Epígrafes e diálogos na poesia de Machado de Assis

Audrey Ludmilla do Nascimento Miasso · Capítulo 2 de 23

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Epígrafes e diálogos na poesia de Machado de Assis

Uma leitura em espiral das Epígrafes Machadianas

Uma leitura em espiral das

Epígrafes Machadianas

 

Hélio de Seixas Guimarães

O assunto escolhido, a extensão e profundidade da pesquisa, a clara organização dos capítulos, a redação precisa e a documentação preciosa incluída como anexo já seriam mais do que suficientes para fazer deste Epígrafes e diálogos na poesia de Machado de Assis, originalmente uma dissertação de mestrado, contribuição importante para os estudos sobre Machado de Assis. Além de todas essas qualidades, o livro se distingue pela capacidade de Audrey Ludmilla do Nascimento Miasso, aproveitando a lição machadiana, em examinar um problema aparentemente periférico e menor em seus mais variados aspectos, ampliando seu alcance e tirando dele consequências que extrapolam em muito a delimitação do seu ponto de partida.

O livro não se contenta, portanto, “apenas” em identificar as fontes das epígrafes que acompanham boa parte dos poemas de Machado de Assis, o que, vale dizer, já seria uma grande contribuição para o estudo da poesia do autor. As epígrafes aqui são descritas e estudadas em relação ao idioma em que aparecem, a seus autores, aos textos dos quais foram pinçadas, ao contexto literário das obras de que foram extraídas, ao fato de terem sido ou não traduzidas por Machado, à maneira como vêm ou não assinadas nos sucessivos livros de poemas.

Como se isso não fosse suficiente para singularizar seu trabalho, Audrey dá mais um passo, analisando e interpretando as conexões entre as epígrafes escolhidas pelo escritor e os versos e estrofes de cada um dos poemas epigrafados. E ainda vai além, mostrando a importância do peritexto na definição e no desenvolvimento do projeto literário de Machado de Assis, em que a citação a outros textos e autores tem papel decisivo.

A autora distancia-se, assim, da tradicional divisão de Machado de Assis em poeta, teatrólogo, romancista, contista, crítico, missivista, facetas muitas vezes estudadas de maneira estanque, quando não excludente. Com isso, ele é pensado no âmbito deste trabalho não apenas como poeta, mas como escritor que ao longo de toda sua trajetória tanto contribuiu para a definição dos vários gêneros que praticou (poesia, teatro, crítica, conto, romance, correspondência) como para o questionamento dos limites entre eles.

A partir do entendimento de que Machado de Assis constrói uma poética a partir de suas leituras, Audrey mostra como autores tão díspares como Miguel de Cervantes, Filinto Elísio, Gonçalves Dias, La Rochefoucauld, Henry Longfellow, Alexandre Dumas Filho, Homero, Dante e Madame de Staël figuram na biblioteca machadiana. Mais do que isso, mostra como esses autores participam e transitam por sua obra como um todo, de modo que o que está na poesia em formato de epígrafe pode aparecer na prosa como alusão ou citação, e vice-versa.

A partir do estudo minucioso de cada um dos poemas recolhidos por Machado em seus livros, e com uma visão integradora da obra, a autora mostra, por exemplo, como os movimentos digressivos que marcam a prosa, principalmente a partir das Memórias póstumas de Brás Cubas, estão presentes desde cedo na sua produção poética.

Dando ainda mais um giro na espiral que descreve a partir do estudo das epígrafes, a autora estuda também a recepção da poesia de Machado de Assis, mostrando como as epígrafes foram importantes e produtivas para a leitura dos poemas pelos contemporâneos do autor.

Audrey acompanha ainda a incidência e o comportamento das epígrafes livro a livro, estudando os modos como Machado as reorganiza em Poesias completas, seu “testamento” poético publicado em 1901, no qual reuniu, com modificações, os três volumes de poemas publicados nos anos de 1860 e 1870 – Crisálidas, Falenas e Americanas –, acrescidos de um livro inédito, Ocidentais.

O estudo constata que o número de epígrafes diminui ao longo do tempo. Crisálidas, livro de estreia, é o mais epigrafado, ao passo que Ocidentais não tem nenhum poema com epígrafes. Segundo a interpretação muito plausível da autora, isso teria a ver com a crescente autonomia do escritor, que cada vez mais pôde prescindir dos nomes conhecidos, até não mais precisar evocar autoridades para legitimar sua poesia. Se o jovem escritor precisou de “muletas”, como diz, para se posicionar no ambiente literário e construir seu lugar de consagração – e sabemos como Machado foi um escritor cioso da sua reputação e preocupado com a posteridade –, o escritor de Ocidentais, presidente da Academia Brasileira de Letras, já não precisava desse recurso.

A autora mostra que a diminuição do número de epígrafes, e mesmo a retirada das epígrafes da primeira edição dos livros para sua incorporação às Poesias completas, vem acompanhada de uma assimilação cada vez maior, no interior mesmo dos poemas, de muitas referências e alusões. Para usar uma imagem cara à autora, é como se as epígrafes deixassem sua posição de destaque no alto dos poemas e escorressem pelos versos e estrofes, misturando-se a eles. Eis aí outro procedimento a aproximar a poesia de Machado de Assis da sua prosa, que também se torna uma máquina cada vez mais voraz de citações e alusões.

A palavra diálogo, também destacada no título deste livro, refere-se principalmente à interlocução que Machado estabelece com outros escritores. Entretanto, ela caracteriza muito bem a disposição intelectual da autora e seu engajamento com a melhor bibliografia sobre a poesia de Machado de Assis ao dialogar com trabalhos de Cláudio Murilo Leal, Jean-Michel Massa, José Américo Miranda, Manuel Bandeira, Marcelo Sandmann, Rutzkaya Queiroz dos Reis e Wilton Marques, entre outros. No âmbito teórico, o diálogo se estabelece principalmente com os estudos de Gerard Genette e Antoine Compagnon, que contribuem para a fundamentação sólida deste livro.

Ao final da leitura, o leitor saberá quase tudo o que se possa saber sobre o uso das epígrafes na poesia de Machado de Assis e as repercussões do procedimento sobre a obra machadiana como um todo. E não terá dúvida de que está diante de uma pesquisadora de muito talento e de uma intérprete que oferece com este livro contribuições substantivas para os estudos sobre o autor.

“Machado de Assis mistura a coisas de empréstimo sua própria parte de

criação e não nos esqueceremos de dar a César o que lhe pertence. As

inumeráveis referências que cruzam a sua obra formam uma trama, mas a

tapeçaria é dele mesmo.”

Jean-Michel Massa,

A juventude de Machado de Assis.