Estudos Territoriais no Brasil e na Costa Rica
2. O setor sucroenergético no Brasil: efeitos e contradições
2. O setor sucroenergético no
Brasil: efeitos e contradições
Patrícia Francisca de Matos, Gláucio José Marafon
Introdução
O Brasil tornou-se, há quase duas décadas, um importante
produtor e consumidor de biocombustíveis como alternativa
energética, com destaque para o etanol produzido a partir da cana-
de-açúcar. A necessidade de substituição dos combustíveis fósseis
por “combustíveis mais limpos” conferiu uma posição de destaque
ao etanol brasileiro. Com o mercado promissor, o Brasil tem visto
um crescimento das monoculturas de cana-de-açúcar para
abastecer o setor sucroenergético para produção de açúcar, álcool
anidro (aditivo para gasolina), álcool hidratado e cogeração de
energia (produzida pelo bagaço da cana).
No início do século XXI, ocorreu uma expansão acelerada da
cultura da cana no território brasileiro devido ao projeto dos
biocombustíveis, que a colocou como a principal opção na produção
de álcool, criando novas paisagens, novas formas de produção, e
modificando os usos do território, especialmente de oito estados
brasileiros.
Para aprofundar a análise, tomaremos como exemplo o avanço
do setor sucroenergético no estado de Minas Gerais,
especificamente no Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba. Esse estado,
no contexto da política de incentivos por parte do governo federal
para expansão da produção dos biocombustíveis, teve um aumento
significativo no volume produzido a partir de 2000. Cerca de 9% das
78 milhões de toneladas no Brasil, em 2016, foi produzida em Minas
Gerais e, destes, 6%, produzidas no Triângulo Mineiro/Alto
Paranaíba. Sendo assim, o presente texto traz uma reflexão acerca do setor sucroenergético no Brasil e em Minas Gerais, com atenção
especial para as formas de acesso à cana-açúcar. Para tal, a
metodologia pautou-se em revisão teórica e abordagem qualitativa,
com levantamento de dados em fontes primária e secundária.
A produção de cana-de-açúcar no
Brasil
A produção de cana-de-açúcar iniciou-se no Brasil na época em
que o país ainda era colônia e constituiu, por quase dois séculos, a
principal atividade econômica do país. Em razão das condições
climáticas e do solo fértil, a cultura da cana-de-açúcar propagou-se
pela região Nordeste, despontando como grande centro produtor de
açúcar do país.
Após mais de quatro séculos, o cultivo da cana, que teve como
principal finalidade a produção de açúcar, passou também a servir
como matéria-prima para a produção de álcool, ganhando destaque
como uma alternativa de combustível em nível mundial. A produção
do álcool de cana-de-açúcar ocorreu devido à crise do petróleo,
mais importante fonte de energia utilizada no mundo. Esse novo
cenário produtivo da cana no Brasil consolidou-se por meio da
extensão territorial, clima favorável e políticas públicas com o intuito
de aumentar a produção canavieira.
Das políticas públicas instituídas, a principal foi a criação do
Proálcool (Programa Nacional do Álcool), em 1975, considerado um
dos maiores programas mundiais de energia renovável. Este tinha o
desígnio de estimular o crescimento da produção de cana para a
fabricação do álcool, visando a atender às necessidades dos
mercados interno e externo. Assim, essa atividade deveria ser
incentivada por meio da expansão da oferta de matérias-primas,
com ênfase no aumento da produção agrícola, da modernização das
usinas existentes e da instalação de novas unidades produtoras.
Concomitantemente, as indústrias automobilísticas realizaram
adaptações técnicas para que os carros pudessem funcionar com o álcool. Uma década após a instituição do Proálcool, cerca de 90%
dos automóveis leves produzidos eram movidos a álcool.
É nesse contexto que as áreas ocupadas com cana-de-açúcar se
expandiram por várias regiões do território brasileiro. Esse
crescimento ocorreu tanto no Nordeste (região tradicional na
produção de cana) como em novas áreas, como na região Sudeste
(conforme tabela 1), que, em dez anos, teve um aumento de
101.232.152 toneladas, cerca de 224%. O Sudeste brasileiro foi a
região que apresentou o maior crescimento, constituindo-se
disparadamente, desde a década de 1975, como o maior produtor.
Thomaz Júnior (2002) afirma que, na primeira etapa do programa
(1975 a 1979), o estado de São Paulo ficou com a maior parte dos
recursos, algo em torno de 35%. Como consequência, este se
consolidou, efetivamente, na produção sucroalcooleira, tornando-se
o maior produtor de cana-de-açúcar, dominando, desde a década de
1980, a metade da produção nacional. Além disso, o estado de São
Paulo concentra, aproximadamente, 45% das usinas do país.
Tabela 1: Produção (t) de cana-de-açúcar no Brasil e nas regiões
(1975-2000)
Região 1975 1985 1995/6 2000
Norte 183.099 281.366 182.753 915.508
Nordeste 31.130.630 62.624.054 47.075.814 58.856.00
Sudeste 45.432.287 146.664.439 173.073.683 217.208.153
Sul 2.815.269 12.327.580 20.197.769 24.659.973
Centro- 423.915 7.984.595 19.276.684 24.481.317
Oeste
Brasil 79.985.200 229.882.034 259.806.703 326.121.011
Fonte: IBGE − Censo Agropecuário de 1975, 1985, 1995/6 e
Produção Agrícola Municipal (PAM) de 2000. Org: Matos, 2018.
A alta produção de álcool, como alternativa de combustível
renovável, durou, em média, quinze anos. Logo, entrou em declínio
devido à opção das usinas por produzirem mais açúcar em
detrimento do álcool, porque houve o aumento do preço do açúcar no mercado mundial e a queda do preço do petróleo, além da
diminuição de subsídios do governo e problemas técnicos nos
veículos movidos a álcool.
Após a estagnação do Proálcool, da produção de álcool e da
fabricação de veículos movidos a esse combustível, emergiu, no
início do século XXI, a fase dos biocombustíveis. Essa nova fase é
um movimento comandado pelo governo e também pela iniciativa
privada tanto nacional quanto internacional. Novamente, a cana-de-
açúcar se tornou a principal fonte de energia da matriz energética.
Especificamente, no que se refere ao aparato do Estado, tem-se
incentivado a produção agrícola por meio de financiamentos,
sobretudo de recursos do BNDES (Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social) e isenções fiscais para a
instalação de usinas. Concomitantemente, houve o aumento da
fabricação dos automóveis flex fuel, ou bicombustíveis, cujo motor
tem sensores que reconhecem os teores da mistura (gasolina e
etanol) e se ajustam automaticamente. Com isso, o mercado do
etanol viu seu espaço crescer. De acordo com dados da Associação
Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (ANFAVEA), em
2016, do total de licenciamentos de veículos leves no Brasil, 88%
foram flex fuel.
A expansão do setor sucroenergético no Brasil confere a este,
junto com os Estados Unidos, a responsabilidade por mais da
metade da produção mundial de etanol. A principal matéria-prima
utilizada nos Estados Unidos para a fabricação de etanol é o milho,
enquanto, no Brasil, é a cana-de-açúcar, considerada uma das
alternativas para o setor de biocombustíveis em razão de seu
potencial na produção de etanol e subprodutos. Além do etanol e do
açúcar, produz energia para suprir as demandas desse processo e
vende o excedente para as companhias energéticas.
Assim, ocorre uma acelerada expansão territorial do setor
sucroenergético para as áreas do Cerrado, de forma mais
acentuada, para a região Centro-Oeste (tabela 2), que passa de
uma produção de 37.430.571 toneladas para 142.219.652. A região
Sudeste continua em plena expansão, dobrando a produção de
2005 para 2016. É importante ressaltar que, nesse ínterim, os
avanços tecnológicos permitiram o aumento da produtividade e a expansão da cultura para novas áreas. O desenvolvimento de
pesquisas para o melhoramento genético da planta e a fertilização
do solo, entre outros atributos agronômicos e biológicos,
contribuíram para os ganhos na produtividade, que passaram de 46
toneladas por hectare, na década de 1970, para 79 toneladas por
hectare três décadas depois. Ou seja, quase duplicou o rendimento
por hectare.
Tabela 2: Produção (t) de cana-de-açúcar no Brasil e nas regiões
(2005-2016)
Região 2005 2010 2015 2016
Norte 1.085.211 2.071.620 4.371.436 4.581.321
Nordeste 60.874.754 68.789.726 61.546.275 55.698.720
Sudeste 291.991.211 498.884.508 499.677.593 517.577.172
Sul 31.227.899 50.287.913 48.587.170 48.601.517
Centro-37.430.571 97.430.026 136.107.803 142.219.652
Oeste
Brasil 422.956.646 717.463.793 750.290.277 768.678.382
Fonte: IBGE − Produção Agrícola Municipal (PAM). Org: Matos,
2018.
No que se refere à espacialização por estados, no ano de 2016,
em primeiro lugar, temos São Paulo, que cultivou 5.590.586
hectares, atingindo 442.282.329 toneladas; em segundo, o estado
de Goiás, com 931.614 hectares e 71.061.922 toneladas; em
terceiro, Minas Gerais, com 911.614 hectares e 69.934.887
toneladas; em quarto, Mato Grosso do Sul, com 658.282 hectares e
51.927.246 toneladas; em seguida, o Paraná, com 656.429 hectares
e 46.466.596 toneladas; Alagoas, com 31l.641 hectares e 18.982.
504 toneladas; Mato Grosso, com 280.191 hectares e 19.209.764
toneladas; e Pernambuco, com 260.195 hectares e 13.421,235
toneladas, conforme ilustra o mapa 1. Esses oito estados são
responsáveis por 94% da produção nacional. Os outros estados
possuem áreas menores, totalizando, cerca de 6% da produção do
país.
Mapa 1: Brasil: produção de cana-de-açúcar (toneladas) em 2016
Fonte: Produção Agrícola Municipal (PAM) – IBGE, 2016.
No discurso do governo e dos defensores dos biocombustíveis a
partir da cana, consta que as suas vantagens não estão apenas no
meio ambiente, mas também na geração de emprego e renda e,
consequentemente, no desenvolvimento social e econômico do
país. Mais uma vez, na história brasileira, o Estado investe numa
atividade que está em curso no mundo com o discurso do
desenvolvimento, e agora com um fato novo: a questão ambiental.
Os defensores da agroenergia argumentam que ela emite menos
gases poluentes na atmosfera. No entanto, se tomarmos apenas o
combustível, depois que está no tanque dos veículos, não será
considerado o processo produtivo assentado na monocultura, que
utiliza agrotóxicos e fertilizantes. Além disso, a expansão desse
setor não se deve a razões ambientais, pois eles não estão preocupados com o meio ambiente ou com o futuro do planeta, mas
com a expansão do capital. Bombardi e Garvey (2016) mencionam
que três cultivos, soja, milho e cana, convergem 67% de todo o
agrotóxico comercializado no Brasil.
Castillo (2009) aponta várias implicações da expansão da cultura
da cana no Brasil: a substituição de culturas e ocupação de áreas
de pastagens; a oligopolização do setor, com aquisições e fusões de
grupos nacionais; a política agressiva de arrendamento de terras por
parte das usinas (desestabilizando práticas pretéritas de pequenos
produtores); e um amplo conjunto de políticas públicas que viabiliza
a expansão do parque de usinas (o que inclui crédito do BNDES,
incentivos fiscais, investimentos em logística etc.). Do mesmo modo,
o setor sucroenergético provoca muitos efeitos sociais, como a
concentração de terras e capitais, impactos na produção de
alimentos, especialização produtiva local/ regional e impactos
ambientais, muitos, irreparáveis a curto prazo.
Os usos do território pelo setor
sucroenergético em Minas Gerais
A expansão do setor sucroenergético no território brasileiro é
pautada na dinâmica da agricultura científica e globalizada. Os
municípios que estão direta ou indiretamente ligados à produção da
cana transformaram-se em lugares de produção que atendem aos
interesses do capital. E esse processo exige o entendimento das
formas de apropriação do território. Para Santos e Silveira (2001), o
estudo do território deve partir da análise do seu uso.
O território usado permite compreender a nova materialidade, que se
manifesta na emergência de macroformas espaciais, as quais estão
presentes nas novas formas de regionalização, nas cidades globais, nos
movimentos de reestruturação produtiva, no gigantismo da expansão do
agronegócio, na escala alcançada pelo mercado e na difusão de ordens
através das redes técnicas (Bernardes, 2015, p. 4).
O setor sucroenergético, por meio da expansão da produção da
cana, afeta não somente as relações econômicas, como também as
relações sociais, políticas e culturais do território e uma nova
dinâmica da relação capital e trabalho.
O estado de Minas Gerais consolidou-se como um dos maiores
produtores de cana-de-açúcar do país, resultado da implantação de
diversas usinas no seu território, com destacada importância para o
Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba. Em razão dos aspectos físicos,
somados à infraestrura da logística e aos incentivos
governamentais, tem contribuído para a expansão da produção de
cana, firmando-se como uma região estratégica e apropriada para
investimentos de grupos nacionais e estrangeiros do setor
sucroenergético. No ano de 2016, contava com 23 usinas das 42
existentes no estado (Nova Cana, 2017).
Santos e Silveira (2001) afirmam que as grandes empresas usam
de modo seletivo o território, pois escolhem e hierarquizam os
espaços mais viáveis para uma produção competitiva. O Triângulo
Mineiro/Alto Paranaíba, sobretudo a partir de 2000, passou por nova
dinâmica de produção da cana-de-açúcar, podendo ser considerada
como uma das regiões competitivas do setor sucroenergético. Para
Castilho e Frederico (2010), a região competitiva é a expressão
geográfica da produção na era da globalização.
Os dados apresentados no gráfico 1 indicam que a área plantada
de cana no estado de Minas Gerais passou de 292.751 hectares, no
ano de 2000, para 911.614 hectares, em 2016. Dos 911.614
hectares de área plantada de cana em Minas, 637.268 ficam no
Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba, colaborando, no referido ano, com
70% da área plantada do estado. Além do etanol e do açúcar, é
gerada energia por meio dos resíduos do bagaço. Minas Gerais
produz em média 20 mil gigawatts/hora/ano, conforme informações
da SIAMIG (2016).
Gráfico 1: Área plantada (ha) de cana-de-açúcar em Minas
Gerais e na mesorregião do Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba (anos
selecionados)
Fonte: Produção Agrícola Municipal (PAM) – IBGE, 2018.
Org: Matos, 2018.
Resultado da área plantada, a produção da cana-de-açúcar no
Triângulo Mineiro foi de 10.076.488 toneladas, tendo atingido
50.331.762 toneladas em 2016, o que trouxe uma contribuição de
72% do total produzido no estado, ou seja, é uma produção
territorialmente muito concentrada (mapa 2).
Mapa 2: Produção de cana-de-açúcar nas mesorregiões de Minas
Gerais – Brasil (2016)
Fonte: Produção Agrícola Municipal (PAM) – IBGE, 2018.
À medida que ocorre a expansão dos canaviais, acontece o
inverso com a produção de arroz e feijão, importantes alimentos
para os mineiros e os demais brasileiros. Pelos dados do gráfico 2,
observa-se que, em 2000, a região produzia 25.596 hectares de
arroz e 23.199 de feijão. O arroz, ao longo dos anos, foi diminuindo,
chegando a 2016 com apenas 161 hectares de produção. Já o feijão
passou para 40.544 em 2016. Somando as duas culturas, no ano de
2016, representaram 6% da área ocupada pela cana-de-açúcar. A
reestruturação produtiva é evidenciada e identificada nos dados e
na própria paisagem.
Gráfico 2: Área plantada (ha) de cana-de-açúcar em Minas
Gerais e na mesorregião do Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba (anos
selecionados)
Fonte: Produção Agrícola Municipal (PAM) – IBGE, 2018.
Org: Matos, 2018.
Em Minas Gerais, o acesso à produção da cana-de-açúcar do
setor sucroenergético tem ocorrido em terras próprias, fornecedores,
arrendamento e parceria agrícola. Os contratos de arrendamento e
parceria estão previstos no Estatuto da Terra, Lei n.º 4.504, de 1964.
Conforme o art. 3.º desse Estatuto e o Decreto n.º 59.566/66
(Brasil, 1966):
Arrendamento é o contrato agrário em que uma pessoa se obriga a ceder a
outra, por tempo determinado ou não, o uso e o gozo do imóvel rural, parte
ou partes do mesmo, incluindo ou não benfeitorias ou facilidades, com o
objetivo de nele ser exercida atividade de exploração agrícola, pecuária,
agroindustrial, extrativista ou mista, mediante certa retribuição ou aluguel,
observados os limites percentuais da lei.
Sobre a parceria, o Estatuto e o art. 4.º do referido Decreto
estabelecem que:
Parceria rural trata-se do contrato agrário pelo qual uma pessoa se obriga a
ceder a outra, por tempo determinado ou não, o uso específico de imóvel
rural, de parte ou partes do mesmo, incluindo, ou não, o uso específico de
imóvel rural, de parte ou partes do mesmo, incluindo ou não benfeitorias,
outros bens ou facilidades, com o objetivo de nele ser exercida atividade de
exploração agrícola, pecuária, agroindustrial, extrativa de matéria-prima,
mediante partilha de riscos de caso fortuito e de força maior do
empreendimento rural e dos frutos, produtos ou lucros, havidos nas
proporções que estipularem, observados os limites percentuais da lei.
No contrato de parceria, o proprietário compartilha os riscos e
prejuízos da produção porque o valor do contrato não é fixo, como
no arrendamento:
É estabelecido que os riscos da atividade devem ser suportados igualmente
pelo parceiro-outorgante e pelo parceiro-outorgado, e os lucros serão
repartidos conforme proporção previamente estabelecida em contrato,
conforme maior ou menor participação na atividade por parte do parceiro-
concedente (Almeida e Buainan, 2013, p. 331).
Essas variáveis motivam e incrementam o crescimento das
parcerias em substituição ao arrendamento nos contratos para o
cultivo de cana-de-açúcar.
Marques e Pettersen (1977, p. 37) apontam algumas diferenças
entre o contrato de arrendamento e de parceria,
A princípio, em relação à forma de remuneração pelo uso da terra. No
arrendamento, o valor é fixo. Na parceria, é variável, conforme o montante
da colheita efetuada. Em segundo lugar, existem entre os parceiros, vínculos
societários. O parceiro proprietário pode fiscalizar, em comum com o
outorgado, o desenrolar dos trabalhos objeto do contrato; mas, o arrendador,
ajustada a relação contratual, se exonera de quaisquer espécies de controle
da atividade laboral (Marques e Pettersen, 1977, p. 37).
O arrendamento e a parceria são formas de se obter renda
fundiária, ou renda da terra, de forma que os não proprietários de
terra invistam capital para produzir em uma lógica expansionista e
de incorporação de novos territórios. O quadro 1 mostra os
principais pontos positivos e negativos dos diversos formatos de
acesso à cana-de-açúcar para as usinas sucroenergéticas.
Quadro 1: Formas de acesso à cana-de-açúcar pelas usinas
FORMAS VANTAGENS DESVANTAGENS
DE ACESSO
Cana própria − Forma mais − Restrição de
em terra tradicional de acesso aquisição de terras
própria à cana, aliando a por estrangeiros
propriedade ao − Perda do foco da
patrimônio da usina atividade primária
− Fluxo contínuo de
matéria-prima
− Valorização
imobiliária
− Melhor controle da
qualidade do solo e
maior produção
− Facilidade de
logística/manutenção
dos acessos
Cana própria − Modalidade −
em terra de instituída por meio Corresponsabilidade
terceiros de arrendamento ou no caso de danos
parceria agrícola socioambientais
− Garantia de fluxo − Usina não se
com baixa beneficia da
imobilização de valorização
capital e imobiliária
investimentos − Sujeição à
− Compartilhamento especulação
dos riscos de imobiliária na
produção e do preço modalidade de
na modalidade de arrendamento
parceria
− Rotatividade do
solo
− Benefícios fiscais
Cana de − Possibilidade da − Ausência de
terceiros em usina em auferir recursos para
terra própria renda com o cultivo em terra
arrendamento da própria acarretou a
terra e o posterior possibilidade de
processamento da arrendamento da
cana terra a terceiros
− Custo e risco da para posterior venda
produção à usina da produção
transferem-se ao de cana
terceiro − Desconhecimento
− Redução do ou inexperiência do
quadro de produtor sobre os
funcionários e, tratos e cultivo da
consequentemente, cana podem
do custo de mão de acarretar baixa
obra, maquinário e qualidade do
manutenção produto
− Insegurança
quanto ao fluxo de
matéria-prima
− Ausência de
controle sobre
questões
trabalhistas
− Riscos de
configuração de
terceirização da
atividade-fim da
usina
Cana de − Custo e risco da − Desconhecimento
fornecedores produção ou inexperiência do
transferemse ao fornecedor da terra
terceiro sobre os tratos e
− Redução do cultivo da cana
quadro de podem acarretar
funcionários e, baixa qualidade do
consequentemente, produto
do custo de mão de − Risco de
obra, maquinário e interrupção do fluxo
manutenção. de matéria-prima
− Risco de
indisponibilidade da
matéria-prima ou
elevação no valor
do produto
Fonte: Postal (2014) e Almeida (2002). Org.: Andrade (2017).
No Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba, as usinas têm investido nos
contratos de arrendamento e parceria, chegando algumas a
produzirem na quase totalidade desses modelos, visto que tem sido
uma opção rentável para a expansão da atividade, já que requer
grande quantidade de terra para o cultivo da cana-de-açúcar. Com
isso, há uma pressão por parte das usinas sobre os proprietários,
porque há a necessidade de ocupar para expandir, especialmente
as territorialmente mais próximas a estas (até cem quilômetros em
razão da logística, em que se consideram os custos com corte,
carregamento e transporte). Outros fatores são extremamente
importantes: a) fertilidade do solo; b) relevo plano (para a
mecanização); c) abundância hídrica (para irrigação); d) tamanho da
propriedade (preferencialmente, acima de 20 hectares); e) vias de
acesso (estradas para facilitar o processo produtivo, sobretudo, o
escoamento da cana para a usina); e f) documentação da
propriedade regularizada. Estes influenciam no preço pago por
hectare e o período dos contratos, que variam de cinco a dez anos.
Merece atenção o fato de que tanto o valor quanto a duração do
contrato são distintas, segundo os elementos citados anteriormente,
e ainda, conforme o conhecimento jurídico, informações dos valores
pagos a outros proprietários, relação política e resistência do
proprietário. As usinas possuem profissionais para recrutar
terras/propriedades propicias e fazerem as negociações de
contratos.
Ao analisar um contrato de parceria de uma usina localizada na
microrregião de Ituiutaba, a partir da efetivação do contrato,
observa-se que esta tem livre acesso à propriedade para o processo
de produção, estabelecendo relações de domínio e poder,
Durante todo do prazo do Contrato de Parceria, inclusive no caso de
prorrogação ou renovação, fica assegurado o livre trânsito da PARCEIRA
OUTORGADA, por si ou seus prepostos, no Imóvel, mesmo que contíguas à
Área Cultivável, com suas máquinas, veículos e empregados, podendo ainda
o acesso à Área Cultivável ser alterado para facilitar o tráfego (Contrato de
Parceria Agrícola, 2011).
Consta no contrato que, caso ocorra a venda da propriedade, o
comprador tem que cumprir o contrato até o prazo final:
A alienação ou transferência, a qualquer título, do imóvel objeto deste
Contrato para quaisquer terceiros, ou a imposição de ônus real sobre o
imóvel não poderá servir de escusa a interromper ou prejudicar a vigência e
execução deste Contrato, ficando o adquirente ou beneficiário sub-rogado
nos direitos e obrigações do PARCEIRO OUTORGANTE, sendo tal
adquirente ou beneficiário sub-rogado obrigado a respeitar e a cumprir o
presente Contrato até o seu termo final, na forma preconizada pelo artigo 92,
parágrafo 5º do Estatuto da Terra, e no artigo 15 do Decreto n.º 59.566/66
(Contrato de Parceria Agrícola, 2011).
O arrendamento e a parceria das terras para a produção de
monoculturas de cana atestam uma situação de vulnerabilidade do
território, subordinação dos proprietários de terra e relação de poder
das usinas. Há um cenário de disputa por terras: proprietários com
anseio de continuar produzindo e esforçando-se para sua
permanência no espaço rural, e as usinas ansiando apropriar-se
desses territórios. Muitos, especialmente os camponeses, se veem
“forçados” ou seduzidos com propostas compensadoras para ceder
ao arrendamento ou parceira de suas propriedades. Esse cenário
tem provocado a reestruturação produtiva dos municípios, com
aumento exorbitante da produção de cana, em detrimento da
produção tradicional de arroz, feijão, milho, hortaliças, entre outros,
contribuindo, dessa forma, para a diminuição da produção de alimentos em nível local, regional e, consequentemente, para a
soberania alimentar.
Apesar de as usinas quererem apropriar-se de todas as “terras”
de seu interesse para produção da cana, é possível encontrar as
resistências, em virtude, sobretudo, dos laços culturais com a
propriedade, e também aqueles que resistem porque as
propriedades ou parte delas não atendem aos interesses das
usinas. Estes encontram-se “ilhados” por canaviais e vivendo os
impactos que a monocultura causa no meio ambiente com os
desmatamentos, o uso de agrotóxicos, poluição do ar e poeira
ocasionada pelo tráfego de carretas que transportam a cana colhida
das lavouras até as usinas.
Considerações finais
No Brasil, a produção dos biocombustíveis também levanta
questões sobre os riscos e os efeitos que a expansão das lavouras
de cana-de-açúcar traz para a produção de alimentos, para a
sociedade e para a biodiversidade dos biomas brasileiros. Os efeitos
ambientais, principalmente, em relação aos recursos hídricos e
sociais, são evidentes. Então, questiona-se que energia “limpa”, é
essa? O que significam os dados quantitativos da produção de
açúcar, álcool e energia, diante de tantos efeitos negativos e
perversos da expansão da cana-de-açúcar para o setor
sucroenergético?
O setor sucroenergético produz sob os imperativos do mercado
global, incorpora uma racionalidade capitalista nas relações de
produção. Pouco se respeitam as “leis” da natureza, criando-se,
dessa forma, disputas e conflitos. As disputas nem sempre são
caracterizadas por conflitos visíveis, mas da luta pela permanência e
pela (re)existência, como é o caso dos camponeses.
Por fim, é preciso desvelar que esse novo cenário produtivo da
cana-de-açúcar para atender o setor sucronergético atende
efetivamente a uma proposta do capital. As preocupações com uma
matriz energética sustentável, são discursos infindos do governo e
de todos os que apoiam esse modelo. Especificamente no que se refere ao Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba, considerada uma das
principais áreas para a expansão, ainda que se afirme a
contribuição dessa monocultura para o crescimento econômico, é
mais uma atividade agrícola responsável por inúmeros efeitos
sociais, culturais e ambientais em diversas escalas.
Referências
ALMEIDA, P. J. de e BUAINAN, A. M. “Os contratos de
arrendamento e parceria no Brasil”. Revista Direito GV, v. 9, n. 1, pp.
319-244, São Paulo, jan.-jun., 2013.
ANDRADE, M. C. de. Modernização e pobreza: a expansão da
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