Estudos Territoriais no Brasil e na Costa Rica
4. Turismo rural: resgatando conceitos e atualizando reflexões
4. Turismo rural: resgatando
conceitos e atualizando
reflexões
Glaucio José Marafon, Valéria Maria de Souza Lima
Introdução
Tradicionalmente, o campo brasileiro tem exercido a função tanto
de fornecedor quanto de consumidor da cidade, seja provendo
necessidades com matéria-prima ou recursos humanos para o
trabalho, seja absorvendo mercadorias e facilidades. A análise de
tais transformações ganha, ainda, maior importância quando
consideramos que as atividades desenvolvidas no campo passam a
se configurar, cada vez menos, como agrícolas, abarcando
sobremaneira a produção industrial e os serviços associados ao
turismo, em vista da crescente valorização das áreas ricas em
aspectos naturais.
Além disso, há que se destacar o contínuo processo de migração
da cidade para o campo, na busca das pessoas por sua inserção no
mercado de trabalho e pelo apelo de uma melhor qualidade de vida.
Local da produção agropecuária, o campo transforma-se, assim, em
um espaço onde se observa a realização de inúmeras atividades
não agrícolas, como o trabalho de caseiros, diaristas, jardineiros etc.
Nesse contexto, o espaço rural torna-se fortemente marcado pelo
conteúdo de técnica e capital, sendo representado pelos complexos
agroindustriais e pelo agronegócio, correspondentes ao espaço de
produção agrícola, fruto da revolução verde, da modernização e da
industrialização da agricultura. O espaço rural da produção familiar
passa a ser também evidenciado pelas atividades não agrícolas,
que valorizam os patrimônios naturais e históricos nele presentes.
É importante lembrar que tais mudanças no campo acarretam
transformações na própria organização do espaço como um todo,
envolvendo interesses de fora do meio rural. Assim, este permanece
na forma dos casarões, das roças, de alguns objetos que identificam
o campo como rural, porém a sua função não é mais
exclusivamente agrícola, como frisado por Woods (2007, p. 491):
A rural realm constituted by multiple, shifting, tangled and dynamics
networks, connecting rural to rural and rural to urban, but with greater
intensities of globalization processes and of global interconnections in some
rural localities than in others, and thus with a differential distribution of power,
opportunity and wealth across rural space.
Em face de toda essa diversidade, percebe-se hoje a maior
preocupação com a preservação natural, em vista da intensificação
de atividades econômicas e interesses sociais que propiciam o
surgimento de novas funções para o produtor rural e dinamizam o
seu espaço de atuação, com aproveitamento de novas fontes de
energia e de amenidades propiciadas pelos centros urbanos
próximos.
Nesse caso, temos um campo diferenciado, preparado para ser
consumido pelos moradores da cidade e onde a indústria e a lógica
capitalista já se fazem presentes. Sem dúvida, esse espaço rural
está cada vez mais se adequando aos hábitos urbanos para atender
às exigências dos moradores citadinos e, nessa configuração, o
entendimento dessas áreas ultrapassa a ideia de encará-las como
espaços antagônicos. Temos, dessa forma, urbanidades no espaço
rural, assim como proposto por João Rua (2006).
Em busca de reprodução e sobrevivência, a produção familiar tem
apresentado características como o trabalho em tempo parcial em
face da diminuição da jornada de trabalho (favorecida pela
incorporação de tecnologias de produção), ou seja, há liberação de
membros da família para exercerem outras atividades, agrícolas e
não agrícolas, complementando assim a renda familiar.
Entre as atividades não agrícolas presentes no campo, merecem
destaque na atualidade as atividades turísticas, diante da
proliferação das áreas destinadas ao lazer. Essas “novas” atividades
têm demandado um número crescente de pessoas para dar sustentação à expansão do turismo no espaço rural, possibilitando
que os membros das famílias, liberados das atividades rotineiras da
exploração agrícola, passem a ocupar as vagas de trabalho geradas
por essa necessidade.
Diante desse contexto, as atividades turísticas no campo
desempenham o papel de mais uma fonte de renda para muitas
famílias, contribuindo para a manutenção e a reprodução das
atividades agrárias. Contudo, enfatiza-se a preservação e a
proteção da natureza, valoriza-se a busca da autenticidade dos
elementos paisagísticos locais, a conservação e a proteção dos
patrimônios históricos e culturais e o resgate da memória e da
identidade. Desse modo, há a mercantilização das paisagens, com a
consequente expansão das atividades de turismo e de lazer.
Essa realidade já se faz presente nos campos de todos os
estados brasileiros, como é o caso do que se observa na relação
campo-cidade nos estados da Paraíba e do Rio de Janeiro, em
análise no presente texto, identificando o turismo rural como
importante elemento de transformações nas áreas rurais.
Assim, uma vez que nossas investigações caminham pelo viés do
espaço rural, podemos pensá-lo como híbrido no Brasil, de múltiplas
funções, com a presença dos complexos agroindustriais, da
produção familiar, das atividades não agrícolas, de agricultores e
não agricultores, que interagem e criam conexões espaciais. Esses
sujeitos participam de redes complexas e imprimem uma marca
própria ao espaço rural.
Destarte, neste capítulo, propomos refletir sobre as atividades
turísticas em espaços rurais, resgatando noções sobre como tais
atividades se organizam em segmentos para fins de estratégia de
planejamento, recurso importante de ser observado na busca de
melhor compreensão do comportamento bastante dinâmico desse
complexo fenômeno.
A cada dia surgem mais e novos temas do turismo, respondendo
ao apelo de impulsos específicos que levam aos deslocamentos e
às viagens. Pensar a segmentação do turismo para além das
noções de mercado e de concorrência é um desafio que nos leva ao
esforço de capturar do fenômeno turístico a sua essência, ou seja, o
potencial transformador inerente à experiência que pode ou não se realizar. Nessa perspectiva, a força transformadora do turismo
parece estar mais presente em alguns temas, como é o caso do
turismo rural.
As múltiplas concepções sobre o turismo praticado no espaço
rural têm tantas vertentes quanto são os recortes possíveis de
serem feitos em relação ao que pode ser considerado rural,
enriquecendo a diversidade de conceitos e a gama de vivências
turísticas. É no contexto das relações globais e frenéticas da
atualidade que buscamos atualizar as reflexões sobre o turismo
rural, no enredo do território e do espaço.
Espaço rural e turismo rural como
segmento
Num primeiro momento, é importante explicitar o que entendemos
por espaço rural a fim de balizarmos as discussões sobre as
transformações em curso no campo brasileiro, fortemente marcado
pelo agronegócio de bases modernas e biotecnológicas e pela
produção familiar. De fato, o campo apresenta enorme gama de
variações no território brasileiro, seja pelos níveis tecnológicos
diferenciados, pelas estratégias de sobrevivência e de
enfrentamento do êxodo, seja pela força dos movimentos sociais na
luta pelo acesso à terra.
Em face do exposto, perguntamo-nos: que imagens surgem à
nossa mente quando pensamos em espaço rural, espaço de
produção agrícola e pecuária, florestas, campos, espaço de turismo,
de segunda residência, áreas menos modernas ou mais modernas?
Quais são os principais problemas associados ao espaço rural?
Michel Woods (2005) sinaliza a existência de quatro amplas
abordagens utilizadas para caracterizar o espaço rural. A primeira
delas remete à descrição, para a distinção geográfica entre áreas
urbanas e rurais, baseando-se nas características socioespaciais
expressas por meio de dados estatísticos; a segunda está atrelada
aos aspectos socioculturais e procura identificar os territórios rurais
por meio de tais características, com a distinção entre os aspectos das sociedades urbanas e rurais; a terceira considera o rural como
lugar, ou seja, em como as estruturas locais interagem com os
processos econômicos e sociais globais; e, por fim, o rural é tomado
como representação social, que privilegia, na abordagem, os
símbolos, ou seja, os sinais e imagens pessoais que surgem quando
os indivíduos pensam sobre o rural. A ruralidade aparece como um
estado de espírito, como uma identificação com esse espaço. O
rural não está apenas associado às estatísticas, ele é caracterizado
pelas pessoas que nele vivem e pelo modo como elas se sentem
habitando esse espaço.
Dessa forma, o rural emerge como um espaço híbrido que
apresenta um complexo jogo de inter-relações com agentes naturais
e sociais e uma grande diversidade e dinamismo. No campo, são
inúmeras as interações espaciais e redes geográficas formadas
pelas empresas que integram os complexos agroindustriais
compostos por atores heterogêneos, como empresas, produtores
rurais e turistas. Esses atores encontram-se associados a uma
variada gama de caminhos, sobretudo com a valorização dos
patrimônios natural, histórico ou cultural.
Se admitirmos a possibilidade, no período atual, do hibridismo
para a caracterização do espaço rural, devemos buscar elencar
algumas de suas características. De acordo com Kayser (1996), Diry
(2004), Woods (2005) e Ferrão (2000), o espaço rural apresenta
baixa densidade populacional, predomínio da atividade agro-silvo-
pastoril (produção agropecuária e florestal), modo de vida de seus
habitantes caracterizado pelo pertencimento às coletividades, e uma
identidade fortemente marcada pela cultura camponesa. Porém,
essas não são as únicas características presentes nesse espaço,
uma vez que temos as atividades não agrícolas e outras ligadas à
indústria, ao comércio e a serviços, próximas às aglomerações
urbanas.
Devemos também ponderar sobre o papel do meio natural, o
papel da técnica, da herança histórica e da tradição, e sobre o papel
das grandes corporações que articulam o local e o global. Portanto,
é necessário analisar quais são suas funções e como agem as
grandes empresas em nível global e como suas estratégias globais
são estabelecidas localmente.
Concordamos com Jean (2007) quando este afirma que o espaço
rural não se reduz unicamente à atividade agrícola. A agricultura
não corresponde ao seu foco estruturante, pois este apresenta
novas relações, como, por exemplo, o crescimento do contingente
populacional em busca de vantagens comparativas, seja por meio
de empregos não agrícolas (vinculados ao setor industrial ou de
serviços), seja na busca de espaços residenciais. Assim, o espaço
rural, de uma função predominantemente agrícola, passa a
apresentar outras funções. Para Jean (2007), assistimos também,
no espaço rural brasileiro, ao renascimento do rural e de suas várias
funções.
Portanto, ao falarmos de rural e de transformações em curso,
estaremos necessariamente nos referindo ao processo de
urbanização (das ocupações não agrícolas, da expansão do
consumo e da acessibilidade). Em grande medida, identificamos,
assim, os espaços de lazer, de produção industrial e de “processos
de produção de valores simbólicos”, como informa Reis (2001, p. 7).
Ao estudar Portugal, esse autor aponta como principais
transformações a maior urbanização, o cosmopolitismo dos
comportamentos e a intensa relação com os mercados de trabalho.
Concordamos quando ele afirma que
parece claro que as mudanças no meio rural e a maior territorialização das
práticas socioeconômicas comportam uma mais intensa relação quer com
políticas públicas, quer com agentes externos (que seguem essas políticas).
Esta dupla abertura do espaço rural (a que lhe é trazida por agentes
externos que o procuram segundo novos interesses e novas lucratividades e
a que resulta da própria metamorfose dos agentes originariamente locais) é
com certeza o grande traço de novidade para o que aí vem. Resta, pois,
continuar a observar de que modo abertura e mudança geram novas
mudanças.
Dessa forma, os estudos e pesquisas sobre a segmentação em
turismo, inclusive no espaço rural, têm levado em conta aspectos
relacionados à oferta dos destinos e às motivações, ou seja, à
demanda turística, servindo tanto para observar interferências
socioculturais quanto a dinâmica desse setor.
No que se refere à tipologia da demanda turística, vemos o
esforço de Erik Cohen (Burns, 2002) para construir categorias
conforme as conexões mantidas pelos turistas com o território, em
especial, no que se refere às relações socioculturais que eles
experimentam nos destinos que visitam. Desse modo, os turistas
são considerados institucionalizados ou não, de acordo com o grau
de intermediação de suas viagens por operadoras e agências de
turismo. Essencialmente, tais estudos tomam por orientação os
níveis de suficiência presentes ou não nas trocas culturais entre
turistas e residentes, ou ainda certo envolvimento e interesse do
turista por elementos culturais do destino por ele visitado.
Barretto (2000) infere que as maiores interferências provocadas
no território seriam produzidas pelo padrão de turistas
institucionalizados ou de massa, preocupados, prioritariamente, em
ter uma experiência prazerosa. Estes seriam os que “preferem
praias ou hotéis de lazer, parques temáticos e áreas onde possam
divertir-se em contato com a natureza, com atividades físicas”, cuja
tendência é ter menos contato com a população local. Contudo,
o paradoxo desse tipo de turista [institucionalizado] é que provoca grandes
alterações na dinâmica da sociedade receptora, que se reflete em mudanças
nos usos e costumes, na divisão social do trabalho, no relacionamento
interpessoal, sobretudo no familiar, sem que haja contatos realmente
interativos com a população receptora. Esta última só tem visibilidade como
prestadora de serviços, e, por sua vez, o turista é visto pela população local
apenas como um fator de produção, um capital ambulante, um portador de
dinheiro com o qual tudo se comercializa, até o sorriso (p. 24).
No que se refere ao turista não institucionalizado, a autora
esclarece que, em número ainda pequeno, “são pessoas que
procuram um contato autêntico e íntimo com a população local,
fazendo questão de respeitar o modo de vida desta última, […]
adaptando-se facilmente à cultura local e são consumidores de um
estado de espírito e não de coisas materiais” (p. 24).
É, fundamentalmente, para esse último tipo de turista, o não
institucionalizado, que surgem cada vez mais subsegmentos, ou
propostas alternativas em turismo, do ponto de vista da oferta ou da
diversidade de temas que pode motivar o deslocamento de pessoas para fora do seu entorno habitual. Barretto (2000) mostra que, de
fato, existem ao menos cem diferentes espécies de turismo, de
acordo com critérios específicos (p. 19). Mas, de modo geral, pode-
se dizer que a busca pela experiência turística é fortemente
motivada por atrativos naturais ou culturais, relacionados esses
últimos a aspectos da história ou do cotidiano das comunidades
visitadas.
Segundo a Organização Mundial do Turismo (OMT) (2001), a
ampliação do turismo temático, ou seja, aquele que se organiza a
partir de determinados objetos para atrair e atender a nichos
específicos de demanda turística, tem sido influenciada pelo
surgimento de motivações cada vez mais especiais ou exclusivas
por parte dos turistas, não só por conta de necessidades de ordem
subjetiva, mas também em face de novos modelos de consumo da
experiência turística. Desse modo, o turismo temático tem sido
menos apropriado como alternativa socioeconômica para regiões
menos favorecidas, do que como estratégia para diferenciação de
produtos turísticos em relação a ofertas altamente competitivas.
Conforme a OMT (2001), o mote do turismo temático poderá
centrar-se em torno de um “personagem, jogo, tecnologia, costume,
espaço, conceito global, ficção”, destacando como principais temas
agregados ao turismo a cultura, a aventura, os negócios, o esporte,
a saúde, a natureza e o espaço rural (p. 130). Esses grandes eixos
podem, ainda, apresentar ramificações, assumindo a segmentação
turística grande importância em face de novas exigências de
demanda:
Atualmente a satisfação do consumidor é conseguida apenas com a
segmentação efetiva e uma grande variedade de ofertas e, para tanto, os
atrativos deveriam ser projetados para segmentos específicos. As velhas
soluções padronizadas não são mais viáveis nem para os turistas, nem para
os moradores da área onde se (OMT, 2001, p. 132).
Pires (2002), porém, vê a motivação como tema ainda carente de
maiores estudos e, no caso do turismo, sem respostas que ajudem
a compreender os impulsos das viagens, de tal sorte mesclados,
que muitas vezes mascarariam a principal razão do deslocamento.
Para o autor, essa é uma das maiores problemáticas presentes em alguns segmentos, como o turismo rural, por exemplo, respondendo
também pela dificuldade de que pesquisas possam melhor aferir a
balança comercial do setor.
Verbole (2002) esclarece que, de fato, “o Turismo Rural está
sustentado pela ‘percepção do imaginário’ […] e a imagem
associada ao segmento está permanentemente sendo
desconstruída e reconstruída, uma vez que está sujeita a diferentes
e complexos significados e interpretações” (p. 131). Por serem
impulsionados por motivos, expectativas e percepções diversas, os
turistas rurais estariam longe de serem considerados, nessa
perspectiva, um grupo homogêneo.
Para Talavera (2000), podem-se identificar ao menos dois grupos
tipológicos de turistas rurais: um com interesse na paisagem rural e
na prática de atividades desportivo-recreativas; outro que se deixa
encantar, em certa medida, pelas culturas dos locais que visita.
Também as diversas teorias sobre motivação não nos parecem
suficientes para identificar um só motivo que se destaque como
principal propulsor do turismo rural, ou um único e determinado
tema ou enredo que caracterize esse segmento.
Se as motivações humanas compõem uma teia de intrincados
interesses e necessidades, não podem ser consideradas de modo
descolado das situações em que são enredadas. Nesse sentido,
talvez seja mais adequado pensar os segmentos turísticos dentro do
contexto do espaço onde se dá a experiência turística, tendo por
cenário a dinâmica característica do turismo como fenômeno.
O embaraço dos conceitos
O turismo rural está definido pela OMT (2001) como o segmento
que se refere “a atividades que são feitas no campo, seguindo os
costumes e as tradições vividas em ambientes distantes das
cidades e áreas industrializadas, como povoados, sítios, etc.” (p.
129).
Tulik (2003) nos remete a uma discussão presente em vários
estudos sobre o turismo rural, informando que essa expressão vem
sendo empregada de modo extensivo a qualquer atividade turística no espaço rural e que se identifica no uso corrente com os termos
“Turismo no Espaço Rural e Turismo nas Áreas Rurais” (p. 9).
Como categoria que nos importa observar, embora alertados por
Santos (1978) de que espaço e território podem ser dotados de
diferentes significados historicamente distintos, flexíveis e mutáveis,
adotamos do autor a apreensão de que o espaço é um “campo de
forças” de formação desigual, revestido de certa autonomia, como
“resultado de uma práxis coletiva que reproduz as relações sociais”
(p. 171).
Abarcado como totalidade advinda dos processos e das relações
sociais do passado e do presente, o espaço geográfico é, nesse
sentido, organizado, produzido e reproduzido pelo homem e, em
última instância, pela sociedade. Desse modo, podem mudar as
formas e funções que ajudam a organizar e a conceber o espaço, ou
melhor, à medida que muda a sociedade, muda também o espaço
que dela resulta.
Essa vertente nos leva a pensar que, para se observar o turismo
no espaço rural, caberá pensar o espaço organizado pela sociedade
a partir de formas e funções que se vão definindo historicamente, no
passado e no presente, de modo processual e dinâmico.
Como segmento, embora haja uma tendência última para que o
turismo rural passe a representar apenas aquelas atividades ligadas
de modo mais estreito e efetivo ao conteúdo rural, a questão,
segundo Tulik (2003), torna-se sempre mais complexa,
principalmente em face das grandes dificuldades encontradas ainda
hoje na distinção entre espaço urbano e espaço rural.
Como mostra a referida autora, uma das questões controversas
diz respeito ao uso aleatório de vocábulos aplicados ao turismo rural
como se fossem sinônimos, mas cujos conceitos são específicos,
tais como área, espaço, zona e meio.
Um debate mais enleado se trava em relação aos critérios que
servem para delimitar o que seja urbano ou rural pela oposição e
confronto entre estes (atividades, funções e características de cada
uma dessas dimensões), pela verificação do tamanho e
características demográficas de zonas rurais ou urbanas ou pela
delimitação político-administrativa entre perímetro urbano e rural.
Embora haja uma crescente preocupação de muitos estudiosos do tema em procurar indicar com clareza tais limites, esta não se
mostra uma tarefa fácil, mas de linhas muito tênues.
O esforço para vencer a oposição entre urbano e rural remete aos
recortes que consideram ora a aglomeração de casas e pessoas
contraposta à habitação dispersa e difusa, ora a observação da
dimensão e características das populações residentes em uma área
urbana ou em uma área rural. Até mesmo as atividades
desenvolvidas nesses espaços chamados de urbano ou rural são
utilizadas à guisa de oposição, viés que ainda traz de modo
superficial a polêmica contraposição entre o que é rural e o que é
agrícola.
No campo do turismo segmentado, o nexo que se tenta
estabelecer pela delimitação do perímetro urbano/rural se faz ainda
mais perdido em virtude da eventual ampliação dos territórios
chamados urbanos, conforme pode autorizar ou não a autonomia do
governo municipal, tendo como pano de fundo a arrecadação de
impostos. É assim que Rodrigues (2003) argumenta que o sem
número de desmembramentos municipais ocorridos nos últimos
anos no Brasil provocaram, com autorização legal, a criação artificial
de pequenos centros urbanos com características eminentemente
rurais.
É o caso de loteamentos em áreas rurais, cujas superfícies das unidades de
desmembramento (lotes) estando abaixo do módulo rural são decretadas
como áreas urbanas, recebendo tratamento como tal, por meio de
implantação de infraestrutura urbana, o que vem justificar o pagamento de
tributos urbanos (p. 107).
Locatel (2013) reitera a arbitrariedade presente na definição do
que é o espaço urbano, ou da cidade, assim definido tão somente
pela área que se considera administrativa, sendo o campo
considerado apenas pelas relações sociais e de produção.
Conforme o autor, ambos, cidade e campo, seriam dois subespaços
orgânicos de uma mesma totalidade e lógica social. Há que se
discutir, ainda, a ideia de continuidade entre os territórios urbano e
rural, e, consequentemente, a possibilidade de que o mundo
contemporâneo esteja fadado a conviver com o hibridismo que faz
surgir diferentes graus de ruralidade.
Para Moreira (2002), a dimensão do território ganha destaque
nesse debate, na medida em que o espaço rural incorpora
elementos simbólicos e materiais que seriam urbanos. Essa relativa
maleabilidade conceitual favoreceria, de tal modo, a agregação de
atributos econômicos aos conceitos, que podem servir a indicadores
que justifiquem iniciativas enredadas pelo poder hegemônico.
Na perspectiva de Raffestin (1993), território é o espaço onde o
trabalho se realiza, gerando energia ou informação, ou seja, eivado
de manifestações de poder, de tal modo que, ao se apropriar de um
espaço, o ator estará territorializando o mesmo. Já Santos (1996)
entende o território a partir de seus usos, da associação de
identidade criada pelo sentimento de pertencer a este ou de
exercitar a vida social, cultural, afetiva, material e espiritual. De todo
modo, esses são olhares que ajudam a aprofundar a reflexão sobre
os limites improváveis entre o urbano e o rural.
No caminho de superar essa dicotomia rural-urbano, Teixeira e
Lages (1997) chamam a atenção para o fato de que o termo rural
não estaria restrito tão somente a questões de localização, como na
oposição campo-cidade, mas revestir-se-ia de caráter particular
relacionado à terra e aos modos de se relacionar com aquele
espaço. O rural não estaria, portanto, subordinado ao urbano,
gozando de certo status e expandindo-se para além das atividades
agrícolas ou para a pluriatividade, marcando, assim, uma “nova”
ruralidade.
Rua (2005) lembra que a proposta de existência das “novas
ruralidades” aceita a possibilidade de que o rural e o urbano
convivam no mesmo espaço. Reforça, assim, que a presença de
urbanidades no meio rural não seria por si só suficiente para
transformar o cotidiano rural em cotidiano urbano. Tampouco essas
áreas híbridas dão a se distinguir por vezes como urbanas ou rurais,
ainda que quase sempre sejam marcadas por uma grande
assimetria, em que o urbano se destaca como dominante.
Rodrigues (2003) alerta, inclusive, sobre as artificialidades que
serviriam para confundir ainda mais o mundo rural e o mundo
urbano, considerando a presença ou não de certas modernidades
nesses espaços, já que ambos estariam irremediavelmente marcados, na atualidade, pelos avanços da ciência, da técnica e da
informação, em maior ou menor escala.
Uma das fortes marcas dessa nova ruralidade, para Silva (2011),
é a pluriatividade, que combina atividades agrícolas e não agrícolas,
uma vez que o espaço rural pode servir de palco para práticas
diversas e não necessariamente ligadas à produção de alimentos,
tal como mostram os diversos segmentos do turismo em contato
com a natureza e a vida no campo.
Marafon e Ribeiro (2006) apontam o turismo rural como
alternativa para os agricultores familiares que buscam
complementar a renda empregando a sua força de trabalho em
pluriatividades, ou seja, em empregos temporários em hotéis-
fazenda, spas rurais e casas de segunda residência. Nesse caso, a
pluriatividade não se apresentaria como fenômeno conjuntural, mas
como consequência da transformação da agricultura e da
reestruturação econômica forjada pelo modelo capitalista.
Para Cunha (apud Tulik, 2003, p. 23), a referência ao rural não
pode prescindir de levar em conta as características sociais,
culturais e ambientais inerentes a esse termo:
Neste contexto, a zona rural será aquela cujas atividades econômicas
tenham uma base agrária e florestal, com atividades agrícolas e florestais,
além da pecuária e produtos derivados; deve caracterizar-se pela existência
da vida natural e selvagem, em que a produção industrial seja esporádica e a
cultura e as tradições se identifiquem, fortemente, com o ambiente e com as
forças da natureza.
Rodrigues (2003) reforça essa premissa ao afirmar que “o
Turismo Rural estaria correlacionado a atividades agrárias,
passadas e presentes, que conferem à paisagem sua fisionomia
nitidamente rural” (Rodrigues, 2003, p. 103).
Nesse ponto, entra em pauta, ainda, o hibridismo paisagístico
insistente de algumas localidades que embaça o olhar sobre o que é
rural ou ecológico, levando alguns autores à adoção do termo
turismo “ecorrural” em seus encaminhamentos.
Em referência à paisagem, Pires (2003) lembra que o turismo é
motivado, fundamentalmente, pela quebra da rotina e que esta é assegurada pela mudança física de lugar – constatação que se dá
pela alteração da paisagem.
Ao apresentarem estudos sobre as abordagens geográficas da
paisagem, Britto e Ferreira (2011) sinalizam a ausência de avanços
conceituais que extrapolem os elementos “da visão, do belo, do
afetivo, do físico ou do cultural”, ou mesmo que integrem campo e
cidade, do ponto de vista de suas paisagens, como constitutivas de
um “espaço geográfico globalizado” (p. 9).
No esforço de esclarecer o que viria a ser a paisagem rural, Pires
(2003) lança mão dos vieses da topografia e do uso do solo, e inclui
em sua análise o conceito de paisagem “humanizada” como
“produto social, o resultado de uma transformação coletiva da
natureza; a projeção cultural da sociedade num determinado
espaço” (p. 127). A combinação de variados elementos remeteria,
então, a duas subtipologias básicas da paisagem rural: a paisagem
campestre e a paisagem cultivada, lembrando que outros
componentes poderão ser agregados como típicos do meio rural na
configuração cênica da sua paisagem, tais como:
[…] povoados e vilarejos isolados, estradas e caminhos de terra, cercas e
divisores (de vegetação, pedra ou aramado), pontes e passagens rústicas,
açudes, rodas d’água (de moinhos, alambiques), estábulos, mangueiras,
galpões, templos religiosos, cemitérios, estalagens e armazéns de beira de
estrada, escolas isoladas, fornos de carvão, estufas, etc. (Pires, 2003, p.
126).
Consoante a edição em 2004 das Diretrizes para o
Desenvolvimento do Turismo Rural (Ministério do Turismo), o rápido
e ainda desordenado crescimento dessa atividade no Brasil vem
gerando uma “profusão de entendimentos” que se têm confundido
com múltiplas concepções e denominações, tais como: agroturismo,
ecoturismo, turismo de interior, turismo no espaço rural, alternativo,
endógeno, verde, campestre, agroecoturismo e ecoagroturismo.
Teixeira e Lages (1997) ratificam que o espaço agrário ou agrícola
seria uma das atividades ou especificidades do rural.
Buscando lançar luz à questão, o Ministério do Turismo (2004)
apresenta nas Diretrizes a definição do Turismo no Espaço Rural “como um recorte geográfico, onde o Turismo Rural está inserido”,
adotando para aquela expressão o conceito que compreende:
todas as atividades praticadas no meio não urbano, que consistem de
atividades de lazer no meio rural em várias modalidades definidas com base
na oferta: turismo rural, agroturismo, turismo ecológico ou ecoturismo,
turismo de aventura, turismo de negócios, turismo de saúde, turismo cultural,
turismo esportivo, atividades estas que se complementam ou não (Graziano
da Silva et al. apud Ministério do Turismo, 2004, p. 11).
Nessa lógica, estariam incluídos como atividades no meio rural os
serviços de hospedagem e alimentação, a visita a propriedades
rurais, as atividades de entretenimento ou pedagógicas
desenroladas no contexto rural, assim como quaisquer outras
atividades turísticas praticadas no meio rural que se constituam em
motivo de visitação (Ministério do Turismo, 2004, p. 12).
Campanhola e Graziano da Silva (1999) detalharam ainda mais,
em outra oportunidade, o que compreendem como “turismo no meio
rural”:
atividades de lazer no meio rural em várias modalidades definidas com base
na oferta: turismo rural; turismo ecológico ou ecoturismo; turismo de
aventura; turismo de negócios; turismo cultural; turismo jovem; turismo
social; turismo de saúde; e turismo esportivo. Nesse conceito incluem-se, por
exemplo, os ‘spas’ rurais; os centros de convenções rurais; os locais de
treinamento de executivos; os parques naturais para atividades esportivas;
as caminhadas; as visitas a parentes e amigos; as visitas a museus, igrejas,
monumentos e construções históricas; os festivais, rodeios e ‘shows’
regionais, as visitas a paisagens cênicas e a ambientes naturais; a
gastronomia regional; os ‘campings’, as colônias de férias, os hotéis-
fazenda, 8 9 as fazendas-hotéis, os esportes da natureza, como canoagem,
alpinismo, pesca, caça; chácaras de recreio e condomínios rurais de
segunda moradia, entre outros (pp. 14-5).
Quanto ao turismo rural, este é o conceito apresentado pelo
Ministério do Turismo (2004) e que, de modo geral, sustenta a
posição da Embratur em 1998, cujo cunho mercadológico é
apontado por Silveira (2003) como o “conjunto de atividades
turísticas desenvolvidas no meio rural, comprometido com a
produção agropecuária, agregando valor a produtos e serviços, resgatando e promovendo o patrimônio cultural e natural da
comunidade” (Ministério do Turismo, 2004, p. 11).
Finalmente, cabe dar destaque ao termo agroturismo, que, no
nosso entendimento, torna as teias da categorização do turismo no
espaço rural ainda mais intrincadas, como vemos:
[O agroturismo] compreende as atividades internas à propriedade, que
geram ocupações complementares às atividades agrícolas, as quais
continuam a fazer parte do cotidiano da propriedade, em menor ou maior
intensidade. Devem ser entendidas como parte de um processo de
agregação de serviços e bens não materiais existentes nas propriedades
rurais (paisagem, ar puro, etc.) a partir do ‘tempo livre’ das famílias agrícolas,
com eventuais contratações de mão de obra externa (Graziano da Silva et al.
apud Ministério do Turismo, 2004).
Graziano da Silva (apud Campanhola e Graziano da Silva, 2003,
p. 14) cita como exemplos de agroturismo “a fazenda-hotel, o
pesque-pague, a fazenda de caça, a pousada, o restaurante típico,
as vendas diretas do produtor; o artesanato, a industrialização
caseira e outras atividades de lazer associadas à recuperação de
um estilo de vida dos moradores do campo”.
Para alguns autores, o agroturismo seria uma subdivisão do
turismo rural e teria como princípios norteadores a interligação com
atividades inerentes à propriedade (agrícolas ou pecuárias), o
objetivo de complementação de renda familiar por via da atividade
turística, a gestão familiar (com presença obrigatória do
proprietário), o alojamento de turistas na propriedade, a venda de
produtos locais, a experimentação de atividades da propriedade e o
contato estreito do turista com o meio rural (Tulik, 2003, pp. 38-9).
Tulik (2003), entretanto, admite que “na prática, outros tipos de
turismo rural assimilaram as características do agroturismo, e que
esse tipo de turismo, considerado por alguns como o mais fácil de
ser compreendido, desviou-se de alguns desses objetivos” (p. 39).
Rodrigues (2003) traz uma reflexão interessante sobre o “lazer
periurbano” e o “turismo periurbano”, lançando a questão sobre “a
relação do proprietário ou do empreendimento com o entorno onde
a atividade se realiza” (p. 106). A autora espera que a resposta defina o real vínculo histórico ou afetivo presente na atividade, ou se
esta seria apenas de cunho comercial.
No caso da compra de um terreno e a posterior construção de um lago para
pesque-pague, restaurante, lanchonete, sem nenhum vínculo paisagístico ou
afetivo com o lugar, em que o proprietário nem reside no local e quase tudo
está a cargo de empregados, ao nosso ver trata-se de um empreendimento
que, apesar de se localizar fora do perímetro considerado urbano pouco se
caracteriza pela ruralidade. Nem mesmo as relações de trabalho são
específicas do mundo rural. O proprietário pode residir na cidade. Os
funcionários são também urbanos e/ou terceirizados, podendo ser recrutados
por uma empresa, recebendo sob o regime de comissão pelo valor
arrecadado (p. 106).
Prosseguindo nessa discussão, Rodrigues (2003) lembra os
casos em que espaços antes essencialmente rurais foram
modificados com o tempo e que provocaram, consequentemente, a
transformação ou o abandono de certas instalações que perderam a
utilidade e cita o exemplo de antigos haras que, adaptados,
passaram a ser alugados para festas de casamento. Mais
complicados para aquela autora seriam os casos de propriedades
localizadas em zonas periurbanas e que nunca tiveram cunho rural,
também bastante usadas para servir a festas de caráter urbano. A
rigor, tais atividades sequer poderiam ser caracterizadas como
turísticas e se constituiriam no que chama de “lazer periurbano” (p.
106).
Por outro lado, Rodrigues (2003) lembra a existência de espaços
urbanos que tentam reconstruir o meio rural para fins pedagógicos,
ou mesmo com o objetivo de proporcionar entretenimento e
recreação, a exemplo da “fazendinha” do complexo Beto Carrero, no
bairro do Brooklin, em São Paulo.
Nessa reedificação do rural, encontram-se também os eventos
organizados em espaços nitidamente urbanos, como mostra a
referida autora:
Está havendo um tipo de lazer e/ou de turismo rural às avessas, ou seja, a
cultura rural colonizando o espaço urbano, como um resgate das tradições
rurais que foram obliteradas com a cultura urbana. […] O fato é que
atualmente há uma tendência de valorização da cultura chamada de
tradicional, um movimento retrô. […] Trata-se de um fato que caracteriza os
países centrais do capitalismo onde o fenômeno urbano torna-se cada vez
mais expressivo e fonte geradora de estresse. Assim, parece que com a
influência do modismo country norte-americano estratos da população
urbana brasileira, na sua maioria jovem, passam a aderir à referida moda. Os
festejos rurais invadem a cidade, onde muitos clubes, alguns já no perímetro
urbano convencionalmente estabelecido, se dedicam a bailes country. Esses
festejos que tradicionalmente aconteciam em junho – as festas juninas –
ganham nova dimensão. Multiplicam-se os espaços para leilões de gado,
feiras e exposições, rodeios e outras atividades de cunho rural. O evento
mais conhecido no Brasil é a festa do peão em Barreiros (Rodrigues, 2003,
p. 108).
A complexidade do tema se estende, na observação da autora,
sobre o novo “turismo rural de cunho acadêmico”, que inclui a
hospedagem de turistas em campus universitários e aulas teóricas e
práticas dessa modalidade. Ela cita, ainda, a experiência do
Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), cujos membros
alojam congressistas em acampamentos para ministrarem palestras
e cursos, que atraem inclusive visitantes de outros países do Cone
Sul.
Conforme as Diretrizes para o Desenvolvimento do Turismo Rural
(Ministério do Turismo, 2004), que tanto acata o termo turismo rural
quanto o de agroturismo, o que importa é que a atividade turística
seja cuidada
[…] de modo integrado e participativo, sempre considerando os arranjos
produtivos de cada território, a fim de fortalecer os laços comunais e vicinais,
reforçar a coesão social, a cooperação produtiva e a valorização dos
elementos naturais e culturais, respeitadas as singularidades, com vista aos
benefícios para as comunidades (p. 15).
Há tantas concepções do turismo rural, como corrobora Portuguez
(2005), quanto há espaços rurais diferentes, o que nos leva a
pensar em abordagens e reflexões conforme a linha de observação
que nos irá guiar. De qualquer modo, parece fundamental não se
precipitar na associação fácil de imagens já conhecidas, tomando-se
o cuidado com as necessárias distinções de forma e função, como
sugere o autor:
Pensar o meio rural significa lembrar desertos, geleiras, áreas florestadas,
montanhas, campos altamente mecanizados, campos cultivados no regime
de subsistência, áreas ricas em castelos medievais, áreas onde o camping é
a única possibilidade de pernoite, entre muitos outros exemplos. Em outras
palavras, não se deve vincular a reflexão sobre o turismo rural com a
imagem de ruralidade imediata que comumente se faz a partir do mundo
rural que se conhece (p. 579, grifos do autor).
No que se refere à segmentação do turismo, de modo geral, as
tendências apontam para a necessidade de revisão de paradigmas
diante de um turista diferente do modelo ao qual se acostumaram os
destinos receptivos (Panosso Netto e Ansarah, 2009). Em face de
tantas nuances que abarcam as reflexões sobre o turismo rural, tais
tendências parecem fortalecer ainda mais o desafio não só na
percepção do perfil dos turistas rurais como sujeitos diversos, mas
também, principalmente, em estabelecer novas referências teóricas
e práticas no setor.
Considerações finais
O desenvolvimento de atividades turísticas em espaço rural está
associado ao processo de urbanização que ocorre na sociedade e
no transbordamento do espaço urbano para o espaço rural, segundo
Graziano da Silva (1997). Para esse autor, “novas” formas de
ocupação passaram a proliferar no campo, entre elas são
destacadas: o conjunto de profissões tidas como urbanas
(trabalhadores domésticos, mecânicos, secretárias etc.); moradias
de segunda residência; atividades de conservação; áreas de lazer
(hotéis-fazenda, fazenda-hotéis, pesque-pague etc.). Essas “novas”
atividades demandaram um número crescente de pessoas para dar
sustentação à expansão das atividades turísticas em espaço rural.
Diante disso, qualquer abordagem sobre o turismo rural deve
considerar, a título de alguma segurança, o espaço como
construção social, coletiva, em uma dinâmica que resulte em
promoção social e cultural. Nesse aspecto, as dimensões do global
e do local precisam ser também apreciadas.
Assim, de posse do entendimento de que os territórios podem ser
modificados pela utilização da técnica e de que os espaços são
valorizados em razão de fatores políticos, econômicos, sociais e
culturais é que podermos refletir sobre a possibilidade de que todos
os espaços possam vir a ser do turismo, sem que nenhum espaço
turístico venha a ter sentido por si só, sem contexto.
Há que se identificar critérios que possam definir propriedades,
empreendimentos e atividades relacionadas ao segmento, mas
considerando diferentes níveis de ruralidade, conforme orienta
Rodrigues (2000). A partir de um arcabouço nesses termos, pode-se
avançar investigando potencialidades locais e regionais sobre o
segmento, de tal modo que algumas experiências possam guardar
parâmetros de comparação e aprendizagem para novos ensaios.
O turismo em espaço rural se afirma como mais uma alternativa
que se coloca para os agricultores familiares venderem sua força de
trabalho e complementarem sua renda, reforçando o caráter
pluriativo das unidades familiares de produção e sua inserção no
processo de produção do espaço. De acordo com Lefebvre (1999),
estaríamos sob o signo de uma sociedade urbana, e essa
urbanização estruturaria o território, o que Santos (1993) aponta
como passagem da urbanização da sociedade para a urbanização
do território. A prática do turismo rural contemporâneo refletiria essa
prática, uma vez que os hotéis fazenda, spas rurais e casas de
segunda residência se localizam, preferencialmente, próximas às
grandes concentrações urbanas.
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