Epígrafes e diálogos na poesia de Machado de Assis
Os Primeiros Poemas e as Primeiras Epígrafes
Os primeiros poemas e as
primeiras epígrafes
1.1 Machado de Assis: versos e
epígrafes
Não é novidade para os estudos machadianos que aquele que hoje é conhecido especialmente por sua obra em prosa tenha iniciado a carreira escrevendo versos. Machado de Assis estreou nas letras publicando o soneto “À Ilma. Sra. D. P. J. A.” no Periódico dos Pobres, em 3 de outubro de 1854. Depois disso foram sucessivos poemas publicados nos periódicos da época, até que em 1864 viesse a público seu primeiro livro de poemas, Crisálidas. Apesar de não nos interessar quantificar a poesia machadiana, os números podem nos dar uma amostra da expressiva “inspiração” do poeta: excetuando-se os 28 poemas de autoria do poeta carioca que
compõem as 4 Crisálidas , foram 73 poemas publicados nos periódicos oitocentistas até setembro de 1864; somando o livro aos poemas dispersos, o total é de 101 poemas.
Ao longo de sua carreira, o escritor publicou versos dispersos, mesmo quando já era conhecido pelo trabalho na prosa, e quatro livros de poemas: Crisálidas falenas (1870), Americanas (1875) e Poesias completas (1901), este último era a reunião de poemas escolhidos dos livros anteriores mais o volume inédito chamado
Ocidentais 5 . Recentemente, Marques fez uma descoberta interessante: duas notas publicadas em 1858 e 1860, respectivamente, no Correio Mercantil e um anúncio publicado também em 1860 no Correio da Tarde revelam a intenção de Machado em publicar o volume intitulado Livro dos vinte anos (notemos a evidente referência ao romântico Álvares de Azevedo e sua Lira dos vinte anos). O tal livro, contudo, nunca veio a público e sequer sabíamos qualquer coisa acerca dele até então. Marques descarta a possibilidade de um aproveitamento de poemas do Livro nas Crisálidas, já que a maior parte dos poemas publicados na obra de 1864 é de composição posterior a 1860. Além disso, acredita-se que o Livro dos vinte anos foi vítima da autocrítica machadiana e de sua consciência literária e, por isso, não chegou a ser publicado.
Apesar de a maior parte dos estudos sobre a obra machadiana se debruçar sobre o prosador, os olhares estão aos poucos se voltando para o poeta, seja na tentativa de conhecer mais sobre a formação e a juventude do escritor, seja na busca por elementos da prosa que já estavam naquela poesia primeira. A respeito do embate entre poeta e prosador, Manuel Bandeira já assinalara com assertividade em ensaio de 1939 que “é um perigo para o poeta assinalar-se fortemente nos domínios da prosa. Entra ele nesse caso numa competência muito mais ingrata que a dos seus confrades: a
competência consigo próprio”. 6 Com relação aos nossos estudos sobre o poeta de Corina, acreditamos, sobretudo, na completude do autor antes de sua fragmentação em poeta ou prosador. Nesse sentido, o estudo dos poemas colabora, especialmente, para a visão do escritor em sua totalidade, da juventude à maturidade, de modo que para o estabelecimento do grande escritor, sem dúvida, foram necessários anos de experimentação e formação, os quais se deram especialmente via poesia.
Na leitura da obra poética completa machadiana, saltou aos nossos olhos a abundante presença das epígrafes, em especial no início da carreira do escritor. As epígrafes são identificáveis tanto nos livros de poemas, com exceção das Ocidentais, quanto nos poemas dispersos. Assim, nas Crisálidas, dos 28 poemas, metade conta com epígrafes, isso sem contar cada uma das seis partes dos “Versos a Corina”, pois há uma epígrafe para a totalidade do poema e outras seis distribuídas em cada uma das partes.
No segundo livro de poemas, Falenas, que também é composto de 28 poemas, o total de epígrafes será nove. Todavia, há uma epígrafe para o livro, em página separada, após o índice: “Labouring up”, assinada “Tennyon”. Acreditamos que o equívoco no nome do autor se trata de uma gralha tipográfica, já que as palavras estão no poema “Elaine”, que compõe um poema maior que narra a história da lenda do Rei Arthur, por sua vez intitulado Idylls of the King, de Alfred Tennyson. Trata-se de um trecho do décimo quinto verso da terceira estrofe de “Elaine”: “e veio Arthur, movendo vagarosamente
a passagem”. 7 Do verso, Machado se aproveita apenas de “labouring up”, que é uma expressão do inglês que significa mover-se devagar, com alguma dificuldade. Podemos interpretar ser esse o momento em que a falena sai da sua crisálida. No poema de Tennyson, é o momento em que Arthur encontra os diamantes da coroa do morto. Sem a intenção de aprofundar o estudo sobre as Falenas, o que será feito em capítulo específico, terminamos por dizer, com relação às suas epígrafes, que, como anuncia a epígrafe do livro, pela primeira vez haverá espaço nas epígrafes dos poemas machadianos para a língua inglesa. Ainda que o poema “Tristeza” de 1866 trouxesse epígrafe de Shakespeare, ela não vinha escrita na língua original, como as epígrafes das Falenas, mas traduzida.
Por fim, nas Americanas são oito poemas epigrafados. Tal qual nas Falenas, em que a novidade era o espaço para a língua inglesa, aqui também haverá uma novidade nas epígrafes: pela primeira vez há poemas que não contam com uma, mas com duas epígrafes: “Potira”, “Niâni” e “A Gonçalves Dias”. Dos 13 poemas que compõem as Americanas, mais da metade deles – oito – trazem epígrafes. Além disso, esse livro também traz uma epígrafe para o livro todo, escrita também em página separada, dessa vez após a
“Advertência”: “filha melhor do Eterno, / América!”. 8 Trata-se de versos do terceiro canto d’Os Timbiras (1857), mais especificamente o nono e o décimo versos da quinta estrofe, com autoria do poeta Gonçalves Dias. Do mesmo modo que acontece para essa epígrafe, em boa parte das epígrafes de Americanas Machado facilitará um pouco o trabalho do pesquisador na busca de fontes, pois as epígrafes são assinadas pelo nome do autor e o título da obra. Interessante notar a escolha de versos gonçalvinos para epigrafar um livro que traz já no título a invocação do nacional, haja vista que o poeta maranhense era aclamado naquele século como um grande cantor do seu país. Todavia, essa escolha também nos parece suspeita, pois o terceiro canto d’Os Timbiras é aquele que trata da destruição da América, e Machado recorta os versos do poema, que no original seriam: “não deras tu, filha melhor do Eterno; / América
infeliz, já tão ditosa”. 9 Assim, a aparente felicidade de ser na epígrafe “filha melhor do Eterno” apenas esconde a realidade de uma “América infeliz”, que parece combinar mais com os versos das Americanas.
Acerca dos poemas que não foram reunidos em livro, mas que ocupavam as páginas dos periódicos da época, dos 113 que se tem notícia hoje, 28 deles são poemas epigrafados. Chama-nos a atenção o fato de a grande maioria desses poemas que trazem epígrafes ter sido publicada até 1864. Somente dois foram publicados após essa data: “Tristeza”, publicado no Jornal das Famílias em agosto de 1866; e “A derradeira injúria”, publicado no livro O Marquês de Pombal: obra comemorativa do centenário da sua morte, de 1885. Ainda que as epígrafes estejam tanto nos poemas recolhidos em livros quanto nos poemas dispersos, a opção pelo trabalho com os livros se dá pelo fato de eles representarem certa unidade, somando a isso a oportunidade de conhecer com maior aprofundamento cada coletânea de versos. Observar a recorrência das epígrafes nos poemas machadianos, especialmente no início da carreira do escritor, pode nos trazer pistas interessantes não apenas sobre suas leituras, mas, mormente, sobre a elaboração do seu texto poético, já que as epígrafes não funcionavam apenas como um aglomerado de letras para preencher o espaço em branco. O que acontece com as epígrafes dos poemas machadianos e o que nos propomos a observar é o diálogo com a composição do poeta que, no início de sua carreira, fazia das palavras de outrem mote, trampolim, apoio, inspiração para sua própria escrita.
O poeta da Corina não adota um modelo para referenciar a fonte de suas epígrafes, as quais ora são assinadas apenas pelo título da obra em que se encontravam, ora somente pelo autor, ou, ainda, pelo autor e a obra. Há casos em que essa referenciação é bastante lacunar, como a epígrafe da parte IV dos “Versos a Corina”, em que ele apenas indica o autor da epígrafe pelas iniciais “A. M.”. Talvez a referência dessas iniciais nos versos que assinam fosse óbvia para a sociedade literária daquele século, mas dois séculos depois a identificação do autor ao qual essas iniciais estão ligadas nos causam alguma dificuldade. Essas poderiam ser as iniciais – pensando somente em autores franceses, já que esse é o idioma da epígrafe – de Antoine de La Motte, André Morellet ou Alfred de Musset, para citar apenas três. Ou ainda, podem ser as iniciais do polaco Adam Mickiewcz, que aparece em mais de uma epígrafe nas Crisálidas, ganha uma tradução e, segundo Machado nas notas do livro, era lido na tradução francesa de Christiano Ostrowski.
Os nomes que assinam essas epígrafes são diversos e não é incomum casos em que autores ou obras sirvam de referência tanto para a prosa quanto para a poesia. Está nos “Versos a Corina”, nos romances Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899), Esaú e Jacó (1904), Memorial de Aires (1908), A mão e a luva (1874), Helena (1876) e Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) o nome do poeta italiano Dante Alighieri. Camões, com exceção das publicações de 1874 e 1876, é outra referência nesses romances e também autor, dentre outras, da epígrafe do poema “Ludovina Moutinho”. Victor Hugo com seu poema “Les djinns” tem seu verso na epígrafe do poema “Última folha” e também é citado no conto “Mulher de preto”, sendo, portanto, uma leitura machadiana aproveitada tanto para o verso quanto para a prosa. Miguel de Cervantes, Filinto Elísio, Gonçalves Dias, François La Rochefoucauld, Henry Longfellow, Alexandre Dumas Filho, Homero e Madame de Staël são outros de tantos nomes que figuram nessa biblioteca machadiana. Assim, aquilo que está na poesia em formato
de epígrafe, na prosa, estará como alusão ou citação.10
Machado de Assis constrói sua poética a partir do que lera.11 Essa afirmação vai ao encontro do que anunciara Ruth Silviano Brandão já no título de seu artigo “O escritor é, antes de tudo, um leitor”. A pesquisadora pinta o escritor como alguém sempre sujeito às influências, e citar ou usar como epígrafe as leituras que o influenciaram seria uma maneira original de lidar com tais influências:
Escritores são, antes de tudo, leitores e buscam-se uns nos outros, no espaço constelar da literatura e se leem e se escrevem. Duplicam-se. Escrevem com suas leituras, que são também seus fantasmas, por isso a escrita guarda, mesmo sem saber, a memória do Outro, nunca coincidindo
exatamente com o que se lê, pois são releituras, recriações.12
Há nas epígrafes dos poemas de Machado todo um mostruário capaz de nos fazer notar o que saltava aos olhos do escritor, os nomes já consagrados que ele poderia utilizar, talvez, para legitimar sua escrita ainda jovem; os caminhos que percorria e os diálogos que estabelecia entre os já-ditos e sua composição, incluindo, dessa maneira, sua produção no mesmo espaço ocupado pelos textos já conhecidos; e, principalmente, a elucidação do primeiro estado de sua escrita. O diálogo entre a epígrafe e o poema altera os dois textos, tanto a epígrafe, que é recortada de seu “original”, quanto o poema, que ao abrigar essa epígrafe faz emergir um novo sentido para seus versos. Ivo Barbieri nos explica melhor essa relação: “descontextualizando categorias e enunciados, emenda-os em novos contextos, construindo novos textos, os seus, sobre as ruínas
de textos desmoronados”. 13
Não há como negar que as epígrafes atestam as leituras desse poeta ainda em formação, mas isso nos interessa menos que o entendimento do trabalho que Machado articulou nos seus próprios versos a partir do que lera. Sendo o texto literário composto pelo entrelaçar de outros textos, é interessante que nos debrucemos não (apenas) sobre as fontes, influências ou intertextos, mas que, além disso, entendamos como esses intertextos são transformados de um para outro texto (do primeiro, o já-dito, para o segundo, que lhes acolhe e que, no nosso caso, são os poemas), como se manifestam nos poemas e como com eles se relacionam, apontando para o surgimento de novo texto a ser interpretado. A partir disso é possível dar à epígrafe maior reconhecimento dentro do texto literário e perceber que ela não funciona somente como marca do romantismo e sim de tantas outras formas.
A epígrafe dentro do texto literário:
uma apresentação
Bendita citação! Ela tem o privilégio, entre todas as palavras do léxico, de designar ao mesmo tempo duas operações – uma, de extirpação, outra, de enxerto – e ainda o objeto dessas duas operações – o objeto extirpado e o objeto enxertado – como se ele permanecesse o mesmo em diferentes estados.
Antoine Compagnon, O trabalho da citação, grifos nossos.
Pode parecer óbvio iniciar a discussão acerca da epígrafe justamente com uma, e talvez realmente o seja. Contudo, o exercício de epigrafar se mostra importante para o entendimento teórico do nosso ponto principal nesse momento da discussão. Desse modo, as palavras de Compagnon se transformam num trampolim para que iniciemos o estudo daquela que, segundo o mesmo autor, é a “citação por excelência, a quintessência da
citação”. 14
O trecho que recortamos para preencher o espaço vazio entre o subtítulo desse capítulo e nosso texto nos chama atenção pelo seu “como se”. O trabalho que buscamos empreender no estudo das epígrafes dos poemas machadianos se configura justamente nesse “como se”. Assim, entendemos que o texto de outro, quando enxertado no poema machadiano, já não é o mesmo, de modo que balizamos nossos estudos reconhecendo que a epígrafe já não é o mesmo texto do seu “original”, mas outro, que, costurado ao poema, fará emergir um novo sentido. É esse sentido, a iluminação do texto, que nos interessa.
Ao buscar a etimologia da palavra epígrafe no Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa (2011), de Antônio Geraldo da Cunha, observamos que a palavra deriva do grego επιγραφη, que significa inscrição. Todavia, essa mesma palavra grega deriva duma outra, επιγραφω, que por sua vez significa “escrever acima de”. Dessa forma, é possível notar que a definição que temos hoje de epígrafe já estava em seu nascimento, desde “criança” ela era essa inscrição de um texto no outro e ocupava o mesmo lugar, “acima de”, precedendo o texto do qual é parte. Do mesmo modo, a epígrafe, em alguns casos, e talvez especialmente no estudo de seu diálogo com o texto ao qual serve, pode ser entendida como o “falar com”, pois suscita um diálogo entre os textos, entre a tradição e o novo, entre temáticas que se
reafirmam ao longo da história literária. 15 Olhando estruturalmente um texto, a epígrafe é facilmente identificável e seus limites, num primeiro momento, parecem claros. Porém, se usarmos lupa e fizermos uma leitura mais atenta, veremos que a epígrafe está diluída no texto em versos, retomadas, ideias, palavras, apropriações, movimentos subjetivos do eu poético que bebeu daquela fonte, de modo que o texto da epígrafe, quando bem apropriado pelo poema, parece se confundir com ele. Haverá, assim, rastros daquela epígrafe mesmo no corpo do poema, o que nos faz concordar com a professora Maria de Fátima Outeirinho, quando trata do papel de mediação da epígrafe e afirma que “a sua presença aproxima, desde logo, duas experiências poéticas distintas, sugerindo hipóteses de contaminação ou pelo menos
testemunhando o reconhecimento da existência do Outro”. 16
No Dicionário de termos literários de Massaud Moisés, além da definição de epígrafe, é possível encontrar informações históricas
interessantes acerca do uso desse elemento paratextual. 17 De acordo com o autor, já no século XVI era possível registrar a presença das epígrafes, as quais viraram moda a partir dos anos 1700. Aliás, é em 1704 que a palavra surgirá no dicionário, o Dictionnaire de Trevoux. Na literatura brasileira, “o mais remoto
exemplo se encontra em Glaura (1799), de Silva Alvarenga”. 18 A definição de Moisés aponta ainda para o fato de como a epígrafe, por muito tempo, serviu para pura e simplesmente fornecer informações acerca da “doutrina básica” e do “nível cultural” de um poeta. Desse modo, “o fato de Castro Alves citar Ésquilo, Heine e Shakespeare em francês, denota ao mesmo tempo o âmbito de
suas leituras e em que língua as fazia”. 19 O mesmo vale para Machado, que cita em francês, italiano, espanhol, inglês e vai dos bíblicos a Homero, passando por Dante Alighieri, Almeida Garrett, Adam Mickiewicz, Mme. de Stël, Victor Hugo, Gonçalves Dias e outros. Todavia, ainda que o trabalho com as epígrafes incida num primeiro momento na “busca de paternidade” (especialmente no caso dos primeiros poemas, nos quais falta o nome da obra ou às vezes o do autor, ou, ainda, a assinatura é uma simples
abreviação),20 a identificação das fontes por si só sem o entendimento de como elas se articulam na composição machadiana nos parece menos interessante.
Genette, por sua vez, nos estudos daquilo que ele denominou paratexto, definirá suscintamente a epígrafe chamando-a “citação
colocada em exergo”. 21 De acordo com o histórico levantado pelo autor, a epígrafe é um paratexto mais recente que a dedicatória e sua primeira aparição teria sido na obra Les caractères (1688), de Jean de La Bruyère. Trata-se de uma epígrafe de autoria de Erasmo: “nosso propósito foi advertir, e não morder; melhorar, e não
ferir; corrigir os erros dos homens, e não prejudicá-los”.22 Dez anos antes, as Maximes et refléxions morales (1678) de La Rochefoucauld já traziam uma epígrafe, todavia, como era uma epígrafe não assinada, Genette prefere não afirmar que a frase seja uma epígrafe; ele entende que, antes, ela se constitua numa máxima modelo para o livro todo: “nossas virtudes não passam na
maioria das vezes de vícios disfarçados”. 23
Apesar desse surgimento no século XVII e de suas aparições em
alguns romances góticos do XVIII, 24 a epígrafe ganhou fôlego somente no XIX, com o movimento romântico. Um exemplo de abundância de epígrafes está em Han d’Islande (1823), de Victor Hugo, que traz uma epígrafe para cada um dos seus cinquenta e um capítulos, e há capítulos que chegam a ter quatro epígrafes. Aparentemente, a maior preocupação para essas epígrafes em exagero era, na verdade, o nome que as assinava, de modo que muitas vezes elas não se relacionavam com o conteúdo do texto que antecediam, ou, ainda, não estabeleciam um diálogo que produzisse sentido. Hugo as chamou: “epígrafes estranhas e misteriosas, que singularmente acrescem interesse e dão mais
fisionomia a cada parte da composição”.25
O estudo das fontes das epígrafes acaba, por vezes, esbarrando em alguns problemas. O primeiro deles é a verificação se tal epígrafe é de fato autêntica, isto é, se ela realmente pertence ao autor que a assina ou se foi, por descuido, falta de memória ou gracejo, atribuída falsamente a um autor. Há ainda a possibilidade de essa epígrafe, caso traga na sua assinatura o nome do autor e a referência da obra, ser autêntica mas inexata, pois a referência pode estar errada. Isso acontece, por exemplo, na epígrafe da terceira parte dos “Versos a Corina”, que de acordo com a inscrição feita por Machado teria sido retirada dos Sonetos da Crimeia, de Adam Mickiewicz. Contudo, na verdade, os versos da epígrafe são do poema elegíaco “A. D. D.”, também de Mickiewicz.
O mais comum é que as epígrafes sejam, pelo menos, assinadas, mas não contenham a referência. É o que se dá com a maioria das epígrafes dos primeiros poemas machadianos. Porém, como não há regra nem mesmo tipográfica para as epígrafes, há casos em que a assinatura do autor acompanha a referência da obra ou, ainda, no caso de obras muito conhecidas, é possível encontrar apenas a referência, sem o nome do autor. Permanecendo no campo da autoria das epígrafes, elas podem ser alógrafas ou autógrafas. As primeiras designam epígrafes cuja autoria difere da autoria do texto maior. Como, por exemplo, a epígrafe de “Ludovina Moutinho”: o autor do poema é Machado, mas a epígrafe é de Camões. Por conseguinte, as segundas designam epígrafes em que a autoria da obra maior e da epígrafe é a mesma. É o caso de “Teu canto”,
poema machadiano com epígrafe dele próprio. Genette26 discretamente condena esse último tipo de epígrafe, o que entende por “falta de modéstia”, especialmente nos casos em que o autor nem mesmo tenta disfarçar a autoria. Estão inclusas nas epígrafes autógrafas aquelas eventualmente assinadas por personagens fictícios do próprio autor. O personagem de Este lado do Paraíso (1920), Thomas Parke d’Invillers, assina a epígrafe de O grande Gatsby (1925), ambos livros de F. Scott Fitzgerald. Como pudemos perceber, a autoria das epígrafes é um terreno arenoso e acerca disso vale refletir sobre as palavras de Walter Scott, quando escolhe as epígrafes de Chronicles of the Canongate (1827-1828):
Os trechos de poemas colocados no começo dos capítulos destes romances são às vezes extratos de autores, alguns dos quais são até citados de memória; mas em geral são pura invenção. Tive muito trabalho em pesquisar a coleção dos poetas ingleses para descobrir epígrafes convenientes; e, vendo-me na situação do contrarregra que, após ter esgotado o papel branco que tinha para representar a neve caindo, continuou a fazer neve com papel pardo, recorri à minha memória pelo tempo que me foi possível e, quando ela se esgotou, completei-a com a invenção. Acho que, em certos locais onde os nomes dos autores aparecem embaixo das supostas citações, seria de todo inútil procurá-las
nas obras dos escritores aos quais são atribuídas essas passagens.27
Parece-nos, portanto, que nem sempre o diálogo entre a epígrafe e a obra que a abriga será possível e, mais que isso, é necessário que desconfiemos das próprias epígrafes, já que não há garantia de sua autenticidade.
Apesar de o exercício de epigrafar ter sido praticado especialmente pelos românticos, não é exclusividade do texto
romântico trazer em si o texto do outro. Antonio Candido, 28 ao tratar da “Literatura comparada” nos seus Recortes, constrói dois parágrafos para mostrar que os autores do período clássico já incorporavam em seus textos as palavras dos seus confrades. Contudo, essa in(corpo)ração, como a palavra já nos mostra, se dava no corpo dos textos, sem menção aos autores e sem marcas de pontuação, como aspas ou travessão. Não havia tamanha preocupação com a originalidade e, ao contrário, a imitação era
“timbre de glória”. 29 Isso se dava de tal modo que era possível ler quase que ipsis litteris Tasso em frei Francisco de São Carlos, Anacreonte em Tomás Antônio Gonzaga, Virgílio e Petrarca em Basílio da Gama etc. Por outro lado, os românticos viveram um período em que parecia importante proclamar as particularidades de cada literatura, e no caso específico dos brasileiros, ainda jovens nas letras, são as literaturas matrizes (nomenclatura dada por Candido), especialmente a francesa, que lhes servirão de apoio. O poeta romântico “desliga do texto a referência e a empurra para o destaque da epígrafe, onde ela aparece com o nome do autor e a
forma exata, assumindo plenamente o caráter de referência”. 30 Machado, que no início de sua carreira respirava os ares do romantismo, ilustra esse movimento nos seus primeiros versos, o que pode ser visualizado numericamente se nos atentarmos ao fato de que o primeiro livro de poemas do autor, o mais jovem e romântico, Crisálidas, é o que mais conta com epígrafes; já o volume inédito publicado nas Poesias completas (1901),
“Ocidentais”, não traz nenhuma. 31
O jogo abundante de epígrafes nos poemas românticos não se dava apenas por modismo ou eruditismo, ou ainda para legitimar a escrita dos jovens iniciantes nas letras e deixar o leitor num lugar confortável, já que encontrava nos versos jovens palavras antigas e já lidas. A epígrafe pode ser vista como uma marca de influência e profundidade. No primeiro caso, podemos ler temas e modos de escrita de um poeta no outro, são influências provavelmente nascidas da leitura constante daquele autor que lhe serviu de epígrafe. No segundo, temos quase que uma aferição de grau. Trata-se de conseguir ver de que modo aquela epígrafe não está apenas no topo do poema, mas escorre pelos seus versos e estrofes, revelando o aproveitamento que se faz da epígrafe ao
longo da composição.32 A leitura, para esse segundo caso, não teria sido apenas constante, mas íntima e atenta.
Em artigo publicado nas Lettres Françaises (n. 5, 2003), Maria Cecília de Moraes Pinto nos aponta dois sentidos principais para o uso das epígrafes:
(…) como a citação, da qual se diferencia por estar em destaque e não no corpo do texto, invoca uma autoridade. O poeta parece pedir o amparo do escritor consagrado. Por outro lado, a epígrafe serve muitas vezes para revelar o espírito que preside ao poema e, nesse caso, tenta direcionar a leitura. De certo modo, ao mesmo tempo incorpora-se ao texto e dele se
distingue.33
Nos casos em que a epígrafe serve de amparo, ou trampolim, como nos serviu no início desse estudo e como sugere
Compagnon,34 a tendência ao abandono da epígrafe no decorrer da carreira é grande. Possivelmente esse tenha sido o caso do nosso escritor, como também foi o caso de Balzac, que as usou na
juventude e progressivamente as abandonou na maturidade.35 Em casos assim, é natural que o olhar do leitor se volte mais para o autor da epígrafe que para a própria epígrafe ou para o modo como ela se articula no texto. Aquele nome que a assina será o lugar de conforto do leitor, onde ele se acomoda no nome já conhecido. Assim, o jovem escritor lança mão com esperteza desse artifício e pode aconchegar seu leitor. Contudo, ainda que desempenhando o papel encorajador de trampolim, a epígrafe enxertada no texto novo será modificada por ele e ao mesmo tempo o modificará. É dessa capacidade da epígrafe, ou da citação, que surgiu a questão posta por Compagnon: “(…) o que eu trabalho e me trabalha ao mesmo
tempo?”; a resposta vem de pronto: “o texto, a citação”. 36 Assim, acreditamos que uma das coisas que torna o trabalho com a epígrafe tão enriquecedor é o fato de esse pequeno fragmento de texto, que por vezes passa despercebido, ter a capacidade de ser, ao mesmo tempo, ativo e passivo.
Já nos casos em que a epígrafe revela o “espírito que preside ao
poema”,37 temos um trabalho que suscita maior participação do leitor, que, para uma leitura mais enriquecedora, terá que partilhar com o autor do texto as referências que este dá na epígrafe. As referências, retomadas, citações, alusões, epígrafes de que um autor lança mão e que acabam por nos revelar esse espírito que presidiu sua obra em concordância com a obra de outrem, fazem
surgir o 38 litterarum penus (expressão de Compagnon) desse autor,
isto é, suas bases, seu “fundo literário”.39 Ou, parafraseando
Genette, 40 por meio da epígrafe o autor escolhe seus pares e designa seu lugar no Panteão.
Genette41 amplia esses ensaios sobre o amparo ou o espírito do texto dando quatro funções não explícitas para a epígrafe. A primeira delas dataria do século XX e seria o caso de epígrafes que desempenham o papel de comentário, explicação ou justificativa do título. Como exemplo, o pesquisador aponta a epígrafe de Vigny para obra de Marcel Proust, Sodome et Gomorre (1921): “a mulher
terá Gomorra e o homem terá Sodoma”. 42 Poderia, ainda, acontecer o movimento inverso, no caso em que a epígrafe é explicada pelo título da obra. A segunda função é mais canônica e consiste nas epígrafes que funcionam como comentário do próprio texto, de forma que ela é capaz de precisar ou ressaltar indiretamente seu significado. Dentro dessa função estariam, ainda, as epígrafes que, especialmente no período romântico, desempenham um papel de afetividade com o leitor, como estabeleceu Stendhal: “a epígrafe deve aumentar a sensação, a emoção do leitor, se pode haver emoção, e não apresentar um julgamento mais ou menos filosófico
sobre a situação”.43 Já a terceira função é a mais oblíqua delas e se entende por aquelas epígrafes que não se relacionam com o texto epigrafado, mas que estão ali pela pura importância do autor que as assina. Escolhendo um grande nome para assinar minha epígrafe, tenho, de certo modo, as palavras daquele autor no meu trabalho sem ter que consultá-lo ou lhe pedir permissão. De acordo com Genette, Shakespeare é o recordista nesse caso, é o autor que mais assina epígrafes no meio literário. Curiosamente, Shakespeare é, na prosa, o autor mais citado por Machado. Por fim, a quarta função é o próprio efeito-epígrafe. O ato de epigrafar já muda o texto e faz com que ele seja visto de outra maneira pelos que o leem: “a epígrafe por si só é um sinal de cultura, uma palavra-passe para a
intelectualidade”. 44 Isso explicaria, talvez, o porquê de as epígrafes serem mais abundantes no início da carreira dos escritores. Apenas a leitura cuidadosa não só da epígrafe, mas do texto como um todo, é capaz de apreender essas funções que podem, por vezes, ser concomitantes.
O trabalho com a epígrafe pode ser observado, ainda, na totalidade da obra, como é o caso das considerações que este livro pode trazer. Ao visualizar o total das epígrafes da obra de um autor, é possível observar os caminhos que percorreu, suas preferências linguísticas e estéticas, os autores mais retomados e como esses
autores influem nas obras às quais servem. 45 E não apenas as questões textuais estão inseridas no trabalho com a epígrafe, mas, ainda, traços da cultura:
Na verdade, a análise da(s) epígrafe(s) no conjunto da obra de um autor ou de autores pertencentes a uma mesma geração ou partilhando atitudes estéticas particulares poderá ser uma tarefa a não menosprezar pelo seu valor subsidiário (embora exija por vezes uma paciência beneditina), no que diz respeito a uma correta avaliação da difusão de um autor estrangeiro noutras literaturas. E será desnecessário recordar que para além da circulação de um escritor com opções literárias específicas num universo outro, está também em causa sua pertença cultural que com ele
viaja.46
Sem querer adiantar as considerações finais neste capítulo, que ainda é o primeiro, com relação às preferências linguísticas nas epígrafes de Machado, notamos que a maior parte das epígrafes, dezesseis delas, está em língua francesa, as quais são em sua maioria de autores franceses, com exceção das epígrafes em que Mickiewicz é o autor, pois ele era polaco e nosso poeta o lia na tradução para o francês empreendida por Ostrowski. Das línguas estrangeiras, italiano será a segunda (quatro epígrafes), seguida do espanhol (três epígrafes) e, por fim, do inglês (duas epígrafes). Em português também há um número considerável de epígrafes, são catorze no total, às quais somamos outras duas que possivelmente foram traduzidas pelo próprio Machado, uma de Homero e outra de Simônides de Ceos. É interessante notar, nessa primeira visão geral da obra, que os nomes que ocupam as epígrafes dos poemas são, sobretudo, nomes de autores reconhecidos pelo cânone. Contudo, nos primeiros poemas, os dispersos, encontramos nomes que não alcançaram o reconhecimento e sucesso para além de sua época. É o caso, por exemplo, de certo E. D. Vilas Boas e João de Lemos. Assim, podemos entender que as epígrafes estão sujeitas, inclusive, à atmosfera da época. Para o leitor do nosso século, reconhecer o nome de Hugo numa epígrafe pode não ser difícil, mas compreender as implicações que o nome de C. A. de Sá traz pode
ser mais complicado. 47
O estudo das epígrafes dos poemas machadianos, assim como o estudo de suas citações na prosa, explorado com muito afinco pela pesquisadora Marta de Senna, revela os nomes que compunham a biblioteca de Machado de Assis e como esses nomes acabam por, de algum modo, contaminar a escrita machadiana, em especial a escrita da juventude. Entre as lendas que rondam a biografia do nosso escritor está, por exemplo, a hipótese de que ele cultivava anotações, recortes, fichas daquilo que lia. Se o fundador da Academia Brasileira de Letras realmente se dedicava a essa tarefa, certamente alguns nomes desse catálogo estão em suas epígrafes, de modo que elas seriam o que da leitura machadiana ressoou na escrita. Essa leitura que salta aos olhos, que grifo e recorto é o embrião da citação. Ao passo que esses recortes ocupam o lugar da epígrafe dos poemas, temos um trabalho mais elaborado. Passamos do recorte à colagem e tal colagem deve funcionar efetivamente para que se tenha um trabalho de qualidade. O que aqui tentamos explicar pela metáfora do recorte e da colagem,
trazida por Compagnon, 48 Quintiliano nos explicará pela metáfora da mastigação: “assim como se mastiga por muito tempo os alimentos para digeri-los mais facilmente, da mesma maneira o que lemos, longe de entrar totalmente cru em nosso espírito, não deve ser transmitido à memória e à imitação senão depois de ter sido
mastigado e triturado”. 49
O trabalho da epígrafe no texto literário sem dúvida evoca a
princípio a função fática definida por Roman Jakobson, 50 aquela que estabelece, prolonga ou interrompe a comunicação. A função fática está aqui no diálogo estabelecido com o texto literário que precede o texto epigrafado, num movimento de diálogo com a própria tradição. Logo, a epígrafe dialogará com o texto que dela se apropria e, pressupondo esse diálogo, fica evidente que a epígrafe não apenas
preenche o espaço em branco, 51 mas o modifica, influindo, inclusive, no léxico, que em alguns casos poderá se aproximar bastante da obra que gerou a epígrafe. Nesse diálogo entre as duas obras, que faz da epígrafe, como dissemos, ativa e passiva ao mesmo tempo, emerge um novo sentido. Assim, a epígrafe que trabalha o poema e é ao mesmo tempo trabalhada por ele faz com que possamos captar o sentido, que são as relações entre esses textos.