tal lembrança deve ser de alguém que já morreu, pois o eu poético perguntará por que razão ela (supomos ser uma mulher a interlocutora do eu poético já que ele se dirige a ela sempre com doçura e a chama de “mimosa” no oitavo verso da primeira estrofe) teria aberto o “túmulo fechado”. A terceira pergunta será sobre a “misteriosa história” escrita pela “importuna memória”. Não nos chama atenção aqui apenas o fato de essa história ser misteriosa, o que já nos lega o fato de que alguma coisa estaria mal resolvida, ou sombria, mas principalmente o fato de a memória que recobra essa história ser uma memória importuna. O próximo questionamento será se tal lembrança é um espectro ou uma visão e o questionamento seguinte reforçará o sentido pretendido nesses versos: “vem das trevas do mal ou cai das mãos de Deus?”. Se tal recordação fosse um espectro, teria vindo das “trevas do mal”, seria algo ruim. Se fosse visão, teria caído das “mãos de Deus”. O mesmo jogo de bom e ruim desses versos estará no verso final da primeira estrofe, quando as duas últimas perguntas são feitas: “é saudade ou remorso? É desejo ou martírio?”.
A estrofe seguinte traz a metáfora de um templo apenas iluminado pelo círio com luz que cobre apenas a nave e o altar, todo o resto está “em treva”:
Quando em obscuro templo a fraca luz de um círio
Apenas alumia a nave e o grande altar
E deixa todo o resto em treva, — e o nosso olhar
Cuida ver ressurgindo, ao longe, dentre as portas
As sombras imortais das criaturas mortas,
Palpita o coração de assombro e de terror;
O medo aumenta o mal. Mas a cruz do Senhor,
Que a luz do círio inunda, os nossos olhos chama;
O ânimo esclarece aquela eterna chama;
Ajoelha-se contrito, e murmura-se então
A palavra de Deus, a divina oração.519
Os que estão no templo (e o eu poético se inclui nessa metáfora, pois fala do “nosso olhar”) apenas veem “as sombras imortais das criaturas mortas”. O manejo das palavras que se dá nesse verso relembra o do quarto verso da estrofe anterior, quando a interlocutora do eu poético escutava sem falar, sonhava sem dormir. Aqui, temos criaturas mortas que têm sombras imortais. A antítese não está só no sentido geral do verso, mas no próprio par mortal/imortal. O coração daqueles que veem essas sombras palpita “de assombro e de terror”. O contrário a essa situação virá no meio do sétimo verso da estrofe por meio da conjunção adversativa “mas”. Será a “cruz do Senhor” que chamará o olhar para o círio, o ânimo é recobrado e os que estão no templo se ajoelham em oração. O que atrai nosso olhar na metáfora elaborada nessa estrofe é o círio, ou ainda, sua chama. A luz do círio chama os olhos dos fiéis que estão no templo, “o ânimo esclarece aquela eterna chama”. A chama, no oitavo e no nono versos da estrofe, não é apenas a conjugação do verbo “chamar”, é ainda, e talvez sobretudo, a chama do próprio círio aceso.
Entenderemos o porquê da construção dessa metáfora somente na estrofe final do poema:
Pejam sombras, bem vês, a escuridão do templo;
Volve os olhos à luz, imita aquele exemplo;
Corre sobre o passado impenetrável véu;
Olha para o futuro e vem lançar-te ao céu.520
Nessa estrofe, o eu poético pede que sua interlocutora, tal qual fora feito naquele templo, volte seus olhos para a luz e imite tal exemplo: “volve os olhos à luz, imita aquele exemplo”. Ele pede ainda que seja jogado sobre o passado um “impenetrável véu”, ou seja, que aquela lembrança não possa mais ser retomada, não cause mais “sombra” no pensamento de sua interlocutora. Em oposição ao passado que deve ser esquecido, ele pede, no verso final, que ela olhe para o futuro e se lance ao céu. O final do verso, “(…) e vem lançar-te ao céu” é um convite para que ela olhe o círio do templo daquela estrofe anterior, que se volte para a fé cristã, o que nos leva a supor que ela talvez não vivesse na fé e por isso estava em “sombras”.
Não vemos muito da La Numancia nos versos de “Sombras”. O aproveitamento dessa epígrafe deve estar especialmente no pensamento, já que as sombras dos versos machadianos estavam nos pensamentos da sua interlocutora, como provavelmente estariam em sombras também os pensamentos de Lira, que sofria com a guerra e com a fome, depois de já ter tido o irmão fatigado
pela 521 hambre .
Quando ela fala
Quando ela fala
She speaks!
O speake again, bright angel!
Shakespeare
Quando ela fala, parece
Que a voz da brisa se cala;
Talvez um anjo emudece
Quando ela fala.
Meu coração dolorido
As suas mágoas exala,
E volta ao gozo perdido
Quando ela fala.
(…)522
“Quando ela fala” será o primeiro poema mais “mimoso” das Falenas e também é um dos poucos que teve alguma publicação intermediária entre a deste livro e a das Poesias completas, a saber, a transcrição do poema na obra de Teófilo Braga (1843-1924), Parnaso português (1877). Não houve alterações no poema de uma para outra publicação.
Como pudemos perceber, Falenas é de fato o livro que abre espaço para a língua inglesa. A epígrafe desse poema será também de fonte do novo idioma. Costurados aos versos machadianos temos um pequeno trecho da fala de Romeu na segunda cena do segundo ato do drama Romeo and Juliet (1597), de William Shakespeare. O conhecido drama do autor inglês contará a história de dois jovens apaixonados que têm seu amor impedido pela rivalidade entre suas famílias. O trecho escolhido por Machado para compor a epígrafe vem de uma das cenas mais conhecidas desse drama, a cena do balcão, ou do terraço. Nessa cena, Romeu está no terraço da casa de Julieta, às escondidas, e ela está na sacada de seu quarto. O casal troca juras de amor. A cena foi retratada, inclusive, por alguns pintores, como Anselm Feuerbach (1829-1880), na tela Romeo and Juliet (1864), e Ford Madox Brown (1821-1893), na tela que também recebe o nome do todo, Romeo and Juliet (1870).
A epígrafe de Machado está na segunda fala de Romeu, logo no começo da cena, após a primeira fala de Julieta. Assim que a moça fala, ele se dobra em comoção amorosa e clama que ela fale de
novo: “ela fala! Ó fala de novo, anjo brilhante!”.523 Vimos na leitura de “La Marchesa de Miramar” que Machado era conhecedor da obra de Shakespeare pela interlocução com Macbeth. Na biblioteca machadiana temos vinte e quatro volumes de Shakespeare. As primeiras dez obras são uma coleção das Oeuvres complètes de William Shakespeare traduzidas por Émile Montegut e publicadas pela Libraire Hachette entre 1867 e 1873. Teremos outro livro intitulado The beauties of William Shakespeare (1839), publicado pela London C. Daly. Por fim, teremos nova coleção publicada pela Bradbury, Evans and Co. em 1868, aparentemente livros de bolso da obra de Shakespeare, The handy volume. Usamos aqui o
inventário feito por Massa.524 Não pudemos consultar tais volumes, todavia, supomos que Machado tenha se valido dessa última coleção como leitura que futuramente lhe serviu de epígrafe. Nossa hipótese se baseia em dois fatos: o primeiro é o fato de a epígrafe estar em língua inglesa, tal qual essa publicação (a primeira coleção era uma tradução para o francês); e o segundo é o fato de alguns volumes da primeira coleção terem saído após a data de publicação do poema. Não conseguimos consultar os mesmos volumes da biblioteca machadiana, mas tivemos por princípio a consulta de um volume publicado nos oitocentos e em língua inglesa. Assim, utilizamos para este estudo o The plays and poems of William Shakespeare (1821), publicado por um grupo de editores londrinos no qual figura um dos editores do The handy volume, R. H. Evans.
O poema “Quando ela fala” parece tentar retratar o que se passava na alma de Romeu ao ouvir a voz de sua amada. O poema não é mimoso só no tratamento do tema, mas também o é na estrutura. São quatro quartetos compostos de três versos em redondilha maior e um verso de quatro sílabas poéticas (sempre o último da estrofe e sempre o mesmo, homônimo ao título do poema, configurando um refrão para as estrofes). O esquema rímico adotado é o das rimas alternadas, de modo que a rima do segundo verso de cada estrofe sempre terá a terminação -ala, para rimar com o refrão no quarto verso, “quando ela fala”.
De modo geral, cada uma das estrofes falará dos efeitos causados quando essa moça, supostamente a Julieta de Romeu (mas que pode ser qualquer outra amada), fala. Por se tratar se um poema não muito extenso, optamos por reproduzi-lo num único lance:
Quando ela fala, parece
Que a voz da brisa se cala;
Talvez um anjo emudece
Quando ela fala.
Meu coração dolorido
As suas mágoas exala,
E volta ao gozo perdido
Quando ela fala.
Pudesse eu eternamente,
Ao lado dela, escutá-la,
Ouvir sua alma inocente
Quando ela fala.
Minha alma, já semimorta,
Conseguira ao céu alçá-la
Porque o céu abre uma porta
Quando ela fala.525
Na primeira estrofe a “brisa se cala” e o “anjo emudece”, o que parece mostrar o poder da voz “dela”, pois é capaz de fazer calar a natureza e mesmo os seres divinos. A estrofe seguinte traz o efeito causado no eu poético, que tem seu “coração dolorido” esvaziado das mágoas e retornando ao gozo. As próximas duas estrofes também tratarão do eu poético. A terceira traz o desejo dele em escutá-la pela eternidade. Nessa estrofe, ele anseia ouvir a “alma inocente” dela. A alma também estará na estrofe seguinte, mas será a dele, “já semimorta”. Devemos notar rapidamente dois aspectos. O primeiro deles é a caracterização dessas almas. A dela, inocente; a dele, semimorta, já que possivelmente está longe dela (daí o anseio na estrofe anterior em escutá-la). Há certo grau de romantismo nos versos, já que ela é essa criatura idealizada, com poder de calar a natureza e o anjo; e ele, como amante entregue, quase chega à morte se está longe dela. O segundo aspecto diz respeito ao tipo de relação entre eles, uma relação não carnal, não física, mas entre almas. A alma semimorta dele consegue chegar ao céu ao ouvir a voz dela, porque mesmo o céu “(…) abre uma porta / Quando ela fala”. Nesses versos finais, além de termos novamente acentuado o poder dela, temo-la colocada num nível hierarquicamente superior ao do eu poético. Isso já era de se supor pelas estrofes anteriores, contudo, está aqui mais claramente marcado pelo termo “céu”. Ela é uma criatura do alto. Assim, na última estrofe do poema quase podemos enxergar os quadros de Anselm e Ford e vemos o eu poético com o olhar voltado para o alto, de onde vem a voz da amada. Não bastasse, esse céu que se abre pode ser encontrado em diferentes momentos na Bíblia, como no versículo dos “Atos dos Apóstolos”: “(…) e disse: eis que estou vendo os Céus abertos, e o Filho do Homem que está em pé à mão