Epígrafes e diálogos na poesia de Machado de Assis

Audrey Ludmilla do Nascimento Miasso · Capítulo 6 de 23

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Epígrafes e diálogos na poesia de Machado de Assis

Crisálidas

2.1 O primogênito livro de

poemas

 

Entre o fim de setembro e o começo de outubro de 1864, a B. L.

Garnier publica as 123 Crisálidas , primeira coletânea de versos assinada pelo poeta de 25 anos Machado de Assis. O contrato entre Baptiste Louis Garnier e o poeta de Corina – que já se conheciam do Jornal das Famílias, periódico sob a chancela de Garnier e para o qual Machado colaborava – data de 26 de junho daquele ano, e nas 178 páginas do livro estavam distribuídos um prefácio, 29

poemas, 124 um posfácio, várias notas, três erratas e um índice. O escritor já tinha, em 1864, publicado Desencantos (1861), Queda que as mulheres têm pelos tolos (1861), O protocolo (1863) e O caminho da porta (1863), todas peças teatrais, porém, com a publicação das Crisálidas, seria a primeira vez que receberia direitos

autorais. 125 126 Segundo Massa, o poeta recebera 150.000 réis pelos mil exemplares da edição. Ainda segundo o estudioso, esse era um valor razoável para um principiante, Fagundes Varela, por exemplo, teria vendido ao editor, durante dois anos, seus Cantos e fantasias (1865) por 250.000 réis.

Ainda que esse seja o primeiro livro de poemas, seria equivocado entender essa publicação como sua estreia na poesia, haja vista a quantidade de poemas dispersos publicados nos periódicos oitocentistas antes que as Crisálidas viessem a público. Tanto não é essa a estreia machadiana que, entre os apontamentos que a crítica fez ao livro, soava constantemente a condenação do volume por trazer poemas já conhecidos do público, pois haviam circulado nos

periódicos de então.127 O reaproveitamento de poemas já publicados, segundo a crítica, não faz jus ao título do livro, que remonta algo novo, por nascer. Assim, se pensarmos na definição do vocábulo crisálida, encontraremos um inseto encasulado prestes a atingir nova fase. O casulo machadiano é o livro, seu inseto são os poemas que se encontram no interior de suas páginas. A crisálida remonta, sobretudo, algo em transformação, de modo que, então, parece justificável que o velho (os poemas já publicados) e o novo (os poemas inéditos) convivam. Ademais, no caso dos poemas reaproveitados, se levarmos em conta que eram mais de setenta poemas publicados até 1864, a seleção de um ou de outro implica num trabalho reflexivo de Machado sobre sua própria obra, o que

leva Massa128 a concluir que, diferente do que a crítica acreditava, Crisálidas não era um ponto de partida, mas de chegada. Foi o labor poético das produções anteriores e a maturação do escritor enquanto poeta que tornou a coletânea possível.

Com relação à temática do livro, não há uma unidade, do mesmo modo que a ordenação dos poemas parece não seguir uma ordenação lógica explícita. Os temas são variados, passam da inspiração da musa para certo episódio bíblico, sem esquecer o trabalho do poeta ou os sofrimentos da pátria (não do Brasil, mas do México e da Polônia). A única possibilidade que visualizamos foi enxergar no livro um trabalho encerrado nele mesmo, já que o volume é aberto com um poema que pede a inspiração da musa, “Musa Consolatrix”, e é encerrado com um poema em que as musas

se retiram, “Última folha”.129 A ausência de um fio que ligue um poema ao outro pode estar relacionada à rapidez com que o volume fora preparado, pois o contrato, como dissemos, data de 26 de junho de 1864, e o prefácio do Dr. Filgueiras data de menos de um mês depois, 22 de julho. Cerca de dois meses depois as Crisálidas já eram comercializadas. Todavia, essa rapidez na organização do volume também nos leva à hipótese que pode anular o que inferimos anteriormente: teria Machado já organizado um livro de poemas antes mesmo do contrato, tendo alguma publicação em mente? Não é possível responder nem certificar uma ou outra hipótese.

Antes que nos debrucemos sobre a análise dos poemas epigrafados, é interessante, para melhor enxergar como o volume de poemas foi visto em sua época, recorrer às críticas endereçadas ao livro, a fim de melhor compreender o universo literário que foi berço das Crisálidas.