Filho da Terra - Os Quatro Elementos, Volume 2
Prólogo
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 13 partes.
JOSY TORTARO
FILHO
DA
Terra
Saga OS QUATRO ELEMENTOS
Volum e 2
Edição Digital
2013
Capa
Renato Klism an
Diagramação
D.E.S.
Revisão
Gisele Galindo
Copy right ©2012-2013 Josy Tortaro
Todos os direitos reservados. E proibido o arm azenam ento ou a reprodução
o de qualquer parte desta obra, qualquer que sej a a form a utilizada – tangível ou
intangível –, sem o consentim ento escrito da autora.
Para minha família que me apoiou incondicionalmente
na elaboração deste segundo volume.
Para minha amiga Lidia e sua opinião inspiradora.
Eu amo vocês!
Para entender nós temos dois caminhos:
o da sensibilidade que é o entendimento
do corpo;
e o da inteligência que é o entendimento
do espírito.
Manoel de Barros
PRÓLOG O
O medo teria cor? Para mim, sim. Era verde e todas as suas nuances. Ao meu redor o verde musgo cobria cada tronco de árvore. Sobre minha cabeça, o verde-bandeira das frondosas copas formava um teto. Na rica fauna, outros tons sobressaíam e me assustavam. Verde lima, esmeralda, grama, menta, turquesa, floresta.
As tentativas de me salvar não foram grande coisa. O que uma criança de dois anos faria? Choraria, é claro. E chorei até minha garganta arder e meus olhos incharem. Mal podia abri-los. E o verde a minha volta mudava de cor conforme o sol se movia no céu, sem que pudesse vê-lo.
Minhas pernas estavam afundadas no lamaçal. O rio, que devia correr ali perto, inundara a planície. Ouvia suas correntezas, o motor dos barcos, pás impulsionando outros, quando - por milagre, e durante um segundo - eu parava de chorar.
Além dos sons distantes, ouvia ruídos próximos. A mata estava viva. Movia-se com rapidez sobre o chão seco, farfalhava as asas, balançava as folhas. De vez em quando, um uivo assustador assoviava em meu ouvido. O vento jogava em meu rosto partes soltas da floresta, que se aderiam e moldavam uma máscara verde e marrom.
De certa forma, quase me sentia fundido àquele lugar, sem nem mesmo saber se pertencia a ele. Eu Chorava como se encarasse o mundo pela primeira vez. Como se renascesse. E, no entanto, somente o verde, que decidi temer, me acolhia. A natureza era minha mãe nessa nova vida. Da outra, nada foi tão marcante como aquele abandono nos braços da terra.
Exausto, sem forças para derramar mais nenhuma lágrima, soltei meus pés da lama, procurei um refúgio sob uma árvore e usei suas grandes folhas como cobertor. A floresta estava ainda mais densa. Apaguei no mesmo instante em que me deitei sobre as folhas e gravetos que estralavam.
Acordei em um sobressalto, ouvindo passos. Era um som novo para mim em meu novo mundo. E estava tão perto, que meu coração bombeou apressadamente enquanto me sentava em minha cama improvisada. O sol havia nascido novamente e o verde mudou para tons mais claros e brilhantes.
Não temia mais. Eu era o verde. Mas esses passos desconhecidos eram uma novidade. Outros sons acompanhavam os passos. Galhos quebrados, folhas pisoteadas, a fuga de algum animalzinho pela mata, um risinho agudo e pueril.
Antes que eu pudesse entender ou prever o que aconteceria, um feixe de luz cobriu uma pequena criatura há apenas dois metros de onde eu estava. Sua pele azeitonada, seus cabelos escuros compridos e lisos, seus olhos oblíquos e grandes, seu nariz saliente e sua boca carnuda e larga não eram nada do que eu já tivesse visto na vida. Não que eu tivesse vivido muito.
O que mais me chamou a atenção era que a criança não vestia roupas. E sobre sua pele marrom apenas barbantes amarelos e penas coloridas a adornavam. Desenhos escarlates cobriam seu rosto. Ela sorriu para mim, um riso puro e inocente. Apontou seu dedinho minúsculo em minha direção.
– Cari? - perguntou.
PEDIDO
A im agem no espelho era desanim adora. Encarou os olhos verde-oliva grandes e penetrantes no vidro. Eram tristonhos tam bém . Ao redor, a pele m uito clara, translúcida, era salpicada aqui e ali por sardas bronzes que lhe davam um a aparência quase j uvenil. As sobrancelhas e os cabelos com pletavam o look desastroso que a natureza lhe dera. Nem escuro, nem claro. Era castanho acobreado.
Apesar do rosto e da cor da pele que odiava, tinha de adm itir que era bonito. Gostava m uito de seu porte físico alto e forte. Pouco m ais de um m etro e oitenta coberto por m úsculos grandes e definidos. Tam bém era sexy e exótico e talvez esse fosse o m otivo das m ulheres virarem a cabeça para olhar para ele hoj e em dia.
Aberração.
Porém , nem sem pre foi assim . Há alguns anos, as pessoas quebravam os pescoços para m edi-lo quando andava por Corum bá - a capital do Pantanal no estado do Mato Grosso do Sul -que não era sua cidade natal, m as a única que conhecia. Acontecia principalm ente quando estava com sua fam ília adotiva na igrej a, em um a lanchonete, ou em um a festa. Misturar-se era quase im possível com o óleo e água. Sua tim idez não aj udava m uito nesse quesito.
Ao com parar sua fisionom ia com os m oradores da cidade de pouco m ais de cem m il habitantes na divisa do Brasil com a Bolívia - separados pelo extenso Rio Paraguai -, estava tão claro com o sua pele - pensou e um riso sarcástico repuxou apenas um canto de seus lábios cheios- que não pertencia aquele lugar. Mas há m uito aceitara sua nova vida com gratidão e respeito. Porém a resignação não afastava o desprazer ao se olhar no espelho todas as m anhãs.
Suas aflições m atutinas quase lhe fizeram esquecer a em polgação com que despertara naquela com um sexta-feira. Não era pelo fato do final de sem ana finalm ente chegar. Um a de suas características era am ar seu trabalho com o arqueólogo e se dedicar a ele não era um fardo, ao contrário, era um prazer. Seu envolvim ento com a labuta diária o afastava, de certo m odo, da vida afetiva.
Lem brou-se im ediatam ente da nam orada, Vitória Cruz, filha do m aior fazendeiro de gado do Pantanal sul-m atogrossense. A j ovem tinha a aparência m isturada às características físicas do povo pantaneiro e a palidez e soberba européias de seu pai, o altivo coronel Cruz. Vitória estava em sua vida há tanto tem po - talvez seis ou sete anos - que não a im aginava m ais sem ela. Portanto, a nam orada m erecia m ais que as m igalhas de afeto.
Antes que os novos pensam entos pudessem trazer um sorriso a seus lábios rígidos com o um a linha, alguém bateu a porta com im paciência.
– Lucca, você pretende sair do banheiro hoje?
A ironia im plícita na últim a palavra e a voz de irritação lhe eram inconfundíveis. Lucca sorriu, seus pensam entos agora voltados para a carranca que encontraria do outro lado. Sem responder, abriu a porta abruptam ente, assustando e desconfigurando o rosto redondo, m oreno, de narinas infladas, boca e olhos grandes, cabelos escuros e m uito lisos do irm ão. Teve que olhar para baixo para encará-lo nos olhos levem ente oblíquos.
– Já term inei, Edm undo.
Antes de receber resposta do rapaz paralisado, Lucca passou raspando em seu om bro e voltou para o quarto que dividiam . Edm undo nutria ciúm es e invej a contra o irm ão adotivo. Na infância, havia sido m ais difícil lidar com sua fúria, j á que não a entendia. Mas agora, com o adulto, era fácil ignorar suas criancices.
No quarto bagunçado e am plo - com duas cam as de solteiro, um grande guarda-roupa, um a côm oda e um a televisão - Lucca se deparou com a fotografia de Vitória, que o fez se recordar dos planos que estava form ulando antes da interrupção de Edm undo. Vestiu j eans velho e cam iseta azul, tênis encardido e, antes de sair porta afora, pegou um a bolsa de tecido e a pendurou no om bro.
A m esa do café da m anhã estava praticam ente com pleta. Dona Isabel, a m atriarca da fam ília Gonçalves, term inava de colocar os pratos sobre a m esa, enquanto seu m arido Edgar, um dos m édicos que atendiam toda a região de Corum bá, beliscava um pedaço de bolo. Lucca suspirou. Mais um dia com um reunido com sua fam ília com um . Por que ele m esm o não podia ser com o eles?
Invej ava sua pele m orena, seus olhos e cabelos escuros, que os protegiam do sol escaldante do centro-oeste brasileiro. Invej ava tanto que, quando criança, dem orou a aceitar que era branco e passou a tom ar sol constantem ente. Conseguiu apenas sardas e alguns dias em tratam ento por insolação. Depois disso, aceitou que era diferente.
Isabel abriu um sorriso im enso ao ver o filho adotivo na porta da cozinha.
– Bom dia, Lucca. Fiz bolo de fubá, seu preferido.
Sentando-se em seu lugar de sem pre, respondeu.
– Obrigado, m ãe.
À m esa, a fam ília costum ava ficar silenciosa som ente enquanto com ia. As horas das refeições eram sagradas e um m eio de unir a fam ília para conversar. Lucca era m uito m ais grato do que Isabel e Edgar poderiam im aginar. O am or incondicional de seus pais era retribuído com atitudes exem plares, que os irm ãos não faziam questão de seguir. Portanto, o filho adotivo era o preferido dos pais.
Dois outros lugares à m esa estavam ocupados. O casal não era m uito falante, nem m uito entusiasm ado. Alice era ainda m ais baixa que Edm undo. A irm ã caçula tinha traços m uito j ovens e agradáveis sobre sua pele cor de terra. Ao seu lado, o m arido Jader Marques, rechonchudo -cada gram a excedente de seu peso conquistada durante os três anos de casam ento - estava com o nariz enfiado no prato, com endo com um a rapidez desesperadora. Ninguém parecia notar.
Além da pouca vaidade evidente em Alice e Jader, a falta de am bições fez com que aceitassem m orar na im ensa casa da fam ília Gonçalves, em um a suíte espaçosa. E não parecia que pretendiam se m udar um dia. Esse pequeno desprendim ento aum entou a fúria de Edm undo, j á que ele foi obrigado a dividir o quarto com o irm ão adotivo. Ninguém queria ficar com o quartinho onde Alice dorm iu até a j uventude. Era o m enor côm odo da casa.
Lucca suspirou novam ente. Talvez estivesse m esm o na hora de sair da casa da m ãe e ir cuidar de sua própria vida. Junto com Vitória, é claro. Enquanto term inava seu café da m anhã, essa ideia se firm ou em sua m ente. E ao se levantar e partir para o trabalho, j á tinha traçado todo o plano que iria executar m ais tarde.
Com o de costum e, passou na casa de seu m elhor am igo e colega de trabalho, Carlos Aguiar, para lhe oferecer carona. As com pridas e finas pernas do com panheiro ficavam esprem idas na lataria do pequeno carro popular. Seu espírito era tão alto quanto seus m em bros.
– E aí, cara? - cum prim entou Carlos ao m esm o tem po em que dava um soco no om bro do am igo.
– Estou bem e você?
A resposta de Carlos foi um a gargalhada exagerada.
– Sem pre todo certinho, hein, Lucca?
O m otorista fez um a careta. Não gostava de ser taxado com o certinho - sinônim o de chato -, apesar de ser m etódico, prudente e organizado. Isso lhe garantiu o apelido de nerd na adolescência - realm ente só lhe faltavam os óculos de grau e o aparelho nos dentes. Porém , com o adulto, conquistou um bom em prego pelo profissionalism o, pela perseverança e pela exigência de si m esm o. Aos trinta e dois anos, era o chefe da expedição de arqueologia em Corum bá. Geria um a equipe com m ais de vinte pessoas.
Lucca olhou pelo para-brisa. A im agem era exuberantem ente verde - algo que superara em seu prim eiro e assustador dia naquela cidade. À direita da estrada, o rio Paraguai corria silencioso. Pescadores estavam espalhados em vários pontos da água. À esquerda, as casas, as loj as, a vida urbana dim inuía conform e conquistavam m ais quilôm etros adiante. A cidade vivia principalm ente da pesca e do turism o.
Tam borilando os dedos sobre o volante, Lucca estava desligado, com o se estivesse sozinho no carro, absorto em seus próprios pensam entos. Carlos o encarou por um curto tem po. O que Lucca tinha de introvertido, o am igo tinha de expansivo.
– Que é, Lucca? Qual o m otivo dessa im paciência?
Sobressaltou-se ao ser trazido para o m undo real.
– O quê? Não estou im paciente.
– Então por que está batendo os dedos de m odo tão irritante? - O arqueólogo não respondeu ao olhar perscrutador do m elhor am igo. - No que está pensando?
Carlos era a única pessoa deste m undo que conseguia fazê-lo falar. Não porque fosse insistente, m as porque era leal, franco e desprovido de qualquer vaidade e interesse. Resum indo, ele realm ente era seu am igo e se im portava.
– Tem um a ideia revirando aqui na m inha cabeça.
Carlos esperou paciente. Pelo que conhecia do am igo, sabia que j á estava decidido apesar de suas palavras e respeitaria o tem po que precisasse para se abrir. Depois de engolir ruidosam ente, Lucca declarou.
– Vou pedir Vitória em casam ento. - Pareceu o anúncio do j uízo final.
Prim eiro foi o choque que o im pediu de responder, depois a indignação. Lucca espiou o am igo para ler sua expressão e retorceu os lábios desgostoso. Tinha certeza que essa seria sua reação. Carlos era totalm ente desprendido, inclusive de m ulheres. Para ele, casam ento era o pior castigo que um hom em poderia ter. Era pior que prisão. Era pior que o inferno.
– Como? - o m elhor am igo gaguej ou, ainda tentando se livrar dos sentim entos tum ultuados, sem sucesso. - O que você disse?
– Eu preciso dar um rum o a m inha vida, Carlos - disparou Lucca a falar talvez para não ser interrom pido. - Ter m inha própria casa, form ar m inha própria fam ília. Faz m uitos anos que estam os nam orando. Eu j á passei dos trinta. Vitória m e quer, eu a quero. O que nos im pede? É o cam inho natural. Você sabe que é o certo a fazer.
Carlos estreitou os olhos grandes e fundos de form a desconfiada.
– Se quer m udar sua vida, m ude de casa, de em prego, de cidade, do país, m as você não pode se casar! - A resposta saiu tão apaixonada quanto previra. - Tudo bem , Vitória é gata, gostosa - Não viu o olhar furioso que Lucca lhe lançou por causa do term o nada gentil que em pregou à sua nam orada. - e rica. Está na cara que ela é doida por você. Mas isso não te dá garantia nenhum a de felicidade e toda essa baboseira de “até que a m orte os separe”. Vocês não estão bem do j eito que estão? Duvido que Vitória estej a te pressionando para casar. Para quê m udar o que está indo tão bem ?
Lucca não respondeu. Carlos realm ente era um solteirão irrem ediável, m as o am igo o conhecia m uito bem e sabia que, por m ais distraído que o arqueólogo fosse com seu trabalho, ele ainda faria a coisa certa. Por Vitória. Por ele m esm o.
Carlos traduziu o silêncio do am igo, respondendo a si m esm o.
– Você j á decidiu, não é? - O am igo afirm ou com um aceno de cabeça breve. - E quando será o j antar de noivado?
Sua careta denunciava que gostava m ais de outro term o para descrever o evento.
– Hoj e à noite - sussurrou.
– Hoje à noite? - repetiu Carlos incrédulo.
Neste instante, Lucca dim inuiu a velocidade do autom óvel e virou à direita, atravessou a entrada de calcário, encim ada por toras de m adeira, do Parque Marina Gatass.
O local era a m aior área aberta de lazer em Corum bá com m uita som bra, gram ado extenso e árvores intocáveis. Além da m aravilhosa vista para a Baía do Tam engo, tam bém abrigava um im portante sítio arqueológico que registrava a presença de povos indígenas na região.
Em silêncio, os am igos seguiram até seu local de trabalho e prosseguiram as escavações interrom pidas no dia anterior e não tocaram novam ente nesse assunto.
***
Ergueu o boné para o céu a fim de ver o sol a pino. Enxugou o suor na testa e foi se lavar para o alm oço. Norm alm ente, não saíam do parque para as refeições, m as os planos naquele dia exigiam que fosse até a cidade. Enquanto deslizava com seu carro de volta para a estrada, ligou para Vitória com seu fone bluetooth.
– Oi, am or, sou eu. - Do outro lado da linha, escutou a surpresa na voz m elodiosa da nam orada. - Que tal fazerm os um program inha a dois hoj e? - Vitória não pode esconder sua em polgação. Am bos sabiam que Lucca era fechado e prático. Rom antism o não era seu forte. Para ele, finais de sem ana significavam reunião de fam ília, nenhum a privacidade para o casal. A m enos que estivesse planej ando algum a surpresa. - Eu te pego às oito. Um beij o. Tchau - e desligou.
Ficou m uito satisfeito consigo m esm o, porque não percebera que a intenção de surpreender Vitória fora por água abaixo. Nesse m om ento, ela estaria especulando todas as possibilidades que se encaixassem em um program a a dois. E, possivelm ente, chegasse ao plano original do rapaz antes m esm o de vê-lo naquele dia.
Dirigir era um a distração agradável. Perm itia que pudesse pensar. Apesar de que, naquela estrada, sua atenção fosse desviada para anim ais selvagens que a cruzavam de vez em quando. Não dava para dirigir apressado ali, m as quem disse que ele estava com pressa?
Corum bá se estendia à m argem direita do Rio Paraguai, no coração do Pantanal. A rodovia o levou direto para o centro da cidade. Estacionou seu carro e entrou em um a loj inha de porta estreita, com um letreiro cham ativo. Por dentro, não era m uito acolhedora, com paredes desbotadas e vitrines pequenas. O espaço apertado não aj udava m uito a organizar os produtos que estavam bem m isturados.
Achou m elhor pedir aj uda ao atendente do que tentar encontrar sozinho.
– Boa tarde. Gostaria de ver anéis, por favor. É para dar de presente à m inha nam orada.
Até o sorriso do hom em de m eia idade do outro lado do balcão era sem graça. Lucca engoliu em seco. Vitória que o perdoasse, m as seu salário não lhe perm itia com prar algo de m aior valor. Estava acostum ada a ganhar j oias que custavam cem vezes m ais do que ele ganhava por m ês.
– Claro, senhor. Tenho vários m odelos para sua apreciação.
O palavreado e os m odos do atendente surpreenderam -no. Provavelm ente, algum dia, aquela pacata j oalheria havia vivido seus tem pos áureos. O hom em se dirigiu aos fundos e voltou com um a caixa rasa e grande de veludo escuro. A luz que refletiu nas pedras ofuscou seus olhos. Lucca olhou espantado para o senhor que sorria e um a incógnita surgiu em sua m ente. Será que tudo isso é uma fachada com medo de ser roubado?
Cada anel era m ais lindo que o outro. Pedras de todos os tam anhos estavam alinhadas na bandej a. Ficou sem palavras enquanto os adm irava e sua cabeça tentava adivinhar a fortuna que valeriam .
– O senhor gostou de algum a em especial? - questionou o atendente.
– São todas lindas - Encarou o hom em . -, m as não acredito que possa pagar por algum a delas.
O hom em de m eia idade não m udou a expressão. Desviou os olhos para um anel, no canto direito da caixa e Lucca o acom panhou. A j oia tinha um a única e brilhante pedra negra arredondada, porém seu tam anho era pouco m aior que a fina argola prata. A peça m ais delicada que j á vira. De im ediato, encantou-se por ela e desej ou ardentem ente poder com prá-la.
– É um a pedra lavrada de ônix - disse o atendente segurando o anel entre os olhos. - Os gregos acreditavam que ela exerce poderes sobre o parceiro am oroso. É o presente que o senhor está procurando para sua nam orada.
Lucca não conseguiu negar. A pedra o enfeitiçara. Precisava dela, com ou sem significado.
– Quanto custa e qual a form a de pagam ento?
Com a caixinha de veludo preta na m ão, saiu da j oalheria ciente de que havia feito a com pra m ais cara e m enos responsável de sua vida. Teria dez suaves prestações para pagar pelo anel, m as só conseguia se sentir feliz. Convenceu-se de que Vitória m erecia essa dívida com o prova de seu afeto.
Aproveitando que estava perto, resolveu passar na casa dos pais. Encontrou a m ãe na cozinha, term inando de preparar a refeição.
– Olá, querido - recepcionou-o Isabel. - Não sabia que viria alm oçar em casa hoj e. -Passando pelo filho, ficou nas pontas dos pés para dar um beij o estalado em sua bochecha.
– Oi, m ãe. Resolvi em cim a da hora. Tive que vir ao centro com prar um a coisa.
Lucca se sentou à m esa e pôs a caixinha ao lado de seu prato. Isabel percebeu o gesto im ediatam ente. O filho não tinha segredos para a m ãe. Costum ava dividir tudo com ela. Eram m ais ligados do que qualquer outro m em bro da fam ília. E com sua perspicácia adquirida pela experiência de vida - j á que Isabel nunca abandonou o posto de m ulher, dona de casa e m ãe para estudar ou trabalhar - entendeu im ediatam ente a m ensagem que o filho adotivo lhe enviava.
Sentou-se ao seu lado na m esa e pegou sua m ão pálida.
– Você tem certeza disso, Lucca? - Sua voz estava m ais grave do que o norm al.
O sorriso no rosto claro do j ovem esm oreceu.
– Você tam bém , m ãe!
– Filho, eu sei que você sem pre faz a coisa certa e é por isso m esm o estou te fazendo esta pergunta. Casam ento é algo para a vida toda, querido. Não pode ter dúvidas antes de dar este passo. Você nunca falou sobre isto antes, então eu com preendi que não estava pronto, m as achei que não fosse acontecer tão de repente assim . O que o fez se decidir?
Lucca fez um a careta. Isabel conhecia o filho m elhor que ele m esm o. Claro que ela perceberia que essa decisão não estava baseada som ente em am or e era isso que estava tentando lhe dizer. Mas com o explicar a ela que estava ficando velho para continuar m orando com os pais, que sentia necessidade de m udar sua vida, sem que isso a m agoasse? Teria que representar bem agora.
– Eu am o Vitória. Ela m e am a. Por que não agora?
Ainda desconfiada, a m ãe continuou olhando no fundo dos olhos do filho e antes que pudesse enxergar a verdade, o rapaz acrescentou.
– E outra, não vam os casar am anhã. Ficarem os apenas noivos e podem os m arcar a data para daqui um ou dois anos. O período de noivado é exatam ente para nos acostum arm os com a ideia, não é?
– Tudo bem , filho - respondeu Isabel cautelosa. - Se é assim que pensa, te apoiarei. Sabe que confio em você.
O sorriso de resposta traduzia as palavras de agradecim ento que Lucca sentia agora. Interrom pendo a conversa rudem ente, Edm undo entrou na cozinha falando m uito alto.
– E aí, m ãe, o rango j á está pronto? - Desviando os olhos para o irm ão adotivo com certo desprezo, notou a caixinha de veludo. - Que é isso aí, Lucca? Com prou um presente para a mamãe?
Os outros fam iliares tam bém chegavam à cozinha e perceberam o tom irônico que Edm undo em pregou na últim a palavra. O irm ão não escondia sua antipatia quanto a m aneira com o Lucca se entendia com a m atriarca da fam ília.
Com o um a boa m ãe, Isabel deu um peteleco na cabeça de seu filho legítim o.
– Com porte-se, Edm undo. Este é o anel de noivado que Lucca vai dar à Vitória.
Edm undo nem se sentou. Paralisou em estado de choque encarando a m ãe que voltava para seus afazeres, trazendo a com ida do fogão até a m esa. Quando se recuperou, se virou e saiu da cozinha sem discutir ou ridicularizar, com o todos esperavam que faria.
Lucca acom panhou o irm ão com os olhos sem entender seu estado. Alice deu um risinho zom beteiro. Jader lhe lançou um olhar desaprovador e ela se calou. Edgar olhou do filho para a esposa.
– Qual é o problem a dele? - questionou.
Não houve nenhum a resposta.
***
A noite chegou mais cedo naquele dia. A tarde quente chamou nuvens densas e pesadas de chuva, que caiu no para-brisa do automóvel enquanto Carlos e eu voltávamos para casa. A conversa não passou de bobagens alimentadas pelo humor leve do meu amigo.
Balançava a cabeça sem ouvir. Em minha mente, imaginava o momento em que, no restaurante preferido de Vitória, pediria sua mão em casamento. Tentei me familiarizar com a cena, porém fiquei nervoso na mesma hora. Estava antecipando a tensão.
Obrigando-me a seguir essa linha de pensamentos, imaginei que palavras usaria e acabei caindo na pergunta clichê: “Vitória, você quer se casar comigo?” Não haveria outra forma de fazer isso. Ou pelo menos, não conseguia enxergá-la. Pensei em como faria. Pegaria sua mão sobre a mesa, logo após pedir uma garrafa de vinho - ou seria melhor champanhe? - a apertaria com delicadeza e sorriria enquanto, com a mão livre, estenderia a caixinha aberta diante de seus olhos negros.
Imediatamente, meu corpo reagiu. As palmas de minhas mãos transpiraram, minha garganta ficou seca e gotas finas de suor pipocaram em minha testa. De onde vinha todo esse nervosismo? Era medo de que Vitória não aceitasse? De estar fazendo a escolha errada? De ser o momento errado? Ou era medo do desconhecido?
Eu me contentei com a última questão e meu batimento cardíaco se aquietou. Fiquei sob controle bem a tempo de me despedir de Carlos. Combinamos de nos encontrar - como todos os dias - na manhã seguinte, quando trabalharíamos meio período. Não era costume trabalharmos aos sábados, mas estávamos no meio de uma escavação importante. Havia muitos indícios de que a área estava repleta de objetos que podiam falar mais sobre os povos antigos daquela região.
Em casa, me concentrei nas pequenas ações, uma de cada vez, para não me perder novamente no temor. Tomei um banho relaxante. Fiz a barba. Vesti a melhor roupa - não um terno, mas uma camisa de manga curta e calça sociais - e me perfumei. Calcei a meia escura e o sapato preto. Mirei-me no espelho e fiquei satisfeito com o resultado. Peguei a caixinha preta e a coloquei no bolso da calça antes de sair do quarto.
Estranho não ter cruzado com Edmundo até agora. Ele amava me atormentar, principalmente quando sabia que eu ia fazer algo importante. A família estava reunida na sala, assistindo televisão. Isabel lançou um sorriso de ‘boa sorte’ para mim quando nossos olhos se encontraram. Os outros acenaram levemente - Edgar com a mão, Alice com a cabeça e Jader com um olhar sorrateiro. Eu agradeci, desejei boa noite para todos e me senti aliviado do lado de fora da casa.
O clima ainda estava abafado por causa da passagem da chuva de verão. Entrei no carro determinado a seguir o caminho de sempre. A fazenda de gado do coronel Cruz - uma das maiores do Pantanal sul-matrogrossense - ficava cinco quilômetros depois do Parque Marina Gatass.
A nova expectativa que me acompanhava agora era o rosto de surpresa e felicidade de Vitória quando lhe fizesse o pedido. Ela diria sim, sem pensar duas vezes, e nós dois nos levantaríamos da mesa, ainda com as mãos juntas, nos abraçaríamos e nos beijaríamos com paixão. A cena estava mais parecida com algum filme que eu havia assistido, admiti a mim mesmo, mas ainda assim, parecia perfeita para minha fantasia.
Fiquei feliz por ter tomado essa decisão. Sentia que estava fazendo o que era certo. Não, melhor, que estava fazendo na hora certa, no momento certo e que estava preparado como se tivesse nascido para isso. Para mim nunca foi difícil tomar decisões, apesar de alguma batalha interna que tenha que travar. Estava acostumado a racionalizar. Não estava acostumado a seguir meu instinto.
Isso me lembrou da sensação estranha que me despertou hoje. Como se algo novo e inesperado estivesse prestes a acontecer. Esperava que a escolha que estava tomando afastasse esse sentimento. Era difícil para eu entender já que precisava de uma razão lógica e fundamentada para tudo. Cansaram de me dizer que sentimento não se explica, mas eu nunca aceitei essa resposta. Para mim, era muito fraca. Tudo tem seu por quê. Eu parecia o único disposto a descobrir.
A sensação ficou subitamente mais forte. Olhei ao meu redor tentando desviar a atenção dela e vi a placa indicativa do conhecido parque. Sem entender o que estava fazendo - como se uma força externa guiasse meus braços e pernas na direção do carro - eu saí da estrada e entrei no local tão conhecido. Era um parque aberto, portanto, não havia guarita nem portão para me impedir de entrar àquela hora.
Desci do carro perto da entrada e comecei a caminhar perdido em novos pensamentos.
Conhecia aquele parque desde criança. Aos dois anos, havia me perdido - assim eu pensava, porque eu não sabia o motivo de estar sozinho ali - em suas matas, próximo à margem do Paraguai. Eu me lembrava exatamente de todos os sons que eu ouvi naquele dia. De todos os pavores que minha cabeça infantil desenhou desnecessariamente.
Eu me lembrava de ter medo da fauna e da flora. Sorri. Depois daquele dia, eu frequentei o parque assiduamente. Primeiro para lazer junto com minha família adotiva e segundo para trabalho depois que me formei em arqueologia e conquistei meu primeiro emprego na equipe que escavava no sítio descoberto bem ali. Aquele parque passou a ser minha vida, em todos os sentidos.
Não podia ser diferente o sentimento que tinha por ele agora. Era como uma mãe para mim. A mata me pariu naquele dia, me deu à luz e vida. Mas eu era muito mais grato àquela pequena indiazinha que me encontrou encolhido sob uma folha de bananeira. E, juntamente com seu irmão adolescente, me levaram rio acima até a reserva onde moravam - entre Corumbá e Porto Murtinho, uma cidadezinha próxima. Somente mais tarde soube que a reserva Amambaí era a maior do Brasil e que abrigava o povo Guarani Kadiwéu.
Lá, o cacique e o pajé me levaram para o médico que estava atendendo a tribo naquele dia - o doutor Edgar Gonçalves - que me trouxe para Corumbá e depois de desistir da busca por meus pais, acabou me adotando legalmente como seu filho.
A noite estava muito escura e, enquanto andava, prendia o pé em pedras ou buracos. Pisava em falso. Arranhava o rosto em um galho baixo. Raspava a mão em uma planta espinhosa. Não conseguia enxergar nada além de meio metro de distância. Olhei para cima e a lua estava encoberta pelas nuvens. Tateei pelos bolsos a procura do meu celular, porém ele estava desligado. Não notara que a bateria estava fraca.
Totalmente no escuro, me preocupei, estava atrasado para o encontro com Vitória. Que diabos estava fazendo ali? Era para eu ter ido direto para a fazenda. Já não era o bastante passar o dia inteiro naquela mata? Eu não estava com roupas nem sapatos apropriados para me aventurar em uma excursão. Para confirmar esse pensamento, meu pé direito ficou atolado até o tornozelo na lama. Eu havia andado mais do que previra. Apesar de ser época de cheia, não estava muito longe da margem do rio.
Tentei voltar, forçando o pé a se soltar da lama. No fim deu certo, mas meu sapato ficou. Perdi o equilíbrio tentando me debruçar para pegar de volta o calçado perdido e caí de joelhos. Senti os respingos no meu rosto. Estava imprestável para encontrar minha namorada agora.
Na luta para salvar o sapato, meus braços ficaram cobertos de lama. Minha camisa devia estar salpicada também. Nem quando eu era criança havia feito tanta lambança. Bem, pelo menos que eu me lembrasse. Infeliz, deixei-me sentar, procurando com as mãos uma área menos úmida. Porém, toda a terra estava fofa devido à chuva recente. Deixei-me ficar assim mesmo, sem encontrar o pé do calçado.
O que eu faria agora?
Antes que encontrasse uma resposta, um relâmpago rasgou o céu por um segundo. Tempo suficiente para que eu pudesse ver um vulto esbelto, como o corpo violão de uma mulher, caminhando há uns poucos metros em minha direção. O relâmpago chicoteou em uma árvore logo atrás de mim, causando um som estrondoso. Enquanto eu ouvia o barulho do tronco se envergando, sem saber onde cairia, uma luz branca e forte acendeu à minha frente. Pude ver o rosto, agora muito perto de mim, de uma bela índia. E, no segundo seguinte, uma dor intensa em minha cabeça apagou sua imagem de meus olhos.
ACHADO E PERDIDO
Um grito seguido da batida forte de um a porta fez com que Tam ires do Valle abrisse os olhos verdes m uito claros sobressaltada. Fazia quase quinze dias que estava m orando com sua irm ã caçula e seu cunhado, m as j á parecia um a vida inteira. As constantes brigas entre os dois estavam atrapalhando seu sono.
Insone, Tam ires levantou de sua cam a e acendeu a luz do quarto. Seu cabelo de fogo estava em aranhado. Sob os olhos m anchas escuras reforçavam sua expressão cansada, salientando a palidez de sua pele. A boca, sem pre cheia e verm elha, agora estava desbotada e com um a expressão de abandono.
O côm odo passara a ser sua nova casa. O único lugar onde tinha algum a privacidade. E o único am biente em que obj etos particulares perm itiam que se lem brasse do local que foi seu lar durante trinta anos. Olhou para o porta-retrato com um a foto de sua pequena fam ília: Gustavo, seu m arido, Sofia, sua filha, e Carolina, sua m elhor am iga.
Quanta saudade sentia deles. Era enlouquecedor ficar longe de sua filhinha. Era a m aior dor que sentia. E, nas noites que acordava e perdia o sono por causa da outra parte de sua fam ília com a qual convivia agora, Tam ires sentia ainda m ais falta de Foz do Iguaçu, no Paraná, de sua vida tranquila em um a cobertura no centro, da paisagem exuberante das cataratas e do parque da cidade turística.
Enquanto cam inhava para a sala, pensava no quanto sua vida havia m udado em tão pouco tem po. Não fazia um m ês que o seu quase afogam ento acontecera e, em seguida, eventos m ísticos quase lhe tiraram a sanidade. Da noite para o dia, perdera a confiança no hom em que am ava a ponto de ter que deixá-lo. E um estranho foi o portador de toda a verdade que ela ansiava saber.
Com um sorriso torto, Tam ires avistou o rosto que acabara de recordar. O grande m enino, com o o havia apelidado, estava esparram ado no sofá com um a careta birrenta, com o um m oleque contrariado. O rapaz loiro e alto, de corpo largo, de olhos claros e bochechas rosadas lem brava m esm o um a criança, porém super-desenvolvida.
– O que foi agora, Marcel? - perguntou sentando-se ao seu lado.
Sua voz era com o de um a m ãe que tenta descobrir do filho seus desej os m ais infantis, enquanto o tranquiliza e garante que terá o que quiser. Muitas vezes se sentia a única adulta naquela casa, apesar de ser três anos m ais nova do que o rapaz.
– Suzane m e expulsou do quarto de novo e m e m andou dorm ir no sofá.
Até agora Tam ires não ouviu nenhum a novidade. Quase todas as noites acontecia o m esm o. Algo que Marcel dizia ou fazia irritava Suzane e esse era o único castigo que ela lhe dava.
– Marcel, você não devia irritá-la desse j eito. Você sabe o quanto ela está frágil.
– É, você tem razão, com o sem pre - respondeu com um sorriso triste e a cabeça baixa. -Mas eu só estava tentando enxergar m ais. Você sabe que quando estam os j untos, é m ais fácil ver os outros.
A ruiva corou um pouco. Já fora inform ada dos m étodos adotados pelo casal para encontrá-la, m as não conseguia se acostum ar com aquilo.
– Um a vez você m e disse que não era totalm ente necessário - retrucou.
– É, não é m esm o. Talvez eu tenha exagerado dessa vez - concordou infeliz. - De novo.
Ficaram em silêncio enquanto ouviam a respiração um do outro. Marcel o quebrou prim eiro.
– Eu acho que m e em polguei - suspirou. - Estávam os tão perto de descobrir onde ele está.
Com essas palavras, a ruiva teve um estalo.
– Suzane o viu? - O cunhado balançou a cabeça confirm ando e ela levantou do sofá em um pulo. - O que estam os esperando?
– Não conseguim os tudo sobre ele ainda - respondeu com um a voz tranquilizadora. - Seu nom e é Lucca. Nós o vim os em um a m ata, próxim o a um rio. Não, na verdade, era m ais com o um parque. E o rio havia alagado um a parte da área. Estava escuro. A pedra estava lá e acesa. Houve um relâm pago e ele sum iu de ‘sintonia’.
Moveu os dedos no ar com o um m ágico fazendo um encantam ento.
– Você não consegue rastreá-lo? - perguntou Tam ires ofegante de ansiedade.
– Não, o ‘sinal’ estava m uito fraco e breve - fez um a careta com a analogia que estava usando. - Não consigo descobrir ainda onde ele está. Por isso pedi a Suzane que uníssem os nossos poderes para que pudéssem os encontrá-lo m ais depressa.
Tam ires se rendeu ao m esm o desânim o do cunhado.
– O que vam os fazer agora? - perguntou depois de um tem po em silêncio.
O outro deu de om bros.
– O que m ais podem os fazer? Esperar que seu próxim o passo o revele.
***
Estava úm ido e frio em baixo, seco e quente em cim a. Um a luz forte, com o o sol, ilum inava suas pálpebras fechadas. Em seguida, percebeu um a dor constante na cabeça. Enquanto erguia a m ão, Lucca abriu os olhos.
O verde exuberante do parque e o sol anunciando um a m anhã abafada estavam bem diante dele. Dem orou som ente um segundo para se lem brar do que acontecera na noite passada.
Ontem havia sido o dia m ais estranho de toda sua vida. Tantas coisas que nunca se im aginara fazendo e, no entanto, lá estava ele com prando um anel caro, m arcando um j antar rom ântico para pedir a nam orada em casam ento, desviando-se do cam inho até a fazenda, perdendo a hora - este últim o totalm ente inconcebível –, perdendo-se no parque e afundando o pé na lam a igual um a criança.
A últim a lem brança antes de perder a consciência era de um relâm pago derrubando um a árvore sobre sua cabeça. Lucca se sentou na gram a e procurou pelo tronco que o atingiu. Suspirou de alívio ao ver que não era tão grosso.
Mas ainda havia algo que precisava se lem brar. Algo que sua razão não conseguia aceitar que tivesse realm ente acontecido. Só podia ser fruto de sua im aginação, de um sonho provavelm ente. A luz do raio tam bém revelou o vulto de um a m ulher e um brilho ofuscante que vinha de seu peito. Com o se ela fosse um a força da m ata, um a deusa ou um ser m ístico.
Lucca balançou furiosam ente a cabeça tentando afastar esses pensam entos im possíveis. Não fora boa ideia. Voltou a latej ar com força. Esperando que a dor acalm asse novam ente, perm itiu que outras m em órias o cercassem .
Eram m ais com o flashes. Cenas cortadas. Em algum m om ento depois que desm aiou, voltou a recobrar a consciência por alguns instantes. Tem po suficiente para ver de perto o rosto da m ulher ilum inado pela luz em seu peito. Era um a índia - isso Lucca podia aceitar - e ela cantava, com um a voz suave, cantigas indígenas enquanto cobria seu peito e rosto com lam a.
Havia um a fogueira tam bém . O fogo estralava e a ilum inava de outro ângulo, salientando a cor averm elhada de sua pele. Quase todo seu corpo estava à m ostra. Som ente as partes m ais íntim as cobertas por obj etos pequenos. Seu rosto estava decorado com pinturas negras, assim com o seus braços e pernas. E seu colo era ornam entado por um a fibra escura e espessa de onde pendia um pingente.
De perto, pode ver m elhor a pedra. Era negra com o a noite. Seu form ato não era perfeito com o a j oia que havia com prado naquela tarde. Finas linhas brancas eram perceptíveis em seu desenho. Era um a pedra bruta e, no entanto, tão bela que o atraía m uito m ais que qualquer outra. Era brilhante. Brilhante dem ais, notou. E, então, ele percebeu que a luz que vira no tórax da bela índia vinha da pedra. Nesse m om ento, sua m ente racional buscara refúgio novam ente na inconsciência.
Com o não tinha explicação para aquilo, m esm o agora acordado e lúcido, preferiu esquecer o assunto antes que enlouquecesse. Analisou suas roupas e estavam piores do que havia im aginado. Para confirm ar que tudo realm ente acontecera, viu as brasas apagadas do que fora um a fogueira. Mas se a índia realm ente existiu, onde estaria agora?
– Olá! - cham ou procurando ao redor.
A m ata não estava silenciosa. Havia barulho de água e barcos há alguns m etros depois das árvores, bichos correndo, pássaros cantando, o vento sacudindo as copas, vozes de pessoas se aproxim ando, passos sobre as folhas e gravetos caídos. Prendeu os olhos na direção em que vinha o som de passos e esperou que a índia - m orena, com os cabelos negros cobrindo quase todas suas costas - aparecesse entre o verde. O coração j á estava disparado na expectativa.
Um galho alto dem ais se m oveu e m ostrou outro rosto, acabando com suas esperanças. Será que realmente a imaginei?
– Lucca, graças a Deus que eu te encontrei! - A voz de alívio de Carlos era aguda. - O que você faz aqui? Está todo m undo louco atrás de você - se agachou ao seu lado. - Você se esqueceu do noivado?
Mesm o preocupado, Carlos não deixava o tom de noj o quando falava sobre a decisão do m elhor am igo. Lucca autom aticam ente tateou os bolsos a procura do celular e do presente. Encontrou som ente o aparelho eletrônico desligado, com o se lem brava. O horror pousou em seus olhos.
– Carlos, eu perdi o anel!
Os vários zeros que com punham o valor da j oia saltaram em sua m ente dando a im pressão de serem m uito m ais do que realm ente eram . Ainda assim , era um preço alto para um assalariado. Desesperado, passou a procurá-la e vendo que o am igo não se m exia, voltou-se para ele com um pouco de raiva.
– Você não vai m e aj udar?
– Eu não - respondeu fazendo um a careta. - Acho bom que tenha perdido. Assim acaba logo com essa história ridícula de casam ento. Vitória nunca vai saber que você ia fazer o pedido ontem . Problem a resolvido.
Lucca se levantou tão rápido que quase o surpreendeu se não fosse a fúria que pulsava em suas veias contra o am igo.
- Você tem ideia de quanto custa um a j oia legítim a?
Carlos recuou deixando um a distância que não perm itisse um ataque.
- E eu nem com ecei a pagar ainda! - lam entou-se substituindo a raiva pela frustração.
O am igo sentiu pena pelo arrom bo no bolso de Lucca, porém não acrescentou em voz alta que achava isso bem feito j á que insistira em continuar com esse plano m aluco. Talvez agora desista de vez dessa loucura de casório.
– Tudo bem , j á entendi. Vam os procurar pelas áreas em que você esteve.
Lucca explicou todos os seus passos na noite anterior, sem ter certeza de que estavam no rastro certo.
– Espera aí. O que você veio fazer aqui?
– Não sei - não se sentia à vontade para dizer que um a força desconhecida o havia atraído ao parque.
O am igo entendeu errado sua relutância em dizer a verdade.
– Você se arrependeu, não foi? Você viu que ia fazer a m aior burrada de sua vida e então se desviou do cam inho para ter um a desculpa.
– Não é nada disso. Assim que eu encontrar o anel, eu vou prosseguir com o plano inicial.
Carlos o olhou incrédulo.
– Por um segundo achei que você tivesse recobrado a razão, m as estou vendo que m e enganei.
Lucca desviou os olhos para o chão, continuando o cam inho até a área alagada onde havia perdido seu sapato. Carlos o seguia de perto.
– Você vai parar de falar e com eçar a procurar ou não? - resm ungou o ruivo.
Os am igos seguiram calados o resto do traj eto. Lucca encontrou o sapato, totalm ente inutilizável, m as nada da caixinha de veludo preta.
– Está ficando tarde - com entou o am igo. - A equipe j á deve estar esperando pela gente no sítio.
– Havia m e esquecido com pletam ente do trabalho - sussurrou o arqueólogo. - Melhor ir pra casa tom ar um banho rapidinho e voltar pra cá.
Carlos o encarou nos olhos surpreso.
– O que foi?
– Eu acho m elhor você ir pra casa resolver seu problem a. Deixe que eu dispenso a equipe.
– Que problem a, Carlos? Do que está falando?
O outro suspirou entediado.
– Você se esqueceu com o Vitória é? E de quem ela é filha?
Pensou nisso e entendeu o significado de cada palavra escolhida por Carlos. Vitória não tinha um gênio m uito paciente e tolerante. Deve ter m ovido - sem exagero - a cidade inteira atrás do nam orado. E com o ela só tinha seu pai, em quem confiava cegam ente - a m ulher do coronel m orreu no parto de Vitória -, e pela influência do velho por essas terras, podia im aginar tam bém o desgosto que o fazendeiro estaria sentindo agora. Ele não suportava que nada nem ninguém fizesse sua filha sofrer.
Foi capaz apenas de balançar a cabeça concordando, os olhos esbugalhados com a com preensão do tam anho de seu problem a. Praticam ente correu encurtando com rapidez a distância até seu carro. Precisava - e com a velocidade da luz - pensar na m elhor desculpa que poderia acalm ar os ânim os.
No cam inho até a casa, não conseguiu encontrar um a saída adequada que convencesse. E ainda havia um agravante. Toda sua fam ília o veria enlam eado dos pés a cabeça. Desej ou que ninguém estivesse em casa agora.
Seus rogos não foram atendidos. Mal cruzou a porta da frente e cinco pares de olhos o estavam analisando de alto a baixo. O prim eiro que notou foi de sua m ãe. Isabel estava am edrontada e por isso foi a prim eira a falar.
– O que aconteceu, m eu filho?
Em três passos estava ao redor de Lucca apalpando seu corpo m usculoso a procura de algum m achucado.
– Eu estou bem , m ãe. Ai - encontrou o galo em sua cabeça. - Não foi nada, não precisa se preocupar.
Porém , era tarde dem ais. Seu pai, que o olhava espantado, j á estava ao seu lado avaliando o m achucado com o profissional.
– É sério, pai - reclam ou Lucca. - Nem está doendo tanto.
Ignorando o filho m ais velho, Edgar passou instruções.
– Isabel, pegue gelo na cozinha, por favor.
A m ãe sum iu das vistas de todos rapidam ente. O m édico arrastou o filho adotivo até o sofá.
– Não, pai, estou m uito suj o.
Edgar o ignorou novam ente, forçando-o a se sentar. Isabel estava de volta com um saco plástico cheio de gelo. A sua frente, Edm undo era a face da satisfação. Aquele era o irm ão que Lucca conhecia. Estava recuperado do choque que sofrera ontem . Só podia ter que ver com os problem as em que o irm ão adotivo se m etera. Alice e Jader estavam curiosos, observando distantes.
– Onde esteve? - perguntou com autoridade o m édico.