Escolhidos pelo amor
Treze
TONY
Dois dias se passaram, voltei a Abuja
acompanhado dos pastores Umberto e Joseph, que insistem para que eu não perca a fé. Apesar disso, minha esperança de encontrar Mia diminui a cada segundo que passo sem notícias, tentei tudo que estava ao meu alcance e agora tudo que me resta é esperar que um milagre aconteça.
Em outras circunstâncias, eu realmente me
agarraria a isso com todas as minhas forças, mas ela não está aqui para me motivar, dizer que vai dar tudo certo e que só preciso confiar no nosso Deus. Já é noite quando chego ao hotel depois de um dia extremamente cansativo, tomo um banho, visto o pijama e me deito para responder as dezenas de perguntas no grupo da nossa família.
Sinto um aperto no peito por não acreditar
tanto quanto eles de que tudo vai ficar bem, talvez porque há muito em jogo, afinal, estamos falando da mulher que amo e tenho feito planos de um lindo futuro ao seu lado nos últimos meses. Ouço um áudio da minha mãe e tenho vontade de chorar, porque neste momento eu gostaria de ter o seu colo para desabafar meus medos.
“Não desista, filho, eu sei o quanto seu
coração está sangrando, mas tenha fé, meu amor. Deus irá trazê-la de volta para nós.”
Encaro o teto, buscando forças, fecho os
olhos e lembro-me da nossa adolescência, do modo como ela sempre me sorri, o brilho em seus olhos. Pego meu celular novamente e procuro por alguns arquivos de vídeo, encontro o que procuro, aperto o play e deixo que a voz doce de Mia me preencha e me faça acreditar que tudo vai ficar bem.
“Estou longe de casa há tanto tempo
E com o tempo se aprende
Tão inútil é o orgulho
Passageiro é o mundo
E que importância tem os medos
Se serão irrelevantes com o tempo?
Viver é só um ensaio de uma vida eterna
Nesta vida eu nada ganho
meu vazio é do teu tamanho[3]
Quantas vezes cantamos essa música e
choramos juntos. Eu tinha certeza de que finalmente andaríamos de mãos dadas, de que poderia dizer às pessoas que aquela garota era o meu presente de Deus em todos os sentidos... E agora só o que me resta é esperar, não há mais certeza alguma sobre o nosso futuro. Lágrimas escorrem pelo meu rosto, sou incapaz de contê-las. Há tantos sentimentos misturados duelando em meu peito, que nem faço ideia de qual será o vencedor ao fim.
Pastor Joseph acabou de enterrar sua família
e tem tanta fé em suas palavras, que me envergonho por ser tão pessimista nesse momento. Conversamos bastante hoje, antes de ele retornar à sua cidade, acabei contando a ele sobre os meus sentimentos.
“Irmão Tony, é um rapaz muito corajoso e
Deus se agrada de valentes como você. Tenha certeza de que todo o seu sacrifício será recompensado, não servimos aos homens, mas ao Rei dos reis, que com uma simples palavra é capaz de parar o sol e qualquer outro elemento da natureza.
Pelo pouco que conheci da menina Mia,
posso te afirmar que vocês nasceram um para o outro e até um cego saberia disso. Nós vamos encontrá-la, porque os que honram a Deus também serão honrados. Acredite, Ele já selou lá no céu essa união e não há nada que possa impedir o Seu operar. Basta somente que esperemos o Seu tempo.”.
Faço minha oração, tento esquecer de tudo e
dormir um pouco para descansar a minha mente. Mal fecho os olhos e acordo sobressaltado com uma voz muito parecida com a de Mia a me chamar, olho por todos os lados e, por fim, adormeço novamente.
Acordo mais cedo do que o esperado e com
um sentimento de que devo tentar conseguir ajuda na Embaixada, mais uma vez. Sei que é inútil, todos lá foram bem enfáticos quanto a falta de apoio do governo local. Tomo o café da manhã e a ideia não me sai da cabeça, leio a Bíblia, converso com minha família e, no fim, continuo com o mesmo sentimento e nem são oito da manhã.
Ligo para o pastor Umberto e lhe conto
sobre o que tem me perturbado desde que acordei. Sua resposta é para que eu faça aquilo que Deus está pedindo, de certo, algo Ele tem a fazer. Nos encontramos na frente do hotel dentro de alguns minutos, chegamos à frente do prédio da Embaixada . É um lugar simples, um tanto desbotado, com portões cinzentos, algumas plantas tentam trazer vida ao local, o brasão dourado da república brasileira deveria me fazer sentir em casa, mas só o que sinto é abandono.
Entro mais uma vez naquele lugar onde já
tiraram todas as minhas esperanças, no balcão de informações a moça me exibe um sorriso amarelo, pois já faz ideia do que tenho a dizer.
— Deixaram-me uma sacola para entregar a
você caso voltasse aqui — ela me diz, com um olhar piedoso, antes mesmo que eu possa perguntar qualquer coisa.
Ela me entrega um saco preto e meu
coração dispara, cheio de esperanças, apesar da incredulidade estampada no rosto da mulher à minha frente. Sento-me em uma cadeira próxima, junto com pastor Umberto, que encara o conteúdo em minhas mãos, cheio de curiosidade.
Respiro fundo e desato o nó, são os
pertences de Mia, aqueles que ela carregava sempre com ela na mochila. Uma troca de roupa limpa que traz o perfume dela, alguns objetos e seus documentos pessoais. De algum modo, isso faz com que a minha fé renasça. Vou encontrá-la! Arrumo tudo de volta e questiono a moça sobre a origem daquela encomenda.
— Gostaria de ter uma resposta elaborada,
mas as coisas dela simplesmente apareceram na frente da Embaixada esta manhã e fui informada de que deveria entregar a você. Sinto muito, não há mais nada que possamos fazer.
— Mesmo assim, obrigado! Isso é um sinal
para que eu não desista.
Tudo em mim está agitado, sinto uma
certeza enorme de que ainda verei a minha Mia e isso me enche de alegria. Aperto a sacola com uma força descabida contra o meu peito, exibindo um sorriso esperançoso.
— Podemos ir? — pastor Umberto
pergunta, enquanto me recomponho.
— Sim... Foi um sinal, não foi, pastor? — Claro que sim, meu filho. Deus tem sua
forma de agir para nos motivar a continuar de pé — afirma, enquanto caminhados distraidamente pelo estacionamento.
Agora tenho certeza de que Deus está ao
meu lado nesta busca e não poderei desistir, ela será a mãe dos meus filhos, a mulher com que dividirei a minha vida, esperá-la por mais um tempo, não significa absolutamente nada, comparado ao medo que tive antes de nunca mais vê-la.
Inclino a minha cabeça em direção ao céu, fecho os olhos e agradeço silenciosamente por esse pedacinho de esperança, quando sinto um arrepio percorrer minha coluna.
— Tony? — uma voz logo atrás de mim
questiona e, por alguns momentos, penso estar distorcendo a realidade, então a escuto novamente. — Tony, é você mesmo?
Viro-me devagar, sinto as pernas falharem e
o sangue congelar nas veias.
Não é possível!
Escuto o baque da sacola que estava em
minhas mãos caindo no chão.
Não é possível!
Pisco algumas vezes...
É possível, sim! Eu interpretei errado os
sinais, essa era a verdadeira razão pela qual eu deveria estar aqui. Para recebê-la e ser o que sempre fomos um para o outro: apoio.
— Mia... — balbucio, quando ela diminui a
distância entre nós e seu corpo esguio se choca ao meu, sem me dar espaço para vê-la melhor, quando meus braços se enlaçam a ela. — Sou eu, minha querida! — sussurro, apenas para nós.
O lenço colorido esconde os cabelos
dourados, seu rosto está mais magro e abatido, pelo pouco que pude notar, mas o que importa é que ela está aqui, viva e, visivelmente, inteira. Seu rosto se encosta ao meu peito, e sinto seus espasmos do choro silencioso que ela não consegue conter. As lágrimas molham minha camisa, ela me aperta como se a qualquer momento eu fosse evaporar. Acaricio seus cabelos, ficamos em silêncio por um tempo, mas ela não parece conseguir controlar suas emoções e o choro continua.
— Shhh... Está tudo bem, agora. — Beijo
seus cabelos e afago suas costas, tentando acalmá-la. — Eu estou aqui, meu amor.
Nossos olhares se encontram, não
precisamos de muitas palavras neste momento, consigo ver o suficiente: os anjos a protegeram. Percorro os dedos pelo rosto delicado, há uma pequena cicatriz no canto esquerdo da bochecha, olheiras profundas marcam seus olhos e não quero pensar nas coisas ruins agora.
— Eu achei que nunca mais veria você. —
Sua voz sai embargada pelo choro, com os olhos presos nos meus e suas mãos acariciam meu rosto.
Nos abraçamos novamente, por um longo
momento, um alívio nos invade, solto um suspiro demorado e meus lábios se curvam em um sorriso mais que sincero.
— Deus ouviu nossas orações, querida —
digo, baixinho, afastando-a para me certificar, mais uma, vez de que ela realmente está bem.
Observo-a minuciosamente, o vestido
surrado não tira a essência da mulher por quem me apaixonei. Seja lá o que ela tenha passado durante esses dias que esteve desaparecida, eu ficarei ao seu lado para ajudá-la a se recompor e tenho certeza de que ficaremos bem.
Vejo alguns hematomas nos braços dela,
que tenta esconder. A encaro e deixo que veja que nada vai mudar o que sinto por ela, que o meu amor agora transborda por todos os lados e não consigo mais guardá-lo para mim.
— Não importa o que tenha acontecido, eu
continuo amando você, Mia. — Ela sorri em meio às lágrimas e penso que meu coração vai saltar do peito.
Sei que este não é o momento adequado,
mas passei tempo demais escondendo o que sinto por essa garota. Seguro o rosto dela entre as mãos, limpando suas lágrimas com o polegar, encosto minha testa na sua, fecho os olhos, sentindo nossas respirações irregulares. A beijo delicadamente, apenas para reafirmar o que estou sentindo por tê-la novamente aqui e, por alguns momentos, o mundo deixa de existir. Somos apenas nós dois e o sentimento que nos une.
A euforia é tão grande que quase me
esqueço da presença do pastor Umberto, que nos observa, encostado à porta do carro e pigarreia, interrompendo o nosso momento.
— Bem-vinda de volta, Mia. Eu sabia que
Deus a protegeria. — O homem exibe um sorriso sincero.
Volto à Embaixada, apesar de não estarem
se esforçando minimamente para encontrá-la, me sinto na obrigação de informá-los que ela está de volta. Mia precisa de cuidados, embora garanta a todo momento que está bem, sua aparência não é das melhores. Insisto em levá-la a um pronto-socorro para me certificar de que ela realmente está bem como diz, e apesar de sua hesitação, no fim, ela acaba cedendo.
Acompanhados pelo pastor Umberto, que dirige o carro em silêncio, fazemos o percurso até o hospital, de mãos dadas, enquanto converso com meu pai e tio Álvaro para que tranquilizem a família, pois Mia está a salvo, graças a Deus e nossas orações. Rapidamente conto como aconteceu, dispensando-os, prometendo ligar novamente assim que passarmos pelo médico. Após quase uma hora de espera por atendimento, ela passa por exames clínicos, que garantem que não lhe aconteceu nada, a não ser o fato de estar desidratada e precisar se alimentar bem pelos próximos dias para recuperar suas energias.
Pastor Umberto nos leva ao hotel onde
estou hospedado e sua esposa já nos aguarda, com os olhos cheios de alegria.
— Ah, Mia! Pedi tanto a Deus que a
devolvesse para nós — irmã Ana diz, abraçando-a afetuosamente. — Jesus abençoe sua vida, menina.
— Obrigada — ela responde, tentando
sorrir. — Estou muito cansada...
— Oh, querida! Sei que sim. Tony, vou
acompanhá-la até o seu quarto. As coisas dela estão fáceis de achar? — Lembro-me das coisas que trouxe de Jos ontem.
— Sim, a mala está próxima à cama. Está sentindo alguma dor, Mia? — Toco seu rosto, antes de entregar as chaves para ela.
— Não, fique tranquilo. Deus me guardou
de todas as formas que você puder imaginar, só estou tentando digerir tudo que passei nos últimos dias — ela diz, segurando a minha mão em seu rosto.
A noite já chegou, Mia descansou um pouco
e nos contou as coisas que viveu nesses dias longe, incluindo os eventos que a levaram a estar na frente da Embaixada esta manhã e, cada vez mais, tenho certeza de que tudo foi um grande milagre. Como vovó costuma dizer, Deus tem seu próprio meio de agir em nossa vida e não cabe a nós julgá-Lo.
Quanto ela me perguntou sobre a jovem
Dorcas e tive que lhe contar sobre o que aconteceu à sua família, a vi desabar, chorando inconsolavelmente. Por fim, usei as mesmas palavras que pastor Joseph disse a mim, quando o questionei como aquilo poderia ter acontecido. Foi a vontade de Deus.
Ela agora dorme serenamente, enquanto
acerto os últimos detalhes da nossa volta para casa, o mais breve possível, e irmã Ana vela seu sono. Nem tenho palavras para agradecer o que esse casal fez por nós, sendo nosso apoio em todos esses momentos ruins.
No grupo da família não param de chegar
mensagens, todos querem vê-la e se certificar de que está tudo bem. Combinei com eles de fazer uma vídeo-chamada assim que ela acordar, mas eles não cansam de fazer perguntas e eu desisti de respondê-las, porque sempre surgem mais.
— Consegui lugar em um voo para amanhã, no fim do dia, faremos várias conexões, mas preciso levá-la para casa, o quanto antes — eu explico para o pastor e sua esposa. — Poderiam ficar conosco esta noite, providenciei outro quarto. Porém não quero deixar Mia sozinha.
— Será um prazer, meu filho. — Irmã Ana
afaga a minha mão. — Fique tranquilo, logo estarão entre seus familiares.
Quando Mia acorda, jantamos e conto sobre
a nossa partida na tarde seguinte e posso ver o alívio estampado em seus olhos. Depois conversamos com nossa família — que a enchem de perguntas sobre tudo — e quando se dão por satisfeitos, encerramos a ligação.
Pela primeira vez, durante esse dia intenso,
conseguimos um tempo sozinhos. Nos sentamos em um banco de cipó acolchoado na varanda, Mia se encosta a mim e entrelaça o braço no meu. Há muito a dizer, mas sinto as palavras fugirem.
— Nem acredito que voltaremos amanhã,
estou com tanta saudade de todos. Obrigada por estar aqui. Tive tanto medo de morrer naquele lugar. — Ela desliza a ponta dos dedos pelo meu braço e se aconchega, algo que sempre fez desde que nos conhecemos, mas agora há um novo significado.
Entrelaçamos nossas mãos, fecho os olhos e
deixo que o perfume dela exerça sua função curativa em mim. Penso nas palavras de vovô Miguel e, não é que realmente tinha razão? “Vocês foram unidos pelo amor, filho. Os laços que compartilham são fortes, só precisa acreditar que Deus guiará seu caminho nesta jornada.”
Passo o braço em volta de seu ombro, o que
nos une é muito forte e não somos mais capazes de negar, depois de quase perdermos a oportunidade de viver tudo que sentimos.
— Eu também tive medo, Mia. Deus
provou, mais uma vez, o Seu amor por mim e nunca serei grato o suficiente... — Ela se arruma, de modo que possa ver melhor o meu rosto enquanto falo. — Nas últimas semanas, eu O questionei muito, porque não consigo imaginar como seria a minha vida se você não estivesse nela.
— Me senti da mesma forma, Tony. Me
desculpe por não dizer claramente aquele dia no aeroporto... Você é meu melhor amigo, com você tenho as melhores memórias da minha vida e te amar é algo tão natural quanto respirar. Achei que nunca teria a oportunidade de reparar esse erro... — Os olhos dela adquirem um brilho que faz os meus batimentos acelerarem.
— Tudo tem o seu tempo, meu amor. —
Toco seu queixo gentilmente e o acaricio com o meu polegar.
Mia exibe um sorriso encabulado ao ouvir o
modo como a chamei.
— Isso soa muito bem na sua voz — ela
graceja.
— Não quero mais negar o que guardo aqui.
— Coloco sua mão sobre meu peito. — E é isso que você é, Mia, meu amor.
Beijo a ponta do seu nariz, é tão bom tê-la
por perto e poder dizer o que realmente sinto, sem aquele velho medo de estragar tudo.
— Eu preciso dizer que amo você, Tony, e não é mais como amigo, eu sei que Deus tem grandes planos para nós. Não tenho dúvida alguma de que o que há entre nós é da vontade Dele.
Agora é a minha vez de sorrir largamente,
sua mão toca a minha barba por fazer e sou incapaz de descrever todas as emoções que me invadem neste momento, porque finalmente me sinto um homem completo em todos os sentidos e o meu passado já não pode mais me assombrar.
— Não ouvi direito. — Mordo o lábio
inferior para segurar o sorriso bobo em meu rosto. Ela se aproxima, devagar, suas mãos agora estão em volta do meu pescoço. Encosto a testa na dela e sussurro: — Por favor, me diga que não estou sonhando.
— Eu te amo, Tony. Sempre foi e sempre
será você, não posso mais fugir.
Busco seus lábios e o toque causa uma
miríade de sensações, talvez eu nunca me acostume com seu gosto, sua delicadeza. Seus dedos se afundam pelos cachos dos meus cabelos, puxando-me para si e dizendo tudo mais que não conseguimos verbalizar e é neste momento que tomo a decisão mais importante da minha vida. É com ela que quero dividir o meu futuro, meus sonhos e tudo o que mais houver para ser compartilhado. Nos afastamos por um breve momento, em uma tentativa de reestabelecer o fôlego.
— Casa comigo, Mia?