Escolhidos pelo amor
Onze
TONY
Mia está encolhida no canto de um cômodo
escuro, o cheiro forte de sangue invade meus pulmões. Há medo em seus olhos quando me aproximo, devagar, meu coração bate desenfreadamente ao notar que suas roupas estão completamente encharcadas do líquido pegajoso, tem um corpo sem vida ao seu lado.
— Tony, por favor, me ajude! — Sua voz
trêmula chega aos meus ouvidos.
Sinto um impacto que faz a imagem dela
borrar e, de repente, me dou conta de que tudo não passa de um sonho. Estamos aterrissando no aeroporto de Abuja, vim para este país na esperança de encontrar as respostas para o sumiço de minha prima e com a missão de trazê-la de volta para casa.
Deus sabe o quanto quero isso. Eu a amo!
Nem faço ideia de como seria a minha vida em um mundo onde Mia é apenas uma lembrança de alguém que me marcou. Fecho os olhos, peço fervorosamente aos céus que me deem a chance de abraçá-la, mais uma vez, e me permita fazer dela a mulher que acordará ao meu lado todos os dias.
Antes de viajar, tive uma conversa com vovó Ângela, que me deu mais forças para cumprir a tarefa de encontrar minha prima.
“— Precisa ter fé, Tony. Sinto que Deus
tem algo muito grande para fazer com minha neta onde quer que ela esteja neste momento. — Suas mãos repousam sobre as minhas e seu olhar se prende a mim. — Há alguns anos eu sonhei com Taís e Mia entrando em nossas vidas, contei a Álvaro e, por mais que ele não tenha acreditado de imediato, nós começamos a orar por elas, pedindo a Deus que nos preparasse para aquele momento.
— É uma linda história, vovó.
— Confesso que jamais imaginei que teria o
privilégio de ser avó de uma garota tão especial, mas não foi para contar sobre o passado que quis vê-lo antes de viajar. — Ela faz uma pausa como se estivesse procurando as palavras certas para não me assustar. — Sempre me preocupei com a minha família, com o futuro de todos vocês, nas minhas madrugadas de conversas com Deus, peço muito que nunca se desviem do caminho ao qual foram ensinados. Quando Mia nos contou sobre sua decisão de se dedicar inteiramente ao ministério, fiquei muito feliz, porque sabia que aquele era o seu chamado. Por outro, notei que você estava sofrendo com a decisão dela...
— Vovó, eu...
— Deixe-me terminar, querido! — Assinto,
mas ainda tenho medo dos rumos de nossa conversa. — Adquiri uma intimidade muito grande com Deus, que sempre me antecipa alguns fatos e sei exatamente o que está acontecendo entre vocês. Não precisa sentir vergonha disso, Tony. Mia é especial e nada mais justo que um homem íntegro para compartilhar com ela seus sonhos. Quero que saiba de algo antes de entrar naquele avião, vocês foram escolhidos por Deus para cuidarem um do outro, mas antes que possam viver esse sentimento, aquela garota precisa completar a missão que lhe foi confiada.
— Eu sei que Deus tem um grande
propósito na vida de Mia, vovó. Não quero interferir, me desculpe por não confiar o suficiente e falar sobre os meus sentimentos esses anos todos. — Ela exibe um sorriso sincero e toca meu rosto.
— Não precisa ter medo do que sente por
ela. É lindo! Sempre soube que vocês nasceram para se amar e que em algum momento perceberiam isso. Então, vá em busca dela e tenha fé, quando achar que tudo está perdido, pense que Deus nunca faz nada ao acaso e sempre há um propósito em todas as coisas que acontecem em nossa vida.”
Durante o trajeto ao hotel fico pensando nas
palavras da vovó e sinto uma calma me invadir. Vou achá-la! Olhando através da janela do veículo posso ver nitidamente a desigualdade social, mesmo que esteja mascarada em meio aos prédios bonitos, quando o táxi para, encaro a fachada do prédio e me sinto mal por estar confortável, enquanto tantas pessoas lá fora vivem uma realidade tão dura. Faço check-in e subo para guardar minha bagagem, informo minha família que cheguei bem, depois desço para encontrar o irmão Umberto, que me espera na recepção para conversarmos sobre as buscas e me acompanhar nesta jornada para o desconhecido.
Antes de vê-lo, eu estava confiante, mas no
momento em que nos cumprimentamos, sinto toda a minha fé se abalar. A expressão do seu rosto indica que as notícias não serão boas.
— Como foi a viajem? — Sei que está
tentando adiar a nossa inevitável conversa, enquanto caminhamos para o restaurante do hotel.
— Tirando a minha preocupação, foi ótima.
Entramos no restaurante, que é elegante,
com uma decoração cheia de cores vibrantes em que o dourado típico da cultura africana predomina. Sentamos e fazemos nossos pedidos, estou cansado da longa viagem, mas a minha ansiedade em ficar a par de tudo é maior que todo o resto.
— Vamos direto ao ponto, pastor Umberto.
O que aconteceu realmente e por que não conseguem localizar minha prima? — Sua expressão muda e ele se arruma na cadeira.
— Como Thiago te contou, as coisas aqui
funcionam lentamente e, se tratando de estrangeiros, eles alegam não poder fazer nada porque sabíamos dos riscos no momento em que decidimos adentrar na área de conflitos. Estamos fazendo o possível para encontrá-la, Tony.
— E a família que a abrigou? Tiveram
alguma notícia deles? — Seu olhar se desvia do meu.
— Infelizmente, a família do pastor Joseph
foi morta no ataque.
Fico em choque, isso não é nada bom. Se
eles estiverem mortos, há uma grande chance de que ela também esteja. Sinto meu peito sendo esmagado e toda aquela confiança que tinha comigo parece se esvair, em poucos segundos.
— As coisas aqui não estão nada fáceis, a
perseguição contra nós, cristãos, cresce a cada dia. O que aconteceu lá foi extremamente violento, muitos mortos e feridos, pastor Joseph conta que sua prima fugiu para a floresta com a filha dele. — Não me passa despercebido a tristeza em seu olhar ao relatar os fatos.
Tenho medo da maneira como posso
encontrá-la, só em pensar em todas as coisas que poderiam acontecer a ela, minhas mãos se fecham em punho. Mia nunca conheceu a maldade humana, como eu conheci, e me preocupa os traumas que tudo isso pode causar na cabeça dela.
Analiso novamente as palavras que acabei
de ouvir e me chama a atenção um fato.
— Então, o pastor Joseph não está morto?
— pergunto, confuso, e tentando não criar tantas expectativas com a resposta que ele está prestes a me dar.
— Não, é um sobrevivente. Apesar de estar
devastado, o homem acredita que foi a vontade de Deus.
Passo a mão pelos meus cachos
bagunçados, fecho os olhos e não tenho ideia do que fazer. A cada momento que passa, sei que diminuem as chances de que eu possa encontrá-la com vida. De todos os lugares do mundo, por que Mia escolheu este? Um país cheio de corrupção e violência étnica. Nem precisa ser muito esperto para saber que este é um daqueles lugares para se evitar viajar.
Nossa comida chega e fazemos a refeição
em silêncio, me obrigo a me alimentar apenas porque preciso de forças para tudo que ainda vou enfrentar aqui, mas não sinto o sabor. Há um peso pairando entre nós e, por vezes, o olhar do pastor Umberto parece consumido pela culpa.
— Podemos vê-lo? — pergunto, ao fim do
jantar.
— Sim, claro ele está disposto a nos ajudar
nesta busca... Já é tarde, Tony, é muito perigoso viajar à noite. — Suas palavras fazem me lembrar de meu avô. — Descanse, rapaz, temos muito o que fazer. Amanhã partiremos cedo para Jos.
Nos despedimos e tento fazer o que ele me
sugere, porém, meus pensamentos voam para minha doce Mia. A mente divaga pelas longas conversas na adolescência, a maneira como ela me ajudou a enfrentar os meus medos, quase posso ouvi-la dizer: “Você precisa ter fé, Tony.”.
Amá-la foi algo tão natural, que quando dei
por mim, já havia acontecido. Eu não me apaixonei pelo que ela se tornou externamente, mas sim, pela beleza interior e tudo de bom que há em seu coração, o modo como se doa às pessoas, sua fidelidade a Deus, por nunca ter soltado a minha mão desde que entrei em sua família, por não ter me deixado desistir quando as coisas ruins do meu passado ameaçavam destruir o futuro que eu almejava.
Me ajoelho ao pé da cama e exponho toda a
minha dor a Deus.
— Jesus, sei que não passo de um fraco
servo, cheio de falhas, e nunca serei grato o suficiente por tudo o que fizeste por mim.
Estou com tanto medo, confesso que fico
cada vez mais desacreditado de encontrar Mia...
Não consigo controlar as lágrimas e a dor
física, por toda a tensão que estou vivenciando.
Respiro.
Inspiro.
Massageio o peito e continuo minha prece. — Eu não a mereço, mas eu a amo. Não
consigo evitar!
Por favor, Deus, me ajude a encontrá-la e
cuide do meu amor por mim. Mia veio até esta parte remota do mundo para fazer a Tua vontade, quantas pessoas por aí nem tem coragem de sair de casa e falar do Teu amor para seus conhecidos?
Me dói tanto imaginar quantos perigos ela
está exposta...
Soluço e tento controlar as batidas
desenfreadas do meu coração.
— Preciso de forças para continuar e
proteja minha Mia, de qualquer mal que a cerque, é tudo que peço.
Te agradeço por tudo. Amém.
Fico um pouco mais leve depois de orar, adormeço, mentalizando que logo tudo vai ficar bem.
O encontro com pastor Joseph me deixa um
pouco apavorado, porque foi a última pessoa que esteve com minha prima. Marcamos o encontro em uma pequena igreja, em um bairro muito pobre de Jos, e me surpreendo com a gentileza das pessoas que nos recebem, não é como eu esperava.
— Então, você é primo da menina Mia? —
o homem negro, que aparenta ter quase a minha idade, me pergunta, ao apertar firmemente a minha mão.
— Sim, sou Antônio Ribeiro, mas pode me
chamar de Tony. — Há uma tristeza pairando em seu rosto, mas percebo que ele tenta sorrir e me transmitir segurança. — Por favor, me diga que tem alguma ideia de onde ela poderia estar.
— Ah, rapaz... receio não ter a resposta que
está buscando. Estamos em zona de conflito étnico e as coisas por aqui só pioram, mas não perca a sua fé de encontrar aquela garota.
— Preciso levá-la para casa, prometi à
nossa família. — Minha voz soa fraca, porque estou tentando convencer a mim mesmo de que não posso desistir dela, mas a cada passo, as coisas ficam mais escuras e não sei mais onde está toda a coragem que tinha quando entrei no avião, em direção a este país.
Ficamos em silêncio e nos sentamos nos
bancos de madeira da igreja. Passo as mãos pelos cabelos e solto um suspiro cheio de pesar. Onde você está, querida?
Encaro o homem ao meu lado, imaginando
por quantas vezes ele se sentiu impotente diante de tudo que já perdeu, sei que não há como comparar a minha dor com a dele, afinal, ele tem certeza de que sua família está morta, quanto a mim, ainda posso ter esperanças.
Pastor Umberto conversa com Joseph sobre
como tudo aconteceu e ouvi-lo contar os momentos de terror ao qual viveu, aumenta a minha desesperança. Ele viu sua esposa e filhos morrerem, sem poder fazer absolutamente nada, isso é muito mais do que um homem pode suportar, mas ele continua de pé. Acreditando veemente que tudo foi permissão de Deus e não consigo entender de onde ele tira tanta fé.
No momento, sou apenas um espectador da
conversa.
— A menina Mia tem uma força muito
grande, rapaz, nos momentos em que estivemos aqui com ela, pude notar que ela tem a luz dos céus em sua cabeça — o homem me diz, convicto. — Entendo as razões do seu olhar preocupado. Eu perdi tudo e me senti sem rumo, mas sei que Deus sempre sabe a direção certa a tomar em nossa vida, esse é o meu consolo. Minha família está segura agora, sei que sim.
— Eu... Eu sinto muito por sua perda,
pastor. Sinto que minha prima está viva...
— Sim, ela tem uma missão aqui, Tony e
não podemos tomar para nós as lutas dos outros. Sei que seu coração está contrito, mas não há muito que possamos fazer neste momento a não ser orar e rogar ao Pai que a traga de volta a salvo, do que quer que ela tenha que fazer.
— Não consigo entender... por que Deus
permite que coisas assim aconteçam com as pessoas que amamos?
Pastor Umberto pigarreia e se remexe no
banco ao meu lado.
— Ah, meu caro, não somos marionetes nas
mãos do Criador. Ele nos dá o livre arbítrio, mesmo que nosso destino já esteja traçado, sua prima escolheu esse caminho e, com isso, vieram responsabilidades. A missão dela vai muito além do que podemos ver ou compreender. Não podemos nos desesperar ou culpar Deus por tudo o que está acontecendo. Devemos acreditar que há sempre um propósito por trás de cada luta que enfrentamos nesta terra.
Sei que ambos estão certos e que Mia tem
algum tipo de missão espiritual para cumprir neste lugar, porém, isso não tranquiliza meu coração. Minha fé se esvai a cada segundo que passa e não consigo recuperá-la de volta.
— Eu não sei o que fazer. Devo cruzar os
braços e simplesmente esperar, enquanto ela cumpre seu destino?
— Ore, rapaz. Nossos joelhos são as
melhores armas que Deus nos deu, não vamos encontrá-la enquanto não fizer o que Ele lhe determinou. — Balanço a cabeça, descrente de tudo e sua mão vai para o meu ombro, o apertando firmemente. — Sua prima não veio ao nosso país em vão. Acredite, há um propósito para todas as coisas, por mais que agora pareça tudo tão nebuloso, em breve, tudo vai se esclarecer.
— E o que eu faço até lá?
— A fé é o firme fundamento das coisas
que se esperam, e a prova das coisas que se não veem — pastor Umberto recita um verso da bíblia que conheço bem, pois sempre fui ensinado a vivê-lo.
— Um pouco mais de paciência, meu
jovem, não perca sua fé. Mia é guerreira dos céus e nenhum mal conseguirá chegar até ela, pois as forças celestiais estão trabalhando a seu favor. Sei que há muito mais que preocupação familiar em seu coração e o que sente aí dentro, junto às suas orações, vai ajudá-la a conseguir cumprir o seu propósito aqui. Não foi por acaso que Deus permitiu que viesse até aqui. Há muitos momentos em nossa vida que precisamos de alguém como o Cirineu, que ajudou Jesus a carregar sua cruz. Não sei como explicar, mas há algo em você que completa e dá àquela jovem a força necessária para seguir a diante, o perfume suave que exala do coração de vocês faz com que os céus se movam rapidamente para atender seus pedidos.
Conforme ele fala, eu tenho lágrimas nos
olhos e sinto minha fé sendo renovada a cada frase. Não tenho por que deixar de confiar em Deus, afinal, Ele nunca me desamparou.