Estudos Territoriais no Brasil e na Costa Rica

Glaucio José Marafon · Capítulo 2 de 14

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Estudos Territoriais no Brasil e na Costa Rica

Parte I – Estudos Territoriais no Brasil

Parte I – Estudos territoriais no

 

Brasil

 

1. Considerações sobre as

 

categorias analíticas do espaço

 

geográfico em Milton Santos

 

Mônica Sampaio Machado, Thiago Adriano Machado

 

Introdução

 

A trajetória intelectual de Milton Santos pode ser compreendida a

partir de dois projetos por ele desenvolvidos: o primeiro, de produzir

uma teoria geográfica, como uma teoria social crítica do espaço; e o

segundo, de 1 realizar uma interpretação geográfica do Brasil . Este

capítulo tem por objetivo discutir alguns aspectos da teoria

geográfica desse pesquisador, destacando as categorias analíticas

do espaço por ele desenvolvidas. Uma breve periodização de sua

trajetória distingue três principais momentos, por meio dos quais

efetiva a sua produção teórica a partir de aproximações sucessivas

da relação entre o espaço geográfico e o fenômeno técnico. Isso

ocorre, porém, com uma renovada crítica da tradição geográfica,

inclusive daquela em que o autor situa seus primeiros trabalhos.

Podemos, desta feita, identificar uma primeira fase entre 1948 e

1960, caracterizada pelos seus estudos sobre a Bahia, nos quais

predominava a geografia regional de matriz lablachiana, sucedida

pelo período de exílio entre 1965 e 1987, em que operacionaliza os

conceitos marxistas para o estudo da urbanização dos países

subdesenvolvidos e, por fim, uma última fase entre 1988 e 2001, em que sua teoria geográfica atinge a maturidade em profundo diálogo

com a temática da globalização. 2

Algumas obras se destacam na elaboração dessa teoria

geográfica, a exemplo de Por uma Geografia nova, publicada em

1978, que marcou o movimento de renovação crítica da Geografia

brasileira, e A natureza do espaço, de 1996, considerada a mais

importante da sua produção geográfica por oferecer uma complexa

teorização do espaço característica de trabalhos de maturidade. A

compreensão das categorias analíticas do espaço passa, contudo,

pela exploração de outros trabalhos do autor, nos quais é possível

assimilar o desenvolvimento paulatino de sua teorização. Além das

duas obras já mencionadas, destacamos também O trabalho do

geógrafo no terceiro mundo, primeiramente publicada em francês,

em 1971, Espaço e método, de 1985, Metamorfoses do espaço

habitado, de 1988, e Técnica, espaço, tempo, de 1994. Todavia, é

em A natureza do espaço (1996) que encontramos de maneira

explícita a estruturação do seu sistema de conceitos a partir da

distinção entre categorias analíticas internas e categorias analíticas

externas ao espaço.

Para tanto, Milton Santos (1996) propõe pensar a Geografia,

inserida no quadro mais amplo das ciências da sociedade, a partir

da consolidação e delimitação de seu objeto de estudo − o espaço

geográfico −, elevando-o a ente analítico independente dentro do

conjunto das ciências sociais e de extremo valor para a análise e

compreensão da sociedade. E, para que o espaço geográfico possa

aspirar a ser esse ente analítico independente e indispensável, é

fundamental que “os conceitos e instrumentos de análise apareçam

dotados de condições de coerência e operacionalidade” (Santos,

1996, p. 18). Essa tarefa, apesar de estar explícita em A natureza

do espaço, foi sendo elaborada ao longo de décadas de trabalho do

autor, que remontam aos finais dos anos de 1940, a partir do

exercício dialético e cumulativo característico da sua forma de

produção de conhecimento. Sempre pautado na crítica de estudos

anteriores que realizava, Milton Santos incorporava novas leituras e

observações do mundo empírico que permitiam dar um passo à

frente ao tema investigado e, aos poucos, construíam sua teoria

geográfica.

A coerência e a operacionalidade dos conceitos e instrumentos de

análise do espaço geográfico estão fundamentadas na técnica, ou

melhor, no fenômeno técnico, sustentando o que o autor defende

para o campo de estudo da ciência geográfica, não como uma

filosofia da natureza, nos moldes amparados na Geografia como

ciência moderna do século XIX, mas uma Geografia como uma

filosofia das técnicas, na medida em que as técnicas medeiam a

relação humana com o mundo (Santos, 1988b). As técnicas devem,

portanto, ser vistas sob um tríplice aspecto: como reveladora da

produção histórica da realidade; como inspiradora de um método

unitário; e como garantia da conquista do futuro, desde que pensada

como fenômeno técnico (Santos, 1996, p. 20).

Por seu turno, a operacionalidade é efetivada na capacidade de a

Geografia corresponder às mudanças da sociedade, atualizando a

teoria conforme a realidade, ao que Milton afirma toda teoria ser

revolucionária, pois se encaminha para superar as velhas ideias e

buscar investigar o terreno desconhecido do real. Em termos

operacionais, podemos citar os trabalhos em que o autor dedicou-se

ao Brasil, especialmente A urbanização brasileira, de 1993, e O

Brasil: território e sociedade no início do século XXI, de 2001.

Porém, as categorias analíticas por ele empregadas também

ostentam o potencial explicativo do mundo contemporâneo a partir

do fenômeno da globalização. Nesse sentido, o fundamento técnico

do meio geográfico é uma importante contribuição ao produzir uma

periodização do território, que encontra o seu ponto alto no meio

técnico-científico-informacional, a partir do qual os atributos técnicos

do espaço respondem às demandas organizacionais que se

articulam em redes globais.

A partir daí podemos identificar as categorias analíticas internas

ao espaço. Algumas remontam aos conceitos tradicionais da

Geografia, outras são novas expressões conceituais resultantes da

dinâmica do espaço geográfico contemporâneo que a ciência

geográfica deveria incorporar nos seus estudos, como “paisagem,

configuração territorial, divisão territorial do trabalho, espaço

produzido ou produtivo, rugosidades e formas-conteúdo” (Santos,

1996, p. 19). A essas categorias analíticas, aqui apresentadas pelo

autor, adicionaríamos mais algumas, como tecnosfera, psicosfera, lugar, região, redes, escalas, meio técnico-científico-informacional e

território usado. Todas têm em Milton Santos uma base fundamental

− já assinalada anteriormente −, a base técnica do meio geográfico.

E é a partir da base técnica que essas categorias de análise devem

ser atualizadas e interpretadas.

Assim, para o desenvolvimento e o estudo das categorias internas

ao espaço geográfico, o referido autor apresenta a

indispensabilidade da incorporação da técnica ao território como

resultado de todo um processo histórico e cumulativo da relação

entre sociedade e meio, que, por sua vez, promove novas

organizações espaciais, impactos e normas jurídicas. Desse modo,

ele produz um sistema particular de conceitos que fundamenta a

sua teoria no reconhecimento do espaço como um híbrido, um

conceito relacional que opera na conjunção do material e do

imaterial.

Com o intuito de debater o problema e a formação de suas

categorias analíticas, iniciamos com a discussão sobre a Geografia

como viúva do espaço, ideia apresentada em Por uma Geografia

nova (1978), provocação do autor para ressaltar a crise da

Geografia na década de 1970 e a necessidade de pensá-la a partir

do seu objeto, o espaço geográfico, como um produto social. Em

seguida, buscando discutir e contextualizar essas categorias

analíticas na teoria geográfica do autor, será assinalada a

centralidade da técnica e sua incorporação ao território nos estudos

por ele realizados. Por fim, será apresentada separadamente a

concepção de meio técnico-científico-informacional proposta por

Milton Santos e por ele utilizada para a análise do caso brasileiro,

por nós considerada uma das construções conceituais mais

importantes e essenciais de sua teoria geográfica.

 

Geografia, viúva do espaço

 

O desenvolvimento da Geografia moderna até meados do século

XX pôs como principal dilema ao campo disciplinar a definição de si

mesmo, tema recorrente em face da busca pelo estatuto de

cientificidade e das inúmeras questões metodológicas que envolviam a associação dos aspectos físicos e humanos do meio

geográfico em um mesmo campo disciplinar. Nesse sentido, o

embate entre uma Geografia geral (nomotética) e uma Geografia

regional (idiográfica) como eixo definidor do saber geográfico dividiu

grande parte da comunidade científica dessa área de

conhecimento. 3

Milton Santos, em O trabalho do geógrafo no Terceiro Mundo

(1978), recupera essa discussão e questiona o conceito de região,

definido tradicionalmente pela relação entre os grupos humanos e

seus respectivos meios geográficos, identificando as singularidades

das áreas. Reconhecendo a intervenção de processos externos à

região, Santos recorre ao conceito de “paisagens derivadas”, de

Maxmillien Sorre, o que lhe permitia lidar com as paisagens de

países subdesenvolvidos, que resultam de necessidades

econômicas e de ações oriundas dos países desenvolvidos. Dessa

forma, não é mais possível tratar da região por meio da ideia até

então consolidada de personalidade regional e autônoma, bem

característica da Geografia lablachiana.

O autor ratifica também sua releitura crítica do pensamento

geográfico com a publicação de Por uma Geografia nova (1978),

obra na qual parte de formulações marxistas para problematizar os

aspectos centrais tanto da Geografia regional tradicional quanto da

New Geography, resultado da influência neopositivista dos anos de

1960. Faz isso por meio da reformulação do problema geográfico

central, deslocando o questionamento da definição da Geografia

para o da definição do seu objeto. Ele argumenta, desse modo, que

“destemporalizando o espaço e desumanizando-o, a Geografia

acabou dando as costas ao seu objeto e terminou sendo uma viúva

do espaço” (Santos, 1986, p. 92). O apego às velhas ideias, a

estrutura de cátedras e a reprodução de modelos simbólicos que

perpetuam os sistemas de prestígio não permitiam, segundo Milton

Santos, à Geografia avançar na elaboração de novos problemas e

na preocupação em tratar apropriadamente o seu objeto.

A crescente divisão do trabalho científico havia introduzido o

espaço na preocupação de outros campos do saber (economia,

ciência política, urbanismo etc.), ao passo que os geógrafos

dividiam-se em duas amplas tendências: a de garantir um lugar para a Geografia na classificação das ciências e, assim, elaborar leis e

princípios gerais; e a perspectiva de transformaá-la em

conhecimento operacional ao planejamento sem, contudo, refletir

sobre as demandas efetivas e potenciais (Santos, 1986). Como

resultado de tais tendências, respectivamente, especulativa e

pragmática, produziu-se uma negligência à reflexão e à pesquisa

científica que lidasse com o seu objeto de estudo, o espaço

geográfico. Milton Santos propõe como solução da crise da

Geografia, expressa nessa viuvez do espaço, uma formulação

teórica que defina o espaço geográfico como objeto central,

reconhecido como fato social, fator e instância social. Assimila,

assim, as noções da dialética marxista que possibilitaram o espaço

geográfico a dialogar estreitamente com o conceito de formação

econômica e social, cuja versão geográfica proposta por Santos, a

“formação socioespacial”, introduz e fortalece a concepção desse

espaço no quadro das tradicionais instâncias sociais do marxismo

(base econômica, superestrutura ideológica e jurídico-política)

(Santos, 1977).

Articulado à perspectiva marxista, Milton Santos recorre à noção

sartriana de prático-inerte para lidar com a dimensão temporal,

efetivada naquilo que ele chama de “rugosidades”, ou seja, a

permanência das formas espaciais procedentes de modos de

produção anteriores e que efetivam novos usos e funções que lhe

permitem acompanhar as mudanças na sociedade. É dessa noção

espaço-temporal das “rugosidades” que deriva a célebre assertiva

do autor, de que “o espaço é uma acumulação desigual de tempos”

(Santos, 1986, p. 209). Cada forma ou objeto espacial é a

impressão de forças de produção e relações sociais de produção

datadas, de sistemas técnicos impressos no meio geográfico e que

convivem à revelia das suas diferenças. Contudo, o espaço não é

feito apenas de formas, ou seja, o espaço não se reduz à

materialidade, mas também se refere àquilo que a anima, as ações

humanas que fornecem o conteúdo do espaço expresso pelas

funções que cada forma desempenha.

O espaço é, portanto, uma “forma-conteúdo”, uma conjunção de

materialidade e imaterialidade que corrobora a definição proposta

por Milton Santos do espaço como “um conjunto indissociável, solidário e também contraditório de sistemas de objetos e sistemas

de ações, não considerados isoladamente, mas como o quadro

único no qual a história se dá” (Santos, 1996, p. 51). Para tal

formulação, o autor ressalta que é essencial a noção de totalidade,

a unidade de movimento que integra sociedade e espaço, de

maneira que, se a sociedade é o Ser, o espaço é a existência, pois

as ações humanas apenas existem, concretizam-se, no espaço

(Santos, 1996). Porém, objetos e ações são a forma acabada dessa

teorização de Milton Santos.

Anteriormente, outras categorias analíticas já haviam sido

utilizadas pelo autor em sua teorização sobre o espaço geográfico.

Em Espaço & método (1985), Santos recorreu à forma, função,

estrutura e processo para lidar com a realidade espacial, de modo

que o processo remetesse ao movimento temporal, a forma ao

aspecto estritamente material do espaço, ao tempo que a função

indicasse os usos e práticas sociais nas formas espaciais. Por seu

turno, a estrutura refletia a totalidade social da qual o espaço é uma

instância entre outras, realizando a tarefa de ser uma condição

condicionada. Já em Metamorfose do espaço habitado (1988a), os

fixos e os fluxos são apresentados na mesma lógica dos objetos e

ações, reproduzindo a ideia de espaço como forma-conteúdo.

Outros pares dialéticos reproduzem a mesma noção, a exemplo

dos circuitos espaciais de produção e círculos de cooperação,

tecnosfera e psicosfera, configuração territorial e relações sociais. A

categoria analítica paisagem é somada a tal discussão ao se referir

às formas espaciais, porém vinculada à ordem do sensível, à

percepção, o que para Milton Santos a distingue do espaço, pois se

a paisagem é a materialização de um instante da sociedade, o

espaço contém o movimento, é a soma da paisagem com a

sociedade (Santos, 1988a, p. 72). Contudo, é importante conhecer

como essas categorias se articulam em seu projeto de produzir uma

teoria geográfica como uma teoria social crítica do espaço, a partir

da técnica.

As categorias analíticas do espaço

 

geográfico em Milton Santos

 

Buscando elaborar uma teoria social crítica do espaço, Milton

Santos procura construir um arsenal particular de conceitos e

categorias importantes capazes de viabilizar uma análise mais

reveladora do espaço geográfico contemporâneo. Porém, ainda que

muitos conceitos sejam obra da sua criatividade intelectual, partem

de uma releitura crítica da tradição geográfica na qual ele próprio foi

formado. Tal tradição desenvolveu-se em torno de duas grandes

problemáticas definidoras da disciplina: o estudo da diferenciação

do espaço na superfície terrestre e o das relações homem-meio. 4

Cada qual foi, ao seu modo, operacionalizada por correntes teórico-

metodológicas distintas, e é possível afirmar que não houve

proposição teórica geral na Geografia que não buscasse integrá-las.

Da mesma maneira, o autor pretendeu conduzir sua teorização

geográfica integralizada numa relação homem-meio, compreendida

como produção do espaço, e numa diferenciação espacial

convertida em organização do espaço, cada qual remetendo,

respectivamente, à centralidade da técnica e da divisão territorial do

trabalho.

A partir disso, é possível identificar as categorias internas ao

espaço que, combinadas, permitem a análise geográfica apropriada,

conforme a proposta teórica do autor. Dessa forma, a perspectiva da

produção do espaço indica a importância de compreendê-lo como

um híbrido, uma “forma-conteúdo”, resultado da transformação da

natureza por meio do trabalho, porém, o processo do trabalho é

então definido a partir de como se produz, e não o que se produz,

daí a centralidade do 5 fenômeno técnico para a análise espacial.

Isso se converte na produção dos objetos técnicos, dos fixos e das

formas, as quais, arranjadas espacialmente, constituem aquilo a que

Milton Santos chama, se pensado estritamente em sua dimensão

material, de configuração territorial. Por outro lado, a produção dos

objetos é o resultado das ações, dos fluxos e das normas provindas de distintos sujeitos espaciais, homens e mulheres, empresas,

governos, organizações locais, nacionais e internacionais.

Todavia, o espaço produzido está em permanente movimento, é

uma totalidade em processo de totalização, cujos momentos

parcelares dão a indicação da dinâmica da realidade, mas não a

apreendem em seu todo. Para tanto, Milton recorre à dimensão

temporal, pois sua conceituação do espaço busca conjugar a ação,

o espaço e o tempo numa perspectiva relacional. Por isso, uma das

suas principais críticas à Geografia tradicional é que esta teria se

dedicado excessivamente às formas e pouco à formação (Santos,

1979). Daí, sua preocupação em pensar a formação socioespacial

como a sucessão histórica de meios geográficos (natural, técnico e

técnico-científico-informacional), uma geografia histórica da

produção do espaço, em que cada período é caracterizado pela

mediação técnica da relação entre a sociedade e o meio (Santos,

1977).

O espaço, portanto, permite empiricizar o tempo, torná-lo

concreto, de modo que, se voltarmos a um momento específico da

materialidade espacial, podemos supor e investigar, tal qual um

trabalho de arqueólogo, a dinâmica social correspondente às

distintas temporalidades impressas no espaço. A partir de então,

emergem algumas categorias analíticas, tais como rugosidades,

paisagem e configuração territorial. O conjunto de objetos técnicos e

elementos naturais compõe a configuração territorial, áreas de

preservação ambiental, usinas hidrelétricas, estradas, plantações,

florestas e pântanos. Esse conjunto é também o que Milton Santos

denomina de sistemas de engenharia, que exprimem, em cada

período da história humana, a presença da técnica no espaço. À

medida que o meio é ampliado em seus componentes técnicos e

informacionais, ampliam-se o domínio e a esfera da técnica, a

tecnosfera, o ambiente construído, composto de crescentes

densidades técnicas e informacionais, que, por sua vez, apresentam

uma nova atmosfera vinculada diretamente às crenças, desejos,

hábitos, etc., criando novo espírito de uma época, uma psicoesfera.

Já a paisagem é, para Milton Santos, um recorte da configuração

territorial, é um momento do espaço apreendido sensivelmente,

viabilizado pela percepção (Santos, 1988).

A percepção da paisagem, todavia, não é ainda o conhecimento,

mas um processo de apreensão seletivo que permite a existência de

diversas visões e pontos de vista sobre a mesma realidade

geográfica. Paisagens naturais e artificiais são, nessa perspectiva, o

retrato de uma parcela da configuração territorial, mas não podem

se confundir com o espaço, como apontado anteriormente, pois, a

este, somam-se os movimentos, os fluxos e as ações − a dinâmica

social da qual a paisagem expressa a aparência sem, contudo,

chegar propriamente à essência. Nesse sentido, Milton Santos

contraria a tradição geográfica que durante décadas centrou-se na

paisagem e na região, transformando ambos os conceitos em quase

sinônimos, de modo a inserir a morfologia da paisagem de Carl

Sauer na crítica à predominante preocupação geográfica com as

formas.

Porém, as ações que produzem e animam os objetos também

compõem o espaço. São ações teleológicas e racionais, mas

também paixões e ideologias que constituem a psicosfera,

mencionada anteriormente (Santos, 1994). Essas ações expressam-

se em distintas escalas, podendo partir de contextos locais ou

regionais, como também agir segundo normas internacionais que

submetem os lugares a um acontecer hierárquico, impondo novos

fluxos que alteram o funcionamento dos fixos e mudam sua ordem

de valor. Tais ações produtoras de espaço, ao modificarem a

natureza, também a diversificam, produzindo, a partir daí, uma

diferenciação gerada pela divisão do trabalho, que resulta em uma

nova organização desse espaço. Essa divisão converte-se

crescentemente em divisão territorial, pondo em evidência os

recortes espaciais que ditam categorias analíticas tradicionais da

Geografia, a exemplo do lugar, da região, das redes e das escalas.

O espaço é, portanto, organizado econômica e politicamente,

integrando no território os distintos momentos da produção, da

circulação, da distribuição e do consumo.6 A rede urbana e os

circuitos produtivos são categorias analíticas aí empregadas, mas

que têm sofrido importantes mudanças nas suas capacidades

explicativas, especialmente no período da globalização. O modelo

tradicional inspirado na teoria dos lugares centrais, no qual a rede

urbana é compreendida numa rígida hierarquia vertical, é contestado pelos vínculos globais, que atingem os lugares sem a

necessidade de passarem por entes territoriais intermediários. Da

mesma forma, a noção de circuitos regionais de produção,

característicos do regime de acumulação fordista e da ideia de

região homogênea, é reformulada por Milton Santos como circuitos

espaciais de produção, os quais podem integrar toda sorte de atores

em níveis escalares diversos (Santos, 1988a, p. 48).

Uma nova economia política do espaço se instala, agravando a

seletividade espacial que estrutura a organização do espaço em

rede e põe em questão a predominância da contiguidade espacial

como definidora dos padrões geográficos. As redes modificam a

relação entre os fixos e fluxos ao alterarem o conteúdo técnico e

organizacional dos objetos no espaço, efetivando a prevalência das

verticalidades, em detrimento das horizontalidades (Santos, 1994).

Dessa forma, os lugares ficam crescentemente submetidos a

técnicas de produção e a normas privadas e públicas remotas, que

transcendem o território político local e nacional. O valor dos lugares

muda, pois muda a divisão territorial do trabalho, cada vez mais

internacionalizada e submetida às variações da economia política

internacional.

Essas transformações promovem também efeitos sobre o

cotidiano, confrontando o lugar e o mundo, a ordem local e a ordem

universal, a contiguidade e as redes. É no lugar que o espaço

realiza a existência, em que todos os atores se concretizam,

existem, de modo cooperativo ou conflitivo, e a essa realidade que

Milton chama de espaço banal, o espaço concreto da existência dos

homens, das firmas, dos governos (Silveira, 2011).

 

A localidade se opõe à globalidade, mas também se confunde com ela. O

mundo, todavia, é nosso estranho. Entretanto se, pela sua essência, ele

pode esconder-se, não pode fazê-lo pela sua existência, que se dá nos

lugares. No lugar, nosso Próximo, se superpõem, dialeticamente, o eixo das

sucessões, que transmite os tempos externos das escalas superiores, e o

eixo dos tempos internos, que é o eixo das coexistências, onde tudo se

funde, enlaçando, definitivamente, as noções e as realidades de espaço e de

tempo (Santos, 1996, p. 258).

O meio técnico-científico-

 

informacional e o território brasileiro

 

As técnicas têm sido, com frequência, consideradas em artigos e livros de

geógrafos, sobretudo em estudos empíricos de casos. Mas é raro que um

esforço de generalização participe do processo de produção de uma teoria e

um método geográficos (Santos, 1996, p. 27)

 

O meio geográfico no sistema teórico de Milton Santos está

presente em toda a sua trajetória intelectual, entretanto, associado à

técnica que na sociedade contemporânea constitui uma verdadeira

prótese ao território, é o eixo interpretativo central de sua teoria.

Nesse sentido, é importante a integração da técnica ao território,

algo que, segundo o autor, não foi, todavia, explorada, apesar de a

“principal forma de relação entre o homem e a natureza, ou melhor,

entre o homem e o meio, ser dada pela técnica. As técnicas são um

conjunto de meios instrumentais e sociais, com os quais o homem

realiza sua vida, produz e, ao mesmo tempo, cria espaço” (Santos,

1996, p. 25).

Integra-se ao território não somente a técnica, que permite dar

coerência ao conjunto de categorias, mas também o tempo, pois é a

partir dos sucessivos sistemas técnicos que Milton Santos

fundamenta a necessidade metodológica de periodizar. Essa

periodização se converte numa sucessão de meios geográficos

distintos, que, em um período de longa duração, marca estágios

diferenciados da relação da sociedade com o meio. Entretanto, na

atualidade, observa-se a associação desses distintos meios técnicos

que identificam capacidades e desenvolvimentos tecnológicos

diferenciados, trazendo dinâmicas também diferenciadas aos

territórios e interferindo não apenas no processo produtivo e na

acumulação capitalista, mas também nas paisagens, nas

configurações territoriais, nos lugares e nas regiões. A partir dessa

base teórica, Milton Santos analisa o território brasileiro e sua

dinâmica no livro em coautoria com Maria Laura Silveira, O Brasil:

território e sociedade no início do século XXI, publicado em 2001.

Para melhor entendermos a concepção de meio técnico-científico-

informacional elaborada por Milton Santos e sua aplicação à análise

do território brasileiro, vale recuperar o desenvolvimento das suas

proposições apresentadas em A natureza do espaço (1996). Como

essa concepção, segundo o autor, sustenta-se nas relações

históricas entre sociedade e natureza, ela materializa a substituição

do meio natural por um meio cada vez mais artificializado. Assim,

ele traça a história do meio geográfico em três etapas.

Na primeira etapa, caracterizada como meio natural ou pré-

técnico, o homem escolhia as partes fundamentais do espaço como

um exercício da vida e utilizava a natureza sem grandes

transformações. As técnicas e o trabalho se casavam com as

dádivas da natureza, como a domesticação de plantas e animais.

Estas apontavam certo controle do homem sobre a natureza,

entretanto predominava uma verdadeira relação simbiótica entre

homem e natureza, e o equilíbrio natural era fracamente modificado

pela intervenção do homem, sendo logo retomado. O alcance

dessas modificações e suas motivações se davam apenas na

escala local.

A segunda fase, identificada como meio técnico, reserva a fase

posterior à invenção e aos usos das máquinas, que, unidas ao solo,

dão uma dimensão nova ao espaço geográfico. Este passa a ser

crescentemente formado pelo natural e pelo artificial. As áreas e

países passaram a se distinguir em virtude da incidência desses

objetos artificiais, com destaque para os países do Ocidente e do

Japão. Há uma mecanização do espaço em termos planetários, e a

lógica instrumental passa a desafiar a lógica da natureza,

estabelecendo sua superioridade. Os instrumentos técnicos já não

são como no período anterior, uma extensão ou um prolongamento

do corpo humano, mas prolongamentos do território − verdadeiras

próteses. Dominam a razão do comércio e as questões ambientais.

A poluição ambiental passa a tomar expressão, principalmente nas

grandes cidades europeias do século XIX. Entretanto, o fenômeno

da artificialização do meio ainda era limitado às regiões onde a

técnica se instalava. Era um fenômeno circunscrito

geograficamente.

Já a terceira etapa, o meio técnico-científico-informacional,

caracteriza o período atual, posterior à Segunda Guerra,

fortalecendo-se principalmente a partir de 1970. Há grande

interação entre ciência, técnica e informação, sob a égide do

mercado, agora um mercado global. Ciência, tecnologia e

informação são vitais para o progresso contemporâneo, criando

processos vitais animais e vegetais. Anteriormente, apenas as

cidades concentravam objetos artificiais, técnicos, hoje, o mundo

rural está cada vez mais marcado por plásticos, fertilizantes,

corantes, computadores etc. A ideia do meio artificial domina a

existência contemporânea e apresenta diferenças marcantes em

relação às lógicas e às escalas espaciais anteriores: é o domínio da

lógica global imposta a todos os territórios. Aumentam os objetos

técnicos no território, como o capital fixo (estradas, máquinas,

pontes etc.), o capital constante (máquinas, fertilizantes, veículos,

sementes) e os fluxos. Rompem-se, assim, os equilíbrios

preexistentes, uma vez que cresce a necessidade de circulação,

distribuição e consumo da produção em grande escala, e acirra-se a

especialização das áreas de produção, como, por exemplo, a soja.

Cada vez mais, há a necessidade de intercâmbios com outras

áreas, o que promove transformações dos territórios, em razão das

redes de comunicação a serviço dos atores hegemônicos,

transformando o espaço nacional em um espaço de economia

internacional, global. Há um agravamento da crise do Estado, por

conta da abertura dos mercados nacionais, promovendo a

diminuição da soberania nacional, uma vez que os negócios

governam mais do que os governantes.

Assim, o meio técnico-científico-informacional é, para Milton

Santos, a condição do espaço geográfico na atualidade. Essa

condição demanda um novo sistema de ideias e categorias de

análise que, por sua vez, possa estar articulado a uma teoria social

crítica do espaço. Na sua última obra (2001), em coautoria com

Maria Laura Silveira, o autor procura pensar o Brasil a partir dessas

sucessões de meios técnicos diferenciados e apresenta uma

interpretação pioneira ao estudo do espaço geográfico brasileiro,

descrevendo-o e explicando-o por meio das relações entre técnica,

espaço e tempo. Ele oferece como resultado uma aplicação de sua teoria geral do espaço geográfico, demonstrando e reforçando seu

papel ativo na dinâmica social. Por intermédio da Geografia,

entendida por Milton Santos como uma contribuição específica para

a produção de uma filosofia das técnicas, o autor apresenta uma

grande contribuição à reconstrução da teoria social crítica e à

análise do Brasil.

Milton Santos oferece uma interpretação do Brasil da

globalização, um Brasil em conjunto, como um todo. Aqui introduz a

ideia de território usado, que é uma noção central de sua

abordagem. Os sistemas técnicos, objetos e formas de fazer,

permitem explicar como, onde, por quem, por que e para que esse

território é usado. Assim, com base nessa concepção, ele analisa o

Brasil a partir dos períodos histórico-geográficos, meio natural,

sucessivos meios técnicos e meio-técnico-científico-informacional.

Assim, concentra-se no estudo e na identificação do meio técnico-

científico-informacional brasileiro, enfatizando a renovação da

materialidade do território (construções, rodovias, hidrovias,

ferrovias, aeroportos, energia elétrica, telecomunicações, etc.), a

informação e o conhecimento, a reorganização produtiva

(descentralização industrial, guerra fiscal, Zona Franca de Manaus,

Região concentrada etc.), os círculos de cooperação, consequência

dos circuitos espaciais da produção (Ceasa, CEAGESP,

supermercados, shopping centers, empresas diversas), os fluxos

(aéreo, ferroviário, rodoviário, aquaviário, navegação etc.), o sistema

financeiro e a distribuição da população e a geografia do consumo.

A partir de então, o autor apresenta a síntese do território

brasileiro, reforçando a ideia de território usado como categoria de

análise central, e não o território em si. Ele confronta o passado e o

presente do território brasileiro, apresentando suas diferenciações, e

procura demonstrar a urbanização das cidades médias e grandes e

a nova ordem espacial brasileira, que denomina de economia

política do território. Um mapa das regiões do Brasil a partir do meio

técnico-científico-informacional é oferecido como forma de síntese

do país na globalização. As regiões de maior luminosidade são as

de maior ciência, técnica e informação, dominando o comando da

produção e a articulação internacional. Com efeito, uma proposta de

regionalização do Brasil é formulada, tomando como pressuposto a seletividade do meio técnico-científico-informacional, de forma que

as porções do território brasileiro em que a técnica e a informação

estão mais integradas componham a região concentrada, gerida

pela centralidade financeira de São Paulo.

 

Considerações finais

 

O projeto de produção de uma teoria geográfica em Milton Santos

sempre esteve articulado aos estudos empíricos, desde os estudos

iniciais sobre a Bahia até os últimos trabalhos sobre o território

brasileiro. A nossa intenção aqui foi trazer uma breve síntese das

principais categorias analíticas do espaço geográfico apresentadas

por Milton Santos, associando-as à teoria geográfica desenvolvida

pelo autor. Conforme demonstrado, essas categorias, estruturadas

pela centralidade da técnica, encontram a sua coerência no caráter

híbrido do espaço geográfico. Da combinação do material e do

imaterial derivam vários pares dialéticos, os quais Milton Santos

lança mão para compreender tanto o processo de produção do

espaço geográfico contemporâneo quanto os aspectos diferenciais

de sua organização.

Como resultado, temos alguns conceitos que, com o tempo,

ganharam equivalência em sua teorização ao compartilharem do

mesmo ponto de partida, a relação fundamental entre espaço,

tempo e técnica. Dessa forma, o espaço geográfico passa a ser

considerado como sinônimo de território usado, de meio geográfico

e de espaço banal. São conceitos que permitem uma síntese das

preocupações teóricas de Milton em pensar a Geografia como uma

filosofia das técnicas. Contudo, os seus últimos trabalhos passaram

a privilegiar o território usado, muito em decorrência da necessidade

de se repensar esse tradicional conceito geográfico no período da

globalização, em que as fronteiras passaram a ser questionadas e a

crise do Estado nacional pôs em questão a vitalidade dos territórios.

Soma-se a isso o interesse do autor em produzir um estudo

geográfico do Brasil, cuja peculiaridade estaria em fazer falar o

território.

A vasta obra e intensa produção teórica de Milton Santos

demandam análises mais apuradas. Aqui, procuramos apresentar

apenas algumas considerações sobre as categorias analíticas do

espaço geográfico constitutivas de sua teoria geográfica, com o

intuito de chamar a atenção para a riqueza e a atualidade do

pensamento do autor, mesmo que novos processos estejam em

curso e caracterizem a dinâmica contemporânea. Compreender o

funcionamento do sistema teórico proposto por ele pode fornecer

subsídios para a identificação de instrumentais conceituais mais

apropriados aos desafios impostos pelas atuais dinâmicas

socioespaciais, em que o conteúdo técnico e informacional atinge

novos patamares. Consideramos, por fim, que revisitar as categorias

analíticas e a estrutura teórica do espaço em Milton Santos,

buscando direcioná-la à análise territorial brasileira, podem auxiliar

na compreensão dos desafios e dos possíveis rumos do país diante

do novo estágio da globalização.

 

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