Filho da Terra - Os Quatro Elementos, Volume 2

Josy Stoque · Capítulo 1 de 1 · parte 8/13

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Filho da Terra - Os Quatro Elementos, Volume 2

Prólogo

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 13 partes.

Com um suspiro, a índia indicou que, finalm ente, com eçaria a falar. Aguardou com ainda m ais ansiedade suas palavras.

– Este é o altar perdido de Gô-noêno-hôdi, o Criador, construído pelos guerreiros ancestrais de m eu povo, os Guaikurus - explicou. - As inscrições contam a nossa criação e explicam o cam inho seguido por essa tribo.

Lucca pouco sabia sobre as crenças religiosas do povo que deixara vestígios na terra revolvida do Pantanal. Lem brava-se de pouca coisa. Por isso, não a interrom peu e esperou que continuasse.

– Acreditam os que o Criador tirou os povos de um buraco e lhes deu funções diferentes, com o agricultores, artesãos e caçadores - continuou a índia Kadiwéu. - Os Guaikurus foram os últim os a saírem e o criador os esqueceu. Por isso, eles se achavam no direito de roubar um pouco de cada povo.

Mainá não tirava os olhos das fotografias enquanto falava. Lucca escutava fascinado.

– A pilhagem fez os guerreiros fortes, invencíveis e tem íveis por onde passavam -prosseguiu a indígena. - E eles criaram este altar vazio para nunca se esquecerem de onde vieram . Este altar é o sím bolo do esquecim ento do Criador.

Com um a pausa em ocionada, alisou a foto com o se estivesse diante do próprio lítico.

– Com o nôm ades, seguindo as cheias do charco atrás de subsistência, os Guaikurus sem pre o levavam consigo - sua voz estava em bargada pela em oção. - Houve um a enchente inesperada. Perderam gente e vários obj etos, inclusive este altar. Porém a história foi contada de geração em geração até hoj e.

Lucca nem piscava os olhos. Contem plava as feições salientes alteradas pela força de seus sentim entos.

– Os Guaikurus se reergueram , m as nunca m ais construíram outro altar. Quando retornaram ao local da grande enchente, tentaram localizá-lo, sem sucesso. Por fim , aceitaram seu destino, talvez até um a punição do próprio Criador pela afronta, im agino eu.

Mainá parou de falar rápido dem ais, pensou Lucca. Cadê os detalhes sórdidos da história? Talvez não houvesse m ais m esm o, afinal, era um a antiga lenda de sua tribo ancestral. Os detalhes devem ter se perdido com o tem po.

– Existem relatos históricos sobre este altar? - perguntou para tentar prolongar a conversa.

– Provavelm ente não - respondeu prontam ente a índia. - Pelo m enos nunca encontrei nada em seus livros.

– A história de seus ancestrais é fascinante, Mainá. Poderia m e contar m ais?

A indígena virou-se para o rapaz ansioso ao seu lado. Um deus, belo e forte, pensou. Com o ele podia ficar tão interessado por sua história quando era ela que queria saber tudo sobre ele? Mas até agora, não tivera chance, nem coragem , de lhe fazer perguntas íntim as. Porém respondia praticam ente todas as que ele lhe fazia. Quando olhava naqueles olhos verdes, sim plesm ente não conseguia dizer não.

– O que exatam ente você gostaria de saber?

Não queria parecer introm etido, nem íntim o dem ais, por isso, m anteve o assunto no Guaikurus. Afinal, era o que lhe interessava no m om ento. Aj udaria a com preender m elhor o povo do qual escavava obj etos com certa frequência. Porém , não queria que ela percebesse o profissional por trás das perguntas. Não queria que se sentisse usada.

Mainá prosseguiu o relato de seu povo com a m esm a paixão m anifestada anteriorm ente. Contou que encontraram os cavalos na época do descobrim ento do Brasil, quando os espanhóis tentaram roubar suas terras. Depois disso, esse povo tornou-se ainda m ais tem ido. A parte que Lucca achou m ais interessante, que pouco conhecia, era a participação dos Guaikurus em um a guerra civil contra a invasão espanhola em território brasileiro.

Mas não seria naquela noite que Lucca ouviria tudo. Teriam m uito tem po nos próxim os dias.

***

A assem bléia, apesar de m uito pequena, durou um a longa hora logo após o am anhecer, durante o farto café da m anhã. Tam ires argum entou em defesa de Alexandre, j á convencida de sua sinceridade e de sua aj uda útil para a m issão que tinham pela frente. Porém , Marcel e Suzane relutaram .

Sua argum entação era sim ples e indiscutível, apesar da insistência da ruiva. Nem m esm o Tam ires o conhecia bem , m esm o depois de conviver com ele por seis anos. Não podiam arriscar o sucesso da m issão confiando em um a pessoa desconhecida e com supostos conhecim entos do lugar em que viveram quando crianças.

Por fim , com a persistência do im passe e com voto vencido, Tam ires im plorou que dessem apenas um a chance, um a pequena chance de ouvi-lo, antes de decidirem . Afinal, não viaj ariam naquele m esm o dia. Apenas nos próxim os. Marcel acabou cedendo, j á que Suzane se absteve e piscou os olhos cansada.

– Tudo bem - respondeu em tom com preensivo. - Vou dar para ele os próxim os dias. Mas ainda não diga nada de nossas descobertas. Quero conhecê-lo m elhor pessoalm ente.

Saltitante, Tam ires lhe deu um beij o estalado na bochecha agradecida.

– Tenho um a ideia! - exclam ou de repente o loiro sobressaltando o sono da doente. -Você gostaria de ver m eu trabalho de perto? Você podia aj udar e substituir Suzane.

Os olhos verdes de Tam ires se ilum inaram .

– Claro que sim - respondeu im ediatam ente. - Vai ser ótim o m e m anter ocupada. Por que não m e cham ou antes?

Rindo, Marcel se apressou em acrescentar.

– Tem razão. Devia ter pensado nisso antes.

A cam painha tocou. O coração de Tam ires quase saltou boca afora. Enquanto corria até a porta, ouvia o cunhado falar.

– Ah, cham e Alexandre para ir conosco. Será um a boa oportunidade para conhecê-lo m elhor.

O brilhantism o da ideia do cunhado só deu m ais certeza para Tam ires. Um dia j untos, durante o trabalho de Marcel, seria perfeito para que a dúvida se dissipasse totalm ente. A porta se abriu com um rangido. O hom em belo e bronzeado vestia um look praia m uito sexy. A m ulher conteve um suspiro.

– Oi - conseguiu balbuciar.

– Oi - respondeu tam bém encantado.

Convidou-o para entrar e se sentar na sala. Estendeu rapidam ente o convite para que pudesse se arrum ar para saírem . Só que fez de outra form a, sem convidá-lo diretam ente.

– Hoj e vou acom panhar Marcel em seu trabalho.

– Posso ir j unto? - perguntou o hom em alto e sedutor rápido.

Sorrindo, balançou a cabeça positiva e pediu para que esperasse e estaria pronta em cinco m inutos. Quando a m ulher saiu, Marcel entrou na sala. O rosto claro ainda m ais branco devido ao protetor solar, um chapéu de pano na cabeça, cam iseta branca sob um cam isão florido e um a berm uda de tactel.

Os hom ens trocaram algum as palavras m ais por educação do que por vontade. O loiro deixou sua sim patia inundar o am biente para que o m oreno ficasse à vontade, m as não surtiu tanto efeito. Este cara é bem estranho, pensou, m as havia prom etido para a cunhada pelo m enos tentar se aproxim ar dele. Não faria j ulgam entos precipitados.

– Então, foi o trabalho que te trouxe para cá? - puxou conversa Marcel.

– Sim - respondeu Alexandre, o tom form al na voz. - Sou representante. E você?

– Sou biólogo. E sou voluntário no proj eto TAMAR. Conhece?

– Claro. Existem várias bases pelo Brasil, não é?

– Vinte e três em toda a costa. É ótim o trabalhar na preservação de um a espécie tão encantadora com o as tartarugas m arinhas.

– Mas o trabalho se estende para m ais áreas, não é?

– Você está bem inform ado! - espantou-se. - Sim , é verdade. O proj eto precisava estender seu braço para garantir o sucesso de seu obj etivo inicial. Conservação e pesquisa aplicada, educação am biental e desenvolvim ento local sustentável - acrescentou o rapaz loiro. -Oferecer alternativa econôm ica para as com unidades costeiras tam bém é um a form a de am enizar as questões sociais para que reduzam os a pressão hum ana sobre as tartarugas m arinhas.

Tam ires voltou à sala nesse m om ento tirando o fôlego de Alexandre. Vestia um shortinho j eans curto que m ostrava suas pernas claras e bem torneadas, um a regata branca, chinelo e o m esm o chapéu largo e exuberante cobria seus cabelos verm elhos soltos.

– Vam os? - quebrou o silêncio a m ulher tirando-o do transe.

Na garagem dos fundos da casa de veraneio, Marcel rem oveu a lona laranj a que cobria um j ipe verde. Era o veículo m ais apropriado para andar nos terrenos acidentados e nas praias dali. Era a prim eira vez que Tam ires o via. Os dois sentaram -se na frente e Alexandre atrás, agarrado à grade superior.

Aproveitaram o passeio em silêncio, adm irando a paisagem . Era o paraíso. Nunca um lugar poderia unir desenvolvim ento e natureza com tanta harm onia. O cenário natural praticam ente não fora m odificado. Os bairros eram pequenos e poucos, garantindo a preservação do lugar.

Cruzaram o curto traj eto asfaltado entre as casas se afastando cada vez m ais da casa. Depois da últim a m oradia da vila o cam inho passou a ser de terra batida. No horizonte à frente, havia m ais um a linha divisória entre dois tons de azul, denunciando m ais m ar e o céu, cenário picotado por m orros verdes e cinza.

Percorreram aproxim adam ente m etade do cam inho até a próxim a praia à frente e viraram à direita seguindo a linha sinuosa da estrada verm elha. Alexandre e Tam ires eram os que m ais sofriam com o sacolej ar do j ipe sobre o terreno disform e. Porém , ela ainda tinha a garantia do cinto de segurança.

Quando se aproxim aram de um a baía, onde as ondas quebravam na areia branca da praia à esquerda, avistaram do lado oposto a pista de pouso e decolagem do aeroporto. A estrada os afastou da água lím pida e os levou cada vez m ais perto da pista, passando m uito rente dela em um pequeno trecho.

Tam ires e Alexandre observavam tudo m aravilhados. Era a prim eira vez que ela andava m ais do que quinhentos m etros em seu novo lar. Estava feliz observando as novidades e sentindo o vento soprando seu cabelo e batendo direto em seu rosto. Marcel j á estava acostum ado ao cenário, portanto apenas dirigiu.

O som da arrebentação constante foi sobreposto pelo zum bido do avião que decolava. Era pequeno, provavelm ente particular, porém seu potente m otor cham ou a atenção das três pessoas dentro do j ipe. Tão rápido quando subiu, o avião transform ou-se em um pequeno ponto no céu claro e logo desapareceu.

Avistaram um a nova praia, cercada de pedra e água. Um a baía m uito m aior que a outra. As rochas nas pontas form avam um arco bem fechado, quase unindo-as. Alguns picos soltos surgiam na abertura da baía para o alto-m ar. Ao se aproxim arem m ais, viram um a estrada que cruzava o cam inho e levava para outra pequena vila desabitada.

Antes que cruzassem a pista seguindo ainda a estrada de terra, do lado oposto da baía viram um açude m uito azul recortado pelo verde-m arrom . Era um a piscina de água salgada, natural e linda. Os olhos vivos de Tam ires acom panharam -no até quase saírem das órbitas. Por isso, não viu quando Marcel pegou a estrada da direita na bifurcação à frente.

No fim , havia um a casa m uito grande e um a placa a identificava.

CENTRO DE VISITANTES - MUSEU ABERTO DAS TARTARUGAS MARINHAS

Marcel estacionou o j ipe e desceu seguido por Tam ires e Alexandre. Entraram no recinto. O biólogo cum prim entou todos que passaram por ele. Observando, o casal o seguia de perto. Viram a praça tem ática com exposição sobre itens relacionados às tartarugas que ocupava grande parte do prédio. Havia um a placa, m ais para frente, indicando o cam inho até o auditório.

Atravessaram um a porta grande de vidro e viram um a área anexa. Um a placa dizia que ali havia quiosques de divulgação e prestação de serviços à com unidade e aos visitantes. Lá Marcel encontrou m ais colegas. Cum prim entaram -se e em seguida foram direto ao que interessava.

– Algum a equipe j á está na praia? - perguntou Marcel para a m ulher do outro lado do quiosque.

Pele m orena, cabelos loiro escuro, olhos m el. Era baixinha e m agra, os m úsculos dos braços definidos e salientes em cada m ovim ento que fazia. Ela separava plaquinhas brancas e canetões coloridos.

– Não - respondeu. - Estávam os nos organizando. Partirem os agora.

– Chegam os na hora certa! - exclam ou o loiro. - E eu trouxe m ais dois para aj udar e substituir a Suzane que está doente.

– Sinto m uito. Mas fico feliz que ganham os m ais dois voluntários.

A m ulher cum prim entou-os apresentando-se com o Priscila. Em seguida, seguiu direto para um aglom erado de gente a alguns m etros adiante. O grupo estava anim ado para com eçar o trabalho daquele dia. Marcel a seguiu e o casal de cunhados correu atrás dele.

– Você sum iu - sussurrou a m ulher para Marcel.

– Suzane não podia ficar sozinha.

– Mas hoj e você a deixou.

– Sim - respondeu. - Precisava m e distrair e dar algum a coisa para Tam ires fazer senão ela ia m e enlouquecer - riu. - Ela tem aj udado bastante com a Su. Agora ela está descansando.

– Estim o m elhoras - m urm urou Priscila. - Diga a ela por m im .

Marcel apenas m eneou a cabeça e reduziu a passada para em parelhar com Alexandre e Tam ires. Aqueles dois andavam tão calados, porém podia sentir um a energia forte cruzando entre eles. Ali tinha coisa, m as quem era ele para j ulgar? Deixou para lá e seguiu a turba.

– Onde estam os indo? - perguntou Tam ires.

– Para a Praia do Leão - respondeu Marcel. - Oitenta por cento das desovas ocorrem lá.

– Me aj uda a m e localizar - resm ungou a cunhada. - Em que lado da ilha estam os agora?

O loiro riu antes de responder.

– Moram os em frente ao m ar de dentro e agora estam os do lado do m ar de fora.

Tam ires não era boa em pontos cardeais. Para ela, rodaram em círculos. Não prestara atenção à volta que deram para não se perder. Aquele horizonte era m esm o diferente. O m ar era m ais bravio.

Chegaram à praia. Marcel apontou para m arcas engraçadas na areia, longas e constantes. Vinham da beira d’água até perto do verde que cercava a brancura dos grãos de areia. A praia toda era lim itada pelo m ar de um lado e pela m ata do outro. Era incrível.

– Estão vendo? – perguntou. - É rastro de tartaruga à procura de um local seguro para a desova.

– O que tem os que fazer? - questionou Alexandre m ostrando interesse.

– Tem os que localizar os ninhos e sinalizá-los para que sej am vigiados até que eclodam . Tem os que garantir que sobrevivam até lá.

– Qual é o período da desova aqui no Brasil? - continuou perguntando o rapaz.

– De dezem bro a j unho. Aqui recebem os a tartaruga verde. Monitoram os, dia e noite, cerca de cem desovas por estação reprodutiva. Ao todo podem os alcançar o núm ero de 8.900 filhotes.

Enquanto conversavam , Marcel seguia o rastro das tartarugas e localizava os ninhos. O casal observava enquanto o rapaz o sinalizava com um a placa. Tam bém verificava se todos os ovos estavam em perfeito estado antes de partir para o próxim o.

– Por que elas estão tão am eaçadas? - perguntou Tam ires.

– Existem m uitos fatores - respondeu Alexandre. - Pesca indiscrim inada com redes que as capturam acidentalm ente, m utilando ou m atando. E com o as tartarugas m arinhas são m igratórias, os riscos aum entam .

– Isso m esm o - concordou Marcel. - Com o elas têm um a vida m uito longa, chegam à fase adulta som ente depois dos vinte e cinco anos. E aí se tornam reprodutivas. Por isso é m ais fácil m atá-las do que repô-las à natureza. Nosso trabalho é garantir que elas consigam , lenta e constante.

– De acordo com relatos - acrescentou Alexandre -, houve um a redução drástica dessas populações, algo em torno de 60%. Muitas fêm eas que chegam à praia para desovar são m ortas e seus ovos coletados. É um a crueldade indiscrim inada com esses anim ais. Não posso conceber algo assim .

Marcel e Tam ires se entreolharam e antes que pudessem acrescentar algum a coisa, Alexandre continuou a falar.

– Fico revoltado com o que o ser hum ano é capaz de fazer com a natureza, sua própria m ãe, doadora de vida, de subsistência. É a m aior traição de nossa raça. É com o apunhalar faltam ente pelas costas a própria m ãe!

Alexandre se calou de repente com um nó na garganta. Os dois perceberam e não sabiam o que fazer. Tam ires pensou: Ele realmente veio do mesmo lugar que eu. Ele se importa, de verdade. Não há mais dúvidas de suas intenções. Marcel tam bém deu o braço a torcer: Acho que realmente este homem é quem diz que é.

O hom em alto e m oreno se recom pôs com a velocidade da luz e j á estava se debruçando ao lado de Marcel pedindo orientação para procurar o próxim o ninho. Tam ires viu, m aravilhada, o cunhado cam inhar a procura de um rastro de tartaruga, com um a placa branca na m ão.

– Você prestou atenção nisso, Marcel? - perguntou quando ficaram sozinhos.

– Sim - respondeu acom panhando o outro com os olhos. - Adm ito que m e im pressionou.

– Te digo m ais - confidenciou. - Em seis anos nunca o vi falando tanto e de form a tão em ocionada.

– Acho que podem os dar um voto de confiança a esse rapaz - confirm ou. - Mas ainda tem os um tem pinho antes de partir.

– Marcel - reclam ou Tam ires -, desse j eito vam os chegar tarde dem ais.

Franzindo o cenho, o loiro nem se deu ao trabalho de responder. A ruiva tam bém não retrucou. Voltaram às tarefas.

Tam ires o viu sorrir para as pessoas do grupo. Alexandre finalm ente desfizera a m áscara e se tornara um j ovem norm al e anim ado. Tinha que adm itir que era m uito m ais do que Gustavo. Mas podia entender a diferença. Seu m arido era um hom em de negócios. Havia se criado sozinho e passado poucas e boas para alcançar seu obj etivo.

O irm ão m ais novo tam bém tinha sua cota de sofrim ento, m as ainda tinha m uito m ais a conquistar na vida. Tê-lo ao seu lado, a partir de agora, seria um a grande e em ocionante aventura. Seria m ais que seu aliado, provavelm ente, seu m elhor am igo, na ausência de Carolina -a quilôm etros de distância.

Decidiu que estava na hora de inform ar sua am iga sobre os últim os acontecim entos. Explicaria tudo com detalhes. Era a única que sabia de tudo que havia passado e o que acontecia com ela depois que fora em bora de Foz do Iguaçu. Carol tinha o direito de saber sobre a revelação do verdadeiro Alexandre.

O j ovem alto e m oreno prosseguiu um a longa e anim ada conversa com Marcel sobre preservação do m eio am biente e das tartarugas m arinhas. Alexandre se m ostrou antenado em tudo o que existia no m undo sobre o assunto, inclusive as estatísticas de desm atam ento e queim adas.

Tam ires ouvia cada vez m ais adm irada. Percebeu o quanto havia ficado alheia ao m undo real enquanto vivia seu ‘conto de fadas’ com Gustavo. Para ela, até aquele ano, só existia sua vida. Não que fosse egoísta, m as vivia um clim a de felicidade e realização tão grande que era im possível canalizar sua atenção fora do seu m undinho.

Estava feliz por ter despertado desse sonho encantado e ter caído de para-quedas no m undo real. O tom bo havia deixado sua dem onstração de dor e sofrim ento, porém se erguera m uito m ais forte e preparada para enfrentar o m undo e suas intem péries. Estava feliz por estar elucidada, m esm o que essa verdade a tenha tirado dos braços daquele a quem am ava.

Dissipou esses sentim entos conflitantes antes que fizessem algum efeito sobre seu bom hum or. Estava doida para chegar a casa e contar a Suzane tudo o que acontecia ali. Sabia que por m ais teim osa que ela fosse, acabaria por aceitar Alexandre, assim com o Marcel estava fazendo.

Deixaram para trás um a dúzia de ninhos catalogados para à tarde serem inspecionados com cuidado. Instalariam equipam entos especiais para serem m onitorados vinte e quatro horas por dia. Ainda teriam m uito tem po para participar do proj eto TAMAR.

DESPEDIDA DE SOLTEIRO

 

Os dois dias seguintes foram m uito corridos. Sem tem po de com er, conversar ou ficar com a fam ília, noiva ou am igos, Lucca estava com pletam ente focado no trabalho. Ocupado com as inscrições, dividia seu tem po entre o escritório, onde os pesquisadores tentavam decifrar a peça, e o sítio, no qual a m aior parte da equipe voltava às escavações paralisadas.

Não podia contar para Viviane Dias toda a im pressionante história que Mainá havia narrado sobre seus ancestrais, m as podia dar dicas. E foi o que fez. Graças a sua orientação, a historiadora e sua equipe conseguiram interpretar a inscrição com m ais obj etividade. Lá estava, cravado em relevo na pedra polida, a lenda sobre a criação dos Guaikurus.

A em polgação foi renovada no corpo do arqueólogo j unto com a novidade para toda a equipe. O bochicho na cidade cresceu consideravelm ente enquanto os últim os preparativos para expor o obj eto no m useu era realizado. Queriam estar prontos ainda naquele dia a fim de iniciar a exposição especial no com eço da próxim a sem ana.

Passava da hora do alm oço quando Lucca saiu do m useu ao lado de Viviane, conversando anim ados. Havia um a m ultidão ao redor da entrada, praticam ente fechando a rua. Distinguiram na m uvuca as câm eras das redes de televisão brasileiras: Globo, Record, SBT, Band, RedeTV e Cultura. A im prensa estava em peso na dianteira dos curiosos. Agora entendiam o que os atraíra ali.

– Quem cham ou a im prensa? - sussurrou o arqueólogo para sua com panheira.

– Não sei, m as posso im aginar - respondeu ciciando a historiadora.

A chuva de perguntas deixou o casal de pesquisadores tonto, sem saber por onde com eçar. Lucca pensou, com agilidade, que precisavam de um assessor de im prensa com urgência. Havia lutado tanto para alcançar esse m om ento em sua carreira, m as não lem brara de contratar um a pessoa tão essencial que os auxiliaria com aquela turba.

Viviane sobrepôs sua voz, carregada de experiência e calm a para organizar as perguntas.

– Pessoal, vam os responder a todos. Mas preciso que façam um a pergunta de cada vez, por favor.

Um a nova confusão se arm ou, j á que todos queriam fazer a prim eira pergunta. A historiadora, com calm a, reorganizou, escolhendo quem a faria. Os repórteres estavam bem inform ados. Sabiam quem eram e quais suas funções.

Um a parte das perguntas foi direcionada a Lucca e outra a Viviane. O arqueólogo respondeu a todas obj etivam ente para que com preendessem a natureza daquela escavação e sua im portância para a história pantaneira. Sentiu-se à vontade diante da m eia dúzia de câm eras. Era exatam ente isso que queria. Reconhecim ento por seu trabalho e esforço.

Viviane tam bém dem onstrou segurança diante das potentes e intim idantes lentes. Respondeu as perguntas sobre história indígena com eloquência. Os j ornalistas queriam ver e fazer im agens da peça. O casal conversou por alguns segundos para decidir. Ao final perm itiu. Seria a prim eira im agem de sua m aior descoberta.

Acom panharam os cinegrafistas e repórteres para dentro do m useu. A peça estava em um a área isolada. Deram autorização para que a segurança liberasse a entrada da im prensa. Os curiosos se aglom eraram no saguão principal.

Novas perguntas surgiram enquanto analisavam o obj eto a certa distância, lim itados por um a fita am arela e preta. Responderam a todas. A curiosidade deles não tinha fim . Lucca e Viviane com eçavam a achar que não sairiam daquele m useu tão cedo quando um a pergunta inesperada surgiu.

– Lucca, é verdade que vai se casar am anhã com a filha do coronel José Cruz?

Em palidecendo, o arqueólogo conferiu o relógio. Passava das duas horas da tarde. Estava atrasado para a últim a prova do terno! Ao m esm o tem po, o celular no seu bolso vibrou e quase o fez saltar de susto. Conseguiu trazer o sorriso ao rosto enquanto pegava o aparelho com a m ão direita.

– Sim , é verdade – respondeu sacando o celular. - Preciso ir, pessoal. Se tiverem m ais algum a pergunta, fiquem à vontade para fazê-la a Viviane.

Afastando-se com dificuldade da m ultidão j á com o aparelho na orelha, ouviu a voz de Vitória do outro lado da linha.

– Lucca! Cadê você? – berrava. - Estam os atrasados para a prova.

O arqueólogo pediu desculpas e explicou o que estava acontecendo em frente ao m useu. Im ediatam ente a j ovem se acalm ou. Disse que ligaria para o ateliê para explicar e garantir o horário. Desligou o aparelho docem ente dizendo que o esperaria. Estrem eceu, ainda bem que não estava em frente a ela agora para ler seus pensam entos e entender os m otivos que a fizeram m udar tão drasticam ente de hum or.

Ao passar pelo parque não resistiu a um sorriso. Pensou em Mainá e nas histórias que ela lhe contara. Com o havia sido conveniente essa nova am izade nesse m om ento de sua carreira. Pensou tam bém que ela m erecia algum crédito, m as com o se não queria sair do anonim ato? Talvez um presente fosse um a boa solução.

Enquanto pensava o que poderia dar a índia, chegou à fazenda. A noiva o esperava no topo da escadaria, na som bra, protegendo-se do sol quente. Depois que entrou no carro e o beij ou, m onopolizou toda sua atenção fazendo um m ilhão de perguntas sobre a im prensa. Lucca segurou um a careta enquanto constatava o interesse fútil da j ovem .

A prova confirm ou a ele o que j á havia percebido. Tinha em agrecido. Alim entou-se m uito m al nos últim os dias. O alfaiate disse que o cinto resolveria a pequena alteração na cintura da calça. O resto continuava bom . Ficou feliz que não precisasse de m ais nenhum a m odificação e logo estava pronto para voltar ao trabalho.

Pretendia voltar ao sítio no período da tarde. Havia ficado a m anhã todo entre o escritório e o m useu, precisava verificar o trabalho da outra parte da equipe. Ainda bem que a prova de Vitória tam bém foi rápida. Já estavam voltando à fazenda.

– Am or, não quero que venha em casa hoj e à noite - anunciou de repente a noiva.

O noivo se espantou com o pedido. Quase se constrangeu. Ela não era disso. Ao contrário, era bastante exigente sobre sua presença nos finais de sem ana.

– Tudo bem , se é o que você quer - balbuciou resignado.

Vitória soltou um risinho divertido e se debruçou sobre o braço direito de Lucca.

– Claro que não, seu bobo! - brincou - Não é o que quero, m as o que preciso. - Deu um beij o estalado na bochecha do noivo - Vou dorm ir cedo e usar um a receitinha de beleza que m e passaram no salão. Preciso acordar linda am anhã!

Lucca riu j unto com a noiva. Agora estava entendendo.

– Tam bém não dá sorte o noivo ver a noiva na noite anterior ao casam ento.

– Pensei que era só vê-la vestida de noiva que dava azar - retrucou.

– Tam bém ! - E apertou a ponta do nariz de Lucca.

Antes de descer do carro, em frente às escadarias da enorm e m ansão, Vitória lhe deu um beij o apaixonado.

– Estou tão feliz!

– Eu tam bém - balbuciou contagiado.

– Te vej o am anhã, no altar.

Lucca se debruçou e lhe deu outro beij o em resposta. Observou-a subir graciosam ente os degraus e lhe acenar da porta antes de arrancar.

Com a correria da sem ana, nem tivera tem po de pensar que o dia do seu casam ento havia, finalm ente, chegado. Não era de se espantar, afinal, a data havia sido escolhida o m ais próxim o possível. Ao contrário do que im aginava, não se preocupou com a cerim ônia. Já havia superado o receio.

Vitória tinha lhe dado um tratam ento de choque no dia das provas. Viu tanta coisa sobre o casam ento que não era possível que não fosse verdade. Aconteceria. E seria na m anhã seguinte. Apagou esses pensam entos assim que atravessou o portal de entrada do Parque Marina Gatass.

O entusiasta Carlos Aguiar o recebeu com um efusivo abraço. O am igo sentia falta da com panhia de Lucca, afinal não passavam m ais o tem po todo j untos.

– É hoj e, hein! - exclam ou o m elhor am igo.

– Hoj e? - respondeu o arqueólogo com um a pergunta. - O quê?

- Vam os fazer um churrasco lá em casa.

- Ah, Carlos - apreensivo -, nem vem com despedida de solteiro.

– Qual é, Lucca ‘Todo Certinho’! - Viu seu cenho franzir. - Relaxa. É só um churrasco. Carne. Cervej a. Pão com vinagrete. E farofa.

Mesm o desconfiado, Lucca acabou concordando. Iriam direto dali para a casa do am igo. Todos os rapazes do trabalho foram convidados. Seria um a grande farra. O arqueólogo não estava acostum ado com isso, m as podia m esm o ser divertido. Poderia ser a últim a vez que faria parte de um a festa. Depois voltaria a ser o hom em sério de sem pre, porém com um a argola no dedo que o lim itaria eternam ente.

Sabia, era sério por natureza. Mas e se um dia se arrependesse disso e quisesse um a boa noitada com os am igos? A partir de am anhã não poderia m ais satisfazer essa vontade. Era sua últim a. E não pretendia estragar o churrasco. Iria se divertir, no final das contas.

A tarde passou voando sobre a cabeça de Lucca, trazendo um tom azul m arinho ao céu estrelado. Sentiu a presença m uito perto de Mainá e quase se rendeu à irresistível força que o puxava. Enquanto o pessoal agrupava as ferram entas para zarpar, se afastou do sítio à procura da índia para lhe dar explicações.

Encontrou-a pouco além de algum as árvores. Um risco m uito grande. Poderia ser encontrada por qualquer outro se alguém resolvesse se aventurar por ali.

– Você está m uito próxim a, Mainá - alertou o arqueólogo.

– Eu sei, m as estava ansiosa.

E seus olhos revelaram o m otivo. Um aperto estranho no peito. Achei que algo tivesse acontecido com você. Lucca sorriu. Era tão sincera com ele. Com ovente.

– Não se preocupe com igo. Estou apenas m uito ocupado, dividindo m eu tem po entre dois lugares de trabalho - riu. - Vim tam bém para te avisar que não poderei ficar hoj e. - Não precisava ler seus pensam entos, sua expressão era suficiente para traduzir o que a indígena pensava. - O pessoal organizou um a festinha e terei que ir.

A expressão de Mainá ficou entre a decepção e a aceitação, m as ela sabia que não teria escolha. Ficaria sem seu novo am igo hoj e.

– Tudo bem , m as tom e cuidado, por favor. Esse pressentim ento ruim ainda não se dissipou só porque você está aqui diante dos m eus olhos.

Instintivam ente, Lucca se curvou sobre ela e tom ou-lhe a m ão. Reteve-se para não se perder nas profundezas de seus olhos chocolate, deu-lhe um beij o na testa, se despediu e voltou para o sítio antes que sentissem falta dele. Encontrou a equipe pronta para partir.

Ele e m ais três rapazes foram em seu carro. Conversavam anim ados, contagiando o m otorista. Não conseguia tirar da m ente a preocupação da índia, sua am iga secreta. Que pressentim ento seria esse? Não duvidava de m ais nada nessa vida, acreditaria até m esm o em sexto sentido fem inino a partir de agora.

A parafernália estava arm ada na casa de Carlos. Churrasqueira aquecida - um churrasqueiro cuidava da carne, um freezer gigante cheio de garrafas de cervej a, um a m esa de m adeira enorm e cheia de pratos, copos e acom panham entos para o churrasco, com o: farofa, vinagrete, pim enta, m olho tártaro. Nada de arroz. Nenhum hom em com eria.

Achando tudo m uito norm al e divertido, Lucca relaxou e aproveitou a festa. Controlou a cervej a, j á que Carlos não podia ver seu copo vazio. Não queria ficar bêbado. Com eu m uita carne, de todos os tipos, m ergulhando cada pedaço em um m olho diferente.

A m úsica estava alta, obrigando todo m undo a conversar aos gritos. Por isso, os hom ens estavam separados em pequenos grupos de três ou quatro pessoas para que pudessem se entender. Lucca acabou girando entre os grupos e os assuntos rodavam entre trabalho, m ulher, política e religião.

Alguém se lem brou de levar um baralho. E um grupo sentou ao redor da m esa de centro para j ogar cartas. Volta e m eia um grito seguido de um a batida na m adeira cortava todos os assuntos. Todos riam e voltavam para o ponto da conversa em que foram interrom pidos.

A cam painha tocou e Lucca percebeu que som ente ele prestou atenção. Com sua audição aguçada, não tinha com o não ouvir cada som e até além . Resolveu atender a porta j á que ninguém se m oveu naquela direção. Tom ou um susto ao abri-la.

– Boa noite - cum prim entou o entregador. - Entrega para o senhor Carlos Aguiar.

Era um bolo enorm e que precisava ser carregado com um carrinho. Tinha m ais ou m enos um m etro e m eio de altura e quase era tão largo quanto a porta. Depois de assinar o recibo, acom panhou o hom em que o em purrava para dentro e ficou com m edo de que o bolo podia representar. Não com binava com churrasco.

Som ente nesse m om ento os outros voltaram a atenção para a entrada. Ficaram logo m uito m ais anim ados, deixando o arqueólogo desconfiado. O bolo era colorido e grande dem ais. Seria o que estava pensando? Carlos indicou onde deveria ser colocado. Bem no centro da sala.

Assim que o hom em saiu, a m úsica m udou. Luzes coloridas tom aram conta do am biente, sem i-escurecendo tudo. Isso não dificultou a visão de Lucca. Franziu o cenho. Não tinha m ais dúvidas do que estava prestes a acontecer. Aproxim ou-se de Carlos.

– O que é isso? - perguntou sussurrando.

– O quê? - gritou o am igo. - Não estou te ouvindo!

Lucca faria j ustiça a sua fam a de certinho - não aceitaria aquilo de form a algum a. Todos os hom ens ficaram eufóricos enquanto a m úsica envolvente e as luzes aum entavam a expectativa sobre o grande obj eto.

A tam pa do bolo se m oveu. Lentam ente um a m ão surgiu sob a m adeira e a rem oveu. As m ãos dançaram ao ritm o da m úsica, revelando cada vez m ais o braço. O cabelo loiro surgiu prim eiro e em seguida, o rosto sensual de um a m ulher, m aquiada. Batom verm elho, lápis preto, som bra prateada, cílios postiços longos, unhas verm elhas bem feitas e com pridas. Bem vulgar.

Ficando em pé, a m ulher revelou o busto sem inu coberto por um pequeno e brilhante top preto e verm elho. Tom ando im pulso, retirou as pernas de dentro do bolo e saltou graciosam ente para o chão, revelando o pouco tecido que usava na parte de baixo do biquíni m ínim o.

A turba de hom ens se aproxim ou com olhos devoradores, deixando Lucca m ais afastado. Estava com os braços cruzados, visivelm ente contrariado. Percebendo a distração dos am igos, deu um passo para trás, isolando-se ainda m ais. A m ulher sum iu de sua visão, os corpos m asculinos eriçados a encobriam .

Enquanto os gritos e assovios se j untavam à m úsica alta, se distanciou de fininho, passo a passo, até alcançar a porta. Com sua força extra, em purrou o carro por alguns m etros para que não ouvissem o m otor ligar. Arrancou e partiu.

Pela prim eira vez, a ira sobrepuj ou qualquer sentim ento bom que tinha. Nunca gostou de se sentir assim . Ficava m uito m al consigo m esm o quando sentim entos ruins o dom inavam . Estava revoltado com o que seus am igos fizeram m esm o sabendo de sua opinião a respeito.

Já que pagaram , pelo m enos curtiriam o show de stripetiase da garota de program a. Mas não com pactuaria com aquilo. No dia seguinte estaria casado. Não queria se sentir suj o e indigno do respeito de Vitória, m uito m enos da adm iração im aculada de Mainá. Sem pre via a índia com o alguém puro.

Sabendo que não teria para onde ir sem ser encontrado, foi direto para o parque. Lá estaria seguro até que a festa finalm ente term inasse com todos satisfeitos. Talvez nem sentissem sua falta. Contava com isso. Afinal, não queria que ninguém - e pensou im ediatam ente em Edm undo - soubesse que havia fugido de sua despedida de solteiro.

***

A carta de resposta de Carolina chegou quase que im ediatam ente ao envio. Tam ires estava nervosa com a rapidez. Não era bom sinal. Abriu logo o envelope e leu rapidam ente. Suspirou ao final da leitura. A am iga estava feliz e surpresa.

A ruiva riu de si m esm a. Com o Carol iria desconfiar que Alexandre fora atrás dela se não tivera coragem de entregá-lo na carta? Usara a desculpa m entirosa da coincidência de seu trabalho levá-lo para lá. Sabia que a am iga não ficaria feliz se soubesse que o cunhado havia conseguido a inform ação através das cartas. Sentiria-se traidora, j am ais se perdoaria. Tam bém contara sobre a conversa em que haviam se tornado am igos e as confissões que Alexandre lhe fizera.

Carolina tam bém estava contente por Tam ires ter conseguido um grande aliado em sua m issão. A m elhor am iga term inou a m ensagem contando sobre a prisão de Fernando Alves que foi reconhecido por um guarda da hidrelétrica. Iria a j ulgam ento pelo hom icídio de Pedro Tosquini por om issão de socorro. Disse tam bém que Gustavo perguntava dela todo o dia. Prom eteu não contar a ele sobre Alexandre ainda, som ente quando Tam ires achasse conveniente.

Feliz, abraçou a carta se lem brando da conversa com Marcel e Suzane sobre o m oreno. Estavam m ais confiantes agora que sabiam que o rapaz era sincero. Havia m uito para aprenderem depois que voltassem de Corum bá. E haveria tam bém um novo aluno se tudo desse certo.

Contrariando a vontade de Marcel, Tam ires j á havia se preparado para viaj ar. Antecipou a com pra das passagens sem que soubessem . Porém , valeriam para qualquer horário que precisassem . Preferiu não m arcar a data para não perdê-las. Estava apenas se antecipando para que, quando chegasse o m om ento, corressem para o aeroporto.

Queria senti-lo antes que acontecesse, m as seus novos poderes não lhe diriam nada. Certo sexto sentido lhe dizia que estava m uito, m uito perto. Depois dos últim os acontecim entos, a últim a etapa chegaria repentinam ente e nas próxim as horas, com certeza. Tinha sua própria experiência para com parar. Apagou a luz do quarto e tentou adorm ecer.

PROMETIDA

 

Enquanto eu caminhava pela escuridão - não para mim - da caverna, via uma luz tremeluzente se agitar algumas centenas de metros ao fundo. Sabia que era o indício da presença da índia. Uma canção embalava a noite, cantarolada pelos lábios de Mainá. Uma música desconhecida, doce e cativante.

O som do crepitar do fogo se uniu a bela canção. A expectativa tomou conta de mim enquanto me aproximava com uma curiosidade crescente. O que ela estaria fazendo? Sabia que talvez a pegaria em algum momento de intimidade ou até de espiritualidade, já que não esperava me ver hoje.

Conhecia muito pouco sobre ela, apesar de já ter me dito muita coisa. Em tudo havia sido muito direta e objetiva, me privando dos detalhes. Não imaginava o que esperar daquele encontro sorrateiro. Ao mesmo tempo em que estava curioso, também tinha lugar o receio de surpreendê-la daquela maneira injusta.

Meus pés caminhavam por vontade própria, movidos pelos sentimentos controversos dentro de mim. Meu coração palpitava alto. Eu a veria muito antes que pudesse pressentir minha aproximação e eu me vi ainda mais ansioso em alcançá-la.

A luz fantasmagórica se movendo pela rocha tornava-se cada vez maior. O crepitar alto e a música indígena me chamavam. Venha, Lucca, se aproxim e. Era acolhedor e gentil. Mas admitia que a força mais forte que tanto me atraía vinha da pedra preta pendurada no pescoço da índia.

Aquele ônix místico me fortalecia de uma maneira que nunca havia visto, mas que era real. Aceitei meu destino mesmo sem saber para onde me levava. Como agora. Meus passos me guiando involuntariamente ao encontro de Mainá, a indígena intensa e fervorosa.

Meus passos eram tão suaves e silenciosos que nem mesmo minha super-audição foi capaz de captar seu som. Mainá jamais me perceberia. Deixei o sorriso brotar no meu rosto para transparecer meu contentamento. Amaria ver a surpresa estampada naquele rosto tão marcante.

Eu me peguei imaginando qual seriam suas possíveis reações. Ficaria feliz com a surpresa de me ver hoje? Insatisfeita porque mudara de planos? Estaria sentindo falta de sua aldeia e de seus familiares? Há quanto tempo ela não ia para lá? Umas duas semanas, com certeza.

Estaquei o passo. Devia deixá-la em paz com sua privacidade e seus familiares. Devia dizer para ir embora, me deixar sozinho. Deveria prometer visitá-la posteriormente ao casamento. Não tinha o direito de privá-la assim de sua verdadeira vida.

Afinal, viver em uma caverna não era nada confortável e longe das pessoas que ela amava. Longe de seus ritos e costumes a fim de me vigiar e proteger. Mas como fazê-la desacreditar em suas próprias crenças? Impossível. Não importava o que eu dissesse, ela continuaria ali, mesmo que disesse que não queria mais vê-la. Permaneceria à distância.

Voltei a caminhar ao perceber que eu também não queria que ela fosse embora. Na próxima curva, avistei sua silhueta mal iluminada pela chama ainda assim podia ver perfeitamente cada parte dela. Mainá estava de costas para mim, sentada em uma pedra, um espelho diante da face que segurava com a mão esquerda, enquanto pintava o rosto com um pincel rústico na mão direita.

Com tinta preta decorava o próprio rosto com traços tão belos, pinturas corporais que eu nunca havia visto em povos indígenas brasileiros. Os Kadiwéus eram mesmo únicos. Linhas assimétricas, curvas com simulação de pontos por toda a área chamando a atenção para os detalhes dos desenhos. Minha mente associou as imagens as de outras culturas, como a indiana.

Também já havia visto a cerâmica dessa tribo para saber que tinham um talento especial para a arte. Porém eu nunca havia visto os índios pintados de perto, muito menos de corpo inteiro, somente em fotografias. Fiquei paralisado, contemplando a finalização do trabalho.

Mainá havia pintado o rosto ao redor dos lábios, subindo como sem rumo pelo centro da face e finalizando na testa, entre os olhos. A forma firme e linear que sua mão se moveu durante a reprodução do desenho me encantou. Não podia deixar de achar o gesto extremamente sensual.

Movendo o espelho, a índia me viu mal iluminado pelo fogo que crepitava ao seu lado. Seus lábios decorados sorriram e sorri de volta, tentando vencer o torpor. Afastou o espelho, colocou-se de pé e se virou para mim. Seu corpo nu coberto apenas por desenhos semelhantes ao que acabara de finalizar em seu rosto.

– Achei que não o veria hoje.

Quebrou o silêncio totalmente à vontade. Senti minha face queimar diante de sua ingênua nudez e meus pensamentos lascivos. Nunca havia visto tanta beleza em um corpo de mulher. As linhas pretas se encaixavam perfeitamente às curvas naturais dele, cobrindo pernas, abdômen, seios e braços.

Ela não estava nua. Estava decorada, pronta para uma festa indígena, um ritual de passagem, ou a celebração da própria vida. Não sabia o que aqueles desenhos significavam e, no entanto, me encantaram da mesma forma. Eu me preocupei em ter interrompido algo importante.

– Desculpe, não queria te atrapalhar.

Dei as costas relutante, mas decidido a ir embora. Com minha visão periférica ainda a contemplei por mais um segundo antes que sua imagem sumisse definitivamente das minhas vistas.

– Não vá, por favor - implorou sua voz doce.

Eu precisava ver aqueles olhos se derreterem em minha direção. Eu me virei lentamente, saboreando cada parte de seu corpo que meus olhos desvendavam primeiro. Por fim, nossos olhos se encontraram e pude ler toda a torrente de seus pensamentos. Apenas fiquei surpresa. Fique com igo. Ainda estou aflita. Eu me lembrava de sua intuição a meu respeito e resolvi dissolvê-la com uma brincadeira.

– Você tinha razão em se preocupar comigo. - Ouvi seu coração saltitar feroz de aflição e me apressei em terminar antes que ele saltasse para fora de seu peito. - Aquela festa estava muito chata.

Depois de apenas um segundo, sua risada saborosa ecoou na caverna me enchendo de alegria. Eu a divertia e isso era muito bom. Mainá fez um gesto para que me aproximasse. Caminhei muito lentamente, incapaz de lhe negar alguma coisa, enquanto lhe perguntava.

– O que são esses desenhos?

– Nossa pintura corporal. O que achou? - Deu um giro completo no próprio eixo para encher meus olhos com suas belas curvas.

– Uma beleza - respondi com a voz trêmula.

– Um retorno às raízes – afirmou. - Fazia tempo que eu só usava roupa de branco. Queria agir como uma legítima Kadiwéu mais uma vez.

Sentei-me ao seu lado, evitando olhar para seu corpo quente e nu tão próximo do meu.

– Sente falta da aldeia? - perguntei com tristeza, com medo de sua resposta.

– Sim e não - respondeu enigmática. - Ficaria muito mais angustiada se estivesse longe daqui.

Meu coração palpitou descompassado. O que ela queria dizer com aquilo? Que só estava ali por minha causa? Tive medo de perguntar.

– O que estavam festejando, você e seus amigos? - perguntou mudando de assunto.

Fiz uma careta com a lembrança.

– Minha despedida de solteiro.

Demorei um segundo para perceber o silêncio nos lábios dela e o barulho retumbado que seu coração fazia contra o peito. O que estava acontecendo? Procurei seus olhos em busca de respostas silenciosas, mas os escondeu de mim. O que não queria que eu soubesse? Somente depois de alguns minutos seu coração se normalizou e conseguiu falar.

– Vai se casar com aquela moça, Vitória? - perguntou, ainda evitando meu olhar.

– Sim - respondi, sem entender seu tom de voz, meio triste meio inseguro. - Amanhã ao meio-dia.

Sua cabeça se voltou para mim como um raio. Seus olhos não esconderam nada mais. Você não pode! O que será de m im ? Serei am aldiçoada! Pisquei ferozmente diante dos gritos desesperados de seus pensamentos. O que significavam? Ela arfava lufadas de ar buscando se acalmar. Lágrimas grossas rolavam de seus olhos e formavam caminhos negros depois que cruzavam com a tinta ainda fresca da pintura em sua face.

Eu ergui a mão instintivamente para limpar suas lágrimas e amenizar os borrões que elas formaram em seu lindo rosto.

– Não chore, Mainá - implorei, tentando reter meu próprio choro.

Agora mesmo estava feliz por tê-la feito sorrir. Em seguida, me senti miserável por fazê-la chorar. O que havia dito de errado?

– Estou aqui - disse abraçando-a. - Não vou à parte alguma. Pode contar comigo sempre.

Ela me empurrou com pouca força, dei espaço a ela.

– Não me prometa nada - disse enxugando as lágrimas.

– Desculpe. Não entendo o que fiz de errado.

– Não se desculpe - a voz praticamente normal agora. - Você não tem culpa. Ocultei parte da minha história. Não queria te forçar a nada. Queria que se cumprisse meu destino sem que eu precisasse agir.

Destino. Eu me lembrava, já havia me dito sobre isso antes. Que o destino dela já estava traçado e que o seguiria. Mas, realmente, agora me dei conta de que não havia me contado que destino era esse. Pelo visto tinha alguma coisa que ver comigo. Bem, isso já esperava, dado que possuía uma pedra que podia me localizar e que também sabia muito sobre mim. Esperei que se abrisse.

– Quando tinha treze anos, depois que passei pela Festa da Moça... - vendo minha interpelação silenciosa, explicou melhor - É um ritual de iniciação feminina depois da primeira menstruação. Quando a índia passa a ser considerada mulher e pode se casar e ser mãe. Fiquei dois dias me preparando para o momento em que sairia de casa para escolher meu companheiro. No entanto, ele já estava escolhido para mim.

Continuar: parte 9 de 13