Estudos Territoriais no Brasil e na Costa Rica

Glaucio José Marafon · Capítulo 5 de 14

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Estudos Territoriais no Brasil e na Costa Rica

4. Turismo rural: resgatando conceitos e atualizando reflexões

4. Turismo rural: resgatando

 

conceitos e atualizando

 

reflexões

 

Glaucio José Marafon, Valéria Maria de Souza Lima

 

Introdução

 

Tradicionalmente, o campo brasileiro tem exercido a função tanto

de fornecedor quanto de consumidor da cidade, seja provendo

necessidades com matéria-prima ou recursos humanos para o

trabalho, seja absorvendo mercadorias e facilidades. A análise de

tais transformações ganha, ainda, maior importância quando

consideramos que as atividades desenvolvidas no campo passam a

se configurar, cada vez menos, como agrícolas, abarcando

sobremaneira a produção industrial e os serviços associados ao

turismo, em vista da crescente valorização das áreas ricas em

aspectos naturais.

Além disso, há que se destacar o contínuo processo de migração

da cidade para o campo, na busca das pessoas por sua inserção no

mercado de trabalho e pelo apelo de uma melhor qualidade de vida.

Local da produção agropecuária, o campo transforma-se, assim, em

um espaço onde se observa a realização de inúmeras atividades

não agrícolas, como o trabalho de caseiros, diaristas, jardineiros etc.

Nesse contexto, o espaço rural torna-se fortemente marcado pelo

conteúdo de técnica e capital, sendo representado pelos complexos

agroindustriais e pelo agronegócio, correspondentes ao espaço de

produção agrícola, fruto da revolução verde, da modernização e da

industrialização da agricultura. O espaço rural da produção familiar

passa a ser também evidenciado pelas atividades não agrícolas,

que valorizam os patrimônios naturais e históricos nele presentes.

É importante lembrar que tais mudanças no campo acarretam

transformações na própria organização do espaço como um todo,

envolvendo interesses de fora do meio rural. Assim, este permanece

na forma dos casarões, das roças, de alguns objetos que identificam

o campo como rural, porém a sua função não é mais

exclusivamente agrícola, como frisado por Woods (2007, p. 491):

 

A rural realm constituted by multiple, shifting, tangled and dynamics

networks, connecting rural to rural and rural to urban, but with greater

intensities of globalization processes and of global interconnections in some

rural localities than in others, and thus with a differential distribution of power,

opportunity and wealth across rural space.

 

Em face de toda essa diversidade, percebe-se hoje a maior

preocupação com a preservação natural, em vista da intensificação

de atividades econômicas e interesses sociais que propiciam o

surgimento de novas funções para o produtor rural e dinamizam o

seu espaço de atuação, com aproveitamento de novas fontes de

energia e de amenidades propiciadas pelos centros urbanos

próximos.

Nesse caso, temos um campo diferenciado, preparado para ser

consumido pelos moradores da cidade e onde a indústria e a lógica

capitalista já se fazem presentes. Sem dúvida, esse espaço rural

está cada vez mais se adequando aos hábitos urbanos para atender

às exigências dos moradores citadinos e, nessa configuração, o

entendimento dessas áreas ultrapassa a ideia de encará-las como

espaços antagônicos. Temos, dessa forma, urbanidades no espaço

rural, assim como proposto por João Rua (2006).

Em busca de reprodução e sobrevivência, a produção familiar tem

apresentado características como o trabalho em tempo parcial em

face da diminuição da jornada de trabalho (favorecida pela

incorporação de tecnologias de produção), ou seja, há liberação de

membros da família para exercerem outras atividades, agrícolas e

não agrícolas, complementando assim a renda familiar.

Entre as atividades não agrícolas presentes no campo, merecem

destaque na atualidade as atividades turísticas, diante da

proliferação das áreas destinadas ao lazer. Essas “novas” atividades

têm demandado um número crescente de pessoas para dar sustentação à expansão do turismo no espaço rural, possibilitando

que os membros das famílias, liberados das atividades rotineiras da

exploração agrícola, passem a ocupar as vagas de trabalho geradas

por essa necessidade.

Diante desse contexto, as atividades turísticas no campo

desempenham o papel de mais uma fonte de renda para muitas

famílias, contribuindo para a manutenção e a reprodução das

atividades agrárias. Contudo, enfatiza-se a preservação e a

proteção da natureza, valoriza-se a busca da autenticidade dos

elementos paisagísticos locais, a conservação e a proteção dos

patrimônios históricos e culturais e o resgate da memória e da

identidade. Desse modo, há a mercantilização das paisagens, com a

consequente expansão das atividades de turismo e de lazer.

Essa realidade já se faz presente nos campos de todos os

estados brasileiros, como é o caso do que se observa na relação

campo-cidade nos estados da Paraíba e do Rio de Janeiro, em

análise no presente texto, identificando o turismo rural como

importante elemento de transformações nas áreas rurais.

Assim, uma vez que nossas investigações caminham pelo viés do

espaço rural, podemos pensá-lo como híbrido no Brasil, de múltiplas

funções, com a presença dos complexos agroindustriais, da

produção familiar, das atividades não agrícolas, de agricultores e

não agricultores, que interagem e criam conexões espaciais. Esses

sujeitos participam de redes complexas e imprimem uma marca

própria ao espaço rural.

Destarte, neste capítulo, propomos refletir sobre as atividades

turísticas em espaços rurais, resgatando noções sobre como tais

atividades se organizam em segmentos para fins de estratégia de

planejamento, recurso importante de ser observado na busca de

melhor compreensão do comportamento bastante dinâmico desse

complexo fenômeno.

A cada dia surgem mais e novos temas do turismo, respondendo

ao apelo de impulsos específicos que levam aos deslocamentos e

às viagens. Pensar a segmentação do turismo para além das

noções de mercado e de concorrência é um desafio que nos leva ao

esforço de capturar do fenômeno turístico a sua essência, ou seja, o

potencial transformador inerente à experiência que pode ou não se realizar. Nessa perspectiva, a força transformadora do turismo

parece estar mais presente em alguns temas, como é o caso do

turismo rural.

As múltiplas concepções sobre o turismo praticado no espaço

rural têm tantas vertentes quanto são os recortes possíveis de

serem feitos em relação ao que pode ser considerado rural,

enriquecendo a diversidade de conceitos e a gama de vivências

turísticas. É no contexto das relações globais e frenéticas da

atualidade que buscamos atualizar as reflexões sobre o turismo

rural, no enredo do território e do espaço.

 

Espaço rural e turismo rural como

 

segmento

 

Num primeiro momento, é importante explicitar o que entendemos

por espaço rural a fim de balizarmos as discussões sobre as

transformações em curso no campo brasileiro, fortemente marcado

pelo agronegócio de bases modernas e biotecnológicas e pela

produção familiar. De fato, o campo apresenta enorme gama de

variações no território brasileiro, seja pelos níveis tecnológicos

diferenciados, pelas estratégias de sobrevivência e de

enfrentamento do êxodo, seja pela força dos movimentos sociais na

luta pelo acesso à terra.

Em face do exposto, perguntamo-nos: que imagens surgem à

nossa mente quando pensamos em espaço rural, espaço de

produção agrícola e pecuária, florestas, campos, espaço de turismo,

de segunda residência, áreas menos modernas ou mais modernas?

Quais são os principais problemas associados ao espaço rural?

Michel Woods (2005) sinaliza a existência de quatro amplas

abordagens utilizadas para caracterizar o espaço rural. A primeira

delas remete à descrição, para a distinção geográfica entre áreas

urbanas e rurais, baseando-se nas características socioespaciais

expressas por meio de dados estatísticos; a segunda está atrelada

aos aspectos socioculturais e procura identificar os territórios rurais

por meio de tais características, com a distinção entre os aspectos das sociedades urbanas e rurais; a terceira considera o rural como

lugar, ou seja, em como as estruturas locais interagem com os

processos econômicos e sociais globais; e, por fim, o rural é tomado

como representação social, que privilegia, na abordagem, os

símbolos, ou seja, os sinais e imagens pessoais que surgem quando

os indivíduos pensam sobre o rural. A ruralidade aparece como um

estado de espírito, como uma identificação com esse espaço. O

rural não está apenas associado às estatísticas, ele é caracterizado

pelas pessoas que nele vivem e pelo modo como elas se sentem

habitando esse espaço.

Dessa forma, o rural emerge como um espaço híbrido que

apresenta um complexo jogo de inter-relações com agentes naturais

e sociais e uma grande diversidade e dinamismo. No campo, são

inúmeras as interações espaciais e redes geográficas formadas

pelas empresas que integram os complexos agroindustriais

compostos por atores heterogêneos, como empresas, produtores

rurais e turistas. Esses atores encontram-se associados a uma

variada gama de caminhos, sobretudo com a valorização dos

patrimônios natural, histórico ou cultural.

Se admitirmos a possibilidade, no período atual, do hibridismo

para a caracterização do espaço rural, devemos buscar elencar

algumas de suas características. De acordo com Kayser (1996), Diry

(2004), Woods (2005) e Ferrão (2000), o espaço rural apresenta

baixa densidade populacional, predomínio da atividade agro-silvo-

pastoril (produção agropecuária e florestal), modo de vida de seus

habitantes caracterizado pelo pertencimento às coletividades, e uma

identidade fortemente marcada pela cultura camponesa. Porém,

essas não são as únicas características presentes nesse espaço,

uma vez que temos as atividades não agrícolas e outras ligadas à

indústria, ao comércio e a serviços, próximas às aglomerações

urbanas.

Devemos também ponderar sobre o papel do meio natural, o

papel da técnica, da herança histórica e da tradição, e sobre o papel

das grandes corporações que articulam o local e o global. Portanto,

é necessário analisar quais são suas funções e como agem as

grandes empresas em nível global e como suas estratégias globais

são estabelecidas localmente.

Concordamos com Jean (2007) quando este afirma que o espaço

rural não se reduz unicamente à atividade agrícola. A agricultura

não corresponde ao seu foco estruturante, pois este apresenta

novas relações, como, por exemplo, o crescimento do contingente

populacional em busca de vantagens comparativas, seja por meio

de empregos não agrícolas (vinculados ao setor industrial ou de

serviços), seja na busca de espaços residenciais. Assim, o espaço

rural, de uma função predominantemente agrícola, passa a

apresentar outras funções. Para Jean (2007), assistimos também,

no espaço rural brasileiro, ao renascimento do rural e de suas várias

funções.

Portanto, ao falarmos de rural e de transformações em curso,

estaremos necessariamente nos referindo ao processo de

urbanização (das ocupações não agrícolas, da expansão do

consumo e da acessibilidade). Em grande medida, identificamos,

assim, os espaços de lazer, de produção industrial e de “processos

de produção de valores simbólicos”, como informa Reis (2001, p. 7).

Ao estudar Portugal, esse autor aponta como principais

transformações a maior urbanização, o cosmopolitismo dos

comportamentos e a intensa relação com os mercados de trabalho.

Concordamos quando ele afirma que

 

parece claro que as mudanças no meio rural e a maior territorialização das

práticas socioeconômicas comportam uma mais intensa relação quer com

políticas públicas, quer com agentes externos (que seguem essas políticas).

Esta dupla abertura do espaço rural (a que lhe é trazida por agentes

externos que o procuram segundo novos interesses e novas lucratividades e

a que resulta da própria metamorfose dos agentes originariamente locais) é

com certeza o grande traço de novidade para o que aí vem. Resta, pois,

continuar a observar de que modo abertura e mudança geram novas

mudanças.

 

Dessa forma, os estudos e pesquisas sobre a segmentação em

turismo, inclusive no espaço rural, têm levado em conta aspectos

relacionados à oferta dos destinos e às motivações, ou seja, à

demanda turística, servindo tanto para observar interferências

socioculturais quanto a dinâmica desse setor.

No que se refere à tipologia da demanda turística, vemos o

esforço de Erik Cohen (Burns, 2002) para construir categorias

conforme as conexões mantidas pelos turistas com o território, em

especial, no que se refere às relações socioculturais que eles

experimentam nos destinos que visitam. Desse modo, os turistas

são considerados institucionalizados ou não, de acordo com o grau

de intermediação de suas viagens por operadoras e agências de

turismo. Essencialmente, tais estudos tomam por orientação os

níveis de suficiência presentes ou não nas trocas culturais entre

turistas e residentes, ou ainda certo envolvimento e interesse do

turista por elementos culturais do destino por ele visitado.

Barretto (2000) infere que as maiores interferências provocadas

no território seriam produzidas pelo padrão de turistas

institucionalizados ou de massa, preocupados, prioritariamente, em

ter uma experiência prazerosa. Estes seriam os que “preferem

praias ou hotéis de lazer, parques temáticos e áreas onde possam

divertir-se em contato com a natureza, com atividades físicas”, cuja

tendência é ter menos contato com a população local. Contudo,

 

o paradoxo desse tipo de turista [institucionalizado] é que provoca grandes

alterações na dinâmica da sociedade receptora, que se reflete em mudanças

nos usos e costumes, na divisão social do trabalho, no relacionamento

interpessoal, sobretudo no familiar, sem que haja contatos realmente

interativos com a população receptora. Esta última só tem visibilidade como

prestadora de serviços, e, por sua vez, o turista é visto pela população local

apenas como um fator de produção, um capital ambulante, um portador de

dinheiro com o qual tudo se comercializa, até o sorriso (p. 24).

 

No que se refere ao turista não institucionalizado, a autora

esclarece que, em número ainda pequeno, “são pessoas que

procuram um contato autêntico e íntimo com a população local,

fazendo questão de respeitar o modo de vida desta última, […]

adaptando-se facilmente à cultura local e são consumidores de um

estado de espírito e não de coisas materiais” (p. 24).

É, fundamentalmente, para esse último tipo de turista, o não

institucionalizado, que surgem cada vez mais subsegmentos, ou

propostas alternativas em turismo, do ponto de vista da oferta ou da

diversidade de temas que pode motivar o deslocamento de pessoas para fora do seu entorno habitual. Barretto (2000) mostra que, de

fato, existem ao menos cem diferentes espécies de turismo, de

acordo com critérios específicos (p. 19). Mas, de modo geral, pode-

se dizer que a busca pela experiência turística é fortemente

motivada por atrativos naturais ou culturais, relacionados esses

últimos a aspectos da história ou do cotidiano das comunidades

visitadas.

Segundo a Organização Mundial do Turismo (OMT) (2001), a

ampliação do turismo temático, ou seja, aquele que se organiza a

partir de determinados objetos para atrair e atender a nichos

específicos de demanda turística, tem sido influenciada pelo

surgimento de motivações cada vez mais especiais ou exclusivas

por parte dos turistas, não só por conta de necessidades de ordem

subjetiva, mas também em face de novos modelos de consumo da

experiência turística. Desse modo, o turismo temático tem sido

menos apropriado como alternativa socioeconômica para regiões

menos favorecidas, do que como estratégia para diferenciação de

produtos turísticos em relação a ofertas altamente competitivas.

Conforme a OMT (2001), o mote do turismo temático poderá

centrar-se em torno de um “personagem, jogo, tecnologia, costume,

espaço, conceito global, ficção”, destacando como principais temas

agregados ao turismo a cultura, a aventura, os negócios, o esporte,

a saúde, a natureza e o espaço rural (p. 130). Esses grandes eixos

podem, ainda, apresentar ramificações, assumindo a segmentação

turística grande importância em face de novas exigências de

demanda:

 

Atualmente a satisfação do consumidor é conseguida apenas com a

segmentação efetiva e uma grande variedade de ofertas e, para tanto, os

atrativos deveriam ser projetados para segmentos específicos. As velhas

soluções padronizadas não são mais viáveis nem para os turistas, nem para

os moradores da área onde se (OMT, 2001, p. 132).

 

Pires (2002), porém, vê a motivação como tema ainda carente de

maiores estudos e, no caso do turismo, sem respostas que ajudem

a compreender os impulsos das viagens, de tal sorte mesclados,

que muitas vezes mascarariam a principal razão do deslocamento.

Para o autor, essa é uma das maiores problemáticas presentes em alguns segmentos, como o turismo rural, por exemplo, respondendo

também pela dificuldade de que pesquisas possam melhor aferir a

balança comercial do setor.

Verbole (2002) esclarece que, de fato, “o Turismo Rural está

sustentado pela ‘percepção do imaginário’ […] e a imagem

associada ao segmento está permanentemente sendo

desconstruída e reconstruída, uma vez que está sujeita a diferentes

e complexos significados e interpretações” (p. 131). Por serem

impulsionados por motivos, expectativas e percepções diversas, os

turistas rurais estariam longe de serem considerados, nessa

perspectiva, um grupo homogêneo.

Para Talavera (2000), podem-se identificar ao menos dois grupos

tipológicos de turistas rurais: um com interesse na paisagem rural e

na prática de atividades desportivo-recreativas; outro que se deixa

encantar, em certa medida, pelas culturas dos locais que visita.

Também as diversas teorias sobre motivação não nos parecem

suficientes para identificar um só motivo que se destaque como

principal propulsor do turismo rural, ou um único e determinado

tema ou enredo que caracterize esse segmento.

Se as motivações humanas compõem uma teia de intrincados

interesses e necessidades, não podem ser consideradas de modo

descolado das situações em que são enredadas. Nesse sentido,

talvez seja mais adequado pensar os segmentos turísticos dentro do

contexto do espaço onde se dá a experiência turística, tendo por

cenário a dinâmica característica do turismo como fenômeno.

 

O embaraço dos conceitos

 

O turismo rural está definido pela OMT (2001) como o segmento

que se refere “a atividades que são feitas no campo, seguindo os

costumes e as tradições vividas em ambientes distantes das

cidades e áreas industrializadas, como povoados, sítios, etc.” (p.

129).

Tulik (2003) nos remete a uma discussão presente em vários

estudos sobre o turismo rural, informando que essa expressão vem

sendo empregada de modo extensivo a qualquer atividade turística no espaço rural e que se identifica no uso corrente com os termos

“Turismo no Espaço Rural e Turismo nas Áreas Rurais” (p. 9).

Como categoria que nos importa observar, embora alertados por

Santos (1978) de que espaço e território podem ser dotados de

diferentes significados historicamente distintos, flexíveis e mutáveis,

adotamos do autor a apreensão de que o espaço é um “campo de

forças” de formação desigual, revestido de certa autonomia, como

“resultado de uma práxis coletiva que reproduz as relações sociais”

(p. 171).

Abarcado como totalidade advinda dos processos e das relações

sociais do passado e do presente, o espaço geográfico é, nesse

sentido, organizado, produzido e reproduzido pelo homem e, em

última instância, pela sociedade. Desse modo, podem mudar as

formas e funções que ajudam a organizar e a conceber o espaço, ou

melhor, à medida que muda a sociedade, muda também o espaço

que dela resulta.

Essa vertente nos leva a pensar que, para se observar o turismo

no espaço rural, caberá pensar o espaço organizado pela sociedade

a partir de formas e funções que se vão definindo historicamente, no

passado e no presente, de modo processual e dinâmico.

Como segmento, embora haja uma tendência última para que o

turismo rural passe a representar apenas aquelas atividades ligadas

de modo mais estreito e efetivo ao conteúdo rural, a questão,

segundo Tulik (2003), torna-se sempre mais complexa,

principalmente em face das grandes dificuldades encontradas ainda

hoje na distinção entre espaço urbano e espaço rural.

Como mostra a referida autora, uma das questões controversas

diz respeito ao uso aleatório de vocábulos aplicados ao turismo rural

como se fossem sinônimos, mas cujos conceitos são específicos,

tais como área, espaço, zona e meio.

Um debate mais enleado se trava em relação aos critérios que

servem para delimitar o que seja urbano ou rural pela oposição e

confronto entre estes (atividades, funções e características de cada

uma dessas dimensões), pela verificação do tamanho e

características demográficas de zonas rurais ou urbanas ou pela

delimitação político-administrativa entre perímetro urbano e rural.

Embora haja uma crescente preocupação de muitos estudiosos do tema em procurar indicar com clareza tais limites, esta não se

mostra uma tarefa fácil, mas de linhas muito tênues.

O esforço para vencer a oposição entre urbano e rural remete aos

recortes que consideram ora a aglomeração de casas e pessoas

contraposta à habitação dispersa e difusa, ora a observação da

dimensão e características das populações residentes em uma área

urbana ou em uma área rural. Até mesmo as atividades

desenvolvidas nesses espaços chamados de urbano ou rural são

utilizadas à guisa de oposição, viés que ainda traz de modo

superficial a polêmica contraposição entre o que é rural e o que é

agrícola.

No campo do turismo segmentado, o nexo que se tenta

estabelecer pela delimitação do perímetro urbano/rural se faz ainda

mais perdido em virtude da eventual ampliação dos territórios

chamados urbanos, conforme pode autorizar ou não a autonomia do

governo municipal, tendo como pano de fundo a arrecadação de

impostos. É assim que Rodrigues (2003) argumenta que o sem

número de desmembramentos municipais ocorridos nos últimos

anos no Brasil provocaram, com autorização legal, a criação artificial

de pequenos centros urbanos com características eminentemente

rurais.

 

É o caso de loteamentos em áreas rurais, cujas superfícies das unidades de

desmembramento (lotes) estando abaixo do módulo rural são decretadas

como áreas urbanas, recebendo tratamento como tal, por meio de

implantação de infraestrutura urbana, o que vem justificar o pagamento de

tributos urbanos (p. 107).

 

Locatel (2013) reitera a arbitrariedade presente na definição do

que é o espaço urbano, ou da cidade, assim definido tão somente

pela área que se considera administrativa, sendo o campo

considerado apenas pelas relações sociais e de produção.

Conforme o autor, ambos, cidade e campo, seriam dois subespaços

orgânicos de uma mesma totalidade e lógica social. Há que se

discutir, ainda, a ideia de continuidade entre os territórios urbano e

rural, e, consequentemente, a possibilidade de que o mundo

contemporâneo esteja fadado a conviver com o hibridismo que faz

surgir diferentes graus de ruralidade.

Para Moreira (2002), a dimensão do território ganha destaque

nesse debate, na medida em que o espaço rural incorpora

elementos simbólicos e materiais que seriam urbanos. Essa relativa

maleabilidade conceitual favoreceria, de tal modo, a agregação de

atributos econômicos aos conceitos, que podem servir a indicadores

que justifiquem iniciativas enredadas pelo poder hegemônico.

Na perspectiva de Raffestin (1993), território é o espaço onde o

trabalho se realiza, gerando energia ou informação, ou seja, eivado

de manifestações de poder, de tal modo que, ao se apropriar de um

espaço, o ator estará territorializando o mesmo. Já Santos (1996)

entende o território a partir de seus usos, da associação de

identidade criada pelo sentimento de pertencer a este ou de

exercitar a vida social, cultural, afetiva, material e espiritual. De todo

modo, esses são olhares que ajudam a aprofundar a reflexão sobre

os limites improváveis entre o urbano e o rural.

No caminho de superar essa dicotomia rural-urbano, Teixeira e

Lages (1997) chamam a atenção para o fato de que o termo rural

não estaria restrito tão somente a questões de localização, como na

oposição campo-cidade, mas revestir-se-ia de caráter particular

relacionado à terra e aos modos de se relacionar com aquele

espaço. O rural não estaria, portanto, subordinado ao urbano,

gozando de certo status e expandindo-se para além das atividades

agrícolas ou para a pluriatividade, marcando, assim, uma “nova”

ruralidade.

Rua (2005) lembra que a proposta de existência das “novas

ruralidades” aceita a possibilidade de que o rural e o urbano

convivam no mesmo espaço. Reforça, assim, que a presença de

urbanidades no meio rural não seria por si só suficiente para

transformar o cotidiano rural em cotidiano urbano. Tampouco essas

áreas híbridas dão a se distinguir por vezes como urbanas ou rurais,

ainda que quase sempre sejam marcadas por uma grande

assimetria, em que o urbano se destaca como dominante.

Rodrigues (2003) alerta, inclusive, sobre as artificialidades que

serviriam para confundir ainda mais o mundo rural e o mundo

urbano, considerando a presença ou não de certas modernidades

nesses espaços, já que ambos estariam irremediavelmente marcados, na atualidade, pelos avanços da ciência, da técnica e da

informação, em maior ou menor escala.

Uma das fortes marcas dessa nova ruralidade, para Silva (2011),

é a pluriatividade, que combina atividades agrícolas e não agrícolas,

uma vez que o espaço rural pode servir de palco para práticas

diversas e não necessariamente ligadas à produção de alimentos,

tal como mostram os diversos segmentos do turismo em contato

com a natureza e a vida no campo.

Marafon e Ribeiro (2006) apontam o turismo rural como

alternativa para os agricultores familiares que buscam

complementar a renda empregando a sua força de trabalho em

pluriatividades, ou seja, em empregos temporários em hotéis-

fazenda, spas rurais e casas de segunda residência. Nesse caso, a

pluriatividade não se apresentaria como fenômeno conjuntural, mas

como consequência da transformação da agricultura e da

reestruturação econômica forjada pelo modelo capitalista.

Para Cunha (apud Tulik, 2003, p. 23), a referência ao rural não

pode prescindir de levar em conta as características sociais,

culturais e ambientais inerentes a esse termo:

 

Neste contexto, a zona rural será aquela cujas atividades econômicas

tenham uma base agrária e florestal, com atividades agrícolas e florestais,

além da pecuária e produtos derivados; deve caracterizar-se pela existência

da vida natural e selvagem, em que a produção industrial seja esporádica e a

cultura e as tradições se identifiquem, fortemente, com o ambiente e com as

forças da natureza.

 

Rodrigues (2003) reforça essa premissa ao afirmar que “o

Turismo Rural estaria correlacionado a atividades agrárias,

passadas e presentes, que conferem à paisagem sua fisionomia

nitidamente rural” (Rodrigues, 2003, p. 103).

Nesse ponto, entra em pauta, ainda, o hibridismo paisagístico

insistente de algumas localidades que embaça o olhar sobre o que é

rural ou ecológico, levando alguns autores à adoção do termo

turismo “ecorrural” em seus encaminhamentos.

Em referência à paisagem, Pires (2003) lembra que o turismo é

motivado, fundamentalmente, pela quebra da rotina e que esta é assegurada pela mudança física de lugar – constatação que se dá

pela alteração da paisagem.

Ao apresentarem estudos sobre as abordagens geográficas da

paisagem, Britto e Ferreira (2011) sinalizam a ausência de avanços

conceituais que extrapolem os elementos “da visão, do belo, do

afetivo, do físico ou do cultural”, ou mesmo que integrem campo e

cidade, do ponto de vista de suas paisagens, como constitutivas de

um “espaço geográfico globalizado” (p. 9).

No esforço de esclarecer o que viria a ser a paisagem rural, Pires

(2003) lança mão dos vieses da topografia e do uso do solo, e inclui

em sua análise o conceito de paisagem “humanizada” como

“produto social, o resultado de uma transformação coletiva da

natureza; a projeção cultural da sociedade num determinado

espaço” (p. 127). A combinação de variados elementos remeteria,

então, a duas subtipologias básicas da paisagem rural: a paisagem

campestre e a paisagem cultivada, lembrando que outros

componentes poderão ser agregados como típicos do meio rural na

configuração cênica da sua paisagem, tais como:

 

[…] povoados e vilarejos isolados, estradas e caminhos de terra, cercas e

divisores (de vegetação, pedra ou aramado), pontes e passagens rústicas,

açudes, rodas d’água (de moinhos, alambiques), estábulos, mangueiras,

galpões, templos religiosos, cemitérios, estalagens e armazéns de beira de

estrada, escolas isoladas, fornos de carvão, estufas, etc. (Pires, 2003, p.

126).

 

Consoante a edição em 2004 das Diretrizes para o

Desenvolvimento do Turismo Rural (Ministério do Turismo), o rápido

e ainda desordenado crescimento dessa atividade no Brasil vem

gerando uma “profusão de entendimentos” que se têm confundido

com múltiplas concepções e denominações, tais como: agroturismo,

ecoturismo, turismo de interior, turismo no espaço rural, alternativo,

endógeno, verde, campestre, agroecoturismo e ecoagroturismo.

Teixeira e Lages (1997) ratificam que o espaço agrário ou agrícola

seria uma das atividades ou especificidades do rural.

Buscando lançar luz à questão, o Ministério do Turismo (2004)

apresenta nas Diretrizes a definição do Turismo no Espaço Rural “como um recorte geográfico, onde o Turismo Rural está inserido”,

adotando para aquela expressão o conceito que compreende:

 

todas as atividades praticadas no meio não urbano, que consistem de

atividades de lazer no meio rural em várias modalidades definidas com base

na oferta: turismo rural, agroturismo, turismo ecológico ou ecoturismo,

turismo de aventura, turismo de negócios, turismo de saúde, turismo cultural,

turismo esportivo, atividades estas que se complementam ou não (Graziano

da Silva et al. apud Ministério do Turismo, 2004, p. 11).

 

Nessa lógica, estariam incluídos como atividades no meio rural os

serviços de hospedagem e alimentação, a visita a propriedades

rurais, as atividades de entretenimento ou pedagógicas

desenroladas no contexto rural, assim como quaisquer outras

atividades turísticas praticadas no meio rural que se constituam em

motivo de visitação (Ministério do Turismo, 2004, p. 12).

Campanhola e Graziano da Silva (1999) detalharam ainda mais,

em outra oportunidade, o que compreendem como “turismo no meio

rural”:

 

atividades de lazer no meio rural em várias modalidades definidas com base

na oferta: turismo rural; turismo ecológico ou ecoturismo; turismo de

aventura; turismo de negócios; turismo cultural; turismo jovem; turismo

social; turismo de saúde; e turismo esportivo. Nesse conceito incluem-se, por

exemplo, os ‘spas’ rurais; os centros de convenções rurais; os locais de

treinamento de executivos; os parques naturais para atividades esportivas;

as caminhadas; as visitas a parentes e amigos; as visitas a museus, igrejas,

monumentos e construções históricas; os festivais, rodeios e ‘shows’

regionais, as visitas a paisagens cênicas e a ambientes naturais; a

gastronomia regional; os ‘campings’, as colônias de férias, os hotéis-

fazenda, 8 9 as fazendas-hotéis, os esportes da natureza, como canoagem,

alpinismo, pesca, caça; chácaras de recreio e condomínios rurais de

segunda moradia, entre outros (pp. 14-5).

 

Quanto ao turismo rural, este é o conceito apresentado pelo

Ministério do Turismo (2004) e que, de modo geral, sustenta a

posição da Embratur em 1998, cujo cunho mercadológico é

apontado por Silveira (2003) como o “conjunto de atividades

turísticas desenvolvidas no meio rural, comprometido com a

produção agropecuária, agregando valor a produtos e serviços, resgatando e promovendo o patrimônio cultural e natural da

comunidade” (Ministério do Turismo, 2004, p. 11).

Finalmente, cabe dar destaque ao termo agroturismo, que, no

nosso entendimento, torna as teias da categorização do turismo no

espaço rural ainda mais intrincadas, como vemos:

 

[O agroturismo] compreende as atividades internas à propriedade, que

geram ocupações complementares às atividades agrícolas, as quais

continuam a fazer parte do cotidiano da propriedade, em menor ou maior

intensidade. Devem ser entendidas como parte de um processo de

agregação de serviços e bens não materiais existentes nas propriedades

rurais (paisagem, ar puro, etc.) a partir do ‘tempo livre’ das famílias agrícolas,

com eventuais contratações de mão de obra externa (Graziano da Silva et al.

apud Ministério do Turismo, 2004).

 

Graziano da Silva (apud Campanhola e Graziano da Silva, 2003,

p. 14) cita como exemplos de agroturismo “a fazenda-hotel, o

pesque-pague, a fazenda de caça, a pousada, o restaurante típico,

as vendas diretas do produtor; o artesanato, a industrialização

caseira e outras atividades de lazer associadas à recuperação de

um estilo de vida dos moradores do campo”.

Para alguns autores, o agroturismo seria uma subdivisão do

turismo rural e teria como princípios norteadores a interligação com

atividades inerentes à propriedade (agrícolas ou pecuárias), o

objetivo de complementação de renda familiar por via da atividade

turística, a gestão familiar (com presença obrigatória do

proprietário), o alojamento de turistas na propriedade, a venda de

produtos locais, a experimentação de atividades da propriedade e o

contato estreito do turista com o meio rural (Tulik, 2003, pp. 38-9).

Tulik (2003), entretanto, admite que “na prática, outros tipos de

turismo rural assimilaram as características do agroturismo, e que

esse tipo de turismo, considerado por alguns como o mais fácil de

ser compreendido, desviou-se de alguns desses objetivos” (p. 39).

Rodrigues (2003) traz uma reflexão interessante sobre o “lazer

periurbano” e o “turismo periurbano”, lançando a questão sobre “a

relação do proprietário ou do empreendimento com o entorno onde

a atividade se realiza” (p. 106). A autora espera que a resposta defina o real vínculo histórico ou afetivo presente na atividade, ou se

esta seria apenas de cunho comercial.

 

No caso da compra de um terreno e a posterior construção de um lago para

pesque-pague, restaurante, lanchonete, sem nenhum vínculo paisagístico ou

afetivo com o lugar, em que o proprietário nem reside no local e quase tudo

está a cargo de empregados, ao nosso ver trata-se de um empreendimento

que, apesar de se localizar fora do perímetro considerado urbano pouco se

caracteriza pela ruralidade. Nem mesmo as relações de trabalho são

específicas do mundo rural. O proprietário pode residir na cidade. Os

funcionários são também urbanos e/ou terceirizados, podendo ser recrutados

por uma empresa, recebendo sob o regime de comissão pelo valor

arrecadado (p. 106).

 

Prosseguindo nessa discussão, Rodrigues (2003) lembra os

casos em que espaços antes essencialmente rurais foram

modificados com o tempo e que provocaram, consequentemente, a

transformação ou o abandono de certas instalações que perderam a

utilidade e cita o exemplo de antigos haras que, adaptados,

passaram a ser alugados para festas de casamento. Mais

complicados para aquela autora seriam os casos de propriedades

localizadas em zonas periurbanas e que nunca tiveram cunho rural,

também bastante usadas para servir a festas de caráter urbano. A

rigor, tais atividades sequer poderiam ser caracterizadas como

turísticas e se constituiriam no que chama de “lazer periurbano” (p.

106).

Por outro lado, Rodrigues (2003) lembra a existência de espaços

urbanos que tentam reconstruir o meio rural para fins pedagógicos,

ou mesmo com o objetivo de proporcionar entretenimento e

recreação, a exemplo da “fazendinha” do complexo Beto Carrero, no

bairro do Brooklin, em São Paulo.

Nessa reedificação do rural, encontram-se também os eventos

organizados em espaços nitidamente urbanos, como mostra a

referida autora:

 

Está havendo um tipo de lazer e/ou de turismo rural às avessas, ou seja, a

cultura rural colonizando o espaço urbano, como um resgate das tradições

rurais que foram obliteradas com a cultura urbana. […] O fato é que

atualmente há uma tendência de valorização da cultura chamada de

tradicional, um movimento retrô. […] Trata-se de um fato que caracteriza os

países centrais do capitalismo onde o fenômeno urbano torna-se cada vez

mais expressivo e fonte geradora de estresse. Assim, parece que com a

influência do modismo country norte-americano estratos da população

urbana brasileira, na sua maioria jovem, passam a aderir à referida moda. Os

festejos rurais invadem a cidade, onde muitos clubes, alguns já no perímetro

urbano convencionalmente estabelecido, se dedicam a bailes country. Esses

festejos que tradicionalmente aconteciam em junho – as festas juninas –

ganham nova dimensão. Multiplicam-se os espaços para leilões de gado,

feiras e exposições, rodeios e outras atividades de cunho rural. O evento

mais conhecido no Brasil é a festa do peão em Barreiros (Rodrigues, 2003,

p. 108).

 

A complexidade do tema se estende, na observação da autora,

sobre o novo “turismo rural de cunho acadêmico”, que inclui a

hospedagem de turistas em campus universitários e aulas teóricas e

práticas dessa modalidade. Ela cita, ainda, a experiência do

Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), cujos membros

alojam congressistas em acampamentos para ministrarem palestras

e cursos, que atraem inclusive visitantes de outros países do Cone

Sul.

Conforme as Diretrizes para o Desenvolvimento do Turismo Rural

(Ministério do Turismo, 2004), que tanto acata o termo turismo rural

quanto o de agroturismo, o que importa é que a atividade turística

seja cuidada

 

[…] de modo integrado e participativo, sempre considerando os arranjos

produtivos de cada território, a fim de fortalecer os laços comunais e vicinais,

reforçar a coesão social, a cooperação produtiva e a valorização dos

elementos naturais e culturais, respeitadas as singularidades, com vista aos

benefícios para as comunidades (p. 15).

 

Há tantas concepções do turismo rural, como corrobora Portuguez

(2005), quanto há espaços rurais diferentes, o que nos leva a

pensar em abordagens e reflexões conforme a linha de observação

que nos irá guiar. De qualquer modo, parece fundamental não se

precipitar na associação fácil de imagens já conhecidas, tomando-se

o cuidado com as necessárias distinções de forma e função, como

sugere o autor:

Pensar o meio rural significa lembrar desertos, geleiras, áreas florestadas,

montanhas, campos altamente mecanizados, campos cultivados no regime

de subsistência, áreas ricas em castelos medievais, áreas onde o camping é

a única possibilidade de pernoite, entre muitos outros exemplos. Em outras

palavras, não se deve vincular a reflexão sobre o turismo rural com a

imagem de ruralidade imediata que comumente se faz a partir do mundo

rural que se conhece (p. 579, grifos do autor).

 

No que se refere à segmentação do turismo, de modo geral, as

tendências apontam para a necessidade de revisão de paradigmas

diante de um turista diferente do modelo ao qual se acostumaram os

destinos receptivos (Panosso Netto e Ansarah, 2009). Em face de

tantas nuances que abarcam as reflexões sobre o turismo rural, tais

tendências parecem fortalecer ainda mais o desafio não só na

percepção do perfil dos turistas rurais como sujeitos diversos, mas

também, principalmente, em estabelecer novas referências teóricas

e práticas no setor.

 

Considerações finais

 

O desenvolvimento de atividades turísticas em espaço rural está

associado ao processo de urbanização que ocorre na sociedade e

no transbordamento do espaço urbano para o espaço rural, segundo

Graziano da Silva (1997). Para esse autor, “novas” formas de

ocupação passaram a proliferar no campo, entre elas são

destacadas: o conjunto de profissões tidas como urbanas

(trabalhadores domésticos, mecânicos, secretárias etc.); moradias

de segunda residência; atividades de conservação; áreas de lazer

(hotéis-fazenda, fazenda-hotéis, pesque-pague etc.). Essas “novas”

atividades demandaram um número crescente de pessoas para dar

sustentação à expansão das atividades turísticas em espaço rural.

Diante disso, qualquer abordagem sobre o turismo rural deve

considerar, a título de alguma segurança, o espaço como

construção social, coletiva, em uma dinâmica que resulte em

promoção social e cultural. Nesse aspecto, as dimensões do global

e do local precisam ser também apreciadas.

Assim, de posse do entendimento de que os territórios podem ser

modificados pela utilização da técnica e de que os espaços são

valorizados em razão de fatores políticos, econômicos, sociais e

culturais é que podermos refletir sobre a possibilidade de que todos

os espaços possam vir a ser do turismo, sem que nenhum espaço

turístico venha a ter sentido por si só, sem contexto.

Há que se identificar critérios que possam definir propriedades,

empreendimentos e atividades relacionadas ao segmento, mas

considerando diferentes níveis de ruralidade, conforme orienta

Rodrigues (2000). A partir de um arcabouço nesses termos, pode-se

avançar investigando potencialidades locais e regionais sobre o

segmento, de tal modo que algumas experiências possam guardar

parâmetros de comparação e aprendizagem para novos ensaios.

O turismo em espaço rural se afirma como mais uma alternativa

que se coloca para os agricultores familiares venderem sua força de

trabalho e complementarem sua renda, reforçando o caráter

pluriativo das unidades familiares de produção e sua inserção no

processo de produção do espaço. De acordo com Lefebvre (1999),

estaríamos sob o signo de uma sociedade urbana, e essa

urbanização estruturaria o território, o que Santos (1993) aponta

como passagem da urbanização da sociedade para a urbanização

do território. A prática do turismo rural contemporâneo refletiria essa

prática, uma vez que os hotéis fazenda, spas rurais e casas de

segunda residência se localizam, preferencialmente, próximas às

grandes concentrações urbanas.

 

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