Escolhidos pelo amor
Quatro
MIA
Me formei há sete anos e, desde então,
tenho viajado pelo mundo levando o evangelho aos lugares mais remotos. A recompensa é gratificante, vivo de modo simples, sem luxos, e as missões transformaram o meu modo de enxergar as coisas. Vi como a crueldade humana pode destruir, mas também pude conhecer o quão imenso pode ser o amor de Deus pelas pessoas.
Em meio à guerras infindáveis, elas não
perdem a sua fé e, com toda a dor que sentem, não deixam de louvar e servir a Jesus. Depois de tudo que vivi nos últimos anos, eu só posso ser grata por tudo que Ele me deu. Compus algumas músicas expressando tudo que vi e ouvi nessas viagens, fui convidada por uma gravadora recentemente para tornar esse sonho real, mas não sei se é o momento.
Estou há três meses em casa, fiz algumas
viagens dentro do país para ministrar a palavra em congressos para jovens. Disponibilizei alguns dias da minha agenda para palestras motivacionais em escolas e faculdades, sou reconhecida pelo trabalho que faço, com a internet hoje tudo fica mais acessível.
Resolvi dividir um pouco das minhas
experiências nas redes sociais e as pessoas começaram a querer saber mais, hoje tenho um site voltado apenas para doações para as missões. Conquistei muito mais do que imaginei e, ainda assim, sinto que falta algo em minha vida.
A pausa é para me preparar para a que,
talvez, seja a missão mais difícil que participarei em todos esses anos. Em alguns dias viajo para o continente africano, onde visitarei alguns países, levando o evangelho. Estou ciente dos perigos que implicam essa empreitada, mas sei que preciso desse tempo lá.
O último país que iremos passar será a
Nigéria, confesso que tive muito medo quando soube que iríamos até lá. Orei muito pedindo a direção de Deus e, no fim, percebi que estava me preocupando à toa, porque Ele sempre cuidou muito bem de mim. Nesses meses de descanso das missões, dobrei minhas orações, sei que uma luta espiritual nos aguarda e que há algo que eu preciso aprender naquele continente.
Caminho pela calçada arborizada até a casa
da vovó Ângela, faz um tempo que não conversamos, necessito dos seus conselhos e também do carinho que sempre tem para mim. Ela é uma mulher de fé, que me ensinou lições que levarei comigo para o resto da vida.
Abro o portão de madeira pintado de
branco, ando devagar pela passarela de pedras para admirar o jardim bem cuidado. Quando eu era criança, passava horas e horas cuidando das flores com a vovó, toco a campainha e me encosto na parede, enquanto espero a porta se abrir.
— Seja bem-vinda, minha menina! — Vô
Miguel me recebe com um abraço caloroso. — Sua vó está na cozinha, fazendo aquele café que você gosta. Como vão os preparativos para a sua viagem?
— Está tudo muito bem, vovô. Graças a
Deus, as coisas estão se encaixando de um modo que só me faz ter certeza de que Ele está comigo no caminho que escolhi seguir.
O acompanho até a cozinha, passamos pela
sala de estar, que continua praticamente igual a quando cheguei por aqui, o violão do vovô continua lustrado e pendurado na parede da sala, só que agora tem fotos dos netos e bisnetos por toda a parte. É engraçado pensar que antes éramos apenas Vivi e eu.
Sou atingida pelo aroma do café recém-
preparado, fecho os olhos e posso visualizar uma versão mais jovem minha correndo pela casa, embalada por esse cheiro maravilhoso.
— Meu amor, que saudade! — vovó
exclama, assim que entramos na cozinha e vem até a mim, para um abraço apertado. — Fica linda a cada dia que passa. A luz de Deus brilha muito forte em você, Mia.
Suas mãos enrugadas passeiam pelo meu
rosto, sinto tanto amor nesta casa, é como se aqui fosse meu segundo lar. Passei uma parte da minha infância com os meus avós, um período bem complicado para a família e foram dias difíceis, eu sei, mas os guardo em um cantinho especial do meu coração.
— São seus olhos, vovó. — Ela sempre diz
coisas que me fazem ficar encabulada.
Nos sentamos em volta da mesa, vovô nos
serve o café, recordo-me das tardes que passávamos juntos quando minha mãe adoeceu e eles sempre procuravam me distrair dos problemas que estavam enfrentando. Eu era tão inocente e nem fazia ideia da gravidade do que todos passavam naquele momento de nossa vida. Meus avós sempre foram tão sábios, alimentaram em mim uma fé inabalável no impossível, que até hoje conservo em meu coração.
— Me contem, como vocês estão? Papai
disse que vovô está muito cansado nos últimos dias e que o médico pediu que deixasse de presidir aos cultos por um tempo. Como está se sentindo, vovô?
— Ah, minha filha, a idade chega para
todos. Estou bem, devo aceitar que a velhice chegou.
— Um homem de Deus não se abala
facilmente. — Lembro-me saudosa de suas pregações. — O que está acontecendo, vovô?
— Não sou mais aquele jovem que pregava
com eloquência, mas Deus ainda se usa deste velho vaso — ele diz, com os olhos perdidos em algum ponto atrás de mim. — Muita gente não entende o verdadeiro significado de servir, filha... As coisas vão sendo banalizadas, as modernidades chegaram e as pessoas parecem ter se esquecido de que o Espírito Santo não habita em templos imundos. A juventude está corrompida, seus jarros sempre transbordando de coisas irrelevantes e não há espaço para Deus em suas vidas.
— É verdade, vovô — afirmo, enquanto
afago sua mão sobre a mesa. — O mundo anda muito difícil, mas ainda existem pessoas por aí, dispostas a doar sua vida em prol do evangelho.
— Claro que sim, você é um exemplo disso
— vovó Ângela contrapõe, cheia de orgulho. — Uma moça tão jovem, que poderia estar desfrutando da vida e escolheu servir. Saiba que a sua recompensa será grandiosa. Deus está preparando o melhor para você...
Saboreio o líquido quente e revigorante,
refletindo nas suas palavras. Encaro o casal à minha frente, vovó segura a mão do marido e o olha de uma maneira que aquece meu coração. Por um milésimo de segundo, desejo um amor como o deles. Mesmo que o tempo os tenha castigado bastante e os sinais estejam por toda parte, eles ainda continuam se olhando cheios de amor.
Meus avós e meus pais continuam a ser
minha referência de amor. Provavelmente, por essa razão, será mais complicado eu encontrar a pessoa certa, mas se chegar a ter, pelo menos, metade do que eles têm, já me darei por satisfeita. Nunca os vi discutirem, claro que eles possuem defeitos — ninguém é perfeito! —, mas a relação tanto deles como a dos meus pais, é marcada pelo amor e cumplicidade mútua.
— Ah, vovó, faço tudo por amor. Como
vocês me ensinaram, não espero galardão aqui na terra. Minha alma está leve e isso é suficiente — replico.
— É admirável a sua dedicação a Deus, mas
ouça sua velha avó: está na hora de você parar um pouco, encontrar um bom rapaz e formar uma família, Mia.
— Ainda não é o tempo, vovó, eu fiz um
propósito de me dedicar somente ao evangelho, até completar trinta anos.
— Talvez você não tenha entendido o
sentido de sacrifício, minha querida! — vovô me diz, pensativo. — Deus não requer de nós sacrifícios tolos.
As palavras dele me causam um impacto,
sempre acreditei estar dando o meu melhor e achei que as pessoas também viam minhas escolhas da mesma forma.
— Não é tolo, estou levando o evangelho a
lugares inimagináveis, vovô. Isso deveria ser visto como algo bom.
— É louvável, minha querida! — vovó
Ângela justifica a fala do marido. — Miguel não se referia a isso quando mencionou sacrifício tolo, mas sim, ao fato de que você abriu mão da sua vida pessoal, quando podia fazer o seu trabalho mesmo estando em um relacionamento. Acha que Deus quer que uma moça tão bonita feito você fique sozinha?
— Não estou só, tenho a companhia de
Jesus.
— Ah, meu amor, o que Ele quer para nós
nem sempre é o que desejamos. É admirável o seu esforço, dificilmente um jovem da sua idade faria as escolhas que fez. Mas ouça sua avó, precisa parar um pouco e pensar em formar uma família — ela me diz, tocando meus cabelos. — E não digo isso apenas porque sou sua avó, já tive a sua idade e sei exatamente como se sente.
— Eu sei que o homem certo vai aparecer,
mas ele não pode esperar mais dois anos?
Vovô Miguel sorri, a campainha toca e no
mesmo momento ele vai atender, fico a sós com a minha vó.
— Já parou para pensar que talvez o homem
certo esteja mais perto do que imagina? Deus tem seus meios nada convencionais de agir em nossas vidas. Reflita sobre o que conversamos, minha querida.
Vovô retorna à cozinha acompanhado por
Tony, em uma conversa animada.
— Olá, vovó, tudo bem? — Ele vai até a
senhora e beija seu rosto carinhosamente. — Saí mais cedo do escritório e resolvi dar uma passadinha por aqui para tomar um pouquinho do café mais delicioso que já experimentei na vida.
— Ah! Como é bom ter netos como vocês.
Seja bem-vindo, venha, meu filho, sente aqui perto da Mia, vou pegar uma xícara, acabei de passar o café.
Alguma coisa do que a minha vó falou antes
de ele chegar me traz à lembrança sobre um momento que tive com Tony, anos atrás, em uma das viagens que fizemos com vovó. Por uns dias, eu o vi de uma forma diferente e, confesso que até imaginei coisas que não me era permitido naquele momento. Algo como desistir dos meus sonhos e quem sabe arriscar ter um futuro ao lado dele, mesmo imaginando todos os riscos que poderíamos enfrentar.
Para o bem de nossa família, decidi sufocar o sentimento repentino que surgiu e me dedicar à outras coisas mais importantes do que uma paixonite juvenil. O tempo fez com que ele se tornasse alguém nobre, altruísta e muito elegante, às vezes me pergunto qual seria a razão para que ainda continue solteiro. Os traços de seu rosto ainda trazem aquele aspecto de garoto perdido, mas isso não é algo ruim, ao contrário, o deixa ainda mais interessante.
Os cabelos crescidos com cachos caindo
sobre a testa continuam iguais, os olhos cor de mel extremamente determinados ainda me permitem ver o amigo para a vida inteira que encontrei anos atrás. Enquanto discorro mentalmente sobre suas qualidades, ele senta ao meu lado e beija meu rosto, como sempre fazemos desde sempre, fecho os olhos involuntariamente quando seu cheiro familiar preenche meus pulmões.
— Como vai a minha missionária favorita?
E a viagem do fim de semana foi bem? Queria tanto ter te acompanhado no congresso, mas tinha audiência hoje cedo e precisava estudar o processo. — Me prendo no modo como ele fala minha e permito que minha mente divague por um terreno desconhecido.
Vovô tem um sorriso misterioso enquanto
nos observa, mas não diz nada.
— Estou bem, a viagem foi ótima. Seria
melhor se o primo ingrato tivesse me acompanhado, mas já superei — brinco.
Tony sorri e o encaro, me perdendo em seu
olhar por alguns instantes. Os pensamentos que me invadem são intrigantes, mas não sou capaz de controlá-los, já faz um tempo que tento ignorar os sentimentos que insistem em sair da caixinha que os tranquei.
— O que foi, Mia? Aconteceu alguma
coisa?
Balanço a cabeça em uma tentativa de
afastar os sentimentos que ameaçam ressurgir, então vovó retorna com a xícara sentando-se ao lado do marido, me tirando momentaneamente das minhas divagações.
— Nada, você envelheceu muito desde
sexta. Foi a minha viagem? — Não consigo evitar fazer graça com ele, que certa vez me disse que eu ia fazê-lo envelhecer mais rápido.
Vovô Miguel, que continuava calado nos
olhando, se engasga com o café e tem um acesso de tosse.
— Essa menina não vai crescer nunca —
vovó diz, sorrindo. — Às vezes penso que trocaram a sua mãe, Mia. Tem certeza de que não é filha da Viviane?
— Absoluta, vovó. Não vê como os filhos
dela são certinhos? — Aceno para Tony em seu terno impecável, mesmo após um dia inteiro de trabalho.
— Nem todos, Mia, nem todos — ele
retruca, fazendo uma referência à rebeldia adolescente de André, seu irmão mais novo.
Logo vamos para a sala de estar, enquanto
Tony dedilha algumas notas no violão do vô Miguel, nós conversamos sobre o centro comunitário que a vovó administra, meu primo dá suporte jurídico lá e eu sempre ajudo quando estou por perto. Aliás, todos da nossa família tem uma função por lá, nem os pequenos escapam e isso é muito bom. Falamos sobre o trabalho dele no escritório do pai e sua frustração por não ajudar as pessoas como gostaria, porque a justiça é muito burocrática.
A hora passa tão rápido que, quando
percebemos, a noite já está chegando.
— O papo está muito bom, mas marquei de
jantar com a mamãe e sabe como dona Viviane é com horários — Tony interrompe nossa conversa, olhando para o relógio. — Veio a pé, Mia?
— Sim, precisava esticar as pernas e você?
— Moramos todos no mesmo condomínio, a algumas quadras de distância uns dos outros.
— Deixei meu carro em casa, como você
mesma disse, estou envelhecendo rápido, preciso fazer alguma coisa. Posso te acompanhar?
— Claro!
— Nem pensem que vão embora antes de
catarem aquela música linda que os vi ensaiando semana passada. — Vovó nos surpreende.
Tony e eu cantamos juntos em alguns
eventos que participamos, não é nada extraordinário, mas nossa família adora nos ver cantar. Meu primo sorri e vô Miguel me empurra para sentar ao lado dele.
— Que música é essa, vovó? — ele
pergunta, tentando enrolar a velha senhora para podermos cantar as mesmas de sempre.
— Ah vocês sabem qual é... Ela me faz
lembrar da Mia quando criança, correndo por esta casa e nos enchendo de alegria. Não fique com ciúme, meu filho, amo vocês dois do mesmo modo.
Ele começa a dedilhar as notas e sinto uma
emoção tão grandiosa me tocar quando começo a cantar.
Eu posso ter tudo, posso ter o mundo
Mas sem você, serei sempre só
Posso ter amigos e um lindo romance
Mas nada é capaz de ocupar teu lugar
Jesus, eu preciso da tua companhia
A casa perde a graça sem a tua alegria
Seja bem-vindo, Jesus, bom dia! Arrume a sala, pinte as paredes
E pode escolher qual a cor preferir
Troque a mobília, faz do teu jeito
E o que não te agradar pode substituir
A casa é tua, fique à vontade
E pode morar aqui pra todo sempre
Tem um espaço, que é do teu tamanho
Só tua presença este vazio preenche
Meu coração eu te dou de presente
Vovó Ângela limpa as lágrimas, quando
Tony começa a cantar com sua voz suave, sinto meu coração saltar fora do peito.
Só você não sabia, mas eu já queria
Conviver com você todos os dias
E agora que sei, que aqui sou bem recebido
Sei que seremos melhores amigos
Estarei sempre aqui, não estás mais sozinha
Te fazer feliz é a minha alegria
Me sinto tão bem aqui
Vai ser um lindo dia!
Vou arrumar tua sala, pintar as paredes
E pode deixar que eu vou caprichar
Vou trocar a mobília, somente confia Sei muito bem do que você vai gostar
A casa é tua
Estou à vontade
Estaremos juntos pra todo sempre
É tão engraçado como você me entende
É que te conheço antes que você nascesse
Nossa amizade será pra todo sempre
Bom dia![1]
Essa música diz muito sobre a minha
relação com Deus, com a minha família e até mesmo com Tony. Parece que quando a escreveram, estavam contando a trajetória que percorri desde a infância. Quando Tony e eu cantamos juntos, é como se o mundo externo deixasse de existir.
— Que Deus abençoe a vida de vocês,
meus queridos! — Vovô Miguel não consegue esconder a emoção.
— Eu preciso mesmo ir, vovô — Tony diz,
levantando e guardando o violão.
Despedimo-nos deles e não deixo de notar o
olhar misterioso do casal de idosos, como se soubessem de coisas sobre nós que desconhecemos.
— Juízo crianças! — eles falam juntos,
enquanto andamos pelo caminho de pedras do jardim, em direção ao portão.
Será mesmo que faz sentido o que tem
passado na minha cabeça nas últimas horas? Não faço ideia das respostas, mas minhas mãos suam e, de repente, meu estômago parece ser completamente habitado por uma nuvem de borboletas, estou nervosa em fazer uma simples caminhada ao lado de Tony, meu melhor amigo. Caminhamos um pouco, sem dizer uma palavra, por fim, ele rompe o silêncio.
— Viaja mesmo no próximo fim de
semana?
— Sim, sabe que sim.
— Achei que algo havia acontecido no congresso. Preciso enumerar os riscos novamente a você? — Seu tom é preocupado.
Desde que soube que meu próximo destino
é o continente africano, ele vem tentando me convencer de todos os modos a escolher outro lugar. Imagino que não seja pelos motivos errados, mas sim, pelo fato de que os rumores de perseguição a cristãos nos países que irei visitar estão cada vez maiores e eles temem pela minha vida.
— Tony, eu sei que está preocupado com
esta viagem, mas não há nada que me fará desistir dela.
Paramos de frente para o outro no meio da
calçada, ele me encara firme e abre a boca algumas vezes para falar, mas as palavras morrem. Ele sorri, sem humor, balança a cabeça de um lado para o outro e, por fim, decide falar de uma vez.
— É perigoso, Mia. Você pode morrer lá.
— Há um apelo desesperado por trás de suas palavras e ele segura a minha mão. — Não posso permitir que coloque sua vida em risco assim...
Toco seu rosto e sinto a conexão
inexplicável entre nós voltar com toda força, sempre soube que havia algo mais, só que tentei ignorar. As palavras de vovó foram um gatilho e libertou aos sentimentos que eu tento sufocar desde a nossa adolescência. Nos encaramos em silêncio por um momento, a mão de Tony acaricia a minha. Sei que preciso desesperadamente me afastar dele, mas não consigo... Não mais.
— Vai ficar tudo bem, nada acontecerá. O
mesmo Deus que me guardou até aqui, estará lá comigo.
Tento convencê-lo de algo que nem mesmo
o meu coração acredita agora, já que tudo está mudando rapidamente.
— Você não entende, Mia. — Ele sacode a
cabeça e sinto que está lutando contra algo.
— Pois me faça entender — digo num
rompante e Tony põe sua mão sobre a minha que permanece em seu rosto.
— Esta família não conseguiria viver sem
você. — Seus olhos encontraram os meus e sei que não se trata apenas dos outros, mas dele também.
— Vamos esquecer um pouco esta viagem.
Como está a Vivi e as crianças? — Mudo repentinamente o rumo da conversa, tentando desfazer o momento de descobertas que estou vivendo.
Seguimos devagar pelas ruas, conversando
sobre vários assuntos: as minhas viagens, nossas lembranças da infância, entre outros. Por fim, chegamos a minha casa no momento em que falamos sobre alguns amigos nossos que se casaram no último ano.
— Não tem vontade de formar uma família,
Mia?
— Claro que tenho, mas estou longe de
encontrar o homem perfeito. — Talvez ele esteja na minha frente, fico tentada a dizer, porém, não verbalizo essa parte. — Mas, e você, nunca encontrou a mulher perfeita?
— Já, mas ela está muito ocupada salvando
o mundo, talvez um dia perceba que sempre estive aqui. — Ele passa as mãos pelos cachos bagunçados e encara os sapatos, exibindo um sorriso que não chega aos olhos.
Quando Tony levanta a cabeça, analiso a
expressão de seu rosto e constato que a pessoa a quem se refere sou eu. Tento falar algo e não consigo, mas sinto meu coração quase saindo pela boca, um frio na espinha e uma euforia repentina tomar meu corpo. Talvez, este seja o momento de colocar o que sinto para fora.
— Tony, eu...
— Mia, o papai quer que você vá ao
mercado com a mamãe. — Murilo aparece na varanda e interrompe o momento entre nós.
O rapaz elegante ao meu lado segura a
minha mão, de modo que todo o meu corpo vibra em resposta.
— Preciso ir... — Minha voz é um sussurro. — O que ia dizer? — Seus dedos acariciam
meu rosto e o sinto próximo demais. Não podemos estragar tudo. Decido que não é o momento.
— Não é nada importante — minto. —
Deixa para lá.
Despeço-me de Tony com a sensação de
que as horas que passamos juntos hoje mudaram o modo como eu o vejo. Penso na possibilidade de que, no fundo, eu o ame mais que um amigo. Será que ele se sente da mesma forma? Como eu nunca percebi isso?