Filho da Terra - Os Quatro Elementos, Volume 2
Prólogo
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 13 partes.
– Eu m e perdi no parque.
Alice soltou um risinho espontâneo. Jader não a repreendeu dessa vez. E Lucca viu no canto de sua boca um arrem edo de sorriso se form ar.
– Essa eu quero ver - disse Alice se sentando na nam oradeira ao lado do m arido.
Lucca olhou intrigado para a irm ã caçula. O que estava acontecendo ali? Seus pais estavam apreensivos, ele podia entender. Mas por que os irm ãos estavam achando aquilo engraçado?
– Acho m elhor arranj ar um a desculpa m elhor do que essa - ponderou sinicam ente Edm undo. - Vitória j á ligou atrás de você pelo m enos um as quinze vezes hoj e.
Antes que pudesse reagir à inform ação, o telefone tocou.
– Aposto que é ela de novo - anunciou o irm ão do m eio enquanto andava até o aparelho.- Alô. - pausa - Sim , ele acabou de chegar. Vou passar para ele.
Edm undo estendeu o fone para que Lucca pegasse. Afastando a m ão da m ãe com o gelo e as analíticas do pai, se levantou sem nenhum a ideia do que dizer. O pior de tudo era a plateia disposta a ouvir sua péssim a atuação. E se sim plesm ente falasse a verdade? Não podia ser tão ruim assim .
– Oi, Vitória, desculpe por ontem ... - A voz histérica da nam orada estava m isturada com raiva e pranto quando o interrom peu. - Eu passei no parque e m e perdi porque estava m uito escuro. - Todos na sala podiam im aginar qual seria a próxim a pergunta dela. - Eu não sei, não podem os falar m ais tarde? Um a árvore caiu na m inha cabeça e estou precisando de um banho e de um curativo. - A voz de Vitória abrandou apenas o suficiente para lhe dar um ultim ato. - Sim , eu prom eto que te conto toda a verdade. - E o outro lado da linha ficou m udo.
Virou o olhar tristonho para a fam ília que o aguardava. Edm undo estava tão contente que saiu da sala rindo alto. Jader arrastou Alice para fora da casa. Edgar foi buscar sua m aleta para preparar o curativo do filho e Isabel ficou olhando para ele com os olhos cheios de interrogações.
– O que eu faço agora, m ãe? - perguntou voltando ao sofá e pondo a cabeça entre as m ãos.
– Faça o que pretendia fazer, m eu filho. Peça Vitória em casam ento.
Lucca se virou para encará-la, totalm ente infeliz.
– Eu perdi o anel no parque.
- Ah! - suspirou Isabel e pensou por alguns m inutos antes de responder. - Filho, pense em algo que a lisonj eie. Talvez algo que tenha a ver com o parque. Um passeio especial ou um presente sentim ental. - Sorriu antes de finalizar. - Não há m ulher que resista a isso.
Enquanto vislum brava os olhos m ansos de sua m ãe, form ulou o que poderia ser a salvação de seu nam oro. Não pensaria em casam ento por enquanto. Pelo m enos até encontrar o anel. Abriu um lindo sorriso verm elho e branco de esperança.
PIQ UENIQ UE
– Um piquenique?
Vitória estava surpresa, porém não como eu esperava. Havia uma ponta de decepção em seus olhos escuros que ela tentava, em vão, esconder. Estava fazendo tudo errado de novo? Eu a observei, segurando a respiração, enquanto se sentava sobre a toalha florida que eu havia estendido sob uma árvore. Seus olhos correndo ao nosso redor.
– No parque? - completou enquanto vasculhava os outros rostos presentes.
Segui seu olhar. Estávamos em um ponto mais isolado, mas ainda assim não havia muita privacidade. Famílias se espalhavam por toda a área, crianças brincavam, animais de estimação corriam de um lado para o outro. A cidade estava presente em peso naquela manhã. Porém, a fim de ficarmos sozinhos, foi o primeiro lugar em que pensei.
Olhei de novo para o rosto claro de Vitória que contrastava com seus olhos negros. O cabelo loiro - que não era natural, apesar de bem tratado e ter sido adotado há tanto tempo que ninguém mais se lembrava de sua cor original - estava solto até o meio das costas em camadas. Desconfiava que também fosse liso artificialmente, porém não saberia dizer com certeza.
Apesar do desprezo com que olhava para os outros moradores de Corumbá por causa da cor de sua pele, Vitória não conseguia esconder os traços largos do nariz e da boca, e os olhos levemente oblíquos herdados de sua mãe. Talvez ela não aprendeu a respeitá-los por nunca tê-la conhecido. Sua única referência era o pai, branco como os portugueses, que viera para essas terras fazer fortuna com gado.
Vitória não estava preparada para um piquenique no parque. Calçava uma sandália de salto fino e alto, um vestido branco esvoaçante até os joelhos, joias e maquiagem. Seu rosto já brilhava devido ao calor. Apesar de sua cara amarrada, ela era bonita. E me peguei sorrindo enquanto a via espantar com horror um pequeno inseto que se movia em sua direção.
– Do que está rindo? - perguntou enquanto me olhava de volta.
– Nada - respondi. - Você está muito bonita.
A resposta de Vitória foi uma tentativa de esconder o sorriso de satisfação e uma leve corada nas bochechas. Sabia que não conseguiria ficar brava comigo por muito tempo. Só precisava dizer as palavras certas para que me perdoasse.
– Então, vai me contar a verdade agora? - pressionou, olhando para mim meio do alto, tentando parecer indiferente.
Balancei a cabeça mostrando-me meio sem graça com o que fizera.
– Primeiro, quero sinceramente lhe pedir desculpas. Não tive mesmo a intenção de te magoar, ofender ou me atrasar. Você sabe que não sou disso. - Vitória me olhava fundo nos olhos e apenas assentiu com um aceno de cabeça. - Pois bem, eu queria fazer uma surpresa ontem e estou me sentindo infeliz por ter estragado tudo. Eu passei aqui no parque antes de ir para a fazenda te buscar porque eu queria te dar um mimo. - Espiei os olhos profundos da minha namorada que estavam na maior expectativa. - Conheço bem este parque, você sabe. Sei que essa época do ano, devido ao alagamento, brota uma orquídea muito bonita e rara. E pensei em lhe dar uma.
Acabei fazendo uma careta no fim. Péssimo, mil vezes. Eu odiava mentir. Odiava ter que ser pedante para amaciar o coração de uma mulher. Mas Vitória sabia ser difícil. E essa talvez fosse minha única cartada. Não sei se a melhor, mas estava contando que desse certo apesar do quão ridículo me sentia.
Logo percebi que, finalmente, Vitória fora surpreendida. Ela não esperava por aquilo. Normalmente, eu não era dado a essas coisas. Achei que por isso ela fosse me pegar na mentira. Mas vi que ela estava caindo na cantada tosca. Será que servia para ser canalha? Não, acho que não.
– Uma orquídea rara para mim? - balbuciou em resposta.
Bingo. Estava feito. Suspirei aliviado, discretamente.
– Sim, mas o céu ontem estava sem lua e eu esqueci a lanterna. Então, acabei me perdendo e me enchendo de lama.
Dei de ombros e esperei. Agora estava na maior expectativa. Seu rosto não me dizia nada. Seus olhos estavam parados como quem avalia. Os segundos pareciam intermináveis quando avistei em sua boca carnuda o repuxado de um sorriso. Vitória tentou, inutilmente, segurar os lábios em sua posição dura. E, no segundo seguinte, simplesmente gargalhou.
Não houve uma pessoa, em um raio de cinquenta metros, que não olhasse para nós. Dessa vez, fiquei envergonhado com toda a atenção que minha namorada chamou para nós. Vitória se debruçava, enquanto a risada chacoalhava seu corpo magro.
Esperei o que pareceu uma eternidade para que explicasse aquela cena.
– Queria ter visto isso. - gargalhou mais um pouco antes de continuar - Você, todo vestido de social, atolado na lama.
Pisquei os olhos aturdidos antes de entender que Vitória estava rindo de mim. E demorei um segundo pensando se devia ficar bravo com isso ou não. Por fim, fiquei aliviado com a reviravolta a meu favor. Acabei sorrindo também enquanto se sacudia ao ritmo do riso agradável.
– Que bom que a divirto.
Vitória me olhou com um sorriso tão franco e aberto que retribuí espontaneamente. Por alguns instantes, ficamos apenas nos olhando, os sorrisos nos lábios, como encantados.
Era por isso que eu ficava com Vitória. Podia ser explosiva às vezes, mas sabia ser divertida e amorosa. E aquele olhar me dizia com todas as letras o quanto me amava. Essa certeza enchia meu coração e o fazia palpitar diferente.
Lisonjeiro. Calmante. Desejava que nossa relação fosse sempre assim. Porém, não podia me iludir. Sabia que depois da tempestade vinha a calmaria e vice-versa. E as oscilações de humor de Vitória faziam parte do que ela era.
Inclinou-se em minha direção me convidando a me aproximar. Eu me movi como um imã, atraído para seus braços finos e delicados. Suas mãos envolveram meu rosto e seus lábios quentes e úmidos salpicaram minha pele de beijos.
– Desculpe-me, amor - falou entre um beijo e outro. - Eu te conheço tão bem. Não devia ter ficado brava.
Ri pela infantilidade da atitude contrária dela. Muitas vezes, Vitória agia como uma criança mimada. Não era agradável, mas eu tinha bastante paciência. Ela riu também levada por meu riso.
Tomei a bela face de minha namorada em minhas grandes e pálidas mãos. Por apenas um instante, nossos olhos se encontraram novamente e, no momento seguinte, colei meus lábios aos dela.
Não tinha nada de infantil na resposta de Vitória. E isso era bom, muito bom. Sentir sua pele sempre me causava comichão. Meu corpo inteiro queimava, mais do que devia à luz do sol em um parque público.
Como uma criatura tão pequena e delicada podia ser tão mulher, tão desejável? Era nesses momentos, quando me deixava levar por sua suavidade, que eu percebia o quanto ficava sedento dela. E me culpava por negligenciar tanto nossa intimidade.
Vitória merecia, sem dúvida, muito mais de mim e do meu amor. Eu daria um jeito de colocá-la de vez em minha vida, para que esses instantes não tivessem fim. Antes que perdêssemos a noção de onde estávamos, interrompi, com delicadeza, nosso beijo.
– Obrigado - sussurrei enquanto ainda estávamos com os rostos próximos.
Não era a resposta certa a lhe dar, mas o pedido de perdão dela também não era para existir. O importante era que estávamos bem e juntos.
Tirei os alimentos da cesta para que pudéssemos almoçar. Graças a minha mãe - será que haveria uma Santa Isabel já canonizada? -, havia uma grande variedade de frutas, biscoitos, bolos e tortas para nossa refeição ao ar livre.
– Como foi seu trabalho durante a semana? - perguntou interrompendo o silêncio entre nós.
Paralisei no meio de um movimento por um curto segundo. Vitória não gostava que falasse sobre o meu trabalho. Não que ela tenha expressado isso em voz alta. Mas eu percebia que, quando narrava minhas descobertas arqueológicas, ela simplesmente não prestava a menor atenção.
Aquele realmente era um dia atípico.
– Muito bem - respondi voltando a me movimentar normalmente. - Estamos no meio de uma escavação grande. Tínhamos chances de terminar hoje pela manhã, porém dei um bolo neles para ficar com você.
O choque pintou o rosto de Vitória de vermelho. Logo percebi que para ela também era um dia incomum, desde ontem. Aquilo realmente era algo raro e não devíamos perder tempo falando de coisas que não valiam a pena.
Vitória também devia estar pensando a mesma coisa. Não se atirou às futilidades de sempre, apesar de estar de olho na grama e nas árvores ao seu redor para que nada estragasse seu vestido e seu cabelo.
E já que estava ali interpretando um papel que nunca me fora dado antes, resolvi fazer direito.
– Eu senti sua falta - lacei os dedos dela nos meus.
Seus olhos e lábios brilharam antes de me responder.
– Eu também - sua voz estava cheia de esperança.
Senti-me culpado novamente por ter perdido aquele bendito anel. O clima estava perfeito agora. E hoje seria muito melhor do que na noite anterior. Engraçado como ontem me achava preparado para isso. E, no entanto, agora o momento se fez muito mais propício e caminhava naturalmente para um pedido de casamento. Lamentei. A tentação de dizer as palavras coçava a minha língua, quase saltando boca afora.
Mas me contive. Esperava que meus olhos reforçassem a esperança de que um dia, muito em breve, acabaria com nossa separação e nos tornaríamos marido e mulher. Queria que Vitória soubesse que era isso que desejava, de verdade. E realmente gostaria de fazer da melhor maneira, da forma correta. No fim, era sempre isso que eu fazia.
– Você confia em mim? - perguntei com a voz envolta na emoção provocada por meus últimos pensamentos.
Vi o nó embolar a garganta dela antes de me responder.
– Totalmente.
Fiquei feliz. Em seguida, horrorizado. Vitória estava depositando sua vida em minhas mãos. Não podia decepcioná-la. Tive dúvidas se merecia aquela mulher. Incapaz de dizer qualquer coisa, me curvei em sua direção novamente, puxei com força sua cabeça e nossos lábios se encontraram novamente com paixão. Ficou mole em meus braços, completamente entregue.
O barulho de uma criança próxima fez com que me lembrasse que não estávamos entre quatro paredes. Afastei-a com relutância, enchendo-a de beijos na face, na testa e nas mãos. Vitória sorria satisfeita e acariciava meu rosto e cabelo em retribuição. Não estava mais me sentindo bobo. Não era algo terrível ser carinhoso com quem se gostava. Então, podia exagerar. Hoje seria um dia especial e único em nossa relação.
Servi frutas e suco para Vitória e ela encheu minha boca com grandes uvas roxas. Conversamos sobre pormenores durante o lanche, entre uma mordida e outra. Na maior parte do tempo, o assunto girou entre nós dois.
Depois que terminamos de beliscar, repousei minha cabeça nas pernas dela enquanto continuamos nossa conversa distraída. Ela emaranhou seus dedos em minhas mechas acobreadas.
– Eu amo a cor do seu cabelo.
Tive um calafrio com uma lembrança sombria. Há muitos anos, um boato escandaloso envolvendo o pai de Vitória, correra de boca em boca na cidade. Diziam as más línguas que o coronel Cruz tinha muitas amantes e, consequentemente, muitos filhos ilegítimos.
Torturei-me por muito tempo com a ideia de, talvez, ser um deles. Mas como não havia encontrado prova genética disso - na árvore genealógica do coronel não havia ruivos, nem olhos verdes - e nem uma única mulher na cidade com algum traço de minhas características tão raras, parei de sofrer.
Já era adulto e passara da hora de aceitar o fato de ser diferente. Pensando nisso, encontrei dois olhos muito conhecidos me encarando a certa distância. Fiquei surpreso por estarem ali, no parque, e depois me lembrei que ela havia se divertido mais cedo com meus problemas.
Alice estava sentada há dez metros de distância sob uma árvore ao lado do marido. Fixei o olhar. Como seus olhos eram duas bolas castanhas e estranhas para mim! Quando minha irmã caçula e eu deixamos de ser tão próximos? Na infância, éramos como carne e unha.
Bem, era verdade que eu era a criança mais responsável do mundo, por isso minha mãe deixava Alice aos meus cuidados. Quando cresci, nossa diferença de idade começou a pesar em nossa estreita relação, afastando-nos automaticamente. Passei a negligenciar a relação com minha irmãzinha, como fazia agora com minha namorada. Estudo e trabalho passaram a ser prioridades em minha vida.
A culpa me tomou novamente. O que eu havia feito? O que me era mais valioso passou a ficar em segundo plano na minha vida. Funguei. Até uma porcaria de anel, que custava horrores, era mais importante do que fazer a coisa certa.
Sentei-me em um pulo, disposto a terminar aquele encontro como deveria. Em um segundo, vasculhei a mata atrás de Vitória, simplesmente por hábito ou talvez me preparando psicologicamente para o que faria agora. Não havia famílias ali. Somente árvores enormes e o rio mais adiante - como podia ouvir.
E, então, percebi algo se movendo entre a folhagem. Parei os olhos na altura em que havia visto o vulto e forcei as vistas para enxergar melhor, estreitando as pálpebras. Minhas pupilas se adaptaram imediatamente. E o que antes era um borrão tomou forma. Uma mulher, de pele morena e cabelos pretos compridos.
Quando percebi que a distância, por mais que fosse dia, era demais para que pudesse ter visto tantos detalhes, meus olhos perderam o foco e o vulto desapareceu como mágica. Fiquei pensando se havia imaginado a mulher ou se realmente a havia enxergado. Isso foi suficiente para que esquecesse porque havia me levantado apressadamente.
***
Dessa vez, foi um a das gargalhadas irreverentes de Marcel que cham ou a atenção de Tam ires m uito cedo naquele dia. Aquilo, com certeza, era um a novidade. E ela tom ou com o boa. Levantou-se apressadam ente para encontrar o cunhado na sala.
– Fizeram as pazes? - perguntou assim que o avistou.
Fez um gesto de indiferença antes de responder.
– Suzane luta contra, m as m e am a dem ais.
E gargalhou novam ente. Revirou os olhos para ele antes de se sentar ao seu lado.
– Hei, tenho um a novidade sobre Lucca.
O coração de Tam ires saltitou em seu peito. Finalm ente havia chegado a hora de reencontrá-lo.
– Você j á sabe onde ele está?
Sacudiu a cabeça afirm ativam ente.
– No Pantanal.
A ruiva analisou aquele destino por alguns m inutos antes de responder. Pelo que conhecia, o Pantanal brasileiro era m uito vasto. Era m uito vago. Será que não saberia m ais detalhes ou estava apenas a torturando?
– Em que ponto do Pantanal, Marcel, você conseguiu rastreá-lo?
Estava m uito anim ado naquela m anhã. Gargalhou novam ente, aquela risada estrondosa que só ele podia dar.
– Sim , sei exatam ente onde ele está.
Tam ires olhou para o cunhado desconfiada.
– Então por que ainda não com eçam os a fazer as m alas?
Encarou-a sério dessa vez.
– Você quer m esm o ir com igo? Pode ser perigoso. Ainda não encontram os a am etista e não sabem os se o responsável j á está atrás de Lucca tam bém .
Tam ires pensou em sua pedra e em seu m isterioso desaparecim ento de um condom ínio de luxo, protegido por guarita e câm eras de segurança. Afastou a ideia de que um ladrão com um a tivesse levado. Claro que não. Hoj e em dia aquela pedra não tinha tanto valor com ercial. Quem a levou sabia o significado que tinha para o futuro deles. Com pesar, lem brou de Gustavo, seu m arido. Ainda não estava com pletam ente convencida da inocência dele no sum iço. Seu histórico não o aj udava m uito. Contava que o arrependim ento dele fizesse a diferença no m om ento oportuno.
– Sim , eu quero aj udar - respondeu fugindo de seus pensam entos. - Você j á sabe com o vai contar a ele?
Deu de om bros.
– Não faço a m enor ideia. Precisam os escolher o m om ento certo e ele nos m ostrará com o explicar tudo - desviando os olhos da cunhada, prosseguiu. - Acho m elhor esperar até a m arca.
Quase gritou incrédula.
– O quê? Você ficou m aluco? Não podem os deixá-lo passar por isso sozinho!
Ainda se recordava do sofrim ento pelo qual passara durante horas sem entender o que estava acontecendo. Acreditara que a qualquer m om ento m orreria. Som ente quando Marcel apareceu, depois que toda a dor havia dissipado, entendeu porque precisava passar por aquilo, a últim a etapa da transform ação. E ela sabia que Suzane tam bém seria a favor de que fossem antes, m esm o que ainda não tivesse acontecido. Ela podia ver antes que acontecesse. E havia visto a irm ã m ais velha queim ando.
– Tudo bem - rendeu-se. - Não vou brigar com você. Irei antes que a passagem com ece então.
Mas ainda não estava satisfeita.
– Nós vam os – corrigiu, salientando o pronom e.
– Meu Deus, com o é que o Gustavo te aguentava? Com o você é chata.
Ignorando a resposta do cunhado, prosseguiu.
– Sou a m elhor pessoa para conversar com ele e você sabe disso. Passei por tudo que ele vai passar. Você precisa m e falar m ais sobre ele para eu m e preparar, para que possa abordar da m elhor form a o assunto.
Bufando, respondeu um pouco ríspido.
– Errado, Tam ires. Já com eçou. E vam os observar m ais um tem po antes de ir.
Estreitando os olhos, furiosam ente, perguntou m ais um a coisa que o cunhado ainda não havia explicado.
– E por que você estava rindo tanto, afinal? Não tinha a ver com Lucca?
Gargalhou novam ente se lem brando do que havia visto com Suzane.
– Ah, sim . Você nem im agina o que está prestes a acontecer com ele.
E ao invés de responder, riu alto de novo.
PRESSÃO
Com um a extensão de três m il hectares de terra própria para a criação de quase duas m il cabeças de gado, a Fazenda Cruz do Pantanal se estendia desde os lim ites do Parque Marina Gatass - à m argem do Rio Paraguai - até a divisa oficial do país com a Bolívia. Naquela área não havia outras fazendas ou sítios. Os que outrora existiram , foram som ados à propriedade do tem ido coronel.
A grande casa - o coração da estância - surgia ao fim de um a estrada de terra batida a cerca de dois quilôm etros da Rodovia Ram on Gom es. Sua exuberância era avistada à distância. graças ao reflexo das paredes brancas à luz do sol da tarde. Todas as seis j anelas da frente, enorm es, estavam abertas e se via as cortinas sacolej ando ao sabor do vento que soprava nos andares superiores.
Lucca sem pre se sentia intim idado quando estava na propriedade. Só de pensar que, depois do casam ento com Vitória, teria que viver ali, um aperto sufocava seu peito. Sabia que nunca poderiam se afastar da fazenda e deixar nas m ãos de em pregados a fortuna que o velho deixaria para a filha e para os netos. O genro teria que assum ir a responsabilidade de cuidar dos interesses dos herdeiros.
Intim am ente, não queria assum ir esse papel. Sua profissão era distinta de um pacato adm inistrador. Desej ava conseguir conciliar as duas funções, j á que tinha consciência de que, querendo ou não, teria que se preocupar com o patrim ônio de sua esposa e de seus filhos. Vitória não havia estudado e nem m esm o tinha qualquer interesse em negócios. Só se preocupava em com pras fúteis.
Era nesses m om entos que sentia vontade de escapar de um futuro que não desej ava. Era contra seus extintos sentir-se oprim ido. Mas tam bém era contra suas convicções fugir com o um covarde. Ergueu a cabeça para a casa que crescia em sua direção enquanto dirigia seu carro. Vitória estava sentada ao seu lado com pletam ente absorta em seus próprios pensam entos, assim com o ele.
Porém , tinha certeza de que os pensam entos dela seriam m uito m ais leves e sorridentes do que os dele. Sua m ãe sem pre dizia que se preocupava dem ais. Talvez tivesse razão. Precisava apenas relaxar e aprender a se preocupar som ente quando fosse estritam ente necessário. Afinal, ainda tinha um tem po para se acostum ar com a ideia até form alizar o com prom isso.
Estacionou em frente à sede e suspirou preparando-se para adentrar a casa. Trocou um sorriso com a nam orada que o anim ou im ediatam ente. Encontraram -se do lado de fora e subiram de m ãos dadas a grande escadaria da m ansão.
Havia um hall de entrada com passagens para três direções. A decoração do am biente era austera, com flores e vasos rústicos. À esquerda havia um grande corredor que levava para as suítes no andar superior. À direita um acesso rápido para cozinha e copa. E à frente, a sala de estar e de j antar.
Cada obj etoera bem escolhido. Com binava perfeitam ente com a fazenda, dando-lhe um toque de requinte, sem tirar-lhe a sobriedade. Havia um quadro im enso, no centro da sala de estar de dona Ana Munhoz Cruz, a m ãe falecida de Vitória. Seus traj es eram m uito finos, m as seus olhos revelavam a sim plicidade com que estava acostum ada antes de se tornar m ulher do fazendeiro.
Ana era diferente das m ulheres da cidade. Tinha um a aparência frágil, debilitada. Os grandes olhos negros, que Vitória herdara, eram profundos e escavados na face m agra. Os braços, à m ostra desde os om bros, eram longos e finos. Apesar de sua pele m orena, as olheiras fundas tingiam seu rosto. Som ente a boca, característica m arcante da m ulher, parecia ainda ter algum a vida, eternizada no sorriso m ais doce que Lucca j á vira.
Não era algo que pudesse controlar. Sentia um a m istura de pena e afeição pela m ulher do quadro toda vez que encontrava seus olhos m isteriosos. Seu silêncio era acolhedor. Seu sorriso, um convite para adentrar em sua casa. Há m uito que Ana não pisava m ais naqueles tapetes e não tocava m ais nas cortinas. Mas tudo parecia ter a áurea pura da m ulher que um dia estivera entre eles.
A única presença que era m ais m arcante - e assustadora - estava exatam ente no centro da sala - entre o sofá e a m esinha de centro - em pé. Não era m uito alto, nem m uito gordo. Mas tinha um a carranca perm anente que vincava sua testa. Um grande e com prido bigode cobria o lábio superior. Um a acentuada calvície lim itava seus cabelos grisalhos da m etade da cabeça para trás. Botas de couro cobriam os pés e um cinto com um a enorm e fivela segurava a calça j eans. A cam isa listrada era de m anga curta, de botões na frente. As grandes m ãos seguravam um chapéu de palha.
– Olá, crianças - cum prim entou José Cruz.
Parecia que estivera esperando pelo casal a tarde toda. Apesar da falta de sorriso em seu rosto, não parecia nervoso. Reforçado pelo tom de voz am igável, Lucca teve certeza que estava tudo bem .
– Boa tarde, coronel - respondeu o genro.
O título, na verdade, não era oficial. Mas ninguém sabia ao certo com o surgira. Boatos diziam que o próprio fazendeiro se dera a patente, exigindo que seus em pregados a usassem sem pre. Já outros acreditavam que seu dinheiro intim idara os em pregados, que passaram a cham á-lo pelo título com o form a de respeito.
– Olá, papai - respondeu a filha, cruzando o pequeno espaço entre eles e dando um beij o estalado na bochecha do hom em de m eia idade.
Um a m enção de sorriso m oveu sua boca por um tem po m uito curto. Se não tivesse prestando atenção, com certeza Lucca teria perdido. Era raro presenciar a intim idade do coronel e ter o privilégio de vê-lo m ais hum ano que carrasco. Afinal, os em pregados e m oradores da cidade estavam acostum ados a serem tratados por ele com o insignificantes e totalm ente descartáveis. José Cruz era a lei, a ordem e a sabedoria. Seus súditos tinham que obedecer de um a form a ou de outra.
Vitória voltou para o lado do nam orado, pegando-lhe a m ão enquanto se sentavam em outro sofá. O fazendeiro os analisava. Não dava para ler sua expressão.
– Ora, ora, vej o que fizeram as pazes - avaliou.
– Sim - respondeu a filha sorridente. - Foi apenas um m al-entendido.
O coronel Cruz ergueu um a sobrancelha enquanto resm ungava algo ininteligível.
– Fico satisfeito - disse por fim .
Houve um silêncio estranho enquanto genro e sogro trocavam um olhar longo. Vitória se distraiu com a unha que havia quebrado durante o piquenique. Não pode perceber o quanto seu pai estava desconfiado de seu nam orado. Lucca sabia que essa era sua deixa.
– Vitória, preciso ir para casa. Mais tarde te ligo para com binarm os algum a coisa para a noite.
– Tudo bem - respondeu a nam orada sem titubear.
Os três se levantaram ao m esm o tem po. Vitória fez m enção de acom panhá-lo até o carro, porém o pai interveio.
– Querida, por que não vai descansar e deixa que eu acom panho Lucca até a porta? Gostaria de trocar duas palavrinhas com ele.
Foi a vez dela olhar desconfiada para o pai.
– Só quero conversar com ele, Vitória. Pode ficar tranquila.
Aquelas palavras fizeram Lucca trem er levem ente e um nó se form ou em sua garganta. A nam orada acabou concordando - talvez se lem brando da unha quebrada -, deu um beij o rápido na boca de Lucca e correu para seu quarto. Sozinhos, sogro e genro cam inharam lado a lado até a porta do carro. O silêncio ainda se fez por um tem po antes que o coronel finalm ente com eçasse a falar.
– Sabe, filho, levei um grande susto quando você não apareceu ontem . Vitória ficou tão aflita - seus olhos vagaram erroneam ente pelas árvores. - Não tem nada que m e deixe m ais nervoso do que ver m inha filha infeliz.
– Sinto m uito, coronel - interrom peu Lucca.
José Cruz fez um gesto para que o genro o esperasse finalizar seus pensam entos.
– Em todos esses anos que vocês estão j untos, nunca a vi tão infeliz quanto ontem . Na verdade, o que m e deixava tranquilo era a certeza de que você nunca a faria chorar. Nunca im aginei que esse dia pudesse chegar. E m e pergunto o que poderia ter m otivado essa negligência.
Antes que Lucca o interrom pesse novam ente - com o tentou, abrindo a boca para se desculpar -, o coronel repetiu o gesto calando-o.
– Não sei se conhece m inha história. - Antes que Lucca pudesse responder, José prosseguiu o relato. - Vim para Corum bá m uito j ovem há m ais de trinta anos. A cidade era conhecida, na época, por sua fartura de terras, de água, de vida. Venho de um lugar seco e árido, onde a fom e e a pobreza andam lado a lado.
O coronel encarou o genro brevem ente antes de continuar.
- Não tinha apenas fom e e sede. Queria prosperar. Estava farto de viver em m eio a pobreza e a m iséria hum ana. Ver irm ãos e vizinhos m orrerem de inanição, idosos m orrendo de fraqueza, pais trabalhando em terras inférteis a fim de alim entar seus inúm eros filhos.
Lucca paralisou no m esm o lugar. Já ouvira m uitos boatos sobre a vida anterior do sogro. Porém nunca im aginou ouvi-la de sua própria boca. Escorando-se na lataria do autom óvel, o coronel Cruz continuou.
– Fugi da Bahia com apenas quatorze anos. Havia ouvido alguns velhos conversando em um a m ercearia sobre as terras alagadas e fartas do Pantanal. Falaram que m uitos m igrantes prosperaram por aqui. Pedi carona nas estradas, de cidade em cidade, de estado em estado, até chegar a Corum bá quase um m ês depois. Fui alim entado por estranhos e dorm i na boleia de cam inhões.
Era inevitável que Lucca im aginasse um adolescente m altrapilho, suj o e m agricela, cam inhando descalço nos acostam entos das estradas, pedindo carona para os autom óveis que passavam por ele. Estava cada vez m ais chocado.
– Nunca m e neguei ao trabalho. Com ecei com o aj udante de pescador. Aos dezesseis anos fui trabalhar na m ineradora. Porém , m e rebelei contra o trabalho pesado e m e tornei guia turístico. Todo o dinheiro que eu ganhava, guardava dentro de um a caixa de sapato, escondida em baixo da cam a em que dorm ia.
O coronel narrava para o nada. Talvez de volta no tem po, à sua adolescência.
– Dorm ia em pensões vagabundas e com ia suas refeições insossas. Porém , ainda eram m uito m elhores do que qualquer outra que j á havia provado. Não precisava m ais m e preocupar, m as ainda assim com ia com desespero, com o se, na m inha ausência, a com ida fosse desaparecer.
Lucca j á estava se sentindo m al com a história. A dor do m enino que o sogro fora estava fluindo de seus olhos direto para o genro. Nunca im aginara que tipo de sofrim ento o senhor Cruz vivera. Mesm o sendo adotado, ele m esm o nunca havia vivido nada perto daquilo. Deu graças a Deus, em seus pensam entos, pelos pais que o haviam escolhido.
– Tracei um a m eta e a segui com determ inação. Tom ei conhecim ento de negócios e passei a estudar tudo sobre eles. Finalm ente decidi que queria trabalhar com pecuária e, um dia, m e tornar dono de gado. - O coronel fez um a pausa dram ática com o se a próxim a lem brança lhe trouxe algum sentim ento ainda m aior do que narrara até então. - Aos vinte anos conheci e m e apaixonei por Ana. Foi o prim eiro m om ento feliz de m inha vida até então. Nós com eçam os a nam orar no dia em que com prei m eu prim eiro hectare de terra. Foi m eio com o um j antar de com em oração e acabou em um pedido de nam oro.
Era a segunda vez naquele dia que Lucca via o velho carrancudo sorrir. Ainda não se acostum ara e por isso quase teve um sobressalto.
– Com ecei com prando terras que ninguém dava valor algum - continuou o coronel, voltando a sua seriedade habitual. - Cercando um a área que eu desej ava obter. Eram terras distantes que seus donos queriam , desesperadam ente, se desfazer. E eu conseguia com prá-las por ninharia.
Lucca tentou associar a história que ouvia àquelas espalhadas pelos quatro ventos desde sua infância. Não era bem essa versão que se conhecia. Falavam por aí que o coronel am edrontava os pequenos proprietários de terra praticam ente os obrigando a venderem -nas por preços baixíssim os. Diziam m ais, que chegou ao ponto de destruir plantações e m atar seus anim ais até que o obedecessem .
– Em dois anos - continuou o coronel -, eu era dono de sítios e chácaras nas extrem idades de toda a área que hoj e com põe essa fazenda. Com ecei com plantio, a fim de angariar lucros para com prar as prim eiras cabeças de gado. Nesse período, pedi a m ão de Ana em casam ento.
Outra olhadela para o genro, que com eçava a tem er que tudo aquilo fosse apenas um a lição para ele.
– Infelizm ente, Ana nunca viu o im pério que construí para nossa filha. Um ano depois de casados, enquanto eu ainda negociava grãos e terras, Ana dava à luz Vitória. Porém , devido a sua saúde debilitada, não sobreviveu ao parto. Está enterrada nessas terras, quilôm etros m ais adiante, onde vivíam os à época.
Seus olhos se perderam no horizonte e Lucca tentou acom panhar. Interessante com o conseguiu avistar - ou teria im aginado? - a cruz da lápide à distância.
– Eu nunca m ais am ei outra m ulher em m inha vida. Dediquei-m e inteiram ente ao trabalho e em alcançar m eus obj etivos. Não estava m ais sozinho. Tinha um a filha para criar e oferecer do bom e do m elhor. Prom eti a m im m esm o que ela j am ais passaria pelo que passei. Saberia, desde o berço, o que era prosperidade e fartura.
Nisso Lucca tinha que concordar que o coronel fora vitorioso. Não existia na cidade de Corum bá filho m ais rico e m im ado com o Vitória, que sim plesm ente desconhecia as dificuldades da vida. Tudo sem pre fora m uito fácil. Bastava desej ar para que possuísse.
– Hoj e m inhas terras se perdem de vista. Alcancei m eus obj etivos. - Olhando para o genro, José continuou. - Gosto de você, filho, sinceram ente. Você se m ostrou responsável, com panheiro e dedicado. Eu m e lem bro de m im m esm o quando o olho. - O coração de Lucca disparou. Será que seus piores pesadelos se confirm ariam naquele m om ento? Será que, afinal, o coronel seria seu verdadeiro pai? Afastou logo esse absurdo de pensam ento, porque se isso fosse verdade, j am ais perm itiria que estivesse nam orando sua filha. - Com preende que construí um im pério para m inha filha e m eus netos. Porém não poderia haver pessoa m elhor para adm inistrá-lo quando eu partir. Você é o m arido ideal para Vitória.
A conversa chegou a um ponto que Lucca j am ais im aginara. Tentou conciliar as ideias a fim de com preender o obj etivo daquela longa narrativa.
– Tem i, por algum tem po, que Vitória não encontrasse a pessoa certa. Porém , em todos esses anos - lá estava ele de novo lem brando sobre o longo tem po de nam oro dos dois - observei e percebi que você sem pre está disposto a fazer a coisa certa. - O coronel fez um a careta antes de continuar. - Ontem acreditei que, finalm ente, fosse fazer o pedido. A própria Vitória esteve especulando sobre isso toda esperançosa. Quando não apareceu, tem i que tivesse se arrependido.
Lucca se apressou em interrom pê-lo para se explicar.
– Desculpe, senhor, eu preciso adm itir um a coisa. - O sogro esperou na m aior expectativa. - O senhor tinha razão em ter esperanças, porque realm ente era o que estava disposto a fazer. Porém , não quero que pense que m e arrependi. Jam ais teria dado um bolo em Vitória, ainda que tivesse repensado o assunto. E peço perdão novam ente, porque hoj e m enti para sua filha. Mas vou dizer a verdade para o senhor agora - falou apressadam ente para não ser interrom pido antes de finalizar. - Com prei um anel ontem , porém perdi no parque. Um a árvore caiu em m inha cabeça e acabei apagado até hoj e de m anhã. Com o eu ainda não havia encontrado o anel, não fiz o pedido. Mas quero que saiba que pretendo fazer assim que encontrá-lo.
O rosto enrugado do velho se alterou tão rapidam ente quanto as palavras saltaram da boca de Lucca. E ele ficou satisfeito que, no fim , a face do coronel ficou ilum inada de um a m aneira m eio estranha.
– Se é som ente isso, m eu j ovem , posso aj udar. Já pretendia presenteá-la quando Vitória se casasse. - Enfiou a m ão no bolso da calça e tirou um saquinho de tecido m uito pequeno. -Tom e.
Lucca pegou o obj eto entre as m ãos e logo percebeu o peso que tinha. Ficou im ediatam ente atem orizado. Abriu e pode conferir; o reflexo do sol na pedra quase ofuscou seus olhos. Era um diam ante enorm e incrustado em um anel.
– Não posso aceitar - gaguej ou.
A m ão enrugada pousou sobre o anel apertando-o em sua palm a.
– Você não deve recusar, por favor. - Seu tom era de autoridade. - Este anel foi de Ana. O prim eiro presente que lhe dei quando pude com prar um a j oia. Quero que fique com ela e que a use para o pedido.
Encararam -se por um longo tem po. Lucca estava desnorteado. Aquela j oia devia valer um a fortuna. E se a perdesse tam bém ? Mas, com o podia dizer não a seu futuro sogro? E por que deveria fazer isso? Era som ente de um anel que precisava para, finalm ente, passar por m ais essa fase de sua vida. E por m ais orgulho que tivesse - e longas prestações a pagar pelo anel perdido –,sabia que Vitória m erecia um anel à sua altura. Tam bém sabia que, pelo m enos na sua frente, ela nunca m enosprezaria o outro. Porém , estava acostum ada com o m elhor, em tudo. E casam ento era um passo im portante e m arcante na vida de qualquer pessoa.
– Tudo bem , eu aceito - respondeu com o se tivesse sido pedido em casam ento.
Outro sorriso, dessa vez m uito m aior, brincou sob os bigodes do coronel Cruz, que abraçou com força dem ais o genro pelos om bros enquanto falava.
– Ótim o, m eu rapaz. Sabia que podia contar com você. Mandarei preparar um j antar especial hoj e à noite, escondido de Vitória, para que possa fazer o pedido oficialm ente.
Lucca partiu anestesiado. Tudo estava acontecendo tão rápido com o se o relógio de areia estivesse cronom etrando seu tem po. Cada grão tão precioso quanto sua própria existência. Um a contagem regressiva para o fim do m undo. Urgente, desesperador e repleto de grandes em oções.
Mas, afinal, não seria o fim do m undo. Som ente um noivado. Então, teria tem po para se acostum ar com o com prom isso antes de m arcar a data. E no fim , faria Vitória feliz e, consequentem ente, seu futuro sogro.
Não conseguia sentir ou pensar em nada sobre si m esm o. Onde estavam sua determ inação e autoconfiança? Talvez tenham se perdido j unto com o outro anel, na lam a do parque. Ou tenham sido roubadas durante seu desm aio.
Pela prim eira vez, tinha dúvidas de sua decisão. Porém , sabia que se resignaria a fazer a coisa certa, pelo bem de todos.
NOIVADO
Os prim eiros quinze dias de 2012 correram norm alm ente na vida de Lucca. E em apenas vinte e quatro horas sua vida virou de cabeça para baixo. O que era para ser algo espontâneo e alegre, agora era quase um fardo pesado e desengonçado. Um a noite depois do que devia ter sido a m ais feliz de sua vida, lá estava ele se arrastando nos afazeres m enores com o para atrasar o m om ento.
O m ais difícil fora contar a sua m ãe sem que dem onstrasse seu conflito interno. Não fora tarefa fácil e tam bém não estava totalm ente convencido de que tivera êxito. Afastara-se dela o m ais rápido que pode para se lam entar sozinho. Passou o entardecer no quarto. Ainda não vira Edm undo, m as sabia que Isabel contaria para a fam ília toda o que aconteceria m ais tarde.
A fam ília não era um consolo para ele agora. Edgar, seu pai, nunca fora seu am igo, apesar de am á-lo igualm ente com o aos seus irm ãos. Era m ais um am or provedor do que afetuoso. Edm undo, seu irm ão m ais novo, alim entava um a rixa tão antiga quanto suas existências. E Alice, a doce e m im ada caçulinha e filha única dem onstrava m ais curiosidade por seus problem as do que algum apoio.
Nem com seu m elhor am igo, Carlos, podia contar nessa hora. Seria o prim eiro a desanim á-lo, insistindo - talvez com sucesso - que desistisse da ideia enquanto ainda havia tem po. Apesar de ser sua única fortaleza no m om ento - sua m ãe sem pre o apoiaria em qualquer decisão que tom asse -, não se sentia a vontade ao seu lado.
Deitado em sua cam a, desviou os olhos para o suntuoso anel - escondido pelo saquinho que o coronel Cruz lhe entregara m ais cedo. Um nó se form ou em sua garganta. O obj eto parecia m uito m ais pesado devido a im portância que tinha em sua vida agora. Um brilhante resolveria seu futuro dali a algum as horas.
Sentia-se nervoso com o se j á fosse o dia do casam ento. Precisava relaxar. Lem brou-se de que estava fazendo o que precisava. Porém tinha consciência das im plicações nada rom ânticas de sua decisão. Além de ser prático por natureza, tam bém era hom em e casam ento era sinônim o de responsabilidade. O que não o tornava atrativo ou fácil para ele.
Pesou sua vida. Sua carreira estava estável no m om ento, m as nada que não pudesse m elhorar com um pouco de esforço e força de vontade. Com isso, estava tranquilo. Conhecia sua capacidade e determ inação quando traçava um obj etivo. Tinha m ais de trinta anos, não era tão j ovem e inexperiente. Estava intelectual e financeiram ente preparado para aquele passo.
Em ocionalm ente era outra coisa. Mesm o sendo adulto e responsável, o tem po passara rápido e não conseguia, exatam ente, se ver casado e com filhos. Vitória estava chegando aos trinta e Lucca sabia que, biologicam ente, estava m ais do que pronta para se tornar m ãe. Em poucos anos, passaria até do ponto. O coronel não duraria para sem pre. Já beirava a terceira idade e, tinha certeza, que gostaria de conhecer seus netos antes de se despedir deste m undo.
Esse últim o pensam ento o consolou. Estava cansado de devanear sobre seus tem ores e resolveu que enfrentá-los, com a cabeça erguida, faria sua decisão m ais forte do que eles. No m om ento em que se erguia da cam a, Edm undo entrou no quarto e fechou a porta atrás de si. Os irm ãos se encararam por um segundo interm inável de form a dura.
– Pensei que tivesse m udado de ideia - o irm ão quebrou o silêncio prim eiro.
Por um a fração de segundo, Lucca viu em seus olhos não o ódio habitual, m as algum sentim ento oculto e intenso, tentando saltar a fortaleza que Edm undo criara em volta de seus verdadeiros sentim entos.
– Eu nunca faria isso - respondeu o irm ão adotivo com serenidade.
Edm undo deu dois passos vacilantes em direção a Lucca antes de perguntar, com a voz trêm ula.
– Por quê?
– Por que o quê? - revidou intrigado.
– Por que está fazendo isso? - com pletou a pergunta.
Lucca pensou por um m ilésim o de segundo enquanto encarava o irm ão nos olhos. Deduziu que ele sabia do noivado e era a isso que se referia. Queria entender o que se passava em sua m ente agora. O por que dessa angústia disfarçada.
– O que você quer saber exatam ente, Edm undo? - perguntou pausadam ente.
As expressões m udaram tão rapidam ente que não puderam ser traduzidas. Apenas revelaram a Lucca o quanto Edm undo estava confuso. Havia um conflito em seus sentim entos, ou interesses, talvez ainda m aior do que o que estava vivendo agora. A tentativa de segurar um a expressão im passível foi um verdadeiro fracasso. Ainda assim , o irm ão adotivo não a com preendeu.
– Você a am a? - perguntou, por fim , Edm undo.
Aquele j ogo de respostas com outras perguntas com eçava a ficar irritante. No entanto, era a vez de Lucca ficar m exido. Os irm ãos nunca foram íntim os para falarem de sentim ento um com o outro. Aquilo era um a novidade que o desconcertava e, portanto, dem orou tem po dem ais para responder.
– Sim .
Edm undo não pareceu satisfeito. Seu pesar aum entando conform e lutava com algo dentro de si. Precisou de m ais alguns instantes para conseguir falar novam ente.
– Você acha que ela vai aceitar?
Para essa pergunta, Lucca não precisava pensar m uito. Conhecia Vitória m uito bem para ter certeza de que não titubearia diante de seu pedido de casam ento.
- Sim .
Apesar de não parecer feliz, Edm undo não dem onstrou surpresa. Talvez ele m esm o não duvidasse dela.
– Por que você está m e fazendo essas perguntas? Você tam bém acha que eu estou sendo precipitado?
Edm undo pareceu surpreso com a conclusão de Lucca. A raiva, de repente, tingiu seu rosto, tornando-o averm elhado antes que sua voz, rouca e feroz com o sem pre, explodisse.
– Eu estou pouco m e lixando para você e esse noivado idiota.
Antes que Lucca pudesse entender o que estava acontecendo, rom peu porta afora, seus passos e gestos carregados de fúria. O som estridente da porta batendo com violência sacudiu seu corpo de susto.
Um a conversa de apenas três m inutos, com m udanças tão distintas de hum or, não era bem o que precisava agora. Ter m ais conflitos em que pensar só o deixaria m ais ansioso em entender. Sua m ente ágil e racional trabalharia ferozm ente nas próxim as horas. E precisava estar concentrado no evento que o levaria ao altar ao lado de Vitória Cruz. Seria um a noite terrível.
Esquecer era a palavra de ordem no m om ento. Antes que m ais alguém perturbasse sua paz - ou atiçasse o fogo do inferno astral que vivia - Lucca se trancou no banheiro. Lá conseguiria, de verdade, ter algum a privacidade. Ligou o chuveiro quente - não se im portando com o calor do verão pantaneiro - e entrou debaixo da água. Ficou por vários m inutos sentindo o j ato pipocar fervente em suas costas.
A água não tinha o poder de lim par seus pensam entos. E todos os acontecim entos estranhos rodaram , sem cessar, com o m oscas irritantes. Não adiantava tentar espantá-las. Elas sem pre voltavam a atorm entá-lo. O pior, na verdade, não eram os m om entos em si, m as o fato de não entender o que significavam . Perdera totalm ente as rédeas de sua própria vida.
Analisou cada situação isolada. Estava decidido a pedir Vitória em casam ento. Mas por obra do acaso - do destino, de um anj o brincalhão ou sabe-se lá m ais do que -, se desviara do cam inho. Algo o atraíra direto para o parque na noite passada. Algo que desconhecia. Que não estava em sua m ente. Aquela foi sua prim eira atitude não planej ada. O que não era natural.