Escolhidos pelo amor
Nove
TONY
Cheguei a um ponto que já não sei mais o
que fazer, os dias se arrastam lentamente e não há notícias de Mia. Três dias se passaram, não consigo me concentrar no trabalho, nossa família está movendo céus e terra para encontrá-la. Notificamos as autoridades e noto que há um descaso muito grande, é como se ninguém se importasse com o nosso sofrimento.
Alguns programas de televisão noticiaram o
desaparecimento dela, mas nada acontece. Tentei contato com hospitais da região onde Mia estava e a resposta foi desoladora: ninguém sabe... ninguém viu. É como andar no escuro, me sinto de mãos atadas. Não conseguimos contato com a polícia local, o desespero ameaça me tomar, sinto que ela está precisando de mim.
Vou para casa, depois de um dia tenso,
tomo um banho, ouço música e nada faz com que o medo se afaste. Refaço algumas buscas nas redes sociais como tenho feito nos últimos dias e tudo está do mesmo modo. Assisto ao trecho do vídeo postado na manhã que antecedeu o seu sumiço e ela parece tão feliz com sua missão. Como é possível que tenha evaporado assim?
É inútil tentar contato pelo celular dela,
ainda assim, tento e me frustro novamente com a falta de respostas. Decido tentar mais uma vez falar com Thiago — o amigo que estava com ela na missão —, apesar de todas as tentativas de contatá-lo nos últimos dias, nunca consigo. Esta chamada é a minha última tentativa com ele, quando estou prestes a desistir, ouço sua voz do outro lado da linha.
— Alô...
— Até que enfim consegui falar com você.
— Suspiro, aliviado. — Preciso de notícias da Mia, por favor, me diga que já a encontraram.
— Sinto muito, Tony! — O tom de sua voz
faz com que minhas esperanças se acabem. — Houve dois ataques na aldeia, soube depois que falei com você aquele dia. Não conseguimos localizar sua prima, talvez ela esteja com o pastor Joseph, mas não posso garantir.
O que eu devo fazer, Deus? A pergunta
invade meus pensamentos e sinto uma dor terrível em meu peito. Não vou conseguir viver sem Mia por perto. Como superar essa dor, caso o pior tenha acontecido?
— Vocês já avisaram a polícia local? —
pergunto, desolado, sem, ao menos, querer saber da resposta.
— Sim, nós já informamos, Tony, assim
como a Embaixada brasileira em Abuja, mas eles alegam não terem como dar assistência, pois dependem totalmente das autoridades locais e nacionais para poderem nos ajudar. As coisas por aqui são bem piores que no Brasil, quem tem mais poder é quem manda.
Passo a mão nervosamente pelo cabelo e
sinto me afundar cada vez mais na desesperança.
— Precisamos encontrá-la! — Minha voz
soa fraca.
— Estamos fazendo o possível. Nosso
grupo continha seis pessoas e a ajuda de alguns irmãos que moram no país, conversamos e, devido ao clima de tensão, achamos por bem voltarmos ao Brasil. Apenas o nosso líder ficará, até conseguirmos alguma notícia dela.
— Não podem deixá-la! Ela foi com
vocês...
— Todos nós sabíamos dos riscos muito
antes de vir até aqui, meu amigo, mas assumimos todos eles em nome de um bem maior. Não a estamos abandonando, soldados unidos não abandonam seus companheiros à própria sorte, Deus cuidará de sua prima. Não podemos ficar expostos, nem imagina com é perigoso estar aqui neste momento.
— Thiago, por favor, faça alguma coisa.
Aqui nem dormimos direito, aguardando por notícias, e se ela precisar de ajuda? Quem vai lhe estender a mão? Tem certeza de que a polícia local não pode fazer nada?
— Tony, ninguém tá nem aí com um
estrangeiro que sumiu. Sinto muito! O irmão Umberto, nosso líder, ficará aqui para tentar descobrir o paradeiro dela. Entenda que estamos fazendo o possível para localizá-la, mas a situação está ficando cada vez pior. Nem faz ideia do que estamos passando, temos que nos esconder durante o dia, nem sabemos como chegaremos a Abuja para pegarmos o voo de volta ao Brasil.
— Desculpe, sei que estou sendo duro, mas
qualquer um em meu lugar estaria. Disse que estão fazendo o possível para localizá-la e que ela pode estar com esse pastor. Como sabem disso?
— Recebemos um recado de um garoto
ontem. Era a letra de Mia, dizia que estava bem e pedia para avisar sua família. Só que o portador garantiu que houve um novo ataque à aldeia depois que o bilhete lhe foi entregue. A maioria das casas foram queimadas, há rumores de que sequestram mulheres e crianças, Deus queira que Mia não esteja no meio deles. Tenho que desligar, vou passar o seu contato para o irmão Umberto e vão se falando.
Nos despedimos e fico perdido após as
informações que ele me passa. Digito uma combinação de palavras na barra de pesquisas do meu celular: mulher, sequestro e Nigéria. Um medo terrível domina todo meu corpo conforme vou lendo as matérias listadas, assisto a um vídeo de garotas que foram sequestradas pelo grupo extremista Boko Haran e me apavoro com a possibilidade de que Mia possa cair nas mãos dessas pessoas.
Tenho me envolvido tanto com tudo isso
que nem consigo dormir, ando tão fadigado que acabo sendo vencido pelo cansaço e adormeço, enquanto estou assistindo aos terrores que esse conflito religioso causa nas pessoas.
Sou despertado pela voz de mamãe
conversando com André e Rebeca sobre o dia corrido que enfrentaram. Depois do nascimento das crianças, tudo ficou em movimento, nossa casa nunca mais foi silenciosa e sempre gostei disso. Levanto-me, vou até banheiro lavo o rosto e sigo até a cozinha, onde todos estão concentrados em fazer o jantar.
— Posso ajudar em alguma coisa? —
pergunto, me encostando na bancada da pia.
— Deve, né, Tony! — André revira os
olhos com a minha pergunta e me atira um pano de prato.
— Mamãe, não deixe que ele fuja dos
afazeres domésticos só porque é adulto agora — Rebeca diz, colocando as louças lavadas no escorredor.
— Deixem seu irmão em paz, crianças. — Adolescentes! — eles dizem em coro. Dona Viviane ainda tem a mesma beleza de
quando a conheci, seus cabelos, antes castanhos escuros, agora se mesclam com fios prateados e seu rosto ainda traz aquele olhar cheio de amor. Recebo um beijo estalado no rosto, quando ela passa por mim, com alguns depósitos de comida congelada.
— Alguma novidade, filho? — indaga,
tentando focar no que está fazendo.
— Consegui falar com Thiago. — Seus
olhos encontraram os meus cheios de esperança, mas balanço a cabeça em negativa. Meus irmãos deixam seus afazeres e sentamos em volta da mesa.
— O que descobriu que o deixou assim, tão
triste? — Mamãe passa a mão em meus cabelos.
— Mia está perdida... Existe uma grande
chance de ter sido sequestrada por extremistas do islã. — Fecho os olhos e respiro profundamente ao concluir a frase.
— Não vai acontecer nada de ruim a ela,
Tony. Nossa prima é muito chata para que queiram sequestrá-la. — André tenta desfazer a nuvem negra que paira sobre todos nós.
— Contou ao seu tio?
— Ainda não tive coragem. Estou
pensando em ir até lá depois do jantar.
Meus irmãos voltam ao que estavam
fazendo, converso um pouco com mamãe sobre as decisões que devo tomar.
— Não sei mais o que fazer, mãe. Eu não
consigo me concentrar no trabalho, eu amo aquela garota e a possibilidade de que algo ruim possa estar acontecendo com ela me causa um medo terrível. — Estou tenso, sinto meus músculos doerem e sinto que devo fazer mais do que ser apenas um mero espectador.
Mamãe pressiona as mãos sobre as minhas e
exibe um sorriso fraco.
— Deus não dá nenhuma provação maior
do que possamos suportar, mas acho que estamos todos por um fio. Talvez se você fosse até lá e descobrisse o que aconteceu de verdade, a família ficaria mais tranquila.
— Tenho pensado nisso desde que falei
com Thiago. Acha que o tio Álvaro concordaria com isso, mãe?
— Por que não? É o sobrinho preferido do
doutor Álvaro e vejo como ele te olha, filho. Penso até que é uma das poucas pessoas das quais ele confiaria a vida da Mia e você é advogado, entende de leis, sabe entrar e sair em qualquer lugar.
Não sei se é uma boa ideia sair em busca
dela, mas é o que o meu coração grita desesperadamente. Apoio a cabeça nas costas da cadeira, fecho os olhos e os pressiono. Meu Deus, o que devo fazer?
— Converse com seu tio, tenho certeza de
que ele vai concordar. Vamos encontrá-la, meu amor, só precisamos ter um pouco de paciência. Deus vai proteger a nossa menina, ainda temos um casamento para planejar. — Ela ri, tentando me animar, fazer ter esperanças, mas só sinto um enorme peso em meu peito.
— Eu não quero fazer nada por mim
mesmo, mãe... Talvez o tio Álvaro entenda errado. Para tomar essa decisão, preciso de uma confirmação de Deus, aí sim, terei certeza de que a encontrarei.
— Está certo, então não fale nada. Se for
mesmo a vontade Dele, tudo vai se encaixar para você ir à procura da Mia.
Penso por um momento, não é possível que
Deus tenha permitido que eu cultivasse esse amor por Mia, se tudo ia acabar desse modo. Já não faço mais questão de esconder meus sentimentos e, a essa altura, até um cego consegue identificar que estou apaixonado por ela.
— É prudente, vou ficar com o coração
apertado, só que preciso desse sinal. — A encaro e já posso sentir um fio de esperança brotar. — Eu a amo, mãe. Não sei o que vai ser da minha vida sem a Mia.
— Ah, meu filho, você sempre foi tão
ligado àquela garota, sei que está sofrendo e isso parte o meu coração. — Ela levanta e vem ao meu encontro, me envolve em um abraço carinhoso e beija meus cabelos. — Está difícil, mas tenha um pouco de fé e logo Deus vai chegar com uma providência.
— Vou tentar resgatar a minha fé de que
tudo vai ficar bem. Eu prometo!
— Quero que saiba que estou do seu lado
em qualquer decisão que tomar.
— Eu sei, mãe. Obrigado!
— Agora, o que acha de me ajudar a fazer o
jantar com os seus irmãos? Eles estão reclamando da sua falta de colaboração nos afazeres domésticos.
Sorrimos, eles se queixam de qualquer
modo. Lavo as mãos e começo a cortar os ingredientes da salada, enquanto Beca cantarola uma música e André resmunga qualquer coisa sobre a parte ruim sempre sobrar para ele.
A nuvem de sentimentos ruins se afasta um
pouco e desfruto da companhia da minha mãe e meus irmãos quando o celular toca, é meu pai.
— Tony, tomamos uma decisão. Venha até
a casa do seu tio, agora!
Aviso mamãe e em alguns minutos estou no escritório da casa do tio Álvaro, junto a ele, meu pai, Murilo e vovô Miguel. O olhar deles para mim é como se tivessem encontrado a solução para os nossos problemas, mas temo que as informações que recebi momentos atrás acabe com qualquer esperança que tenham.
— Conversamos — meu pai começa — e
chegamos à conclusão de que um de nós deve ir até a Nigéria procurar por Mia.
Me remexo na cadeira, será que a minha
mãe estava certa?
— E quem vai fazer isso? — pergunto. — Não posso viajar pelos próximos dias,
tirar um visto para a Nigéria requer mais tempo do que temos disponível. — Tio Álvaro está visivelmente desapontado com isso — Confio em poucas pessoas quando o assunto é Mia, mas sei que somente uma faria tudo exatamente como eu. Tony, tenho certeza de que você é a pessoa certa para ir até lá e adiantar as coisas, enquanto eu não puder ir.
Fico paralisado com as palavras dele, isso é
um sinal, nem sei o que dizer. Se essa é a vontade de Deus, tenho certeza de que vou encontrar a garota que amo e trazê-la de volta.
— Tem certeza, tio?
— Você é o único de nós que tem visto para
o país e confio que vai dar o seu melhor para encontrar Mia. — Ele está grato pela minha decisão de estar sempre um passo à frente quando se trata de sua filha.
Quando Mia decidiu viajar pelo mundo, me
convenceu de algo como se soubesse que em algum momento de nossa vida algo poderia lhe acontecer.
“— Tony, é meu amigo e, além disso, é
advogado, se algum dia eu me meter em uma encrenca, meu contato de emergência seria você. Então, pensei que poderíamos ter os mesmos vistos. — No fundo, sabia que havia outra razão por trás disso, ela tinha esperanças de que eu mudasse de ideia e a seguisse em suas aventuras, mesmo que por alguns dias.
— Não vai rolar, Mia. Vou gastar dinheiro
à toa... — Ela exibe aquele seu olhar que sempre consegue me fazer ceder às suas vontades.
— Poxa, Tony! Lembre-se de que prometeu
estar sempre ao meu lado. Não é você que vive reclamando de que eu sempre tomo decisões pensando apenas nos outros? Estou fazendo isso pensando em mim, aposto como vai se sentir mais seguro se fizermos assim.
— Pare de ser chantagista, Mia — reclamo.
— Não precisa ficar usando minhas fraquezas contra mim.
— Significa que você vai fazer? — Mia
consegue tudo o que quer de mim.
Suspiro, derrotado, e ela dá gritinhos de
felicidade.
— Tudo bem, Mia.”
Penso por alguns segundos nas palavras do
meu tio, isso é tudo que eu quero. Olho para o meu pai como se pedisse permissão para tomar essa decisão e ele assente, antes de começar a falar.
— Vá, já negociei a sua partida com o
escritório, filho! Redistribuí seus processos, pode ficar o tempo que for necessário. Vá lá e encontre a nossa garota, sei que fará o melhor que puder — ele me encoraja.
— Vou providenciar as passagens, tio! —
digo com a certeza de que vou cumprir a tarefa a mim confiada, enquanto tento administrar todas as emoções que brigam dentro de mim.
— Não se preocupe, já estamos com tudo
encaminhado. Você parte amanhã pela manhã — tio Álvaro me tranquiliza, segurando meu ombro. — Estou confiando a vida da minha filha a você, não me decepcione.
— Vou trazê-la de volta, tio, tenha certeza
disso.
Sou incapaz de contar a eles sobre a
conversa que tive com Thiago mais cedo, mas estou confiante de que vou encontrar Mia.
Acertamos os detalhes da viagem, sei o que
devo fazer para conseguir encontrá-la, apesar de todo o medo que estou sentindo, sinto que quanto mais cedo chegar até onde ela está, mais aumentam as chances de resgatá-la.
Vovô ficou calado o tempo todo, tenho a
impressão de que ele tem muito a me dizer, mas está esperando o momento certo para isso.
— Você poderia me acompanhar até em
casa, Tony? Não estou me sentindo bem — o velho senhor pergunta quando estamos nos despedindo na porta da casa.
— Se quiser, posso acompanhá-lo, pai —
tio Álvaro se oferece, preocupado.
— Não se preocupe, filho. É só cansaço da
idade e preciso de um momento a sós com o meu neto.
— Tudo bem, pai! Qualquer coisa, me
ligue.
Seguimos em silêncio pelas ruas desertas do
condomínio, sua casa não é muito longe. Chegamos em alguns minutos, vovó Ângela deve estar dormindo. Entramos e nos sentamos no sofá da sala.
— Então, vovô, o que quer me dizer? Ele sorri, cansado, mas o gesto não chega
aos seus olhos. Apesar de sua fé de que tudo ficará bem, sei que se preocupa muito com o que pode ter acontecido com sua neta.
— A resposta certa seria: vovô, eu tenho
algo para te contar. Sei que soube de alguma coisa sobre a Mia e não quis contar ao seu tio, mas eu preciso saber.
Sempre admirei a sagacidade do meu avô, é
como se ele conseguisse ler a alma das pessoas.
— Tive notícias... — Seus olhos brilham
quando a menciono. — São desanimadoras, ela pode ter sido sequestrada por extremistas. Precisamos encontrá-la o quanto antes, vovô, não vou conseguir ter paz se continuar com essa dúvida me corroendo.
— Deus não vai permitir que nada de ruim aconteça com a minha neta, nossas orações não serão em vão. Acredite, elas estão chegando até Deus, que irá nos responder em breve, filho.
— Sei que Ele não vai nos desamparar, mas
estou com medo, vovô — admito.
— Não tenha. Você é guerreiro valente, não
deve abaixar a cabeça em meio às lutas, meu rapaz. Desembainhe sua espada e vá atrás daquela garota!
Compreendo o que ele quer dizer, pisco
algumas vezes. Ir atrás dela é a melhor opção do que ficar aqui sentado, esperando que algo pior lhe aconteça e estou decidido a não perder mais nenhum minuto, só que ainda me falta segurança para fazer o que devo.
— Ainda não tenho a fé necessária para
resgatá-la — pronuncio, por fim.
— Tony, já tem o principal que é a
coragem, o restante você adquire ao longo do caminho. A fé não é algo que se tem em segundos, requer tempo e acho que terá o período necessário para restaurá-la durante a sua jornada. Tente pensar em todas as promessas que Ele cumpriu na sua vida...
Meu avô é um homem sábio e sempre tem
as palavras certas para despertar as coisas certas nas pessoas.
— Acha que vamos encontrá-la? — Tenho certeza que sim, Tony. Vá buscar
aquela garota. Deus lhe mostrará o que deve fazer...
— Algo me preocupa, vovô. Não conheço
ninguém lá, como vou conseguir encontrá-la?
— Seu coração te guiará até ela... Vocês
foram unidos pelo amor, filho. Os laços que compartilham são fortes, só precisa acreditar que Deus guiará seu caminho nesta jornada. Me prometa que irá encontrá-la, acredito que ainda há muitas promessas para serem cumpridas em nossa vida e tenho certeza de que tudo isso não vai terminar com a Mia morta por pessoas sem amor no coração. Você deve encontrá-la, Tony!
O que mais quero é ir de encontro à Mia.
Mesmo sabendo que as chances de achá-la podem ser nulas, preciso tentar.
— Vou encontrar a minha prima, vô. — Ele
sorri, então, absorvo as palavras dele e percebo que fala como se já fôssemos um casal.
— Eu sei o que você sente por aquela
garota, meu filho. Você a ama e nem tente negar isso para mim, porque está estampado em seu rosto há muitos anos.
Não nego a ele os meus sentimentos, pois
neste momento acredito que já não posso mais escondê-los, pois é mais forte do que eu.