Filho da Terra - Os Quatro Elementos, Volume 2

Josy Stoque · Capítulo 1 de 1 · parte 10/13

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Filho da Terra - Os Quatro Elementos, Volume 2

Prólogo

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 13 partes.

Sua sensibilidade - ao contrário do que im aginava - aum entou sua atenção. Sua razão trabalhava com m aior afinco para proteger aquela m ulher linda que am ava tanto e que estava segura em seus braços e assim deveria perm anecer. Sua m ente com andava seus instintos para que ficasse alerta o tem po todo.

– Preciso confessar um a coisa, Lucca - sussurrou Mainá.

O rapaz esperou que ela continuasse falando. Tudo que dissesse seria interessante para ele. Tudo nela era im portante e ele desej ava sem pre saber m ais.

– Quando te contei que estudei em escolas de brancos foi um a decisão m uito im portante em prol do destino que estava traçado para m im . Meu pai apoiou de im ediato. Tanto que, m uito antes de eu tom ar a decisão sozinha, ele j á havia providenciado um a professora para nos dar a educação básica na infância. Na adolescência, decidi m e m isturar. Queria conhecer seu povo intim am ente e andar os m esm os passos para ser digna de ser sua com panheira. Por isso, estudei o m áxim o que pude, para seu povo, isso tem relevância.

Lisonj eado e encantado, a estreitou nos braços antes de m urm urar.

– Você é incrível. Sem pre m e surpreende com sua sensibilidade e inteligência. Não quero que se im agine indigna do m eu am or. Mesm o que você nunca tivesse estudado em nossas escolas, eu a am aria da m esm a m aneira.

Mainá respondeu a sincera declaração de seu verdadeiro am or levando os lábios ao encontro dos seus. Beij ou-o com paixão e fervura. Nunca se sentiria digna daquele hom em -deus, m as estava m uito feliz por estar firm e e segura em seus braços de aço.

Enquanto sentia a paixão em anar da boca e do corpo de Mainá, Lucca ouviu um som que lhe cham ou a atenção. Um carro vinha em alta velocidade na rodovia, sentido Bolívia -Corum bá. Porém , entrou cantando pneu no parque. Um a sirene de alerta acendeu em sua cabeça.

Afastou-se da índia de súbito, pegando-a totalm ente desprevenida. Quase se esqueceu que ela não tinha a audição tão aguçada quanto a dele.

– Desculpe, m eu am or, m as precisam os ir. Parece que tem alguém com m uita pressa vindo para cá. Na dúvida, é m elhor sairm os daqui rápido.

Correram de volta à caverna e vestiram a roupa enquanto fugiam . Lucca puxava a índia pelo braço quando ouviu a voz de Carlos e Edm undo o cham ando. Em um im pulso, j ogou Mainá para cim a de um a árvore pedindo que subisse m ais alto e seguiu atrás dela. Fez um gesto de silêncio enquanto vigiava entre as folhas.

Em m enos de dois m inutos os dois rapazes entraram em seu cam po de visão, m etros abaixo, próxim os à caverna. Entraram . Lucca esperou, o coração disparado, tentando ouvir o que diziam . Estavam atrás dele. O casam ento. Conferiu o relógio e percebeu que a cerim ônia j á estava atrasada.

Um a pontinha de rem orso o cutucou. Afastou-a no m esm o instante que sentiu o calor da m ão de Mainá apertando a sua. Sorriu de volta para a índia e esqueceu im ediatam ente suas antigas preocupações. Afinal, sabia que Vitória m erecia um a separação digna, porém seu pai j am ais a aceitaria. Melhor que fosse assim m esm o. Iria em bora de Corum bá com Mainá e nunca m ais retornaria, estava certo disso. Mas seria verdadeiram ente feliz e era isso que im portava.

Ouviu os passos ocos de seu m elhor am igo e seu irm ão saindo da gruta. Não haviam achado nada. Deram um a últim a olhada do lado de fora da caverna e cham aram por ele m ais um a vez. Desanim ado, Carlos sacou o celular e anunciou para a organizadora de eventos que não o havia encontrado - com o pode escutar. Os dois se afastaram e Lucca falou som ente quando a porta do carro bateu.

– Mainá, seu barco, está na gruta!

A indígena sorriu.

– Não vam os de barco – respondeu. - Não seguirem os rio abaixo.

Assoviou alto assustando Lucca. Sua audição estava m uito alerta e por isso seu tím pano doeu. Ela se desculpou enquanto o rapaz reconhecia um galope seco. Antes que pudesse definir o que era, um enorm e azarão negro surgiu entre as árvores e parou bem em baixo deles. Com espanto, viu a prom etida se soltar do galho e cair com precisão sobre o dorso do anim al. Porém , desceu com cautela e parou ao seu lado.

– Um cavalo? - perguntou ainda surpreso.

– Nunca ouviu falar que m eu povo é cavaleiro? - Estendeu a m ão para ele e acrescentou. - Venha, suba. Vou te levar para um lugar seguro. Minha aldeia.

Ela fica tão linda de amazona, pensou Lucca, adm irando a destreza da índia sobre o anim al. Aceitou a aj uda da m oça e subiu na m ontaria sem cela. Agarrou sua cintura com delicadeza, aspirando o perfum e que em anava de seus cabelos ao vento. Apreciou m uito m ais esse m eio de transporte.

Percorreram um a linha im aginária que os afastava gradativam ente do rio Paraguai, desviando da civilização e seguindo pela m ata fechada. Lucca ficou im aginando quantas vezes Mainá teria feito aquele traj eto. Podia ouvir o som da rodovia, m as sabia que estavam longe o bastante para não serem vistos.

Estavam m uito próxim os da civilização agora, encobertos por poucas árvores. No controle das rédeas, Mainá fez o desvio necessário para que pudessem cruzar a pista em segurança. Lucca ficou adm irado com seu conhecim ento sobre os pontos da rodovia m ais tranquilos para a passagem .

Ficaram tanto tem po sobre o cavalo que o corpo de Lucca ficou dolorido. Não estava habituado. Na verdade, nunca m ontara antes. Mas aguentou firm e, sem reclam ar. Onde estava toda a força com a qual fora presenteado? Estranho. Parecia que estava se esvaindo aos pouquinhos. Podia perceber claram ente.

Lucca nem se preocupou em olhar a hora para conferir que havia passado um terço da tarde quando, finalm ente, avistou entre as frestas da floresta a aldeia dos Kadiwéus. Um a clareira gigante aberta no centro da Reserva Am am baí - entre Corum bá e Porto Murtinho -revelava as m alocas cobertas de sapê organizadas ao redor do círculo perfeito.

Percorreram m ais alguns m etros a galope e percebeu que, quando os olhos hum anos de Mainá avistaram a aldeia, reduziu a m archa para um trotar. O corpo do rapaz agradeceu. A grandeza da com unidade indígena era assustadora. Lucca estava im pressionado.

A atividade não parou porque eles se aproxim aram . Talvez não tivessem notado a presença deles. As m ulheres lavavam a louça do alm oço e outras preparavam o j antar. Os hom ens estavam dispersos m ais adiante, podia vê-los com anim ais. A turba os notou som ente quando passaram a prim eira m aloca direto para o centro da aldeia.

Lucca desceu do cavalo - vestido apenas com a calça social, o peito pálido totalm ente exposto - e aj udou Mainá a desm ontar com sua elegância clássica e exuberante - vestida m inim am ente com seus trapos indígenas. Nem foi preciso apresentação. Todos os m oradores se am ontoaram ao redor deles e se curvaram im itando o gesto do cacique, com o deduziu o rapaz.

– Por favor, se levantem - aquele tipo de cena o constrangia.

O cacique se ergueu e se aproxim ou deles se destacando da m ultidão.

– Sej a bem -vindo, Filho da Terra - curvou-se levem ente em outra reverência. - Sou o cacique Piatã, pai de Mainá.

Diante da m enção, a j ovem se aproxim ou do velho e recebeu sua benção.

– Obrigado, cacique Piatã. - respondeu o arqueólogo m eio perdido com o tipo de cum prim ento que deveria se seguir; na dúvida preferiu ficar im óvel - Meu nom e é Lucca Gonçalves. - Queria logo acabar com o term o Filho da Terra.

– Você nos abençoa com sua presença em nossa tribo, Lucca Gonçalves.

Um hom em se aproxim ou e parou ao lado do cacique.

– Sou o paj é Unaí, o guia espiritual desse povo. Estou à disposição para servi-lo.

Lucca agradeceu a gentileza. Algum as respostas seriam interessantes. Quem sabe o tal paj é não poderia dar um a luz para seu cam inho. O cacique o convidou para fazer um a cam inhada ao redor da aldeia a fim de lhe m ostrar com o viviam aquele povo. O paj é e Mainá os acom panharam enquanto a turba se dissipava e voltava cada um para seus afazeres anteriores.

– Conhece nossa história, filho? - perguntou o cacique.

– Muito pouco, senhor - adm itiu o rapaz.

Lucca com eçava a achar que o hom em estava usando um a abreviação do nom e indígena que lhe deram .

– Essas terras foram doadas por Dom Pedro II para nosso povo pela participação de nossos ancestrais, os Guaikurus, na guerra do Paraguai. Nossa linhagem é alta e forte, som os guerreiros natos e gratos por este presente. Tem os orgulho de nossa reserva e de nossa im portante e vital participação naquela batalha.

Fez um a pausa breve quando passavam ao lado de um sem icírculo form ado por artesãs que fabricavam peça de cerâm ica a partir do barro com o vasos, pratos, anim ais, enfeites e outras que não soube identificar. Todas estavam ornam entadas com um a pintura corporal extraordinariam ente m inuciosa e sim étrica, com o as que Mainá usara na noite passada. E a pintura colorida dos obj etos em suas m ãos não deixava nada a desej ar.

– A partir daí, passam os a viver com o que tínham os: a terra e nossa capacidade física e intelectual - continuou Piatã apontando para os braços e a cabeça. - Arrendam os parte desse território, fizem os parceria pecuária, exercem os atividades agrícolas, criam os gado bovino e equino, e ainda caçam os, pescam os e coletam os. Nosso artesanato, com o j á deve ter percebido, é bastante apreciado tam bém .

– São realm ente adm iráveis, senhor cacique - observou Lucca. - Nunca vi um a arte indígena tão incrível. Suas m ulheres são artistas.

– Obrigado, m eu filho.

– Não sei se o senhor sabe, sou arqueólogo e faço escavações em um sítio indígena. Essa sem ana encontram os um a peça que rem ete aos seus ancestrais.

– Não m e diga que encontraram m uita louça - brincou o cacique.

Aquele povo parecia bastante instruído e por dentro das atividades dos brancos. Todos riram , m enos Lucca. Ele se orgulhava da cerâm ica escavada, m as sabia da im portância do outro obj eto que havia encontrado.

– Sim , m uita - retrucou. - Mas nossa últim a descoberta é o altar de Gô-noêno-hôdi, o Criador.

Paralisaram todos em choque, m enos Mainá e Lucca que se voltaram para os velhos. Juntos, contaram tudo sobre a descoberta arqueológica do pesquisador. Ao final das apresentações do lugar e das inform ações sobre a escavação, o cacique convidou-o para entrar em um a m aloca que, pelo que pode perceber, era algum tipo de sala de reunião do líder. O paj é os acom panhou. Mainá lhe agarrou a m ão e o seguiu. Ninguém discordou, m as o rapaz se sentiu desconfortável.

– Senhor cacique - com eçou a dizer a fim de se explicar -, não conheço seus costum es, porém gostaria de lhe dizer, antes de qualquer coisa, que am o sua filha e gostaria que o senhor abençoasse nossa união aceitando m eu pedido de casam ento.

Piatã e Unaí desataram a rir. Lucca ficou m ais constrangido. Mainá corou lindam ente.

– Fique sossegado, filho - explicou o cacique. - Os hom ens brancos tendem a com plicar as coisas. Mainá é sua desde que nasceu. Não precisa casar. Eu j á abençoei a união de vocês. Os espíritos e os deuses tam bém .

– Obrigado, senhor, m as gostaria de fazer isso da m aneira correta.

Pousando a m ão sobre o om bro do j ovem , o velho m oreno e enrugado, repleto de tatuagens por todo o corpo, retrucou.

– A coisa certa você j á fez, filho, aceitou sua prom etida. Agora, sej am felizes.

Lucca achou m elhor não discutir. Passou o restante da tarde recebendo orientações e ensinam entos do paj é sobre sua m issão ainda um tanto enigm ática para ele. Sua história m ais parecia um a parábola. Será que não podiam explicar claram ente?

As perguntas por que, onde, com o e quando foram respondidas com incógnitas. Nem m esm o eles sabiam direito o que aconteceria, m as sabiam o significado. Disseram que um alinham ento planetário era o sinal de que o dia chegara e que um a guerra seria travada em prol da natureza. Seu papel seria lutar contra a força m aligna que estava disposta a usar seu conhecim ento contra o que era natural.

A estranha dor no corpo de Lucca não passara. Ao final da palestra na m aloca do cacique estava cansado. Mainá providenciou um a rede para pendurar nas árvores perto da m aloca de sua fam ília. Esticou um a esteira de bam bu no chão e se deitou perto do rapaz que estava tão exausto que rapidam ente adorm eceu. A índia velou seu sono enquanto a noite caía sobre a aldeia.

PASSAG EM

 

A prim eira conexão foi tranquila. O tem po de espera fora de apenas trinta e nove m inutos. Marcel, Tam ires e Alexandre viaj aram calm am ente, conversando trivialidades. A segunda j á era m ais longa. Um a hora e vinte m inutos.

Enquanto j antavam na lanchonete e aguardavam a cham ada para o próxim o voo, Marcel ligou o celular e conferiu as m ensagens. Havia cinco de Suzane. Digitou o núm ero da discagem rápida e colou o aparelho à orelha.

– Oi, am or, acabam os de desem barcar em ... - A voz preocupada do outro lado da linha o interrom peu. Tam ires ficou apreensiva e paralisada no m eio de um a m ordida. - Ok. Volte a dorm ir, está bem ? Eu assum o a partir de agora. Beij o.

– O que foi? - m al havia desligado o dispositivo e a ruiva perguntou.

– A hora está chegando - sussurrou o loiro. - Suzane viu Lucca e a m arca.

Marcel esperou pelo m enos ver no rosto da cunhada um olhar de triunfo seguido de um ‘eu te avisei’. Porém , só o que pode ver foi preocupação. Teve m edo que a m oça entrasse em choque. Tam ires não se m exia, nem piscava. Alexandre, percebendo sua paralisia, pegou sua m ão e tentou acalm á-la.

– Ele vai ficar bem - consolou-a o rapaz m oreno.

– Estou apavorada porque sei exatam ente pelo que ele vai passar.

Em um rápido piscar de olhos, Marcel conferiu o estado de Lucca, ainda m ilhares de quilôm etros distante de onde estavam . Percebeu que a pedra estava com ele. Sua força irradiando paralelam ente a do j ovem .

– Não se preocupe, Tam ires - tranquilizou-a assim que se viu apto a dar m ais inform ações. - Estarei vigiando. Ele está realm ente bem . Está adorm ecido. A chave está com ele.

– Adorm ecido? - questionou a ruiva. - E o casam ento, j á term inou?

– Não tenho com o saber, m as sei que ele está cercado por um a floresta. Está fraco, não consigo ver m ais.

Quase que Tam ires saltou sobre a m esa com a últim a frase.

– Fraco? Ele está ferido?

– Não, não foi isso que quis dizer - apressou-se em se explicar. - Acalm e-se, por favor. Acho que nunca te expliquei exatam ente com o m eu dom funciona. Consigo rastrear a pessoa devido a sua energia. Eu a capto e sigo. Quando a pessoa está dorm indo, o ‘sinal’ fica fraco, j á que suas energias estão sendo poupadas.

– E com o você sabe que isso não quer dizer que ele está ferido ou m orrendo? - arregalou os olhos antes de continuar. - E se j á estiver acontecendo?

– Não, ele não está ferido, senão sua energia estaria fluindo com o um a torneira aberta ao m áxim o, j orrando de sua ferida. Ele apenas está dorm indo. Relaxe e se a m utação j á estivesse acontecendo, essa energia estaria se renovando e se m ultiplicando, m esm o inconsciente.

– E se essa energia estivesse ausente? - m urm urou Tam ires. - Ele estaria m orto?

– Ou em com a. - Vendo o espanto da m oça, prosseguiu o esclarecim ento. - Essa energia é com andada pelo cérebro. Se a atividade cerebral baixa m uito além do sono, com o em um com a, não conseguiria rastreá-la. Seria um sinal praticam ente nulo para m im , inexistente.

Tam ires engoliu em seco com a lem brança do que aconteceu na noite em que sua pedra, a am etista, acendeu pela prim eira vez.

– Quando eu fiquei em com a...

– Suzane e eu pensam os que estivesse m orta por quatro dias interm ináveis.

Alexandre ouvia a tudo atentam ente, sem interrom per o diálogo dos dois, enquanto com ia seu lanche. A outra m ão sob a m esa ainda segurava a de Tam ires que não tentou afastá-la. Estava feliz pela confiança conquistada e por estar por perto para consolá-la quando ela m ais precisava de seu apoio.

– Agora, deixe-m e continuar vigiando - cortou o assunto Marcel. - Estou ficando cada vez m elhor nisso - riu.

Tam ires trem ia. Bem que seu sexto sentido havia avisado. Mas ainda tivera esperanças de estar errada. Às vezes era terrível estar certa. Não conseguiu term inar o lanche. Sua m ente estava focada na dor que, em pouco tem po, Lucca teria que enfrentar. Seja forte, por favor! Estamos a caminho, rezou.

***

Mainá e eu estávamos na floresta alheios à noite, apenas conscientes de nosso amor. O romantismo me assaltava e sentia vontade de expressar tudo que estava sentindo. Incapaz de conter aqueles novos sentimentos em meu peito, precisava externá-los senão uma implosão me destruiria.

E o fazia de muitas formas. Acariciando, beijando, olhando e amando-a. Cada carícia acompanhada de uma palavra que tentava traduzir o que eu sentia. Mas nunca achava as palavras certas. Então, sempre procurava por mais. Era difícil pensar quando a índia estava nos meus braços, tão quente, tão sedutora, tão entregue.

Não conhecia aquela mata virgem, mas Mainá sim. Mesmo no escuro, ela conseguia me guiar por um caminho invisível aos meus olhos aguçados. Ainda que não fosse dotada pelo mesmo sentido que eu, se desviava dos obstáculos com precisão. Seguia seu instinto, como sempre e isso era uma das coisas que tanto amava nela.

Toda minha concentração se focou em Mainá, alheia aos pormenores da floresta ou da aldeia ao nosso redor. Só podia ver e ouvir meu verdadeiro amor. Estava relaxado e despreocupado. Não tinha o que temer. Somente perdê-la. Esse era meu único medo agora.

Distraído com sua perfeição, a maciez de sua pele agarrada na minha mão, não prestava atenção ao percurso que traçávamos. Confiei a ela minha própria vida. Até o momento, ela havia me guiado até seus braços. Por que eu não permitiria que me guiasse em tudo mais?

O tempo também era algo estranho para mim. Parecia paralisado, tão chocado quanto eu, diante da beleza de minha prometida. E eu sabia que ele não valeria de mais nada agora. Estarmos juntos era nosso próprio tempo. E ele girava infinitamente.

Por um instante pensei em imortalidade, em como seria bom viver nesse precioso estado por uma eternidade inteira. Haveria felicidade maior? Acreditava que não.

Mas como poderia frear o tempo? O carrasco viria para perturbar minha paz, marcando minha face e meu corpo até que arrancasse de mim meu último suspiro. O que Mainá pensaria se não fosse mais belo como um deus? Preocupação tola, já que eu sabia que, para mim, ela sempre seria bela. O amor tende a mudar o jeito que vemos o mundo e as pessoas ao nosso redor. E era grato pela oportunidade de viver essa transformação.

Com sua voz melodiosa, Mainá me seduzia e me convidava a continuar seguindo seus passos na escuridão da mata fechada. Hipnotizado, prosseguia sorrindo diante de seus puxões impacientes. Parecia uma criança ansiosa e alegre.

Porém, aos poucos, percebi uma mudança sutil em seu rosto. O nervosismo tomava conta, afastando sua alegria. O que seria tão importante que a fez mudar drasticamente de humor? Apressei o passo a fim de agradá-la.

Sua tentativa de disfarçar as expressões foi vã, se tornavam cada vez mais taciturnas e irritadas. Seu braço me puxava com toda a força que tinha, apesar de não chegar perto de conseguir me arrastar de verdade. Eu me permitia ser puxado.

– Anda logo, Lucca! - a doçura em sua voz desapareceu com seu bom humor.

Aquela não parecia a Mainá que havia conhecido e por quem me apaixonara. O que eu havia feito de errado para deixá-la tão brava?

– O que foi, Mainá? - perguntei em voz alta.

Seu rosto se virou para mim enfurecido. E minha visão clara percebeu que suas feições distorcidas haviam mudado. A pele morena fora substituída pela marfim. Os olhos chocolate e doces eram agora bolas negras e assustadoras. Os cabelos de ébano estavam dourados. Eu conhecia aquele rosto.

– Vitória! - exclamei espantado.

– Você pensou que se livraria de mim assim tão fácil, é, Lucca? - respondeu a mulher com a voz ríspida - Não permitirei!

Tentei me libertar desesperadamente de sua mão apertada como aço ao redor da minha. De onde saíra aquela força toda? Talvez do ódio que sentia por mim nesse momento. Fui covarde ao deixá-la plantada no altar sem uma explicação qualquer e agora vinha atrás de mim para me obrigar a cumprir minha palavra.

– Para onde está me levando? - questionei ao perceber que não escaparia.

– Tem uma pessoa que também quer falar com você antes de nos casarmos.

Vitória estacou. À frente, entre duas árvores frondosas, reconheci a silhueta estranha do velho coronel Cruz. Eu estava perdido. Inexplicavelmente, ele vinha sozinho. Sempre o imaginei acompanhado de muitos capangas em uma cena como essa, mas aquilo era real e não fruto de minha imaginação. Uma escopeta velha e comprida vinha à sua frente apontada direto para meu peito.

– Senhor, me perdoe! - implorei pela minha vida. - Sinto muito, mas jamais faria Vitória feliz!

Não sabia mais o que dizer para que minha vida fosse poupada. Falar toda a verdade poderia ser minha sentença de morte.

– Cale-se, seu traidor ordinário! - vociferou o velho me fazendo estremecer. - Você pensou que podia dar sua palavra e depois deixar minha filha sem nenhuma satisfação? Achou que ficaria tudo bem se fugisse? Eu confiei em você, verme!

Não fui capaz de responder. Recebi os insultos mortificado. Pelo menos não seriam fatais. Eu os suportaria.

– Você não é ninguém! - continuou o coronel. - Nunca foi digno de minha filha. No entanto, ela o escolheu, só por isso permiti esse casamento. Agora que descumpriu sua palavra, eu não tenho porque poupar sua vida.

Olhei para Vitória em busca de apoio e não encontrei. Vi em seus olhos o quanto desejava minha morte. Desesperado, me livrei de sua mão, me virei e corri tentando encontrar forças em meu novo e melhorado corpo para aumentar a distância entre nós.

Ouvi o disparo da arma e o som do ar sendo cortado por sua fúria e velocidade impressionantes. Antes que pudesse pensar em me abaixar, uma pontada aguda, seguida de uma implosão atingiu meu ombro direito. Com a força do impacto, caí de frente, com a cara no chão de terra.

Milhões de fragmentos queimaram minha carne de dentro para fora. Um grito de horror escapou de meus lábios involuntariamente. Ouvia passos correram perto de mim. Alguém me chacoalhava, uma voz conhecida me chamava.

– Lucca! Lucca. Acorde! Por favor!

Era a voz preocupada de minha Mainá. A verdadeira indígena. Busquei ar ferozmente e uma nova onda de dor perfurante fez desenhos confusos em meu ombro. Não podia reconhecê-los. Não podia respirar. Teria meu pulmão perfurado? Estava à beira de um colapso.

– Acorde, Lucca. Você está sonhando. É apenas um sonho, meu amor!

Abri os olhos imediatamente. O rosto de Mainá foi o primeiro que vi e ao seu redor inúmeros rostos que eu havia visto durante o dia me encaravam. Estava na rede que a índia havia me dado para descansar. Pisquei os olhos aturdido.

Tentei me mexer e a dor, agora consciente, foi ainda pior do que em meu pesadelo. Milhares de espinhos perfuravam minha pele dolorosamente e ao mesmo tempo. Com um novo grito, rolei da rede para o chão de terra batido aos pés de Mainá. Fiquei caído de bruços, puxando ar para os pulmões com grande dificuldade.

– O que vocês fizeram comigo? Por que estão me torturando?

– Ninguém está fazendo nada com você - respondeu Mainá. - Você estava dormindo e começou a gritar. O que está sentindo, meu amor?

– Meu ombro... - consegui dizer antes que uma nova onda me atingisse.

Como uma dor física poderia ser tão crescente? Já era bastante insuportável, mas a cada nova crise, mais intensa ficava.

Percebi as mãos de Mainá sobre meus ombros a procura dos objetos que me perfuravam. Aguentei firme diante de sua análise. Seus dedos não me causaram nenhuma dor e também nenhum alívio.

– Ai! - a indígena deu um gritinho. - Senti uma picada. Luz, por favor!

Alguém aproximou uma tocha.

– Oh!

O espanto foi geral. Estremeci sem saber o que viam. O ferimento estaria assim tão horrível? Medido pela dor que eu sentia, com certeza, estaria em carne viva.

– O que foi? - perguntei quase com um suspiro, sem força física para falar direito.

– Sua marca de nascença... - sussurrou assombrada Mainá.

O que tinha minha marca de nascença? Era uma manchinha muito clara no meu ombro direito, nas costas. Mal podia vê-la no espelho.

Uma mão invisível caiu sobre meu corpo, vestida com uma luva cheia de pregos finos e pontiagudos, e perfuraram minha pele. Amoleci de dor, sentindo-a se estender para todo ele. Era como se meu carrasco me golpeasse em inúmeras partes sem distinção. Aleatória e cruelmente. À beira da inconsciência, ouvi a voz muito baixa de Mainá.

– Sua marca de nascença está vermelho-vivo, vermelho-sangue, como se uma ferida estivesse aberta em seu formato. Um triângulo perfeito, de cabeça para baixo, cortado por um traço.

Sabia que minha marca era parecida com a descrição que ela fazia, mas perfeito? Como? E por que ela estaria se modificando agora? Será que eu estava com câncer de pele?

– Por favor... - fui capaz de ciciar, lutando contra a escuridão.

Não tinha certeza de que ela seria um alívio, dado o sonho que eu tivera há pouco.

– Pajé Unaí! - implorou Mainá erguendo a voz na noite escura.

O homem abriu caminho entre a multidão ao meu redor e se agachou do outro lado. Analisou a ferida por algum tempo antes de se pronunciar.

– Não é físico - disse apenas.

Queria esmurrá-lo. Como assim não era físico? Como eu poderia estar sentindo tanta dor? Meu Deus, o velho estava louco.

– Então por que ele sente dor? - Mainá fez de meus pensamentos suas palavras.

Obrigado, pensei, incapaz de fazer meus lábios se moverem.

– Está vendo a marca, minha filha? - apontou o pajé. - É o símbolo da terra. O segundo elemento. Ele está se transformando, definitivamente, no Filho da Terra. Agora não há mais volta. Seu chamado será atendido, quer ele aceite ou não.

A mão de Mainá pousou sobre minha ferida e percebi que ela suspendeu a respiração quando foi atingida novamente. Retirou a mão por reflexo. Ouvi o pajé pedir para a turba se afastar. A luz da pedra no peito de minha índia iluminava a distância mínima entre nossos corpos. O líder espiritual começou a cantar uma cantiga indígena que eu não entendia e minha índia princesa o acompanhou.

Queria fazer tantas perguntas. O que ele queria dizer com transformação? Eu era um mutante? O que mais mudaria em meu corpo? Por que a marca estava sendo tatuada por um tirano nas minhas costas? O que tudo aquilo significava? Eu ia enlouquecer!

Não tinha escolha senão tentar esquecer a dor alucinante que tomava cada parte de meu corpo, como se os espinhos se multiplicassem a cada segundo. Minha mente não estava clara para pensar nas consequências psíquicas daquela dor.

Por mais constante que fosse, um novo golpe sempre me fazia encolher de horror. Sua força aumentando a cada nova perfuração. Meu organismo todo cedendo, amolecendo, enfraquecendo. Imaginei meu corpo como uma peneira, cheio de furinhos, vertendo sangue descontroladamente.

Eu ia morrer. Era a única explicação lógica que conseguia pensar. Meu corpo viraria nada e eu seria um deus espírito que guiaria o povo Kadiwéu naquela batalha que eu ainda não entendia. Talvez quando me transformasse - me elevasse, sei lá - seria um privilegiado e aprenderia todos os mistérios do universo.

Embalado pelas canções dos índios, me consolei com esse destino abençoado. Um sacrifício pelo bem maior. Por mais que cada golpe me arrancasse as forças físicas, minha mente, clara como cristal, não cedia à inconsciência. Queria ser forte, mas quanto mais o tempo passava, mais perdia as esperanças de me manter firme ao meu carma. Comecei a desejar uma morte rápida e benevolente.

Porém ela não veio. Mantive os olhos fixos no nada. Tentei manter minha mente ocupada, imaginando o céu estrelado sobre nossas cabeças. A lua iluminando a escuridão com seu reflexo intenso. A mata desperta, dando lugar aos animais noturnos. O relinchar dos bichos no curral. A vida dentro das malocas.

O mundo prosseguia igual apesar de minha dor, mas Mainá permaneceu firme ao meu lado, nem se movia. É claro que teve uma hora que não conseguiu compartilhar a dor comigo e parou de repousar sua mão sobre minha marca. Compreendi. Pelo menos ela havia tentado.

Ela tinha escolha de não participar daquilo. Eu não. Sua voz embalava minha imaginação que só caminhava para boas lembranças e sonhos. Imaginei o que seria desse momento se estivesse sozinho. Jamais seria forte o bastante sem minha luz. Sem Mainá.

Ondas de tranquilidade e bom humor conseguiram atingir minha mente em algum momento durante a noite. Não sabia quanto tempo havia passado ou quanto faltava para a tortura terminar e como um milagre, tudo serenou.

Movi os olhos buscando o responsável pelo torpor. Mais do que nunca não podia me mexer. Estava anestesiado. A ausência de dor renovou minha esperança. Observei o pouco que podia naquela posição. A terra batida, os pés e as pernas de Mainá.

Talvez as cantigas alcançaram aquele resultado. Tentei mover meus lábios para contar que estava melhor. Queria ouvir que ia ficar tudo bem, mas não consegui e não ouvi nada além das canções. Não havia mais dor, mas não havia sentido também. O chão sob meu corpo só era consciente porque eu podia ver.

Aquela paz me espantou. Estaria à beira da morte? Seria, na verdade, o alívio das dores humanas? Seria essa a verdadeira tranquilidade alcançada? Se realmente permaneceria em espírito, isso explicava minha mente estar tão alerta e lúcida?

A morte parecia fácil. Muito mais fácil que suportar a dor. Havia lutado por várias horas para contê-la e, no entanto, ela veio me assombrar da maneira mais sutil que podia imaginar. Eu a aceitaria de bom grado. Jamais desejaria receber aqueles ataques novamente.

Mainá parou de cantar. Talvez tenha percebido minha tranquilidade. Estaria meu corpo se agitando ao sabor dos golpes que me foram fatais? Não importava. Não queria que ela sofresse me assistindo, mas sua presença havia me ajudado muito.

Agora eu precisava me despedir. Havia descoberto meu verdadeiro amor para depois ir embora desse mundo sem vivê-lo em plenitude, mas estava feliz. Pelo menos o havia encontrado, conquistado, provado e tinha certeza de que nos encontraríamos em outro plano quando ela se juntasse a mim. Esperaria pacientemente.

A índia princesa se curvou ao chão para que nossos rostos ficassem no mesmo nível. Sorrindo para mim, deixou que meus ouvidos apreciassem sua voz.

– Estou aqui, meu amor. Aguente firme. Por mim.

Encurtando a distância entre nossas faces, Mainá colou sua boca na minha e um formigamento subiu por meu corpo, como se estivesse despertando, dos pés à cabeça. O estranho evento trouxe consigo, a cada centímetro conquistado, força renovada. Estava sendo salvo por um beijo ou esse era o suspiro antes do fim?

Antes que nossos lábios se separassem, o formigamento ganhou velocidade e força, como se forçasse passagem através dos tecidos de meu corpo. Gemi. Novas e fracas pontadas nascendo em diversas partes e caminharam desenfreadamente.

Um novo grito e nossos lábios estavam separados. Não tinha mais consciência do quanto era bom aquele contato. Eu apenas conhecia aquela dor. E como se ainda fosse possível, ela percorreu com força crescente até alcançar a marca de nascença em minhas costas, na altura do ombro.

A mão imaginária me açoitava novamente, com pregos mais compridos alcançando mais fundo em meu corpo, quase me transpassando. Fui golpeado impiedosamente sem que fosse abatido.

Movia meus dedos contraindo-os tentando fazer do movimento uma distração. Não foi eficaz. A dor me atingia brutalmente. Porém, uma chama estranha e diferente brotou em mim.

– Mainá... - consegui falar.

Agora eu tinha força e ela estava voltando apesar da dor ser maior. Precisaria mesmo dela para suportar essa nova rodada de açoites. Os olhos chocolate da minha índia se aprofundaram nos meus me dando coragem para continuar lutando pela minha vida. Por nossa vida.

– Obrigado.

Em resposta, recebi mais um beijo demorado de minha amada, apesar da dor que esse contato lhe causava também. Fiquei feliz que ela estivesse disposta a compartilhá-la comigo. A certeza de seu amor verdadeiro renovou a esperança de que logo tudo passaria e eu a teria em meus braços novamente.

CONFUSÃO

 

A sentença de m orte do coronel José Cruz não aparvalhou som ente a fam ília Gonçalves. O horror se espalhou com o vento e toda a população de Corum bá estava apavorada. Em poucas horas não havia m ais viva alm a nas ruas da cidade. Nem ao m enos espiando pelas j anelas através das cortinas.

Pelo sim e pelo não, ninguém queria ver a caçada. A polícia e as autoridades fizeram vista grossa. Tinham certeza de que a honra do hom em seria lavada em pouco tem po e tudo voltaria ao norm al. Mas as horas passaram e ninguém sabia onde Lucca estava.

Com sua m ão de ferro e braço longo estendido, o fazendeiro conseguiu um form igueiro de capangas que vasculharam cada possível esconderij o. Só faltaram torturar am igos, fam iliares e colegas de trabalho do arqueólogo para que o entregassem .

Até m esm o a im prensa j á havia se retirado. As fam ílias ficaram grudadas na televisão para verem , na segurança de seu lar, o resultado daquela confusão, que saiu apenas em um a breve notinha.

O CASAMENTO DA SOCIALITE VITÓRIA CRUZ, FILHA DO FAZENDEIRO CORONEL JOSÉ CRUZ, QUE ESTAVA MARCADO PARA HOJE AO MEIO-DIA, NÃO ACONTECEU. SEGUNDO FONTES QUE NÃO QUISERAM SE IDENTIFICAR, O NOIVO, O ARQUEÓLOGO LUCCA GONÇALVES, NÃO COMPARECEU À CERIMÔNIA E SE ENCONTRA DESAPARECIDO ATÉ O MOMENTO. NEM FAMILIARES NEM COLEGAS CONHECEM O PARADEIRO DO RAPAZ DE TRINTA E DOIS ANOS NEM O MOTIVO PARA QUE NÃO CUMPRISSE O COMPROMISSO.

AINDA ONTEM, O ARQUEÓLOGO FOI PROTAGONISTA DE UMA DAS MAIORES DESCOBERTAS ARQUEÓLOGICAS DO SÍTIO NO PARQUE MARINA GATASS, EM CORUMBÁ. SEGUNDO A HISTORIADORA VIVIANE DIAS, A PEÇA ENCONTRADA REMETE HÁ DOIS MIL ANOS, QUANDO O POVO INDÍGENA E GUERREIRO GUAIKURU VIVIA NA REGIÃO DO CHACO. ESTA TRIBO É CONHECIDA PELA CONTRIBUIÇÃO MILITAR NA GUERRA DO PARAGUAI À ÉPOCA DA COLONIZAÇÃO DO BRASIL.

José Cruz estava possesso. Contem plar a desgraça de sua filha feriu seu coração. Quem aquele canalha pensava que era para m achucar tão brutalm ente sua Vitória? Quem ele pensava que era para substituí-la por um a bugra qualquer às vésperas do casam ento? O que aquela selvagem poderia ter de m elhor que seu tesouro? Nada! E ele ia pagar caro pela ousadia.

O m édico Edgar Gonçalves tentou, inutilm ente, fazer o coronel repensar suas palavras contra o filho adotivo. Quase apanhou do velho tal era sua fúria. Conhecia a fam a do fazendeiro, m as sem pre pensara ser exagerada. Nunca im aginara que viveria para vê-lo usar de sua própria j ustiça para lavar a alm a.

Depois do susto, o patriarca da fam ília Gonçalves se revoltou. Que sociedade era aquela que perm itia os m andos e desm andos de um hom em por ser rico e influente? Em que tipo de país vivia? O desdém das autoridades era pior para ele do que a m orte de seu filho escolhido. Taxativo, exclam ara: o coronelism o voltou a reinar em nossas terras?!

Isabel estava inconsolável. Chorava sem parar. O que havia acontecido com seu filho querido? Por que havia fugido? Conhecia o coronel assim tão bem que sabia que sua vida estava correndo perigo? Seu instinto sem pre lhe dissera que aquele casam ento não seria feliz para nenhum dos dois. Talvez Lucca tivesse enxergado o m esm o.

Ao m esm o tem po em que a m ãe queria ouvir sua voz para ter certeza de sua segurança, tam bém desej ava que ele fosse para bem longe e assim nunca o ódio do fazendeiro o alcançaria. Ela poderia nunca m ais vê-lo, m as suportaria esse sacrifício para m antê-lo vivo e feliz. O que m ais Lucca estaria lhe escondendo? Quem seria aquela índia a que se referira?

Esse ganhou a confiança im ediata do coronel pela sinceridade. Vitória aceitou seus braços com o consolo enquanto seu pai caçava o hom em que a havia hum ilhado publicam ente. Nunca em toda sua vida im aginara que poderia passar por algo tão horrível. Sentia tanta vergonha que j á planej ava, m entalm ente, se retirar da cidade para um a cidade distante. Talvez Cam po Grande. Não, não, perto dem ais. Melhor São Paulo ou Rio de Janeiro. Viveria em um lugar digno de sua grandeza. Não aquela terra abom inável na fronteira com a Bolívia.

Em silêncio absoluto, o irm ão traidor especulava o que deveria dizer a sua adoradaa e soluçante Vitória. Deveria contar o restante da verdade sobre Lucca? Deveria se oferecer para substituí-lo? Deveria deixá-la com sua dor? Não, não podia se afastar agora. Talvez essa fosse a única e crucial chance que teria para fazê-la notá-lo de verdade. Mas na dúvida do que dizer continuou quieto.

Alice, por m ais que tentasse fazer piada de tudo, estava preocupada. Conhecia m uito bem o irm ão m ais velho e foi com pletam ente surpreendida. Gostava de provocá-lo por ele ser um bom m oço, correto, responsável e honesto. Aquela fuga não tinha nada a ver com ele. Quando foi que aquela m udança aconteceu?

Jader tentava ficar alheio, porém o clim a de tensão pairava no ar e dificultava até um a respiração norm al. Sentia o m edo correr por seu corpo involuntariam ente. Não im aginava, assim com o o sogro, que o coronel chegasse às vias de fato. Estava espantado e m uito preocupado com o tipo de concessões que o velho fazendeiro estava com prando para tornar-se dono daquela terra.

Antes que a noiva tivesse oportunidade - j á que vontade não teria tão cedo -, a equipe de organização de eventos lim pou todo o quintal da fazenda em tem po recorde. A grandiosa decoração festa de casam ento virou lenda. Ninguém se preocupou em fazer um a foto para registrar pelo m enos a ideia para talvez reproduzi-la em outro evento. Queriam apenas correr dali e perm anecerem seguros em seus próprios lares.

Viviane Dias estava em choque. Pensou nos anos que trabalhou ao lado de Lucca e não encontrou sinal de que aquilo um dia poderia acontecer. Era bem verdade que sem pre o vira com o um a pessoa certinha dem ais e im aginava que um dia se cansaria de agir sem pre assim . Mas daí fugir no dia do próprio casam ento j á era loucura.

A equipe estava dividida entre o susto, a preocupação e o m edo de que aquele evento abalasse a credibilidade do trabalho que realizavam , bem agora que haviam feito a descoberta m ais im portante de suas carreiras. Seria o m aior escândalo da história da arqueologia m undial.

Carlos era o único que se atrevia a andar pela cidade. Era abusado e estava disposto a enfrentar a fúria do velhote para salvar a pele de seu am igo-irm ão. Enquanto dirigia o carro em prestado com o um louco de um lado para o outro, pensava no que Edm undo havia revelado e se sentia m eio traído pelo am igo por não ter confiado a ele esse segredo. Mas tam bém conhecia m uito bem o irm ão invej oso de Lucca e podia im aginar de que form a e para que obj etivo Edm undo conseguira aquela inform ação. Não se im portava de ter sabido aquilo da m esm a form a que os outros. Só precisava encontrar o am igo para que pudesse lhe explicar tudo.

Estava dividido entre o m edo de que ele fosse ferido pela loucura que tivera coragem de com eter e pela alegria que sua atitude provocava. Sem pre fora contra aquele casam ento. Sabia que não seria um bom passo. Lucca estava no auge da carreira e precisava se concentrar em seu trabalho, não dividir sua atenção com um a m ulher exigente e m im ada com o Vitória. E ainda havia o agravante de ela ser filha de quem era. Aquilo não cheirava bem desde o início. Se Lucca nunca tivesse se com prom etido, não precisaria fugir daquele j eito. O que seria do sítio sem ele?

Na pior das hipóteses, ele poderia ter sofrido um acidente. Talvez na hora que saiu bêbado da festa de despedida de solteiro, poderia ter batido o carro ou adorm ecido na direção. Poderia estar ferido, precisando de aj uda, enquanto aqueles idiotas o procuravam para term inar o serviço. Raiva o dom inava enquanto pensava nas possibilidades.

Esse novo pensam ento o levou a procurar nos hospitais, corpo de bom beiro e delegacias. Talvez alguém o tivesse visto. Pensou até em m ostrar um a fotografia de Lucca para algum m orador, m as onde estava todo m undo? Um arrepio lhe passou pela espinha. Corum bá parecia um a cidade abandonada. Talvez realm ente tivesse sido, m as pelas autoridades locais.

A esperança de que a im prensa pudesse aj udar com algum a reportagem denunciativa correu ralo abaixo quando ouviu a notinha pelo rádio do autom óvel. Até a im prensa fora com prada. A população de Corum bá vivia o dia m ais horrível de suas vidas - m edo a assom brava - e estavam am ordaçados diante daquela inj ustiça.

Depois de percorrer toda a cidade por horas, parando aqui e ali - desviando dos capangas com que cruzava volta e m eia - Carlos retornou ao parque Marina Gatass. Desceu do carro na entrada e cam inhou pela conhecida passagem até o sítio. Dem orou um pouco para que seus olhos se habituassem à escuridão.

Ao se aproxim ar, paralisou chocado ao reconhecer a silhueta de um carro. Conhecia bem aquela carcaça. Só podia ser o popular de Lucca. Correu para encurtar a distância até o autom óvel. Abriu a porta do m otorista afobado. A luz de teto acendeu revelando seu interior com pletam ente vazio. A chave estava no contato. Não havia sinal de violência ou sangue. Tudo estava em perfeito estado de abandono. Lucca realm ente havia fugido.

Sacou o aparelho celular no bolso e tentou o núm ero do am igo. Ouviu prim eiro o toque na orelha, depois a m ensagem da irritante secretária eletrônica. Lucca não queria ser encontrado. Desej ou que o am igo fosse bem -sucedido em sua em preitada e que, àquela hora, j á estivesse a quilôm etros dali.

Discou outro núm ero e passou as últim as notícias para a fam ília Gonçalves. Decidiram que no dia seguinte Carlos levaria o carro de volta para casa de m adrugada, para que os capangas não o perseguissem achando que era Lucca. Todos acreditavam que teriam notícias do rapaz em breve. Pelo m enos, se é que isso consolava, o arqueólogo estava são e salvo em algum lugar longe dali.

***

Desem barcaram em Cam po Grande, capital do Mato Grosso do Sul, às vinte e três horas. Enquanto Marcel falava com Suzane pelo celular, os três com eçaram a corrida para fazer o check in para o últim o vôo até Corum bá. No m eio do saguão do aeroporto, Tam ires parou abruptam ente, chicoteando o braço de Alexandre que lhe segurava pela m ão bem apertado.

– O que foi, Tam ires? - voltou-se o rapaz m oreno. - Está se sentindo m al?

O loiro, percebendo a ausência do casal ao seu lado, se virou para trás e viu Alexandre com as m ãos no rosto da ruiva paralisada. Parecia em choque, outra vez. Desligou o celular enquanto voltava voando para perto deles.

– O que aconteceu, Alexandre? - perguntou.

– Eu não sei.

Afastando-o, Marcel pegou os om bros da m oça e os sacudiu sem dó. Tam ires saiu do transe im ediatam ente. Pensou que a im agem dela paralisada daquela form a se parecia com Suzane quando estava tendo um a visão, m as no m áxim o seria um insight.

– Tem os um problem a. - falou, finalm ente. - O últim o voo para Corum bá foi ao m eio-dia.

– Com o é? - exasperou-se Marcel.

Engoliu em seco e focou o rosto do cunhado grandalhão.

– Havia m e esquecido disso quando saím os apressados de casa. Pretendia te convencer a vir durante a sem ana porque sabia que os horários eram lim itados e am anhã não tem nenhum voo para lá.

Perdido em pensam entos, Marcel lançou os olhos ao redor a procura de um a luz. Viu a fachada ilum inada de um a em presa de aluguel de carros. Seria a única solução. Tam ires, acom panhando o traj eto dos olhos do cunhado, tratou logo de dar m ais explicações.

– Não vale a pena, Marcel. São m ais de quatrocentos quilôm etros até Corum bá. Chegaríam os som ente ao am anhecer.

– Mas pelo m enos chegarem os - retrucou o loiro. - E é a única opção que tem os.

– Esperem um m inuto, pessoal - interrom peu Alexandre. - Vou tentar algo.

Seus olhos estavam presos em um hom em uniform izado que entrava pela porta de desem barque. Antes de esperar a resposta do casal, correu até o hom em , conversaram por cinco m inutos antes que voltasse com notícias.

– Aquele piloto vai m e apresentar um outro que pode nos levar para Corum bá em um avião particular, m e esperem aqui.

Chocados com a rapidez e agilidade de Alexandre, Marcel e Tam ires se sentaram para aguardá-lo.

– Quanto tem po de avião até Corum bá? - perguntou o loiro.

– Uns quarenta m inutos m ais ou m enos - respondeu a ruiva. - É m uito caro alugar um piloto e um avião particular. Você tem bastante dinheiro aí? Vam os ter que fazer um a vaquinha.

– Acho que dá para arcar. Só não sei se sobra para a volta, j á que terem os que ser trazidos para cá am anhã.

– É verdade, não tinha pensado nisso - concordou a ruiva. - Estava tão focada na situação de Lucca que m e esqueci de pensar nos detalhes da viagem . Se Alexandre conseguir, será m uito m ais côm oda e rápida do que de carro. Com o Lucca está?

– Sofrendo - respondeu. - Mas vai sobreviver.

Dito isso, deu um a cotovelada nas costelas de Tam ires. Ela exclam ou um ‘ai’ e depois suspirou.

– É, assim com o eu tam bém sobrevivi.

Dez m inutos haviam se passado quando Alexandre apareceu na porta de vidro do aeroporto e acenou para que fossem ao seu encontro. Marcel e Tam ires ficaram satisfeitos com a nova aquisição ao grupo. O rapaz m oreno, alto e forte tam bém tinha um cérebro brilhante e persuasivo.

– Quanto ficou? - perguntou Marcel.

– Nada, não se preocupem - respondeu Alexandre.

– Você disse ao piloto que precisarem os que ele espere a gente para voltarm os am anhã?- questionou Tam ires.

– Sim , j á com binei tudo. Inclusive ele conhece um hotel ótim o lá.

– Quantos lugares? - perguntou Marcel ao avistar o avião.

O Citation Mustang estava brilhantem ente repousado sobre a pista pronto para zarpar. Devia ter pouco m ais de dez m etros de com prim ento e era m uito bonito.

– Seis - respondeu Alexandre.

Em barcaram em basbacados com o j atinho. Era pequeno, m as com certeza tinha ficado caro. O piloto os aguardava com um im enso e satisfeito sorriso.

– Sej am bem -vindos ao Citation Mustang. Viaj arem os a um a velocidade de 630 km /h. Por favor, se acom odem e ponham os cintos. Em sessenta m inutos pousarem os em Corum bá, a capital do Pantanal.

Por que todos os pilotos de avião agem como guias turísticos?, pensou Marcel. Talvez recebam algum tipo de treinamento específico, acrescentou aos pensam entos enquanto se sentava em um a poltrona.

Uau, por que Gustavo nunca teve um desse?, pensou Tam ires ao se sentar ao lado do cunhado m oreno. Tamires está confiando cada vez mais em mim, pensou Alexandre. Olhando ao redor, acrescentou: Fiz uma ótima negociação.

A voz do piloto soou através dos alto-falantes desej ando a todos um a boa viagem e o j atinho taxiou na pista por alguns m etros até alçar voo para o céu estrelado do Mato Grosso do Sul.

Continuar: parte 11 de 13