Escolhidos pelo amor
Doze
MIA
Desde que conheci Jesus, sempre soube que
fazia parte de algo maior, nunca tive dúvidas sobre qual era a minha missão. Não sou o tipo de pessoa que espera sentada em casa um milagre do céu cair em meu colo, sempre lutei para ser útil a Deus.
Quando eu falo sobre o meu chamado, não
estou querendo dizer que vi um anjo descer dos céus e me dar um manual de instruções com tudo que eu deveria fazer. Os cristãos e crentes, de modo geral, estão acomodados, querendo que Jesus faça tudo por eles, enquanto estão deitados no conforto do seu lar deixando a vida passar.
Sempre senti uma presença muito poderosa
ao meu lado, foi ela que me permitiu tomar todas as decisões até hoje. Eu sabia que poderia cumprir a minha missão em qualquer lugar que estivesse, só que sempre quis mais e foi esse querer que me trouxe até aqui. Durante o dia que se passou e devido a tudo que vivenciei nos últimos dias, eu cheguei a pensar que havia perdido a minha fé, porém, depois de ter ouvido claramente uma voz sobrenatural falar comigo, sinto que tudo está mais vivo do que nunca em meu coração.
A noite não foi das melhores, acordei
muitas vezes, assustada, acreditando que estava sendo vigiada. O dia está claro, posso ver através das frestas da madeira, ouço a movimentação do homem dentro do casebre e meu coração dispara, tento controlar minha respiração. Cheguei à conclusão de que todas as experiências que vivi até o dia de hoje foram para me capacitar para este momento.
Eu cumpro ordens de Deus, por mais que as
pessoas achem que isso é loucura, e sinto neste momento que, apesar da vontade desesperadora de ir para casa e estar no seio da minha família, é exatamente aqui que Ele quer que eu esteja. Respiro fundo, fecho os olhos e faço uma prece.
“Senhor me dê a coragem necessária para
cumprir a tua vontade neste lugar. Não deixe que os meus medos sejam maiores que a minha fé.”
Quando termino, a porta é aberta de repente
e me assusto.
Confesso que em muitos momentos das
últimas horas, desejei que os acontecimentos do dia anterior tivessem sido apenas pesadelos, mas devo encarar a realidade. Meus batimentos aceleram no peito ao notar a proximidade do desconhecido, me encolho no velho colchão, até minhas costas baterem na parede. Sei que ele só fará o que Deus permitir, só que sou humana e não consigo evitar as reações do meu corpo diante do meu algoz.
— Não vou te machucar, moça — o homem
diz, secamente, e noto que o semblante dele não traz mais aquela aura ruim.
— Então, me deixe ir! — sussurro, em
uma tentativa de convencê-lo a fazer o que é certo.
Ele empurra o prato que tem nas mãos, com
um tipo de mingau esbranquiçado, e senta ao meu lado. O odor forte que exala do homem arde em minhas narinas e sou incapaz de me mover, tento abrir a boca e formular uma frase coerente.
— Vão me matar se souberem o que fiz ao
meu irmão. — Ele passa as mãos pela cabeça, em um gesto que demonstra seu conflito interno. — Você é a minha única chance de consertar as coisas quando chegar ao acampamento. Talvez eles esqueçam tudo se entregá-la como esposa aos soldados.
Sinto o mesmo calafrio de ontem à noite
percorrer o meu corpo dolorido, por toda a tensão que tenho vivido. Preciso ser forte!
— Acha isso certo? — Minha voz sai trêmula.
— Não me importo, sua religião é culpada
pela depravação das nossas mulheres. Devemos lutar contra isso, vocês falsificam a palavra de Deus...
— Talvez esteja tirando conclusões
precipitadas sobre nós, cristãos, com base em coisas aleatórias que tenham te contado sobre a gente. — Me sinto tão calma que, por um momento, esqueço a situação em que me encontro.
Noto seu olhar se suavizar, algo
sobrenatural está acontecendo e não sou mais capaz de controlar as palavras que saem da minha boca.
— Posso te contar um pouco sobre o meu
Deus? — pergunto, o encarando, e ele balança a cabeça afirmativamente. — Você sabe quem foi Jesus?
— Foi um dos grandes mensageiros
enviados por Deus, para orientar o seu povo.
— O reconhecem como sendo o filho de
Deus?
— Não, primeiro porque adoramos um
Deus único, que não tem parceiros e é o Criador de tudo e de todos. Para nós, Jesus não é um ser divino, não acreditamos na trindade Pai, Filho e Espírito Santo. Sabemos que o seu nascimento foi um grande milagre e um sinal do enorme poder de Deus.
— Se o enxergam assim, por que lutam
tanto contra os cristãos? — a pergunta sai de modo tão natural, que até me espanto.
— Não sei, mas há algo que sempre me
incomodou desde que comecei a estudar o Alcorão com mais atenção. — Ele se arruma ao meu lado. — Já questionei os meus mestres, se isso não queria dizer que Jesus era maior que Maomé, mas eles nunca souberam me responder com razões que me convencessem.
Recordo-me de uma matéria que li meses
atrás antes da viagem, falando sobre cristãos que usavam o próprio Alcorão para comprovar as diferenças de Jesus e Maomé, provando, assim, a divindade de Jesus. Tento me lembrar dos tópicos que achei mais interessantes na época e eles me vêm à mente, como se os estivesse lido há poucos minutos.
— Vejamos então, para você, ele foi apenas
um grande profeta, é isso mesmo?
— Sim, o que o difere de Maomé? — Antes de vir à África, eu estudei muito sobre a sua religião para tentar entender quais as razões desse conflito que dura tanto tempo. Descobri coisas interessantes e passei a admirar sua fé, mas isso não me fez deixar de ver Jesus como o filho de Deus. Li algumas passagens do Alcorão que reconhecem que Jesus nasceu de uma mulher virgem, enquanto o profeta Maomé não, inclusive, a tradição islâmica sabe quem são os pais dele, que, se não me falha a memória, são Abdulá e...
— Amina... Sim, você está correta, moça.
— Noto que ele parece mais interessado pela nossa conversa.
Sinto que, de algum modo, a minha missão
desta viagem se encontra diante de mim e não existe modo de escapar disso.
— O que mais viu que pode me convencer
que o seu Jesus é filho de Deus?
— O Alcorão reconhece que Jesus não
pecou, pois não tinha pecado nele, enquanto reconhece que Maomé era um pecador. Estou certa? — Ele afirma com um aceno. — No livro sagrado de vocês Ele é chamado de “Messias”, ou seja, o Ungido, além de também ser chamado de “a Palavra de Deus”, nenhum desses títulos foi dado ao profeta Maomé.
— Faz sentido. Agora, me conte um pouco
sobre a sua fé. O que a fez acreditar nesse homem e segui-lo?
— Quando eu era criança, Jesus me deu
uma família de presente e, apesar do sangue deles não correr em minhas veias, eles me acolheram de um modo inexplicável. Foi nessa família que aprendi a acreditar que seu amor por mim seria o suficiente para que eu pudesse confiar a minha vida a Ele...
— Apenas isso fez a moça amar esse Jesus? — Não, muitas coisas me fizeram amá-lo.
Em primeiro lugar, eu era apenas uma criança e, através Dele, conquistei o meu maior sonho que era ter uma família que me amasse, depois me presenteou com um pai maravilhoso... — Meus olhos enchem de lágrimas ao me lembrar de todos eles. — Livrou minha mãe de uma doença horrível, que ameaçava roubar a sua vida, um verdadeiro milagre. Jesus fez e continua fazendo coisas maravilhosas na minha vida e na dos meus familiares, não consigo me imaginar sem Ele dentro do meu coração. Como você se sente em relação ao profeta Maomé?
— Acho que do mesmo modo que você.
Não consigo pensar nos meus dias sem sua presença ao meu lado. — Se olhar atinge um tom reflexivo.
— Por que me sequestrou? — Quando me
dou conta da gravidade da pergunta que fiz, já é muito tarde.
Seu olhar vaga por um ponto qualquer
dentro do quarto, como se procurasse por uma resposta plausível para justificar suas atitudes.
— Não sei ao certo, normalmente os
membros da minha tribo matam mulheres e crianças, meu amigo pensou que poderíamos nos divertir um pouco com você. — As palavras saem de um modo baixo e contido, talvez ele esteja arrependido pelo que fez. — Depois eu quis levá-la para dar como prêmio aos soldados, mas ele insistiu em provar primeiro que todos, não achei certo o que tentou fazer, por isso o matei.
— O que pensa fazer comigo?
— Agora, admito que não tenho ideia... É
minha serva e tenho direitos, mas há uma força muito maior que eu me impedindo de fazer qualquer coisa com você. Talvez esse seu Jesus seja mesmo o filho de Deus e esteja te protegendo! Esperava poder ir para casa esta noite, só que ouvi rumores de que têm pessoas à sua procura, deve ser muito valiosa.
— Por favor, me deixe ir. Prometo que não
contarei nada a ninguém sobre você.
— Não alimente esperanças de que irei
libertá-la, apenas porque conversamos por um momento. Logo sentirão a minha falta nos pastos e terei que fazer o que é o meu dever. Entregá-la a eles para que façam o que não fui capaz.
Toda a confiança que construí na última
hora desmorona como um castelo de cartas soprado pelo vento. Não posso desistir.
Não estou com medo, apesar das palavras
duras que ouvi pela manhã, logo depois de achar que estava conquistando sua confiança. Parece loucura pensar que a minha vinda a este continente foi apenas para estar aqui, trancafiada neste quarto, no meio do nada. Como vovó costuma dizer, Deus tem seus meios de trabalhar em nossa vida.
Sei que não tenho esse direito, mas me faço
muitos questionamentos. Fico me perguntando se a alma desse rapaz é tão valiosa assim? Será que precisava que eu passasse por tudo isso? Não teria uma outra pessoa que poderia fazer esse trabalho por mim? Minha fé falha por alguns momentos e sinto um temor pela missão a mim confiada.
Ele some durante toda a tarde e, ao cair da
noite, quando o medo ameaça me tomar novamente, ouço passos caminhando em direção ao quarto. Meu corpo treme e instintivamente me encolho, não é algo que possa controlar, meu cérebro está em alerta.
— Sou eu, não precisa ter medo. — A voz
áspera surge quando a porta se abre e senta-se ao meu lado, segurando uma lanterna. — Passei o dia pensando no que me falou sobre o tal filho de Deus, pode me falar mais sobre Ele.
Sento ereta no colchão, estou exausta, mas
preciso fazer isso.
— Por quê? — pergunto, sem pensar, mas
não me arrependo.
— De algum tempo para cá, tenho me
sentido sujo por todas as coisas que fiz às pessoas e o sangue manchando minhas mãos. Não quero mais viver assim, acredito que Deus não quer todo esse derramamento de sangue em Seu nome. Cada vez mais sinto um peso enorme em minhas costas, quando penso em tudo que fui capaz de fazer, alegando ser pela minha fé.
Analiso com cuidado suas palavras e decido
o que dizer.
— Então, acho que é Dele que o seu
coração precisa. Depois que O conhecemos e entregamos nossa vida a Ele, nossa vida nunca mais é a mesma. Jesus, é Aquele que todos precisam. — Não consigo conter a emoção que me toma ao falar. — O único capaz de preencher o vazio do coração humano, Ele ouve as nossas preces, mesmo quando tudo parece perdido, é a cura para todas as dores do nosso corpo e alma, apenas Jesus é capaz de nos compreender, sem nos julgar e pode ser um amigo leal. Ninguém é capaz de explicar o Seu amor por nós e, através Dele, Deus atende nossas orações. Sua morte na cruz religou o homem a Deus, todas as dores que carregou não eram Dele, mas sim, nossas. Como posso não amar esse homem que deu a vida para salvar a humanidade do pecado?
— Você fala com tanta paixão, que me faz
querer sentir o mesmo. Acha que Jesus pode me perdoar por todas as coisas que fiz, mesmo aquelas que usei o nome de Deus para fazer?
— Jesus é amor, é perdão, é recomeço! Ele
veio ao mundo para perdoar os nossos pecados, e se você sente que está sem rumo, Ele é o caminho, a vida e pode te libertar de todo esse peso, porque Jesus quer te salvar!
Um silêncio paira entre nós e chego a
pensar que o homem está dormindo, então, ele se levanta de repente.
— Durma bem, partiremos amanhã ao
amanhecer!
Meu coração se entristece, pois, essa
decisão mostra que mesmo ele querendo acreditar em Jesus, há algo maior que o impede de me libertar e deixar que siga o meu próprio caminho.
Oro desesperada, apesar da certeza de que
nada vai acontecer comigo, não consigo enxergar por onde Deus poderia agir em minha vida neste momento. Lembro-me do que ele disse mais cedo, têm pessoas me procurando. Então, por que ele decidiu se arriscar?
A noite é bastante longa e não consigo
dormir direito, pensando no que o dia seguinte me reserva, oro e tento entender aonde tudo isso está me levando e, por mais, que eu tente, ainda não consigo achar. Eu falei sobre a minha fé para ele e isso não amoleceu seu coração, do contrário, parece que ao fim de cada conversa, o homem se endurece mais.
Acordo com uma mão áspera sacudindo
meu ombro, abro os olhos em alerta e o homem está agachado diante de mim.
— Levante, precisamos ir! — Noto que o
dia ainda não amanheceu.
Caminhamos mata adentro, pelo que
parecem horas intermináveis, o suor escorre pelas minhas costas, fazendo o vestido surrado colar em meu corpo. Por fim, chegamos a uma estrada e nos deparamos com um carro que mais parece uma sucata velha.
— Coloque isto no rosto, não quero chamar
atenção. — Ele me entrega um tecido estampado com cores vibrantes.
Meu coração se descompassa, o dia ainda
não amanheceu e tenho muito medo dos rumos que tudo pode tomar nas próximas horas. Clamo a Deus em silêncio. Por favor, me ajude!
Parece uma eternidade desde que tudo
aconteceu, mas foi menos de uma semana. Fico pensando no que pode ter acontecido com a família do pastor Joseph. Será que estão bem?
Não trocamos mais que cinco frases desde
que saímos do lugar onde ele me manteve presa. Tenho medo de falar qualquer coisa e descobrir que estou indo para a morte certa, enquanto penso sobre o quão cruel será o meu destino, o homem resolve falar.
— O seu nome é Mia? — me pergunta, um
tanto desconfiado, e lembro de que não mencionamos nomes desde que começamos a falar amigavelmente.
Como ele sabe meu nome?
— Sim. — Me limito a uma resposta curta e
vejo seus olhos se arregalarem, incrédulos.
— Sente saudade da sua família? — Ele não
me dá tempo para responder e continua a falar. — Tem alguém chamado Tony te esperando em algum lugar?
Paraliso neste momento, não sei o que
responder. Nem faço ideia de como ele conseguiu essas informações e tenho medo de descobrir. Pela primeira vez, desde que saímos do casebre, eu o encaro, mas ele desvia seus olhos dos meus rapidamente.
— Gostaria de saber para aonde indo? —
Balanço a cabeça, negando. — Eu pensei muito no que conversamos ontem. Mesmo eu tendo a minha fé em Deus, por um momento, ela vacilou e se tudo o que aprendi até aqui não for de todo verdade? E se o seu Jesus for realmente o filho de Deus e não me exigir que faça tantas coisas ruins? Então eu pedi que me desse um sinal de que Ele realmente era real...
Noto que há uma emoção em suas palavras
enquanto fala.
— Tive um encontro com o seu Jesus ontem
à noite, agora tenho certeza de que é real e capaz de me perdoar por todo o mal que cometi na minha vida. Ele me disse que um dia virá buscar a Sua igreja e que devo me humilhar perante seus pés, buscar o caminho da verdade e disseminar sua palavra para aqueles que ainda não O conhecem. Contou-me também que serei perseguido pelos que hoje são meus irmãos e, que se eu não negar o Seu nome, Seus anjos sempre virão ao meu socorro.
Meu corpo inteiro vibra com as palavras
que acabo de ouvir, tento formular alguma frase, mas sou incapaz de dizer qualquer coisa. Sinto algo diferente me tomar e sei que o Espírito Santo de Deus veio ao meu encontro e que minha missão neste lugar está terminada.
— O seu Jesus me passou um recado para
você, Mia. Diga a ela que me agradei dos seus pedidos e da pureza de seu coração... Ele realmente ama você, moça, e me fez um pedido especial.
As lágrimas molham meu rosto, entrelaço
minhas mãos e as aperto nervosamente, sempre soube que Deus nunca me desampararia, mas nunca imaginei que Ele viria desse modo.
— Tem certeza de que O viu? — pergunto,
incrédula.
— Sim, Ele me contou sobre a doença da
sua mãe, falou-me sobre a grande fé que você tem. Pude sentir a força Dele em meu coração. Ele me fez um pedido para que eu a levasse até a Embaixada, que de lá tomará um caminho. Sinto uma força muito poderosa me dominar e não sou capaz de voltar à minha tribo e continuar a ser quem eu era, depois de conhecer toda a grandeza de Jesus. Gostaria de agradecê-la por abrir os meus olhos para que eu enxergasse o verdadeiro caminho que leva aos céus. Obrigado, moça!