Filho da Terra - Os Quatro Elementos, Volume 2
Prólogo
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 13 partes.
Justificou essa reação com a sua própria carência m esm o sabendo que não era de todo verdade. Pensou em Gustavo, Sofia e Carolina. Sua pequena fam ília. Até agora não havia incluído - em suas recordações - Alexandre. Sentiu-se inj usta com isso. Afinal, era irm ão de seu m arido, tam bém fazia parte da fam ília.
– Então, quando chegou? - resolveu quebrar o silêncio tentando afastar o encanto do cunhado sobre ela.
– Hoj e à tarde - respondeu suavem ente. - Eu m e instalei em um a pousada aqui perto.
Tam ires tentou não pensar que Alexandre havia procurado por ela quase que im ediatam ente ao desem barque, talvez nem tivesse descansado da longa viagem de Foz do Iguaçu.
Rem exeu na areia distraidam ente procurando algum a coisa que pudessem falar. Alexandre não estava aj udando m uito com seu silêncio. Afinal, ele a havia procurado, podia m uito bem com eçar a conversa.
Mas o cunhado deveria estar curtindo a atração entre eles. Fora por ela que viera. Não se im portava em estar envolvido com Tam ires. Sabia que Gustavo a havia perdido e que talvez ele tivesse algum a chance.
Ela esm agou os grãos entre os dedos. Precisava desesperadam ente de um a distração. Evitaria contato visual e físico até se sentir dona de si m esm a novam ente.
– E quando com eça a trabalhar? - perguntou sem curiosidade no tom de voz.
Ainda assim , Alexandre parecia alheio o suficiente para não perceber.
– Você sabe - continuava sussurrando com o se tivesse m edo de que alguém os ouvisse. -Sou m eio que autônom o. Faço m eu próprio horário.
Não sabia, m as fingiu que sim concordando com a cabeça. Em Foz não conviviam tanto durante a sem ana para que pudesse criar um padrão em seus horários. Lem brou que realm ente não parecia m uito preocupado seu trabalho e ficava ao lado dela m uitas horas, inclusive durante a m adrugada. Sua m ente foi direto para aquele dia arrepiante em que achou que estava m orrendo m arcada a fogo.
Afastou os pensam entos desse cam inho. Sentia um calafrio toda vez que pensava naquele sofrim ento. Inevitável e necessário. Na hora não entendera o que estava acontecendo com ela, apesar de que Gustavo parecia entender m uito bem . Era tão irritante.
– Quanto tem po vai ficar? - ciciou desviando seus pensam entos para o presente.
– Ainda não sei.
A voz de Alexandre m orreu ao final da frase. Ela tinha tantas perguntas. Nunca foram íntim os. Pensando bem , não sabia absolutam ente nada sobre o cunhado. E, no entanto, ainda não se sentia à vontade para perguntar. Apesar da força que os atraía, não possuíam nenhum tipo de relacionam ento estreito. Eram com pletos estranhos.
Então, por que aquela atração teim ava tanto em ligá-los? Aspirando profundam ente, Tam ires foi tom ada pelo delicioso arom a de seu perfum e. Não um perfum e engarrafado. Seu arom a natural. Seu cheiro característico. Apesar da sem elhança física com Gustavo, Alexandre possuía beleza, j uventude, força, perfum e, pele, corpo únicos. Em essência, eram com pletam ente diferentes.
Mais parecia um a m iragem . Um sonho im possível. Um astro inacessível. Porém , estava tão perto que podia sentir a eletricidade trocada entre seus corpos. O calor, o arom a, o desej o. O sentim ento em anava de seus poros e se infiltrava em seu corpo form ando um a corrente intensa.
Sem perceber, se inclinava na direção dele, atraída instintivam ente pela sensação gritante e desesperadora. Queria tocá-lo, queria senti-lo, queria acariciá-lo, queria beij á-lo. Nunca essa força fora tão poderosa quanto agora. Antes era passiva, agora se tornara ativa.
Virou a cabeça para olhar o rosto bronzeado ao seu lado e não se surpreendeu quando o viu tam bém se inclinando em sua direção. Os olhos profundos e negros tão ardentes com o o fogo queim ando em suas entranhas. A boca sedutora convidando a sua a se aproxim ar, clam ante. Seus cabelos escuros agitando-se ao sabor do vento deixaram -no ainda m ais belo e selvagem . Ela sabia que não poderia ter se virado para ele, m as agora era tarde dem ais para recuar.
Seu coração disparou bom beando sangue para seus m úsculos. Seu corpo todo queria se m over ainda m ais em direção a ele. Queria que o abraçasse, o beij asse, o am asse. Ele estava tão perto. Há apenas alguns centím etros de distância. Podia sentir seu hálito fresco em seu rosto. O sangue inundou todos os vasos sanguíneos sob sua pele. Sua face queim ava.
Alexandre deixou-se levar pela pele da cunhada. Toda a beleza de sua cor branca tingida de rubro com o seu cabelo flutuando no ar na direção do vento. Seus olhos verdes claros incendiando sua própria alm a de um desej o que nunca sentira antes. Sua boca verm elha e bem delineada convidando-o para um beij o.
– Tam ires... - sussurrou enquanto se inclinava lentam ente sobre a ela.
Inspirou o perfum e que exalava dela. Tão convidativo. Adocicado. Envolvente. Lem brou-se daquele beij o rápido no aeroporto e sua im aginação am plificou o sabor de sua boca, saboreando a sensação que deveria ser o novo beij o. O verdadeiro beij o que estava disposto a experim entar agora.
Aquele fora m ais com o um aviso. Não havia um clim a com o esse naquele m om ento. Estava afoito, desesperado em chegar a tem po de vê-la partir. Encontrar com ela agora fora algo que ansiara nas últim as sem anas. E a atração que exercia sobre ele estava, com certeza, am plificada devido a ausência prolongada.
O calor que em anava de seu corpo o envolveu com o um a brisa suave. Tam ires era quente, sensual, extrem am ente desej ável. Com o havia dem orado tanto para perceber isso? Com o conseguira ficar tanto tem po longe dela? Soube, naquele exato instante, que nunca m ais suportaria ficar distante outra vez. Envolveu-a com seus braços fortes e firm es. Nunca m ais a deixaria escapar deles.
Tam ires se sentiu tonta, frágil, entregue. Aqueles braços eram seu conforto, seu apoio, sua segurança. Seus olhos estavam presos naquela boca que estava ainda m ais perto, tornando m uito difícil acom panhá-la com os olhos.
Seus lábios se entreabriram . Não tinha nada para dizer, queria apenas encaixar aquela boca na sua. Procurou os olhos escuros que estavam tão presos nela que a atraíram . Seus olhos são tão parecidos, meu deus! Então, piscou. Mas não são dele. A im agem de Gustavo toldou-os por um segundo. Tem po suficiente para fazê-la despertar de seu transe.
– Alexandre - sussurrou rapidam ente - não, Por favor.
Não tinha forças para vencer o encantam ento sozinha. A seu pedido, ele estacou. Não se afastou, tanto quanto ela. Os lábios a pouquíssim os m ilím etros. Enquanto ela balbuciara, Alexandre quase pudera senti-los se m over.
– Por quê? - suspirou inconform ado. Tão perto e tão longe.
Inspirou o arom a de seu hálito fresco. Esquecendo-se com o falar, respirando com dificuldade, Tam ires tentava entender suas palavras. Por que não, Tamires? Ela m esm a se perguntou. E a resposta lhe veio à m ente na im agem adorada de seu m arido.
– Gustavo - respondeu com dificuldade. Não era o que seus lábios queriam .
Alexandre percebeu que não havia firm eza nas palavras da cunhada. Lutou consigo m esm o. Poderia continuar. Poderia transpor aqueles m ínim os m ilím etros a fim de satisfazer seu desej o, seu anseio por ela, por seus lábios saborosos, por seu corpo quente e sensual. Sabia que tam bém o desej ava da m esm a form a.
Porém , o que m ais poderia fazer? Por m ais que tivesse certeza de que tam bém o queria, sabia que Tam ires ainda am ava Gustavo. Não desej ava provocar seu arrependim ento. Queria ficar sem pre por perto e sabia que se fizesse algo agora que ela não aprovasse depois, poderia afastá-la para sem pre. Seu lado egoísta a queria inteira, não fragm entada.
Relutante, a soltou. Tardou para afastar seus lábios tão próxim os a fim de quebrar o encantam ento. E não o fez antes de deixar escapar um suspiro insatisfeito. Por apenas um segundo, desej ou tê-la notado antes para que pudesse ter vivido esse am or. Talvez -provavelm ente era a palavra correta - fosse tarde dem ais para ele.
Ela se afastou de form a estranha. Respirava rapidam ente, sem fôlego. O coração disparado. Reagiu a quebra do encanto com o se tivesse sido beij ada. Alexandre se sentiu ainda m ais infeliz por não ter tido coragem de aproveitar aquela chance. Talvez fosse sua única oportunidade.
O silêncio voltou a envolvê-los. Esperou que Tam ires se acalm asse para que pudesse entendê-la ou saber o que fazer. Não tinha experiência com rom ance. Estava m eio perdido. Sabia apenas do deslum bram ento que causava no sexo oposto, m as nunca se im portara. Som ente quando olhou Tam ires de form a diferente e percebeu que tam bém foi capaz de m exer com ela que passou a desej ar.
– Gustavo... - balbuciou Tam ires ainda sem ar - tem visto ele?
Ele se rem exeu im paciente ao som do nom e de seu irm ão m ais velho. Não podia esperar outra coisa dela.
– Sim . - foi sua única e seca resposta.
Teve m edo de olhar para o cunhado. Suas em oções não estavam totalm ente sob controle.
– Então, com o ele está? - especulou paciente.
Alexandre não dem onstrou sua insatisfação dessa vez. Resolveu responder com toda a verdade, sem poupá-la.
– Mal. Não vai m ais à em presa. A secretária vai até a cobertura quando precisa da assinatura dele. - Viu-a abaixar a cabeça com tristeza, porém continuou falando. Ela não queria saber? - Ele só sai para ir às cataratas onde fica parado por horas pensando. Passa a m aior parte do tem po com Sofia. Faz tudo o que ela quer. - Fez um a pausa antes de prosseguir. - Às vezes parece que ele está apenas escondendo sua dor. Outras parece que está aproveitando seu tem po com ela. - As lágrim as da cunhada pingaram na areia. - Com o se estivesse se despedindo.
Cada palavra da últim a conversa que teve com Gustavo voltou à sua m em ória, deixando-a ainda m ais abalada. Sua escolha não havia despedaçado apenas seu coração. Gustavo estava sofrendo tam bém . Ainda assim , tentava am enizar a dor da pequena Sofia de apenas dois anos de idade. A ausência de sua filha em sua nova vida era a dor m ais difícil de suportar.
Gustavo sabia que Tam ires não podia viver sem a filha tanto tem po, por isso estava se despedindo, teria que afastar-se dela. Com o desej ava que ele ficasse com elas. Porém , ele se recusava a partir para casa.
As escolhas de am bos os levaram para cam inhos com pletam ente opostos. Tam ires estava disposta a seguir seu destino. Gustavo estava fugindo dele e m esm o que o próprio destino os tenha unido, agora os havia cruelm ente separado.
Alexandre se abalou por vê-la sofrer. Seus braços form igavam com o desej o de confortá-la, m as se conteve, não suportaria ser rej eitado duas vezes em um a m esm a noite. Rem exeu na areia para m anter as m ãos ocupadas.
– E Sofia? - conseguiu perguntar.
– Gustavo consegue distraí-la a m aior parte do tem po, m as ela te cham a sem pre antes de dorm ir. Chora m uito e acaba adorm ecendo pelo cansaço.
– Penso nela o tem po todo - soluçou.
Tam ires abraçou as próprias pernas tentando conter a dor pulsante em seu peito.
– Estava indo todos os dias vê-los - confessou o cunhado.
Com os olhos ainda m arej ados, olhou para Alexandre com um sorriso m uito discreto nos lábios verm elhos.
– Obrigada.
Naquele m om ento, Tam ires soube que algum tipo de vínculo - m aior que a sedução que os envolvia - havia sido criado entre eles.
– Preciso ir em bora agora.
Alexandre abriu a boca de espanto, m as acabou concordando.
– Claro.
Os dois cam inharam lado a lado pela areia branca da praia. Não prestavam atenção ao cam inho, apenas nos passos abafados pelos grãos. Ficava m uito perto da praia, a apenas duzentos m etros da areia. Pararam em frente a um a casa castigada pela m aresia e ficaram em silêncio por alguns m inutos. A vista era fantástica. Alexandre quebrou-o prim eiro.
– Posso te procurar am anhã?
Tam ires o observou por alguns instantes antes de responder.
– Tudo bem .
Despediram -se com um breve aceno. Tam ires entrou e encontrou Marcel na sala.
– O que foi? - perguntou o cunhado ao ver seus olhos verm elhos.
– Você não sabe quem está aqui.
E então contou sobre o encontro e a conversa que tiveram - pulando a parte da atração. Ele, por sua vez, foi indiferente a todo o relato. Talvez não pudesse entendê-la. Foi para seu quarto e resolveu falar com a única pessoa que a com preenderia.
Enquanto escrevia a carta para Carolina Silva, sua m elhor am iga, Tam ires se pegou às voltas com inúm eras perguntas que Alexandre nunca havia respondido anteriorm ente. Estava decidida a conseguir as respostas, j á que, pelo visto, teria que conviver com ele pelos próxim os dias. Tam bém precisaria confiar nele e, para isso, teria que conhecê-lo m elhor.
AMIZADE
Depois do café da m anhã, um a batida na porta anunciou a visita. Vestida com roupa de praia, chinelo, óculos escuros e um chapéu exuberante sobre a cabeleira ruiva, Tam ires atendeu o cham ado. Não pode evitar um sorriso quando viu o rosto dourado de Alexandre sob a luz do sol, os cabelos escuros e brilhantes, o corpo coberto por berm uda e cam iseta cavada que expunham seus m úsculos.
O sol j á estava alto e quente, porém a brisa que vinha do m ar um edecia e refrescava. No horizonte inúm eros barcos pesqueiros se fundiam à paisagem . Andaram em silêncio pela praia por um tem po. Tam ires pensava em com o com eçar sua chuva de perguntas.
O óculos era um a barreira entre eles. Bem , essa era sua intenção. Ainda não sabia se funcionaria e tinha m edo de arriscar. O chapéu tam bém aj udava, além de proteger sua pele clara do sol forte. Enquanto cam inhavam pensou que Alexandre nunca fora m uito falante. Porém estava excessivam ente quieto, com o se quisesse aproveitar o tem po com ela apenas sentindo e observando.
Ele, na verdade, estava lutando internam ente. O desej o latente por ela era doloroso. Tocá-la? Beij á-la? Pegar sua m ão? Falar algum a coisa pra distraí-lo dessa sensação? Desej ava m uito m ais ouvir sua voz perfeita. Queria ficar ao seu lado para sem pre e andar calm am ente. Acariciou essa ilusão com o um anim al de estim ação querido.
Ela ainda estava insegura quanto ao cunhado. Quem era ele? O que ele queria da vida? O que sabia sobre as forças m ísticas que a envolviam ? Precisava decifrar esse enigm a senão ficaria louca e j á que tinha que falar, resolveu com eçar logo e da form a m enos sutil.
– Alexandre, desde quando você m e salvou no parque, em Foz, eu tenho várias perguntas rodando na m inha cabeça. - Estrem ecendo, pigarreou enquanto ela continuava. - Por favor, não se sinta invadido nem obrigado a responder. Só quero conhecê-lo m elhor.
O rapaz refletiu por um segundo sobre sua introdução. Ela tivesse m esm o direito de saber a verdade. Então, antes que fizesse qualquer pergunta, resolveu falar logo.
– Tudo bem , então eu vou com eçar m e confessando. - Ela m anteve a boca escancarada, travada no m eio da prim eira pergunta que faria - Não estou aqui por coincidência.
O coração da cunhada disparou e ela fechou a boca. O sangue subindo para seu rosto, m as era a raiva que o tingia dessa vez. Alexandre percebeu a m udança e quase desistiu de falar, porém , com a verdade poderia conseguir o perdão de que precisava. Havia aprendido isso naqueles dias ao seu lado.
– Consegui o endereço com a Carol.
Tam ires arreganhou a boca de novo, dessa vez de indignação.
– Você o quê? - quase gritou. - O que você fez, Alexandre?
A revolta com um a pitada de noj o na voz de Tam ires o balançou. Tinha pressa em contar tudo para ela, sem relutar.
– Não se preocupe, não a m agoei. Apenas dei um j eito de copiar o endereço das cartas que você m andou. Ela nem sabe que estou aqui.
Dessa vez, Tam ires engoliu em seco e deu graças a Deus por ainda não ter enviado a carta para sua m elhor am iga. Escolhera esse m étodo por achar m ais seguro, porém j á houve um a falha. Carolina tinha um a queda por Alexandre há m uito tem po e pensou que ele havia feito uso disso para tirar-lhe a inform ação. Ainda assim , parou a cam inhada e encarou o cunhado antes de fazer a pergunta fatal.
– Por que, Alexandre? Por que fez isso? O que você quer de m im ?
– Tam ires - estendeu as m ãos para tocá-la nos om bros -, sei que você não tem m otivo nenhum para confiar em m im . Sei que sou esquivo e fechado. - A intensidade com que a encarou não deixou que se m ovesse para escapar. - Sinto m uito por isso, inclusive por Gustavo. Antes de... - pausa constrangida -, antes de eu te conhecer m elhor, ele era a única pessoa que im portava de verdade para m im . Estou procurando um a nova identidade, Tam ires. Eu m e calei para não falar do m eu passado. Procurei ser um a nova pessoa, m as ainda não a encontrei.
Os braços fortes e rij os de Alexandre caíram de seus om bros frouxam ente. Tam ires sentiu todo o desânim o que invadiu seu corpo depois das últim as palavras. Teve vontade de consolá-lo, porém perm aneceu paralisada. Seus olhos profundos lhe diziam a força desse sentim ento.
– Mas agora quero te contar toda a verdade - continuou em um a voz m uito baixa; deu um passo incitando a cam inhada; ela o seguiu de perto. - Gustavo e eu sem pre fom os m uito próxim os. Ele era m eu irm ão m ais velho, m eu herói. Quando foi em bora de casa, fiquei perdido e sozinho. Senti m uito a falta dele. Assim com o ele, eu reneguei tudo o que nós éram os ou seríam os, j á que não passávam os de crianças. Tam bém queria fugir. Tam bém queria um a vida norm al.
Tam ires refletiu sobre as palavras de Alexandre. Pensou que Gustavo e ela estavam fazendo o cam inho inverso. Ela não queria m ais sua vida norm al. Queria fazer parte desse evento m aior e im portante que estava por vir. Queria fazer toda a diferença. Mas tam bém sabia que não queria perder o que havia conquistado até agora. Escolha difícil. Ela podia entendê-lo.
– Lam entei a m inha perda por m uito tem po até cair a m inha ficha de que poderia segui-lo. Mas com o encontrá-lo? Você j á sabe o suficiente para entender que não foi tarefa fácil. Vaguei anos até chegar a Foz do Iguaçu. Meu trabalho foi um a distração nesse período e tam bém um auxílio, j á que ele exige m uitas viagens, m as foi som ente quando o encontrei que finalm ente fiquei m uito m ais tem po em um só lugar. Não precisava m ais procurá-lo. Já havia encontrado m eu porto. Mesm o que soubesse que não poderia ficar para sem pre.
Fez um a pausa m aior. Tam ires ainda tinha m uitas perguntas, m as parte delas sabia que não deveria externar. Ficou tentando decidir qual fazer quando ele voltou a falar.
– Sei que você estranhou que nunca m e interessei por m ulher nenhum a, nem m esm o dei um a chance à Carolina. Mas eu não estava aberto, Tam ires. Eu nunca m e apaixonei antes. Nunca pensei em outra coisa a não ser o am or por m eu irm ão e esta perda m e fez sofrer m uito. Não gostei do sofrim ento. Não queria experim entar outro. Porém o destino quis que m e apaixonasse aos trinta e cinco anos pela m ulher de m eu irm ão.
Tam ires sentiu seu rosto queim ar. Não teve coragem de procurar os olhos do cunhado. Manteve o olhar nos grãos de areia da praia.
– Quer saber, não im porta - deu de om bros. - Estou feliz por ter acontecido. Este tipo de sentim ento é com pletam ente diferente. Não podia m orrer sem experim entá-lo. Estou m ais feliz por ter sido por você. Por m ais que isso possa ter atrapalhado um pouco m inha relação estreita com m eu irm ão, você é um a m ulher incrível. Digna de ser am ada de diversas form as. - E com a voz ainda m ais suave, concluiu. - Estou disposto a te seguir para onde quer que você vá sem nunca te pedir nada em troca.
Ela estacou novam ente. O que ele queria dizer com isso?
– Sim , Tam ires. - Olhou-a bem nos olhos para responder a interrogação em seu rosto -Estou aqui para te aj udar. Odeio aquele lugar, m as se você quer ir, estarei ao seu lado.
Ela ficou em ocionada e com ovida. Por que Gustavo não havia feito o m esm o? Alexandre sorriu tim idam ente. Não estava acostum ado a receber um olhar tão aprovador e cheio de em oção. Sentiu aquele novo e forte desej o de tom á-la nos braços. Quando fez m enção de erguê-los em direção a seu corpo, a viu se encolher. Parou no m esm o instante.
– Desculpe, não quero forçar m eu am or. Prom eto que não farei nada que você não queira. - Seus olhos se encheram de ternura ao perguntar. - Podem os ser am igos?
Tam ires olhava aquele hom em sedutor j á consciente de sua resposta. Porém , o que não fazia ideia em consequência dela. Poderiam realm ente ser am igos? Ela sabia que se essa atração fosse de m ão única sua resposta seria ‘sim ’. Mas, sabendo que ele tam bém a atraía, tem ia que term inasse em seus braços.
– Sim , podem os ser am igos - respondeu ela, m as tinha um a condição. - Não quero forçá-lo a se abrir com igo, m as você entende que, j á que ficará ao m eu lado nessa batalha, tenho que saber quais são suas arm as.
Alexandre sorriu com preensivo.
– Claro, entendo. Posso iludir de form a m uito sutil e breve. Não tenho m uita prática, portanto, só posso fazer isso com um a pessoa por vez, estando m uito próxim a ou a tocando.
Tam ires involuntariam ente se encolheu. Será que ele havia usado esse dom com ela antes? Seria um a boa explicação para a atração ilógica que sentia por ele.
– Não. - Será que podia ler seus pensam entos tam bém ?, pensou aturdida. - Não fique receosa, por favor. Nunca usei este talento com você nem com ninguém . Não o uso desde que fugi de casa.
Ufa! Um alívio relaxou seu coração. Tinha ainda tantas perguntas estratégicas. Sabia que Marcel ficaria satisfeito com as inform ações que conseguisse arrancar dele.
– Alexandre, preciso que m e conte tudo o que sabe. Pode ser m uito útil para nós.
***
Tam ires decidiu que apresentaria oficialm ente Alexandre a Marcel e Suzane na hora do alm oço. Estava eufórica com a conversa que tiveram pela m anhã e feliz por ter m ais um aliado na guerra que aconteceria durante o alinham ento dos planetas.
Ao m esm o tem po, cada atitude de Alexandre fê-la pensar em Gustavo. Por que ele fora fraco e não quisera ficar ao seu lado? Será que não a am ava tanto assim ? Mas ela havia visto em seus olhos. Sabia que m orreria por ela. Sua aversão pelo m undo de onde vieram seria m ais forte que esse am or?
Sabia que nunca obteria essas respostas. Tinha que se contentar com o que possuía. Não quis tanto sua fam ília - de sangue - de volta? Agora que estava perto de reuni-los, não podia largar tudo pelo seu verdadeiro am or. Alexandre seria a representação de sua fam ília escolhida. E som ente isso.
Não tinha certeza se devia enviar a carta para Carolina contando tudo o que tinha acontecido nas últim as horas, nem no dia anterior. Sua m elhor am iga entenderia? Seu m arido com preenderia? Será que eles não perderiam a razão? Afinal, estavam em ocionalm ente envolvidos. Tam ires j á havia visto o ciúm e de Gustavo e não estava disposta a provocar aquela fúria novam ente e tam bém não queria m agoar sua am iga revelando sua am izade com Alexandre.
Bem , não escreveria agora. Esperaria m ais um tem po. Pensaria m elhor no que essa relação representaria para a convivência com os outros. Ela ainda não havia contado para Alexandre detalhes sobre seus fam iliares, nem sobre a descoberta de Lucca, m as sabia que m ais cedo ou m ais tarde teria que fazê-lo. Afinal, partiriam em pouco tem po para Corum bá.
Entrando na casa, Tam ires cham ou Marcel. Não o viu na sala, com o de costum e. Pacientem ente, esperou que viesse encontrá-la. Estava um pouco abatido quando cruzou a entrada.
– O que foi, Marcel? - perguntou aflita. - Suzane?
Balançou a cabeça positivam ente enquanto encarava Alexandre ao lado da cunhada.
– Ah! - exclam ou Tam ires por um m om ento esquecida de seu acom panhante. - Marcel, este é Alexandre, irm ão caçula de m eu m arido Gustavo.
Os dois se cum prim entaram enquanto ela continuava as apresentações.
– Marcel é biólogo e nam orado de m inha irm ã caçula, Suzane. Ela é veterinária - riu. -Acho que só eu não tenho form ação. - Voltando para a expressão som bria de Marcel, Tam ires perguntou de novo. - Suzane está m al outra vez?
– Sim - respondeu espreitando o rosto im passível de Alexandre. - Ela esteve ‘vigiando’ de novo. Agora está dorm indo.
Tam ires entendeu o receio do loiro. Não queria forçá-lo a aceitar o m oreno. Precisaria conversar com ele a sós depois, para explicar m elhor. Apenas contou por alto que ele estava disposto a auxiliá-los.
A conversa m orreu enquanto Marcel cam inhou curvado até o sofá. Tam ires reconhecia aquela preocupação. Queria especular m ais, porém respeitou o silêncio do j ovem .
Alexandre percebeu que estava sobrando. Sabia que teria que conquistar a confiança de todos ali. Mas não im poria sua presença. Teria que ser paciente, afinal, não queria forçar nada. Queria aj udar, não parecer um espião.
– Tam ires, é m elhor eu ir para m inha pousada. Mais tarde venho te procurar de novo.
Balançando a cabeça, ela o acom panhou até a porta. Ele se inclinou sobre ela e aquela onda de tensão e desej o quase a sufocou outra vez. Isso vai ser muito difícil, pensou, m as o beij o que ele lhe deu na testa foi o m ais inocente possível. Ainda trêm ula, acom panhou-o com os olhos enquanto se afastava da casa.
Voltando, sentou-se ao lado de Marcel.
– Foi tão ruim assim ? - perguntou aos sussurros.
– Ela - sua voz estava rouca - não conseguia falar. Ficou sem ar. Acho que estava sem forças até para respirar.
Isso era ridículo. Suzane estava se sacrificando além do que podia, além de seu lim ite, além de suas forças hum anas frágeis. Ela tinha que parar. Alguém tinha que convencê-la. Desse j eito, m orreria antes que o grande dia chegasse. A raiva toldou seu rosto de novo. Com o podia ser tão teim osa.
– Vou fazer com ida. Algo bem forte para ela.
Era a única coisa que podia fazer, constatou.
– Precisam os de algo que a fortaleça espiritualm ente - retrucou Marcel. - Vou falar com m inha m ãe, talvez conheça algum a receita.
– Tudo bem , cuido do corpo e você da alm a.
Mas antes que Marcel saísse, Tam ires se recordou.
– O que ela viu? - perguntou.
– Mais um a etapa de Lucca - tentou sorrir. - Até agora foi psíquico. Chegou a parte física.
Um arrepio passou pelo corpo de Tam ires. Ela se lem brava daquilo tam bém . Na época fora assustador por ser m uito novo e m uito estranho. Porém hoj e era até divertido. Com certeza seria algo que Lucca apreciaria. Não se incom odou com seu possível nervosism o. Afinal, pelo que tinha percebido dele até agora, os dons da m ente o incom odavam m uito m ais. Hom ens são fortes fisicam ente, estão acostum ados a isso. Tam bém tentou sorrir ao pensam ento, m as foi um sorriso triste.
PROTEÇÃO
Os dias passaram despercebidos para Lucca. Era com o se sua antiga rotina tivesse voltado. Vitória dera um a trégua nos preparativos do casam ento. Carlos e sua equipe continuavam escavando o obj eto m isterioso. Som ente um a novidade havia sido inserida em seu dia a dia. Mainá. A índia Kadiwéu que encontrava todas as noites, após o expediente, próxim o a gruta do parque.
Carlos não se queixava da carona perdida. Achava que o am igo passava as noites na fazenda, com Vitória. Lucca não contara para ninguém - nem para seu m elhor am igo, nem para sua m ãe, nem para a historiadora do grupo - que tinha am izade com um a índia culta, porém crente em lendas indígenas.
Apesar de sua espiritualidade, Lucca não fora capaz de conversar com a ela sobre suas novas habilidades. Porém , se pegava respondendo aos seus pensam entos inúm eras vezes. Coisa que Mainá não estranhara. Era com o se ela sim plesm ente soubesse e com preendesse o que estava acontecendo com ele.
Porém , a única explicação que a índia lhe dera não era aceitável por sua m ente racional e prática. Às vezes achava ilógico não acreditar, afinal, tudo que estava lhe acontecendo j á era bastante irreal. Por que não um a resposta no m esm o nível? Porém , na sua m ente, não fazia sentido, m as era um fato. Diferente da fantasia descrita por Mainá.
Já fazia um a sem ana que arm ara toda aquela confusão em sua vida e faltava o m esm o tem po para seu casam ento. Era sábado, havia trabalho pela m anhã e estava ansioso pela noite para encontrar a índia. Mesm o com a tarde livre, não correria o risco de tentar encontrá-la em plena luz do dia.
Matar o tem po em casa era um a tortura. Depois de se esquivar por dias, Edm undo resolvera m udar de tática. Estava perseguindo o irm ão adotivo por todos os lados, m onitorava seus passos. Lucca tem ia que estivesse desconfiado de seus segredos. Depois afastou essa ideia. Com o ele poderia ter percebido?
Tom ava todo o cuidado para não responder aos pensam entos de ninguém . Sequer os sussurros. Vivia tenso quando estava perto de todo m undo. Tinha que haver outro m otivo para Edm undo persegui-lo tanto, m as não conseguia enxergá-lo. Não fazia ideia do que havia na cabeça estranha do irm ão.
Agora m esm o fora se refugiar no quarto j á que Edm undo estava na sala, im plicando com ele. Dissera: ‘Não vai para rua de novo, Lucca? Nem para m ais em casa!’. Mesm o lendo seus pensam entos, não obtinha m ais do que rancor e raiva. Vai lá, aberração, lamber o chão de Vitória!
Ao m esm o tem po em que tinha certeza de que ele não queria sua com panhia, tinha lá suas dúvidas. Não estava no quarto há cinco m inutos e adivinha quem abria a porta.
– Edm undo, gostaria de ficar sozinho, se não for pedir m uito - disse debruçando-se sobre a cam a.
O quarto estava quente e ficaria ainda pior com outro corpo por perto.
– É pedir m uito sim - deixou a porta aberta na qual correu um a brisa rala. - Este quarto tam bém é m eu.
Com um suspiro, Lucca pensou que o casam ento com Vitória seria providencial. Não era nervoso nem violento, m as estava difícil conviver com o irm ão.
– O que você quer? - questionou com frieza.
– Nada - respondeu indiferente Edm undo.
Lucca sentou-se na cam a disposto a ter um a conversa séria e esclarecedora.
– Vam os lá! Sei que você está atorm entado com algum a coisa. Todo m undo está percebendo sua m udança. E sinto que a culpa é m inha. O que foi que te fiz?
Edm undo não encarou o irm ão. Seu rosto se retorcia com um a raiva violenta.
– Você se acha m uito im portante, não é? - vociferou. - Acha que o m undo gira ao seu redor? - Dessa vez, olhou com todo seu ódio nas profundezas verdes dos olhos do irm ão adotivo. -Mas você não é!
Lucca continuou encarando-o o tem po que ele perm itiu para que pudesse ler seus pensam entos e lá estavam eles. Idiota! Miserável! Quem você pensa que é? Som ente sentim entos revoltosos, com o sem pre, nada de realm ente significativo. Desviou o olhar de novo. Nunca viu um a m ente tão nebulosa quanto a de Edm undo. Estava envolta em um a brum a de ódio, ressentim ento e m ágoa. Era im possível lê-la claram ente.
Ficava deprim ido quando Edm undo estava por perto. Sua energia negativa lhe deixava para baixo. Um a força ruim o puxando para um buraco fundo e escuro. Um arrepio frio percorreu toda a extensão de sua espinha.
– Edm undo - tentou conversar insistente. De onde vinha todo aquele ódio? - A gente é irm ão. Por favor, vam os tentar conversar civilizadam ente.
O irm ão desatou a rir, constrangendo-o. Abism ado, viu lágrim as escorrendo de seus olhos apertados enquanto gargalhava alto.
– Sinceram ente, Lucca, não sabia que você podia ser tão engraçado!
Porém , no instante seguinte, todo o hum or foi substituído por um aspecto som brio e até perverso.
– Você j á se olhou no espelho? - um a pergunta retórica carregada de sarcasm o. - Nós dois nunca poderíam os ser irm ãos e j am ais serem os.
Lucca engoliu em seco, assom brado por seus próprios fantasm as nas palavras duras de Edm undo. Sarcasm o por sarcasm o, poderia retrucar na m esm a m oeda.
– Vitória é tão branca quanto eu.
Os olhos de Edm undo se estreitaram furiosam ente.
– Não se com pare a ela! - explodiu erguendo-se da cam a. - Você não tem nada dessa terra. Deve ter vindo de outro planeta depois de ser abduzido! Pouco m e im porta!
Lucca esperou que algo se quebrasse, m as o silêncio reinou a não ser pela respiração acelerada de Edm undo debruçado sobre a j anela aberta.
– É m esm o im possível ter um a conversa com você - declarou im paciente. - Já que você não m e deixa sozinho, vou procurar um lugar onde consiga algum a privacidade.
– Vai, aberração, m e deixa em paz!
Lucca estava indignado. Era o irm ão que o perseguia por toda a casa e agora ele pedia paz. O que estava acontecendo ali? O que estava perdendo? Nem para essa coisa de ler pensam entos funcionar na hora e do j eito certo quando precisava.
Sabia que só havia um lugar no qual poderia encontrar tranquilidade. Pegou seu carro e partiu rum o ao seu esconderij o.
***
O verde exuberante - de diversos tons sob o sol da tarde - contrastava com o azul claro do céu. Poucas nuvens manchavam de branco o firmamento. O Pantanal se estendia a minha frente como uma inundação de cores com reflexos dourados.
Meu espírito estava atormentado. O que Edmundo queria de mim? Sua presença forçada, seu sarcasmo, seu ódio me faziam mal. Precisava saber o que ele queria, mas eu não fazia ideia de como conseguir. Meu novo talento não estava ajudando muito. Talvez se vencesse meu horror à raiva e ao desprezo de meu irmão, pudesse ver além do óbvio.
Mas agora era tarde. Havia fugido dele. Estava indo para meu novo refúgio, meu lugar secreto onde eu era uma aberração aceita e admirada. Onde podia ser eu mesmo, sem medo e sem autocontrole. Onde podia ser irresponsável e me esquecer de meus pesados fardos. Fardos esses que me impunha impiedosamente.
Não sabia que era tão bom sentir essa leveza. Demorei trinta anos para descobrir que os problemas podiam ser colocados de lado por um tempo, para recarregar as baterias. Era humano, afinal. Agora com força e talentos sobre-humanos, mas ainda tão humano quanto outro qualquer.
Inspirei o ar úmido de Corumbá banhado pelo rio Paraguai. Meus pulmões se encheram satisfeitos com o aroma familiar e agridoce. A mata, as folhas, as flores, a vida selvagem se definindo por cheiros distintos. O bando de animais, os solitários, as aves e os répteis, tudo tinha seu valor específico aos meus sentidos. Reconheceria o Parque Marina Gatass há quilômetros de distância.
O lugar passara de um local de trabalho para um refúgio. Porém, na última semana o tinha como uma fortaleza. Sentia que quanto mais tempo passava ali - cerca de doze horas todo dia- mais forte ficava, mais protegido me sentia, mais invencível me tornava.
Era totalmente avesso a violência. Jamais usaria força física para nada. Porém meu corpo respondia a estímulos desconhecidos, que vinham daquela mata, de sua natureza selvagem, da convivência com a índia, do ônix e sua energia misteriosa e eficaz.
Aquela força sobrenatural crescia em meu organismo pulando de célula em célula, fortalecendo cada parte dele, fluindo naturalmente pelas ramificações de minhas veias. Era tão nítida e papável que podia senti-la correndo lentamente por meu corpo. Mesmo quando achava que já estava forte o suficiente, um novo dia passava e uma nova parte de mim se fortalecia. A cada minuto podia perceber a diferença. O tempo era meu aliado agora. O que será que o destino esperava de mim com toda essa força crescendo sem parar?
Não sabia e não podia me deixar levar pelas crenças de minha nova amiga indígena. Sorri com esse pensamento. Mainá nunca mais voltara a falar sobre as lendas de um deus nascido entre os brancos. Ao mesmo tempo em que me sentia aliviado, também ficava curioso para conhecer os pormenores, talvez para explicar o que acontecia comigo. Mas jamais teria coragem de questionar e crer.
Por mais que pensasse, não conseguia encontrar uma resposta plausível para os acontecimentos místicos que me cercavam. Se encontrasse pelo menos uma, me sentiria melhor, mas ao invés de explicações, só conseguia mais perguntas e respostas que questionavam minha sanidade.
Por que o parque era uma fonte de energia para mim? Por que ao lado da pedra sempre me sentia bem? Por que ela brilhava? Por que Mainá me seguiu? Por que se sentia no dever de me proteger? Por que eu existia?
E para piorar as coisas, perguntas que não me fazia há tanto tempo retornaram a minha mente. De onde vim? Por que fui abandonado no parque? O que teria acontecido com meus pais verdadeiros? Por que nunca voltaram para me procurar?
E a maior de todas: haveria um significado muito maior para a vida? Estaríamos aqui por um motivo, seríamos predestinados? Teríamos um papel importante a desempenhar que mudaria o desfecho da história? Afinal, não existia ninguém realmente insignificante?
Estava divagando, resolvi voltar para a realidade. Entrei no parque e parei o mais longe possível do meu destino. Pura precaução. Ninguém estaria me seguindo. Porém, o parque era público, haveria pessoas por ali e não queria chamar atenção.
Tinha razão. Ainda havia muitas famílias aproveitando a tarde. Por mais pressa que meus pés tivessem, tentei caminhar despreocupado como se observasse a natureza. Andei tranquilo, o olhar distante como se pensasse em qualquer coisa e não estivesse guiando meus passos deliberadamente.
Passei por crianças que brincavam fingindo não notá-las. Cães latiam e corriam atrás de objetos coloridos. Uma mãe chamou a atenção de seu filho que se afastava demais. Um casal fazia juras de amor sob uma árvore e sufoquei a lembrança de Vitória.
Não queria pensar em mais nada. Queria ser livre. Queria ter paz, mas a sensação que me acalentaria como braços reconfortantes não vinha. Devido ao grande movimento e minha ausência, Mainá deveria estar muito distante com sua pedra. Fiquei mais ansioso por encontrá-la.
Concentrei-me então nos sons a minha volta. Eram tantos. As crianças eram as mais barulhentas, mas não precisaria de uma audição aguçada para perceber isso. As conversas descontraídas e seu zunzunzum substituíram meus pensamentos. Minha mente vazia de mim mesmo e totalmente receptiva ao que havia ao meu redor.
Saboreei os ruídos, como outrora havia feito com os aromas. Eram música... não, estavam longe disso, mas não me eram comuns. E isso já era muito bom. Agradecido pelo turbilhão incessante, continuei a procura por meu refúgio com a paciência necessária.
Não me concentrei em nada específico. Deixei minha mente vazia e segui apenas meus instintos. Naquele momento, poderia ser comparado a um animal irracional, guiado por seus sentidos apurados, isento de pensamentos e sentimentos conflitantes. O sonho de qualquer ser humano adulto.
Logo, o burburinho diminuiu e outros sons tomaram seu lugar. Onde não havia pessoas, a mata podia conversar livremente, em sua linguagem viva e pulsante. Fui tomado por esse novo turbilhão de ruídos totalmente distintos. O rio, a brisa, as árvores, os animais. Estava em casa.
E isso também significava que estava próximo de meu destino. Ainda assim, não podia sentir a presença mística do ônix e de sua guardiã. Poderia aumentar meu ritmo, agora que as pessoas estavam longe, mas meu cérebro não estava pensando. Portanto, mantive o mesmo passo distraído.
Quase podia andar com os olhos fechados de tão instintivo que estava.
Porém, como um animal, jamais me privaria do sentido que me permitia antecipar qualquer movimento a uma longa distância e em um raio de cento e oitenta graus. Apesar da audição e o olfato poderem me prevenir de qualquer alteração ao meu redor, a visão era um trunfo irrecusável.
Mas foi minha audição que me alertou de um novo som antes que qualquer outro sentido -ou instinto - percebesse. Parei no mesmo instante, meus olhos varrendo o perímetro à procura da novidade. Meu instinto falou alto me dizendo que não havia nada místico se aproximando.
– Mainá? - perguntei mesmo sabendo que não era ela.
Talvez fosse somente um animal veloz e rasteiro. Nada passaria por meu olhar despercebido. Voltei a caminhar. A sensação de estar sendo vigiado cada vez mais latente.
– Mainá? - chamei novamente sem parar de andar.
Não houve resposta. Não podia ser ela, saberia identificá-la. Aquele som estranho desapareceu, porém a sensação não. O que fazer? Correr? Continuar andando? Abortar a ideia inicial?
Todos os músculos de meu corpo responderam à injeção de adrenalina provocada pela minha evidente tensão. Mantive meus sentidos alertas a qualquer alteração no cenário.
Quem me visse jamais perceberia a diferença que sentia agora pulsando em meu organismo. Meu caminhar e minha expressão continuavam os mesmos. Porém até minha pele respondia a sutil alteração do clima naquele fim de tarde.
Sabia que nem a escuridão poderia me tirar cegar. Portanto, não temi a chegada da noite e com todos os sentidos atentos logo percebi que estava a apenas alguns passos de meu esconderijo.
Em nenhum momento me virei para me certificar de que alguém não me seguia. Não era necessário. Virei à esquerda, passei sob o galho de árvore grande e baixo que conhecia tão bem. A porta verde e serena que escondia meu refúgio. E, diante dos meus olhos, o frondoso e pedregoso cinza tomou todo o cenário até então verde e marrom.
Para muitos seria uma cor tristonha e fria depois de se deparar com a exuberância quente e úmida da mata. Mas para mim era um santuário mágico e acolhedor, exatamente por ser desinteressante para os outros. Jamais seria incomodado pela vida real ali.
Invadi o cinza escurecido pela sombra rochosa no centro da gruta. A ausência da bem-vinda sensação de bem-estar me incomodava. Estaria Mainá longe dali? Teria voltado para sua tribo? Fiquei aflito. Congelei tentando entender meu sentimento. Se ela tivesse voltado para seu povo, nada mais justo. O que eu queria? Que ela renegasse sua vida, seus costumes, seus familiares para viver em uma caverna escondida somente para que pudesse vê-la?
Balancei a cabeça negativamente. Era dela que sentiria falta ou da pedra? A resposta me veio à mente com uma certeza esmagadora. As duas. Precisava da tranquilidade do ônix e da aceitação - irracional - da índia. Como enfrentaria essas mudanças estranhas e perturbadoras sem elas?
Até agora havia sido suas presenças que me mantiveram são, apesar das muitas vezes beirei a insanidade. Estava sendo egoísta e irracional, mas além de tudo, perdido e abandonado como nunca me senti antes, nem quando tinha apenas dois anos e estava completamente sozinho naquele parque. Sem rumo. Sem beira. Sem razão para continuar o meu caminho.
E qual seria esse caminho? O casamento com Vitória caiu como um relâmpago em minha memória, fazendo um grande estrago. Não queria aquela lembrança, nesse momento de completa desorientação. Entrei em desespero.
– Mainá! – gritei ansioso.
E os ecos assustadores de meu desalento amplificaram meus sentimentos sufocantes.
– Mainá! - bradei novamente antes que a repercussão se dissolvesse.
Assim que o som se propagou até desaparecer, debruçado sobre meu corpo e sentindo as pernas fraquejarem - que dor era aquela? - uma voz me trouxe de volta o sentido de alerta.
– Eu sabia!
E não precisava dos ecos para reconhecê-la. Meus sentidos se aguçaram de novo, preparados para reagir como se não tivesse sentindo nenhuma dor até agora - a dor era emocional, então soube. Foi sobrepujada por minha mente, mais ágil e mais preparada.
Meus músculos me obedeceram de pronto fazendo com que meu corpo se virasse na direção da voz. Rangi os dentes com raiva de mim mesmo por ter perdido o controle exatamente quando estava sendo seguido, me tornando incapaz de perceber.
Outro motivo me fez apertá-los ainda mais. Havia guiado uma pessoa até meu esconderijo, meu refúgio, minha fortaleza, meu santuário - e quantos nomes mais eu pudesse dar àquele lugar, para mim, sagrado agora. Estaria maculado para sempre.
– Edmundo, o que você está fazendo aqui?
O sarcasmo passara a ser a única expressão no rosto de meu irmão pantaneiro. Senti nojo dele.
– Eu que te pergunto, Lucca - respondeu com aquele tom odioso. - Aproveita e me diz quem é Mainá.
A nova onda de culpa me correu o corpo por um segundo longo e torturante demais. Havia, não só maculado meu santuário, mas também a casa - provisória - da índia. Se ela estivera ali - longe de outros olhos que não fossem os meus - era por que não queria ser vista. Havia estragado tudo. Meus músculos se contraíram reagindo a tensão, prontos para se moverem a meu comando.
– Por que me seguiu até aqui? - perguntei entre os dentes.
– Por quê? - respondeu Edmundo com tom de surpresa - Porque estava certo o tempo todo! - explodiu, sua voz ecoando horripilantemente através da rocha. - E queria uma prova concreta disso.
– Sobre o que você estava certo? - fui capaz de perguntar, represando a fúria.
– Sobre você não ser o santinho que todo mundo pensa que é. Vamos lá, me conte quem é essa Mainá!
Como magia, o nome da índia, que repercutiu pelo oco da caverna, trouxe até mim - de forma brusca e dolorosa - a sensação nítida de sua presença. Apavorado - e antes que pudesse impedi-la - vi que nos alcançava com sua pedra brilhante no pescoço.
– Não, Mainá! - gritei tarde demais para remediar a situação. - Volte!
Edmundo se virou na direção em que eu olhava ainda incapaz de vê-la. Porém, a indígena não atendeu meu pedido, entrando no precário campo de visão de meu irmão com apenas alguns passos rápidos.
Corri também, pronto para protegê-la, mas Edmundo conseguiu interceptar meu caminho colocando-se entre nós. Mainá tentou parar, porém caiu direto nos braços de meu irmão. Ele a segurou com força para que não caísse. Não me senti agradecido com o gesto. Ao contrário, queria livrar minha amiga dele.
– Ora, ora, quem diria, hein, Lucca - disse enquanto analisava o rosto da moça. - Uma bugra. Não sabia que tinha esse tipo de fetiche.
– Solte-a! - ordenei.
Mainá se debatia sem ter sucesso em se libertar.
– Lucca! - clamou a indígena.
– Há há há! - gargalhou meu irmão. - Então é aqui que vocês se encontram? Desde quando, hein, Lucca? Antes ou depois do seu noivado?
Não me importava com minha noiva agora. Queria livrar Mainá das garras de Edmundo. Ele que pensasse o que quisesse de mim. Exigia apenas que ficasse longe dela. A índia não tinha culpa de meus erros. Não seria bode expiatório do ódio desenfreado que meu irmão me dedicava com vontade.
No segundo que se seguiu antes que fizesse uma nova exigência, meus olhos presos em Mainá - aprisionada como um animal pronto para ser abatido - senti novamente toda aquela força que crescia em meu organismo, se concentrando em uma reação natural. Não estava me preparando para me defender, e sim para atacar.
Não contive a força - multiplicada dez vezes nesse momento pela adrenalina, pela tensão e pelo acúmulo sutil que não me deixou perceber realmente suas proporções. Meu corpo tinha vida própria. E não sabia o que aconteceria em seguida.
Tornou-se energia pura, fluindo invisível de meus milhares de poros, completamente palpável para mim. Essa energia vagou ao meu redor, como astros na órbita dos planetas. Senti-a crescer, tomar forma, como se fosse física, como se tivesse criado um novo ser daquela essência que me completava.