Epígrafes e diálogos na poesia de Machado de Assis
2.2 Um prefácio laudatório, algumas palavras da crítica e o aniversário das Crisálidas
2.2 Um prefácio laudatório,
algumas palavras da crítica e o
aniversário das Crisálidas
A primeira crítica endereçada às Crisálidas está impressa na carta-prefácio do próprio livro (“O poeta e o livro: conversação preliminar”), assinada pelo baiano, na época residente no Rio de Janeiro, Caetano Filgueiras. A impressão do texto de Filgueiras junto às Crisálidas foi recorrentemente apontada como um erro pelos demais críticos literários, isso porque, no texto, Filgueiras se deixa levar pela amizade e simpatia que tinha por Machado e acaba por tecer elogios demasiados ao jovem poeta. Todavia, o poeta de Corina demonstra ter alguma consciência da exageração do amigo antes mesmo que a crítica apontasse para essa direção, pois escreve para as Crisálidas um posfácio agradecendo Filgueiras e pedindo que o leitor não espere tanto do livro:
O meu livro é esse pouco que tu caracterizaste tão bem atribuindo os meus versos a um desejo secreto de expansão; não curo de escolas ou teorias; no culto das musas não sou um sacerdote, sou um fiel obscuro da vasta multidão dos fiéis. Tal sou eu, tal deve ser apreciado o meu livro;
nem mais, nem menos.130
O prefácio laudatório de Caetano Filgueiras será utilizado por alguns dos demais críticos para justificar a “busca por defeitos” na obra machadiana. Sobre o poeta que oficialmente nascia com as Crisálidas, Filgueiras anuncia: “belo prenúncio de um grande
poeta”. 131 Quando discorre sobre os versos machadianos, o crítico chega a discordar do título dado ao livro, pois diz que se tais poemas fossem crisálidas, casulo da pupa de um inseto, o autor não
poderia ser poeta, “e Machado de Assis, leitor, é poeta!”. 132
Todavia, um dos pontos que mais irritou a crítica da época, e que Caetano Filgueiras atropela, é a questão do rigor formal dos versos. O crítico baiano os aponta como exatos, o restante da crítica faz questão de identificar cada senão. Para o amigo do poeta: “livres, sentidos, inspirados, os versos do autor das Crisálidas são e devem ser eloquentes, harmoniosos e exatos. São – porque ninguém se
negará a dizê-lo lendo-os”.133 O único momento em que Filgueiras esbarra, de leve, na questão da métrica dos versos machadianos é quando afirma ser um erro atribuir a arte apenas aos versos bem medidos. Para o autor do prefácio, os deslizes de Machado não são cochilos de Homero, é apenas a variação da inspiração: “nas menos
inspiradas subsiste ainda o engenho, e o engenho é muito”.134
Outro aspecto que desagradou a crítica oitocentista foi a comparação que o prefaciador faz entre Machado e Tomás Ribeiro (1831-1901), afirmando, inclusive, ser o brasileiro mais inspirado e, quiçá, mais ardente. Ao final de seu texto, Filgueiras afirma ser aquela a “dupla e sincera manifestação dos sentimentos do amigo e crítico” e não hesita em proclamar Machado como “uma das glórias
literárias”135 do Império.
O próximo texto de crítica às Crisálidas sairá em 1º de novembro de 1864, na Revista Mensal da Sociedade Ensaios Literários. O artigo, intitulado “Crônica” e de autoria de Luís José Pereira da Silva, discorrerá sobre as últimas obras literárias que chegaram a público, e reservará um espaço maior para as Crisálidas.
O crítico chamará as Crisálidas de “um livrinho mimoso” e será o primeiro a criticar o prefácio de Filgueiras, dizendo que “o escrito do Sr. Dr. Caetano Filgueiras faz crer ao leitor que vai ler as produções
do primeiro poeta brasileiro (…)”. 136 Mais adiante, Pereira da Silva critica o próprio autor da coletânea pela impressão do prefácio: “esse juízo crítico, publicado pelo autor das Crisálidas, como parte
integrante de seu livro, é o seu maior senão”.137 Não cremos que Machado tenha sido ingênuo ao publicar o prefácio do amigo, e tanto não o fora que escreve seu posfácio, pois enxerga a exageração das palavras do prefaciador, as quais aparentemente foram escritas com a pena da amizade. Contudo, para a crítica literária prevalece a máxima de que o erro vale mais que o acerto.
Com relação aos “defeitos” do livro, o crítico dirá que são fáceis de corrigir, que não destroem o mimo dos versos e que, por isso e pelo pouco espaço que tem para escrever, voltará seu texto para o que o livro traz de arte, identificável por ele como a própria poesia. O crítico elogia as estrofes de “Monte Alverne” e encerra o texto com a transcrição de “Epitáfio do México”.
O próximo a escrever sobre as Crisálidas será Manuel Antônio Major, também na Revista Mensal da Sociedade Ensaios Literários, n. 6, de 1º de novembro de 1864. O artigo “Crisálidas (Machado de Assis)” destacará especialmente a originalidade dos poemas machadianos:
O surgimento de uma ideia utilitária ou de um livro que nos fale ao coração e ao cérebro, ao pensamento e à imaginação na tríplice linguagem do sentimentalismo, do belo e da inspiração é acontecimento digno de atenção.
As Crisálidas, de Machado de Assis, sotopondo esses requisitos, ainda deixam transparecer mais um dote atendível e invejável – a
originalidade. 138
E ainda mais adiante, o crítico nos dirá que não há nada mais belo que o “espírito de originalidade” que acompanha as Crisálidas.
Assim como Filgueiras, Major também discorda do título do livro, dizendo que os poemas machadianos se aproximam mais das asas da borboleta que da imobilidade da lagarta. Outro ponto em que os críticos se aproximam é ao tratar da inadaptação de Machado a uma escola literária. Filgueiras já anunciara que Machado não pertencia a nenhuma escola. Major reitera tal afirmação dizendo que: “a
escola de Machado de Assis é a feitura do gênio”. 139
Os deslizes apontados por Major dizem, quase todos, respeito à forma, ou melhor, à falta de forma de alguns versos que pecam na metrificação. Ele criticará alguns dos alexandrinos, a cacofonia n’“As ventoinhas” e a falta de labor poético para tratar de assuntos tão elevados, como em “Monte Alverne” e em “Os dois horizontes”. Para encerrar o artigo, o crítico anunciará que espera outras produções machadianas e que os louros do primeiro livro o estimulem na produção futura.
O Diário do Rio de Janeiro publicará, em 16 de novembro de 1864, o artigo “Crisálidas”, assinado por Amaral Tavares e dedicado a Quintino Bocaiúva. No início desse artigo, Tavares nos diz que a primeira coisa que chamou sua atenção no volume foi o nome de seu autor, Machado de Assis. Isso nos revela que, mesmo antes da publicação de seu primeiro livro, o escritor era um nome importante no ambiente literário do século XIX.
Tavares também concordará com os críticos anteriores ao dizer que Machado não se prende a uma escola literária, e sobre seus versos dirá que “a inspiração incendeia-lhe a mente, o verso alinha-se fluente e doce, a forma adapta-se ao pensamento, o estilo
gradua-se pelo assunto”.140 O crítico elogiará ainda o trabalho de Machado enquanto tradutor do poema “As ondinas”, de Henrique Heine, e dará a transcrição do poema. Nesse mesmo artigo, é transcrito ainda o poema “Quinze anos”, elogiado pela frescura das suas imagens.
O único senão feito por Tavares ao poeta é o fato de ele por vezes deixar transparecer no poeta a linguagem do folhetinista. Todavia, Tavares não consegue apontar os momentos exatos em que isso acontece.
O próximo artigo teve publicação internacional. Intitulado “Versos de Machado de Assis (escritor brasileiro)”, o artigo de José Duarte Ramalho Ortigão fora publicado no Jornal do Porto. Não foi possível precisar a data, mas sabemos que o ano foi o de 1864.
Ortigão não se alonga muito no artigo, apenas recomenda a leitura das Crisálidas e afirma estar Machado fadado a “grandes destinos”. O crítico elogia os “Versos a Corina”, cujo trecho fora impresso naquele periódico, e sobre eles diz:
Ouçamo-los pois, que tanto enobrecem eles a mulher que os inspirou como a literatura do esplêndido país em que nasceram; esta deve arquivá-lo entre as suas melhores páginas, e aquela, se em algum preço tem as flores imarcescíveis que o gênio deixa no regaço em que repousou a
fronte, que se glorie, porque tem Petrarca aos seus pés.141
O que nos surpreende no trecho transcrito não é apenas o elogio à literatura brasileira, mas a aproximação do nosso poeta a Petrarca.
Dois anos após sua publicação, Crisálidas ainda recebia atenção dos jornais da época. Dois artigos, embora escritos em 1864, somente foram publicados em 1866, novamente na Revista Mensal da Sociedade Ensaios Literários e n’A Pacotilha, em 5 de junho e 7 de setembro, respectivamente.
O primeiro, assinado por Feliciano Teixeira Leitão e intitulado “‘Bibliografia’, Crisálidas, volume de poesias de Machado de Assis”, analisa, além das Crisálidas, as Vozes da América (1864), de Fagundes Varela. Quanto às Crisálidas, o crítico inicia pelo que julga incorreto, inclusive o título, que, para ele, está injustificado, uma vez que grande parte dos poemas impressos nos livros era conhecida pelos leitores dos periódicos da época.
Além disso, Teixeira Leitão criticará a métrica dos poemas e a falta de um fio de Ariadne no decorrer de “Aspiração”, “Cleópatra”, “Polônia” e “Versos a Corina”. Por fim, o crítico dirá que esperava mais do “conhecido talento” e censura o prefácio de Filgueiras, que “obrigou-nos a procurar nas Crisálidas as provas de quanto (…) declara existir no livro, provas que desejávamos encontrar, mas que
não encontramos”.142
Ainda que considerasse que Machado não adotara o mesmo plano do início ao fim dos “Versos a Corina”, o crítico elogia esse poema pelo lirismo de sua linguagem e os declara, em suas próprias palavras, ótimos. A tradução “Os dois horizontes”, criticada por Major, é primorosa e agradável a Teixeira Leitão. Além desse, o crítico também elogia “O dilúvio”, “Visio”, “Quinze anos”, “Erro”, “Ludovina Moutinho”, “Rosas” e “Monte Alverne”. “No limiar” está na sequência dos poemas elogiados e o crítico nos diz que o defeito desse poema está no próprio crítico enquanto leitor, pois ele não consegue compreender tamanha metafísica, o que soou como um comentário um tanto irônico. Ao final do artigo, Teixeira Leitão encoraja Machado a seguir com o labor poético, afirmando que o jovem escritor poderá ocupar lugar distinto entre os poetas nacionais.
O segundo artigo daquele ano de 1866 fora intitulado “Minha priminha” e assinado por “Tua Prima, Azuos – Agarb”. Segundo
tomamos conhecimento pela nota nos estudos de Reis, 143 José Galante de Sousa indica a provável autoria de Souza Braga para o artigo. Ao lermos o nome que assina o artigo de trás para frente, teremos exatamente Souza Braga. No texto, o crítico dá conta de alguns “pacotes” literários da época e sobre as Crisálidas apenas aponta que o autor fora desatento, pois era, enquanto cronista, muito conhecedor da língua portuguesa e permitiu, ainda assim, deslizes da língua n’“As Ventoinhas”:
Volta asinha
Volta asinha para o sul
Lendo-se, priminha, não será assim?
Volt’asinha
Volt’asinha para o sul.144
As considerações acerca da obra machadiana em tal artigo se encerram aí.
Quase dez anos depois da publicação das Crisálidas, Machado recebeu dois parágrafos sobre seu livro no artigo “Poesias e Poetas”, de 1º de agosto de 1874, assinado por A. C. Almeida. O artigo dá conta de vários nomes da poesia nacional e, ao contrário do que acontecera com os demais artigos da crítica publicados até então, há nesse o elogio à métrica machadiana: “há até em Machado uma facilidade e correnteza na metrificação que nos
deleitam, por vezes”.145 Acreditamos que essa constatação do crítico se deva pelo fato de, em 1874, já terem vindo a público as Falenas, o segundo livro de poemas de Machado, no qual ele ajusta a métrica de seus versos. Contudo, no artigo de Almeida, o talento do poeta é atribuído tanto ao primeiro quanto ao segundo livro de poemas.
Nos idos de 1886 surgem outros artigos de crítica literária tratando das Crisálidas. Isso aconteceu porque houve no hotel Globo a celebração do 22º aniversário das Crisálidas, que, aliás, no ano de 2014 completou 150 anos. Foram dois os artigos publicados. Um, mais extenso, publicado n’A Semana, no dia 9 de outubro de 1886, assinado por Alfredo de Sousa. E outro, mais breve, publicado no dia seguinte pel’A Estação e assinado por “Eloy, o Herói”, um dos pseudônimos de Arthur Azevedo. É importante lembrarmos que, nessa época, Machado já era conhecido também por sua obra em prosa.
Alfredo de Sousa descreve o evento ocorrido no hotel, inclusive transcreve os poemas declamados em homenagem a Machado, e retoma a questão da originalidade dos versos das Crisálidas:
Releia-se o primeiro livro, cujo 22º aniversário se festejou no dia 6: – encontrar-se-á nele a originalidade, o senso literário, o gosto artístico, o amor da Forma, a fidalguia da linguagem, a nobreza do sentimento, a espontaneidade e a nitidez da expressão (…). É o mestre; é o primeiro. E,
considerado quanto à originalidade de sua obra, é o único.146
Arthur Azevedo, por sua vez, pede ao leitor de seu artigo que não o obrigue a descrever a festa, na qual, segundo ele, “houve tiroteios de espírito”, teria sido uma festa como as que não se via de dez em dez anos. O crítico apenas menciona as Crisálidas, não detalha o volume, e, quanto a Machado, apenas o chama por “velho e ilustre amigo”.
Esses são os textos de crítica dos oitocentos dedicados ao livro
de “importância capital”147 na carreira de Machado. Eles se fazem importantes para entendermos as reações provocadas pela obra e acompanharmos a visão que o universo literário de então tinha do próprio poeta. Além disso, é importante nos distanciarmos do nosso gosto literário para melhor compreender os textos da crítica, especialmente por uma questão de formação e de espaço temporal. Para usar as palavras de Ubiratan Machado, “o que hoje para nós
parece injusto era então justíssimo (…)”. 148 No entanto, não nos compete neste trabalho dialogar sobre as questões que poderiam ter influenciado a opinião nos críticos naquela ou nesta época.
Machado, mesmo por conta de seu trabalho enquanto crítico de literatura, sempre manteve respeito diante das críticas referentes às suas obras. Leu-as e considerou-as. Todavia, manteve sua independência e foi fiel ao projeto literário no qual acreditava.
Jamais replicou uma crítica, nem as que questionavam seu trabalho artístico, nem as que o acusavam de plagiário.
Com relação especificamente às Crisálidas, podemos notar que os elogios sobrepuseram-se às críticas, que, em sua grande maioria, restringem-se às questões da forma. O prefácio, embora laudatório, parece, segundo o posfácio escrito por Machado, ter sido lido pelo poeta com pouca ingenuidade, pois atribui os elogios à amizade que mantinha com Filgueiras. E apesar de a crítica utilizá-lo como álibi para apontar os senões, boa parte dos elogios feitos pelo prefaciador se encontra também nos textos da crítica.
Apresentada a obra pelo viés da crítica, nosso estudo agora se dedica à análise do diálogo entre os poemas e suas epígrafes, já que, como vimos, esse será o livro que trará o maior número delas.