Escolhidos pelo amor
Seis
MIA
Depois de passar por quatro países do
continente africano, esta semana cheguei à Nigéria, mas estou longe de casa há mais de dois meses. A saudade está maior que o normal, seguir viagem deixando tanto para trás foi muito difícil.
As coisas mudaram entre mim e Tony, não
tenho certeza se vou conseguir continuar fazer minha missão aqui com a cabeça no Brasil. Se eu fechar os olhos, consigo sentir o gosto daquele beijo no aeroporto, a maciez dos lábios, o cheiro familiar da sua loção pós-barba ou o toque de suas mãos em meu rosto.
Tudo aconteceu de modo tão despretensioso
que não sou mais capaz de sufocar esse sentimento que toma conta de mim. É bom estarmos longe, pois nos dá o tempo que precisamos para ter a certeza de que é realmente isso que queremos fazer, se está dentro do nosso propósito.
Estamos em contato sempre que podemos,
as empresas de telefonia não colaboram muito com a nossa repentina necessidade de ouvir a voz um do outro. Me sinto uma adolescente descobrindo o mundo, estou um pouco velha para isso, eu sei, mas é o que temos por agora. Mas só consigo pensar em como seria a minha vida se eu tivesse aceitado o que senti anos atrás, na missão que fizemos juntos ao norte do Brasil.
É estranho pensar que podemos ser um
casal, mas, ao mesmo tempo, é bom.
Minhas orações mudaram, estou em busca
de sinais de Deus, de que Tony seja realmente a pessoa por quem espero. Peço direção dos céus para administrar esses sentimentos recém-assumidos, porque não quero que eles me afastem do meu propósito. Só que também não pretendo mais ficar longe das pessoas que amo, preciso encontrar um meio termo. Meus pais já notaram que algo diferente está acontecendo comigo, mamãe principalmente. Não consigo esconder a ansiedade em voltar para casa.
Por ora, estou conseguindo focar na minha
missão aqui, desde que cheguei ao continente passei por quatro países e vi coisas que mudaram completamente a minha forma romântica de ver o mundo. Passei por lugares onde falta o básico para sobrevivência e, ainda assim, vi Deus operar grandemente, às vezes, penso que a fé deles é gigante. A alegria em servir está estampada em cada rosto, enquanto que no meu país, as pessoas são livres para adorar e não valorizam a oportunidade.
O conflito entre cristãos e muçulmanos é
antigo, porém, aqui na Nigéria a situação tem se agravado bastante e não pensei que fosse tão grave, até colocar os pés nesta terra. O país é literalmente dividido ao meio, os cristãos vivem em sua maioria no Sul e nas regiões centrais, enquanto que os muçulmanos se concentram principalmente na região Norte.
A província que estamos fica localizada na
região central e próxima à capital Abuja, nossos irmãos são constantemente atacados, mas o governo se nega a admitir que tudo acontece por conta da religião que eles professam. Preferem dizer que se trata de um conflito territorial. Os ataques sempre são muito violentos e deixam suas marcas na igreja, muitos fiéis se afastam por medo.
Já passei por zonas de conflitos quando
estive na Venezuela, mas aqui o medo parece maior. O sentimento que temos é o de que precisamos estar sempre em alerta porque a qualquer momento teremos de fugir. Neste lugar, as pessoas buscam realmente Deus com todas as suas forças, diante do sofrimento que vivem, todos têm consciência de que o céu não é aqui e que devem buscar as coisas divinas.
O dia hoje foi bem puxado, visitamos
algumas famílias nos arredores de Jos na companhia de pastores da região. Estamos há poucos dias nesta cidade e já sinto um carinho enorme por essas pessoas, mesmo com tanto sofrimento, eles nos receberam com sorrisos. Meus pés doem bastante, estou exausta, porém, meu coração está cheio de satisfação por levar um pouco de conforto a eles.
Tomo um banho, deito e acabo cochilando,
acordo com meu celular tocando. São meus pais, é hora da nossa chamada de vídeo.
— Oi, filha, tudo bem? — Mamãe surge na
tela.
— Oi, mamãe, estou bem e, por aí, como
vão as coisas? Onde está o papai e o Murilo?
— Estão todos bem, seu pai chega mais
tarde do hospital hoje e Murilo foi fazer um trabalho da faculdade. Precisava conversar com você sozinha... Sei que alguma coisa está acontecendo e não quer me dizer.
— Não é nada, mamãe — desconverso, quero contar tudo pessoalmente.
— Está se alimentando direito? Estou te
achando tão magrinha. Conheceu alguém, é por isso que está tão estranha?
Mamãe estreita os olhos para a câmera e me
faz repensar sobre contar o que estou sentindo.
— Mais ou menos... — Fecho os olhos e
aperto os lábios.
Ela dá gritinhos de felicidade e, de repente,
para como se tivesse lembrado de algo muito importante. O sorriso morre em seus lábios.
— O rapaz é daí? Vou perder a minha filha
em definitivo? Meu Deus, só agora me dei conta de que você não é mais uma criança. — Mamãe seca os olhos com as mãos.
— Calma, mãe! Não é como se eu fosse me
casar amanhã, tudo no tempo de Deus, lembra?
— Me conta sobre esse moço. Como ele é?
Deve ser muito especial, para ter conquistado seu coração. Você não é fácil, menina!
Mamãe está eufórica, mas ainda não é o
momento para contar tudo e nem sei como será quando voltar. No fundo, tenho medo de que eles se decepcionem por ter depositado a confiança em Tony e a quebramos ultrapassando os limites da amizade. Há também aquela incerteza sobre o futuro, será que temos chance ou foi um momento passageiro? Sei que Tony não é essa pessoa sem palavra, o conheço desde sempre, ele é muito sincero quando se trata de sentimentos.
— Ainda não posso dizer muito, estamos
buscando de Deus. Vai gostar dele, tenho certeza! Só posso contar que é um homem sincero, que tem os mesmos objetivos que eu.
— Ah! Meu amor, sei que Deus guardou o
melhor para você. Sempre achei absurda essa sua ideia de se apaixonar depois dos trinta. Nunca questionei, apenas orei para que o homem certo aparecesse em sua vida, assim como seu pai chegou para nós.
Sempre me emociono ao lembrar da minha
infância, não recordo com clareza desses momentos, mas meus pais me contaram tanto essa história que fixou na minha cabeça, como se eu realmente lembrasse de tudo. Meu pai foi a melhor coisa que aconteceu em nossas vidas. Sempre orei para que Deus me desse alguém minimamente parecido com o bondoso Doutor Álvaro e, parando para analisar, Tony se parece em muitas coisas com ele.
Conversamos sobre outros assuntos, tento
desviar dos questionamentos em torno de quem estaria ocupando meus pensamentos e “me deixando, assim tão diferente”. Quando a ligação acaba, a vontade de voltar para casa me atinge em cheio. Talvez seja o momento de me dedicar a algo diferente que me deixe mais perto deles e não é só por causa de Tony.
Em nossa família temos uma ligação que
nos impede de ficarmos longe por muito tempo, eu nunca fico mais do que três meses fora. Nem que passe apenas uma semana em casa, eu sempre fico períodos curtos nas missões, gosto de estar entre eles, dos almoços na casa da vovó, das tardes jogando conversa fora com a Vivi e dos bolos da tia Lu. Todos são muito especiais para mim e não consigo viver longe deles, descobrir-me apaixonada pelo meu melhor amigo só aumenta, em alguns níveis, a vontade de voltar.
O celular toca novamente, a música que
ecoa pelo quarto faz meu coração disparar e traz um sorriso bobo ao meu rosto. Tony tem me causado essas reações nos últimos meses. Pensando bem, ele sempre me causou isso, eu só estava desligada demais para perceber.
Arrumo os cabelos desgrenhados e me
encosto na cabeceira da cama, não é como se estivéssemos namorando a distância ou algo parecido. Só é diferente falar com ele agora, traz um quentinho no meu coração e me deixa muito feliz depois de um dia tão cansado.
— Olá, como vai a minha missionária
favorita?
Seu sorriso invade a tela em uma imagem
de péssima qualidade e, mesmo assim, fico paralisada como uma boba, admirando-o, porque já tenho seus traços gravados em minha memória. O olhar de garoto perdido, o modo como seus cabelos parecem estar sempre bagunçados, mas, ainda assim, o deixa elegante. Aquela mania engraçada de esfregar as mãos que ele faz quando está nervoso.
Sua voz cheia de carinho tem sido uma das
melhores partes dos meus dias, desde que assumimos nossos sentimentos. É como uma melodia feita exclusivamente para mim.
— Cansada, muito cansada. E você? Como
foi a audiência?
— Estou com saudade. Sobre a audiência,
deu tudo certo... Falta muito para você chegar? — Ele passa a mão pelos cabelos e olha fixamente para a câmera.
O gesto causa um reboliço no meu peito. — Nunca senti tanto a sua falta, Tony. Você
não poderia ter esperado para dizer aquelas coisas quando eu voltasse? Agora eu só penso em estar em casa, isso não é justo.
— Não dava para esperar e estava
convencido de que havia uma possibilidade de você desistir. Como estão as coisas por aí? Está se cuidando?
— Está tudo bem, não se preocupe. Preciso
focar na minha missão aqui, sinto que Deus requer algo mais de mim. O pessoal da gravadora entrou em contato comigo novamente, o que você acha?
Desde o início do ano estamos conversando
sobre isso e ele quer que eu aceite, nunca tinha parado para pensar nos motivos que Tony teria, até me dar conta de seus sentimentos por mim.
— Sabe o que penso, por mim o contrato já
estaria assinado. A proposta é muito boa, Mia, e você vai continuar fazendo o que ama, de um modo diferente. Claro que vai ter que diminuir as viagens, mas nada impede de que continue seu trabalho de outras formas.
Tony gosta da estabilidade que esse
contrato me dará, no fundo, também estou começando a achar uma ótima ideia. Não o culpo por isso, desde que nos despedimos no aeroporto, essa ideia tem se tornado cada vez mais atraente.
— Tenho pensado muito nisso, mas ainda
estou insegura.
— Não fique! Vou estar do seu lado,
independente do que aconteça entre nós. Não faço ideia de como será quando você estiver aqui, tenho medo de te decepcionar ou do que a nossa família vai achar disso, Mia. Para eles, nós somos melhores amigos e primos, é estranho.
— Obrigada por estar sempre do meu lado!
Não acho que irá me decepcionar... Tenho buscado muito a direção de Deus sobre nós e todos os sinais indicam que é à vontade Dele. Quanto à família, tenho certeza de que vão nos entender, não se preocupe.
— Quero fazer as coisas direito, Mia. Vou
conversar com o tio Álvaro e com o vô Miguel, precisamos da permissão de ambos para que tudo se inicie certo. É um momento especial e você é importante, não só para mim, como para eles. — Pode parecer loucura, mas quero me casar com a minha melhor amiga, faz algum sentido para você?
Meu mundo para por alguns instantes, há
alguns meses eu nem pensava em me apaixonar antes dos trinta e agora, cá estamos, falando em casamento.
— Por mais incrível que pareça, faz muito
sentido. Mas...
— Você só vai se casar depois dos trinta —
ele completa minha frase, antes que eu finalize. — Estou ciente, posso aguardar um pouco mais. Não vou morrer por isso.
— Não era isso que ia dizer, mas faria isso
por mim? Esperaria tanto tempo?
— Qualquer coisa por você, Mia! — Tony
pisca para mim e acabo de descobrir que quero me casar com esse homem o quanto antes. — O que ia me dizer, então?
— Que estou tentando me acostumar a ideia
de vê-lo não só como amigo.
Ele sorri. Engraçado como agora Tony
parece mais lindo ou sempre foi, mas eu estava muito interessada em ser cupido e não percebi o homem de bom caráter que se tornou.
— E como está indo com isso? — Muito bem, obrigada! Sou boa em me adaptar a mudanças. — Pisco para ele e jogo um beijo.
— Ainda bem, achei que ia passar a vida
inteira me apresentando moças para casar, quando eu só queria que você me notasse.
— Me desculpe! Sempre quis o seu bem,
mas nunca cogitei que se apaixonaria por mim, pedi tantas vezes para Deus colocar alguém que caminhasse lado a lado comigo e não percebi que já estava todo esse tempo ao meu lado.
Tony me olha de um jeito que faz meu
coração derreter. Sempre achei que o cuidado dele comigo devia-se à nossa velha promessa. Meus lábios se curvam em um sorriso. Eu realmente acredito que, de algum modo, fomos escolhidos por Deus para sermos um do outro. Olho o relógio e me espanto ao ver como as horas passam rápido.
— A conversa está tão boa, só que preciso
dormir, amanhã tenho um dia cheio e você precisa estudar para aquele concurso. Vamos orar?
— Claro!
Oramos juntos sempre que podemos desde a
adolescência. E desde que Tony abriu seu coração para mim, fizemos um propósito de estar todas as noites juntos na presença de Deus, mesmo que não possamos orar juntos, mas que oremos um pelo outro.
Não queremos que o nosso futuro
relacionamento seja apenas algo carnal, queremos que o Espírito Santo habite em nosso meio e que nos complete. Tenho sentido uma paz tão grande em meu coração e estou convencida de que tudo que está acontecendo entre nós é da vontade de Deus.
Tony fecha os olhos e eu o acompanho, hoje
é seu dia de conduzir o momento.
“Jesus, obrigado por ter nos concedido
mais um dia de vida!
Somos gratos pelo ar que respiramos e pela
família que nos deu.
Queremos pedir a guia do seu espírito
santo para que possamos administrar os nossos sentimentos da melhor forma possível.
Há muito tempo oramos pelos nossos pares,
sem sequer imaginar que poderíamos formar um casal e neste momento pedimos para que esteja sempre à frente da nossa vida, como tem feito desde sempre.
A Mia está do outro lado do oceano,
fazendo a Tua vontade, dê a ela a força necessária para continuar, a proteja de todo mal e a traga para casa sã e salva.
Abra a minha mente para que consiga
estudar, me sair bem nesse concurso, abençoe meu trabalho para que nunca me desvie dos meus princípios.
Nos ajude para que possamos ser aquilo
que esperamos um do outro e que em nossa vida seja feita a Tua vontade.
Agradecemos pela oportunidade de
estarmos juntos esta noite. Amém.”
Nos despedimos, não consigo evitar as
lágrimas quando um pouco antes de desligar ele diz: “Eu te amo”. Estou com saudade e não vejo a hora de voltar, mas sei que para todas as coisas existe um tempo determinado por Deus, não vou me precipitar.
Apesar de toda a alegria que sinto por tudo
estar se encaixando tão bem, meu coração está pesado como se algo muito ruim fosse acontecer.
Dias atuais...