Filho da Terra - Os Quatro Elementos, Volume 2

Josy Stoque · Capítulo 1 de 1 · parte 5/13

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Filho da Terra - Os Quatro Elementos, Volume 2

Prólogo

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 13 partes.

Conhecia essa parte muito bem, mas para mim sempre fora algo distante. Provavelmente porque nunca havia conversado com um indígena antes. Agora, ouvindo a emoção embargando a voz de uma descendente desse povo tão sofrido, tive pena e enxerguei o lado óbvio e triste dessa história.

– Sinto muito - foi a única coisa que fui capaz de dizer.

Suspirou ruidosamente, como se estivesse enfada, antes de prosseguir.

– Hoje vivemos isolados em lugares que os brancos determinaram que ficássemos.

Pedaços minúsculos de mata na qual é muito difícil tirar subsistência para todo o povo. O tanto que antes nos fartávamos nestas terras, hoje somos miseráveis nela.

Não sabia o que dizer, então deixei suas palavras morrerem no silêncio.

– Mas não se desculpe - voltou a falar. - O que está feito não pode ser mudado. Já aceitei isso. Aceitei meu destino.

– Você parece bem instruída - resolvi disser a fim de apaziguar sua tristeza. - Estudou em nossas escolas?

– Sim. A melhor maneira de combater o inimigo é conhecendo-o intimamente - olhou para mim sorrindo. - Brincadeirinha. Estudei seu ensino fundamental e médio. Depois fiz Letras na UFMS. Falo tupi-guarani, português, espanhol e inglês fluentes.

– Poxa! - exclamei. Era a primeira vez que ouvia falar de uma índia que havia estudado tanto - Como nunca te vi antes em Corumbá?

Deu de ombros antes de responder.

– Acho que não tínhamos as mesmas amizades - riu.

– Você tinha muitos amigos? - perguntei.

– Na verdade não - respondeu rapidamente. - Meu irmão mais velho me acompanhou até o ensino médio, mais para me vigiar do que para estudar. Ele não tinha idade e nem interesse, nunca se formou.

– E por que você quis continuar estudando?

Percebi que Mainá se sentiu desconfortável com a pergunta. Parecia tão inofensiva. Haveria alguma explicação mística em suas escolhas? Deveria haver, os indígenas eram fortemente ligados à espiritualidade.

Mainá ficou muito tempo fitando o solo a sua frente, evitando meu olhar, no maior impasse para encontrar a resposta certa. Resolvi fazê-la desistir.

– Tudo bem, não precisa responder se não quiser.

Nossos olhares se encontraram o que pareceu uma eternidade e aquela vozinha, calada até agora, resolveu se manifestar no silêncio entre nós. Eu não quero assustá-lo de novo, m as tam bém não quero m entir. O que devo dizer? Esperei que a voz se calasse e que Mainá respondesse alguma de minhas perguntas.

– Tudo bem, quero responder. - Limpou a garganta e continuou. - Bem, como disse antes, aceitei meu destino. E queria estar preparada para ele, de todas as formas: espiritual, física e mentalmente.

Podia entender isso. E não faria mais perguntas inapropriadas. Era tão bom ficar ao lado daquela estranha, não queria afugentá-la. Sua presença era tranquilizadora. Seu jeitinho me encantava. A força que emanava de seu corpo e de sua personalidade eram marcantes e admiráveis.

Ficamos sentados lado a lado em silêncio, olhando algum ponto desconhecido ao nosso redor. O tempo passava sem que nos mexêssemos ou nos olhássemos. Não pensava em nada. Minha mente era um grande branco e as vozes estavam silenciosas. Ficamos ouvindo os sons da noite, eu o quanto mais longínquo conseguisse alcançar.

Fiz uma retrospectiva do meu dia estranho, sem sofrer com os tormentos que haviam me perseguido. Então, me lembrei de Vitória e seu falso desmaio. Não me senti motivado a cumprir minha promessa, mas nunca conseguiria agir por instintos sombrios. Agiria corretamente, sempre.

Suspirei e olhei para ela.

– Já está tarde. Preciso ir embora.

A índia valente se virou para mim, o rosto impassível. Seus olhos profundos - via direta para sua alma - banharam os meus. Agora você sabe a verdade. A vozinha, antes calada, voltou a sussurrar em meu ouvido, mas dessa vez sorri.

Quando nos levantamos, a pedra em seu seio acendeu repentinamente, me envolvendo com sua névoa de confiança e bem-estar. Precisava de uma carga extra de bons fluídos para enfrentar o meu destino - usando as palavras de Mainá. Por um segundo, desejei que esse destino fosse diferente para mim. Mas apaguei esse pensamento imediatamente de minha mente.

– Posso voltar amanhã? - perguntei à índia.

Seu sorriso se iluminou como a pedra em seu peito. Sem saber como reagir, como me despedir, me debrucei sobre seu rosto e lhe beijei a testa em sinal de respeito e afeição. Senti seu corpo tremer sob meus lábios e mãos - em seus ombros - e me afastei depressa, sentindo as vibrações de seus tremores fluírem através de meu próprio corpo.

PROVAS

 

Vitória fez com que Lucca dorm isse na fazenda - no quarto de hóspedes, claro - evidenciando carência depois daquele dia horrível. Ele não conseguiu recusar. Ela ainda dem onstrara desconfiança. Ele desviou o olhar para não ouvir o restante de seus pensam entos. Um calafrio percorreu sua espinha.

No Café da m anhã, a noiva o lem brou das obrigações do dia.

– Querido, depois da refeição você precisa se trocar rapidam ente. Nosso com prom isso com a organizadora de eventos é às nove horas.

Lucca não se lem brava de ter ouvido aquilo antes. Bem , não se lem brava de nada do que elas conversaram no dia anterior e seu rosto denunciou sua ignorância.

– Hoj e é dia das provas! - exclam ou.

O fazendeiro ergueu um a sobrancelha de espanto durante a conversa do j ovem casal à m esa, saboreando seu café da m anhã reforçado. Para alívio de Lucca, não se m anifestou. Precisava ficar m ais atento a partir de agora se não quisesse deixá-lo zangado com seu descaso.

Teria que faltar no trabalho o dia todo e não avisara ninguém . Enquanto saía da fazenda rum o a sua casa - estava doido para tom ar um banho e trocar de roupa -, ligou para Carlos a fim de inform á-lo sobre sua ausência. Lucca im aginou a careta de seu m elhor am igo do outro lado da linha. Desligou depressa.

Ao chegar, Lucca se sentiu m al por excluir sua m ãe daquele dia. Porém , sabia que Vitória não gostaria de ninguém palpitando em suas escolhas. Para isso pagava um a profissional -que devia fazer tudo exatam ente com o ela queria. Parou na sala tem po suficiente para explicar m elhor o desm aio de sua noiva no dia anterior - com o um rapaz responsável que era, Lucca havia telefonado para seus pais avisando que dorm iria fora.

Apesar de desej ar prolongar o m om ento, não tinha tem po para se dem orar no chuveiro. Vestiu a prim eira roupa que encontrou no arm ário e voltou para a fazenda a fim de pegar Vitória.

Ela desceu as escadarias tirando o ar dos pulm ões de Lucca a cada passo. Estava deslum brante. Vestida de form a m odesta na cor - era um a dessas cores pastéis da m oda -, porém o tubinho de corte perfeito acentuava as curvas salientes e nos pontos certos de seu corpo pequeno e esguio, cobrindo até a altura dos j oelhos. Seu cabelo loiro, solto até a cintura, tinha as pontas onduladas em cachos - com o ela havia feito aquilo? Ele estivera fora por m enos de um a hora. Seu rosto claro, sedoso e aveludado estava rosado de form a tão doce em suas m açãs. Seus olhos negros em contraste perfeito, som breados com cílios longos, delineador e som bra esfum açada escuros. Sua boca carnuda pintada de um rosa suave e delicado. Parecia um a m odelo.

Sem perceber o que estava fazendo, saiu do carro e cam inhou em direção a sua noiva, encontrando-a no últim o degrau. Seus olhos se tocaram por um a fração de segundo, não dando tem po de ver nada antes que ele a beij asse. Durante todo o traj eto até o centro, percebeu que Vitória não tirava os olhos dele, analisando cada porm enor. Porém , não estava disposto a ouvir vozes hoj e. Evitou encará-la.

Lucca não queria se sentir enoj ado com a vozinha que sim ulava a de Vitória e seus pensam entos torpes. Eram tão repugnantes e inaceitáveis. Não poderia m esm o sair da cabeça linda daquela m ulher delicada ao seu lado. Ainda com rem orso pelo seu esquecim ento, prom eteu a si m esm o que prestaria atenção nas tarefas daquele dia. Vitória m erecia isso. Não podia decepcioná-la.

No escritório da organizadora de eventos, havia um a lista de coisas a serem escolhidas. Lucca ficou perdido. Não sabia que um casam ento exigia tantos detalhes. Com o conseguiriam fazer tudo aquilo em um único dia? Não seria suficiente.

Em cim a das preferências apresentadas por Vitória nos dois prim eiros dias de pré-produção - com o a j ovem apelidara -, a organizadora de eventos tinha três m odelos de cada item da lista. Lucca focou, chocado.

Prim eiro item , a lista de convidados. Estava pronta, no entanto, precisava de algum as confirm ações. Lucca decidiu-se por incluir algum as pessoas de seu trabalho e Vitória de excluir algum as pessoas da cidade. No fim , a lista possuía m ais de trezentos convidados, entre fam ílias, am igos e autoridades de Corum bá. Onde a organizadora pretendia colocar toda aquela gente?

A partir da lista, dissera a organizadora, seria possível contratar todos os outros serviços. Em seguida, os padrinhos. Cinco casais de cada lado ficaram acertados afinal. Os paj ens, crianças de pessoas conhecidas j á presentes na lista de convidados. Um casal para as alianças e um a florista que tam bém entregaria as lem bracinhas aos padrinhos.

Passaram ao item seguinte. As lem brancinhas dos convidados seriam chinelos personalizados e am êndoas. Para os padrinhos, um kit para caipirinha e para as m adrinhas, um porta-j oia personalizado. Os noivinhos do bolo teriam as características físicas dos noivos e retratariam suas personalidades.

Depois, a lista de presentes. Apesar de não ter necessidade, Vitória pendeu para cotas de viagem . Com o m orariam na fazenda, não tinham necessidade de utensílios dom ésticos, m óveis ou eletrônicos. A organizadora tinha três agências que poderiam oferecer os m elhores serviços. Vitória escolheu a m elhor e m ais cara. Na verdade, estava acostum ada com aquela agência e conhecia as atendentes e o atendim ento vip.

A decoração, em seguida. As flores eram os copos de leite - que a noiva tinha citado no dia anterior - e rosas verm elhas. Ela am ou o contraste em algum as fotos que viu. Tam bém escolheram , entre as opções, a m elhor em presa que oferecia, além das flores, m esas, cadeiras, toalhas, tendas e tablado para a pista de dança.

O buffet fora escolhido ontem - durante o devaneio de Lucca. Ofereceriam , além do alm oço, o bolo, os doces, as bebidas e os garçons. A organizadora conseguira agendar um a degustação para hoj e na hora do alm oço - tão apropriado! - para que escolhessem o cardápio.

Para a segurança - j á que seria um evento em um a área aberta, porém privada, e Vitória tinha horror a penetras - tam bém foram apresentadas três das m elhores opções da cidade. A noiva escolheu o que tinha a m elhor recom endação - Lucca acreditava que seu pai devia ter palpitado nesse item .

Os três m odelos de convites estavam sobre a m esa quando chegaram a eles na lista. Vitória os entrelaçou nos dedos, analisando com cuidado os finos papéis decorados. Um branco, um crem e e um preto. Lucca havia gostado do preto, m as não disse nada até ouvir a escolha de sua noiva. E ela gostou do crem e. O que os ricos tinham com cores pastéis? Tão desbotado.

Os m úsicos escolhidos faziam parte de um a banda m uito conhecida na região. Tocavam instrum ental. Vitória am ava violino e saxofone. Não foi a escolha m ais difícil da m anhã. A organizadora tinha um a lista das m úsicas m ais pedidas em casam entos, porém a noiva riscou quase todas, tinha a própria lista de suas m úsicas preferidas e as enum erou de cabeça. Lucca se espantou ao reconhecer a m aioria delas de m om entos em que viveram algo especial. Eram m úsicas que contavam a história deles. Ficou com ovido.

O serviço de foto e film agem tam bém não foi com plicado de escolher. Vitória havia trabalhado com um a em presa m uito boa de Corum bá em seu aniversário de quinze anos. E ela estava na pequena lista da organizadora. A noiva sim plesm ente apontou para a em presa sem nem olhar para as outras opções.

A m anhã j á havia term inado há algum tem po quando, finalm ente, Vitória se decidiu pelo cartório no qual assinariam o contrato nupcial - com com unhão parcial de bens, para espanto de Lucca - e pelo celebrante, que seria o padre da igrej a m atriz que a havia batizado. O noivo nunca vira seu lado católico antes.

Enfim , partiram no pequeno popular de Lucca para o buffet - seu estôm ago roncava alto enquanto dirigia. A com ida era boa e farta. Os m elhores pratos do requintado cardápio da em presa foram servidos aos três. Era difícil se contentar apenas com um a garfada - com o faziam as m ulheres -, porém não queria parecer um m orto de fom e.

No fim da escolha, depois de com er pratos tão variados, Lucca estava m uito cheio - não satisfeito, porque nada m elhor para ele do que um belo arroz e feij ão com carne seca - e não conseguia pensar que ainda tinha que provar bolos e docinhos. Com o as m ulheres conseguiam pensar em continuar com endo?

Para piorar um pouco a situação, Lucca não gostava m uito de doces. Vitória sabia disso, portanto, não chiou quando ele parou na prim eira garfada. Ela estava satisfeita e radiante, não havia feito nada - com o sem pre - para desagradá-lo ou hum ilhá-lo. Estava paciente e cheia de sorrisos. O noivo am ava vê-la assim .

Lucca não podia pensar em se m over depois que Vitória escolheu a com ida e os doces da festa, m as ainda tinham que escolher o terno e o vestido. Ele pensou que estaria uns dois quilos m ais gordo por causa de toda a com ida do alm oço. Com certeza não seria o m elhor m om ento para provar roupas. A noiva lhe garantiu que seria apenas a prim eira prova, que outra seria feita às vésperas do casam ento.

Foram a um a requintada loj a - j á escolhida no dia anterior tam bém - especializada em atender noivos. Além das roupas - que incluía no pacote: paj ens, dam as, padrinhos e pais dos noivos -, a em presa - m uito grande, na visão de Lucca, para um a loj a de roupas - tam bém oferecia dia do noivo e da noiva. Vitória teve que lhe explicar que na m anhã do casam ento teriam à sua disposição m assagista, m anicure, pedicura e cabeleireiro, e que sairiam prontos dali para a cerim ônia, que aconteceria ao m eio-dia.

Para m ostrar sua estrutura com pleta aos noivos, a proprietária realizou um tour pelos dois grandes andares. Ao fundo da enorm e e sofisticada recepção, havia várias salas e profissionais prontos para atender o público fem inino. Lucca viu banheiras de hidrom assagem e equipam entos que nem im aginava o que seriam . O andar superior era totalm ente voltado para o público m asculino. Lucca ficou im pressionado. Havia frigobar, garçom e bebidas caras e im portadas espalhadas pelo balcão logo na entrada. Parecia um bar, à prim eira vista, cheio de poltronas aconchegantes e decoração futurista. As salas eram sem elhantes às debaixo, porém m enos m isteriosas para ele.

Havia m uita privacidade tam bém . Não teria com o Vitória e Lucca se cruzarem durante aquela m anhã, nem m esm o ver outros clientes enquanto estivessem sendo atendidos. Tinham até um a saída pelos fundos para que os noivos não se vissem antes da cerim ônia. Tudo m uito bem arquitetado.

Depois das devidas apresentações, Lucca e Vitória foram separados. Porém , a organizadora ficou com ele para apresentar as opções de ternos m ais próxim as aos pensam entos da noiva.

Passaram horas daquela tarde na loj a. Lucca perdeu as contas de quantos ternos vestiu. Por que para esse tipo de tortura a organizadora não tinha som ente três opções? Mas ele tinha que adm itir que parte fora por sua culpa, que rej eitara as prim eiras três opções que ela lhe dera, então fora obrigada a encontrar outras três. A coisa foi tão m açante que ele acabou voltando para as três prim eiras e escolheu a que m enos lhe desagradou. Afinal, sabia que Vitória ficaria satisfeita com um a delas.

***

Devido ao verão, o sol ainda não estava se escondendo atrás da linha do horizonte quando saímos do salão no fim do expediente. Já estava faminto de novo e muito exausto, só queria um banho e cama. Porém, Vitória ainda desejava me levar a um lugar, garantiu que seria o último. Eu me resignei e segui as instruções do caminho que ela me indicava.

Eu me espantei quando o endereço me fez parar em frente a um hotel cinco estrelas.

– O que é isso? - perguntei em voz alta.

A organizadora soltou um risinho baixo enquanto Vitória me respondia.

– Pensei que podíamos passar a noite de núpcias aqui. Seria muito mais interessante do que na fazenda. - Fez uma pausa enquanto eu digeria suas palavras. - Então descansaríamos e viajaríamos somente no dia seguinte ao casamento. No domingo de manhã.

Apenas fui capaz de balançar a cabeça concordando. Vitória simplesmente havia pensado em tudo. Estava impressionado. Desci do carro seguido pelas duas. A organizadora tomou as rédeas quando chegamos ao balcão de informações.

– Boa tarde. Por gentileza, as três reservas em nome de Vitória Cruz. Viemos escolher as suítes.

O atendente demonstrou compreender a situação imediatamente e, pegando as chaves, nos guiou até o elevador. Paramos no oitavo andar.

– Esta é nossa suíte máster - anunciou o rapaz enquanto abria a porta.

Não era nada mau, claro. Muito melhor do que qualquer coisa que eu já havia visto, ao vivo, em toda minha vida. Porém, Vitória não demonstrou nenhum interesse.

– A outra, por favor - pediu com gentileza.

Subimos mais um andar. A suíte era maior que a anterior. Presidencial, explicara o jovem. Acreditava que não tinha como ficar ainda mais admirado. E minha noiva teve a mesma reação.

Subi no elevador chocado. A que tipo de vida Vitória estava acostumada? Teria escolhido a primeira sem pensar duas vezes. Porém ela não estava feliz com aquela. O que faria para agradar essa mulher depois que fôssemos casados? Tive medo, muito medo.

Quase não percebi quando o elevador parou no décimo andar, a cobertura. Caminhei automaticamente e demorei alguns segundos para entender que já estávamos na suíte. Era três vezes maior que a outra, o requinte lembrava a cena de algum filme fantástico, talvez um hotel em Dubai. As peças da decoração pareciam de ouro maciço, os móveis dispostos de madeira bruta e personalizada. Logo percebi que aquela era apenas a sala. Devia haver uma cozinha, com certeza. Porém, Vitória caminhou para uma porta lateral e a segui.

Entramos em um quarto enorme, quase do tamanho de minha casa inteira. Uma cama -que devia caber umas cinco pessoas - estava bem no centro da suíte. Alguns móveis talhados em madeira eram dispostos ao seu redor, mas o que me chamou a atenção foi o perfume. Havia pétalas de rosa espalhadas por toda a parte, velas aromatizadas iluminavam o ambiente - já que as cortinas grossas estavam bem fechadas impedindo a luz do dia de entrar no quarto.

Senti uma tensão. Não a de medo que sentira anteriormente, porém a que aquele ambiente incitava. Como que para traduzir o que eu pensava, Vitória caminhou direto para a cama e se estendeu nela. Seus olhos sorriram maliciosamente para mim. Sua perna dobrada balançando despreocupadamente de um lado para o outro.

– Por que você não vem aqui também? - sussurrou sua voz aveludada e voluptuosa.

Um apetite diferente remexeu em meu corpo. Encurtei a distância entre nós, totalmente seduzido pelo cenário e pela clara intenção de Vitória. No entanto, me sentei ao seu lado e esperei.

Não precisei esperar nada, para meu espanto, a menininha frágil e delicada que sempre via em minha noiva desapareceu daqueles olhos melados de desejo que se debruçaram sobre mim. Sua boca sempre tão doce agora tinha um sabor sensual. Era o sabor do pecado. E não tinha forças para fugir daquela tentação.

E por que deveria? Não era nossa primeira vez, apesar de eu ter sido o primeiro homem de Vitória. Há muito tempo havia renegado esse desejo - essa necessidade física que teimava em vir à tona em momentos inapropriados de minha vida - para não basear nossa relação nisso. E ela nunca reclamara. No entanto, todas as vezes que a gente se permitia essa intimidade, a iniciativa era minha, não dela.

Essa era algum tipo de primeira vez. Nem me preocupei se tínhamos plateia. Com certeza, tudo aquilo havia sido arquitetado com nossos acompanhantes e caí na armadilha como um patinho. Não estava infeliz com isso. Saberia apreciar muito bem meu calvário.

Como em todo o dia, Vitória regeu aquele momento. Ela me pressionou contra a cama com seu corpo magro, usando toda a força de seu desejo, enquanto sua boca devorava a minha com uma paixão que nunca havia expressado antes. Mantive minhas mãos em suas costas.

Sua língua, muito quente e úmida, dançou dentro de minha boca buscando a minha. Dei-lhe o que ela buscava ao mesmo tempo em que ela apertava seus dedos envolta dos meus braços. Sua boca desprendeu da minha em seguida e sua língua desenhou o formato de meu rosto, do queixo até o lóbulo da orelha.

Senti um arrepio quente e sensual percorrer cada fibra do meu organismo. Meu corpo reagindo por conta própria aos impulsos ferozes de Vitória. Sua língua quente dançou pelo meu pescoço até a gola de minha camisa, onde suas unhas longas desafiaram rasgar o tecido com sua força. Gemi alto. Onde ela havia aprendido isso?

Em um simples puxão rápido, suas mãos libertaram meu abdômen do tecido e sua língua não deixava minha pele. Meus pelos se eriçaram, meus músculos se contraíram, meu corpo se preparou para receber mais e mais estímulo.

Cada sensação corpórea era tão nova quanto a atitude de Vitória em comandar as preliminares. Eu estava em êxtase. Permitiria que me fizesse seu escravo sexual, se assim quisesse.

Seu rosto não voltou para mim. Sua língua continuou traçando um caminho errante em meu peito e abdômen. Suas mãos, pequenas e ágeis, estavam no cinto de minha calça. Pulsei de excitação antecipando o que aconteceria em seguida.

Livre de todo tecido, a boca de Vitória - um calor incandescente em sua língua queimando minha pele por onde passava - vasculhou áreas nunca antes conhecidas por ela. Eu me regozijei de prazer.

No entanto, ela não se demorou muito, descendo freneticamente pelo interior de minhas coxas. Gemi alto de novo pelas sensações que meu corpo imprimia ao seu toque. Era melhor que qualquer coisa que eu já havia experimentado antes.

Quando se voltou para mim, Vitória tinha um brilho diferente no olhar. Estava corada e ofegante. Excitada. No entanto, seu olhar era dominador. Diga que nunca vai desistir de m im , diga! A vozinha se manifestando fora de hora, como sempre. Porém, fui capaz de responder ao procurar no fundo de minha garganta uma voz rouca e cheia de emoção que parecia a minha.

– Eu quero você!

Um sorriso malicioso pintou seus lábios enquanto ela se debruçava rapidamente sobre mim, suas mãos tentando abaixar o zíper nas costas do vestido. Eu as encontrei ali e a ajudei a tirar a roupa, nossas mãos juntas enquanto baixávamos o zíper. Auxiliei-a a tirar o vestido pela cabeça, na pressa de estar dentro dela.

Enquanto beijava seus seios, ela se sentou no meu colo e a senti quente e úmida, um prazer inexplicável subindo pelo meu corpo enquanto me familiarizava com o dela. Vitória se movia sobre mim devagar, mordendo o lábio inferior em uma aparência adorável. Suas mãos sobre as minhas, acompanhando minhas carícias. Incontroláveis, procuravam tocar sua pele tão macia e sedosa enquanto ela aumentava o ritmo devagar e suas unhas se enfiavam na pele de meu abdômen sem que me causasse verdadeira dor, somente prazer.

Eu me senti alucinado, as emoções crescendo como se fossem explodir dentro de mim e jorrar descontroladas. Não poderia contê-las por muito tempo e, no entanto, queria prolongá-las o máximo que pudesse.

Tentei me concentrar em seu rosto rosado enquanto tentava, com todas as forças, controlar minha excitação. Mas não era o rosto de Vitória. Era moreno, os olhos derretidos em um chocolate quente, os cabelos, escuros como a noite, caindo sobre os seios pequenos. Era o rosto de Mainá.

Pisquei, enfurecidamente. Devia estar sonhando. E minha visão conturbada visualizou o rosto de Vitória por apenas um segundo, tempo suficiente para que suspirasse de alívio e perdesse o pouco controle que tinha sobre as emoções dentro de meu corpo forte, mas não forte o bastante para represá-las.

O rosto feroz de Mainá, porém tão excitado quanto o de Vitória, sorriu para mim com volúpia. Um sorriso que eu nunca vira antes desenhado nele. Enquanto se movia, cada vez com mais rapidez, as unhas cravadas nos meus músculos, as minhas próprias mãos apertando seus braços e seios, o rosto de minha noiva voltou, um gritinho escapando de seus lábios entreabertos.

No movimento seguinte, Mainá estava de volta sobre mim, toda sua força despejando deleite no meu corpo. Algo diferente do que estava provando até agora. Era um deleite de espírito. Minha mente, meu coração - palpitante e descompassado - e todo meu corpo ansiando por tomar a índia para si, mas ela não poderia me pertencer, nem naquele pensamento insano.

Suas mãos fortes me agarraram com mais força enquanto se agitava diante de seu próprio orgasmo, os espasmos de sua excitação me sufocando dentro dela. Eu me permiti acompanhá-la nesse prazer imenso, juntos durante um momento único e impensado. Seu corpo ainda se movendo sobre o meu com ferocidade.

E no segundo em que alcancei o clímax, relaxando no êxtase das emoções eclodidas de dentro para fora, o rosto da índia foi substituído pelo de minha noiva, totalmente vermelho e sem fôlego.

Eu me senti um traidor. Não por Vitória, mas por Mainá.

CAPRICÓRNIO

 

A lembrança da imitação da voz de Vitória em minha cabeça era perturbadora. Por que nunca fizem os am or assim antes? Uau, tenho m ais um bom m otivo para m e casar com ele. Eu a ouvi enquanto ainda sentia remorso e seu corpo exausto pelo esforço se debruçava sobre mim. Fugi daquelas palavras com desespero. O que havia me tornado, um objeto sexual? Eu me lembrei que havia pensado que não me importaria com isso. O que o calor da emoção não faz.

Mas agora era diferente. O rosto de Mainá presente naquele momento destruiu todas as minhas convicções. Não sabia mais o que era e o que queria ser. Não sabia por que havia pensado- imaginado seria o melhor a dizer - nela exatamente durante aquele momento. Nunca havia olhado para a índia dessa forma antes.

Até visualizá-la sobre mim se agitando selvagemente.

Não podia me sentir assim. Não agora. Conhecia Mainá há apenas três dias e Vitória há sete anos. Tive tempo de sobra para desistir, talvez até para me apaixonar por outra pessoa. Agora era tarde demais para mim. Meu casamento estava marcado para dali dez dias.

Queria apagar aquela imagem sensual da índia de minha memória e só encontrei uma maneira, ver seu rosto sereno e decidido de novo. Eu me levantei da cama em um pulo, afastando Vitória de meu corpo.

– Onde é o incêndio? - perguntou rindo.

– Em lugar nenhum - respondi vestindo minha roupa e a encarei. - Acho melhor irmos embora.

Como sempre, Vitória não discutiu comigo, mas aquela maldita vozinha falou de novo. O que eu fiz de errado? Por que ele está m e rej eitando? Engoli em seco diante das palavras totalmente possíveis de serem pensadas pela mulher nua estendida sobre a cama, uma incógnita torcendo seu rosto. O que eu estava fazendo? Estragando tudo, evidente. Parei de abotoar a calça e me sentei ao seu lado na cama.

– Hoje foi incrível, meu amor - afaguei seu rosto enquanto falava, a mentira totalmente escondida pelo tom carinhoso de minha voz. - Mas já anoiteceu. Não posso passar mais uma noite fora de casa. - E a vozinha: Aff, ele tem que estar pensando quando não devia? Tentando esconder a minha raiva, continuei. - Teremos uma vida inteira para momentos como este.

Saímos para a noite escura, além dos postes, o céu estrelado nos recepcionou. Agradeci ao acaso pelo parque estar no meu caminho de volta para casa, depois de deixar Vitória na fazenda. Pelo menos não corria o risco de ser visto por alguém em uma rota diferente.

Teria congelado se não estivesse dirigindo. O que estava pensando? Em agir como um homem sem moral, nem princípios, que procurava desculpas para pular a cerca? E quando pulava, se preocupava em não ser pego? Não tinha que ter esse tipo de preocupação. Não estava traindo Vitória. Apenas procurando uma nova amiga.

Sim, amigos. Era exatamente isso que éramos um para o outro. Nada além disso era possível, permitido, aceitável. E depois da conversa que tivemos ontem, que esperança poderia ter de que Mainá olhasse para mim de outro jeito? Muita, afinal dissera que eu era bonito como um deus.

Apaguei esses pensamentos. Andava por um terreno perigoso e íngreme, poderia cair. Obriguei-me a pensar em outra coisa enquanto caminhava sobre as pedras até a caverna onde havia encontrado a índia há dois dias.

Pensei nas vozes que andava ouvindo ultimamente. As dúvidas de que estaria enlouquecendo ainda eram plausíveis - principalmente agora que estava vendo coisas também -, porém ao mesmo tempo pareciam dizer a verdade, por piores que fossem.

E se realmente traduzissem os pensamentos das vozes que imitavam? Nem sempre o que os outros pensavam era previsível. A simulação fazia com que pensassem uma coisa e dissessem outra. Sabia disso, não era ingênuo, nunca fora.

Então, considerando que essas vozes fossem de fato os pensamentos das pessoas, como conseguia ouvi-las? O que desencadeava sua falação, já que não ouvia o tempo todo. Tentei analisar racionalmente os momentos em que ouvira para tentar identificar seu gatilho.

A única coisa que consegui ver, em minha mente, foram os olhos de cada pessoa com quem acontecera, já que percebi há algum tempo que não havia um padrão. Pude ouvir qualquer um que estivesse perto o bastante. Seria isso? Não, teria que ouvi-lo o tempo todo se fosse a proximidade. Tinha que ser outra coisa.

Afundei em meu cérebro e a dissonância de inúmeros olhos - verdes, azuis, castanhos, negros - pintaram um quadro colorido em minha mente. Então eu soube. Era através dos olhos que podia ler os pensamentos.

Estava na minha cara o tempo todo. Toda vez que meus olhos se cruzaram com os de outra pessoa, por mais breve que fosse, ouvia aquelas vozes. Eu os evitara desde então, instintivamente, como se evita uma pessoa. Não havia pensado que eles fossem os culpados.

Talvez agora houvesse um jeito de amenizar o constrangimento. Só precisava evitar os olhares e minha mente estaria a salvo. Mas seria simples? Passaria a parecer um dissimulado, mentiroso, arisco? Nunca fui nem seria algum desses adjetivos.

Mainá me tirou do transe. Seus olhos da cor de chocolate se derreteram quando encontraram os meus. Ah, ele veio! Eu me encolhi, me sentindo impuro, não merecedor de estar em sua presença imaculada.

– Prometi que viria - respondi a seu pensamento.

– Sim - sorria ao se aproximar de mim. Não havia medo em seu rosto. - Você prometeu.

Nós nos sentamos na relva sempre úmida e ficamos calados por um tempo. Contemplei com mais atenção o firmamento pontilhado sobre nossas cabeças enquanto uma onda de bem-estar me envolvia. Olhei para ela e o ônix estava iluminando seu tórax.

– Você não veio trabalhar hoje - era sua voz, não seus pensamentos.

Fiquei feliz em poder distinguir a diferença. Aceitar talvez fosse o melhor caminho agora. Sempre me achara uma aberração, apesar de nunca acreditar que chegasse a tanto. Mas tinha uma afirmação - ela não havia dito como uma pergunta - para responder.

– Não, tive um compromisso.

O silêncio pairou entre nós novamente e fiquei pensando em suas palavras.

Não queria contar a ela a verdade de onde eu estivera o dia todo. Mas de alguma forma ela sabia que não estivera no sítio. Estaria me vigiando? Talvez estivesse me seguindo há muito tempo sem que eu percebesse. O que saberia de mim?

– Desde quando você sabe sobre mim? - a pergunta escapou de meus lábios.

Tive medo de ofendê-la, porém a pergunta tinha saído da forma correta, não do jeito que havia realmente pensado.

– Desde que me tornei adulta, para a minha tribo - respondeu.

– Isso quer dizer...

– Tinha treze anos.

Deixei sua resposta pairar sobre nós como as estrelas no céu. Eu me concentrei nos formatos das constelações, tentando identificá-las. Porém, astronomia não era minha especialidade. No entanto, pude perceber uma estrela mais brilhante, saliente, no canto de uma constelação que parecia com um bode. Ou seria um peixe? Um bode com rabo de peixe? Que estranho.

– Olhe aquele ponto amarelo brilhante ali no céu - apontou. - O maior.

Sim, estava vendo. Havia um arco envolta dele.

– Saturno? - perguntei ao tentar reconhecer o astro.

– Sim - a índia pausou. - Em breve poderemos ver sete pontos como este no céu.

Olhei para ela imediatamente.

– Lucca, em que mundo você vive? - riu. - Não assiste televisão?

Não havia visto nada sobre isso nos últimos tempos. Na verdade, fazia um bom tempo que não assistia TV.

– Quer dizer que a indígena é mais culta do que eu? Pode humilhar. Eu mereço.

– Desculpe - apressou-se em dizer. - Estou falando do alinhamento perfeito que acontecerá no início de março - me olhou novamente. - Você tem certeza de que não ouviu falar sobre isso?

Balancei negativamente a cabeça e ela prosseguiu.

– O astrônomo Pedro Tosquini fez a descoberta há um mês. Deu entrevistas para todos os canais de televisão e para todos os veículos impressos. - fez uma pausa, balançando a cabeça com timidez - Astronomia é meio que um hobby para mim. Leio tudo a respeito. Essa descoberta talvez me desse a chance de conhecer o maior cientista na área do país. Ele pretendia fazer palestras pelo Brasil para falar sobre o alinhamento e as pedras.

Sua mão se fechou em volta do ônix.

– Pretendia? Mudou de ideia?

– Não - respondeu com tristeza. - Ele morreu.

Quase caí de costas com o choque se não estivesse deitado.

– Sinto muito.

Podia entender sua frustração de um sonho perdido para sempre.

– Na verdade, foi assassinado por seu assistente. Ele já foi preso, mas ainda não contou o motivo do crime. Tudo leva a crer que queria o lugar do astrônomo.

– E o que você acha? - perguntei, estimulando-a a se abrir comigo.

– Não sei - deu de ombros. - Ele diz para a polícia que uma sombra assustadora o procurou à noite e o convenceu a matá-lo.

Caí imediatamente na risada e logo percebi o olhar reprovador de Mainá na minha direção. Ops! Eu me desculpei com meu silêncio.

– Sei que para você parece loucura o que estou dizendo, mas pode ser verdade.

O silêncio reinou entre nós novamente. Pobre garota. O que a fazia acreditar nisso? Ah, bem, isso acho que podia perguntar.

– Por que pensa assim?

Suspirou antes de responder.

– Pedro Tosquini era muito especial - me olhou antes de continuar. - Como você.

Houve uma pausa dramática enquanto olhava seus pensamentos através de seus olhos e eles me confirmavam que ela realmente acreditava naquilo. Desviei o olhar antes que pudesse chateá-la novamente com minha descrença.

– Sua missão ia além de descobrir o alinhamento, queria nos preparar para ele. Já ouviu falar sobre a Era de Aquário?

Balancei a cabeça afirmativamente incapaz de achar minha voz.

– Ela começa no dia do alinhamento – continuou. - E vai trazer paz e equilíbrio entre a humanidade e o meio ambiente.

Como aquele discurso esotérico foi parar em um tema ambientalista? Não compreendia, apenas continuei ouvindo.

– Provavelmente você sabe que todos somos ligados, astros - apertou a pedra entre os dedos novamente - natureza e humanos. No momento, nosso planeta está em desequilíbrio. A Era de Aquário vai trazer união, fraternidade e valores. Seremos beneficiados com o equilíbrio emocional.

Não acreditava que Mainá estava voltando ao tema esotérico, mas seus olhos tinham um brilho tão sincero que me prendi em seu rosto enquanto ela continuava falando, apaixonada.

– Pedro Tosquini era um gênio. Um cientista ousado. Ninguém havia arriscado suas carreiras em uma busca tão extensa e provavelmente sem fundamento. - Seus olhos profundos me tocaram quando prosseguiu. - Mas ele acreditou e não foi decepcionado. - Baixou a cabeça antes de concluir. - Fico triste que não esteja aqui para presenciar sua descoberta.

Remexi meus dedos na terra sem saber o que dizer. Procurei por uma pergunta. Percebi que em algumas fazia questão de ser evasiva.

– Que outro motivo você acredita que o ajudante teria para matar o cientista além de querer toda a glória para si? - essa resposta me parecia tão mais óbvia.

– Pessoas especiais possuem destinos especiais e, normalmente, insubstituíveis. E assim como existem aqueles - como Pedro - que aguardavam e desejavam os bons frutos do alinhamento, também existem aqueles que não o desejam.

O silêncio insistente pairou. Eu me senti perdido. O que ela estava tentando me dizer? Que estar envolvido com esoterismo ou astronomia podia ser perigoso? Engoli em seco, tentando espantar o arrepio que subia pela minha espinha.

– E por que você acha que tenho alguma coisa a ver com isso?

Tinha que entender a mensagem nas entrelinhas, mas não conseguia. Não fazia nenhum sentido para minha mente sempre tão racional.

– Porque você é um dos escolhidos.

Eu me encolhi automaticamente. Escolhido. Escolhido para quê? Para morrer?

Busquei os olhos lânguidos de Mainá para que me consolassem. Em vez disso, eles conversaram comigo. Não se preocupe. Sem pre estarei ao seu lado. Estou aqui para protegê-lo. Para salientar seus pensamentos - tão gentis que me fizeram sorrir aliviado e esperançoso - sua mão encontrou a minha e a apertou entre seus dedos fortes e compridos. Era tão agradável. A sensação se prolongava por meu corpo todo, me dizendo que podia confiar nela. E, enquanto nossas mãos estivessem unidas, seria como se nada de ruim pudesse nos acontecer.

***

Tam ires estava de saco cheio da casa de sua irm ã e da falação de seu cunhado. Queria m uito com eçar a se m exer. Seu corpo precisava disso. Nem se lem brava m ais o que era esticar as pernas e os braços, usar seus dons. Sentia-se um a inútil, incapacitada, um a criança de castigo.

Resolveu cam inhar na praia, sozinha. O céu estava m uito estrelado e o vento que vinha do Oceano Atlântico agitava suas roupas e seus cabelos de fogo. Sabia que o céu estava sendo regido pela constelação de Capricórnio e que sua estrela m ais brilhante, a Deneb Algebi, cintilava enfurecidam ente com o um presságio.

Lucca, pensou Tam ires. Ele estava se transform ando conform e os astros o incitavam e lhe m ostravam o cam inho a seguir. Ela queria estar lá, ao seu lado, e lhe explicar cada m udança que seu corpo e m ente estavam sofrendo. Queria lhe contar sua própria história e fazê-lo entender o quanto tudo aquilo era im portante e necessário.

Tam bém se entristeceu quando pensou no preço que outros haviam pago por aquela verdade. Um preço alto dem ais. Pensou em sua m ãe, em seu pai, em seus avós. E acabou em si m esm a. A distância ainda era m ais fácil de suportar porque sabia que estavam bem . Agora, para sua fam ília, não haveria segunda chance.

Tam ires queria prender os olhos em Lucca - com o tinha sobre Suzane - para ter certeza que ele ficaria bem . Enquanto o responsável desconhecido pelo sum iço da pedra estivesse por aí, im pune, não ficaria sossegada. Sorriu pensando da índia, que m esm o com um a crença diferente- e ao m esm o tem po tão parecida com a deles - protegeia-o.

Estava perdida na dor há m uito tem po. Prim eiro pela ignorância, depois pela verdade. Ela nem sem pre era prazerosa. No entanto, totalm ente necessária. Não queria perder m ais nenhum ente querido. E Lucca tam bém fazia parte de sua vida agora.

O céu era um belo prenúncio. Estava aliviada - e ao m esm o tem po apreensiva - porque a hora chegava. Estariam em Corum bá em alguns dias, assim que os últim os sinais fossem pressagiados.

Desviou seus pensam entos para Gustavo do Valle, seu m arido. Ele era um grande em presário do ram o de bebidas em Foz do Iguaçu. Ela o considerava seu grande e único am or. Lem brou-se de seus olhos tão negros e profundos, cheios de sentim entos controversos com o am or e culpa.

Sua m ente vagou pelos traços m ásculos e firm es de seu rosto, seu sorriso m agnífico desenhado com dentes brancos perfeitos. O sorriso com capacidade de fazê-la se esquecer de qualquer problem a. Lem brou-se de sua pele m orena, bronzeada, e seus m úsculos firm es e desenhados em cada parte do seu corpo.

Parada sob o luar, fechou os olhos e im aginou as m ãos fortes de seu m arido a envolvendo e protegendo da m aresia. Pode até sentir seu cheiro, tão característico. Im aginou-o se debruçando sobre ela, sua boca deliciosa encontrando a sua com a paixão que sem pre os envolvia quando estavam j untos.

Abriu os olhos para dissipar os pensam entos. O que adiantava sonhar? Ele estava há m ilhares de quilôm etros, talvez nunca m ais o visse. Ou se visse, nos próxim os m eses, seria pela últim a vez. Seu coração sofreu com o da prim eira vez em que se separaram . Aquela dor j am ais dim inuiria?

Parou de respirar por um segundo. Seus instintos avisaram que não estava sozinha. A alguns m etros, alguém se aproxim ava pela areia fofa. Podia ouvir nitidam ente os pés am assando os grãos.

Virou-se pronta para brigar com o cunhado quando se deparou com um a m iragem . Não, não podia ser verdade. Estava sonhando? Há pouco estivera. Será que seu sonho pudesse se tornar realidade? De um a form a distorcida, m as ainda assim , m uito perto.

Deu um passo para trás instintivam ente, fazendo com que a pessoa paralisasse a cem m etros, cautelosa. Um a m iragem não poderia fazer aquilo, pensou. Ele era real. E com o para dem onstrar isso, seu encantador sorriso se abriu e sua voz sussurrou para ela.

– Oi, Tam ires. Disse que viria te encontrar.

APARIÇÃO

 

Sim , ela se recordava com perfeição. A despedida inesperada no aeroporto. O táxi parando no m eio fio em um a freada brusca e cantante. O belo e alto hom em saltando dele e correndo em sua direção. Os olhos escuros tão pertos que a deixaram tonta. O beij o roubado e tão rápido que não pode registrar o sabor.

Um a lem brança tão distante quanto os quilôm etros que os separaram até agora. Sua voz grave e apaixonada pronunciando um a prom essa que j am ais im aginara que cum priria. E, no entanto, lá estava ele, a apenas alguns m etros de distância. O sorriso acolhedor convidando-a a se aproxim ar.

Durante aqueles segundos de incerteza e susto, Tam ires navegou pelas recordações e perm itiu que seu corpo reagisse naturalm ente ao acontecim ento. Seus lábios se m overam esboçando um sorriso. Seus olhos piscaram certificando-se da realidade a sua frente e suas pernas, com o se possuíssem vida própria, correram .

Não dem orou quase nada para que pudesse alcançá-lo - j á que ele correu ao seu encontro facilitando a tarefa. Sem pensar no que fazia, Tam ires se atirou nos braços fortes, com pridos e m usculosos daquele hom em . Seu rosto quente a tocou com carinho. Suas m ãos a abraçaram com força.

Feliz, Tam ires apertou seus próprios braços ao redor do pescoço duro. Seus dedos instintivam ente se infiltraram no em aranhado de fios escuros e curtos de sua cabeça. Seu perfum e a envolveu e a j ogou em novas lem branças de outra terra, outra vida. Apertou os olhos com força a fim de se concentrar nelas.

Foz do Iguaçu. O parque nacional e as cataratas. O vento açoitando seus cabelos de fogo e trazendo o arom a que vinha dele. Parado ao seu lado, ele adm irara a ferocidade das águas caindo das pedras sobre o rio. Seus olhos se cruzaram . Um sorriso no rosto e sua voz expressara toda a m esm a adm iração por aquele lugar.

Naquele m om ento, soubera que havia encontrado o am or de sua vida. Ainda não sabia seu nom e, nem sua idade, nem o que fazia da vida. Mas aquele sorriso, aquele corpo, aqueles olhos j á lhe pertenciam , com o se fosse feito sob m edida. Olhando-o, pensara: Esperei por você este tempo todo.

E aquele hom em fora seu por um período curto dem ais. Apenas seis anos. Assim com o o destino os unira, tam bém os separara. Não se perm itiu a dolorosa lem brança da separação. Ao contrário disso, vagou para o hom em que apertava entre os braços brancos e frágeis agora.

Não era um substituto, m as a sem elhança era de tirar o fôlego. Nunca fora m ais do que da fam ília antes. E no últim o m ês passou a exercer um papel im portante em sua vida. Protetor. Tam ires se lem brava de seu próprio desespero e dúvida. Sua quase m orte e sua salvação.

O calor que em anava de seu corpo fê-la se lem brar daquele dia no parque. A sensação de inexistência física. A consciência vazia na escuridão. Aquele m esm o corpo a havia despertado de volta à vida, a havia protegido daquele que deveria ser sua outra m etade. Aquele em que perdera a confiança e a crença.

Suspirou. Lá estava ela ao redor do assunto doloroso e proibido de novo. Mas era im possível não pensar nele, sentindo aquele hom em fisicam ente em seus braços. Mas aquele não era o hom em que am ava com o a própria vida. Podia ser m uito parecido, ainda assim não era ele.

– Tam bém senti sua falta.

A voz, grave e sedutora quebrou todo o encanto. Que ilusão dolorosa estava se im pondo. Afastou-se do corpo m ásculo e alto e olhou nos olhos negros e profundos. Eles ardiam m ais do que deveriam . Infelizm ente, os sentim entos dos outros j am ais estariam escondidos dela. Esse era um dos m om entos em que desej ava não conseguir ver.

A tão conhecida raiva brotou em seu peito. Havia sido enganada por sua m ente saudosa e caprichosa. Acorde, Tamires, não é ele! Brigou consigo m esm a antes de explodir sua raiva no hom em desprevenido a sua frente.

– Alexandre, o que você está fazendo aqui?

O sorriso sum iu do rosto anguloso e m oreno do hom em . Sua cabeça se afastou da de Tam ires instintivam ente, m as seus braços não deixaram seu corpo. Ele a sentia lutar para se safar de seu aperto.

– Bem , m eu trabalho m e trouxe para cá.

A pergunta retórica de com o ele a havia encontrado não escapou de seus lábios porque ela j á sabia a resposta. O m isterioso trabalho do cunhado - irm ão de seu m arido Gustavo -continuava um a incógnita. Quer dizer, tudo nele ainda era um ponto de interrogação.

Alexandre do Valle sentiu a relutância da cunhada e livrou de seu apertado abraço. Porém ela não se afastou, m anteve os olhos presos nos dele, que não desviava de seu olhar verde. E o deslum bram ento a fez m anter-se parada. Ela se lem brava de que Gustavo sem pre a fazia se sentir assim , com o se flutuasse. O m arido exercia um a atração sobre ela física, psíquica e espiritual. Eram alm as ligadas para sem pre.

Tam bém se lem brou do prim eiro dia em que sentiu essa atração irresistível - um a atração totalm ente física com o a gravidade - pelo cunhado. Fora no ano novo. Piscou os olhos tentando se livrar da sensação que fatalm ente a prendia a Alexandre, m as foi inútil. Sabia que antes daquele dia, nem m esm o ele a havia notado. Tudo com eçou lá. A m udança que estava acontecendo dentro dela saltara para fora e ficara transparente em seu rosto.

Agora entendia porque podia enxergar m elhor o cunhado e ser enfeitiçada por seus atributos irresistíveis. Toda sua percepção m udara a partir daquela noite estranha e m isteriosa em que o m isticism o entrou em sua vida pela porta da frente e não saiu m ais.

Abaixou a cabeça e olhou para os próprios pés. Era difícil quebrar o encanto com Alexandre tão perto assim . Resolveu sentar-se ali m esm o, voltava para as ondas do m ar que se agitavam ferozm ente m ovidas pela m aré e pelo vento.

Alexandre se sentou ao seu lado, tam bém em silêncio. Ficaram olhando o horizonte azul escuro, o pontilhado brilhante cobrindo-o. O som das ondas que chicoteavam os rochedos quebrava o ritm o constante das duas respirações. Os dois corações batiam em ritm os diferentes.

Era estranho para Tam ires com o cada parte sua respondia à proxim idade de Alexandre. O calor em anando de seu corpo, sua respiração cadenciada, seus batim entos cardíacos. Tudo a fazia se sentir atraída para ele, m esm o não estando ligada pelos olhos - as j anelas da alm a.

Continuar: parte 6 de 13