Escolhidos pelo amor
Três
TONY
Pode parecer outra coisa, mas aqui estou
com os olhos cheios de lágrimas e o peito estufado com um imenso orgulho de fazer parte de tudo isso. A cerimônia de colação de grau da Mia está linda, por mais que eu saiba exatamente o que significa esse diploma para ela, não consigo ficar triste.
O sorriso lindo em seu rosto, que faz meus
batimentos falharem a cada vez que o direciona para mim, é a prova de toda a felicidade que ela sente, ao meu lado a nossa família assiste atentamente e em silêncio. Era de se imaginar que aquela garotinha faladeira, cheia de fé, chegaria longe, porque quando colocamos Deus à frente da nossa vida, tudo acontece naturalmente e é exatamente isso que Mia tem feito todos esses anos. É uma justa recompensa.
O tempo a transformou em uma linda
mulher, não consigo tirar os olhos dela, nem mesmo a beca foi capaz de esconder a sua beleza. Os cabelos, agora em um tom quase loiro, estão maiores e caem em ondas sobre os ombros, a maquiagem leve reaça os olhos e não tira aquele ar de pureza que ela traz consigo. Ela caminha elegantemente sobre os saltos altos para receber o seu tão esperado diploma e eu não consigo conter o grito eufórico quando Mia levanta a mão esquerda para cima em um sinal nítido de vitória.
Quando ela desce do palco ao final da
cerimônia, é recebida pela nossa família com abraços calorosos.
— Ah! Meu amor, sempre soube que você
tinha nascido para fazer a diferença no mundo. É tão incrível ver a mulher forte que se tornou. — Tia Taís limpa as lágrimas ao abraçar a filha. — Eu não consigo parar de chorar.
— Te amo, mamãe. Eu não seria ninguém
sem você e o papai!
— Não me agradeça, foi Deus quem me deu
você e nunca serei grata o bastante por essa benção de filha que Ele me deu.
Mãe e filha trocam um olhar cheio de amor. — Sabe, garota, você nunca vai deixar de
ser o meu bebê. Tenho tanto orgulho de ser seu pai. — Tio Álvaro a abraça junto com a esposa. — Nunca pensei que poderia ser tão feliz. Amo tanto você, garota ardilosa!
Murilo se enfia no meio deles e belisca a irmã.
— Ei, eu tô aqui, viu? — Finge estar
zangado pela falta de atenção.
— Acha que eu iria esquecer o irmão mais
lindo do mundo? — Ela aperta suas bochechas e ele faz uma careta.
— Sem essa, você só tem um irmão e, outra
coisa, eu cresci, já pode parar de apertar minhas bochechas.
— Murilo! — sua mãe o repreende. — Veio
aqui para dizer isso para sua irmã?
Meu tio sorri e incentiva o garoto de treze
anos a dizer o que quer que tenha ensaiado.
— Não sou bom com palavras como você,
maninha, mas só quero dizer que te amo e tenho muito orgulho de ser seu irmão mais bonito. — Ele pisca para mim no final e todos sorriem de sua travessura, ambos se abraçam. Mia o aperta tanto, que tenho dó do garoto.
Minha vó Luciana e vô Paulo abraçam
demoradamente a sobrinha, eles são reservados, mas guardam um amor imenso por Mia.
— Nem acredito que a nossa garotinha se
formou. — Vó Lu não consegue esconder o orgulho. — Você foi o maior presente que Deus poderia dar à nossa família.
Mamãe e papai agarram Mia sem nenhuma
delicadeza, ela é como o bebê deles ou — como gostam de chamá-la — o cupido de Deus. Ela é quase esmagada com beijos e apertos de ambos.
— Minha chantagista pode, oficialmente,
pregar pelo mundo. Juro que estou morrendo por dentro só em pensar que logo estará perambulando por aí, longe de nós — papai diz, com a mão no peito e um sorriso no rosto. — Mas não consigo chorar, você conseguiu realizar seu sonho. Parabéns, querida! Pode parar de me chantagear agora?
Às vezes, tenho a impressão de que nunca
vão deixar de brincarem um com o outro. Meu pai a segura pelos ombros e exibe um sorriso orgulhoso no rosto como se a conquista dela fosse a sua própria, enquanto minha mãe arruma os cabelos de Mia, porque nada pode estar fora do lugar neste dia grandioso para ela e todos nós.
— Se entrar em uma encrenca, pode
procurar seu advogado aqui, se bem que meu filho está se saindo muito melhor que eu e vai me desbancar fácil, sei que estou perdendo o meu posto na sua vida para ele. Sei admitir a derrota.
— Para de drama, Lucas. É por isso que o
Tony é tão dramático, aprendeu com você — Mia ralha e mamãe sorri.
No fundo, ela tem razão, meu pai e eu
somos muitos parecidos nessa parte.
— Meu amorzinho, continuo encantada por
você, como na primeira vez que a vi. Para mim, você ainda é aquela garotinha que eu ensinava as orações mais absurdas. — Mamãe está lutando bravamente contra as lágrimas. — É tão esperta, que conseguiu convencer Jesus a me dar o marido perfeito. Te amo, Mia. Sabe que pode contar comigo sempre, né?
— Sei, Vivi, obrigada por tudo que fez por
mim nos momentos mais difíceis... Quando eu era uma criança, não entendia muito bem o que você fazia, mas hoje percebo que foi um anjo em minha vida, assim como a vovó e toda a nossa família. Parem de me fazer chorar, hoje é um dia muito especial, não quero chorar, mas vocês não estão ajudando.
Vovô Miguel e vovó Ângela se demoram
mais ao abraçá-la, falam algumas palavras em seu ouvido, ela limpa as lágrimas novamente e responde com um “amém”. Eles cochicham e ninguém compreende o que falam, mas todos sabem que entre esses três existem muitos segredos e um amor inexplicável.
Até meus irmãos passam na minha frente e
a abraçam antes que eu possa repreendê-los. Sou o último a abraçá-la, nossa amizade continua igual, porém, nesses quatro anos, alguma coisa em mim mudou e não a vejo simplesmente como minha melhor amiga. Não sei se é certo o que sinto, por essa razão decidi entregar nas mãos de Deus e apenas orar, se for para acontecer, Ele tomará um caminho no momento certo.
— Obrigada por estar aqui, Tony! — ela diz
emocionada e limpo suas lágrimas instintivamente.
Procuro por seus olhos antes de envolvê-la
em meus braços, eles tornaram-se o meu lugar preferido, pois neles sempre encontro o abrigo que preciso. Sinto que nossos olhares sempre contam muito mais do que as longas conversas que temos.
— Não chore, está tão linda Mia. Sua
felicidade está iluminando a todos nós, valeu a pena cada momento de estudo... Estou tão orgulhoso de você. Vem cá! — A puxo para um abraço e beijo sua testa. — Parabéns, espero que conquiste todos os seus sonhos.
— Assim eu fico com vergonha, Tony.
Agora, nossas orações vão mudar, né?!
Trocamos um olhar e ela me sorri, fazendo
com que meu coração infle no peito, mas tenho medo dos próximos pedidos que fará a Deus.
— Sim, sinto que vou envelhecer muito nos
próximos anos e você será a causa disso.
A família se dispersa enquanto
conversamos, apenas vovó Ângela nos observa de longe. Sei que ela desconfia dos meus sentimentos, mas tento ao máximo fugir dessa conversa. Evito ficar a sós com a sábia senhora, tenho medo de que se decepcionem ao descobrirem que amo Mia não só como amiga. Toda a família me acolheu tão bem, só que não sei se sou bom o suficiente para ser digno da joia mais preciosa que eles têm.
Mia se afasta para tirar a beca e quanto
volta, sinto o ar fugir dos meus pulmões. O vestido longo roxo, todo trabalhado em uma renda delicada, realça a cor de sua pele branca como a neve e fico perdido em sua beleza. Ela caminha despretensiosamente para mim e arruma a minha gravata borboleta, que combina perfeitamente com seu vestido.
— Entendeu agora, por que pedi tanto que
usasse essa gravata? — diz com seu ar de quem sabe de tudo.
— Uau... Eu nem sei o que dizer, Mia. —
Por algum motivo, não consigo tirar o sorriso bobo do rosto e continuo a encará-la, tentado a dizer a ela exatamente tudo que sinto, mesmo que tenha prometido a mim mesmo que não farei isso.
— Não é novidade, a pessoa que fala muito
sou eu e não você, caro amigo. — Mia toca a ponta do meu nariz ao terminar a frase. — Somos uma bela dupla, até pensei em fazermos um daqueles nossos duetos no palco mais tarde. O que acha?
Balanço a cabeça, em negativa, meus
sentimentos estão muito claros hoje e, se subirmos ao palco juntos, tenho certeza de que não serei capaz de segurá-los.
— Vamos deixar o nosso dueto para o culto
do próximo domingo ou para os almoços em família. Que tal curtir a sua noite especial?
— Ok, mas só porque não ensaiamos nada
antes e já que a nossa família decidiu nos abandonar, vamos caçar a nossa turma.
Ela me puxa pela mão e nos misturamos às pessoas, em buscas dos seus colegas do curso. Quando os achamos, Mia inicia uma conversa animada após me apresentar a eles. Cumprimento todos com um aperto de mão e sinto uma pontada de ciúme quando vejo um rapaz elegante ao lado de um senhor simpático.
— Mia, quero te apresentar meu filho, Jaime. Um rapaz de ouro — o homem diz, orgulhoso, e percebo que ele viu nela a nora perfeita.
— Prazer, Jaime. Seu pai fala muito de
você, deve ser um filho exemplar — ela diz cordial e sinto meu corpo se retesar quando suas mãos se tocam.
— O prazer é todo meu, Mia, meu pai
insistiu tanto para que viesse à formatura hoje e, preciso confessar, que ele tinha razão em querer que te conhecesse, você é mais linda que nas fotos. Quanto a mim, saiba que ele pode ter exagerado um pouco nas minhas qualidades.
Não consigo ficar assistindo a cena que se
desenrola à minha frente. Sei que ela não me deve nada, por essa razão, saio de fininho e a deixo à vontade com seus colegas. Cada dia que passa fica mais complicado controlar o ciúme que insiste em aparecer na menor possibilidade de que ela possa se relacionar com alguém.
Durante os últimos anos eu tentei esquecê-
la, fui a alguns encontros arranjados até por ela mesma, mas nenhuma delas era Mia e, no fim, sempre as dispenso. A conversa superficial não me envolve, algumas me veem como troféu e isso me irrita mais do que gostaria. Outras já partem para o ataque no primeiro momento, agarrando-me descaradamente, enquanto tento me desviar delas. Essas são as piores, pois não respeitam o fato de que eu escolhi esperar o momento e a pessoa certa para compartilhar as coisas mais importantes da minha vida.
Cumprimento alguns conhecidos que
passam por mim, depois encontro meus tios no caminho e conversamos um pouco.
— Como vamos viver sem essa garota? —
tio Álvaro me pergunta, em um determinado momento da conversa, encarando a filha do outro lado do salão.
— Vamos aprender, tio. Ela precisa disso,
sabemos que Deus a chamou para isso e não devemos ir contra a vontade Dele.
Tia Taís sorri e afaga o braço do marido.
— Ela nasceu para isso, amor. Olhe só para
nossa menina, temos prova suficiente de que Deus cuidará dela onde quer que vá. Tony, obrigada por estar sempre incentivando nossa filha a conquistar seus sonhos.
— Sabem muito bem que Mia fez muito
mais por mim, não precisam agradecer.
De certo modo, ela me salvou de muitas
coisas. Sou uma pessoa melhor desde que a conheci e sou muito grato não só a ela, como a toda a família, por isso tenho tanto medo de decepcioná-los.
Observo-a sorrir e conversar animadamente
com os seus colegas e fico pensando que gostaria muito de ser o motivo de sua felicidade, mas acho isso um tanto improvável. Há quatro anos tivemos um momento revelador entre nós e foi naquele dia que descobri que a amava muito mais que amiga, foi extremamente difícil conciliar o que sinto com o que acho correto.
Após aquela viagem notei que Mia passou a
se dedicar à missão de me arrumar a namorada perfeita. Ela só me vê como amigo e tenho que me conformar com isso, embora, no fundo, tenha esperanças de que talvez um dia os sentimentos dela mudem, preciso focar na minha carreira e encontrar alguém que consiga me fazer esquecer essa paixonite juvenil.
Meus pais chegam, tirando-me dos meus
devaneios, todos começam a falar animadamente e volto a mergulhar em meu mundo particular. Olhando-os conversar, só consigo imaginar como sou afortunado por ter todos eles em minha vida. Estou tão imerso em meus pensamentos, que nem percebo Mia se aproximar.
— Por que me deixou sozinha com o irmão
Pedro? — Noto o aborrecimento em sua voz. — Amigos não fazem esse tipo de coisa. Quase não consigo me esquivar dos elogios e cantadas bregas do filho dele.
— Não quis atrapalhar seu momento, quem
sabe esse não é o homem que vai te fazer desistir de ir para tão longe de nós. — Sempre aproveito os momentos oportunos para tentar convencê-la a fazer suas missões aqui mesmo, em nosso país.
Ela cruza os braços, sorri e revira os olhos
para mim, como a menina travessa que nunca deixou de ser.
— Ainda com isso? Não tínhamos passado
da fase do drama, Tony? — pergunta, mas nem espera a minha resposta e já emenda uma justificativa. — Jaime não faz o meu estilo, é do tipo narcisista que só pensa no próprio umbigo. De que adianta tanta beleza, olhos verdes e aquele cabelinho liso exibido caindo sob os olhos, se o cérebro é do tamanho de uma ervilha?
Sei que é errado, mas estou sorrindo feito
um bobo das observações dela sobre o pobre rapaz.
— E posso saber qual é o seu tipo? —
indago, em meio ao riso, e ela fica séria de repente.
— O meu tipo... meu tipo é... — Ela parece
ver alguém, para de falar e começa me puxar em direção a um grupo de pessoas. Pela cara dela, já posso imaginar o que tem em mente, mas prefiro acreditar que ela não teria coragem de fazer isso na sua formatura.
— Quero te apresentar uma amiga minha,
acho que ela é perfeita para você. — Sim, ela teria!
A contragosto, a acompanho. Lá vamos nós,
Mia acha que pode ser o meu “cupido de Deus”. De uns anos para cá, ela está cada vez mais empenhada a me apresentar garotas que julga serem perfeitas para mim, não adianta eu tentar convencê-la de que vou esperar o tempo de Deus. Seus argumentos são infalíveis: “Acha que Deus vai descer do céu e colocar a moça certa na sua frente? Tem que fazer alguma coisa, Tony!”
Às vezes, fico tentado a responder que foi
exatamente isso que Ele fez, mas algo me diz que não é o momento de revelar sobre meus sentimentos.
— Lana, esse aqui é o Tony, meu primo
advogado gato que te falei. Ele é perfeito para você, juro que estou tentando não pensar nos filhos lindos que terão. Ah! E ele canta que é uma beleza. — Ela sorri ao terminar.
Eu tenho vontade de fugir para o mais longe
possível toda vez que ela apronta essas coisas comigo, meu rosto queima e exibo um sorriso amarelo. Já devia ter me acostumado com a sinceridade dela, mas é mais complicado do que aparenta.
— Mia! — a moça a repreende,
constrangida, e devo admitir que é mesmo muito bonita, porém, não se compara à minha prima.
— O que foi, Lana? Só estou dando um
empurrãozinho. — Mia dá de ombros.
— Não se preocupe, já estou acostumado
com a sinceridade de minha prima — minto. — Prazer, Lana. Sou Tony, o primo advogado... Esqueça o gato e, talvez, eu não cante tão bem como ela diz. Também está se formando hoje?
Lana sorri e me estende a mão. — O prazer é todo meu. Não estou me
formando, só acompanhando alguns amigos. É muito bom finalmente te conhecer, Tony. Nem imagina o quanto a Mia tem vontade de te casar. — Sorrimos, enquanto a outra finge olhar as unhas, mas posso imaginar o que ela faz quando estou longe.
Ela tenta nos deixar a sós, mas seguro seu
braço insistentemente, não permitindo que me enfie em uma roubada, como sempre faz.
— Faço ideia, só estou esperando o tempo
de Deus. O problema é que ela não entende, não é, Mia? — digo entredentes e ela faz um gesto esquisito com a boca, jogando os braços para frente do corpo.
— Vocês vão morrer solteiros, eu hein ?!
Estou aqui, toda disposta, querendo colaborar e dar uma mãozinha para Deus, não se fazem casais como antigamente. Alguém me coloca em uma máquina do tempo e me leva de volta para minha época?
Ela fala como se tivesse muito mais que
seus vinte e um anos, logo a moça é chamada pelos amigos para ver alguma coisa. Mia e eu ficamos sozinhos, tento mentalizar que estou bravo, só que ela insiste em fingir que nada aconteceu e temos uma crise de riso.
— Não se cansa de me arrumar
pretendentes? — pergunto, colocando as mãos no bolso da calça social, enquanto caminhamos para uma área externa do salão.
— Devia me agradecer, você nem se
esforça para que Deus aja em sua vida. Como acha que vai formar aquela família que tanto oramos para ter?
— Do modo como diz, faz parecer que eu
estou desesperado, mas não é você que está partindo mês que vem para uma viagem à Europa? Me corrija se estiver errado, você não é aquela moça que ora comigo todos os dias para ter uma família? — Paro de andar e a encaro, arqueando a sobrancelha, Mia finge olhar algo atrás de mim. — Curioso! Nunca a vi falando sobre se casar, apesar dos seus esforços de encontrar para mim a namorada perfeita.
Sentamo-nos próximos ao jardim, onde algumas pessoas conversam tranquilamente.
— Não vou namorar ou me casar nos
próximos anos, não é o meu perfil, ao contrário do seu, e não faça essa cara de espanto, porque sempre soube disso. Penso que um namoro deve ter um propósito de casamento e vou viver para Jesus por um período.
— Onde está aquela garota que ora pedindo
o marido perfeito? — Tento esconder o desapontamento.
— Ainda está aqui, mas ela decidiu que
formará uma família depois que fizer trinta anos e, até lá, vai viver apenas para o evangelho. Sinto que preciso me dedicar exclusivamente ao meu chamado, Tony.
— Tio Álvaro vai amar isso! — No fundo,
eu também gosto que ela pense assim, adia um pouco meu sofrimento de vê-la namorar, noivar e se casar com alguém que não seja eu.
Sorrimos juntos, o pai dela é bem ciumento
e isso é sempre motivo para pegarem no pé dele nos almoços de família.
— Promete que vai me ligar se qualquer
coisa acontecer? — Seguro a sua mão ao perguntar e ela recua. — Lembra quando fizemos uma promessa de cuidarmos um do outro, quando meus pais decidiram ter mais filhos?
Parece que ela está sempre lutando contra
alguma coisa dentro de si, noto um brilho diferente passar por seus olhos, mas se vai rapidamente. Ela toca meus cachos bagunçados, desde a adolescência eu nunca mudei o corte, talvez porque Mia sempre diz que prefere que sejam assim, com essa aparência desleixada e eu queira agradá-la.
— Sim, eu me lembro. Prometi cuidar e
orar por você sempre. Nunca deixei de fazer isso, a distância não vai mudar a nossa relação, Tony. Garanto que vamos ficar mais fortes.
Não estou convencido de suas palavras,
acho que a partir do momento em que ela entrar no avião, vamos nos afastar cada vez mais. Preciso me concentrar em encontrar uma namorada, talvez isso me faça esquecer esses sentimentos que insistem em ficar.
— Por favor, me ligue sempre que precisar.
Não importa a hora, eu vou estar aqui por você. Sei que ainda falta quase um mês para sua viagem, só que não custa nada começar as recomendações. Vê se mantém essa sua língua enorme dentro da boca, as pessoas não costumam ser compreensivas como eu.
— Convencido! — Mia diz, sorrindo. — E modesto também — brinco, apertando
a ponta do seu nariz.
— Não vou esquecer você, eu prometo. —
Sua voz é um sussurro e faz todo o meu ser querer desesperadamente que ela sinta o que estou sentindo agora, mas sou um covarde.
Ficamos em silêncio nos olhando, lembro-
me de quando descobri que estava apaixonado por ela. Foi um momento mágico e nunca vou esquecer daquele dia, nunca falamos sobre ele. Todas as vezes que nossos olhares se encontraram depois disso, eu consegui identificar a centelha queimando lá dentro, mas, por alguma razão, ela consegue ignorar.
Há muitas coisas que gostaria de dizer a
Mia hoje, porém, sou covarde e não tenho coragem para deixar que as palavras fluam. Minhas mãos suam, meu coração bate desesperado no peito e fico mudo diante da sua beleza.
Se eu tivesse, pelo menos, um pouquinho de
coragem, poderia beijá-la neste momento, pois estamos tão próximos e sinto a nossa conexão se fortalecer conforme nos aproximamos lentamente, mergulho sem pensar em seus olhos castanhos-esverdeados intensos e gostaria de ser capaz de lhe dizer que é o centro do meu universo particular. A minha respiração falha, estou à beira de um ataque cardíaco.
Retiro uma mecha teimosa que cai em seu
rosto, sinto sua respiração acelerada e, apesar de sempre fugir dessa conexão que compartilhamos, desta vez, Mia permanece ali, me fitando e fazendo com que me perca em seu olhar. Recobro a razão. Recuo. Beijo sua face delicadamente e seus lábios se abrem em um sorriso tímido. Não podemos dar um passo além da amizade. Eu a amo e está cada vez mais difícil esconder, mas vou conseguir superar.
Acaricio seu rosto com meu polegar,
sentindo a maciez de sua pele lutando contra a vontade de declarar tudo que sinto. Por fim, movo os lábios em um som quase inaudível: “Se cuida.”