Filho da Terra - Os Quatro Elementos, Volume 2
Prólogo
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 13 partes.
O restante da equipe estava dividido em dois: a m aior parte lim pava os resíduos dos obj etos desenterrados e os outros trabalhavam em um a escavação paralela, em um a área repleta de obj etos de cerâm ica. Em outra parte do sítio - abandonada por enquanto, devido a falta de novas descobertas - encontraram lanças da civilização indígena que vivera naquelas terras. Historiadores da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul - UFMS - aj udavam a identificar as tribos, através dos períodos.
Estava feliz com a quantidade de profissionais que o sítio arrebatara. Sabia que, além de as descobertas serem im portantes entre eles, eram ainda m ais para a identidade do povo pantaneiro. Sua origem estava ali, naquele solo úm ido, repleto de obj etos e inscrições pré-históricas. Além da carga genética que corria em suas veias - e m arcava seus rostos e a cor de suas peles -, havia um a história antiga, interligada a própria essência de ser brasileiro, que explicava de onde vieram e para onde estavam indo.
Aquela tam bém era sua própria história - adotada com o ele m esm o havia sido.
Apesar de trabalhar com artefatos indígenas praticam ente todos os dias, nunca havia interagido com esses povos - à exceção de quando fora encontrado e da outra noite em que se perdera no parque, dois m om entos que não entravam em sua lista por m otivos óbvios. Nisso, tinha invej a de Viviane Dias, a m ulher m ais velha no grupo. A historiadora era especialista em com unidades indígenas e realizou inúm eros trabalhos em cam po.
Desviou os olhos para ela do outro lado do sítio arqueológico. Aproveitou para descansar e tom ar água. Viviane era baixa e robusta, com pernas e braços fortes. Seu rosto arredondado era m ais vincado e expressivo que os dem ais. Apesar da seriedade e calm a, sua face tam bém tinha um a doçura característica da paciência e da experiência. Era um rosto que os índios não tem iam .
Enquanto a historiadora analisava as peças j á lim pas, não percebia o olhar analítico do j ovem arqueólogo. Lucca pensou na vida de Viviane, seu m arido adm inistrador e seus filhos pré-adolescentes, j ovens apaixonados por história. Queria saber se ela era feliz. Nunca soube ler suas expressões corretam ente. Mas duvidava, sinceram ente, que não aprovasse todas as escolhas que fizera: profissão, m arido, trabalho e m aternidade.
Na sua visão, era o tipo de pessoa realizada. Espelho do que desej ava conquistar. E quando olhava para ela, percebia que seu próprio cam inho, o rum o que estava seguindo de sua vida levava para o m esm o lugar. E queria isso. Sabia que seria feliz por com pleto com o profissional e hom em . E que Vitória estava inclusa nessa rota inevitável.
O rosto m oreno da historiadora, que estava curvado sobre a peça de cerâm ica repousada entre as m ãos, se virou e seus olhos se encontraram . Estrem ecendo de susto e tim idez, o rapaz sorriu e acenou levem ente com a cabeça, pronto para voltar ao seu trabalho de escavação. Porém , a m ulher deixou o artefato sobre a m esa im provisada - de m adeira ressecada e rachada- e cam inhou em sua direção. Agachou ao seu lado e verificou o obj eto que escavavam m isturado a terra antes de falar.
– Hum , este parece um lítico, m as ainda não está identificável.
– Não - respondeu Lucca com a voz baixa -, m as até o final do dia estará.
Viviane continuou com os olhos no m aterial estranho quando voltou a falar.
– O que você acha que pode ser?
Lucca pensou antes de responder. Precisava separar em sua m ente o que desej ava que fosse e o que poderia realm ente ser, m as acabou pendendo para a im aginação.
– Gostaria m uito que fosse um artefato religioso. Talvez um a estátua grande, representando algum tipo de divindade.
Viviane concordou com um aceno.
– Tam bém espero - respondeu ela. - Qual o tam anho final que está prevendo?
– Provavelm ente perto de um m etro de cum prim ento - não hesitou em responder.
Carlos se introm eteu grosseiram ente na conversa.
– Acho que pode ter até m ais do que isso e aposto m inha vida com o deve ser um a representação m asculina do divino, talvez Tupã.
Lucca fez um a cara feia para o am igo, porém a reação de Viviane foi diferente. Ela gargalhou. Seu corpo pequeno, porém firm e, sacudindo cadenciadam ente ao ritm o de sua risada.
– Otim ism o - falou por fim . - Gosto disto.
Lucca gostava dessa faceta da historiadora que conhecia desde que entrara para o grupo há dez anos. Nenhum a pessoa da equipe fora tão durável e m arcante quanto Viviane. Ela tinha um a presença única, que qualificava a todos. Sem querer, era a líder em ocional da equipe, o term ôm etro espiritual, por sua experiência e história. Todos a adm iravam .
Antes de se levantar e se afastar, Viviane deu um tapinha am istoso nas costas do arqueólogo e lançou um sorriso para Carlos. O clim a no trabalho não poderia ser m elhor. Estavam m uito anim ados e m otivados devido a possível descoberta. A sensação pairava no ar com o um a neblina densa, praticam ente palpável e contagiante. Voltando a concentração ao trabalho, o grupo não viu a tarde passar pelo céu azul, com poucas nuvens brancas.
***
O fim do dia pintou o céu e a flora com outros tons de azul e verde. Era um espetáculo que não me cansava de assistir, apesar de não ser comum trabalharmos até o sol se pôr. A iluminação era precária e poderíamos danificar o objeto devido a pouca visibilidade.
Lanternas foram improvisadas como lâmpadas - humanos como postes - e outras mãos se juntaram às nossas - às de Carlos e às minhas - para finalizarmos aquele pequeno trecho do já visível lítico que se revelou aos poucos durante a tarde.
A terra ainda era abundante, porém o cinza da rocha destoava aqui e ali onde o pincel conseguiu realizar uma primeira limpeza superficial. A peça realmente tinha a largura da cavidade que abrimos ao seu redor.
A euforia dominou o grupo enquanto alguns ajudavam na escavação, outros iluminavam e observavam, e ainda outros limpavam como era possível. Queríamos identificar o artefato a qualquer custo ainda naquele dia.
O formato mudava pouco, ao revelarmos mais do objeto. Parecia uma peça só, parte côncava, parte reta. Não era possível dizer o que aquele artefato representava.
Mesmo assim, continuamos cavando na esperança de sabermos mais. O pôr do sol mudou completamente a cor do céu no horizonte, tornando-o laranja vivo e quente, e a fauna refletiu seu dourado sobre o verde escuro.
Em poucos minutos, rápido demais para que pudéssemos terminar, o entardecer deu lugar à noite e inúmeros pontos de luz brilharam no céu ao redor da lua cheia. Aquele espetáculo era novo, mas eu estava frustrado demais para continuar contemplando sua beleza.
– Chega, Lucca, não temos iluminação suficiente para continuar sem riscos - determinou Carlos, já se afastando do vão na terra.
Eu me debrucei abatido sobre a abertura, infeliz por não ter alcançado meu objetivo. As ferramentas de trabalho abandonadas ao redor de meu corpo eram tão inúteis quanto eu mesmo. Uma mão pousou sobre meu ombro e não ergui os olhos para verificar quem era.
– Não desanime, Lucca - era a voz firme e gentil de Viviane. - Em breve o objeto se mostrará para nós.
Eu me ergui, o gesto brusco retirou a mão delicada do meu corpo.
– A partir de amanhã, quero a maior parte da equipe trabalhando aqui.
Observei cada rosto sob a luz fraca e amarela, parte das faces escondidas pela sombra. Apesar da pouca visibilidade, podia sentir o clima de excitação se esvaindo do grupo e continuei.
– Focaremos neste artefato e deixaremos os objetos menores para depois desta descoberta. Ainda não sabemos o tamanho dele, portanto, escavaremos em cima do previsto. Em alguns dias, poderemos dizer do que se trata e então esta poderá ser nossa maior descoberta até agora.
A equipe pareceu mais animada ao se despedir e se separar pouco a pouco pelo parque. Fiquei agachado perto da cavidade na terra, talvez esperando um milagre. Minha mente estava vazia.
Carlos se aproximou antes que todos fossem embora.
– Vamos, Lucca?
Sem olhar para meu amigo, respondi.
– Vou ficar mais um pouco. Se não quiser me esperar, pode pegar carona com outra pessoa.
– Ah! - suspirou. - Tudo bem, até amanhã.
Respondi com o aceno e pensei na atitude de meu amigo. Sabia quando eu desejava ficar sozinho e por isso colaborou com a minha privacidade. Continuei olhando para a terra escavada enquanto o burburinho de vozes diminuía ao meu redor, sem nunca cessar. Outros sons acompanhavam as vozes. Os pneus esmagando as pedras e a grama do parque enquanto se dirigiam a saída. A borracha na estrada. O ronco do motor.
A fauna ganhou vida ao meu redor e apenas continuei ouvindo, os olhos grudados no material lítico não identificado. Insetos, algumas aves, roedores, o som do rio Paraguai, os jacarés se movendo na água, os peixes saltando. Vida e morte lado a lado no Pantanal.
Trabalhava com a morte no centro da vida no Mato Grosso do Sul. E me orgulhava disso. Porque, com ele, podia dizer de forma científica e histórica qual a origem do povo pantaneiro.
Um som diferente chamou minha atenção. Passos. Porém antes que me virasse para procurar, o som desapareceu. Ainda sabia de onde vinha e busquei, através das sombras, vestígios de formas que eu reconhecesse.
Percebi - espantado e ao mesmo tempo maravilhado - que não tive dificuldades de ver no escuro. Somente a lua banhava, com seu brilho prateado, algumas áreas do parque entre as folhas das copas.
A algum tempo percebi que algumas limitações humanas me abandonaram. Primeiro com a audição. Agora com a visão. Era admirável e fascinante e a imagem de um super-herói de quadrinhos veio a minha mente de novo.
Ri com a comparação ilusória e inevitável. Não era nada lógico - tampouco saudável - me comparar com heróis de gibis. Afastei a imagem da minha cabeça no mesmo instante que voltava meus olhos para o vulto cinzento quase escondido na abertura da terra aos meus pés.
Aquela era minha realidade. Eu era Lucca Gonçalves, arqueólogo e chefe da equipe do sítio em Corumbá, filho do médico Edgar e da dona-de-casa Isabel, noivo de Vitória e me casaria em apenas doze dias.
Engoli em seco. Os pensamentos me guiando irremediavelmente para minha futura - e nada longínqua - vida de casado.
Suspirei resignado. Já havia aceitado meu destino. Amanhã seria um novo dia de preparativos apressados. Pensar em meu casamento me fez relembrar de Vitória. E, consequentemente, de minha casa. Já havia passado da hora de partir.
Apressando meu pensamento, meu estômago roncou e pensei na comida caseira de minha mãe. Doeu mais forte dessa vez e me motivou a me mover mais depressa.
Enquanto caminhava até meu carro, o som de passos mais uma vez ecoou e agora muito perto, à direita. Parecia que estavam me seguindo. Virei-me, instintivamente, para a direção do som, percebendo, no mesmo instante, um vulto entre as árvores.
Meus olhos se adaptavam a pouca luz naquela região, meus pés se viraram na direção da sombra ao mesmo tempo em que eu identificava outro olhar na escuridão.
No segundo seguinte duas coisas aconteceram ao mesmo tempo. Uma luz forte e ofuscante surgiu abaixo dos olhos que me encaravam no escuro, iluminando o rosto da índia que eu achava que na sexta-feira. E de repente sumiu e os sons de passadas largas e rápidas ecoaram nos meus ouvidos.
Demorei mais um segundo para entender que não era um fantasma. Podia ouvir os ecos abafados dos passos na terra fofa enquanto a pessoa fugia em disparada.
No outro segundo, fiz minhas próprias pernas se moverem e seguir o som que denunciava o caminho que devia percorrer. Não sabia bem o que faria. Não sabia se era perigoso seguir aquela índia, mas simplesmente o fiz.
Corria evitando os troncos das árvores e os galhos baixos, pensei que não era perigoso, porque se essa índia quisesse me matar, já teria feito há três dias.
Depois questinei porque a estava perseguindo. Bem, era a segunda vez que a via no parque e queria saber o que ela fazia ali e porque realizara um tipo de ritual comigo. Até onde sabia sobre povos indígenas, aquela região não era mais habitada por nenhuma tribo.
E outra: estava curioso. O que era aquela luz? De que povo ela seria? Qual seria seu nome - e seu significado? Qual seria sua história? Seria de uma tribo desconhecida - com índios, nunca se sabia - ou de alguma reserva? Totalmente selvagem ou instruída?
Não estava atento ao caminho. Minha mente focada nas milhares de perguntas que era capaz de formular. Meu corpo se movia no automático, a força de meus pés e músculos impulsionando meu tronco - com a ajuda de meus braços - sempre em frente.
Os verdes difusos eram sombras negras que pairavam sobre mim. Pareceriam assustadores na minha infância. Porém, agora, era apenas um teto que me separava das estrelas. De vez em quando um filete de luz da lua se infiltrava entre as copas teimando contra a escuridão.
Mas não estava tão escuro assim que não houvesse forma que não pudesse identificar. A alguns passos estava o vulto esbelto da índia. Seus cabelos escuros como a própria noite chicoteavam o ar atrás dela. Não olhou para trás, mas devia saber que a estava seguindo.
Abruptamente, fez uma curva à esquerda. Ao alcançar o local, com apenas três passadas largas, não a vi. Parei quase caindo ao chão e balancei a cabeça apressadamente ao redor ansioso em encontrar seu rastro.
O silêncio dominou meus sentidos. A fauna imóvel era minha única visão.
Hesitei, parado ali, meu corpo girando em seu próprio eixo trezentos e sessenta graus a fim de encontrá-la. A própria floresta emitindo na noite seus sons peculiares.
Voltei para a direção em que a tinha visto pela última vez. Talvez fosse uma armadilha afinal, e estava sendo ingênuo o bastante para segui-la. Mas não havia índios canibais ou guerreiros no Brasil. Não tinha o que temer.
Dei um passo, cauteloso, na direção em que a índia desaparecera. Um grande galho tampava a passagem. Não me lembrava de ter ouvido o som de folhas se movendo.
Ergui lentamente, esperando talvez encontrar uma tribo indígena inteira, armada com flechas apontando-as ameaçadoras para mim. Afastei a ideia de imediato da cabeça e dei um passo sob as folhas que segurava.
Uma forma gigantesca se desenhou disforme contra o céu em seu tom cinza escuro quase oculto pelo azul marinho da noite. Esquecera-me que existia ali no parque e que já havíamos feito grandes descobertas nela.
Era uma rocha cinco vezes maior do que eu na altura e, na largura, provavelmente dez. Fiquei parado, atônito, incapaz de me mover ou de pensar. A forma enorme e imóvel como eu, demonstrava muito mais sobriedade.
À minha altura havia um tom mais escuro no cinza. Mais negro. Dei um passo tentando, com minha visão aguçada, identificar o por que da diferença. E não precisei de mais nada para entender.
Era uma gruta. Seduzido pela lembrança - talvez mais excitante do que minha escavação de hoje - caminhei rumo ao interior da caverna - escuro, úmido e sombrio - sem ao menos pensar em levar comigo uma lanterna.
ÔNIX
Apesar da escuridão, enxergava a minha volta o suficiente para não tropeçar. Porém ainda podia ser surpreendido por alguém - ou muitos - escondido atrás das estalagmites. A adrenalina pulsava em minhas veias e me impulsionava a continuar andando.
Não estava com medo, apenas um pouco apreensivo com o que encontraria na caverna. Havia muito silêncio, a não ser pelos pingos constantes de carbonato de cálcio dissolvido pela água que escorria do teto através das estalactites.
Não entendia, mas a reconhecia. Aquela mesma força que me puxara ao parque no dia do meu fracassado noivado estava me guiando agora pela caverna. A sensação era de estabilidade emocional e alegria. Uma névoa de alto-astral e bom humor me envolvia sutilmente. Todo estresse e tensão nervosa evaporaram.
Os pensamentos negativos se foram. Pensei na índia e em quanto poderia tê-la assustado com minha atitude. Sorri para mim mesmo. Ela devia estar com medo de mim, por isso fugira. Persegui-la dessa forma fora insensato. Tinha que fazer alguma coisa para remediar o mal-entendido.
– Olá - chamei, minha voz se multiplicando em ecos na extensão do buraco. - Não vou machucá-la.
Esperei até que a última palavra se dissolvesse na escuridão. Meus passos ainda mais cautelosos na expectativa de uma resposta, um som, qualquer coisa. Plim, plim, plim. Somente o som das gotas quebrava o silêncio. A energia mística me convidava a prosseguir.
Irresistivelmente continuei andando respaldado pelo escuro que me cercava. Apesar de não acreditar que necessitasse de alguma segurança, me senti feliz com a escuridão que me escondia da índia. Existia algum conforto em ser invisível quando você estava disposto a enfrentar o desconhecido.
Tentei uma recepção amistosa mais uma vez.
– Está tudo bem - falei alto e com a voz mais calma possível. - Só gostaria de conversar com você.
Pelo pouco que conhecia sobre os indígenas, sabia que a maioria das tribos conhecidas e cadastradas pela FUNAI - Fundação Nacional do Índio - eram alfabetizadas em português. Havia uma pequena chance daquela índia não ser instruída. O que daria para que Viviane estivesse comigo agora. Só de vê-la saberia identificar sua tribo e poderia tentar vários tipos de comunicação em dialetos tupi-guarani.
Além disso, a historiadora era semelhante de muitas maneiras com a jovem índia. A cor da pele, os olhos oblíquos, os lábios carnudos. Também era mulher e, provavelmente, a índia se sentiria à vontade ao lado dela. Eu era uma aberração, um alienígena nessas terras alagadas e amadeiradas.
Estaquei no mesmo momento em que pensei em mim e na minha cor de pele, olhos e cabelos. Talvez fosse mesmo, aos olhos da ingênua índia, um branco que representasse perigo. Era melhor não insistir com isso e voltar para casa.
Meu estômago roncou alto e o som se propagou na escuridão da caverna. Eu me encolhi, apertando com força a barriga, tentando, inutilmente, abafá-lo.
Foi nesse momento que outro barulho, oco, me chamou a atenção. Inalei rápido o ar, porém com o menor ruído possível tentando identificá-lo. Era uma risada, provavelmente sufocada com a mão. A índia estava rindo de mim. Fiquei paralisado tentando desviar minha atenção dos ecos para o som real.
Abruptamente, a risada foi interrompida. Percebi passos leves se movendo um pouco a frente. Ela estava muito perto. Talvez escondida atrás de uma pedra grande. Esperei que seu vulto entrasse em meu campo de visão antes de me mover novamente.
Porém, não foi sua sombra que indicou onde estava. Uma luz incandescente se acendeu naquele instante fazendo meus olhos piscarem aturdidos. Era como um sol, escondido por uma nuvem - representada na caverna pela rocha onde a índia estava encoberta. A fascinação me impulsionou a encontrá-la.
A índia ficou em pé, provavelmente percebendo que era inútil continuar com aquela brincadeira de esconde-esconde, seu rosto muito nítido - pela primeira vez - sobre a luz forte que vinha de seu seio e pela proximidade. O silêncio quebrado por meus passos lentos em sua direção enquanto ela me encarava aflita, a luz sobre seu peito subindo e descendo ao ritmo frenético de seu coração.
Sorri amistoso. Meus olhos presos naquela luz que me chamava com insistência. Ansiei tomá-la em minhas mãos, mas seria palpável? O que era a origem daquela força? Quando estava a apenas um passo dela, a luz nos deixou no escuro. Estaquei novamente, quase tonto com o feitiço que me encantava.
Antes cego pela luz, agora podia olhar os contornos da índia. Suas formas fortes e robustas. Suas vestimentas típicas. Seus cabelos compridos e a franja curta na testa larga. Os olhos profundos arregalados, poços de ansiedade. Sob seu queixo, um cordão escuro e grosso de onde pendia uma pedra negra e brilhante. Ela estava bem no ponto de luz que se dissolvera com minha aproximação.
Ainda não sabia se estava sonhando, delirando ou de fato acontecera. Procurei minha voz nas profundezas de minha garganta seca e tentei mais um meio de me comunicar com a estranha.
– O que foi aquilo? - o espanto nítido no tom de minha voz.
A índia agarrou com o punho fechado a pedra na mão.
– Itaúna.
Fiquei surpreso que tivesse me entendido - apesar de ser possível. Porém, por que não me respondeu em português? Meus olhos vagando direto para a dúvida.
– Pedra preta - esclareceu a indígena.
Estranho como seu sotaque era diferente, com sutileza, nas duas línguas. De qualquer maneira, sua voz era suave e melodiosa. Não havia real medo, apenas um pouco de receio. Estivemos temerosos de assustar um ao outro. Sorri de volta com vontade de dar mais um passo e estender minha mão. Mas não sabia como os índios se cumprimentavam.
Ainda assim, dei mais um passo em sua direção e meus olhos puderem ver melhor a pedra entre seus dedos. Vi seu formato bruto e negro com nitidez e linhas suaves brancas espaçadas. Reconheci o quartzo.
– Ônix - murmurei entre um suspiro.
Uma onda de prazer me dominou enquanto absorvia sua identidade. Era a mesma pedra do anel que comprara - e perdera - para Vitória. De alguma maneira, ela me escolheu. E agora me atraía novamente, me fazia pairar ao seu redor.
A índia apertou a gema entre os dedos.
– Ônix - repetiu a palavra.
Concluí que era nova para ela. Tentei seguir essa linha de comunicação. Apontei para meu próprio peito e me apresentei.
– Lucca. - Em seguida apontei para seu rosto e perguntei. - E você?
Sua cabeça pendeu levemente para o lado antes que ela falasse.
– Mainá. - E apontando para mim, a índia acrescentou. - Raira Ibi. - Fez uma pausa esperando minha resposta, mas meu rosto estava ansioso. O que significava o nome indígena que ela me dera? Explicou em seguida. - Filho da Terra.
Antes que eu pudesse absorver suas palavras e seu significado, Mainá se curvou no chão de pedra, ajoelhando-se e escondendo seu rosto de meus olhos. Estava me movendo para erguê-la quando seu olhar encontrou o meu novamente e ela completou seu pensamento, seu rosto envolto em uma assombrada adoração.
– Mainá, sua serva.
Demorei vários minutos para reagir a sua submissão, compreendê-la e formular uma resposta coerente. Avancei um passo a fim de alcançá-la e tentei erguê-la de sua prostração sem ofendê-la.
– Por que está se curvando? O que quer dizer com ‘Filho da Terra’ e ‘serva’? - perguntei enquanto nossos olhos estavam nivelados, nossos corpos ainda curvados. - Nem te conheço.
Vi seus olhos oblíquos Mainá piscarem aturdidos e percebi alguma ponta de tristeza - ou seria decepção? - no segundo antes de os desviar novamente. Quase me senti órfão. Meu coração palpitou em busca de seu olhar tão significativo e carregado de emoções.
Mainá se soltou de minhas mãos quase dolorosamente, sem pressa. Permiti e procurei traduzir sua expressão corporal. Ficou parada diante de mim, a um braço de distância, seus olhos profundos voltando-se para os meus com uma segurança e determinação que não estavam ali antes. O queixo erguido em desafio diante de meu rosto.
– Respondendo suas perguntas - disse a índia com uma eloquência digna de uma pessoa letrada; consequentemente me senti envergonhado -, você é a promessa de redenção que ouço em minha tribo desde que nasci. - Procurou a pedra mais próxima para se sentar, seu rosto envolto em sombras escondia seus olhos de mim. - Meu povo se denomina como Pai-Tavyterã (saudados no paraíso como os futuros habitantes do centro da terra seria mais ou menos a tradução), mas os brasileiros nos chamam de Kadiwéus. Vivemos na reserva de Amambaí, entre Corumbá e Porto Murtinho.
Conhecia, quer dizer, já ouvira falar daquela tribo e daquela reserva. Ficava há uns cinquenta quilômetros daqui, se pegasse a estrada. Mas para chegar lá não havia caminhos asfaltados e fáceis. Eram estradas de terra, muitas vezes parte dela tomada pela mata, mas eu sabia que parte do caminho valia a pena seguir pelo rio Paraguai. Principalmente a descida até Corumbá.
Observei um vulto comprido e estreito atrás da pedra onde Mainá se recostara e logo reconheci uma canoa indígena, seus traços pouco curvilíneos e retos nas pontas denunciavam que estava certo. Sorri enquanto ouvia sua voz profunda e melodiosa prosseguir a narrativa.
– Os espíritos falaram com o pajé Unaí sobre um menino-deus que nasceria da terra. -Mesmo a distância, pude sentir a profundidade do olhar que Mainá me lançou. - Ele seria filho de Tupã e teria poderes sobre os elementos para proteger sua mãe, nossa Mãe Terra, contra um mal maior do que o homem branco.
Fez uma pausa como se decidisse se deveria continuar falando ou não. Não demorou muito para decidir continuar.
– E esse deus profético é você, Lucca.
Ela sorriu. Seu sorriso confortável e, até adorável, em sua insana devoção. Não me temia, ao contrário, confiava em mim.
– E como você sabe que essa pessoa sou eu? - respondi depois de um momento. -Suponho que esse deus não teria que nascer em sua tribo?
A índia deu um passo firme em minha direção novamente, deixando um espaço muito pequeno entre nossos corpos. Uma de suas mãos agarrava com força a pedra pendurada entre seus pequenos seios.
– Unaí disse que não teríamos este privilégio. Que o Filho da Terra seria branco e andaria entre eles e que ele não nasceria neste mundo. Os espíritos disseram que o deus seria cuspido pela terra.
Dei um passo para trás instintivo. O que estava me dizendo?
– Você não sabe de onde veio, não é, Lucca? - retrucou a índia, um sorriso de satisfação em seus grandes lábios. - Você simplesmente apareceu na mata, não foi?
A lembrança do verde e do medo me tomou com violência por apenas um segundo. Meus breves dois anos de existência apagados de minha memória. Porém, me lembrava de tudo a partir daquele dia perdido na mata alagada.
Também me recordei da pequena índia que havia me encontrado e quase expressei em voz alta minha desconfiança de que Mainá fosse ela. Porém, os índios eram muito parecidos para que eu pudesse fazer tal distinção. E havia mais uma diferença. Aquela indiazinha estava acompanhada por um índio mais velho, adolescente. Talvez seu irmão.
– Mas... - abri minha boca para protestar e ao mesmo tempo afastar aquelas lembranças inadequadas, mas Mainá me interrompeu.
– O pajé também disse que eu saberia identificá-lo porque a pedra preta, ônix, o reconheceria.
Mainá não precisava acrescentar que aquela pedra havia acendido. Vira com meus próprios olhos. Mas não compreendia o que queria me dizer. Ela realmente esperava que acreditasse em lendas indígenas? Não, não podia ser verdade. Tinha que trazer de volta minha razão.
– Tudo bem, Mainá. - falei dando mais um passo atrás. - Respeito suas crenças e jamais zombarei delas, mas não pode me pedir que creia.
Não seria grosseiro - apesar da vontade de lhe perguntar sobre o truque da pedra que se iluminava - e desmoralizar abertamente suas lendas. Devia me virar e ir embora. Esquecer para sempre do que havia visto e ouvido ali, mas não podia. Alguma força me enraizara ao chão, melhor, os olhos profundos de Mainá me prenderam.
Vi inúmeras emoções passarem em seu rosto antes que reagisse. Em todas elas me segurei para não dar um passo a frente e confortá-la. O que estava havendo comigo?
Porém, Mainá não disse nada quando voltou à serenidade de antes. Deu um passo a frente e libertou a pedra do aperto firme de sua mão. Meus olhos dançaram entre a prisão de seus olhos chocolate e o ônix repousado em seu corpo. Sua mão quente e suave tocou meu rosto. O que ela pretendia? Segurei a respiração em um suspiro curto.
Mainá ficou acariciando, com lentidão e adoração, os traços fortes e definidos de minha face. Analisou a textura do meu cabelo. Afagou meus cílios tão levemente que fez cócegas. Seus dedos fizeram o contorno de minha boca muito fina em comparação com seus lábios carnudos. Não conseguia me mexer.
– Você é lindo como um deus, Lucca.
O rastro quente que ficou em minha pele, por onde seus dedos passaram, se dissolveu assim que Mainá abaixou a mão resignada. Cedo demais, pensei enquanto ela caminhava de volta para seu lugar na rocha. Fiquei arrasado por decepcioná-la, mas como poderia assumir um papel que era loucura? Por mais que ela acreditasse que aquela lenda realmente se concretizava em mim, como poderia me transformar no que ela desejava?
Eu era um arqueólogo, um pesquisador. Lidava com fatos concretos. Objetos, histórias, ou qualquer coisa material que provasse, cientificamente, que algo existiu. E seguira essa carreira porque era racional por natureza. Não sabia lidar com emoções, muito menos com histórias imaginárias. Nunca fui fã de contos de fadas, mesmo na mais tenra idade. Sempre gostei de realismo.
Porém, aquela índia era real. Podia vê-la e senti-la. Era de uma tribo que existia, descendente de outra que conhecia devido ao trabalho de escavações naquele mesmo sítio. Isso podia aceitar e compreender.
– Entendo que ainda não esteja pronto para o seu chamado.
A voz de Mainá cortou meus pensamentos como uma faca. Esperei que continuasse. Somente nesse momento percebi que minhas mãos tremiam de expectativa e ansiedade.
– Mas em breve, muito em breve, estará.
Finalizou a frase e a deixou morrer no eco que a propagou. Ficamos assim, nossos olhares presos um no outro. Eu era incapaz de responder, mas também não conseguia ir embora. A gravidade da terra girava em torno daquela índia agora e me puxava. Enquanto caminhava em sua direção, ao invés de correr para a saída, ela falou novamente, em tom de confissão.
– Lucca, tenho que acrescentar uma coisa antes que me tenha como louca e nunca mais queira falar comigo - sua voz suave ciciou em meus ouvidos. - Sou aquela pequena índia que te encontrou há trinta anos.
***
– Hoj e é um grande dia!
Marcel estava eufórico quando encontrou Tam ires na sala da grande casa.
Estava enfadada. Sabia que era por causa da ansiedade em fazer algum a coisa. Desde que encontraram Lucca não conseguia segurar a vontade de sair por aquela porta e ir para Corum bá, m as seu cunhado pentelho e sua frágil irm ã caçula estavam irredutíveis.
Quando Suzane se j untou para o lado de Marcel, Tam ires se sentiu traída. Até então, estivera escutando os dois lados, rem ediando aqui e ali para que a harm onia retornasse à casa. E agora se sentia m uito sozinha.
Conversar com Suzane para que ela deixasse de se sacrificar pelos outros fora totalm ente inútil - e talvez até tenha piorado as condições da m oça - bem que Marcel avisara. Ela sim plesm ente conseguia ser m ais teim osa do que a irm ã m ais velha - e olha que a ruiva sabia m uito bem com o bater o pé.
Suzane era pior. Não havia com o, fisicam ente, fazer qualquer coisa para im pedi-la do sacrifício. Só podiam tentar m esm o a persuasão e essa falhara. O outro ponto que aborrecia dem ais Tam ires era o fato de que Marcel e sua irm ã viviam brigando e quando achava que devia- ou o cunhado solicitava - intervir, sem pre se frustrava. Ou pela estupidez de Marcel ou pela reconciliação im ediata e repentina de Suzane.
Sim plificando, não entendia aqueles dois. O hum or deles oscilava da alegria im ensa a gritaria histérica de um m om ento para o outro e nesses instantes sentia incrível saudade dos seus, há quilôm etros de distância de onde estava.
Por isso, quando Marcel entrou na sala, dessa vez com um a alegria saltitante, nem se abalou. Apenas esperou que falasse, j á que não esperaria deixa para fazê-lo m esm o.
– Acham os a pedra.
Deu um salto do sofá. Um a novidade boa - apesar do sacrifício de Suzane. E não viu rem orso ou pesar no olhar do cunhado. Antes que pudesse expressar sua raiva, Marcel continuou distraído pela descoberta.
– Está com um a índia. Ela esteve vigiando Lucca nos últim os dias e hoj e ele a encontrou no parque onde trabalha. - Fez um a pausa com um a interrogação na face. - Ela contou um a lenda da tribo dela estranha, m as eu te conto depois. - Vendo sua curiosidade, continuou. - Está com eçando, Tam ires. Não dem ora m uito m ais agora.
A ruiva voltou a se sentar no sofá esperando a boa vontade do cunhado em dividir os detalhes das inform ações que trazia.
– Am anhã será a próxim a etapa.
E vendo o sorriso de satisfação no rosto do loiro, se curvou com ansiosa atenção para ouvi-lo.
PENSAMENTOS
Deixar Mainá na noite anterior foi a coisa mais difícil que fiz. Seus olhos profundos e sorridentes voltados para mim quando me fizeram a última revelação. Eu contava os minutos para reencontrá-la e pedir seu perdão. Meu estado de espírito estava mais agitado e calado do que nunca.
– O que está acontecendo? - perguntou Carlos poucos segundos depois de entrar em meu carro.
Eu o olhei espantado. O que meu rosto estaria denunciando?
– Nada, por quê?
Ele me olhou por algum tempo antes de responder. Um nó se formou em minha garganta, impedindo-me de respirar.
– Tem alguma coisa diferente em você.
Ri tentando parecer à vontade, lutando para esconder minhas emoções.
– É mesmo? - A jogada era desacreditá-lo. - E o que seria?
Meu melhor amigo não ficou feliz com meu tom, porém continuou sua análise assim mesmo.
– Não sei bem, mas é como se você tivesse se excedendo. - Fiz uma careta enquanto abria a boca para discordar, mas Carlos não deixou. - Não é essa a palavra, droga! - Permiti que ele pensasse em seu tempo, meu coração disparado; concentrei-me em contar suas batidas: um, dois, três ... dez, onze ... dezessete batimentos depois. - Bem, isso vai ser esquisito de dizer, mas você tem algo fluindo de você. Como uma energia, poderosa e invisível.
Estiquei meu braço e toquei seu ombro. Fiz um som com a boca simulando uma descarga elétrica.
– Doeu? - perguntei já rindo antes de esperar sua resposta.
Carlos, sempre o bem-humorado de nós dois - e quem sabe da cidade toda - não gostou da minha brincadeira. Continuei rindo até que a risada se dissolveu sozinha. Vi o canto da boca do meu amigo se curvar para cima.
– Está vendo, é disso que estou falando. Quem é você afinal e o que fez com meu ‘todo certinho’ melhor amigo?
Não respondi. Apenas encarei seus olhos. Uma vozinha baixa, mas nítida, sussurrou em meu ouvido: Você está m udando, Lucca, e para m elhor. Podia jurar que a voz era igualzinha a de Carlos.
Deixei as palavras se encaixarem em minha cabeça racional enquanto mantinha os olhos no caminho. Engraçado, que apesar de não fazerem sentido lógico, meu corpo entendeu cada uma delas.
As sensações que revolviam dentro dele me pareciam mesmo como uma energia, uma força viva e pulsante. Quase percebia que seus tentáculos corriam em meu sangue, sutil e delicadamente, como se estivessem em casa, como se fizessem parte desse corpo desde sempre.
Quase sentia a diferença nos meus músculos, interligados sobre os ossos, sua força se multiplicando a cada segundo. Eu me lembrava da minha imagem no espelho essa manhã - sempre tão repugnante para mim - agora bela. Via força - não fraqueza - na cor branca e firme da minha pele, no formato anguloso de meu rosto, na altivez de meu nariz, nas linhas finas de meus lábios.
Meus olhos verde oliva podiam ver tão longe quanto uma águia. Meus ouvidos podiam escutar tão distante quanto um tubarão. Minhas pernas podiam correr tanto quanto um guepardo. Meus braços tinham a força da mandíbula de um leão. E podia enxergar tão bem no escuro como um morcego ou uma coruja.
Fato comprovado. Havia corrido ontem à noite da caverna de Mainá. Cheguei ao meu carro em dois segundos contados. Sabia do que era capaz fisicamente e apesar de ser verdade, minha mente não compreendia. A índia havia me chamado de deus. Seria mesmo possível que eu fosse?
Deixei as perguntas - sem respostas - de lado e me foquei no trabalho. As escovações, com grande parte da equipe, avançaram durante a manhã.
Na hora do almoço, levei Vitória ao restaurante de encontro com a organizadora de casamentos, que nos aguardava sentada a uma mesa mais afastada das demais. Mal se cumprimentaram e as duas passaram o restante da hora falando sobre os pormenores.
Minha mente teve caminho livre para divagar. Sob a mesa flexionava os dedos da mão apoiada sobre minha coxa. Permiti que todas as novas sensações físicas fluíssem enquanto as sentia. Meus dedos pareciam garras, seus tendões firmes e rijos. Podia sentir a textura de cada parte orgânica que os compunham. Sua força seria indestrutível e infalível? Acreditava que sim.
Era bom. Era muito bom me sentir forte. Ter consciência disso me deixou - pela primeira vez em trinta anos - feliz comigo mesmo. Era másculo. Não com aqueles frágeis e superficiais músculos que conquistara com anos de exercícios físicos. Era homem, moldado com perfeição, definido pela natureza que me dera uma essência especial e única.
O que desencadeara essa nova percepção? Minha vida era normal até sexta-feira. Meu Deus! Sexta, o parque, Mainá, a pedra! Será?
Na minha confusão desviei os olhos de um ponto longínquo qualquer e foquei no rosto alegre de minha noiva. Não estava falando, nem havia percebido quando a conversa entre ela e a profissional terminara. Sorri sem jeito, como me desculpando.
Foi então que pensei ter ouvido sua voz, muito suave e muito próxima. Lucca está m uito estranho esses dias. Será que não está feliz com nosso casam ento? Mas seus lábios não se abriram. Em choque, foquei direto em seus olhos, tentando entender o que estava acontecendo. O que está havendo com ele? Está tão distante.
Não dava mais. Não queria continuar ouvindo sua voz questionando minhas atitudes, mas não sabia o que fazer. Desviei os olhos e foquei minha energia no prato de comida que mal havia tocado. Fiquei encolhido esperando que sua voz - muda, isso mesmo, ela não estava falando comigo, mas consigo mesma - voltasse a se fazer ouvir novamente.
O silêncio foi total, a não ser pelo tilintar dos talheres na porcelana, das conversas animadas ao nosso redor, da música ambiente, do sino da cozinha anunciando que um prato estava pronto para ser servido. Os sons normais de um restaurante. Suspirei aliviado.
– Gostaria de copos de leite.
Eu me sobressaltei ao ouvir novamente a voz de Vitória, mas ela não estava sussurrada como antes. Era nítida, alta e vinha da direção em que estava sentada. O suspiro escapou de meus lábios entreabertos com um silvo baixo.
– Algum problema, Lucca?
Seus olhos escuros repuxados em um sorriso tranquilo - até demais para o meu gosto - me pareciam falsos. Estranho. Agora estou com eçando a ficar preocupada. Sua voz cochichou em meu ouvido de novo. Paralisado, continuei ouvindo, meus olhos nos dela. Ele realm ente deve estar indeciso. Papai apressou m uito as coisas.
Engoli em seco e resolvi responder, tomando cuidado para não me dirigir àquela voz imaginária.
– Está tudo bem - acabei respondendo para ambas.
Desviei meus olhos para a organizadora de eventos, que assistia minhas reações em silêncio. Ele não parece bem , esteve distante o tem po todo. Acho que o coronel o está forçando a se casar com Vitória. Será que ela está grávida? A voz mudou, era igualzinha a da organizadora, e quase derrubei a cadeira quando me levantei de uma vez só.
O que estava acontecendo comigo? Agora ouvia vozes? Há um minuto estava orgulhoso das mudanças em meu corpo, porém minha mente adoecia. Estava ficando louco. Com a cabeça abaixada, procurei a saída do restaurante sem ver o caminho e acabei esbarrando em um garçom.
– Desculpe - disse enquanto olhava rapidamente nos olhos da pessoa.
Não olha por onde anda? Outra voz sussurrada ‘berrou’ comigo antes que ouvisse a resposta do garçom.
– Tudo bem, senhor.
Era a mesma voz! Parei no mesmo instante, esperando, mas não ouvi mais nada. Virei meu corpo de volta para a mesa onde estivera sentado e encarei uma mulher que passava por mim. Nossa, que hom em lindo! E essa voz suspirou. Eu me resignei em ouvi-la enquanto a moça sorria para mim.
– Olá, gato - sua voz igual a que me falara a pouco.
Eu a acompanhei com o olhar, incapaz de me mover nem responder. Era bonita, mas não uma beldade. Tinha um corpo que chamava mais atenção do que seu rosto, já que estava envolto em uma roupa muito apertada e curta. Parte - mais correto dizer muitas partes - de sua pele morena exposta com sensualidade. Ela sumiu pela entrada do banheiro feminino.
Ouvi um baque surdo seguido de um gritinho. Pela minha visão periférica vi a organizadora de eventos se levantar de sua cadeira em direção a de Vitória, que estava vazia. Onde ela fora?
– Vitória! - exclamou a organizadora.
Virei meu rosto para ver a cena mais aterrorizante da minha vida. Ela estava estendida no chão, desacordada. Seu rosto pálido contra o piso frio do restaurante. Uma pequena mancha vermelha na raiz de seu cabelo loiro e claro. Gemi e corri, humanamente, até alcançá-la.
– Vitória, o que foi?
Tomei a frágil e pequena cabeça loura em minhas mãos quando me joguei ao seu lado. Seus fios compridos e lisos se esparramaram em minhas pernas dobradas. Toquei o ferimento em sua têmpora muito suavemente, meus dedos manchando-se de vermelho. No mesmo instante, Vitória gemeu baixinho e abriu os olhos negros. Você não pode desistir agora! Sua voz me sussurrou e antes que ela pudesse abrir os lábios, respondi desesperado.
– Estou aqui, meu amor, e não vou a lugar nenhum.
***
No fim, não era nada. Uma queda de pressão apenas. Eu me perguntei como foi que a pressão de Vitória caiu enquanto ela almoçava, mas o médico disse que era comum, então não abri minha boca.
Voltei para o trabalho assim que a deixei em casa. O coronel estava aflito já que a filha fizera questão de avisá-lo sobre o incidente. Preocupação desperdiçada, mas do jeito que era mimada, precisava do paparico do pai, já que não poderia ficar.
– Mas você volta à noite, não é? - pedira ela enquanto nos despedíamos.
Seus olhos escuros tão ingênuos naquela expressão de desalento, concordei com a cabeça, ignorando a vozinha ciciada em meu ouvido. Deu certo! Eu preciso fazer algum a coisa para não perdê-lo. Ele é m inha única chance de desencalhar nessa cidade detestável! Fom os feitos um para o outro. Som os brancos!
Eu me encolhi diante das palavras daquela voz horrível em minha cabeça. Como ela podia imaginar que Vitória, tão meiga e gentil, poderia pensar algo desse tipo! Só podia mesmo ser algum distúrbio psicológico meu.
No entanto, a pulga da dúvida ficou coçando atrás da minha orelha a tarde toda. Apesar de ser absurda, não poderia ter alguma verdade nas vozes da minha mente? O universo, de alguma forma inimaginável, não estaria tentando me dizer o que se passava nos pensamentos das pessoas ao meu redor?
No entanto, não havia como ter certeza. Nem com quem me abrir. Encarei os olhos preocupados de Carlos quando pausei um pouco trabalho. Estava suado demais. O que está se passando aí dentro, hein, Lucca? Sorvi um grande gole de água enquanto a vozinha do meu melhor amigo se calava - a voz na minha cabeça, claro.
Pensei sobre o que me dissera. Sempre fora cuidadoso com minhas emoções, para que não fossem visíveis. Bem, pelo menos sempre pensei que fora bem-sucedido com essa atitude. No entanto, essa frase demonstrava o contrário. Estaria ficando transparente? Carlos me conhecia tão bem assim que seria capaz de perceber o tumulto que estava dentro de mim?
Ele nunca expressara nada mais do que ‘O que foi?’ antes. Essa frase, tão mais profunda, ia mais certeira aos meus verdadeiros problemas. Não, definitivamente, não poderia ter pensado isso. E me lembrei que pela manhã ele expressou em voz alta, que eu estava diferente. Então, talvez fosse mesmo visível.
Vitória e a organizadora de eventos também perceberam - se eu pudesse considerar as vozes como verdade. Porém, somente eu sabia o que se passava em minha cabeça agora. Portanto, meu grau de insanidade estava em um nível muito perigoso. Talvez não conseguisse mais separar a realidade da fantasia.
Ao final do expediente, ainda não estava pronto para ir embora e se o fizesse, teria que ir à fazendo ver Vitória - era minha obrigação e havia prometido voltar -, era o certo a fazer. Ainda não estava preparado para distinguir as vozinhas em minha cabeça e a verdade ao meu redor.
Falaram comigo o dia todo. Fora irritante. Toda vez que uma pessoa da equipe olhava para mim, eu ouvia sua voz em minha mente. Era difícil distinguir o que desencadeava o acesso de loucura, já que aconteceu com todo mundo. Sabia que o problema não eram eles, era comigo. Não adiantava tentar encontrar culpados para minha maluquice. Eu era o único responsável.
Dispensei Carlos antes que pudesse me pedir carona. E seus olhos, além da expressão de incógnita, pareciam falar comigo. Foi então que ouvi a sua voz de novo, executada em minha cabeça como uma canção repetitiva. Entendo, você está confuso. Fique bem , am igo. E só consegui sorrir de volta. Aquele com certeza era o abnegado Carlos. Podia imaginá-lo pensando aquilo, mesmo que nunca falasse em voz alta.
Fiquei sentado no chão, aquela certeza rodando em minha mente sem parar. Apenas podia acreditar que era verdade, que Carlos pensara mesmo aquilo e pudera ouvir, de alguma forma nebulosa. Não era fruto de minha imaginação.
O sol se estendeu no céu até tocar o horizonte com seu arco laranja tingindo toda a tarde. Saudei o crepúsculo, pronto para assistir ao espetáculo que - pela segunda vez naquela semana -tinha o privilégio de presenciar. Porém, pela primeira vez, me permiti ver de verdade.
Minha mente ficou vazia enquanto o azul do céu escurecia de forma gradativa. Não desviei os olhos. Sabia que nessa hora cada segundo era importante. O sol se poria com rapidez e perderia os tons que mudariam conforme os minutos passassem.
Ele se transformou a uma velocidade incrível. Como mesmo estava me modificando. O que deveria esperar? Uma noite escura sem lua - minha loucura confirmada? Ou um dia claro e ensolarado - uma vida nova, cheia de possibilidades inimagináveis?
A sensação chegou sem aviso. Sem qualquer som. Eu inspirei profundamente enquanto uma força maior e mais forte estabilizava minhas emoções internas. De repente, eu me sentia em perfeita harmonia. A sanidade e a loucura me preenchendo de maneira equilibrada e saudável, como se fosse possível conviver com as duas antíteses ao mesmo tempo.
Sim, eu confiava nisso. Eu podia ficar alegre de novo. Tudo era passível de existir dentro de meu novo corpo. Um novo corpo exigia uma nova mente. E eu estava me adaptando a essa nova realidade.
A sensação tomou conta de mim apagando minha razão. A energia me envolvia com delicadeza. Eu me virei para recebê-la de frente quando entendi qual era a sua fonte. O ônix. Fui incapaz de pronunciar a palavra em voz alta. Meus olhos presos na gema luminosa entre os seios de Mainá.
Ela permaneceu em silêncio. Talvez não soubesse o que me dizer. Talvez não quisesse mais ficar escondida entre as rochas. Talvez tenha saído para olhar as estrelas e esbarrado em mim. Relutante, busquei seus olhos a fim de traduzir suas expressões. Ainda está com m edo de m im ? Mas hoj e não fugiu. Será que devo falar com ele? A vozinha em minha cabeça imitou a da índia.
– Oi, Mainá - cumprimentei com um sorriso tímido.
Ouvi um suspiro de espanto sair de sua boca, seus olhos já grandes se arregalaram. Por Tupã! Ele falou com igo! Eu a deixei amedrontada. Havia sido muito grosseiro.
– Desculpe-me por ter fugido de você ontem.
Será que ele pode ler m eus pensam entos? Ignorei a vozinha insistente em minha cabeça enquanto olhava nos olhos de Mainá, meu sorriso mais largo passando a confiança que ela precisava para se aproximar de vez. Sorriu de volta e se sentou ao meu lado sem pestanejar.
– Desculpe-me você, Lucca - falou em seguida. - Não devia ter te falado sobre minhas crenças. - sorriu ela, um sorriso tão ingênuo e doce que me fez sorrir mais - Não enquanto você mal me conhecia.
– Ainda não te conheço - respondi ansioso.
Ela percebeu o tom emotivo da minha resposta. Olhou direto nos meus olhos e jogou toda a profundeza de seus poços escuros sobre mim. Ele realm ente tem interesse em m e conhecer, disse a voz na minha cabeça.
– O que você quer saber? - perguntou a índia.
Desviei os olhos para a floresta verde musgo ao nosso redor, o céu no horizonte - quase totalmente encoberto pelas copas - estrelado. Falei antes de olhar para ela de novo.
– Como é ser uma índia nos tempos modernos?
Quando me virei para ela, seu rosto era de pura descrença. Ele não pode estar fazendo essa pergunta a sério, a vozinha traduzindo em palavras sua expressão.
– É sério - apressei-me em dizer. - Nunca conversei com uma indígena antes.
Vi o rosto de Mainá se contorcer e ela o virou para o outro lado, provavelmente para que não o pudesse ler.
– Desculpe - disse triste. - Não tinha intenção de ofendê-la. Convivo com os brancos o tempo todo e nada neles é interessante. Sabe como é. Guerras, invasão, inveja, assassinatos, rejeição. O de sempre. - Fiz uma pausa enquanto percebia que ela se voltava para mim, parecia curiosa. - Conheço sua história há uma década, porém nunca tive o privilégio de ouvi-la da boca de uma pessoa de seu povo. Sou fascinado por ela.
Tam bém sou fascinada por você, a vozinha suspirou em minha mente.
– Esse é exatamente o problema, você sabe - começou Mainá. O tom de sua voz mudou, como se agora ela assumisse outro papel, o de palestrante. - Nós somos o povo primitivo, os nativos dessa terra. Possuímos o verdadeiro direito sobre ela. Vocês vieram do outro lado do oceano; e só porque usam roupas e acreditam em um só Deus acham que são merecedores dessas terras e de suas riquezas. - Não interrompi quando a índia fez uma breve pausa. - Fomos marginalizados. Os que teimaram em permanecer entre vocês tiveram que trabalhar para sobreviver em terras que antes eram livres e férteis. Vocês trouxeram suas doenças. Vocês trouxeram a guerra. Vocês trouxeram os vícios e muitos morreram.