Escolhidos pelo amor

Crys Carvalho · Capítulo 2 de 17

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Escolhidos pelo amor

Um

TONY

Muitos anos se passaram desde que fui

adotado, me tornei advogado como meu pai, Lucas. Tenho mantido a minha promessa com Deus e sempre procuro me lembrar de tudo o que ele fez por mim. Nesses anos, Mia e eu nos tornamos inseparáveis e melhores amigos.

E eu... bom, eu ganhei o que tanto queria: a

família que tanto pedi a Deus e ainda ganhei um casal de irmãos. O amor que cerca a nossa casa é algo divino. Já faz um tempo, mas parece que foi ontem que cheguei nesta família. Era só um garoto maltratado pela vida e cheio de inseguranças, só que eles me acolheram e me deram muito mais que uma casa. Nunca serei capaz de expressar a minha gratidão a eles e a Deus, por tudo que conquistei.

Aos trinta anos, ainda moro com meus pais.

Até comprei um apartamento, mas eles me proibiram de mudar para lá se não estiver casado. Amo os dois, mas minha mãe foi o melhor dos presentes que eu poderia ter.

Estou no trabalho e alguma coisa que o

cliente me disse trouxe à tona todas as lembranças do meu passado. Tento me concentrar no que ele diz, só que meu celular vibra sem parar em cima da mesa. Sei que não é nada profissional um advogado sair no meio de uma reunião para atender ao telefone, mas se não fizer isso, a minha mãe não vai parar. Peço licença e me retiro da sala.

— Filho, por que demorou tanto a atender

esse telefone? Está querendo matar a sua mãe do coração?

Solto a respiração devagar. Dona Viviane é

super protetora, confesso que às vezes ela me sufoca com tanta atenção, mas agradeço a Deus todos os dias por tê-la colocado em minha vida.

— Mãe, estou ocupado. A senhora não

podia esperar eu terminar?

— Antônio… — Ela usa meu nome e não

Tony. Noto a angústia na voz dela e isso me põe em alerta.

— Aconteceu alguma coisa com o meu pai? — Não, filho! Seu pai está bem. A Mia…

ela sumiu. Tem dois dias que a Taís e o Álvaro não conseguem falar com ela. Eu disse que você tinha conversado com sua prima ontem. Se falaram, não é mesmo?

— Não, mãe! A última vez que nos falamos

foi anteontem à noite. — Conheço a minha mãe e tenho certeza de que não é apenas isso, por trás de toda essa preocupação tem muito mais escondido.

Estamos em contato sempre que possível,

sei que esse sumiço é normal, porque os locais remotos em que Mia vai, raramente, tem sinal de telefone. Esse foi um dos motivos pelo qual tentei — inutilmente — convencer tio Álvaro e o Vô Miguel não a deixarem ir nessa cruzada evangélica na África, ela nunca tinha ido há países do continente africano. Só que ninguém contraria minha prima. Ela é uma das pessoas mais cheias de artimanhas que já conheci. Apesar de achar que tudo não passa de um mal-entendido, estou apreensivo.

— O que está acontecendo mãe? Fala de

uma vez. — Nem consigo esconder a preocupação.

— O Murilo acabou de ver no Facebook ,

uma notícia de que dezenas de missionários cristãos foram mortos por muçulmanos ontem à tarde, em uma igreja na Nigéria. — Mamãe está soluçando, essa garota é como se fosse um pilar de sustentação dessa família. — Tem até fotos dessa crueldade... Oh, Deus, não deixe que nada de ruim tenha acontecido a nossa menina!

— Ele tem certeza disso?

— Ah, filho, teu primo pesquisou em

muitos lugares, mas é tudo tão incerto. Não tem como saber se é verdade. Seu tio está tentando contatar alguns pastores responsáveis pela cruzada... Meu Deus, a Taís não aguenta um baque desse, Tony, acho que nenhum de nós estamos preparados para perdê-la.

— Fica calma, mãe. — Tento ser sensato,

mas minha cabeça está a mil. — Não podemos sofrer por antecipação, vou ver se consigo falar com um dos nossos colegas que estavam com ela no grupo da semana passada. Com certeza vão saber nos dar informações concisas.

Terminamos a ligação. Olho o aplicativo de

mensagens, a última visualização dela foi há um dia. Digito o nome de cada um dos colegas e nenhum deles visualizou nada hoje, deixo mensagens para alguns deles. Preciso retornar à reunião, só que a minha vontade é de correr para casa e encontrar a minha família para juntos descobrirmos o que está acontecendo. Volto à sala de reuniões, mas não consigo me concentrar em absolutamente nada.

Por fim, cancelo os meus compromissos,

não tenho mais cabeça para pensar no trabalho. Não com a minha mente criando uma infinidade de possibilidades.

Caminho de um lado para o outro em meu

escritório, me esforço para controlar minha respiração e os batimentos do meu coração, em uma vã tentativa de esconder as emoções que ameaçam dominar meu corpo, mas descobri que sou incapaz de fazer isso. Em teoria, por ser mais velho e filho de Vivi, sua prima mais querida, meu dever seria cuidar e proteger Mia. Porém, na prática, fazemos uma bagunça, com isso, nos metemos na vida um do outro, sem ao menos, pedir licença, tudo porque anos atrás fizemos um trato de sempre cuidarmos um do outro sob qualquer circunstância. Entendo que somos paranoicos em alguns momentos, talvez por essa razão nós acabamos ficando tão dependentes um do outro.

Divago para os dias em que minhas

preocupações eram outras.

— Mia, acha que a Vivi vai me amar do

mesmo jeito depois que vierem os bebês que ela sonha?

Não encaro minha amiga, tenho me sentido assim desde que Viviane manifestou a vontade de engravidar e sei que é um pensamento egoísta da minha parte. Esperei a semana inteira pelo jantar na casa da vovó Ângela para conversar com Mia, ela sempre sabe o que me dizer quando estou me sentindo assim.

— Por que isso agora? — Ela me olha,

pensativa.

— Não sei. — Esfrego as minhas mãos,

nervosamente. — Eles estão muito empolgados com a decisão, eu também estou, mas me adotaram há pouco tempo e fico com medo de perdê-los, não consigo evitar esse medo de ser abandonado novamente.

A garota determinada fecha a revista e

senta na mesa de centro de frente para mim.

— Isso nunca vai acontecer! — afirma,

categoricamente. — Acha que Deus faz as coisas pela metade, Tony?

— Não. — Desvio os olhos e encaro o chão. — Sabe de uma coisa — seu rosto se

ilumina como se ela tivesse tido a melhor das ideias, eu conheço esse olhar muito bem —, não gosto de te ver assim, vamos fazer um trato. O que você acha?

— Como assim, Mia? — pergunto,

desconfiado.

— Se sentiria mais seguro se eu prometesse

nunca te abandonar? A gente é amigo faz um tempão, você confia em mim, não é? — Às vezes essa garota fala como um adulto, mas é verdade que confio nela.

— Sim, claro.

— Mas acho injusto só eu te prometer

isso... Eu sei que meus pais vão estar sempre do meu lado, mas vai ter momentos na minha vida que só um amigo vai me entender e acho que você é a pessoa certa para esse papel. Me dá aqui as suas mãos. — Exige e a obedeço, ela me encara, séria. — Vamos cuidar um do outro para sempre, mesmo que eu esteja longe, porque você sabe que um dia irei partir, nunca vamos deixar de nos proteger. Vai poder contar comigo a qualquer hora e eu jamais vou te abandonar, mas você tem que me prometer também, Tony. Me promete que nunca vai deixar de ser meu amigo e vai honrar sua palavra?

Engulo o nó que se forma em minha

garganta, essa menina tem o dom de me surpreender, desde que a vi pela primeira vez.

— Prometo.

Mia é mais nova, dois anos, mas este fato

não impede que as pessoas que a cercam tratem-na como uma adolescente, muito menos, que a mimem. Provavelmente isso se deva a sua voz mansa, aos olhos castanho-esverdeados cheios de afeto emoldurado pelos cabelos castanhos dourados ou seria seu jeito de menina que nunca perdeu. Me incluo nessa lista, apesar de tentar ser racional, na maioria das vezes, sempre acabo cedendo aos seus caprichos.

Formada em Teologia, já viajou a boa parte

do mundo anunciando o evangelho, algo que sonhou desde a adolescência. Inclusive, tentou me convencer muitas vezes que eu seria um bom missionário e assim poderia acompanhá-la em suas viagens, mas devido à minha infância traumática, marcada pelo abandono, sinto necessidade de ter estabilidade, inclusive, fiz terapia por tempo suficiente para trabalhar essa minha insegurança, depois não queria deixar minha mãe desesperada. Já basta André — meu irmão mais novo que está entrando na adolescência — para preocupá-la.

Por um tempo eu cogitei segui-la pelo

mundo, era uma ideia extremamente tentadora falar sobre Jesus, o homem que salvou a minha vida e levar meu testemunho às pessoas para que compreendessem o quanto Ele pode ser bondoso e misericordioso. Depois de analisar todos os prós e contras — costumo ser prudente em minhas decisões —, entendi que não seria feliz seguindo um sonho que não era o meu. Por essa razão, preferi continuar a minha faculdade de Direito e seguir a admirável profissão do meu pai.

Alguma coisa dentro de mim queria lutar

contra as injustiças do mundo, ir contra o sistema falido do nosso país. Quantas crianças abandonadas e esquecidas pelo mundo precisariam sofrer para que fossem notadas? Eu precisava fazer algo por eles e exercendo essa profissão, eu seria capaz de mudar o destino de algumas delas. Sei que acabei frustrando Mia, apesar de admirar a causa nobre a qual escolhi me dedicar, ela insistia em me incluir nos planos de sua vida, ainda que naquela época, nenhum de nós fazia ideia do que esse desejo de estarmos sempre juntos significava.

Minha prima enfiou na cabeça que se

dedicaria exclusivamente ao evangelho até completar trinta anos e, só depois de ter percorrido o mundo em sua missão, criaria raízes e se casaria com um bom homem que amasse a Deus tanto quanto ela. Confesso que era um ótimo plano, ela tem minha admiração. Meu tio não poderia ficar mais feliz com a escolha da filha, o propósito dela é o sonho de todo pai, admito.

Como a pessoa sensata que sou, só

conseguia imaginar os meios que ela usaria para alcançar seus objetivos, porque, apesar de todos nós sermos criados para entender e ajudar o próximo, sempre tivemos tudo que necessitamos.

Por muitas vezes, a indaguei sobre viver

sem recursos e sua resposta era sempre a mesma: Deus me proverá. Isso me irritava bastante, pois, ao contrário dela, eu conhecia o que era viver sem o básico. O tempo provou que, apesar de ver o mundo de forma romantizada, Mia conseguia se adaptar facilmente a qualquer situação.

A cada nova viagem tenho medo de que

Mia não volte e há uma razão plausível para o meu medo, mas ela prefere dizer que me falta acreditar mais, mesmo depois de Deus fazer tantas coisas maravilhosas comigo. Sei que pareço egoísta inúmeras vezes, só que não tenho culpa de ter me envolvido tanto com ela, ao ponto de querer que sempre esteja em um lugar que eu possa vê-la todos os dias, sem a ajuda de tecnologias.

Apesar das acusações dela de que a minha

fé é minúscula em vista de tudo que recebi ao longo da minha vida, tenho consciência de tudo que recebi, aliás, isso moldou o meu caráter. Valorizo todas as minhas conquistas, desde a pequena até aquela significativa. Me tornei uma pessoa que ama Deus sobre todas as coisas e que escolheu esperar o tempo certo para tudo em sua vida, embora tenha enfiado os pés pelas mãos em alguns momentos do percurso.

Gostaria de dizer que o que sinto por Mia é

algo simples, porém, há alguns anos descobri que amo mais do que deveria, essa garota tão complicada, que despedaça meu coração todas as vezes que nos despedimos e ela segue para uma nova viagem em busca de mudar o mundo, ou pelo menos, parte dele.

Sempre tive medo admitir a mim mesmo o

que sinto por ela, mas nesse momento é a única certeza que tenho. Acredito que Mia sempre me viu como seu melhor amigo, aquele que permite que se meta em todas as áreas de sua vida, tudo bem que faço a mesma coisa, mas essa informação não é relevante nesse momento.

Nos últimos meses muitas coisas mudaram

entre nós e acredito que exista uma remota chance de que nos tornemos um casal, mas o sumiço dela muda tudo. E se nunca mais puder vê-la ou termos uma conversa pessoalmente sobre os sentimentos que temos um pelo outro?

Saio do escritório direto para a casa dos

meus tios, depois de passar horas na frente do computador, buscando o máximo de informações sobre o ocorrido, vou me reunir com meus familiares para juntos encontrarmos uma solução sobre os caminhos que devemos tomar para encontrá-la. Estou lutando bravamente com o meu lado racional para não pensar que o pior tenha acontecido com ela, mas a cada minuto que passa, meus medos aumentam e não sou capaz de controlá-los.

Estaciono o carro na frente da casa dela,

passo as mãos pelos cabelos, tentado arrumar os cachos rebeldes que caem sobre meus olhos e me preparo para descer, quando Thiago, um dos colegas que enviei mensagens, responde. Escuto o áudio e conforme as palavras vão sendo absorvidas, vou percebendo a gravidade delas. O ar vai me faltando, afrouxo o nó da gravata, um tremor percorre todo meu corpo e uma dor invade meu peito, como se estivessem arrancando violentamente cada pedaço do meu coração.

“Tony, as notícias não são boas, tivemos

que voltar às pressas da vila que estávamos evangelizando ontem, porque fomos avisados de que um grupo extremista estava indo na direção do local. Soubemos hoje cedo que houveram ataques nas proximidades do vilarejo. Não posso confirmar se o que souberam aí é verdadeiro, nem o paradeiro de sua prima. Ela acabou se separando do nosso grupo no meio da confusão que se formou. Estamos escondidos e tudo está muito confuso, talvez teremos de encerrar o trabalho por aqui e voltar ao Brasil.”

Até esse momento tentei imaginar que havia

acontecido algo trivial e esse era o motivo de não ter me contatado há dois dias. Ouço o áudio novamente, tentando identificar qualquer interpretação errônea e constato que pode ter acontecido com Mia exatamente o que tanto temi desde que ela me falou sobre essa viagem: ela pode ter sido sequestrada por um grupo extremista ou estar morta.

Lembro-me das sessões com a minha psicóloga anos atrás. Fecho os olhos e respiro profundamente. Isso não pode estar acontecendo! Olho para a tela do meu celular e a foto do nosso último momento, juntos, pouco antes de ela ir, desperta recordações daquele dia. Levo a mão aos lábios e sinto um nó se formar em minha garganta.

Preciso ter calma, pensar racionalmente

como sempre faço. Só que a possibilidade de perder Mia tira toda a minha capacidade de ser coerente, olho através da janela do meu carro para a casa iluminada, sei que lá dentro todos estão com os ânimos à flor da pele e não posso entrar nesse estado.

Meu Deus! Eu sei que não é certo, mas amo

essa garota, por favor, não permita que ela esteja morta.

Encosto a cabeça no banco do carro, passo

as mãos pelo rosto, em uma tentativa de aliviar a merda de dor que está por toda parte, fecho os olhos novamente e me lembro das nossas orações. Não importa se ela está em casa ou em missões, sempre que podemos, oramos juntos para que Deus possa nos proteger. Claro que hoje, não é na mesma frequência de quando éramos adolescentes, mas procuramos fazer isso, pelo menos, uma vez por semana.

Recordo dos conselhos de Mia, um sorriso

me vem à face ao lembrar das broncas que sempre vieram quando descartava as garotas “pra casar”, que ela insistia em me apresentar. Graças a Deus ela parou de torturar o meu coração com essa coisa de ser cupido.

Não posso perder Mia assim! Tenho

dificuldades para respirar, sinto uma dor física semelhante à das surras corretivas que recebi na infância. Os anos de tratamento me fizeram guardá-las em uma caixa, em um canto esquecido, só que é inevitável comparar o que estou sentindo agora à maior dor que uma criança pode ser submetida.

Encosto a cabeça no volante e massageio o

peito, enquanto luto contra as lágrimas que ameaçam cair. É como se o meu coração estivesse sendo esmagado sem que eu pudesse fazer nada para impedir. Sei que lá dentro todos eles estão como eu, todos a amam e é impossível imaginar a nossa vida sem Mia.

Procuro pela racionalidade bravamente, me

agarro ao que minha família ensinou: depositar todas as minhas causas nas mãos de Jesus. Respiro fundo, concentro-me em procurar a fé que habita em mim e faço uma oração antes de sair do carro.

A imagem de uma Mia sorridente dança em

minha cabeça, enquanto sigo pelo caminho de pedras até a casa dos meus tios. Preciso desesperadamente me agarrar ao fio de esperança e acreditar que tudo vai ficar bem.

Não, Deus não faria uma coisa dessas

comigo e minha família.

Onze anos antes...