Escolhidos pelo amor

Crys Carvalho · Capítulo 11 de 17

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Escolhidos pelo amor

Dez

MIA

Acordo sem nenhuma noção de tempo e

totalmente perdida, não faço ideia de onde estou. O cheiro de terra úmida me invade os pulmões, sinto as minúsculas patas andando sobre minhas pernas, então, vem a ardência das picadas. Levanto-me desesperada, gritando e sacudindo o vestido surrado, há pouca claridade, porém, consigo ver o estrago na minha canela, fruto das incontáveis picadas de formigas.

Olho em volta, ainda sem conseguir

entender o que está acontecendo, preciso controlar a respiração, mas não adianta. Um medo terrível ameaça tomar conta de mim, e logo me lembro de onde estou, fecho os olhos e, relutante, me encosto na parede de pedras, aos poucos, os acontecimentos da noite vão se fazendo claro em minha mente e sinto as pernas falharem.

Apesar de não conseguir ver muita coisa,

localizo minha mochila próxima ao local onde dormi. Depois procuro pela garota, chamo por seu nome baixinho, mas não há resposta. Meus batimentos aceleram, sinto o sangue gelar nas minhas veias e se tiverem levado a menina? Não é possível!

Grito seu nome e caminho em direção à

fresta de luz, não há sinal de Dorcas. Começo a chorar e tremer, tudo ao mesmo tempo, enquanto procuro uma maneira de sair, apalpo as paredes com a mão esquerda e logo meus dedos se enrolam em uma enorme teia de aranha, não consigo evitar o grito de desespero.

Nunca imaginei que poderia me encontrar

em uma situação assim, embora tenha me preparado para muitas coisas na minha vida. A incerteza e o medo são sentimentos que têm insistido comigo desde que tudo começou. Pensar que nunca mais poderei ver minha família ou Tony é algo desolador. Não posso perder a minha fé, vou encontrá-los em breve. Seco as lágrimas em meu rosto, seguro firme a mochila em minhas costas e continuo a caminhada buscando a saída da caverna, por fim, consigo achá-la.

Uma floresta tropical me cerca, dou um giro

para tentar me localizar melhor, mas é inútil, estou perdida, isso é um fato. Ao menos, o verde extremo traz uma certa paz, imediatamente, lembrando-me das viagens que fiz com vovó pela floresta amazônica. Os sons dos pássaros junto ao farfalhar das folhas ao vento assustam, fazendo-me pensar em que tipo de animais selvagens eu estaria exposta andando sozinha pelo desconhecido, graças ao bom Deus o dia está claro, porém, não faço ideia de que horas são.

Preciso encontrar a garota, temo pelo pior e

sei que preciso reunir toda a coragem que me resta. Respiro fundo e sigo caminhando com os meus sentidos em alerta tentando fazer o mínimo de barulho possível, mas acabo de descobrir que sou péssima nisso. Me atento aos sons para tentar identificar algum sinal da garota ou sua família e não ouço absolutamente nada.

A parte racional dentro de mim me diz para

ficar e esperar ajuda, mas o meu senso de proteção me diz o contrário. Sinto o estômago roncar e lembro que não comi quase nada no dia anterior. Sento no tronco de uma árvore, abro a bolsa e procuro por qualquer coisa que possa comer. Escuto um choro longe, fecho tudo rapidamente e sigo em direção ao som, tentando não fazer barulho.

Mas antes que eu chegue até o local, uma

mão sufoca-me com um pano embebido em um líquido de cheiro horrível e meu corpo vai desfalecendo lentamente. Sinto braços fortes envolverem minha cintura e, antes de perder a consciência, peço a Deus que me proteja.

Desperto com vozes discutindo qualquer

coisa que não consigo compreender. Abro os olhos devagar, dois homens negros altos e corpulentos discutem diante de mim. Um calafrio percorre a minha espinha quando percebo que ambos estão armados com rifles e enormes facas em bainhas de couro.

Minhas mãos estão amarradas com uma

abraçadeira plástica, estou jogada em um canto qualquer de um casebre de madeira, o calor típico desta região faz com que o tecido surrado do vestido cole ao meu corpo como uma segunda pele. O vento que entra pelas frestas das vigas da madeira indica que continuo em algum lugar no meio da mata. Estou ofegante, talvez pelo efeito da droga que me fez desmaiar. Faço um esforço para controlar minha respiração e escutar o som que vem de fora, mas a discussão entre eles fica cada vez mais alta.

Um medo terrível toma conta do meu corpo,

tenho absoluta certeza de que avancei muito mais em direção à minha morte, encolho-me diante das vozes alteradas e acabo atraindo a atenção deles para mim, ambos me olham. O brilho maníaco nos olhos do que parece ser mais velho desperta o horror em mim. Busco me levantar, correr, fazer qualquer coisa que me leve para longe deles, mas minhas pernas não obedecem ao comando.

Ele sorri, mostrando os dentes amarelados

— ou a falta de muitos deles —, e caminha na minha direção. Consigo me afastar para trás, até minhas costas baterem contra a parede de madeira e me encolho, o pânico está estampado em meu olhar e sou incapaz de escondê-lo.

— A moça acordou?! — O homem mais

velho se aproxima de mim e o sorriso se torna perverso, ele toca meus cabelos, seu inglês é bem carregado, o que me faz lembrar de alguns vídeos horríveis sobre jovens capturadas por extremistas, que minha família andou assistindo antes de eu partir. — Moça bonita... Pele macia...

As mãos cheias de calos percorrem meu

rosto e me encolho ainda mais. O mais jovem segura o braço do outro, aparentemente tentando impedi-lo do que quer que tenha em mente e a discussão recomeça em uma língua que não compreendo. Algo me diz que é sobre mim, meu estômago revira, o corpo inteiro treme e lágrimas escorrem pela minha face. Eu não posso morrer aqui!

Procuro por qualquer sinal em meu corpo de

que possam tê-lo violentado, solto o ar devagar, em alívio, ao perceber que ainda não me fizeram nenhum mal irreversível. A discussão cessa de repente, o mais jovem vem em minha direção.

— Por favor, não faça nada comigo... —

choramingo, sem forças de lutar.

O rapaz puxa meu braço sem qualquer

gentileza, empurrando-me a outro cômodo do casebre, caio no chão batido e ele fecha a porta. Por favor, Deus, não deixe que tudo termine assim! Imploro silenciosamente. Choro pelo que não vou poder viver, sinto a morte tão perto, que sou até mesmo capaz de sentir o seu sopro frio, a linguagem corporal desses homens me diz que o meu fim é previsível.

Penso em meus pais que amo tanto, quantas

coisas enfrentamos juntos, a doença da minha mãe que quase nos devastou. Entre a lucidez e a alucinação, posso ouvir a voz doce do papai me dizendo que vai ficar tudo bem, que só preciso confiar em Deus, como sempre fiz. O sorriso de Murilo me vem à mente como um alento, esperei tanto por sua chegada e agora não vou poder compartilhar com ele os melhores momentos de sua vida.

“— Esperei muito por este dia, Mia. — A

voz de papai está carregada de emoção. — Você se tornou minha filha no momento que sua mãe entrou naquele hospital, há nove anos, desde então, eu tenho me dedicado a fazer com que seja a garota mais amada deste mundo. Você era muito criança quando tudo isso se tornou real. Sua mãe e eu fizemos uma promessa de que contaríamos assim que tivesse idade suficiente para entender o que significava este documento...

Estamos sentados no sofá da sala de estar,

Murilo brinca com alguns blocos e mamãe, que está ao meu lado, afaga meus cabelos. Olho para a pasta nas mãos do meu pai e faço ideia do que se trata, não sou boba, já tenho doze anos. Sei que não tenho o mesmo sangue que meu pai, mas isso não diminui o amor que sinto por ele. Quando Murilo nasceu e vi papai mostrando o registro dele para o tio Paulo, senti uma pontinha de inveja porque sabia que no meu, provavelmente, não tinha o nome da pessoa mais importante da minha vida.

Algum tempo se passou e nunca mencionei

isso com ninguém, mas semana passada esse assunto me veio à mente, perguntei a minha mãe se havia um jeito de apagar o nome do outro pai e colocar o dele. Ela ficou quieta por um longo momento e quando falou, sua resposta foi curta e me deixou um tanto curiosa: ‘tenha paciência, filha.’

Encaro o papel nas mãos de papai. — É o meu registro? — pergunto. — Sim, um pouco antes de a sua mãe ficar

doente, entramos com o pedido de adoção para que você se tornasse minha filha perante as leis do nosso país... Sua mãe me contou sobre a sua preocupação e quero pedir desculpas por demorar tanto a te contar, mas estava esperando o momento certo. — Suas mãos acariciam meu rosto e meus olhos enchem-se de lágrimas. — Você é minha filha, Mia, em todos os sentidos dessa palavra. Meu nome está escrito aqui, neste papel e, muito antes disso, meu coração já tinha te escolhido. Não quero que fique com medo, nunca vou sair do seu lado!

— Ah, meu amor — mamãe me abraça —,

Deus foi tão bom conosco.

— Eu sei, mamãe! Amo vocês, nem tenho

palavras para agradecê-Lo por ter me presenteado com uma família tão maravilhosa.”

Sinto uma agonia desmedida em meu peito,

faço um esforço para soltar as mãos, mas quanto mais mexo mais apertado fica. Lembranças das últimas conversas com Tony dançam em minha mente. Deveria ter desistido desta viagem no aeroporto, poderia ter ouvido o meu coração que gritava desesperadamente para que ficasse e me entregasse aos sentimentos que venho reprimindo todos esses anos.

“...não posso mais guardar esses

sentimentos apenas para mim, Mia. Eu amo você.”

Repito cada uma de suas palavras sem

emitir som algum, relembrando o momento em que finalmente admitimos que havia entre nós mais que amizade, talvez em uma tentativa de amortecer toda a dor que estou sentindo agora.

Nem sequer fui capaz de dizer com todas as

palavras que o amava também, que no fundo sempre achei que ele ia me esperar cumprir o meu chamado e formaríamos um casal, apesar das minhas tentativas fracassadas de encontrar uma esposa perfeita para ele.

Minhas pálpebras pesam, eu queria tanto

poder voltar à nossa despedida no aeroporto, conseguir dizer tudo que não fui capaz e talvez desistir dessa loucura de ir para longe dele quando meu coração só queria ficar e descobrir o que Deus havia reservado para nós dois.

Por que eu tinha que ser tão teimosa? Os últimos dias foram marcados por tantos

planos de um futuro feliz, sonhei com o momento que o encontraria. Fecho os olhos e minha mente viaja para um dos melhores momentos da minha vida: meu primeiro beijo.

O abracei tão apertado, eu só queria sentir

o seu cheiro um pouco mais. Queria ter a coragem de Tony para admitir o que sinto. Sua mão segura meu queixo e nossos olhos se encontram, sou incapaz de esconder tudo e ficamos presos em um olhar cheio de significados. Ele se aproxima lentamente e meu coração parece querer saltar para fora do peito, eu não sei ao certo o que fazer, já vi muitos filmes, só que eles não me ajudam em nada agora. Seus lábios se encostam suavemente nos meus, são tão macios e me atraem como um imã. O sabor dele é muito melhor do que nos meus sonhos. Aperto as mãos em sua camisa, tentando me firmar de pé, não tinha como esse momento ser mais especial para mim.

Seu polegar traça a linha do meu rosto em

um carinho, nos afastamos e abro os olhos, ainda sem acreditar no que aconteceu. Um sorriso bobo nasce em meus lábios e sei que nunca mais vou esquecer esse dia.

Por que não disse a ele que o amava com

todas as letras?

Agora eu nem tenho certeza se poderemos

reviver tudo o que sentimos naquele aeroporto ou a cada vez que nos falamos nas vídeo-chamadas.

Lágrimas banham meu rosto e não sou

capaz de encontrar em mim aquela garotinha forte de outrora, que orou bravamente para que sua mãe fosse curada do câncer ou para que, contra todas as probabilidades, Deus lhe desse um irmão... Ou para que o melhor amigo fosse finalmente adotado e pudesse ter uma família que o amasse, assim como ela havia encontrado... Soluço descontrolada, meus lábios tremem, o corpo esmorece com a incerteza do amanhã.

Deus, onde você está? Eu não consigo

mais...

Desfaleço.

Mergulho em uma escuridão que me dá

medo.

Deus, eu só queria voltar para casa. Por

favor, não me abandone...

Adormeço.

 

Sinto um peso enorme sobre meu peito,

sufocando-me. Minha boca ensaia um grito, mas não consigo emitir som algum da minha garganta. É só um pesadelo, acorde, Mia! Meu subconsciente avisa, busco coragem para abrir os olhos e assim que o faço, sou invadida por uma onda de horror.

Já está escuro, não consigo enxergar direito.

Há um homem sobre mim, tentando rasgar as minhas roupas apressadamente com uma das mãos, enquanto a outra tapa a minha boca. Esperneio, procuro me esquivar de algum modo e só consigo despertar ainda mais a sua atenção, meus cabelos são puxados para trás e a língua asquerosa lambe meu pescoço, enquanto fala coisas incompreensíveis.

Travamos uma luta corporal em que estou

em desvantagem, tanto por estar com as mãos atadas, como pela força física dele. Tento acertar o meio de suas pernas, só que meus esforços são ínfimos comparados ao tamanho do homem, por fim, consigo morder a sua mão e isso o distrai por um breve momento, ouço o que acredito serem xingamentos em sua língua materna.

Tomo fôlego e grito com o resto de força

que tenho em mim, sei que ninguém vai me ouvir, mas não vou me entregar sem brigar.

Deus, por favor, se ainda estiver aí, me

proteja! Sou agarrada novamente com brutalidade, os olhos carregados de ódio me encaram.

— Vou mostrar à moça o tratamento que

damos as depravadas ocidentais na Nigéria. — Com uma faca enorme encostada ao meu rosto, a voz grave sussurrada me faz uma ameaça velada que tem um efeito devastador em mim. Estou perdida!

Grito histericamente antes que ele consiga

cobrir a minha boca novamente. Ouço um barulho vindo de fora do cômodo, alguém esbraveja em um idioma que não conheço, depois vem o disparo seguido de um uivo de dor, a faca — que antes estava pressionada ao meu rosto, ferindo-o levemente — cai no chão, fazendo um tilintar agudo, que faz o sangue em meu corpo ser bombeado rapidamente e, no minuto seguinte, o homem tomba sobre mim, sufocando-me com seu peso.

Sinto o cheiro de ferrugem invadir o ar, um

líquido quente e pegajoso umedece as minhas roupas, o olhar maníaco continua sobre mim, mas não há brilho nele. Fecho os olhos, me preparando para a dor em meu corpo, seguro a respiração. Então, percebo o óbvio. Ele está morto.

O peso é retirado de mim, de repente. Solto

a respiração vagarosamente, abro os olhos e me deparo com o homem que me trouxe ao quarto mais cedo. Seu olhar traz um misto de culpa e alívio, além de outros sentimentos que não consigo discernir.

— Jaja sempre foi desprezível, apesar de o

significado de seu nome dizer o contrário... — A voz firme e de quem sabe exatamente o que diz, me deixa completamente confusa.

O jovem se aproxima de mim com uma faca

militar em punho, a arma é menor que a que permanece em suas costas, vou me afastando para traz, tentando colocar o máximo de distância entre nós. Ele sustenta a arma cortante na boca, sem deixar transparecer o objetivo da aproximação, segura meus braços sem nenhuma delicadeza, retira a faca da boca e sinto minha respiração falhar.

Por favor, Deus, me tire deste lugar! Aperto bem os olhos em uma tentativa de

não ver qualquer dor que ele queira infligir ao meu corpo e me surpreendo com o som da abraçadeira sendo cortada.

— Não gosto que descumpram minhas

ordens. — A voz grossa carregada de autoridade me causa medo, por algum motivo, ignoro o alerta contido nela e tento vê-lo como alguém bom, mas o que ele diz a seguir me faz estremecer: — Eu achei você, então, esse prazer será apenas meu!

Por um momento acreditei que o homem era

meu salvador, só que suas duras palavras me tiram todas as esperanças de sair deste lugar e encontrar minha família. Percebo que há o tom debochado de sua voz, quase como se estivesse me punindo por qualquer coisa.

Ele se levanta, guarda a faca em sua cintura

e põe-se a arrastar o corpo para fora do cômodo que me encontro. Atrevo-me a olhar para ele em busca de qualquer arrependimento pelo que tenha feito ao parceiro e seu rosto é como uma folha em branco, não consigo identificar nada.

Meu corpo está trêmulo por tudo que acabei

de vivenciar, preciso desesperadamente arrumar uma maneira de sair daqui. Olho em volta, procurando qualquer meio que possa me ajudar a fugir e não encontro absolutamente nada, há um rastro de sangue até a porta que está entreaberta. Cogito a ideia de correr até ela, quando o homem negro e corpulento retorna com uma bacia, colocando-a no chão e jogando alguns panos sobre mim.

— Trouxe água e roupas limpas, tire o

sangue do seu corpo. O rubro é lindo, mas não combina com a cor da sua pele macia. — Ele se retira e fecha a porta para me dar privacidade, como se tivesse alguma honra.

Não consigo segurar os tremores em meu

corpo. Arrasto-me até a bacia, entre os tecidos há um vestido e um lençol velho. Retiro minhas roupas rapidamente, limpo o excesso de sangue em meu corpo, molhando a ponta do lençol, coloco o vestido que é um número maior que o meu.

Sento no canto do quarto e envolvo meus

joelhos entre os braços, todo o meu corpo dói e não é só físico, as emoções estão um completo caos, deixando-me desesperada. Há um conflito em mim entre acreditar no Deus que sempre esteve ao meu lado ou me entregar ao terrível destino que me aguarda.

Ainda sou capaz de identificar a presença

maligna do homem que esteve sobre mim tão perto que chega a me sufocar. A porta é aberta abruptamente e tenho um sobressalto.

— Coma, não está envenenada. Você

precisa estar forte para que eu desfrute do que tenho direito. — Um prato é empurrado para mim com uma gosma amarelada e viro o rosto. — Não seja tola ou vai morrer de fome.

— Prefiro isso a morrer por suas mãos! —

digo, sem pensar nas consequências e me arrependo no mesmo momento.

— Acha que me importo com o que pensa

sobre mim? — É uma pergunta retórica, ele se aproxima devagar, enquanto tento aumentar a distância entre nós. Sua mão áspera segura meu queixo, fazendo-me encará-lo e sinto um medo incontrolável. — Escuta aqui, moça, eu vou ter o que quero de uma maneira ou de outra, garanto que vai gostar muito do que tenho em mente e, se não gostar, o problema é seu.

— Por favor, me deixe ir. Não precisa ser assim, pense. Como sentiria se alguém fizesse o mesmo com alguém da sua família? — Não consigo controlar as palavras que saem da minha boca.

— Não há mulheres impuras na minha

família — diz secamente, enquanto vira e segue em direção à porta. — Preciso terminar o que comecei.

— Prometo que não vou contar nada a

ninguém. — Tento encontrar algum traço de humanidade nele. — Não acredito que seja uma pessoa ruim, você me salvou daquele homem e ele era seu amigo. Tenho certeza de que não quer me fazer nenhum mal.

Ele hesita após ouvir minhas palavras e eu

continuo:

— Não parece uma pessoa ruim. Por que

está fazendo isso?

Seu corpo gira em minha direção e tenho

medo de sua resposta.

— Vocês ocidentais são culpados pela

nossa desgraça e vamos exterminá-los do nosso país. Precisamos nos defender dos infiéis. — Sua convicção é admirável.

— Acredita mesmo nisso? Acha que somos

culpados por todas essas barbaridades que cometem em nome de Deus?

— Cale-se, você não tem o direito de me

julgar. Afinal, é uma infiel! Não pense que porque a defendi não serei capaz de fazer o que pretendo e depois dá-la como esposa para todos os soldados da minha tribo — sibila e quase posso tocar o seu ódio por mim, ele sai batendo a porta e o ouço arrastar qualquer coisa e colocar diante dela.

Meu estômago revira só em imaginar o que

suas últimas palavras significam, lágrimas grossas correm pelo meu rosto. É o meu fim!

Acabo cedendo ao prato à minha frente, o

gosto é horrível. Preciso me distrair de todo o medo e terror que ameaçam me dominar. Faço orações pedindo a Deus que apareça de algum modo e me livre deste lugar, não consigo dormir. Quando fecho os olhos, fico revivendo a cena que presenciei mais cedo, o medo tem sido meu companheiro mais frequente.

O cansaço consegue me abater por fim. “Não perca a sua fé, Mia! Seu chamado a

trouxe aqui e ele a levará de volta para casa.”

Uma voz poderosa me atinge, fazendo-me

acordar ofegante, olho em volta e não há ninguém comigo.

“Não perca a sua fé, Mia! Seu chamado a

trouxe aqui e ele a levará de volta para casa.”

Ouço novamente o som que faz meu

coração vibrar, noto o resquício de esperança em meu coração se renovar e tornar-se gigante. Alguma coisa me diz que muito em breve estarei com os meus.