Filho da Terra - Os Quatro Elementos, Volume 2
Prólogo
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 13 partes.
Mainá fez uma pausa enquanto absorvia suas palavras. Um arrepio me passou pela espinha e quase podia adivinhar onde aquela conversa terminaria. Meu coração já parecia ciente.
– Meu pai, o cacique Piatã, me contou que nasci muito doente. Nem o xamã podia garantir minha sobrevivência. Ele então pediu ao pajé que implorasse aos espíritos por minha vida em troca de qualquer coisa. O pajé Unaí conquistou a misericórdia dos espíritos em troca de meu ventre. Eu, a princesa índia Kadiwéu, estaria prometida para o filho de Tupã para sempre. De mim nasceriam os herdeiros dele. Foi somente aí que conheci a lenda do Filho da Terra e o meu destino de protegê-lo e servi-lo pelo resto de meus dias. E se não fosse agraciada com o amor do deus, seria amaldiçoada a morrer seca, sem filhos. Nunca poderia me casar com outra pessoa.
Estava paralisado diante de suas palavras. Que crença mais maluca era aquela? Quem eles achavam que eram para destruir assim os sonhos de uma jovem e linda como Mainá? E o que ela havia dito? Que era uma princesa? Eu estava em completo choque incapaz de concluir uma linha de pensamento sequer com alguma coerência.
– Eu te amei desde a primeira vez em que te vi, de longe, mesmo sem ter certeza de que você era meu predestinado – sussurrou. - Mas não quero que se sinta responsável por mim, Lucca.- Sua voz voltou a falar com segurança. - Se você ama Vitória, é com ela que deve ficar. Seguirei sempre o meu destino. Ficarei feliz em poder te vigiar de longe, protegendo-o.
Sua linda mão marrom envolveu a pedra brilhante em seu pescoço. Enquanto falava, ela havia acendido novamente como que para ressaltar suas palavras. Seus olhos se fecharam como cortinas diante de sua linda alma. Eu estava mais do que confuso, dividido, reconheci a mim mesmo.
Sempre soube da atração que Mainá exercia sobre mim desde o primeiro dia em que a vi. O que nunca imaginara era que ela sentisse o mesmo e que aquilo era uma sinfonia orquestrada pelo destino. Ainda que não acreditasse em forças além de nós, não podia duvidar dos sentimentos dela. Nem mesmo do que havia nascido dentro de mim a partir do instante em que nos conhecemos.
Naquele momento era apenas o tumtumtum de nossos corações que eu ouvia e sentia. Era apenas a beleza exótica daquela indígena que me enfeitiçava. Eram somente os desenhos negros em seu corpo que me puxavam para ela. Não tinha palavras para descrever o que sentia nem forças para me fazer responder a sua história. Só podia fazer uma coisa e sabia que era o certo.
Ergui minha mão e toquei seu rosto, fazendo-a abrir os olhos. Eles ardiam de uma forma que eu não havia visto antes. Uma paixão avassaladora brilhava através deles me ofuscando. Estava fascinado por aqueles olhos de chocolate. Faria qualquer coisa para senti-los me queimar sempre, todos os dias, a qualquer momento.
Sorriram para mim compreensivos. Como tantas vezes antes, me leram da mesma forma que eu fazia com os outros. Mainá viu minha alma e não precisava lhe dizer que também a amava de uma forma nova, incompreensível, grandiosa. Eu me inclinei sobre ela sem cogitar interromper o movimento. Sabia que seria muito bem recebido. Além disso, queria acolhê-la em meus braços e em meu coração.
Beijei seus lábios com delicadeza primeiro, sentindo seus contornos voluptuosos. Nunca havia experimentado um sabor como aquele. Aquela boca era muito mais do que esperava. Com novo anseio de prová-la mais profundamente, me entreguei ao beijo permitindo que minha língua invadisse sua boca. Mainá gemeu em meus braços se rendendo ao próprio desejo.
Meus braços a envolveram fortemente como se fosse capaz de nos fundir em um só. E os seus morenos agarraram meu pescoço com força, enquanto seus dedos se infiltravam ferozmente entre os fios bronzes de meus cabelos. Nunca me senti tão no lugar certo como naquele momento. Como se tivesse sido feito para estar naqueles braços, junto com aquele corpo, beijando aquela boca.
Nunca me deixei levar por sentimento antes, mas aquele era forte demais para ser contido por algum resquício de minha razão. Até minha mente me falava que estava fazendo o melhor. Que estava sendo feliz de verdade, experimentando o amor verdadeiro que até então nunca havia provado.
Amei o sabor. Era doce, explosivo, inesquecível. O que havia tido com Vitória não chegava perto da força e da presença que aquela índia fizera nascer em meu peito que explodia agora naquele primeiro beijo. Algo difícil de conter até mesmo pelo meu corpo tão forte. Meu coração parecia uma máquina feroz de bombear sangue.
Somente a boca de Mainá era pouco para meus lábios. Precisava dela toda. Cada curva bem desenhada de seu corpo moreno e sensual. Além disso, uma alma boa, forte e destemida. Uma alma que eu amava. Uma alma única que me completava.
Tirei meus lábios de sua boca e a senti arfar buscando ar desesperadamente, mas não me afastei um centímetro sequer de sua pele. Seu perfume invadiu meu corpo estimulando boas sensações em meu peito. O sabor de sua pele causava cócegas em minha língua. O calor de seu corpo, um formigamento agradável no meu.
Minha língua seguiu, em uma brincadeira sensual, as linhas pretas desenhadas sobre sua pele. Os arrepios que eriçaram seus pelos me disseram que eu estava no caminho certo para sua paixão. Seu corpo se debruçou para trás se entregando totalmente aos desejos carnais que eu estimulava.
Segurando-a firmemente enquanto a ajudava a se curvar para o chão com segurança, devorei seus seios pequenos e sexies. Suas mãos me agarravam com força, enfiando as unhas nas minhas costas. Seu corpo nu era tão belo que me faltavam palavras para descrevê-lo com exatidão.
Mainá era minha. Seria somente minha e eu dela. Éramos um do outro sem empecilho ou temor. Esse amor era a força mais verdadeira que havia experimentado em minha vida e não o abandonaria agora que sabia que era correspondido. Demorei muito tempo para ler as entrelinhas dos sentimentos que me assaltaram desde a primeira que a vi.
Nada na minha vida fora tão verdadeiro quanto aquilo que estava vivendo. O amor falso de Vitória não podia deixar de parecer uma anedota do amor próprio que nutria por si mesma. Ela nunca me amou de verdade. E nunca me amaria como Mainá me amava. Com o amor único, insubstituível, que se contenta com a felicidade do outro, não com a sua própria. Incondicional.
Dei graças a Deus por ter o privilégio de viver um amor assim. Ainda que tardiamente, porém na hora certa. No dia seguinte, cometeria o maior erro de minha vida, que me perseguiria o resto dos meus dias. Dei graças por não ser tarde demais.
Afastei todos os pensamentos de minha mente e a deixei cheia de Mainá. De suas palavras, de sua voz, de seus olhos, de sua boca, de sua pele, de seu aroma, de sua sinceridade, de seu sorriso, de seus pensamentos, de sua bondade, de sua espiritualidade, de sua fé, de suas origens. Era a pessoa mais interessante que havia conhecido. Nosso amor seria uma grande, eterna e inesquecível aventura.
Seu sabor se impregnou em minha língua. Queria ter uma overdose dela. Morreria completamente feliz. Lucca. Seus olhos derretidos me chamaram e os atendi de imediato. Envolvendo-a carinhosamente, a beijei de novo, sentindo-a tremer sob meu corpo. Também queria implorar por ela.
– Mainá, eu te amo também - sussurrei ao pé de seu ouvido.
Ela me puxou para perto de novo - incapaz de se distanciar - com tanta força que denunciou sua vontade de se fundir a mim. Suas mãos buscaram os botões de minha camisa, arrebentando-os de suas casas. E a destruição foi totalmente desnecessária, já que ao tentar tirar, conseguiu rasgá-la em partes, sendo necessário apenas afastar os farrapos.
Vi seus olhos devorarem avidamente os contornos de meu tórax com admiração. Quando se voltaram para mim, me disseram: Com o você é lindo! Sorri, voltando a beijá-la enquanto ela destruía o botão e o zíper de minha calça. Estranhamente, essa peça ficou inteira, quase ri ao constatar o pouco estrago enquanto terminava de tirá-la, junto com a cueca.
As mãos suaves e gentis de Mainá me tocaram com destreza e carinho. Ela queria sentir cada parte de minha pele, gravar nas digitais de seus dedos e palmas. Aprender os caminhos construídos pelas curvas de meus músculos. Também não podia deixar de tocá-la e beijá-la a cada segundo. Poderia fazer isso para sempre sem nunca me cansar.
Quando nossa paixão se tornou urgente e impossível de resistir, encaixei meu corpo ao dela, com suavidade e delicadeza. Queria que sua primeira vez não fosse apenas com o único homem que amava e que poderia ter na vida, mas que fosse tão incrível para ela como seria para mim.
Testei seus limites, avançando pouco a pouco, estudando suas respostas e expressões. Seus cabelos negros esparramados no chão eram lindos e brilhantes. Eu me distraí com eles por alguns segundos bebendo cada fio de beleza. Não tinha pressa. Tinha muita paciência e amor para lhe oferecer.
Meu cuidado foi recebido com um sorriso lindo. Seu corpo respondia bem aos meus estímulos, permitindo que o tomasse cada vez mais. Estava aproveitando aquele momento como se também fosse minha primeira vez. Afinal, era a primeira vez que fazia amor com uma mulher. Até então havia feito apenas sexo.
Seu corpo estremeceu graciosamente quando nos fundimos, se curvando e me oferecendo sua pele sedosa. Eu me embebedei dela, de seus lábios, enquanto me movia. Mainá ofegou, embriagada de paixão. Suas mãos me agarrando cada vez mais apertado, em resposta a cada sensação nova que a fazia sentir. Como - por Deus! - havia resistindo tanto tempo àquele elixir dos deuses?
Depois de prová-la pela primeira vez, nunca mais poderia viver sem. Seria minha droga, meu vício, minha loucura. Viveria e morreria por ela. Sentia que não era exagero enquanto provava cada vez mais de Mainá e sentia seu corpo se retorcer sob o meu, suas pernas e braços me envolvendo com força e desejo.
Acelerei o ritmo com cuidado e paciência, observando suas reações. Queria garantir seu prazer primeiro antes do meu. Queria contemplar seu estado de felicidade plena depois que alcance a sensação suprema, física e psicologicamente intensa.
Cada expressão de seu rosto era gravada em minha memória. Nosso novo e irresistível amor era um aprendizado para mim. Mainá havia me ensinado o que era a sensibilidade. Eu queria retribuir com uma vida inteira de servidão para que fosse feliz e realizada.
Observei atentamente e vi quando sua expressão, sem fôlego, mudou para assombrada. Também estava ensinando a ela uma forma física de viver o amor que sentia. Fiquei feliz. Mantive meu corpo se movendo enquanto sua expressão ia e voltava perdida entre o êxtase e a falta de ar. Suas unhas se fincando em minha pele e seus membros comprimindo meu corpo contra o seu.
Depois que a vi chegar ao clímax várias vezes me permiti acompanhá-la. Percebi que chegava lá de novo junto comigo dessa vez. A alegria que encheu meu peito intensificou a sensação física e exaustiva que meu corpo exalava. Aquele dia ficaria marcado na minha memória para sempre como o melhor de toda a minha vida.
Ofegante sob mim, Mainá me abraçou carinhosamente, acolhendo meu corpo entre suas curvas perfeitas. Ficamos debruçados assim por algum tempo, enquanto a acariciava e recebia seus dedos nos cabelos e nas costas. Tinha que ver seus olhos e saber o que ela estava pensando. Agora eu sou sua para sem pre.
CASAMENTO
Levantar com o sol era um grande esforço para Vitória Cruz. Não naquela m anhã. Estava ansiosa para com eçar aquele dia. Dorm ira profundam ente a noite toda, não cedendo à ansiedade de véspera. Olhou-se no espelho do banheiro de sua suíte depois de lavar o rosto dos crem es que usou durante o sono. Ficou m uito satisfeita com o resultado. Sua pele estava m ais sedosa do que nunca.
– Boa receita. Vou usar m ais vezes - disse a seu próprio reflexo.
Vestiu-se com um a roupa m odesta e sandálias de salto alto. Penteou os cabelos para desem baraçá-los e desceu para tom ar Café da m anhã com seu pai. O coronel j á a esperava na m esa enorm e repleta de alim entos variados.
– Bom dia, m eu anj o - cum prim entou com um beij o em sua testa. - Pensei que se atrasaria - riu discretam ente. - Já estava pensando que teria que acordá-la.
– Bom dia, papai - cum prim entou a filha. - Acordei m uito bem – sorriu. - Hoj e é o dia m ais feliz da m inha vida.
José Cruz devolveu o sorriso para sua única e adorada filha. Sua felicidade era contagiante. Seu próprio hum or era m edido pelo volátil de Vitória. Se ela estava bem , ele tam bém ficava. Se ela estava infeliz, ele ficava m uito pior. Desde a m orte de sua m ulher e a realização de seu sonho ao se tornar um grande e rico fazendeiro, o coronel se dedicou a ser pai. Estava m uito feliz com o resultado de seu esforço.
Vitória havia se tornado um a linda m ulher, que sabia bem o que queria da vida. Apesar de não ter estudado - isso não o afligia j á que ele m esm o não possuía m uito estudo - era um a m ulher de fibra, apaixonada pela vida e ciente de que tudo o que possuía fora conquistado por ela. Estava acostum ada a ser idolatrada. E o velho contava que Lucca Gonçalves seguiria seus passos.
O fazendeiro estava feliz com a escolha da filha. Estava claro que ela tinha m esm o sangue dos Cruz nas veias. Havia decidido pela razão prim eiro, depois entregou seu coração ao hom em m ais correto da cidade. Tinha absoluta certeza de que Lucca a faria m uito feliz, com o ele m esm o havia feito sua m ulher durante os poucos anos que ficaram j untos.
Dissipou o últim o pensam ento tristonho e observou Vitória se servir. Estava tão radiante. A felicidade em anava dela com o energia. Foi atingido por ela, envolvido com pletam ente por seu clim a de alegria e paz, o que afastou sua própria ansiedade e preocupação. Tudo tinha que dar certo. E daria, tinha absoluta certeza.
– Então, qual a agenda de hoj e? - perguntou à j ovem .
– Vou direto para o ateliê para m inha m anhã de noiva. - Abriu um sorriso tão largo que encantou o pai. - Você tam bém precisa ir para lá, m as agora é m uito cedo. Vá um a hora antes da cerim ônia. O terno que eu escolhi para o senhor é m aravilhoso, não é, papai?
– Sim , m eu bem , é sim .
– Então sairem os j untos pouco antes do m eio-dia para chegarm os aqui no horário. Ao contrário do que é com um , não quero chegar atrasada, nem adiantada. Quero chegar na hora, em ponto.
– Lucca tam bém estará no ateliê?
– Sim , na área m asculina. Talvez você cruze com ele lá em cim a. Ele deve estar acordando agora tam bém - sorriu enquanto m ordia m ais um pedaço de pão.
– Você não vai ligar para ele?
– Não. Não vou falar com ele antes da cerim ônia. Quero que sinta m inha falta e perca o fôlego quando m e vir. Não falo com ele desde ontem depois da últim a prova.
O coronel riu com o inacreditável. Sabia que Vitória falava com Lucca várias vezes por dia. Com o era determ inada sua filha! Queria realizar um a cerim ônia rom ântica, por isso resistiu ao próprio im pulso de falar com o noivo. Estava cada vez m ais orgulhoso dela. Seria um a ótim a esposa e auxiliaria o m arido em tudo. Talvez até se interessasse pelos negócios.
Vitória estava m orrendo de saudades de Lucca, m as só adm itia isso a si m esm a. Estava coçando os dedos para pegar o celular e ouvir a voz do noivo. Especulou durante o restante do café o que ele estaria pensando ou sentindo a cada m inuto. Se estaria fazendo a refeição com a fam ília, ansioso para encontrá-la dali há apenas m eio período.
Afinal o grande dia havia chegado. Todo o nervosism o das últim as duas sem anas se dissolveu com o açúcar no café. Estava m uito calm a, estranham ente tranquila. Havia esperado por longos sete anos por esse m om ento e sentia-se totalm ente preparada. Não era m ais a j ovem desesperada que conheceu Lucca. Era um a m ulher que sabia m uito bem o que queria e havia suado para conquistar seu am or.
Levantou-se da m esa e voltou ao quarto para escovar os dentes antes de descer e se despedir do pai. O m otorista a levou para o ateliê. Foi recebida com gentileza e atenção. A atendente a guiou até a sala de SPA, os banhos. Em seguida receberia as m assagens com óleos e crem es, tratam ento de pele e m aquiagem . Cabelo e vestido seriam os últim os.
***
Edm undo abriu os olhos e procurou a silhueta grande do irm ão adotivo na cam a ao lado. Estava arrum ada com o na noite anterior antes de dorm ir. Lucca não havia dorm ido em casa. Sentou-se com um sorriso nos lábios. Teria ido para um a despedida de solteiro? Não com binava com ele, porém seria m uito útil aos seus planos.
Desde a conversa aberta que tivera com o irm ão - aberta pela franqueza, não pelas revelações - Edm undo estava quieto e tram ando. Parara de perturbar Lucca, m as não deixara de vigiá-lo. Não acreditava na prom essa que lhe fizera e estava m aquinando um a form a de entregá-lo a Vitória. Não conseguira nada convincente que a faria enxergar além da névoa de paixão que nutria por ele.
No entanto, na últim a sem ana, Lucca estivera ausente dem ais de casa. A desculpa era o trabalho, m as Edm undo sabia que passava as noites com a índia. Precisava de um a prova, de algum deslize com Vitória para fazê-la sentir raiva suficiente para apartar a cegueira. Talvez a ausência dele durante essa noite fosse sua única chance.
Foi tom ar banho ainda pensando com o convencê-la do erro que estava com etendo. Ainda faltavam horas para o casam ento e vigiaria o irm ão até o últim o m inuto. Encontrou Isabel na cozinha, term inando o café da m anhã reforçado da fam ília.
– Mãe, o Lucca não dorm iu em casa.
Quase que ela derrubou a caneca no chão. Teria ouvido direito? O filho dissera que o irm ão não havia dorm ido em casa? Mas com o? Lucca não era disso.
– O que você disse, Edm undo? - O rapaz repetiu a afirm ação anterior. - Você está fazendo intriga do seu irm ão de novo! - explodiu Isabel. - Você sabe que Lucca não faria isso. Deve ter ido direto da festa para o ateliê.
– Festa? - interrogou Edm undo - Que festa, m ãe?
Isabel confirm ou que Lucca ligara avisando que o pessoal do trabalho estava prom ovendo um a festa para ele. Edm undo sorriu satisfeito. Bingo. O irm ão m ais velho havia lhe dado um grande trunfo.
Depois do café da m anhã as m ulheres foram para o ateliê. Os hom ens ficaram assistindo televisão. Edm undo m al conseguia se m anter sentado. Estava se sentindo o noivo de tão ansioso. A m anhã andava a passos de tartaruga.
***
Para passar o tem po e controlar a ansiedade, o fazendeiro foi acom panhar seu gado no pasto. O trabalho sem pre era um a grande distração para ele. Olhou para sua boiada e se sentiu um rei. Seu tesouro não era dourado, m as sim branco, verde e m arrom . Cabeças de gado e terras.
José Cruz se corrigiu im ediatam ente. Seu m aior tesouro tinha cabelos dourados e pele de m arfim . Vitória. O nom e da filha dizia m uito m ais sobre ele m esm o do que toda sua riqueza. O m enino raquítico e esfom eado que fugiu da Bahia para trabalhar no Mato Grosso do Sul tornara-se um hom em de respeito, bem -sucedido e tem ido. Conquistara a patente de coronel sem nunca ter estado no exército brasileiro.
Havia escolhido bem seus passos, seus negócios, sua m ulher e até m esm o o nom e de sua filha. Tudo se virava para ele, ao redor dele, em prol dele. Era o centro do m undo que criara com as próprias m ãos, com o próprio esforço, com a própria astúcia. Era um rei. Tinha sua riqueza, seu palácio, seus súditos e sua herdeira.
E hoj e era o dia de dem onstrar seu poder através da ostentação. A festa que estava bancando para o casam ento da filha custara um a pequena fortuna. Quem ainda tivesse dúvidas do alcance de seu braço, hoj e não teria m ais. Estaria vingado pelos anos de sofrim ento, rej eição e m iséria.
Seria a dem onstração pública do tam anho de sua conta bancária, do que era capaz de fazer por aqueles a quem am ava e o que os rebentos dessa união teriam o privilégio de desfrutar. Por isso fizera questão de não aceitar a m ixaria que o m édico Edgar Gonçalves poderia oferecer para cerim ônia.
Seria um a dem onstração de todo o conforto que ofereceria aos netos daquele coitado. Não tinha ideia do privilégio que era ter um m em bro de sua fam ília escolhido para entrar para a árvore genealógica dos Cruz. Um a árvore que com eçava a partir dele.
Um a nova linhagem estava se form ando da união entre Vitória e Lucca. Um a linhagem pura, rica, bela, inteligente. O coronel sabia que nunca se arrependeria de ter perm itido. Sua filha seria feliz e proporcionaria ao j ovem m arido um a vida que nunca havia sonhado.
Mas o que o tranquilizava era saber do caráter correto de Lucca. Sabia que não se unira a Vitória por interesse. Ele era honesto, verdadeiro e responsável. Saberia m anter a alegria nos olhos de sua filha e não desm antelaria seu im pério depois que partisse.
Porém , o j ovem que não se sentisse m uito contente com sua m orte. O coronel não pretendia m orrer tão cedo. Precisava ter certeza do bom passo e preparar o genro, conhecer seus herdeiros e garantir que tam bém estariam aptos para m anter sua riqueza e a felicidade da filha. Viveria ainda m uitos anos antes de dizer um adeus definitivo.
Conferiu o relógio de pulso. Estava na hora de ir para a cidade e se vestir.
***
– Vam os, Edm undo!
A voz de Edgar se im pacientava. Já era a terceira vez que cham ava o filho. O rapaz apenas gritava ‘só um m inuto, pai’ e não aparecia. Estava dentro do carro, quase sufocando pelo calor. Deu graças a Deus por não ir ao casam ento com aquela roupa. Já estava ensopado de suor.
– Desse j eito vam os nos atrasar! - berrou novam ente o m édico.
Com um a careta, Edm undo apareceu na entrada da casa. O que aquele rapaz pretendia? Estragar o casam ento do irm ão? Edgar não duvidava. Sabia que adotar Lucca fora um a escolha que afetara a fam ília toda. Só não esperava que o filho legítim o nunca superasse as diferenças entre eles.
Edgar am ava dem ais o filho adotivo. Sabia que até m ais do que Edm undo. Eram tão diferentes, porém Lucca sem pre fora o filho ideal, dando-lhe m uito orgulho. O filho de sangue nunca fizera nenhum esforço para ser alguém na vida, conquistar um futuro, form ar um a fam ília. Era um frustrado e o pai se sentia responsável m esm o sabendo que não era.
Havia criado os três filhos da m esm a m aneira, com os m esm os princípios. Mas viu seus ensinam entos serem seguidos som ente por aquele que não era seu filho biológico. Chegou a achar, um a época, que os filhos legítim os faziam de propósito para confirm ar sua antipatia pelo irm ão intruso.
Para Edgar, ter dois ou três filhos não fazia diferença. Eles sem pre teriam que aprender a dividir. Um a m ais ou um a m enos não o deixaria m ais rico ou m ais pobre, ou com m ais dificuldade em dividir obj etos e até m esm o o afeto dos pais. Sem pre quisera um a grande fam ília e orgulhosam ente tinha.
Edm undo bateu a porta do carro com força dem asiada. O pai controlou seu próprio nervosism o para não brigar com o rapaz e dirigiu o m ais rápido que podia até o ateliê.
– Seu queridinho dorm iu fora de casa - anunciou voltando o pescoço para frente depois de perder a casa de vista. - Não vai falar nada?
Edgar bufou.
– Edm undo, não ouse tentar estragar o casam ento de seu irm ão - vociferou o pai. - Ele tem o direito a pelo m enos um dia de diversão, j á que quase nunca se perm ite. Ficarei de olho em você.
O filho não discutiu. Estava ansioso em encontrar Lucca. Será que j á estava no ateliê? Esperava que sim e que não. Queria ver aquele casam ento acabar. Seu irm ão não m erecia um a deusa com o Vitória. Ele era um alienígena. Edm undo, sim , com binava com ela perfeitam ente.
Foi com esses pensam entos e com um sorriso que avistou seu destino.
***
O prédio do salão era im enso, m as era im possível não se cruzarem . Todo m undo estava lá, divididos em dois andares: noivos, paj ens, dam as, padrinhos e pais. Som ando-se o dobro de funcionários. Era tanta gente que virou um a m uvuca m eia hora antes do casam ento.
Edm undo relutava até o últim o segundo em se vestir. Nesse m om ento, viu o fazendeiro ir até a recepção. Puxou conversa.
– Nervoso, coronel Cruz?
– Dem ais - respondeu. - Im agino com o Lucca deve estar.
– Ah, o senhor não o viu ainda.
– Não, ainda não.
Deve estar se embonecando igual uma mulherzinha, pensou Edm undo. Devia aproveitar o ensej o para destilar um pouco de veneno.
– Tam bém não o vi hoj e ainda - disse casual.
Esperou a ficha do coronel cair, porém ele nada respondeu. Talvez não tivesse prestado atenção ou não tenha dado a devida im portância à frase. Achou m elhor deixar a conversa m orrer dessa m aneira.
Edgar entrou na recepção em seguida. Vendo os traj es que o filho ainda vestia, teve que im por toda sua autoridade.
– Edm undo, o que você está fazendo com essas roupas ainda? Vá se trocar im ediatam ente!
Sem escolha, o filho obedeceu ao pai. No cam inho até a sua sala, não avistou o irm ão adotivo.
Carlos, saindo de sala contígua, foi para a recepção. Pediu logo ao barm an um a dose de vodka com lim ão. Tom ou um generoso gole. Edgar se aproxim ou do rapaz que não o notou.
– Bebendo tão cedo, m eu j ovem .
Com um sobressalto, Carlos quase derrubou bebida na roupa recém vestida.
– Desculpe.
– Tudo bem , senhor Edgar - respondeu ao sussurro. - Minha cabeça está estourando. Um gole para tentar am enizar a dor.
O m édico sorriu.
– Com o está Lucca? - perguntou ao am igo do filho.
– Não sei - respondeu o arqueólogo. - Não o vi hoj e. Na verdade nem o vi ir em bora de casa. Estava m eio distraído - riu.
Edgar com preendeu a últim a frase.
– Com o conseguiu convencer Lucca a ir a um a despedida de solteiro?
– Ocultei os detalhes dele - e riu frouxam ente.
Edgar com eçava a achar tudo m uito estranho. O filho j am ais suportaria um a farra daquelas. Ele deveria ter saído de lá durante a festa sem que ninguém notasse, m as se tivesse feito isso, deveria ter dorm ido em casa. Deu de om bros. Talvez tenha se perm itido um a noitada. Ele era j ovem . Ia se casar em m enos de trinta m inutos. Estaria am arrado para sem pre. A noite passada foi a últim a chance para aproveitar sua j uventude e solteirice. Nunca o j ulgaria por isso. Tam bém tinha sido j ovem um dia.
***
O coronel foi o prim eiro a deixar o andar superior para se j untar a filha no carro de vidros escurecidos com ar condicionado. Levou consigo os paj ens para que ficassem j untos com a noiva.
Os padrinhos foram os próxim os a seguir para seus carros. Restaram som ente Carlos e a fam ília Gonçalves. Faltam apenas quinze m inutos para o casam ento. Edm undo andava de um lado para o outro sem paciência.
Carlos cham ou um atendente.
– Por favor, poderia m e inform ar se aconteceu algum a coisa com o noivo, Lucca? Ele está dem orando m uito lá dentro.
O rapazote, todo prestativo, voltou para o corredor cheio de portas a fim de buscar a inform ação para o cliente. Retornou dois m inutos depois.
– Senhor, não tem m ais ninguém lá dentro. Ele j á deve ter saído.
Mesm o achando estranho não ter cruzado com ele em m om ento algum , Carlos preferiu seguir para a fazenda antes que causasse o atraso da cerim ônia. Nem cogitou perguntar a outra pessoa.
O restante da fam ília Gonçalves seguiu seu exem plo.
***
A decoração ao ar livre na Fazenda Cruz do Pantanal estava im pecável. As tendas forravam um a área enorm e no quintal da propriedade, no centro do que seria um a clareira. Sob as árvores ao redor foi im provisado estacionam ento exclusivo para os convidados.
A partir da entrada e por todo o cam inho até o local da festa, flores e guirlandas form avam um corredor largo e pom poso. Im pressionava todos que eram autorizados pela segurança a entrar. Os hom ens de preto postados em baixo da fachada da propriedade conferiam nom e e convite de cada pessoa que chegava.
Devido a isso, a fila do lado de fora se tornou extensa. O carro que levava a noiva tom ou outro cam inho, entrando na fazenda por trás. Os padrinhos e os pais do noivo seguiram o m esm o traj eto. Não poderia haver atrasos. Vitória ficaria histérica.
Liliam Alm eida, a organizadora de eventos, supervisionava todos os detalhes com sua equipe, separada estrategicam ente por toda a área. A profissional organizou os coadj uvantes da cerim ônia enquanto chegavam , preparando-os para a entrada da noiva que seria em alguns m inutos.
Depois de um a conferência rápida, Liliam sentiu falta de um a pessoa. Aproxim ou-se da fam ília do noivo e perguntou, um pouco im paciente.
– Onde está Lucca?
Todos olharam para ela sem entender. O que queria dizer com aquela pergunta? Achavam que se tinha um a pessoa que sabia onde ele estava seria ela.
– Com o assim ? - questionou Edm undo. - Ele não está aqui?
Liliam acionou sua equipe, através de fones de ouvido e m icrofones m inúsculos, perguntando se o haviam visto. Todos responderam negativam ente. A partir daí, a profissional organizou um a batida pelo local da festa com todos que pudessem aj udar a procurar pelo noivo.
– Alguém tentou o celular dele? - perguntou antes que a turba se dispersasse.
Ninguém havia se preocupado de verdade até aquele m om ento, então todos sacaram seus aparelhos e digitavam furiosam ente enquanto se afastavam . Do outro lado da linha, o celular tocou, tocou, tocou e a gravação da secretária eletrônica atendeu no fim .
Liliam sabia que j á estavam em cim a da hora, porém não queria perturbar a noiva até que todos voltassem com respostas. Seu celular tocou. Era ela de dentro da casa.
– Oi, Vitória.
– Oi, Liliam . Por que ainda não com eçam os a cerim ônia?
E agora, o que dizer?
– Desculpe pelo atraso, m as falta apenas um pequeno detalhe - insignificante, pensou ironicam ente. - Você tam bém não gostaria de esperar que todos os convidados entrem ?
– Quanto tem po?
A organizadora conferiu o relógio e a fila de convidados.
- Dez m inutos.
Um suspiro do outro lado da linha. A profissional ia com eçar a tranquilizá-la quando a noiva respondeu.
– Tudo bem . Nenhum m inuto m ais.
– Ok. Pode deixar com igo.
Pelos m icrofones, Liliam com eçou a conferir prim eiro por sua equipe. Ninguém havia encontrado o noivo ainda. Esbarrou em Edm undo, o irm ão carrancudo de Lucca. Ele tam bém não o encontrou, nem conseguiu localizá-lo pelo telefone. Em seguida, Carlos.
– Nada, Liliam .
– Ai, m eu Deus. Onde está este rapaz?
– Eu tenho um a ideia! - exclam ou de repente o am igo e padrinho do noivo. - Acho que posso alcançá-lo. Segura o casam ento que vou atrás dele.
– Em sete m inutos terei que dar um a explicação para Vitória, Carlos - choram ingou a organizadora. - Não tem os tem po para correr atrás dele e salvar o hum or dela.
– Por favor, Liliam , m e espere. Vou até lá antes disso e te telefono. Não é longe daqui.
A m ulher apenas acenou com a cabeça e o rapaz saiu em disparada seguido por Edm undo que se ofereceu para acom panhá-lo. Já im aginava onde o am igo de seu irm ão ia e tam bém tinha o m esm o pressentim ento.
A profissional ficou agarrada ao celular, conferindo ora o horário ora a turba de convidados que se acom odava nas cadeiras decoradas. A fila estava cada vez m enor. O prazo que havia dado a Vitória fora suficiente e estava se esgotando. Mais quatro m inutos.
Enquanto os dois se ausentaram , o restante continuou tentando localizar o noivo. A equipe e os fam iliares estavam tem erosos que Vitória os culpasse pela ausência de Lucca. O que ela seria bem capaz de fazer.
Faltando apenas dois m inutos para que o prazo term inasse, o telefone celular da organizadora tocou. Trêm ula, atendeu a ligação.
– Liliam - era Carlos -, não o encontram os.
A profissional pensou ter ouvido um riso escapado do outro lado da linha. Fechou o aparelho e cam inhou direto para a casa onde estava a noiva, seu pai, os paj ens e as dam as.
Vitória não gostou da aparência da organizadora quando ela entrou na sala da m ansão. O que seria esse detalhe que estava atrasando sua cerim ônia perfeita? E o que a deixaria assim tão para baixo?
– Não conseguiu resolver ainda?
A noiva viu a m ulher piscar atordoada, buscando as palavras certas. Não vinham notícias boas, teve certeza disso naquele instante.
– O que está acontecendo, Liliam ?
O coronel percebeu som ente nesse segundo que havia algum a coisa errada. O que aqueles incom petentes estavam com dificuldade de finalizar? Já não gastara dinheiro suficiente para que aquela festa fosse do j eitinho que sua filha m erecia? Aquele pequeno atraso era um a afronta à perfeição de sua herdeira.
– Vitória - falou a m ulher depois de um suspiro decidido -, o noivo não chegou ainda.
A noiva ficou atordoada e balançou a cabeça dem onstrando desaprovação.
– Ok - respondeu com a voz firm e. - E que m otivo deu para o atraso?
Liliam ficou surpresa que a j ovem não tenha entendido suas palavras.
– Nenhum - respondeu com tristeza. - Não conseguim os falar com ele.
– A fam ília dele? - perguntou com eçando a pulsar de raiva.
– Nem fam ília, nem am igos. Ninguém sabe onde ele está.
Nesse segundo, o coronel levantou de um pulo e foi parar em frente à organizadora de eventos tão verm elho que a m ulher teve m edo que a cabeça dele explodisse.
– Você está querendo m e dizer que ele fugiu do casam ento? - explodiu sua raiva.
– Não sei, coronel - a m ulher trem ia dos pés a cabeça. - Ainda estam os tentando localizá-lo.
– Quero a fam ília dele aqui, agora! - gritou o hom em que com eçava a ficar roxo.
Enquanto a m ulher corria falando ao m icrofone acoplado à sua orelha com sua equipe para reunir todos da fam ília Gonçalves na sala, Vitória tentava acalm ar seu pai.
– Calm a, papai. Ele só deve estar atrasado. Vou ligar para o ateliê.
A noiva correu para o telefone enquanto o coronel ficou plantado no m esm o lugar e via cada m em bro da fam ília do noivo fuj ão entrar na sala. Mal o últim o cruzou a porta, vociferou.
– Onde ele está?
– Calm a, coronel - tentou apaziguar Edgar. - Nós tam bém não sabem os.
– Vocês o estão acobertando! - ainda gritava o fazendeiro.
– Mais respeito, senhor, por favor! - exigiu o m édico.
– Respeito? - am eaçou o pai da noiva - O que significa isso para vocês?
– Muito, coronel! - contra-atacou o patriarca da fam ília Gonçalves. - Criei todos os m eus filhos para serem respeitosos.
– Estou vendo o respeito que Lucca aprendeu abandonando m inha filha no dia do casam ento!
– Do que está falando, coronel? Lucca j am ais faria isso, o senhor sabe. Eu sei!
Antes que José Cruz pudesse responder, um barulho seco atrás de si cham ou sua atenção, j unto com um grito de horror das m ulheres atrás de Edgar Gonçalves. Vitória estava estirada no chão com o gancho do telefone gritando sozinho caído ao seu lado. Desm aiada.
O pai correu para socorrer sua filha, acom panhado de todo o resto. Edgar usou de seu conhecim ento para trazer Vitória de volta à consciência.
– O que houve, filha? Conseguiu falar com Lucca?
– Não - sussurrou ainda em choque a m oça. - Falei no ateliê. - Agarrou a gola do terno do pai com tanta força que o puxão quase o desequilibrou. - Pai! - Seus olhos estavam vidrados. -Lucca não esteve no ateliê hoj e, em hora nenhum a. O terno dele ainda está lá pendurado no cabide!
A m oça desatou a chorar. Mudando da preocupação à fúria, o coronel se voltou para o pai do noivo.
– Lucca não dorm iu em casa essa noite - explicou rapidam ente o m édico.
Edm undo se adiantou para explicar o resto, feliz por contar a Vitória, diante do tem ido coronel, que o genrinho querido dele havia passado a noite na farra, com m ulheres, provavelm ente. Explicou que foi com Carlos até o parque para procurá-lo, m as não o encontraram .
– Por que no parque? - conseguiu perguntar Vitória entre os soluços.
– Porque ele passava m uito tem po por lá, inclusive fora do horário de trabalho.
– Explique-se! - exigiu o coronel.
– Edm undo! - repreendeu Edgar e Isabel ao m esm o tem po, sem entender o rum o que as palavras do filho tom ariam .
Alice e Jader estavam m uito calados, apenas ouvindo os diálogos.
– Há um tem po eu descobri que Lucca andava se encontrando com um a índia na caverna depois do expediente.
Não precisava de m ais nenhum a inform ação. Estava claro com o água. Lucca havia desistido do casam ento por causa de outra m ulher. Mas um a índia? Um a bugra? O que ele teria visto nela que Vitória não teria m uito m elhor? Inconsolável, a noiva preferiu voltar à inconsciência.
O coronel, ainda segurando a filha nos braços, pensou apenas um segundo na burrada que havia perm itido, na infelicidade de sua filha desacordada vestida de noiva. Abandonada. Rej eitada. Largada covardem ente. Aquele m iserável não m erecia continuar respirando! Enquanto o m édico tentava reanim ar Vitória de novo, deu um veredito na frente de m uitas testem unhas.
– Qquero esse rapaz m orto!
RESERVA
– Nós j á devíam os estar em rota, Marcel! - falava Tam ires ao cunhado.
Sentados cada qual em um lado da sala, conversavam há algum tem po. Na verdade o rapaz grandalhão tentava ignorar a cunhada na m aior parte. Ela sim plesm ente não parava de falar. Estava com eçando a irritá-lo.
– Você pelo m enos tem algum a ideia de quantas conexões terem os que pegar para chegar a Corum bá? - O loiro respondeu com um dar de om bros. - Três! Dem orarem os m ais de oito horas para atravessar o país. Então, não m e venha dizer que estou sendo precipitada.
– Relaxa, Tam ires. O cara está se casando agora. A gente não pode sim plesm ente invadir a festa nem estragar a lua de m el! - retorquiu o loiro.
– Jam ais com eteria essa deselegância! - respondeu a ruiva agindo com o se ainda frequentasse a alta sociedade de Foz do Iguaçu. - Mas tínham os que estar por perto, pelo m enos na m esm a cidade, antes que Suzane nos diga que chegou a hora.
Marcel bufou. Estava controlando sua raiva o m áxim o que podia, destilando todo seu sarcasm o.
– Vam os chegar atrasados de novo! - essa frase cham ou a atenção, então resolveu atiçar a fogueira. - Você não é organizado, Marcel. É um péssim o rastreador!
Estreitando os olhos e franzindo o cenho, o hom enzarrão m ostrou todo sua fúria levantando-se da poltrona em um ím peto. Tam ires não deu a m enor im portância. Ergueu-se tam bém e o encarou de igual para igual.
– Sou um péssim o rastreador? - vociferou o loiro. - Posso localizar qualquer um agora m esm o! Posso encontrar seu queridinho, quer ver?
– Não!
O grito estridente de Suzane foi captado som ente por seus ouvidos, sua m ente vagava m uito longe dali. Tam ires assistia em choque, com a respiração suspensa. Era a prim eira vez que via o cunhado em ação.
Em apenas m ilésim os de segundos, Marcel percorreu m ilhares de quilôm etros. Bastava se concentrar na pessoa que desej ava rastrear e pronto, o cam inho lhe era m ostrado com o um fio atrativo. Abriu os olhos com o se apenas tivesse piscado.
– Ele está nas cataratas - disse sorridente. - Não posso ler seus pensam entos, m as posso im aginar no que está pensando ou em quem .
Tam ires engoliu em seco assistindo o contentam ento de seu cunhado. Foi do espanto a fúria em um estalar de dedos e toda sua energia correu por seu corpo com o se fosse palpável.
– Marcel, não! - gritou novam ente Suzane do quarto.
– Qual é, até Su está defendendo você! - e gargalhou caçoando da preocupação da nam orada.
Apenas um canto da boca da ruiva se ergueu em um m eio sorriso. Estendeu um a m ão para a frente e o loiro foi lançado contra a poltrona, que derrapou no piso frio e parou som ente quando se chocou contra a parede.
Tonto, tentando se recuperar do choque e se erguer do chão, Marcel percebeu os passos de Tam ires se aproxim ando firm es e duros.
– Deixe Gustavo em paz! - berrou.
Seu corpo trem ia levem ente com a dor que o cutucão na ferida ainda aberta provocara. Era tudo tão intenso em seu novo organism o, apesar da força que possuía agora. O cunhado não tinha o direito de brincar com seus sentim entos.
– Você é m esm o durona, hein? - constatou Marcel se recuperando do ataque repentino.
– Da próxim a vez, ouça Suzane. Ela tentou te avisar. - Teve um estalo. - Espera aí, Marcel! - o cunhado paralisou no m eio do m ovim ento. - Suzane viu que você seria atingindo instantes antes de eu agir. Isso prova que chegarem os atrasados!
– Você está querendo dizer que ela não é um a boa vidente? - revoltou-se o rapaz.
– Claro que não! Apenas que o dom dela não está em um estágio avançado para ver com um a antecedência segura para Lucca.
– Está bem . Você venceu. Chega desse showzinho, ok? Vai arrum ar suas m alas.
– Já estão prontas há alguns dias, inclusive j á com prei as passagens.
– Então vou fazer as m inhas - falou totalm ente de pé agora, cam inhando até o quarto que dividia com a nam orada. - Ligue para Alexandre.
Tam ires pegou o telefone sabendo que havia ganhado aquela batalha, m as algo lhe dizia que, ainda assim , não chegariam a tem po.
***
Um a sensação perene de paz inundou o corpo e a m ente de Lucca quando despertou naquela m anhã. Os raios solares invadiram pouco a caverna escura, porém o suficiente para que percebesse que estava am anhecendo. Em seus braços fortes e brancos, Mainá repousava serenam ente.
Contem plou o rosto m oreno e belo da índia e sorriu. Não conteve o desej o de acariciar sua pele. Preguiçosam ente seu corpo nu se contorceu e seus lindos olhos chocolate se abriram . Lucca m ergulhou em toda sua profundidade sem tem or. Realmente aconteceu!, eles lhe disseram . Seus lábios carnudos sorriram . O rapaz não respondeu, apenas se curvou e a beij ou apaixonado.
Por que eu demorei tanto tempo para reconhecer esse sentimento tão intenso? Sinto que ele mal cabe dentro de mim!, pensou Lucca enquanto apertava o corpo m acio e forte da indígena contra o seu. Fui cegado por minha própria razão, impedindo que a sensibilidade mostrasse meu verdadeiro caminho. A pedra fria entre eles brilhava e lhe cobria de bom hum or e tranquilidade.
Lucca pensou que podia ficar com Mainá em seus braços, nua e entregue, para sem pre e nunca se sentiria cansado. Queria com pensar o tem po perdido longe dela. Desej ava recom eçar sua vida. Sentiu-se um privilegiado por, aos trinta e dois anos, ter a oportunidade de ser feliz de verdade. Não a j ogaria fora. Afastou-se dolorosam ente de seu am or para que pudesse expressar o que estava sentindo.
– Mainá, obrigado! – sussurrou. - Obrigado por ser sincera com igo, por dizer o que pensa e o que sente sem pre. Jam ais enxergaria sozinho o erro que estava com etendo. Nunca poderia sequer im aginar que você é a m ulher certa para m im .
A indígena pousou os dedos sobre seus lábios para interrom pê-lo. Seus olhos pedindo para que não dissesse m ais nada. Ela sabia.
– Por favor, deixe-m e dizer tudo - forçou as palavras entre os lábios cerrados. - Em toda m inha vida nunca dei oportunidade para os sentim entos. Minha m ente racional não os entendia e na tentativa de decifrá-los criou im itações chinfrins. Nunca m e perm iti sentir verdadeiram ente e você foi a única que conseguiu transpor a barreira e penetrar em m eu coração. Obrigado por m e ensinar a am ar.
– O am or convida o am or, Lucca - respondeu Mainá. - Assim com o acontece com outros sentim entos, bons ou ruins. Sem pre am ei você, m esm o antes de te conhecer. E se tivesse escolhido outra, ainda te am aria. Não m e agradeça, por favor. Apenas m e am e. - E o apertou fortem ente contra si.
Aquela m ulher era m esm o digna de ser am ada com intensidade e paixão. O am or incondicional que lhe devotava era o m aior exem plo que j á havia visto diante de seus olhos. Nem o am or de seus pais fora tão forte a ponto de com ovê-lo. Não que não os am asse, m as sabia que era um am or de convivência, não de entrega.
– Vam os tom ar banho de rio? - sugeriu repentinam ente Mainá.
Com o recusar? Lucca não tinha forças para isso. Nu e de m ãos dadas, o casal saiu da gruta que ficava bem afastada da parte m ais visitada do parque e m ergulhou nas águas do Paraguai a alguns passos das rochas. A brincadeira se transform ou em um a tórrida cena de am or. O cenário ao redor se m odificando conform e a natureza desej ava.
O sol m aj estoso se m ovia no azul celeste no qual algum as nuvens flutuavam descontraídas com o flocos de algodão. Aves sobrevoavam o rio em busca de alim ento, outras se m antinham im óveis às m argens a espera do m om ento exato para o bote. A m ata verde se alterava ao passo que a luz da m anhã incidia sobre ela.
Alheios a tudo a sua volta, Lucca e Mainá só tinham olhos um para o outro. Não paravam de se beij ar, se tocar, se acariciar, se am ar. Cada gesto era carregado de felicidade, êxtase e um a alegria exuberante. Com o apaixonados, se conheciam a vida toda e, no entanto, viveriam o resto de seus dias adm irando quem eram em cada nova descoberta.
Estiraram os corpos exaustos sobre a areia da prainha a fim de se secarem ao sol. Mainá traçou linhas e curvas no corpo de Lucca, louvando sua beleza. Você é tão bonito sob a luz resplandecente, seus olhos o elogiaram . O arqueólogo riu pensando que reflexivo seria a palavra m ais adequada.
Passou os dedos entre as m echas escuras e pesadas dos cabelos com pridos da índia, adm irando seu brilho intenso e sua cor de ébano. Sua pele am adeirada, de cor quente, era sedosa e tinha um arom a doce irresistível. Salpicou-a de beij os. Seus pelos arrepiaram e seu corpo estrem eceu.
Em poucos m inutos estavam secos, som ente os cabelos úm idos e bagunçados. Devido ao sol forte, procuraram a som bra de um a árvore enquanto conversavam e nam oravam , curtindo um pouco m ais a com panhia um do outro. Não desgrudaram nem por um segundo sequer.
Nada poderia abalar sua paz. Ainda assim , a m aior parte da atenção de Lucca estava voltava para Mainá e um a pequena, para os sons em um raio de cinco quilôm etros. Podia ouvir a m ovim entação de pessoas no parque, os carros na rodovia e os anim ais ao redor. Poderia, assim , saber com antecedência se algum perigo se aproxim asse deles.