Epígrafes e diálogos na poesia de Machado de Assis

Audrey Ludmilla do Nascimento Miasso · Capítulo 15 de 23

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Epígrafes e diálogos na poesia de Machado de Assis

4.2 A busca pela “alma americana” nos versos de 1875

4.2 A busca pela “alma

americana” nos versos de 1875

 

O número de artigos dedicados à poesia machadiana foi diminuindo no decorrer de suas publicações. As Americanas, mesmo que se diferenciem dos livros anteriores, somaram apenas quatro textos de crítica. O primeiro deles saiu ainda em dezembro, dia 20, e a acreditar em Ubiratan Machado, a autoria seria de Sílvio Romero: “tudo sugere que tenha sido redigido por Sílvio Romero:

desde o tom doutrinário até a conclusão agressiva”.597 Apesar de conhecermos as desavenças entre esse crítico e Machado de Assis, interessa-nos antes suas palavras acerca do livro que as “picuinhas” literárias.

As palavras de Romero foram publicadas no Brasil Americano e o artigo é iniciado com o lamento pelo fato de as novidades nas letras serem assunto secundário para os jornalistas de então. O crítico logo deixará claro ao seu leitor que o texto é antes um protesto que uma crítica: “(…) aventuramos o nosso juízo a respeito das Americanas, mais como um protesto do que como uma crítica, e baseamo-lo não só nos nossos íntimos sentimentos pátrios, mas também no muito que nos merece o robusto e respeitável talento do

poeta”. 598 Romero parece embasar seu protesto mesmo no talento machadiano para a poesia.

O primeiro apontamento feito pelo crítico será aproveitado da “Advertência” do livro, a qual, como vimos, elege como essencial a alma humana em detrimento dos elementos acessórios. Para Romero, “o sentimento americano não se apossou [da alma de Machado]” e “os elementos externos são o principal esteio da

produção poética”, 599 já que motivariam o gesto dos protagonistas. O artigo se encerra não menos que diminuindo as composições do volume de 1875, chamando-as “frouxas narrações,

cronimetrificadas, quadros sem colorido nem vigor”. 600

Ferreira de Araújo, abreviado “L.” devido ao seu pseudônimo “Lulu Sênior”, também escreve algumas considerações acerca das Americanas, dessa vez na Gazeta de Notícias de 11 de janeiro de 1876. Para o crítico, o volume de 1875 nem mesmo precisaria ser assinado, pois havia nele toda a feição literária machadiana: “as Americanas não careciam de trazer assinatura: não há aí página, não há frase, em que se não revele a bem caracterizada feição literária do escritor de A mão e a luva, do poeta das Falenas:

ninguém mais no Brasil escreveria livro igual”.601 As palavras de Araújo não só nos fazem reconhecer certa simpatia do crítico pelo labor poético e literário machadianos (pois cita também uma obra em prosa), mas nos fazem observar o espaço que Machado vem ganhando na sociedade das letras dos oitocentos, já que, ao que parece, era reconhecido pelo seu próprio modo de escrever, não carecia de assinatura.

No decorrer do artigo, o crítico aproxima a pena machadiana da de Garrett e Gautier e elogia grandemente a forma dos versos. Contudo, assim como Romero, Araújo não encontrará alma americana no livro de poemas: “não falamos já do estilo, demasiado português; referimo-nos ao ‘essencial’, que é a alma do homem.

Essa é que, nas 602 Americanas , não é americana”. Assim como nas Crisálidas o prefácio de Filgueiras foi motivo para que a crítica esmiuçasse a obra a fim de ali encontrar o que o crítico e advogado elogiara, a “Advertência” das Americanas aparentemente despertou na crítica a busca pela alma. A crítica procura uma alma americana, mas na advertência essa alma não tem nacionalidade, ela se assemelha antes ao caráter e aos valores de qualquer humano independente da raça, cor, credo ou país.

Araújo elenca “Niâni” e “Cantiga do rosto branco” como suas poesias favoritas e, inclusive, transcreve algumas estrofes delas, o artigo é encerrado colocando as Americanas na qualidade de adorno para a literatura: “livro destes, se não enriquecem uma literatura, pelo menos a adornam encantadoramente. Não é belo,

não; mas o é elegante”. 603

O terceiro artigo dedicado às Americanas será de Carlos Pereira, publicado em 16 de janeiro de 1876 no Correio Paulistano. Apesar de curto e elogioso, o artigo publicado em São Paulo é o primeiro a, aparentemente, compreender a concepção machadiana acerca da poesia americana:

O último trabalho do conceituado poeta, se não é uma revelação perfeita do que deve ser a poesia propriamente americana, é pelo menos muito mais aceitável e curial do que a infeliz tentativa de alguns outros poetas brasileiros que, a pretexto de fazerem poesia nacional, foram imitando a

torto e a direito o gênero quase selvagem iniciado por Gonçalves Dias.604

O crítico elogia o “bom gosto e inovação” do poeta, chama o livro de “esplêndida novidade” e destaca com felicidade que não há naquelas páginas o estilo sombrio e sangrento da poesia byrônica que vinha tomando os poetas de então. Pereira termina seu texto saudando o livro para que seja bem-vindo.

Por fim, Salvador Mendonça escreverá algumas palavras sobre as Americanas n’O novo mundo, de Nova York, em agosto de 1876. O artigo de Mendonça deveria ter sido publicado em março naquele ano, segundo a correspondência que enviara a Machado, mas o atraso não poupou os elogios.

O crítico traz no início de seu texto longos parágrafos acerca do clima e da paisagem americana e relaciona-os à literatura de outrora, que cuidava daquela cor local. Esse será o ensejo para tratar da poesia indígena, que frente ao industrialismo, vinha sendo a primeira a desaparecer. Diante de tal desaparecimento, para o crítico, o poeta que retomasse o passado estava saudando a própria pátria:

Por isso, toda vez que vemos um poeta esquecer-se da vida da sociedade presente, para volver ao passado e arrancar das sombras em que já imergem os vultos merencórios dos heróis indígenas; toda vez que um homem de talento notável, aceitando o legado do canto de Os Timbiras, evoca as tribos que vão sumir-se nos sertões, recuando diante da invasão conquistadora, até oferecer-lhe a batalha derradeira que aqui na América no Norte se está ferindo nas fronteiras do oeste; toda vez que esse poeta fixa em quadro vivaz, com cores imperecíveis, paisagens alpestres que vão desbotando para dar lugar ao alinhamento simétrico das povoações

de gente culta, e salva do olvido um nome, uma memória, mais do que isso, um traço da fisionomia nacional, não podemos deixar de enviar-lhes os nossos emboras, porque está mais do que ninguém levantando um monumento patriótico. // Esta impressão causa a leitura das Americanas,

do Sr. Machado de Assis.605

Essa é uma das poucas vezes em que a crítica literária direcionada à poesia enxergará o patriotismo nos versos machadianos. O crítico dará ainda a Machado um “lugar eminente

nas letras pátrias”. 606 Mendonça apenas critica “A cristã nova”, “Sabina”, “José Bonifácio” e “Os semeadores”, talvez pelo fato de tais composições não retomarem o elemento indígena.

O artigo será encerrado tratando do próprio modo de escrever machadiano, autocorretivo e “consciencioso, é sempre o último a se

mostrar satisfeito com o que produz”, 607 e mostra que, além da simpatia, o volume de poemas de 1875 desperta admiração.

Em 18 de março de 1876 teria saído n’O Globo uma nota transcrita do La Libertad, jornal argentino, que discorria sobre o livro de poemas machadiano. Todavia, não se conhece a autoria da nota. O pequeno texto é bastante elogioso, chamando as Americanas

“glória da literatura fluminense”. 608

Em resumo, o livro agradou a crítica medianamente, a qual ainda preferiu os poemas mais próximos ao elemento indígena, como “Potira” e “Niâni”, e procurou a tal alma americana em cada página do livro. O fato de a maior parte dos críticos reconhecerem Machado como um nome importante da poesia mostra que o poeta fluminense, onze anos depois da publicação de seu primeiro livro, ainda tinha prestígio no gênero, embora a essa altura já tivesse publicado o livro de contos Histórias da meia-noite (1873) e os romances Ressurreição (1872) e A mão e a luva (1874).