Escolhidos pelo amor
Sete
TONY
Respiro fundo e pressiono o dedo na
campainha da casa dos meus tios. Luto contra o desespero do meu coração, Murilo abre a porta e seu olhar desolado faz o peso em meu peito aumentar.
— Descobriu alguma coisa, Tony? —
pergunta, estendendo a mão para mim, aperto e balanço a cabeça, em afirmativa
— Receio que as notícias nãos sejam boas,
meu primo. Seu pai já chegou?
— Sim, ele está no escritório buscando
informações com alguns colegas dele que estão em missão humanitária no continente, mas o restante da família está na sala.
— Acho melhor falar logo com ele. — Vou
direto ao escritório e Murilo me acompanha, não quero enfrentá-los agora.
Tio Álvaro está de costas conversando com
alguém ao telefone, me sento na poltrona próxima a escrivaninha, passo as mãos pelo rosto em um gesto nervoso. Quando a chamada é finalizada e ele se vira para nós, vejo o medo estampado em seu rosto.
— Podem me dizer por que ninguém impediu que Mia embarcasse nesta viagem? — meu tio senta na cadeira atrás da escrivaninha e pergunta, alternando o olhar desolado entre mim e seu filho.
— Vamos encontrá-la, papai — Murilo diz,
sem convicção. — O que seus amigos disseram?
— O que sabem é que houve ataques nas
proximidades de onde Mia está, mas não sabe dizer se são tantas vítimas como soubemos. Breno me assegurou que provavelmente se trata de Fake News, mas essa incerteza está acabando comigo. Eu quero a minha filha de volta sã e salva!
Noto seu olhar vagar pelas fotos espalhadas
no escritório e gostaria de ser capaz de fazer algo mais para diminuir o medo que todos nós estamos sentindo. É inconcebível a ideia de que ela possa estar morta, nenhum de nós aceita essa possibilidade neste momento.
— Calma, tio, vamos ter fé que Deus irá
guardá-la.
— Conseguiu contato com algum daqueles
amigos de vocês? — Um fio de esperança surge em sua voz.
Detesto ser portador de notícias ruins, mas
infelizmente as informações que tenho não acalmarão seu coração. Massageio a têmpora e respiro profundamente.
— Falei com um amigo que esteve com ela
ontem, o grupo foi separado e as coisas estão tensas por lá. Até cogitam a ideia de voltar antes do tempo previsto. — Ele levanta da cadeira giratória e caminha de um lado para o outro, angustiado, estou sentindo a mesma coisa.
Mia é como o ar que tio Álvaro respira,
então, a possibilidade de que ela esteja perdida em um país estranho, com pessoas que nunca a viram ou que algo a faça sofrer, o deixa perturbado.
— Eu preciso encontrar a minha filha! —
Não esperaria menos dele. Essa família formou homens que se doam inteiramente aos seus semelhantes e tenho orgulho de fazer parte disso.
— Vamos encontrá-la, tio. Daremos um
jeito, papai já está tentando contato com a embaixada brasileira. Deus vai protegê-la!
Tio Álvaro não está convencido das minhas
palavras, seus olhos se estreitaram e ele me encara.
— Por que não a convenceu a ficar? São
amigos, Mia sempre ouve o que você diz. — Todos nesta família acham que eu sou o único capaz de mudar as ideias dessa garota, mas na prática, as coisas nunca funcionam muito bem.
— Acreditem, eu tentei! Aliás, todos nós
tentamos de algum modo dissuadi-la dessa ideia maluca, mas sua filha é bem determinada. Quando enfia algo na cabeça ninguém é capaz de fazê-la mudar de ideia. — Ele sorri e concorda comigo.
— O Tony tem razão, papai. Não adianta
procurar culpados agora, temos que nos unir ainda mais, se queremos que Deus a traga de volta para nós. Mia sempre conseguiu dobrar todos desta família para fazerem suas vontades e, por Deus, não vamos perder as esperanças de encontrá-la. Acho que não existem culpados aqui...
Murilo é um rapaz sensato e sábio, apesar
de sua pouca idade.
— Meu Deus, aquela garota ardilosa sempre
conseguiu me fazer ceder às suas vontades. Juro que quando a encontrarmos, nunca mais vou permitir que saia das minhas vistas.
— Vamos encontrá-la, pai. É só uma
questão de tempo, a minha irmã sempre soube se cuidar muito bem. Temos que nos acalmar, logo teremos notícias dela, você vai ver!
Decidimos ir de encontro aos outros, a
tensão domina as conversas. Minha mãe e vó Lu estão sentadas ao lado da tia Taís, que está com os olhos inchados pelo choro que não consegue conter. Tio Álvaro assume o seu lugar ao lado da esposa. Ficamos ali, sem nenhuma ideia do que fazer.
Vovó Ângela vai para a cozinha fazer um
chá para acalmar os ânimos e a nossa conversa na sala gira em torno de buscar informações concretas sobre o que aconteceu. O problema é que as pessoas que conseguimos fazer contato não fazem ideia do que está acontecendo, alguns tentam nos tranquilizar e dizer que não passam de Fake News, outros dizem que realmente houve um massacre em uma igreja de Jos.
Enquanto decidimos no que acreditar, vovó
volta para servir o chá.
— Nunca vou me perdoar se a minha filha
estiver morta, Álvaro — tia Taís diz, encolhida nos braços do marido.
— Meus filhos, eu estava fazendo esse chá,
meditando em toda essa situação e Deus falou no fundo do meu coração que minha neta está viva. Seus anjos estão cuidando dela onde quer que ela esteja, então, não adianta ficarmos aqui se lamentando. Vamos orar e acreditar que Ele nunca falha em suas promessas.
Vô Miguel toma uma atitude após ouvir a
mulher e chama a todos para uma oração em família.
“Senhor, nosso Deus e Pai, obrigado pelo
privilégio de sermos chamados de Teus filhos e por mais um dia de vida!
Em nossas reuniões familiares sempre
oramos, mas faz muitos anos desde que estivemos tão apreensivos como hoje. Sei que sou apenas um fraco servo e que todos aqui nesta sala têm falhas, porém, pedimos para que olhe para a nossa menina e a guarde de todo o mal que vive à nossa espreita.
Desde que ela entrou em nossa vida, Mia só
nos trouxe alegrias. Uma garotinha tão doce, que sempre sonhou falar do Teu Filho Jesus pelo mundo e é isso que ela tem feito nos últimos anos.
Temos tanto orgulho dela, mas agora nosso
coração está apertado com a possibilidade de que algo ruim possa ter acontecido a ela. Humilhados aos Teus pés, pedimos para que mande do céu um anjo para estar ao seu lado em todos os momentos.
Há uma esperança viva em nós de que logo ela estará reunida conosco, mas bem sabes que somos fracos humanos, que se enchem de medo ao menor sinal de que tudo possa ruir.
Confiamos em Ti, nos dê a força e
sabedoria necessária para lidar com esse problema. Console cada uma das pessoas aqui presentes, todos sofrem ao seu modo, pois Mia é uma joia preciosa para nós.
Agradecemos por, apesar das adversidades,
conseguirmos dar apoio uns aos outros esta noite. Amém.”
O momento é carregado de emoção e, ao
fim dele, estamos mais aliviados, apesar da incerteza do que pode ter acontecido à Mia. Nos despedimos, cada um vai para sua casa.
Tomo um banho e deito na cama, mas o
sono não vem, fico rolando de um lado para o outro, pensando mil coisas que podem estar acontecendo à Mia neste momento. Perdi as contas de quantas vezes olhei o celular, esperando que ela me desse algum sinal de que tudo estava bem, porém, nada acontece.
Decido, ao menos, orar por ela, faço isso.
Rogo, imploro e entrego todos os meus medos a Deus, como tenho feito nos últimos anos e, no fim, me sinto um pouco aliviado. Adormeço pensando nela e acordo sobressaltado, com um sonho estranho, posso jurar que a ouvi gritar meu nome, pedindo socorro. Meu coração está apertado no peito, preciso fazer alguma coisa. Mia precisa de mim.
Passo os próximos dias em busca de
notícias, mas não há nada. Apenas meu medo que aumenta, o celular dela nem recebe mais as mensagens que envio e isso me deixa inquieto. Não consigo me concentrar direito no trabalho, todas as noites entre a insônia e os poucos momentos em que consigo cochilar, sonho com ela me pedindo ajuda.
Cheguei ao ponto em que sou incapaz de
esconder minha agonia, todos veem como estou tenso. Busco a direção de Deus, sinto em meu coração que ela está viva e sei que preciso fazer alguma coisa para encontrá-la. Faz cinco dias que não falo com Mia e três que estamos em aflição, sem saber seu paradeiro, isso está me matando aos poucos. Decidi conversar com meu pai e pedir sua opinião sobre o que devo fazer com essa vontade de correr ao encontro dela a todo custo.
— Posso entrar? — Bato na porta de seu escritório assim que chego em casa. — Preciso falar com o senhor.
— Claro, filho. Só estou estudando alguns
processos. — Ele arruma os papéis sobre a pilha e me encara, arrumando os óculos no rosto. — Vamos falar sobre a Mia?
— Estou sendo tão óbvio assim? — Tony, até um cego conseguiria descobrir
que você está apaixonado por ela. — Papai sorri e continua. — Quem não se apaixonaria por aquela garota, né?!
— Não foi intencional, pai! Quando me dei
conta, já havia acontecido... — Ele me fita, sério.
— Ninguém é culpado por se apaixonar,
filho. Sempre soube que cedo ou tarde isso poderia acontecer... Ela sabe?
— Sim, eu contei quando a levei ao
aeroporto. Tive esperanças de que fosse desistir, mas não aconteceu. Estamos conversando sobre nossos sentimentos desde então, ela se tornou minha melhor amiga, me ajudou na adaptação à nova realidade e a encontrar o meu papel nesta família. Nem sei mais como era a vida antes de tê-la se metendo em tudo que faço.
Fecho os olhos por um momento e várias lembranças da nossa infância me atingem em cheio. Eu já tinha doze anos quando fui adotado, mas isso não impediu de a nossa amizade florescer.
Estudávamos na mesma escola, passávamos
a maior parte do tempo juntos. Nos meus momentos de depressão, era sempre ela quem estava ao meu lado, me animando, incentivando a seguir em frente e esquecer meu passado traumático. Por fim, Mia conseguiu fazer com que todas aquelas lembranças ruins fossem substituídas pelos seus sorrisos sinceros.
Meu peito dói quando penso que, talvez,
nunca mais eu possa vê-la.
— Pelo visto, ela sente o mesmo por você... — Ainda não sei, pai. Sabe como ela é...
Como nós somos. Vocês nos ensinaram a colocar Deus acima de tudo em nossa vida. É isso que estamos fazendo, deixando que Ele cuide do nosso destino conforme a sua vontade. Estou com muito medo de que ela não volte. E se algo terrível tiver acontecido com Mia? Eu não vou aguentar, pai!
Aqui, nesta sala, deixo que todos os meus
medos venham à tona, sem nenhum receio, sei que todos estão angustiados e não quero diminuir a dor de ninguém, mas sinto como se o meu coração estivesse sendo arrancado lentamente do peito.
— Tenha fé, Tony! Se já entregou tudo a
Deus, o que podemos fazer é confiar que Ele fará o melhor por todos. Seja qual for a sua vontade. Sei que essa incerteza está nos matando, já falei com tanta gente em busca de informações, mas é tudo tão complicado.
— E se não a encontrarmos, pai? — Nós vamos, acredite! Ainda vamos ter
muitas conversas sobre aquela garota... Vou vê-los subindo ao altar e dizer sim perante Deus. Apenas tenha fé, filho.
— Não sei se essa parte do altar pode
realmente acontecer. Tenho medo de decepcionar a família e não ser bom o bastante para ela.
— É um bom rapaz, Tony! Contra todas as
expectativas que muitas pessoas fizeram quando Vivi e eu decidimos adotá-lo. Você se tornou um homem respeitável e íntegro. A Mia é a maior preciosidade desta família e tenho certeza de que todos ficarão felizes por vocês. Me orgulho do homem que se tornou, meu filho! Orei tanto por sua vida, para que pudesse superar seu passado.
— Nem tenho palavras para agradecer tudo
que fizeram por mim, pai.
— Não precisa agradecer, é meu filho. Se,
por algum motivo, eu voltasse no tempo faria tudo novamente, você foi o melhor presente que Deus poderia dar a mim e a sua mãe. Quanto a Mia, jamais perca sua fé! Vamos encontrá-la!
— Obrigado, pai!
— Cuide do seu coração, meu filho. — Eu a amo! — digo, massageando o peito.
— Me sinto tão impotente diante dessa situação, queria poder fazer alguma coisa.
— Não desista dela, isso será suficiente.
Acredite e se esse for mesmo o plano de Deus, tudo irá conspirar a favor de vocês.
Fico pensando nas palavras do meu pai
quando me deito, não consigo dormir. Faz muito tempo que não me sinto tão incapaz, lembro-me da minha vida antes de ser adotado, dos meus dias sem cor e das longas noites acompanhadas de pesadelos. Deixo que meus medos guardados em um canto escuro do meu coração venham à tona e eles ameaçam tomar conta do meu ser.
“Ninguém vai amar um moleque remelento
e chorão feito você.” As palavras de Chico me atingem em cheio e quase posso sentir a dor que as acompanhavam sempre.
Não é justo que me sinta assim fazendo
parte desta família, porém, não consigo evitar a dor do abandono dentro deste quarto. Mia sempre me trouxe segurança e a possibilidade de que nunca mais a veja, traz em mim reações que pensei ter deixado para trás há muitos anos.
Levanto da cama e fico de pé na janela do
meu quarto, a vista para o jardim sempre me acalmou, mas hoje não é o suficiente. Permito que as lágrimas se derramem em meu rosto, talvez assim, me sinta melhor.
A porta do quarto abre devagar e ouço os
passos nada silenciosos de Rebeca, sinto-a se aproximar com o corpo ereto, sem me virar e ela me abraça assim que entra no meu campo de visão. Ficamos em silêncio por um longo momento, me sinto reconfortado por seu gesto.
— Estou com medo, Beca! — sussurro
em seus cabelos.
— Pedi para que os anjos cuidem de você...
Não tenha medo.
Ela repete as mesmas palavras que me dizia
quando era criança e tinha pesadelos durante à noite, todos corriam para o meu quarto. Com o tempo, eles diminuíram significativamente, mas minha irmã continuou a vir. Agora que está na adolescência, a frequência é menor.
Rebeca começa a cantarolar baixinho sua
música preferida e sinto meu coração aliviar, os medos baterem em retirada.
“Muita calma nessa alma, vai ficar tudo
bem... Muita calma nessa alma lembre-se de quem
você tem...”[2]
Esta família é meu porto seguro e,
juntamente com Mia, fizeram de mim uma pessoa melhor, só preciso ter fé e acreditar que tudo ficará bem.
— Vamos encontrá-la, Tony, e você vai
poder dizer a ela novamente tudo que está aí em seu peito. — Beca foi a primeira pessoa para quem confessei que amava Mia e, desde então, se tornou nossa maior fã. — Vai ficar tudo bem.