Escolhidos pelo amor

Crys Carvalho · Capítulo 9 de 17

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Escolhidos pelo amor

Oito

MIA

Quando decidi vir a este continente, eu

estava ciente dos riscos que correria e acreditei de todo o meu coração que Deus me protegeria de todo o mal. Confesso que tenho visto a mão Dele por todos os lugares por onde passei desde que cheguei.

Aqui podemos ver com clareza até que

ponto a maldade humana pode ir. A Nigéria é o sétimo país mais populoso do mundo e já foi considerada uma potência regional do continente africano, mas isso não impede que pessoas morram de fome ou em conflitos religiosos.

A maior parte da população vive em uma

situação lastimável, às vezes, tenho a sensação de que até o ar que se respira é pago. Me dói profundamente ver todas aquelas crianças desnutridas e sem expectativa de vida, sinto-me sangrar por dentro e gostaria de ser capaz de fazer mais por cada um deles.

Esta semana estamos visitando uma aldeia

onde os nossos irmãos foram atacados há poucos meses pelos muçulmanos da etnia fulani e, apesar de toda a desgraça que lhes aconteceu, fomos recebidos por eles cantando e dançando para o nosso Deus. Sentimos a todo momento que Ele está conosco e não precisamos temer o mal que paira sobre nós.

Durante nossas visitas levamos alimentos,

muitas pessoas se aproximam em busca de comida, há mais pessoas do que esperávamos e ficamos em constante oração para que não falte a ninguém. É triste perceber que o mundo anda tão individualista, beneficiando apenas quem tem dinheiro, enquanto pessoas como essas vão sendo esquecidas e vivem de migalhas.

Observo de longe a movimentação antes do

culto e não consigo parar de chorar, as irmãs que nos acompanham na visita distribuem remédios e tenho absoluta certeza de que não são eles que curam as dores, mas sim as orações e a fé desse povo tão sofrido. Sinto meu peito rasgar em dor ao ver tamanha desigualdade, enquanto muitas pessoas esbanjam por aí.

— Não chore, menina Mia. — Pastor

Joseph se aproxima de mim e limpo as minhas lágrimas rapidamente. — Somos protegidos por Deus!

— Tenho certeza que sim, pastor. Só não consigo evitar o que sinto...

— Temos todos os motivos para sermos

tristes, mas garanto que somos muito felizes porque Cristo vive em nossos corações — ele fala com tanta paixão, que me emociono ainda mais.

O homem à minha frente é apenas alguns

anos mais velho do que eu, só que já viu o quão cruel o mundo pode ser. Ele é pastor da igreja da aldeia, seu corpo traz terríveis marcas, consequências da fé que escolheu professar. Há uma enorme cicatriz do lado direito de seu rosto, que foi consequência do último atentado e isso não o faz desistir de continuar, do contrário, pastor Joseph garante que as provações aumentam sua vontade de lutar e levar o evangelho a mais pessoas. Queria ter metade da coragem deste homem.

Nem a perda de dois — de seus cinco filhos

— o abateu, conheci sua família e pude constatar que eles vivem porque Deus os sustenta.

A obra que estamos envolvidos carece de

amor e fé, muita fé para que não desistamos nos primeiros obstáculos. Apesar de já ter viajado muito pelo mundo, nunca tinha estado em um lugar tão assombrado pela morte e fome, isso me afeta de uma forma que jamais imaginei. Penso em quantas vezes deixei de me alimentar por coisas bobas ou até mesmo não comi porque o prato não me agradava, enquanto essas pessoas nem fazem ideia de quando será sua próxima refeição.

Durante todo o culto sinto Deus muito

próximo de nós, quando me é dada a palavra deixo minha mensagem em inglês, só que a maioria deles não entende e para isso há uma irmã que faz a tradução no dialeto. Ao fim do culto posso ver o operar de Deus no nosso meio e que, ao contrário de nós seres imperfeitos, Ele não faz acepção de pessoas e escolhe sua morada onde é bem-vindo.

Ao fim do dia estamos todos exaustos,

organizando as coisas para voltarmos ao hotel, quando uma movimentação diferente chama a minha atenção. Em poucos minutos, um alvoroço se inicia.

— Precisamos ir agora, Mia — um dos

meus companheiros de missão me informa. — Há um grupo armado vindo na direção da aldeia, todos estão fugindo. Vamos nos dividir e nos encontramos no hotel. Tudo bem?

Assinto e, ao mesmo tempo recebo uma

descarga de adrenalina em o meu corpo, penso na minha família e em Tony. Junto minhas coisas rapidamente, noto o pânico no rosto de cada uma das pessoas que passam por mim e me dou conta neste momento que preciso fugir se quiser salvar a minha vida.

Me perco dos meus colegas e acabo

perdendo a condução que poderia me levar ao hotel em segurança. Sigo apressadamente em direção à escuridão da floresta atrás das casas, no caminho tropeço nas pedras e caio no chão, meu joelho arde de dor, me levanto rapidamente tiro a sapatilha e me ponho a correr novamente quando escuto ao longe gritos em uma língua desconhecida.

Tento controlar a respiração, enquanto

manco em direção à escuridão abraçada a minha mochila. Um completo silêncio agora reina na aldeia, faço uma oração pedindo para que Deus proteja a todos nós. Corro o máximo que posso, sem olhar para trás, minhas roupas engancham pelos galhos secos e se rasgam durante o percurso.

“Por favor, Deus, me tire daqui!” É tudo

que consigo pensar neste momento, então meu corpo se choca com alguém na escuridão. Sinto as lágrimas brotarem nos meus olhos ao sentir a mão forte segurar meu braço firmemente e rendo à respiração, como se isso fosse capaz de impedir que algo aconteça a mim.

“Eu não posso morrer agora!” — Menina Mia, o que faz aqui? — Solto a

respiração ao reconhecer a voz do pastor Joseph. — Não deveria ter ido com os outros?

Demoro um tempo pensando na resposta,

pois escutamos tiros acompanhados de um forte cheiro de gasolina, que se espalha pelo ar, um clarão nos atinge e vejo os olhos do homem se encherem de lágrimas. Viro-me e vejo através das árvores que a aldeia está em chamas.

— Precisamos sair daqui, menina! Ele me puxa pelo braço e corremos para

mais fundo na mata, minhas roupas se prendem por onde passo, se rasgando, meus pés descalços sobre a terra me faz temer muito mais o desconhecido. Nem sei por quanto tempo nos embrenhamos pela escuridão da floresta, quando encontramos a esposa e os filhos dele.

Meu corpo inteiro treme, lembro de Tony

me implorando para ficar e agora penso que poderia ter sido uma ótima ideia. Os sons perturbadores da noite, misturados ao medo que estou sentindo não me deixam falar. Sento no chão, encosto em um tronco caído, me encolho, abraçada a minha mochila, tento juntar o que sobrou do meu vestido que está completamente arruinado, a legging foi lacerada pelos galhos e qualquer outra coisa que esteve no meu caminho, temo que a pele por baixo dela não esteja em melhor estado.

Começo a chorar descontroladamente, sem

me importar se eles estão ou não vendo o momento de fraqueza e desespero.

— Menina, não fica assim. Já passou...

Deus é conosco! — Maria, a esposa do pastor, tenta, em vão, me consolar. — Logo Farim leva você para hotel, não chora.

Sinto seu abraço e tento controlar todo o

desespero que toma meu corpo, só que no momento isso parece impossível. A luz fraca da lanterna deixa tudo ainda mais sinistro e faço uma prece silenciosa a Deus para que me tire deste lugar.

— Estamos acostumados a fugir, não se

preocupe. Meu pai sabe como fazer isso! — A garota, que aparenta ter uns onze anos, se aproxima de mim. — Não tem mortos e só alguns feridos, conseguimos fugir a tempo. É um alerta, não vão nos procurar pela mata.

Ela fala como se estivesse acostumada a isso — e temo que esteja —, seu inglês é perfeito, o que me deixa admirada e a forma como acredita no pai me faz lembrar do lugar onde eu nunca deveria ter saído: minha casa. Mas Deus precisava de mim aqui, preciso manter esse pensamento em mente.

— Fica calma, meu pai sabe nos proteger.

Sou Dorcas, te vi pregando hoje. Um dia vou ser assim como você e falar de Jesus pelo mundo.

Vejo muito de mim nessa garota em poucos

minutos de conversa e isso me atinge de um modo que não consigo explicar, limpo as lágrimas e respiro profundamente, tentando me acalmar. Passamos a noite na floresta e quando o pastor julga seguro, seguimos de volta à aldeia, sinto meu coração sangrar ao ver os sinais da maldade humana. Somente a igreja e as casas próximas a ela foram queimadas, ainda há fumaça. Todos se juntam para tentar salvar o que restou, fico junto de Dorcas, enquanto ela olha os irmãos menores para que a mãe ajude os outros.

Maria me consegue um de seus vestidos

surrados, pois o meu está em um estado lastimável. Depois consigo limpar os ferimentos em minhas pernas com um pano molhado. Suspiro aliviada ao perceber que foram superficiais, em sua maioria, arranhões. Coloco o vestido, desembaraço os cabelos com os dedos e os tranço.

Meu coração está apertado, preciso avisar

minha família de que estou bem, perdi um pouco a noção das horas, procuro pelo meu celular dentro da bolsa e percebo que o perdi durante a fuga. Tenho que ir para o hotel logo, mas eles ainda não terminaram de juntar o que restou de seus pertences em meio às cinzas. Quando terminam, a noite já está caindo.

— Acho melhor esperarmos o amanhecer,

para te levar de volta ao hotel — pastor Joseph me alerta e concordo com ele. — Alguns agricultores que estiveram aqui nos ajudando disseram que ainda tem homens escondidos por aí, não podemos correr esse risco.

— Gostaria de avisar minha família que

estou bem. Tem algum celular por aqui?

— Sinto muito, menina Mia. Não há sinal

de telefonia aqui na aldeia.

Alguma coisa me diz que minha família está

preocupada comigo e preciso arrumar uma maneira de avisar que estou bem.

— Tem algum jeito de avisá-los? — Posso tentar mandar um recado para um amigo que mora mais perto da cidade. Acalme o seu coração, amanhã mesmo você poderá falar com seus pais.

A noite é cheia de apreensão, todos estão

tomados pelo medo de que aconteçam novos ataques. Há rumores de que os homens estão em busca de mulheres e crianças. Durante à noite cantamos e oramos juntos, em volta da fogueira. Não há comida suficiente para todos, mas confiam de que Deus tomará uma providência, tenho certeza de que Ele não vai nos desamparar, só preciso acreditar que tudo ficará bem.

Como a casa dos Farim foi queimada e

apenas alguns de seus pertences foram salvos, dormiremos ao relento. Os vizinhos compartilharam um pouco do que tem, arrumamos os tecidos no chão e deitamos sob as estrelas. Antes de adormecer, faço uma oração cansada e peço para que consiga encontrar minha família em breve, sinto que estão preocupados.

Mal fecho os olhos dominada pelo cansaço

e já acordo com gritos histéricos e sons de portas sendo arrebentadas, me levanto rapidamente, procuro por Dorcas, seus irmãos e seus pais. Todos estão recolhendo as coisas apressadamente.

— Corra para a floresta, menina Mia! —

Ouço a voz do pastor dando ordens. — Dorcas vá com ela. Estamos bem atrás de vocês!

Pego minha mochila e a garota segura a

minha mão, juntas corremos em direção à mata. Sinto minhas pernas falharem, a corrente de adrenalina me faz seguir em frente, os gritos de socorro me deixam apavorada, tenho vontade de ficar e proteger a todos desses bárbaros, mas não possuo nenhum poder sobre-humano.

As lágrimas retornam com toda força, meus

pés descalços doem porque já estão feridos da fuga anterior, nem sei mais para aonde estamos indo e noto nos olhos da menina ao meu lado o medo de tudo que poderá acontecer daqui para frente. Dorcas deixa de caminhar após o que, para mim, pareceram horas intermináveis correndo. Olho em volta, há uma cachoeira e não escutamos mais os gritos.

— Entre aqui. — Ela indica, levantando o

que parece ser uma cortina de trepadeiras, próxima a queda da água. — Rápido, antes que alguém nos veja.

Faço o que me pede. Assim que entra, a

garota encontra uma lanterna de luz fraca e nos guia pelo estreito caminho em meio às pedras.

— Meu pai encontrou esta caverna quando

tinha a minha idade — Dorcas explica, enquanto tento não cair nas pedras escorregadias ao segui-la.

— Vocês sempre vêm para cá? —pergunto,

passando as mãos pelos braços, sentindo calafrios pelo corpo.

— Não, só quando os ataques são como o

de hoje. Não podemos correr o risco que achem nosso esconderijo.

Paramos assim que entramos em um

ambiente amplo, com o chão coberto de folhas secas. Devo confessar que estou com muito medo, tanto do que está lá fora como do que pode haver aqui dentro, mas a garota está confiante como se soubesse exatamente o que está fazendo, a observo procurar por algo embaixo das folhas secas.

— Ninguém vai nos encontrar aqui, logo o

papai chega. Deus vai guardá-los, segure a lanterna para mim. — A obedeço prontamente, e ela fala alguma coisa para si mesma em uma língua que não entendo, mas imagino que seja fruto de toda a tensão que estamos vivendo.

Dorcas se dirige a um canto escuro, localiza

uma pilha de gravetos e os traz ao centro da caverna, em seguida, pega uma garrafa com um líquido amarronzado e uma caixinha do que acredito serem fósforos. Em pouco tempo ela acende uma fogueira que clareia o lugar, depois retira um pacote em meio às folhas, retira alguns tecidos de dentro e os espalha pelo chão em volta da fogueira.

— Tente descansar, Mia. Daqui a pouco

meus pais chegam! — Apesar do medo estampado em seu rosto, a garota parece uma fortaleza e lembro de ser exatamente assim até dias atrás, mas as circunstâncias eram outras.

Ela deita no tecido no chão, fecha os olhos,

ouço suas preces sussurradas e sinto um aperto no coração. Como o ser humano pode ser tão cruel com seus semelhantes?

Faço o mesmo que a garota, encosto a

cabeça na minha mochila, observo o fogo diminuir e vou sendo dominada pelo cansaço.

“Preciso voltar para casa.” Esse é o último

pensamento antes de adormecer!