Filho da Terra - Os Quatro Elementos, Volume 2
Prólogo
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 13 partes.
Tam ires se virou para o irm ão, sorrindo.
– Tem os um problem a. Nossas passagens j á estão com pradas. Preciso providenciar um a para Mainá. Não contava com a presença dela quando fiz a com pra antecipada - soltando a m ão do cunhado, correu até o guichê da aviação.
Ninguém respondeu sua pergunta. Frustrado, pensou em perguntar novam ente, depois m udou de ideia.
– Preciso falar com m eus pais, dizer que estou bem . Alexandre, você tem um celular para m e em prestar?
O m oreno nem se virou para olhá-lo ao responder.
– Calm a, rapaz. Ainda não estam os em segurança. Não cante vitória antes do tem po. Vam os esperar as conexões para garantir que não fom os e nem serem os seguidos por aquele fazendeiro m aluco.
À alusão ao ex-sogro, Lucca sentiu um calafrio e calou-se. Alexandre devia saber o que estava fazendo, para a sua segurança e de todos os outros. O coronel revelou seu poder e seu desej o de sangue. Melhor m esm o que estivessem bem longe antes de fazer qualquer breve contato.
Esperaram por Tam ires na entrada de em barque. Lucca leu a placa e soube que o voo ia para São Paulo e sairia em três m inutos. Nesse m om ento, se preocupou que não desse tem po. Virou-se para ver se a avistava e lá estava ela, correndo, através do saguão praticam ente deserto. Tiveram m uita sorte.
Apresentaram as passagens, passaram pelo detector de m etais e cam inharam em direção ao avião estacionado. Um tapete verm elho recebeu seus pés. Olhando para ele, Lucca pensou que era a últim a vez em sua vida que pisava em solo sul-m atogrossense. Sentiria saudades daquela terra.
Porém , não olhou para trás. O passado seria apagado de sua história depois que aquele avião decolasse. Seu destino estava bem longe dali, sabe-se lá exatam ente onde. Portanto, seguiria em frente, em busca de sua verdadeira e perdida história. E a escreveria de novo. Um novo tom regeria essa escrita.
EPÍLOG O: SUMIÇO
Durante a primeira parte da viagem, eu e Mainá dormimos nas poltronas reclináveis. Não era muito confortável, mas era a única cama que tínhamos. Tivemos uma noite bastante agitada e praticamente nenhuma oportunidade de descansar de verdade.
Ainda assim, pousamos cedo demais em São Paulo. Mal havia fechado os olhos. A visão daquela cidade através da pequena janela do avião foi esplêndida. Nunca tinha ido para o sudeste. Era minha primeira vez. Pena que não haveria tempo nem disposição para fazer um passeio.
Enquanto caminhava pelo aeroporto - era grande demais, tive medo de me perder naquela imensidão - me sentia meio órfão. Era estranho que essa fosse a sensação que arremetesse à minha fuga. Devia sentir saudade, não abandonado novamente.
Aproveitamos a hora que tínhamos entre as conexões para tomar um belo café da manhã. Ainda era muito cedo, nove horas. Portanto, minha irmã e seus cunhados - achei isso tão engraçado, até que me explicaram que o loiro grandalhão também era meu cunhado - ainda não me autorizaram a ligar para casa.
É verdade que e não estava acostumado a receber ordens, mas também não estava disposto a criar problemas e objeções àqueles que haviam salvado nossas vidas. Minha e de Mainá. Não podia contrariá-los. Haviam provado, ao arriscarem as próprias vidas, que estavam dispostos a tudo para me manter em segurança.
A ansiedade e a adrenalina eram tremendas em meu novo corpo. Foi a hora mais difícil de passar em toda minha vida. Mas afinal, estávamos de volta à segurança do avião e na leveza do ar voando para Recife. Nunca havia ido para o nordeste também. Nossa, não tinha ido à parte alguma.
Percebi, naqueles poucos minutos, que além de me negar sentimentos, me havia negado divertimentos. Viajar, conhecer o Brasil e o mundo. Tirar férias. Dançar. Nunca havia feito nada disso. As minhas viagens foram somente durante a faculdade, entre Goiás e Mato Grosso do Sul para visitar minha família. Não fora exatamente um prazer, mas uma obrigação.
Férias também nunca havia tirado. Preferia trabalhar. Na verdade, não sabia o que fazer durante aquele recesso tão prolongado. Mesmo que não estivesse trabalhando, estaria pensando no trabalho. Decidi aproveitar esses períodos para repor a ausência de alguém que havia tirado férias com a família.
Talvez o problema tenha sido com meus próprios pais. Meu exemplo, Edgar Gonçalves, o incansável médico da cidade e de toda a região. Nunca se sentia no direito de abandonar seus pacientes aos cuidados de outro profissional por mais competente que fosse.
Apertei a mão de Mainá que já cochilava ao meu lado. Devia estar tão cansada. Relaxei a mão e deixei-a dormir em paz. Seu rosto sereno tomou toda minha atenção enquanto a assistia dormir. Sua respiração batia em meu rosto. Sorri. A felicidade podia ser plácida como um sonho. Por isso era difícil acreditar.
Adormeci e acordei novamente com a voz do piloto no alto-falante anunciando o pouso em alguns minutos. Espreguicei-me satisfeito com o fim próximo da viagem. Uma cama de verdade seria muito bom.
Aquela seria a última conexão.
Conferi o relógio. Era pouco mais de meio-dia. Será que dessa vez permitiriam que ligasse para casa? Enquanto descia as escadas, não me atrevi a pedir. Esperei alcançarmos o saguão a procura de um banheiro e uma lanchonete para comprar comida.
– Lucca, acho que agora não haverá perigo em falar com sua família - disse Alexandre passando o celular para mim. - Este aparelho é bloqueado. Não há como identificar a origem da chamada, mas ainda assim, seja rápido caso alguém esteja tentando rastreá-la.
– Essa conexão é muito curta, apenas meia hora, então não demore, por favor -acrescentou Tamires.
Ela era tão educada. Gostaria de conhecê-la melhor para saber como havia sido sua vida. Parecia até refinada em seus modos. Bem, havia dito que seu marido era empresário. Provavelmente era uma dama da alta sociedade de Foz do Iguaçu e reteve os modos elegantes.
Aceitando o aparelho, corri para o banheiro e me tranquei em uma cabine. O telefone tocou apenas uma vez antes que alguém atendesse.
– Alô.
– Mãe?
– Lucca!
– Shiii... – pedi. - As paredes podem ter ouvidos. Edmundo está aí?
– Não. Desde ontem não vem para casa. Deve estar na fazenda ainda.
Levei um choque.
– Como?
Minha mãe narrou o que acontecera enquanto me procuravam para o casamento. Devia ter percebido que tinha dedo do meu irmão nessa história, mas me acalmei rapidamente. Não tinha tempo para isso agora.
– Tudo bem, mãe - cortei o assunto. - Não importa. Estou ligando para dizer que estou bem. Não poderei entrar em contato sempre porque o coronel ainda está me caçando.
– Ele chegou a te encontrar, meu filho? Você não foi ferido, não é?
– Não se preocupe, mãe. Estamos apenas nos precavendo para que ele não nos encontre.
– Nós? – perguntou. - Você está com quem, meu filho?
– É uma longa história, mãe. Tentarei resumi-la. Outra hora conto com detalhes, mas estou com Mainá, a índia por quem me apaixonei. E minha verdadeira irmã, Tamires, que veio ao meu encontro em Corumbá. E seus amigos e cunhados Marcel e Alexandre.
– Que confusão!
– Preciso desligar, mãe. Eu amo você. Entro em contato quando puder.
– Tudo bem, meu filho, mas não se esqueça da gente. Também amo muito você. Vai com Deus!
– Amém!
Desliguei. Foi bom falar com ela e deixá-la tranquila quanto ao meu estado. Precisaria de uma carta inteira para explicar toda a história que haviam me contado, mas não poderia correr o risco de escrever. E se a carta extraviasse e fosse parar nas mãos do coronel? Ele viria em nosso encalço. Talvez um dia, pudesse contar toda a verdade a eles, com tranquilidade, nem que fosse por um telefonema.
Mesmo depois que falei com minha mãe, ainda me sentia estranho, como se faltasse alguma coisa. Aproximei-me de Mainá que me aguardava ansiosamente com os lanches e as passagens. Enquanto caminhávamos para o embarque - Tamires havia dito que esse voo seria muito curto, nem daria para dormir - comíamos.
Antes de passar pela rampa dei mais atenção àquela sensação perturbadora. O que seria aquilo? Virei-me para Mainá a fim de tentar decifrar meus sentimentos. Ela estava muito bem, sorridente, e com ótima aparência. Olhei para seu corpo, analisando, então entrei em choque. Seu pescoço estava nu.
– Mainá, a pedra! - exclamei de repente.
Todos se voltaram para nos olhar. Tamires e Marcel correram para nos envolver.
– O que aconteceu com o ônix? - perguntaram simultaneamente.
– Sumiu! - respondi enquanto Mainá procurava por ela com uma das mãos.
Seu colo estava exuberante no vestido decotado, mas não havia vestígio do colar que outrora estivera ali. Que sempre estivera ali. Seu lugar eterno de repouso.
– Não sei o que aconteceu - sussurrou frustrada.
Marcel piscou os olhos, mas percebi que se demorou dois milésimos de segundo a mais que uma piscada normal. Estaria rastreando?
– Nada! - disse quando os abriu.
O loiro e a ruiva se olharam por um segundo interminável. Seus rostos estavam assustados. Tremia involuntariamente.
– De novo! - disseram os dois ao mesmo tempo.
Queria que alguém me explicasse o que estava acontecendo, mas antes que pudesse fazer a pergunta, o pessoal do detector de metais chamou nossa atenção porque havia chegado nossa vez.
Passamos pela máquina petrificados, todos os cinco. Eu e Mainá sem entender o significado daquele sumiço, muito menos do alarme estampado no rosto dos outros três. Pareciam sem palavras. Aturdidos. Desorientados.
– O que isso quer dizer? - perguntei na primeira oportunidade no caminho para o avião.
– Quer dizer que existe alguém sabotando a gente - respondeu Marcel irritado.
– Quem? Por quê? - acrescentei.
– Não sabemos com certeza, Lucca - dessa vez foi Tamires. - A minha pedra também desapareceu.
– Em Foz? - perguntei de novo.
– Sim - respondeu minha irmã. - Na época pensei que fosse meu marido o autor do sumiço, mas nunca consegui provar nada. Marcel não consegue localizá-la, igual aconteceu com a sua também.
Eu pisquei os olhos tentando absorver as informações.
– Como? - sussurrei.
– Magia - respondeu, secamente, Alexandre.
Eu me encolhi já pensando em magia negra, mas o que fazíamos senão magia? Havia diferença? Com certeza, o intuito ao usá-la seria a resposta certa.
Naquele momento compreendi meu sentimento de abandono. Por semanas, aquela pedra havia me trazido paz, traquilidade e bom humor. Agora eu e meus sentimentos estávamos à deriva. O que seria de mim sem ela? Não saberia dizer, mas contava com um milagre!
Um a espiada em ILHA DE AR
A continuação m ais sexy da saga OS Q U4TRO ELEMENTOS
Ar
É da liberdade destes ventos
que me faço.
Pássaro-meu corpo
(máquina de viver),
bebe o mel feroz do ar
nunca o sossego.
Olga Savary
PRÓLOG O
Lembranças. Não quaisquer, mas as que doem mais. Aquele cenário branco embaixo, azul infinito à frente e verde atrás traziam à tona recordações dolorosas para mim. Minha mente se agitou convulsivamente enquanto me mantinha paralisado, permitindo apenas que elas me assaltassem e, por fim, me deixassem prosseguir.
Primeiro flash.
Tenho apenas um ano. Não posso enxergar direito. Protejo meus olhos com o braço fino contra o reflexo do sol. É muito branco. Muito claro. Dói. Está muito quente. Meu suor e lágrimas se misturam e sinto seu sabor salgado e amargo em minha língua. Picadas salpicam minha pele exposta ricocheteadas pelo vento. Um brilho intenso no branco ofusca minha visão. Tento pegá-lo e descubro uma pedra azul-esverdeada. É tão linda.
Segundo flash.
O branco é gigantesco. Forçando a vista, só vejo o chão claro ao meu redor. Muito longe, meus olhos divisam o azul. Uma linha sutil o separa em dois tons, um mais claro e outro esverdeado. Gosto do azul, mas está tão distante e estou sozinho. Sou tão pequeno. Como poderei alcançá-lo?A espuma branca corre em minha direção com leveza, me convidando. Lágrimas continuam a verter de meus olhos. Por que estou só?
Terceiro flash.
Um homem se aproxima de mim e me pergunta se estou bem. Não consigo responder. O homem é bom. Leva-me com ele, me dá comida e água. Paro de chorar. Não estou mais sozinho. Ele promete que nunca mais ficarei. Sinto-me feliz. Ele me leva para morar com ele. Uma casa muito grande. Um quarto cheio de brinquedos para mim. O homem é meu pai. A mulher bonita não fica feliz quando me vê, mas ele me ama e cuida de mim.
Quarto flash.
Vivi apenas treze anos ao lado de meu querido e amado pai. Deus o tirou de mim cedo demais. Nunca mais conseguirei ser feliz de novo. O que vai ser de minha vida sem ele? Minha mãe não me ama. Estou sozinho de novo. Isso não é justo! Meu pai havia prometido que nunca mais ficaria só. Ele descumpriu sua promessa. Não, ele estava velho e doente, precisava descansar. Necessito entender e continuar vivendo como ele me ensinou.
Último flash.
Mamãe também não ficou feliz com a morte de papai. A gente não conversa há muito tempo. Mas hoje resolveu quebrar o silêncio. Melhor que nunca mais tivesse falado comigo. Por que ela veio descontar toda sua raiva e tristeza em mim? Será que ela não vê que também estou triste?Também o amava!Sou seu único filho. Por que inventou agora que não sou filho deles? Por que me mostrou o documento da adoção?
Respirei fundo ao final da sequência de lembranças amargas a fim de me recompor. Por fim, as recordações tinham o poder de me tornar mais forte para enfrentar a vida, as dificuldades e as surpresas. Minha história não começou perfeita, mas tinha o controle sobre mim mesmo e poderia conquistar um grande final.
Meu momento solitário terminara.
CARNAVAL
Mal chegou ao cam ping na Vila Itaúnas - em Conceição da Barra, Espírito Santo - e Nicolas Bertoldi j á estava a cam inho do Parque Estadual de Itaúnas preparado para um de seus passeios preferidos. Todo ano, durante o carnaval, era a m esm a cerim ônia, porém o cenário m utável das dunas sem pre lhe proporcionava um a paisagem diferente para observar.
Com cerca de trinta m etros de altura, a areia proporcionava um m irante natural para a contem plação do lugar. À frente, o m ar infinito e agitado se encontrava com o céu, pintando a paisagem de azul. Atrás e ao redor das dunas, rem anescente da Mata Atlântica em oldurava o cenário paradisíaco, recortado pelas águas escuras do rio Itaúnas.
Parado diante da exuberância daquela reserva natural de fauna e flora da costa brasileira, Nicolas era um a m iragem no deserto, um oásis nas areias infinitas. O cabelo negro agitado pelo vento, os olhos azul-turquesa fixos no horizonte além das dunas, o rosto sem expressão, de traços angulosos e bonitos, coberto por um a barba curta e bem aparada. A boca verm elha em destaque.
O corpo m usculoso, forte e alto, vestia um a cam iseta cavada branca e um a berm uda bege. Seus pés calçavam um a sandália confortável e leve. Sua pele era m uito clara apesar de frequentar praias com regularidade. Era um hom em bonito dem ais para passar sem ser notado.
Além da beleza do cenário, Nicolas olhava para dentro de si m esm o. Fora naquele lugar que sua vida com eçara, há trinta anos. Abandonado pelos verdadeiros pais, fora adotado por Ângelo Bertoldi, em presário do setor m etalúrgico que possuía um a casa de praia na badalada Conceição da Barra.
Aos cinquenta e seis anos, Ângelo ainda não tinha herdeiros. Sua m ulher, Celeste, de apenas vinte e oito, depois de tentativas naturais, se subm etera a um tratam ento de fertilidade infrutífero que revelara sua esterilidade, causada por um a doença incurável no útero. Era j ovem , m as infeliz porque não poderia realizar o m aior sonho de seu m arido.
A adoção de Nicolas fora um a benção para Ângelo e um pesadelo para Celeste. O casam ento se deteriorara a partir daí. A atenção e o am or do em presário se voltaram exclusivam ente para Nicolas e a m ulher vivera longos e solitários treze anos. Fora apenas um bibelô que o m arido exibira em festas e eventos sociais.
Nicolas não sabia o que era ter um a m ãe am orosa. Apenas o pai - que o am ara e m im ara dem ais -,adorara. Fizera todas as suas vontades e desej os. Tentara im itá-lo em tudo e prom etera seguir seus passos quando adulto. Ângelo tentara im prim ir no filho a vontade de herdar a fábrica de aço inox, sediada em Vitória, capital do estado, onde residiam .
O que m ais atorm entava Celeste era perceber o quanto seria fácil am ar Nicolas. Desde o prim eiro dia, notara a am abilidade e o carism a próprios de sua personalidade m arcante. Fazia am iguinhos com facilidade e conquistava os adultos com sua doçura, alegria e curiosidade. Mas isso só a fazia se irritar m ais com ele.
O teto desabara na casa dos Bertoldi quando o patriarca m orrera de um a doença degenerativa. Nicolas, com apenas quatorze anos, perdera sua referência e seu exem plo e Celeste se vira perdida entre a burocracia e a dor por ter perdido o m arido. Com raiva, descontara toda sua frustração no filho. Culpara Nicolas de ter roubado o am or de Ângelo e m uitos anos de felicidade. Fora a pior discussão entre eles.
– Tam bém o am o, m ãe! - respondera Nicolas. - Ele era m eu pai!
– Para de repetir isso, m oleque! - retrucara Celeste. - Você não é nosso filho!
Chorando, a m ãe contara ao filho sobre a adoção. Daquele dia em diante, Nicolas se transform ara. Sua personalidade revolucionária tom ara as rédeas da vida do adolescente. Foram longos quatro anos de m udanças radicais, em relação ao visual e aos ideais. Rock, Greenpeace e m úsica eletrônica, onde finalm ente se encontrou.
Tocar era um a terapia, além dos esportes radicais que o faziam literalm ente flutuar. Am ava a sensação de liberdade que vivia nesses m om entos e quanto m ais livre se sentia, m ais Celeste tentava aprisioná-lo; e quanto m ais ela tentava, m ais longe ficava de conseguir.
Fora no verão depois de sua form atura de segundo grau que a tênue linha que ligava m ãe e filho com eçou a se rom per. Nicolas se apaixonara por um a m enina de Conceição da Barra e lhe dera um a j oia que pertencia a Celeste. Irritada, a m ãe exigira que o filho voltasse com ela im ediatam ente para Vitória, se inscrevesse na faculdade de adm inistração e estagiasse na siderúrgica.
A faculdade se tornara um a longa parte de sua vida, quase um a extensão de sua casa desde então. Apesar de sua inteligência e perspicácia, Nicolas era inquieto e criativo. Tinha m ilhões de ideias. Por isso, o curso de adm inistração durara apenas um sem estre, m as lhe dera um grande e inseparável am igo, Giovani Pagotto.
Depois de se m atricular em m ais quatro cursos diferentes, voltados m ais para à ciência, e não se form ar em nenhum deles, Celeste deu um ultim ato ao rapaz, agora um adulto de vinte e seis anos: ou ele virava um hom em ou que se virasse sozinho. Isso fez com que saísse de casa e dividisse um apartam ento com o am igo.
Enquanto o filho não se decidia por qual cam inho seguir, Celeste Bertoldi se via diante de acionistas, burocracia e relatórios que não entendia da fábrica de aço. Depois de m uito teim ar e quebrar a cabeça, a m ulher resolveu assum ir a presidência da em presa com os cinquenta por cento herdados do m arido.
No início, Nicolas colaborara e apoiara a m ãe - na m edida do possível - com ideias e com suas próprias ações que perm itiram a ela controle acionário da fábrica. Com o tem po, Celeste aprendera a lidar com as dificuldades do cargo e passou a ser um a grande conhecedora do m ercado m etalúrgico.
Depois do rom pim ento definitivo, Celeste cham ara o filho à em presa. Fria com o um a m ulher de negócios, fora direto ao ponto.
– Com o acionista dessa em presa você tem o direito de participar das reuniões do conselho e de receber o valor referente à sua porcentagem nos lucros. Porém , agora que assum i a em presa e você é m aior de idade, gostaria de lhe propor que m e vendesse suas ações para que você fique livre das obrigações nessa em presa. Com o dinheiro da venda, você poderá viver por m uitos anos m antendo o nível de vida ao qual está acostum ado.
Nicolas não precisara pensar m uito para responder.
– Obrigado, m as não gostaria de m e desfazer das ações.
Pensou que elas eram a única coisa que sobrara de seu pai, por m ais que até agora não fizera nada do que prom etera a ele, nem se descobrira na vida ainda.
– No entanto, gostaria de m antê-las sob sua custódia provisória. Assim poderá perm anecer na presidência. - Não perderei o patrimônio que meu pai me deixou, concluíra em pensam ento.
O rosto bronzeado levem ente m arcado pela idade da elegante m ulher do outro lado da m esa se contraíra. Os olhos da cor da terra se estreitaram . Os lábios finos se apertaram tornando a linha ainda m ais rígida e dura. Como uma mulher tão pequena consegue parecer tão assustadora?, refletira o filho.
– Bem , se é assim que desej a - respondera finalm ente. - Mas terá que com parecer às reuniões quando convocado.
O tom era m ais com o um aviso do que um a observação.
– Faço questão de acom panhar o andam ento da em presa de nossa fam ília.
Celeste Bertoldi tentara, em ocasiões posteriores a essa, convencê-lo a vender as ações. Mas continuara irredutível na decisão e no pouco interesse tanto pela presidência quanto pela fábrica. No início, ela tem era que ele reivindicasse seus direitos com o um dos m aiores acionistas, m as nunca o fizera.
Fora em um a conversa com Giovani que Nicolas finalm ente descobriu o que fazer da vida. Com o filho do m aior fabricante de chocolate do país, o m elhor am igo tinha um sentido nato em preendedor e finalizara o curso de adm inistração, o MBA em Marketing e agora cursava MBA Executivo e Inteligência em Negócios, m ódulo presidencial, em um a das instituições m ais conceituadas de Vitória.
Giovani era sensível à habilidade enrustida de Nicolas. Com o idealizador, tinha m uitas ideias e pouca prática. No entanto, m uitas ideias que trocaram deram certo e por isso, o am igo passara a consultá-lo m ais vezes. Em outras oportunidades, levara questões de outros ram os e de colegas.
– Por que você não se torna um consultor de ideias? - perguntara Giovani no m eio do papo durante um alm oço.
Prim eiro, rira. Rira bastante, porém Giovani perm anecera im passível, absorto na própria ideia. O rapaz tinha a m esm a idade de Nicolas, porém , com o era bem bronzeado -am ante de praia e surf - parecia m ais velho. Os olhos castanhos eram descontraídos e francos. Tam bém usava barba aparada, o que deixava seu rosto de queixo pontudo m enos alongado. Apesar de ser pouca coisa m ais baixo que o am igo, tinha om bros e peitoral m ais largos.
Nicolas engolira em seco antes de responder.
– Você está falando sério, não está? - Giovani confirm ara com um aceno. - Bem , nunca ouvi falar de um a profissão assim , m as algum a coisa m e diz que pode dar certo.
– Tenho certeza que vai, apesar de que é você que sem pre tem essa certeza - retrucara sorrindo aum entando ainda m ais as m açãs salientes do rosto. - Mas pelo que conheço dessa sua capacidade de dizer se um a ideia vai dar certo ou não, posso apostar que será um sucesso entre os executivos.
A partir desse dia, Giovani passara a conseguir os clientes e Nicolas a atendê-los. Com o em presários ricos e renom ados, a clientela do rapaz exigia um tratam ento vip. Não precisava de um escritório. Com o era um negócio pouco convencional, norm alm ente acontecia em um am biente descontraído com o um restaurante, durante um alm oço ou um j antar.
A vida de Nicolas ficara tão agitada quanto sua personalidade inquieta exigia. Acordava por volta das dez horas da m anhã, tom ava um café da m anhã leve e saía para correr na praia há um quarteirão de seu apartam ento ou na Ilha do Papagaio, um a reserva ecológica situada em um pico à beira-m ar na Enseada do Suá, bairro nobre de Vitória, onde m orava. Ao m eio-dia, alm oçava com algum cliente em um restaurante luxuoso. Aproxim adam ente às quatro horas da tarde, ia para a academ ia treinar m usculação. Às sete ou oito horas da noite, depois de um banho revigorante, j antava com outro cliente. Depois disso, encontrava-se com os am igos em algum a balada ou cum pria sua agenda social em um a festa. Aos finais de sem ana, curtia a praia, o voo livre nas m ontanhas, passeios para outras cidades em turm a, aproveitando shows, festas e baladas e, claro, tocava em boates ou festas privadas.
Giovani tentava acom panhá-lo na m aioria das noites. Porém , desde que com eçara a nam orar, se dividia entre um e outro. Era grato por Milene Agostini tam bém ser anim ada e festeira, com o eles, e por isso se enturm ara m uito rápido. Mas sem pre havia m om entos que não dava para dividir com os am igos e com a nam orada ao m esm o tem po.
Nicolas era um a pessoa totalm ente provida de am igos. Sua facilidade em fazer am izades em qualquer nível ou de qualquer personalidade era im pressionante. Havia quatro que estavam em qualquer lugar no qual estivesse. Daniela, Michele, Leonardo e Augusto tam bém eram filhos de pais ricos e se conheceram na faculdade.
Eram alguns anos m ais novos que Nicolas. Os quatro haviam se form ado nos cursos de Ciências Biológicas, Engenharia Am biental, Oceanografia e Zootecnia respectivam ente, dando vazão ao idealism o desenfreado da j uventude, assim com o o próprio Nicolas o fizera. No final, nenhum deles exercia as profissões e viviam à custa da m esada dos pais.
Naquela sexta-feira de carnaval, após o alm oço, os quatro estacionaram a cam inhonete Hilux cabine dupla na entrada do prédio de Nicolas fazendo a m aior algazarra. Ele descera e colocara suas coisas na caçam ba, j unto com pranchas de surf e barracas para cam ping e colchonetes.
Sentara na frente com Augusto enquanto Leonardo se acom odara atrás entre Daniela e Michele, e passava os braços ao redor de seus om bros. Eram pouco m ais de duzentos e cinquenta quilôm etros de Vitória até Conceição da Barra, litoral norte do estado, próxim o a divisa com a Bahia.
Atravessaram a ilha-capital, a partir da Baía Vitória, cruzando a ponte que ligava a ilha principal à porção continental, depois o aeroporto até chegarem ao m unicípio de Serra. Seguiram por Fundão, Ibiraçu, João Neiva, Linhares, Sooretam a e São Mateus até Conceição da Barra.
Passaram direto pela cidade e seguiram m ais vinte e nove quilôm etros por um a estrada de terra até a Vila Itaúnas, distrito da cidade litorânea e sede do parque m ais im portante do estado. Nicolas observara e aspirara profundam ente o arom a dos paredões de eucalipto às m argens da estrada.
A pacata vila se reerguera depois de um soterram ento histórico pelas dunas do parque. Antes,estava localizada entre as dunas e o rio Itaúnas. Agora fora reconstruída, seguram ente, do outro lado do rio, tam bém j á tom ado pela areia e transform ado em um enorm e alagado.
Os turistas, j á habituados aos m odos daquele povo sim ples m ovido pela pesca e pelo turism o, encam inharam -se direto ao cam ping, desocuparam a caçam ba da cam inhonete e partiram novam ente, dessa vez, direto para o Parque Estadual de Itaúnas.
Já tinham planej ado ocupar as próxim as horas com atividades que am avam naquele paraíso. Deixaram a cam inhonete no estacionam ento e partiram a pé até os quiosques de atendim ento aos turistas. Os quatro j ovens se decidiram pelo passeio que descia o rio Itaúnas até o rio Angelim em caiaques. Nicolas os viu partir, dizendo que não queria água e que faria algum a coisa m ais seca.
Sozinho, cam inhara despreocupadam ente pelas dunas e passarelas de m adeira até alcançar o ponto m ais alto da colina de areia. Lá de cim a, pudera ver os parcos turistas na praia e contem plar a im ensidão do oceano. Inspirar fundo o ar úm ido que vinha do Atlântico e caíra em suas próprias lem branças. Aquele lugar m arcara os eventos m ais im portantes de sua vida.
Recom posto, voltou sem nenhum a pressa para os quiosques. Estava pronto para com prar seu passeio quando um a voz o cham ou. Voltando-se, viu um rapaz m oreno e franzino, de cabelos bem curtos e encaracolados, correr em sua direção com um sorriso enorm e e brilhante. Usava cam isa e calça social, algo parecido com um uniform e.
– Luis Dalbosco! - exclam ou quando o rapaz estava há três passos.
– Nicolas Bertoldi! - riu o j ovem . - Quanto tem po, cara!
Cum prim entaram -se. Luis era am igo de infância de Nicolas desde quando fora adotado por Ângelo. Nos feriados, finais de sem ana e férias, sem pre que Nicolas ia a Conceição da Barra, eles brincavam j untos. Na adolescência, badalaram e azararam m uito.
– Tem razão - respondeu Nicolas. - Deve fazer um ano desde a últim a vez que nos vim os.
– Com certeza, um ano, cara - concordou Luis. - No carnaval do ano passado. E então, o que m udou em sua vida nesse tem po? Casou?
Nicolas riu faceiro.
– Não, não m e casei - respondeu.
– Você não estava nam orando aquela m oça, com o ela cham a m esm o? - pensou um pouco antes de se lem brar - Michele!
– Ah, não, Michele é só um a am iga - riu Nicolas. - Nunca nam oram os.
– Cara, sinceram ente não te entendo. Vi você pegando aquela gata. Bem , tudo bem , não im porta. Era carnaval, não é?
Nicolas apenas balançou a cabeça positivam ente.
– Mas e Lara, você a tem visto?
O sorriso sum iu do rosto de Nicolas. Por que foi lembrar dessa mulher agora?, pensou.
– Faz um tem po que a vi em um evento social em Vitória - respondeu friam ente.
– Eu a vej o quase todo o final de sem ana. Ela sem pre vem pra Conceição da Barra ver os pais e os avós.
– Hum - resm ungou Nicolas.
Percebendo a distância do am igo, Luis resolveu cutucá-lo.
– Hei, cara, desculpa aí, não sabia que ia ficar tão perturbado em falar de um a ex-nam orada.
– Não estou perturbado - retrucou apressado. - Só não tenho nada a dizer sobre ela. É passado. Acabou há m uito tem po.
Luis preferiu deixá-lo em paz e m udou de assunto.
– Que passeio você vai fazer?
– Vou de buggy até a praia do Riacho Doce - respondeu m ais descontraído.
– Ótim a escolha.
Um cham ado, m eio distante, os interrom peu. Luis acenou em resposta.
– Bem , hora de voltar para o trabalho - se despediu. - Essa vida de carregar turista não é fácil. Ainda bem que o ônibus tem ar condicionado. A gente se vê.
Nicolas o viu correr em direção a um grupo de pessoas que subiam no veículo e outras que grudavam o rosto nas j anelas lacradas. Voltou para o quiosque e fechou seu passeio. Acom panhou o m otorista e m ais dois turistas até o autom óvel que os transportaria através das areias de Itaúnas.
***
As maravilhas daquele cenário totalmente natural, feito pela mão de Deus e conservado pelo homem, tinha o poder de curar minhas feridas. Ao mesmo tempo em que as dunas me feriam -com lembranças dolorosas - elas também me curavam e me davam fé no amanhã.
Apreciei a brisa provocada pela velocidade em que o buggy corria pela areia. Protegi meus olhos com óculos de sol e deixei que o resto de meu corpo fosse chicoteado pelos grãos. Estava em paz, livre e exatamente onde gostaria.
Apesar de afirmar isso para mim mesmo, não sabia para onde estava indo. Aquela fora uma manhã estranha, cheia de inquietações, mas não sabia o que era. Apenas tinha certeza de que ir para Conceição da Barra e visitar o Parque Estadual de Itaúnas ainda era uma boa ideia.
Minha inquietude não era motivo para cancelar nossos planos. Ao contrário. Sentia que era exatamente o que devia fazer. Sem saber para onde estava sendo levado - nem pelo o quê -insisti em ficar sozinho. Sabia que meu instinto me diria o que fazer. Já o havia feito muitas vezes.
Por isso estava tranquilo. Não que a agitação tivesse desaparecido. Somente esperava encontrar a resposta ao fim do caminho. Afinal, apreciava aquele lugar, um santuário de vida e amava festas, estar com meus amigos e fazer novas amizades. Não era nenhum sacrifício estar ali agora.
Meu pai havia me ensinado a amar a natureza. Desviara-me tanto do caminho que trançara para mim, mas não conseguia me arrepender. Tinha certeza de que, se estivesse vivo, entenderia minhas escolhas e me deixaria fazê-las livremente.
Além de meu pai, nunca vi uma pessoa que me entendesse mais do que Giovani, meu melhor amigo. Compreendia a minha necessidade de ser livre, de vida social, de realização profissional e pessoal. Era uma unidade complexa de tudo isso funcionando simultaneamente.
Às vezes era difícil para eu mesmo me entender. Ideias contraditórias me impulsionavam vez ou outra e me confundia frequentemente com lados opostos de um mesmo caminho. Como andar por dois caminhos contrários e permanecer o mesmo?
Também tinha mania de teorizar. Minha mente funcionava há um milhão por hora, sem descanso. Mas no fim, sempre conseguia conciliar razão e emoção. A maior prova disso era estar no parque naquele momento e frequentá-lo com assiduidade sempre que possível.
Não tinha o hábito de fugir de um desafio, me reinventava ou antecipava o que aconteceria. Dificilmente caminhava cego. Sempre tinha alguma ideia do que me esperava do outro lado. Era um ótimo observador.
Mas não dessa vez. Algo me chamava. Algo que desconhecia. Quando Luis tocou no nome de Lara, não foi ela que me perturbou, mas sim aquela sensação inquietante se acentuando, quase gritando comigo. Afinal, o assunto ‘Lara Costa’ não era incógnito para mim, mas a sensação, sim, era completamente nova.
Algo me dizia que não era exatamente ela, a pessoa, ex-namorada, que estava ligada a esse chamado. Mas com certeza tinha a ver com ela e era isso o que mais me perturbava. Há muito tempo nos tornamos quase estranhos e ao mesmo tempo, íntimos. Era difícil de explicar e de compreender.
Estranhos no sentido de convivência. Até hoje, o tempo máximo que ficamos juntos fora dois meses. E íntimos no sentido de pele. Ela exercia uma atração tão forte e irresistível sobre mim que muitas vezes tinha que lutar para não agarrá-la quando a via.
Algumas vezes não conseguia me segurar. E era perturbador como ela não negava. Era tão forte que me assustava. Saía com muitas mulheres, mas dificilmente mais de uma vez com a mesma. Talvez estivesse me tornando nostálgico e apenas revivendo meu primeiro amor.
Terminamos o passeio antes que finalizasse meu pensamento. O sol estava pouco acima da linha da areia no horizonte e em pouco tempo tocaria o mar. Observando, perdi o fôlego diante do cenário. Até agora trafegávamos por uma extensa linha de areia cercada de um lado pelo mar e do outro por um paredão de rocha misturado a areia e a restinga.
Agora o paredão se abria em uma fenda larga e funda por onde o Riacho Doce serpenteava em busca do oceano. O manguezal e a formação de corais completavam o espetáculo. Crianças brincavam nos alagados rasos e escuros do riacho enquanto casais se protegiam do sol no quiosque coberto por secas folhas de coqueiros.
Um reflexo chamou minha atenção e me fez respirar novamente por um momento muito breve. Meus olhos encontraram a portadora do objeto. Vestida com uma saída de praia laranja sobre o corpo mulato e sexy – os olhos caramelos tão claros como o sol, o cabelo marrom curto e encaracolado coroando o rosto liso, a boca marcante e sorridente com dentes brancos e brilhantes-, Lara vinha em minha direção sem que tivesse notado minha presença.
Estava linda e acompanhada. Do lado direito, o irmão caçula Lorenzo, um mulato forte e troncudo, mas bastante semelhante à irmã, principalmente os traços bonitos do rosto. À esquerda, Pietra, a melhor amiga de Lara desde a infância. A moça era mais baixa e cheia do que a amiga e sua cor era mais bronzeada do que natural. Não era feia, mas não tinha nem a metade da atratividade da outra. Eles conversavam animadamente. Estavam a cavalo, provavelmente chegavam agora de um passeio pelas praias.
No pescoço, o objeto que me chamava. Um cordão de ouro contínuo e trabalhado, de onde pendia um pingente de água-marinha, uma pedra verde-azulada levemente transparente. Não estava lapidada e eu não precisava ver mais de perto para reconhecê-la. Aquele era o colar com o qual a havia presenteado no dia em que fizemos amor pela primeira vez.
Fazia tanto tempo e, no entanto, parecia que acontecera ontem. Tinha dezessete anos e estava aproveitando as férias de verão na casa de praia da família com minha mãe. Em uma tarde ensolarada, à beira-mar, avistara aquela menina bonita, de pele sedosa e sorriso genuíno caminhando na praia com a mesma amiga de agora. À época, tinha menos corpo, era mais comprida e magra, e estava com quinze anos. E me vira completamente apaixonado por ela. Lara me notara quase que imediatamente e seus olhos dourados brilharam. Com minha coragem de adolescente, me apresentara e passamos o resto do verão juntos.
Minha mãe fora completamente contra porque me achava muito novo para namorar. Vivia insistindo que devia estudar e estagiar na fábrica de aço antes de pensar em ter um relacionamento sério com alguém. Mas não a ouvira.
Frequentara assiduamente o sítio onde Lara morava com a família e conhecera todos eles. Seus pais, Eugênio e Margarida, foram perfeitos anfitriões e, apesar da filha ser muito nova, não colocaram empecilho em nosso namoro. Lorenzo era o irmão caçula pentelho que não desgrudava da gente, quer fosse para nos vigiar - a mando dos pais - ou porque gostava muito de mim. Acreditara que era pelos dois motivos.
Os avós eram os mais divertidos. Contavam histórias antigas sobre a cidade e o país. Amava conversar com eles. Ambos viúvos há muito tempo, mudaram-se para o sítio dos filhos. Dona Teresa Casagrande era mãe de Margarida e o senhor Francisco Costa era pai de Eugênio. Eles também tinham altas discussões que me divertiam muito.
Na última semana de férias, Lara e eu entramos em crise. Antecipamos a dor da separação. Quase não falávamos mais. Ficávamos apenas abraçados, nos beijando, nos acariciando, como para prolongar o tempo que nos restava.
Vendo a nossa tristeza, a família nos deixara em paz. Começava a matutar o que lhe dizer, como reconfortá-la, mas não havia palavras que pudesse aliviar o meu próprio sofrimento. Fora nesse momento que decidi lhe dar um presente que personificaria a minha presença em sua vida para sempre.
Ao contrário do que minha mãe pensava, a gema de água-marinha era minha. Eu a encontrara no dia em que fora abandonado nas dunas. Mas o que eu faria com aquela pedra? Minha mãe mandou fazer um cordão para ela. E a manteve junto com suas joias.
Durante a noite, me esgueirei no quarto de minha mãe enquanto estava na sala, distraída com suas revistas de moda ou programas de TV. Procurei a grande caixa, com cadeado, onde sabia que as gemas mais valiosas ficavam. Estava no maleiro do guarda-roupa.
Saí pelas portas dos fundos para que minha mãe não me visse e, de bicicleta, pedalei até o sítio dos pais de Lara. Eu a chamei na janela de seu quarto e ela saiu ao meu encontro. Com medo de sermos vistos, nos escondemos na Gruta do Balão, nas dunas do parque.
Em meio ao desespero, o presente só fez aumentar nossa dor. Ficamos agarrados por tanto tempo que nem saberia dizer. Com medo de perdê-la, acariciei- e a beijei intensamente. Lara correspondeu ao meu carinho e no fim estávamos fazendo amor. Foi uma experiência inesquecível para mim.
Passamos a noite na gruta e fomos encontrados pela manhã por turistas. Acordamos assustados, mas já era tarde demais para que nossos pais não soubessem. Foi a última vez que vi a pedra. Naquela mesma tarde, minha mãe estava me arrastando de volta para Vitória. Não saberia dizer se ela estava mais brava por ter dormido fora de casa, ou por ter transado com Lara, ou por ter lhe dado o colar. Acho que por fim foi multiplicada por três.
E agora estava diante dela novamente. Havia me esquecido como era bonita. Respirei fundo como se a sensação de tranquilidade invadisse meu corpo pelo ar. Toda a inquietude de antes se fora. Minha mente estava clara. Eu me sentia muito bem-disposto, mais do que antes. Sorri.
Sem perceber, minhas pernas me levaram até ela. Minha cabeça estava acima do cavalo, que parou provavelmente quando Lara notou minha aproximação. Meus olhos estavam presos na pedra quando me detive ao lado dela. Tive que me segurar para não estender a mão e tocá-la.
O silêncio ao meu redor era perturbador. Demorei algum tempo para perceber que eles esperavam que falasse primeiro. Engoli ruidosamente e encarei Lara. Ela estava séria, seus olhos caramelos brilhantes de ansiedade. Instintivamente, pensei que não fora uma boa ideia me aproximar. Ao mesmo tempo saiba que era exatamente isso que precisava ter feito.
– Olá - cumprimentei com um sorriso simpático.
O trio desmontou para que nossa conversa fosse mais confortável. Responderam meu cumprimento com timidez e hesitação. Talvez estivessem pensando nos motivos que me fizeram me aproximar de modo tão estranho.
– Quanto tempo não nos vemos, não é, Lorenzo, Pietra? - acrescentei me sentindo um idiota. O que estava dizendo? - Como estão?
– Muito bem, obrigada por perguntar. - Somente Pietra foi capaz de responder. - E você?
– Estou bem também - fui cordial. - O passeio a cavalo deve ser melhor que de buggy.
– Sinceramente, não sei dizer-riu. - Mas adorei! Foi Lara quem teve a ideia. - Bateu na testa e acrescentou. - Nossa, perdi a noção do tempo. Está na hora de voltar para a cidade, senão chego atrasada ao meu turno na recepção da pousada.
Olhou para o irmão da amiga. O rapaz estava com os braços cruzados sobre o peito me analisando. Desviei o olhar.
– Lorenzo, você também vai se atrasar - continuou falando pelos cotovelos. - Tchau, Lara. A gente se vê depois.
Saiu arrastando Lorenzo com um braço e as rédeas do seu cavalo com o outro. Sozinhos, continuamos calados. Estava ficando nervoso com aquele silêncio. Não era assim, o que estava acontecendo comigo?
– E então, Lara, como você está? - tentei começar a conversa. - Ainda no marketing da Vale?
– Sim - respondeu com sua voz suave. - Fui promovida há alguns meses a gerente do departamento.
– Parabéns!
Senti necessidade de me mover. A agitação só não me consumia porque ainda sentia aquela tranquilidade mística irradiando ao meu redor. Tentei pelo menos parecer mais dono de mim. Dei um passo e Lara me acompanhou como puxada por um ímã.
– E você, ainda longe da empresa de seu pai? - perguntou a moça depois de uns instantes de silêncio e alguns passos.
– Sim - respondi. - O negócio de consultoria está indo muito bem. Estou feliz com este trabalho.
Conversar com Lara era muito fácil. Ela tinha uma inteligência aguçada, era sensível e receptiva. Muito boa para trocar ideias. Apreciava sua companhia de muitas maneiras, percebia agora. Porém, hoje não fluía com a mesma naturalidade.
– Você está hospedado na vila? - perguntou.
– Sim, no cam ping. À noite vamos para a cidade pular carnaval.
– Acho que já está na hora, então.
Olhei ao redor. Nem havia percebido que o crepúsculo chegara. As parcas luzes artificiais pouco fizeram para amenizar o anoitecer. Nós andávamos sem rumo, mas já estávamos nos afastando do grupo que se dispersava devido à chegada da escuridão. Parei perto do quiosque e me virei para o mar onde o sol se escondia, tingindo a água, antes azul-esverdeada, de laranja. Lara parou ao meu lado contemplando o espetáculo junto comigo.
Enquanto o sol deixava a terra, o calor do corpo de Lara irradiava em minha direção despertando em mim um fogo interno que conhecia bem. Olhei para ela, seguindo algo dentro de mim mais forte que qualquer vontade própria. Admirei sua pele quente e sedosa. Meus dedos na maior comichão de senti-la.
Seus olhos brilhantes tocaram os meus e arderam em resposta ao encontro. Nossas mãos se uniram. Eu me curvei sobre ela e, com a mão livre, puxei sua boca para a minha com avidez. Não havia mais lusco-fusco para nós. Nossos corpos eram como um dia quente e ensolarado. O aroma de praia, sal e água apimentado com desejo. A textura sedosa de um pêssego, saborosa e irresistível. Sabia que parar agora seria impossível.
Esgueiramo-nos pela mata a fim de nos afastar do pouco movimento que ainda havia nas margens do riacho. Conhecíamos os lugares mais isolados e seguros. Nossas mãos não se soltavam. Somente as estrelas testemunharam nossa união. Sob o céu salpicado de pontos brilhantes fizemos amor como a primeira vez. Como sempre, era muito especial e único. Lara sempre seria uma mulher irresistível para mim?
Enquanto nos amávamos, uma luz branca e intensa irrompeu entre nossos corpos. Boquiaberto, notei que a água-marinha cintilava como um astro no colo escuro de Lara. Antes que pudesse questionar minha sanidade ou a causa daquele fenômeno, o brilho se extinguiu.
Fiquei sem coragem de comentar sobre isso depois. O silêncio pairou entre nós enquanto mantinha seu corpo em meus braços. Meus pensamentos viajaram para o setor sentimental de mim mesmo e antes que eu pudesse organizá-los, adormeci.
Acordei no meio da noite ouvindo à distância o som dos blocos de carnaval e dos foliões. Procurei por Lara, mas não estava em parte alguma. Senti-me desolado e abandonado. A inquietação voltou a me atormentar.
Pensei que precisava tomar uma decisão definitiva quanto a Lara naquele momento, mas não sabia se seria capaz. Portanto, resolvi primeiro ir para a festa que não me aguardara para começar.
JOSY TORTARO, pseudônim o de Josy Stoque, paulista, pisciana e sonhadora, é publicitária por form ação e escritora por vocação. Marcada a Fogo foi indicado para o prêm io literário Codex de Ouro 2013.
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