Epígrafes e diálogos na poesia de Machado de Assis
O Poeta Machado de Assis
Há muito o nome de Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) vem circulando no meio acadêmico em diferentes pesquisas de áreas e temas diversos, do mesmo modo que fora diversa também a produção literária machadiana, que ultrapassou os oitocentos e ainda vigora, e dá frutos dois séculos depois. Pode parecer arriscado pensar a obra de um dos membros fundadores da Academia Brasileira de Letras ainda hoje, depois de tantas pesquisas desenvolvidas tanto no campo biográfico quanto no estudo de seu legado enquanto escritor. Contudo, se é verdade que a literatura não se esgota, mas multiplica-se, esse deve ser o caso das pesquisas que se debruçam sobre o trabalho de escritores que compõem o cânone literário brasileiro e que já foram exaustivamente estudados pela academia.
O escritor carioca criado no Morro do Livramento deixou uma obra que nasce na poesia, mas explora também a crítica literária, o teatro, o conto e o romance, sem deixar de lado, ainda, uma ou outra tradução empenhada n’algum desses gêneros. Sem dúvida, foi pela prosa que o escritor se tornou grande, mas o autor de Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) não nasceu grande, tampouco nasceu prosador. Os primeiros passos do adolescente Machado se deram na poesia, em 1854, com o singelo “À Ilma. Sra. D. P. J. A.”. Apesar de os estudos machadianos acerca da obra poética virem conquistando aos poucos seu espaço, ainda hoje eles são menores em relação ao número de estudos dedicados à prosa, o que, muitas vezes, faz com que o escritor seja fragmentado num poeta menor e num prosador maior. Todavia, esquece-se que Machado de Assis é, seja poeta ou prosador, escritor e, como tal, deve ser visto e estudado em sua completude. Assim, voltar o olhar para a poesia machadiana significa não só entrar num terreno ainda rasteiramente explorado, haja vista a pouca fortuna crítica acerca de sua poesia, mas abrir possibilidades para novos estudos.
Ainda que o poeta de Corina tenha diminuído a frequência de escrita de seus versos no final da carreira, a produção poética não é de todo abandonada e é natural na obra de qualquer escritor que amadurece que a escrita da juventude traga traços diferentes da
escrita madura. O estudo empreendido neste livro1 se volta para essa escrita da juventude, ainda imatura, um pouco experimental, mas cheia de referências que formarão o escritor da maturidade. Desse modo, a leitura será a da poesia machadiana compilada pelo autor nos seus três primeiros livros de versos: Crisálidas (1864), Falenas (1870) e Americanas (1875). Nesses livros, além de algumas temáticas comuns, observou-se o uso constante da epígrafe, especialmente no caso das Crisálidas, o mais recheado delas. Olhar para a epígrafe do poema não nos permite encontrar apenas uma fonte de leitura machadiana, mas, sobretudo, entender como Machado articulou em sua obra aquilo que lera, como se deu a costura, como permitiu que sua obra fosse iluminada por outra. Os nomes e obras que assinam as epígrafes dos poemas machadianos certamente fazem parte das referências literárias que formaram o escritor jovem e algumas delas o acompanharam até a maturidade, como William Shakespeare, por exemplo.
A organização do livro se deu pela ordem cronológica, a fim de melhor visualizar como a relação da escrita machadiana com a epígrafe foi se aprimorando ao longo de sua carreira. Assim, temos um primeiro capítulo dedicado a apresentar o poeta e dar alguma noção sobre o estudo das epígrafes dentro do campo da literatura. O poeta é apresentado a partir de um pequeno panorama de seus poemas dispersos publicados na imprensa carioca até o ano de 1864 e o estudo das epígrafes é fundamentado especialmente nas
pesquisas de Genette e Compagnon.2 Já nesse primeiro capítulo é ofertada ao leitor uma pequena amostra do trabalho analítico que se dará nos capítulos dedicados aos livros (segundo, terceiro e quarto capítulos), para melhor se elucidar a relação da epígrafe com a composição machadiana.
O segundo capítulo é dedicado ao estudo das Crisálidas. O volume de epígrafes nesse livro ultrapassa metade das composições: dos 28 poemas machadianos no livro, 14 são epigrafados, de modo que, desses, os “Versos a Corina” apresentam uma epígrafe para cada uma das suas seis partes. Talvez pelo fato de ser esse o primeiro livro, Machado tenha buscado amparo em excesso para seus versos nos nomes consagrados, como Alfred Musset, Luís Vaz de Camões, Victor Hugo e outros. No capítulo, além da apresentação do livro, são dadas ao leitor as impressões da crítica oitocentista acerca daquela primeira obra e, então, são analisados os poemas epigrafados.
O terceiro e quarto capítulos seguem os moldes do primeiro. Neles são estudadas, respectivamente, as Falenas e as Americanas. Somando as epígrafes de Falenas e Americanas, temos quase o número de epígrafes das Crisálidas. São nove epígrafes na segunda coletânea de versos e oito na terceira. Dessa maneira, os capítulos num primeiro momento apresentam seus livros, mostram um pouco da recepção crítica de cada um deles e analisam seus poemas epigrafados.
Por sua vez, o último capítulo tece considerações acerca do trabalho empreendido por Machado ao epigrafar seus poemas. Ainda que os capítulos anteriores possam antecipar algumas dessas considerações, faz-se necessário formalizar a observação na tentativa de compreender melhor quais foram as maneiras que o poeta carioca recortou o texto de outrem e colou-o ao seu. A simples observação do abandono progressivo das epígrafes é melhor trabalhada e elaborada nesse capítulo, além de observações como o idioma dessas epígrafes, o período literário predominante, a nacionalidade dos textos, sua tradução ou não, a maneira como a assinatura das epígrafes vai se modificando ao longo das publicações etc.
No fim do livro é ofertado ao leitor um apêndice que se constitui numa coletânea dos poemas machadianos epigrafados com os quais trabalhamos, tanto os poemas dos livros quanto os dois poemas dos dispersos analisados no primeiro capítulo. Assim, o leitor pode experienciar a leitura dos poemas em sua completude, sem interrupções analíticas, além de visualizar a epígrafe no poema, tal qual Machado a colou. Os poemas foram transcritos na ordem em que aparecem nos livros machadianos, que é também a mesma ordem na qual empenhamos nossa análise.
Para todas as fontes, buscou-se trabalhar com edições publicadas durante o século XIX, na tentativa de melhor nos aproximarmos daquilo que fora lido por nosso poeta. Além disso, nos casos em que a obra se encontra no inventário levantado por Massa e Vianna n’A biblioteca de Machado de Assis (2001), como a Bíblia Sagrada, optamos por consultar, quando possível, a mesma obra, ou pelo menos com a mesma tradução ou publicada pela mesma editora. Em alguns casos, graças ao banco de dados levantado pela
pesquisadora Marta de Senna,3 é possível a identificação de alguns autores que serviram de referência tanto para poesia quanto para prosa, como Homero, Dante, Filinto Elísio e outros.
A pesquisa debruça-se sobre aquilo que na literatura saltava aos olhos de Machado e tenta observar como isso era aproveitado em sua obra, como aquilo que leu se tornava parte daquilo que compunha. Em outras palavras, trata-se de problematizar como essas obras dialogam. É evidente que a identificação das fontes faz parte desse estudo, todavia, ela é antes secundária (ainda que aconteça num primeiro momento) que primordial para o trabalho, uma vez que não se trata apenas de levantar nomes e dados, mas de enxergar dentro do projeto literário machadiano referências que apoiaram seus primeiros passos e que o formaram não só enquanto poeta, mas como escritor.