Filho da Terra - Os Quatro Elementos, Volume 2
Prólogo
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 13 partes.
Na m anhã seguinte, foi obrigado a m entir, algo que odiava fazer. A m entira foi consequência da ação anterior - entrar naquele bendito parque involuntariam ente. A escolha o levou a agir de um a form a que não estava acostum ado. Não era rom ântico. Porém , tinha que adm itir que a ideia do piquenique dera m uito certo.
A estranha e inesperada conversa com o sogro naquela tarde deixara um a m ensagem clara para ele. “Eu sou um vencedor” e Lucca não tem ia essa parte. “Você é o único capaz de gerir m eus negócios” e essa lhe causava um arrepio na espinha porque, em nenhum m om ento, o coronel havia dem onstrado preocupação com a felicidade de sua filha, som ente com o futuro de sua fortuna.
Mas o pior m om ento havia sido o anel de brilhante que o fazendeiro lhe entregara. O problem a não era tanto por ele ser caro. Havia reparado em algo m uito sutil: o senhor Cruz j á estava com o anel no bolso antes de com eçarem a conversa. Tinha certeza absoluta que, m esm o que não estivesse preparando o terreno para fazer o pedido, o todo poderoso ia lhe sugerir.
Sugestão não era bem o term o certo para a form a com o, m esm o com sutileza, o coronel lhe indicara o que queria. De um a m aneira ou de outra, afinal, o teria obrigado a form alizar a longa relação que m antinha com sua filha. E, ciente disso, Lucca estrem eceu sob a água. Era a decisão m ais im portante de sua vida e, novam ente, ele m esm o não a fizera por vontade própria.
Um tsunam i o estava arrastando, depressa dem ais, para um noivado antecipado. E, enquanto tentava subm ergir, um obstáculo deteve seu cam inho por tem po suficiente para desnorteá-lo. Edm undo e sua aparição desastrosa que nada lhe dizia e em tudo lhe intrigava. A única coisa que conseguia pensar sobre o irm ão m ais novo era um a pergunta sem resposta. O que está acontecendo com Edmundo?
Não sabia por quanto tem po estava debaixo do chuveiro, m as im aginou que seria dem ais. Não queria se atrasar e provocar um problem a ainda m aior. Ensaboou-se e passou xam pu no cabelo bronze. Fechou a torneira e se enrolou na toalha, em frente ao espelho. Hoj e, excepcionalm ente, não im portava a aparência que estava refletida ali. Talvez, a partir de agora, nunca m ais fosse se preocupar de novo.
Com um suspiro, ligou o autom ático e voltou para seu quarto a fim de se vestir.
Encontrou todos na sala. Havia um a grande expectativa na gravidade com que estavam reunidos. Lucca tentou continuar im passível, concentrando-se em sua m elhor pose confortável e seguro. Não estava nem um pouco a fim de captar energias alheias e acabar piorando seu próprio estado de espírito. O que tinha que ser feito, sim plesm ente faria. E ponto final.
A resignação era o m elhor cam inho que podia seguir agora. Plácido e direto. Tentou não se deter em nenhum rosto por m ais do que um segundo enquanto atravessava a sala. Esperou a chuva de com entários, porém som ente um a voz se fez ouvir. Alta, clara e quase j uvenil.
– Parabéns, Lucca. Vi que o piquenique foi um sucesso. - risinhos - Vocês precisavam ver com o os dois pom binhos se reconciliaram no parque.
Encolhendo-se, estacou o passo a fim de se virar para a irm ã sarcástica.
– Qual é o seu problem a, Alice? - sua voz saiu m ais severa do que pretendia.
O sorriso na face larga da m oça encolheu, m as não desapareceu.
– Ora, ora, Lucca, por que a hostilidade? Estou do seu lado, m aninho. Estava torcendo para que desse certo. - Piscando os olhos inocentes, concluiu. - Adoro finais felizes!
Estam pou o sorriso m ais largo e sincero que Lucca j á havia visto. Pronto, foi-se por água abaixo todo seu autocontrole. Antes que ouvisse m ais algum com entário, fosse ele bom ou ruim , apressou-se em sair da casa, sem se despedir. Seus dentes trincados ferozm ente. Não foi rápido o bastante para que não pudesse ouvir o que Alice acrescentou em seguida.
– Por que estão m e olhando desse j eito? Vocês não têm senso de hum or? - e gargalhou.
Desej ou ficar surdo por alguns instantes. Entrou no carro e arrancou cantando pneu. Inspirou e expirou várias vezes a fim de se acalm ar. Não costum ava se render ao m au gênio, porém havia algum as coisas que conseguiam tirá-lo do sério. Ainda assim , não era um a pessoa explosiva. Jam ais descontaria seu m au hum or em outra pessoa, por m ais que m erecesse. Antes, preferia se afastar. Com o agora.
Chegou à fazenda sem sequer perceber o cam inho e em tem po recorde. Estava adiantado. Sorriu ao conferir a hora. Pelo m enos esperava ganhar uns pontinhos com isso. Antes que pudesse bater à porta, ela se abriu e o próprio coronel estava do outro lado do batente.
– Boa noite, filho - apertou sua m ão puxando-o para dentro e laçando seus om bros o guiou até a sala. - Fico feliz que estej a tão ansioso para o grande acontecim ento. - O velho havia interpretado errado, m as positivam ente, sua chegada antes da hora. Conseguiu sorrir m ais naturalm ente depois disso. - Minha filha descerá em alguns m inutos.
Sentaram -se no sofá e o coronel ofereceu um aperitivo que Lucca recusou. Não estava acostum ado a bebidas alcoólicas e não queria correr o risco de perder as estribeiras em razão de um a dose, por m enor que fosse.
– Disse a Vitória que o convite para o j antar era um pedido de desculpas por term os desconfiado de sua honestidade ontem - sussurrou o coronel Cruz. - Não quero que ela saiba que tenho algum a coisa a ver com o pedido - o velho piscou para o j ovem . - Quero que sej a o m ais natural possível.
Lucca sorriu m eio desconcertado, balançando a cabeça. Lá estava outro aviso introduzido na m ensagem . Sentia o peso da j oia em seu bolso com o se tivesse toneladas e não quilates. Ainda assim , era tão perceptível quanto um a im ensa pedra. Nada sutil. Queria desviar-se do assunto e deixar que o m om ento o guiasse. O que não era o caso agora.
Enquanto procurava um assunto para expor com o sogro antes que o j antar fosse servido, passos atrás dele, sobre o piso de m adeira, interrom peram seus pensam entos. Antes de se virar, o sorriso tím ido em baixo do bigode de José Cruz lhe indicou quem entrava na sala.
Paralisado e sem palavras, Lucca deixou seus olhos seguirem as form as da m ulher diante de si. Vitória usava m aquiagem leve que realçava seus traços, um vestido j usto preto que m odelava suas form as sensuais, um a sandália que a deixou alguns centím etros m ais alta e o cabelo m eio preso com fios soltos no rosto, tornando-o enigm ático.
– Você está linda - suspirou ao final da análise.
Com passos elegantes e com edidos, Vitória cam inhou até Lucca e o beij ou rapidam ente nos lábios.
– Obrigada - respondeu, por fim , com um lindo sorriso.
Com a vaidade que lhe era peculiar, Vitória j am ais seria um a m ulher feia. Havia recursos disponíveis para vesti-la bem , para seus tratam entos de pele, de cabelo e para m anter seu corpo sem pre m odelado. Não era um a beleza única e extraordinária, m as a seu m odo, e para Corum bá, sem pre seria bela.
– Pedirei para servirem o j antar - com unicou o fazendeiro. - Vam os nos sentar à m esa, crianças?
O j antar foi leve e descontraído. O coronel ficou sentado à cabeceira da enorm e m esa enquanto o casal se sentou im ediatam ente a seu lado, Vitória à esquerda e Lucca à direita. Sugestão do dono da casa, evidente. A im pressão do genro era que anfitrião queria assistir ao espetáculo do m elhor ponto de vista da plateia. Apesar do clim a am eno à m esa, de vez enquanto sogro e genro trocavam olhares repletos de significado.
Após a sobrem esa, conversas alegres ainda enchiam o am biente e o coronel Cruz interrom peu as frivolidades bruscam ente.
– Então, j ovens, o que acham de abrirm os um bom cham panhe?
Era a deixa para Lucca. O sogro se retirou da sala, não antes de apertar, levem ente, o om bro do genro. A tentativa de apoiá-lo era nítida e forçada. Porém , esse era o m om ento para o qual se preparara há vinte e quatro horas. Pigarreando, ergueu-se da m esa e pegou a m ão da nam orada.
– Gostaria de lhe fazer um a pergunta, Vitória - falou enquanto a guiava até o sofá na sala ao lado.
Não havia parede para separar os dois am bientes, então, chegaram ao m óvel bem depressa. Lucca não fazia ideia de com o im provisar. Então, foi direto ao ponto, j á que Vitória o olhava com curiosidade.
– Am or - apertou sua m ão com um pouco m ais de força -, você aceita se casar com igo?
Todos os discursos que j á ouvira para um m om ento com o aquele não se encaixavam . Sem pre fora m uito direto para se deixar levar por frases prontas que apenas serviam para adiar um pouco m ais o pedido. Com o coração disparado, as m ãos transpirando, Lucca observou atentam ente a expressão de surpresa, e depois de alegria, m oldar o rosto de Vitória.
– Claro que sim - exclam ou j ogando-se nos braços do agora noivo.
Beij aram -se efusivam ente e por um longo tem po, esquecendo-se de que o pai da noiva estaria de volta a qualquer m om ento. E ele estava m esm o lá quando se separaram e Lucca tirou do bolso a j oia que colocaria em seu dedo.
– Oh! - Foi a expressão de espanto e adm iração que Vitória deixou escapar enquanto Lucca ornam entava sua m ão direita.
Vitória contem plou m aravilhada a pedra, sob a luz da lâm pada, refletir m il cores com o um prism a. Neste m om ento, o fazendeiro quase se interpôs entre os dois, com três taças em um a m ão e um a garrafa de cham panhe na outra j á aberta. Lucca o aj udou a servir os cristais. Quando todos seguravam a sua, o coronel ofereceu o brinde.
– Ao futuro!
E o tim tim dos cristais se chocando ecoou na sala.
– Ao am or! - exclam ou Vitória feliz.
Lucca sentiu que devia dizer algum a coisa tam bém . Algo diferente e tão im portante quanto o que haviam proposto. E, depois de pensar por alguns m ilésim os de segundo, alcançou um a saída.
– À fam ília!
Por fim , os três sorveram um gole do espum ante com satisfação. O coronel abraçou os dois j ovens de um a só vez e bem apertado.
– Estou m uito feliz por vocês, m eus filhos - iniciou um discurso m eloso; - Quero que saiba, Lucca, que j á te considero da fam ília há m uito tem po. E você, m inha filha, fez um a ótim a escolha. Esse casam ento não poderia ser m ais perfeito. Entregarei sua m ão com im ensa alegria.- Apertando um pouco m ais, finalizou. - E que venham os netos!
Gargalhou e os soltou. Enquanto bebericavam , espalharam -se no sofá. Lucca e Vitória não se largavam por um só segundo, acariciando-se m utuam ente. O velho suspirou e com eçou um discurso um pouco diferente.
– E então, para quando vam os m arcar a data?
A inclusão de si m esm o na escolha da data acendeu um alerta na cabeça de Lucca. Porém , antes que qualquer um dos dois pudesse responder, ele prosseguiu.
– Quero que sej a antes da festa da padroeira da cidade.
Lucca calculou quanto tem po faltava até o dia dois de fevereiro e paralisou enquanto o sogro voltava a falar.
– Não se preocupe com os gastos, Lucca, faço questão de bancar tudo, j á que o tem po é curto. Quero que sej a um grande evento, com o m inha filha m erece. - Deu de om bros enquanto acrescentava. - Vocês estão j untos há tanto tem po, não é? Por que esperar m ais? Vam os ao casório!
PRISIONEIRO
Acordei com a audição hipersensível naquele domingo. Não era algo que irritava, ao contrário, me permitia perceber todos os sons ao meu redor. Era mais como sentidos aguçados. A cidade despertando, pessoas caminhando, cochichos, uma televisão ligada, um rádio em um carro passando na rua. Água esquentando no fogão a gás. Isabel devia estar preparando o café.
Antes de me levantar para mais um dia, avaliei o ultimato do coronel na noite passada. Eu me lembrava de ter ficado atônito, incapaz de dizer não. E como poderia fazer isso ao homem mais poderoso da cidade? José Cruz estava acostumado a realizar todos os seus desejos, afinal, o que significavam quando se tinha muito dinheiro?
Contei mentalmente os dias que faltavam para o casamento. Apenas treze, sem contar hoje. Não era supersticioso, mas não gostei do número. Fora que estava perto demais. Significava que, no final do mês, seria oficialmente um homem casado. Estava acostumado a ser independente, apesar de ainda viver na casa de meus pais, mas sabia que a partir de fevereiro, viveria sob as rédeas - ou regras - do fazendeiro.
Como um funcionário, um empregado de sua fazenda, serviria para seus propósitos. Senti-me mal. Somente eu mesmo poderia impedir isso. Mas como? Como poderia acabar com os sonhos de Vitória por culpa das loucuras de seu pai? Não poderia. Estava feito e agora tinha apenas alguns minutos antes de encarar minha família para montar a melhor máscara de felicidade.
Lá no fundo - bem no fundo, em algum lugar quase inacessível dentro de mim - estava feliz. Precisava deixá-la vir à tona e apagar as preocupações de minha mente. Sentei-me e conferi a cama de solteiro ao meu lado. Edmundo ainda dormia. Olhei cada objeto do cômodo já sentindo saudades. Viveria apenas alguns dias ali e depois minha vida mudaria para sempre.
Arrastei-me para fora do quarto até o banheiro como se puxasse uma corrente de ferro pesada. Era assim mesmo que e me sentia, carregando um fardo enquanto caminhava para a forca. Como um prisioneiro de filmes, que tem que arrastar correntes enquanto realiza o serviço pesado para diminuir sua pena. Ou enquanto é levado para a execução de sua sentença.
Tomei um banho breve e passei direto pelo espelho. Não estava a fim de me encarar. Se fizesse isso, teria que questionar o que - em sã consciência - estava permitindo acontecer. Não era mais hora de questionamentos e sim de atitude. Seguiria o tal destino traçado por mim sem olhar para trás. Lembrei-me de novo - quantas vezes mais teria que fazer isso? - de que era o que queria fazer.
Cruzei com Edmundo no corredor enquanto voltava para o quarto a fim de me vestir. Ele nem sequer levantou os olhos do chão para me encarar. Hoje seria um dia difícil - talvez o pior de todos os que já vivi. Fiquei imaginando a reação de meus familiares enquanto me vestia. Porém, não tive certeza de estar pensando corretamente.
Respirei fundo antes de sair do quarto. Fiquei surpreso ao vê-los à mesa. Minha preparação matinal havia me atrasado - e consequentemente atrasado o café da manhã da família inteira. Apressei-me em me sentar no meu lugar de sempre. Antes de fazer qualquer movimento para começar a refeição, minha mãe fez a pergunta que, provavelmente, todos queriam fazer.
– E, então, Lucca, como foi ontem?
Tentei agir naturalmente. Enquanto me servia de pão, café e arroz com carne seca, narrei todos os pormenores do jantar de noivado. Não era um hábito contar com detalhes. A intenção era adiar o desfecho daquela narrativa o máximo que eu pudesse. Todos me ouviam também aproveitando para escolherem a comida.
Ainda assim, não estava preparado para a reação geral na mesa. Todos ficaram imediatamente paralisados, como estátuas, assim que falei qual era a data. Lutei para não reagir da mesma maneira. Meu coração saltitava com desespero. Mantive os movimentos normais e tentei manter a aparência de total despreocupação enquanto mordiscava meu café. Isso me impediria de falar ou tremer.
O silêncio prosseguiu, total e opressor, por vários minutos. Começava a ficar impaciente, decidindo o que dizer para tranquilizá-los, mas Edmundo o quebrou. Sua voz estava apática e sem vida.
– Por que a pressa?
Pelo visto, era a pergunta que todos estavam pensando, porque olharam imediatamente para mim, esperando uma resposta. Eu simplesmente dei de ombros, incapaz de encontrar minha voz.
– Vitória está grávida?
Essa pergunta só podia vir de meu pai. Apressei-me em explicar-me.
– Claro que não.
Percebi o alívio que moldou seu rosto e consegui sorrir.
– Talvez o coronel tenha medo de que Lucca enrole Vitória por mais uns anos, mesmo depois do noivado - deduziu minha irmã caçula.
– Alice! - repreendeu minha mãe.
– Que foi? Não estou dizendo que é intenção de Lucca, mãe. Só estou tentando entender o que o pai de Vitória estava pensando quando decidiu apressar o casamento.
Não havia pensado naquilo antes, mas fazia sentido. No entanto, já passara da hora de me manifestar.
– Está tudo bem, mãe - suspirei demonstrando indiferença. - Não me importo com a data. -Sorri, tentando transparecer segurança em minhas palavras. - Porém, acho melhor irem atrás das roupas para o casamento amanhã mesmo.
Meu tom de voz teve o efeito que eu esperava. A nuvem escura desvaneceu dos rostos de meus familiares - bem, de quase todos. Edmundo não se recuperou e não parecia ouvir enquanto, animadas, as duas mulheres falavam sobre a cerimônia. Eu me esforcei para parecer interessado.
– Onde vai ser o casamento, filho? - perguntou minha mãe.
– Na fazenda - respondi.
E praticamente não precisei mais falar enquanto elas comiam e tagarelavam. Discutiram sobre a decoração ao ar livre, que seria muito bonita, porém tinham que confirmar como estaria o tempo. Seria um casamento suntuoso, com muitos convidados. O coronel pretendia chamar autoridades e empresários. E minha mãe estava pensando em meus tios e primos.
Antes que todos saíssem da mesa, ainda tinha um recado a dar.
– Tem mais uma coisa. - Todos se voltaram para mim apreensivos. - O coronel convidou nossa família para um almoço formal hoje na fazenda. Uma forma de confraternizarmos antes do casamento. Está marcado para o meio-dia.
Apesar de vivermos bem, todos trabalhávamos e ajudávamos, de alguma forma, no sustento da família. Não estávamos habituados ao luxo e a ostentação vividos na fazenda. Agora a preocupação era que roupas usar e o que fazer com o cabelo.
A manhã foi a maior correria, resultado dos preparativos para o tal almoço entre as duas famílias. Tentei me distrair com livros, músicas e televisão, mas nada foi eficiente. Por fim, o tempo passou mais rápido do que desejava e todos já estávamos prontos para partir.
No meu carro foram Alice e Jader, e Edmundo foi com nossos pais. Meu irmão estivera excepcionalmente calado e distante. Duvidei, inclusive, que fosse ao almoço. Porém, mais uma vez, me surpreendeu. Não dei oportunidade para que Isabel conversasse comigo a sós. Queria que ela curtisse o momento como mãe do noivo.
O coronel e Vitória vieram nos recepcionar na escadaria. Era engraçado como a família para a qual eu estava entrando era bem menor que a minha. Todos se cumprimentaram alegremente, porém com certa restrição. Ninguém teve coragem de ser efusivo. Bem, ninguém não se aplicava a Vitória. Ela praticamente atirou os braços finos envolta do meu pescoço, confiando que a ampararia. Também me beijou com ardor. Tive que interrompê-la para que não ficasse estranho.
A sala estava diferente da noite anterior. Havia muitas flores espalhadas pelo cômodo, acomodadas em vasos, aparadores e mesinhas. Dava-lhe um ar muito mais alegre. Não pude deixar de comparar com o espírito de Vitória. Combinavam perfeitamente.
O próprio coronel serviu o tereré aos homens. A bebida gelada à base de erva-mate servida em uma cuia era refrescante e calhava bem com o momento em família que vivíamos. O anfitrião havia pensado em tudo.
Enquanto conversávamos, observava os rostos com tranquilidade. Hoje meu sogro estava radiante. Quando digo isso, me refiro a cara alegre e não fechada de sempre. Ainda que o sorriso não passasse de arremedo sutil. Eu acreditava que ele não estivesse acostumado a sorrir.
Consegui prender o sorriso nos lábios e o estampei o tempo todo. Vitória também não parava de mostrar os dentes muito brancos e perfeitos. Estava bonita, porém menos sexy que na noite anterior. Estava mais com cara de mulher séria e reservada. Fiquei observando as diferenças de minha noiva e sua capacidade de se portar exatamente como o momento exigia.
Já estávamos famintos quando o almoço, finalmente, foi servido. Era um banquete - não que eu já tivesse ido a algum antes para distinguir a diferença. Porém havia comida de todo o tipo e suficiente para um batalhão. O coronel explicou que, como ainda não conhecia os gostos de sua nova família, pedira à cozinheira que preparasse todos os pratos típicos de Corumbá. Sua maioria feita à base de peixe e urucum, a semente vermelha usada como tempero.
A conversa ao redor da mesa estava descontraída. Podia ouvir os assuntos com clareza.
– Nunca fiz questão de casar na igreja - falava Vitória para minha mãe e irmã.
– Ah, não, aqui na fazenda vai ser muito mais bonito - disse Alice.
– Acho importante pelo menos ter a presença do padre - retrucou Isabel.
Sorri com o tom desaprovador de minha mãe. Sabia que por ser muito religiosa, sonhava em me ver casando na igreja, recebendo a benção de Deus, como Alice e Jader fizeram. Pensando na minha irmã, não sabia o que ela estava fazendo concordando com Vitória. Talvez apenas bajulando a cunhada. Minha irmã caçula não era vaidosa, mas tinha ambição e sagacidade para conquistar o que queria.
– E você, Edmundo, trabalha em que? - perguntou José.
Sabia que meu irmão vacilaria na resposta. Não tinha orgulho de seu emprego, porém não estudara e não lutara por algo melhor. Era um típico acomodado, que vive anos no mesmo emprego, sem nunca receber aumento de salário ou promoção.
– Na mineradora - interveio meu pai - Também atendo na enfermaria de lá uma vez por semana. Vida de médico é uma loucura. Consultório, hospital, empresa e aldeias.
Meu pai amava seu filho legítimo e por isso mesmo não passava a mão em sua cabeça. Ao contrário, dava-lhe duros conselhos sobre levantar o traseiro da cadeira e correr atrás de seu futuro. Porém, eu achava que não era desta forma que Edmundo seria motivado. Faltava um estímulo maior para ele e ninguém conhecia seu coração completamente para saber qual seria. Nem Isabel, mesmo perceptiva, não conseguia fazer o filho se abrir.
O coronel começou a discursar sobre a época de sua vida em que trabalhara na mineradora, como já havia me contado antes, me desliguei desse assunto enquanto ouvia Edmundo resmungar.
– Se acha tão superior.
Troquei um olhar duro com ele. O que quer que Edmundo estivesse pensando, não era nada agradável - deduzi por suas palavras. Não gostava do modo desrespeitoso que ele falava dos mais velhos. Às vezes nem se incomodava em falar em voz alta. Ele me encarou de volta, com a mesma expressão franzida, como quem diz “o que está olhando?”. Suspirei por fim. Por que meus irmãos não podiam ser pessoas normais?
Agora que não estava prestando atenção em nenhuma conversa em particular, achei estranho que ainda não pudesse deixar de ouvir. As vozes eram um zunzunzum alto demais. Podia ouvir cada palavra nitidamente sem esforço algum. Corri os olhos por cada rosto na mesa a fim de avaliar melhor. Notei - não sem algum sobressalto - que ninguém estava falando alto. Talvez até estivessem sussurrando. Então por que eu podia ouvi-los com tanta clareza?
Atordoado, desejei poder apertar o botão mudo e acabar com o som das vozes. Mas já que não era possível, comecei a prestar atenção em outros sons. Os empregados mexendo na louça na cozinha. Os passarinhos nas árvores lá fora. O uivo do vento soprando as folhas. Os cavalos e o gado correndo no pasto. O rio, cheio de vida, convidando pescadores a se aventurarem em seus barcos a remo ou a motor. Havia mais vozes ao longe, algumas cansadas, outras esbanjando energia. Carros passando na estrada. Animais cruzando a mata.
Enfim, alcançara meu objetivo. As conversas ao meu redor eram apenas um burburinho incompreensível. Porém, caindo em mim, percebi que podia ouvir muito mais do que imaginava. Como isso aconteceu? Quando começou? Por quê? O que havia mudado em mim? O que motivou essa mudança? Será que alguma aranha radioativa havia me picado no parque?
Sorri com esse pensamento. Apesar da loucura que me permiti pensar como explicação improvável, estava grato pela distração. Tentar encontrar as respostas para tantas perguntas me manteria a salvo da realidade que vivia. Abriguei-me, como um prisioneiro, em minha própria mente.
***
– Por que você está rindo?
Tam ires estava revoltada com o hum or de Marcel.
– Porque é engraçado.
Mesm o que a cunhada não concordasse com ele, não se sentiu intim idado e continuou gargalhando com o um louco. Era m uito irritante.
– Não tem graça nenhum a ser forçado a se casar!
A revolta dela se dava aos últim os acontecim entos com Lucca. Agora que Marcel o alcançara com sua capacidade de rastrear há grandes distâncias, estavam ligados perm anentem ente. Não era difícil localizá-lo, onde quer que estivesse.
– Não é bem assim , Tam ires - conseguiu dizer entre um a gargalhada e outra. - Lucca j á pretendia pedir Vitória em casam ento. Só teve um em purrãozinho do sogrão.
Conseguia deixá-la m ais exasperada.
– Eu nunca vi um casam ento tão rápido. Por que ele tem tanta pressa?
O cunhado deu de om bros.
– Não sei dizer. Mas o cara tem dinheiro, não vai ser difícil organizar o casam ento em duas sem anas.
Tam ires analisou a frase de Marcel, intim am ente concordando com ele. Porém , havia outras preocupações que havia pensado e duvidava que Marcel - em seu explícito ataque de hum or - tivesse parado para considerar.
– Você j á pensou no que esse casam ento im plica para nós?
Parou de rir im ediatam ente, captando com rapidez a seriedade do que a cunhada dizia.
– Não, para ser honesto - respondeu.
Tam ires com eçou a andar de um lado para o outro, com o se falasse para si m esm a.
– Pois eu sim . Se as etapas passarem por ele no m esm o ritm o acelerado que aconteceu com igo - pausou, deixando o pensam ento se encaixar na cabeça de Marcel antes de prosseguir -, bem , esse casam ento não vai dar certo.
Ponderou as palavras de Tam ires e acrescentou m ais aos seus pensam entos.
– Você tem razão. Com o ficou quatro dias em com a, você sentiu os prim eiros efeitos da pedra de um a só vez depois que acordou. - Pausou a fim de digerir as novas ideias. - Porém , com Lucca j á está sendo diferente. Os dons estão se m anifestando aos poucos e se fortalecerão em pouquíssim o tem po.
– Então ele pode chegar à transform ação total em m enos tem po do que eu.
Os dois se encararam por um longo tem po antes de Marcel quebrar o silêncio.
– Talvez. Mas o que m e deixa em dúvida é o fato de que a pedra não está com ele. -Desviou os olhos para o chão. - Não conseguim os localizá-la. É com o se houvesse um tipo de proteção envolta dela. Ela só se m anifestou duas vezes. Na sexta à noite e ontem à tarde no parque. Nos dois dias eu a senti perto dele, porém , depois que ele se afastou, eu a perdi novam ente.
Tam ires estava parada agora e olhava para o cunhado tentando entender aonde ele queria chegar com aquele relato.
– Você acha que o fato da pedra não estar com ele pode afetar o tem po de sua m odificação?
Marcel deu de om bros.
– Não sei, Tam ires. Não posso afirm ar com certeza. Terem os que vigiar dobrado para que não haj a falhas novam ente.
Fechou a cara porque essa vigilância não a incluía.
– Odeio não poder fazer nada - lam entou.
– E nem precisa. Preocupe-se com você m esm a e em localizar a sua pedra. Precisam os das quatro quando o alinham ento chegar.
Balançou a cabeça afirm ativam ente apesar de contrariada. Em todo esse tem po a única coisa que fizera fora procurar por ela e ainda não tivera sucesso. O alinham ento perfeito dos planetas aconteceria em um m ês e m eio e eles não estavam preparados. Seria o evento m ais im portante para seu povo e seu m undo.
– Ainda acho que devem os ir para Corum bá o quanto antes, Marcel, para observá-lo de perto, ainda m ais que não sabem os com o se desenrolará os acontecim entos com ele.
Franziu o cenho desaprovando.
– Você não tem paciência, Tam ires. Fique tranquila que o cara vai ficar bem .
– Olha o j eito que você fala! - exclam ou a cunhada.
– Ah, não, era só o que m e faltava. Você nem conhece o Lucca ainda e j á toda protetora desse j eito.
– Marcel!
Erguendo as m ãos, com o rendidas, a acalm ou.
– Tudo bem , m e desculpe. Sei que ele é m ais im portante para você do que para m im .
– Você tam bém devia se im portar, j á que quer entrar pra fam ília.
– Rá! - exclam ou em resposta - Já pertenço à fam ília, baby. Com ou sem Lucca. Cheguei prim eiro.
O cunhado realm ente não tinha j eito. Tam ires suspirou e se sentou na poltrona. Deixou os pensam entos vagarem entre cada ponto da conversa que tiveram . Se ela não poderia aj udar observando, tentaria aj udar pensando. Colocou a m assa cinzenta para funcionar enquanto Marcel voltava para j unto de Suzane no quarto.
PLANEJAMENTO
Segunda-feira. Mas não era como outra qualquer. Estava noivo. Represei as emoções dentro de mim - não era algo difícil de fazer - e fui enfrentar um dia comum com minha família à mesa da cozinha.
Ninguém me decepcionou. Todos estavam muito animados com a proximidade do casamento. A única exceção - e ainda não entendia por quê, apesar de pensar nisso durante os últimos dias - era Edmundo. Ele estava sentado de forma desolada à minha frente. Olhava para o prato de sopa intocado, porém eu sabia que ele não estava vendo nada. Sua mente estava muito longe dali. Mas onde?
Ainda tinha outro problema. Não era para ser, porém meu melhor amigo Carlos estaria esperando por mim para saber o que aconteceu. Fugi o máximo que pude de seus telefonemas durante o final de semana, mas hoje teria que encará-lo.
Quando o conheci, Carlos estivera na minha turma de arqueologia da PUC-Goiás, onde estudamos durante longos quatro anos. Ele se apaixonou por Corumbá quando passou um mês inteiro de férias comigo e decidira, ao se formar, me acompanhar de volta pra casa.
Portanto, para ele eu era mais do que um amigo. Era um irmão. E eu assim o considerava também, já que Edmundo nunca fora amigável comigo. Não por falta de tentativas minhas.
O jovem que conheci na faculdade não mudara muito. Porém, apesar da relutância em se reconhecer como tal, tinha feições adultas e sérias que se refletiam em seu trabalho. Na vida pessoal, era um adolescente irresponsável.
Pensando em Carlos enquanto dirigia até sua casa, concluí que éramos muito diferentes. Completamente opostos. Era um milagre que nos déssemos bem. Mas sabia que essa diferença pesava muito em nossa amizade. Como agora.
Prendi a respiração enquanto estacionava em frente à pequena casa. Ao som do automóvel, Carlos saiu da varanda com seu sorriso espontâneo no rosto.
– Oi, cara - cumprimentou ele.
Engoli antes de responder para que minha voz não denunciasse meu nervosismo.
– Oi. Como foi seu final de semana?
Sabia o que estava fazendo. Adiando a pergunta que ele faria. Ao final de sua curta narrativa, porém, ele a fez.
– Então, como foi com Vitória?
Decidi que seria menos doloroso se contasse de uma vez. Não me prendi aos detalhes, porém não me esqueci dos que importavam. Enquanto eu falava, pelo canto do olho, via sua expressão mudar de sereno para espanto e depois à revolta.
Meu tom de voz era tranquilo e até consegui sorrir amigavelmente a fim de acalmá-lo. O automático estava dando certo. Não gostava disso. Honestidade era meu nome do meio, mas era bom em controlar minhas emoções e não me deixar controlar por elas. E, ao final, deu certo.
Suspirou resignado antes de falar.
– Casado em alguns dias?
As palavras dele causaram um novo reboliço dentro de mim que segurei fortemente para que não saltasse aos seus ágeis olhos.
- Sim - respondi firmemente e sorrindo, acrescentei. - Não é demais?
Claro que meu melhor amigo aceitou ser meu padrinho. E ainda anunciou que faria uma surpresa - como sua mente era rápida para encontrar atalhos. Ficamos em silêncio o restante do trajeto. Faria qualquer coisa pra saber o que Carlos estava pensando, mas achei melhor não perguntar. Havia sido mais fácil do que previra e não queria estragar o clima de paz.
Quando estávamos quase chegando ao parque, falou como se refletisse.
– Eu entendo.
Sem compreender o significado da pequena frase, perguntei.
– Entende?
– Se você não fizesse isso, não seria você. E estaria infeliz consigo mesmo agora.
Sorri. Fiquei grato por ter chegado a essa conclusão. Ao mesmo tempo, foi o melhor consolo que alguém havia me dado desde que tudo isso começou. Absorvi aquelas palavras e seu significado para dentro do meu peito sinceramente satisfeito.
– Talvez um dia eu faça a mesma coisa - disse de repente.
Ri alto dessa vez antes de responder.
– Espero que sim. Também gostaria de ser seu padrinho.
A manhã foi muito mais tolerável sem a carranca de Carlos me encarando. Eu me sentia leve enquanto me dedicava, junto com minha equipe, ao trabalho de escavação. Ainda mais porque estávamos atrasados, já que não trabalhamos no sábado de manhã, como previsto.
Na hora do almoço fui até a fazenda buscar Vitória. Ela queria contratar uma organizadora de casamentos. Claro que já sabia em qual iríamos e apenas concordei em acompanhá-la - ai de mim se tivesse me recusado. Era justo que eu estivesse junto, afinal eu era o noivo.
Como um bom cavalheiro, eu permiti que Vitória escolhesse tudo. Apenas concordava nos momentos que perguntava minha opinião para não parecer ausente. Enquanto íamos até a organizadora, tagarelava empolgada sobre pormenores do casamento. Coisas que nem sabia que seriam necessárias.
Tinha que admitir, Vitória era muito rápida e havia pensado em tudo. Muito do que tentou fazer com que eu entendesse era simplesmente impossível de entrar em minha cabeça. E me peguei divagando.
O som de sua voz suave e quase infantil me envolvia e pensei em como havíamos chegado até o casamento. Fiz uma retrospectiva em minha memória a partir do dia em que a havia conhecido, há cerca de sete anos.
Eu me formara há alguns anos e já trabalhava no sítio arqueológico da cidade. Era feriado, dia da Padroeira de Corumbá - como seria no início do próximo mês. Havia, como de costume, uma grande festa, com desfile e música.
Enquanto Carlos e eu nos apertávamos na multidão atrás das barreiras nas calçadas, os VIPs assistiam ao show nos camarotes cobertos. Neles também estavam autoridades do município.
Estava assistindo, animado, ao desfile e às bandas. Passeei os olhos pela multidão tentando encontrar um rosto conhecido. Também pelo palanque e pelos camarotes quando encontrei dois olhos escuros presos em mim.
A jovem bonita sorriu timidamente. Nunca a havia visto antes, mas não precisava ser médium para saber quem era. Ao seu lado estava o coronel José Cruz, portanto, aquela só poderia ser sua filha.
Desviei o olhar imediatamente tenso e torcendo para que o fazendeiro não tivesse percebido nada. Não queria passar uma má impressão e me concentrei em continuar assistindo ao evento.
Depois de um tempo já havia me esquecido do ocorrido e comentava o show com Carlos. Senti algum objeto raspando em minha cabeça e ergui a mão para segurá-lo. Era um chapéu e o havia visto em uma cabeça loira.
Eu me virei apenas para confirmar que a filha do coronel tentava chegar até mim para pegar seu acessório de volta. Esperei completamente em choque. Ela se aproximou com o sorriso mais lindo que eu já havia visto.
– Olá - cumprimentara antes de me alcançar. - Meu chapéu voou com a rajada de vento.
Estendi a mão automaticamente para devolvê-lo.
– Obrigada - dissera agarrando o objeto. - Meu nome é Vitória e o seu?
Gaguejei meu próprio nome, tentando inutilmente disfarçar meu desconforto. Para piorar a situação, ela estendera a mão branca de unhas bem feitas para me cumprimentar. Ela queria me tocar! Fiquei paralisado.
Carlos me dera uma cotovelada na costela para trazer de volta meus bons modos. Isso quase me jogara sobre ela. Seu corpo frágil e delicado ficara a apenas alguns centímetros do meu quando finalmente estiquei meu braço e fechei sua mão na minha. Não ousaria um cumprimento mais íntimo. Sua pele era tão suave que fora difícil me lembrar de soltá-la.
Conversamos sobre a festa por mais alguns minutos antes que Vitória se afastasse, porém, ao se despedir, deixou comigo seu número de telefone. Seus olhos brilharam ao pedir para que eu ligasse.
– Caraca! - exclamara Carlos depois que ela se fora. - O que foi aquilo? A filha do coronel deu em cima de você? Não acredito!
– Pare com isso - respondi sem graça. - Ela apenas está agradecida.
– Sei. E você pretende ligar?
– Claro que não!
Mas liguei. Alguma coisa nela me encantara. E não queria ser grosseiro. Afinal, ela queria que ligasse senão não teria me dado seu número de celular. Não tinha muito jeito com paquera, mas a convidei para sair. Vitória aceitou e fomos jantar em um restaurante conhecido da cidade.
Aquele foi apenas o primeiro de muitos encontros, porque Vitória tomou iniciativa também, assim como na concretização de nosso namoro. Depois de uns meses saindo juntos, me convidou para almoçar na casa dela.
Quase congelei e fui incapaz de responder por alguns segundos, mas acabei indo. Em nossas conversas, Vitória havia dito que seu pai não era tão durão, somente nos negócios, e que estava feliz por ela ter encontrado alguém especial e que também estava ansioso em me conhecer.
O almoço na fazenda terminara em um compromisso oficializado. Saí de lá como namorado de Vitória - nomeado pela boca do próprio coronel. Naquela noite, ela me preparou uma surpresa. Fui encontrá-la em um hotel.
Hoje, toda vez que a toco, me lembro daquela noite. Nossa primeira noite. Vitória fora ousada. Embaixo das roupas usava uma lingerie sexy preta. Ficara linda em contraste com sua pele branca. Parei de respirar enquanto se despia na minha frente. Meu coração batia descompassado, injetando adrenalina em meus músculos.
Não sabia se devíamos e que limites o coronel implicara ao tal namoro. Porém, era inútil tentar resistir. Além do que dizer não ofenderia Vitória. Percebia como ela ficava feliz quando estava comigo.
Nós nos amamos de forma delicada e carinhosa. Foi uma experiência diferente para mim. Até agora eu havia tido algumas experiências momentâneas e sem significado. Já havia namorado antes, mas sentia que com Vitória era diferente. Talvez porque o respeito que tinha por ela era indiretamente provocado por ser filha de quem era.
Não queria misturar as duas coisas, mas era inevitável. E tinha certeza de que a relação foi para frente por isso. Não queria decepcioná-la - implícito: não queria decepcionar o pai dela.
Porém era gratificante ver como ela havia crescido nesses anos. E como nossa relação se solidificou com o passo de tartaruga. Aprendemos a nos entender e conhecer e a nos adaptar um ao outro em prol da boa convivência.
E agora, enquanto a via falar com doçura e suavidade à organizadora de eventos, sabia que não estava ali por medo do coronel. Estava ali por ela, porque a minha companhia a fazia feliz.
Fiquei feliz também quando constatei essa verdade. Essa era a resposta que tanto precisava para a pergunta: por que estava me casando com tanta pressa? Continuava sem entender o sentimento, porém, a expressão no rosto de minha noiva o traduzia para mim.
Havia prestado atenção suficiente para saber que Vitória havia sido exigente, apesar de educada, e que havia feito boas escolhas. A festa seria um evento grandioso - como tudo que cercava a vida dela. Sinceramente não me importava. Contanto que fosse do jeito que ela sempre sonhou, ficaria satisfeito também.
Vi uma pontada de desespero no olhar da organizadora de casamentos. Ela tinha muito pouco tempo para preparar um grande evento. Vitória a tranquilizou com um cheque em branco -o coronel havia sido generoso o suficiente para dar liberdade à filha com relação aos gastos.
Fomos almoçar juntos enquanto Vitória programava nossa semana. Teríamos muito a discutir e escolher nos próximos dias. Apesar de já estar atrasado para voltar ao trabalho, permiti que ela continuasse falando. O som de sua voz era agradável. Sua alegria me preenchia.
Quando a deixei na fazenda, fiz questão de acompanhá-la até a entrada. Algo revolvia dentro de mim como se quisesse sair, implodir. Assim que cruzamos a porta, a beijei. O clima do casamento estava me influenciando. O beijo não foi apenas uma despedida, me peguei apertando com força o corpo dela contra o meu.
Vitória retribuiu com paixão quase me fazendo perder a noção de onde estávamos e que precisava voltar para o trabalho. Diminuí o ritmo do nosso beijo até que nos afastamos sem fôlego. Mantive-a em meus braços enquanto lhe sussurrava ao ouvido.
– Eu te amo.
Então soube que, o tempo todo, era isso que meu coração queria externar.
***
– Com o ela está?
A expressão de Tam ires era de preocupação enquanto estava sentada no sofá agarrada ao seu pij am a. Suas m ãos se retorciam no tecido de ansiedade.
Marcel era dado ao dram a apesar de, no caso, haver m otivo para isso. Sentou apático ao lado da cunhada no sofá e dem orou vários segundos para responder.
– Um pouco m elhor. - Colocando a cabeça entre as m ãos, confessou - Não sei o que fazer!
Abraçou o cunhado para lhe dar apoio. Entendia m uito bem o que era estar de m ãos atadas.
– Já falei para ela não abusar, m as não m e ouve! - desabafou Marcel.
– Eu sei - respondeu Tam ires. - Ela não ouve ninguém .
Além de Marcel, Suzane tam bém gostava de ser m elodram ática. Sem pre pensava m ais nos outros do que em si m esm a. Sem pre se cobrava a se esforçar m ais.
– Achei que quando você estivesse conosco, ela dividiria a vigilância - continuou Marcel.- Mas ela se acha a única responsável.
– Ela não vê que é a m ais fraca de nós - com pletou Tam ires.
Marcel levantou a cabeça sobressaltado.
– Não diga isso a ela. Vai ficar furiosa! - um esboço de sorriso m oveu seus lábios m uito leve e por m eio segundo - Eu achava que se esforçava tanto por m inha causa, m as vej o agora que ela sim plesm ente é assim .
Tam ires acariciou os om bros do cunhado grandalhão.
– Sei que estou aqui há pouco tem po, m as j á havia percebido isso - disse a cunhada. -Suzane não vai descansar enquanto não encontrar todos eles.
Marcel j ogou as m ãos para o alto com desespero.
- Isso quando ela consegue - lançou um olhar triste e rápido. - Su nem aguenta m ais ficar acordada por m uito tem po. Está m uito fraca pelo grande esforço. - Fez um a pausa. - Isso com eçou enquanto procurávam os por você. Aos poucos, suas horas de sono foram aum entando de oito para nove, dez, onze - sua voz denunciava sua angústia. - Agora dorm e m ais de quinze horas por dia e não vê que precisa reabastecer as baterias antes de continuar tentando.
– As visões funcionam enquanto ela dorm e - refletiu Tam ires. - Talvez por isso não se preocupe com o esforço redobrado.
– Sim , pode ser - balançou a cabeça. - Não sabem os bem com o essas coisas funcionam . E para m im é diferente do que com vocês. Vi você evoluir com rapidez. Acho que Suzane foi despertada precocem ente, talvez por isso seus dons sej am tão lim itados.
– Não contarei a ela que você disse isso - tentou brincar Tam ires. - Acho que você tem toda razão – continuou, agora séria. - Ela não está usando toda a capacidade que tem porque ainda não passou por todos os estágios da transform ação. Talvez por isso ainda não tenha descoberto quem está por trás do sum iço da am etista.
Marcel recostou-se no sofá antes de responder.
– Tento explicar isso para Suzane, m as ela acha que é responsável até pelo sum iço da pedra j á que não viu o que iria acontecer. Isso está fazendo com que procure por dois alvos ao m esm o tem po, extinguindo assim todas as forças que tem . E a culpa é m inha porque cheguei a acusá-la.
– Três, você quer dizer - interrom peu Tam ires. - Tam bém não sabem os onde está a pedra de Lucca.
- Ah, é, verdade - respondeu desanim ado. - Já tentei de tudo, Tam ires. Quero que ela saía daquele quarto, linda e saudável. O que será de nossa m issão se não conseguir ficar em pé no dia do alinham ento?
Tam ires franziu o cenho.
– Você só está pensando nessa m issão? E a vida dela?
– Não, claro que não - apressou-se em corrigir. - Estou apenas afirm ando sobre a incoerência de sua atitude. Ela está se sacrificando pela m issão, m as talvez não suporte ver o resultado de seu esforço.
Paralisada com a resposta do cunhado, Tam ires nada disse. Pesou suas palavras e elas lhe causaram dor. Marcel tinha razão, de novo. Às vezes parecia j ovem e im aturo, porém nas horas m ais im portantes sem pre podia contar com ele.
Sentiu-se culpada tam bém . Marcel am ava sua irm ã m ais do que ela. Não fora capaz de ver o real perigo que Suzane corria. Estava m ais preocupada com o m arido e a filha que deixara para trás. A m elhor am iga que lhe escrevia, frequentem ente, com notícias de casa; o pai que perderam tragicam ente há pouco tem po, antes m esm o antes de saberem quem ele era; a escolha que havia feito ao seguir Marcel em busca de sua fam ília e de sua origem ; o fatídico dia do alinham ento dos planetas, que lhes daria poder e a única chance - em trinta anos - de voltar para casa.
– Marcel - cham ou decidida. - Vou falar com ela.
– Ah, boa sorte!
O sarcasm o im plícito ofendeu a cunhada.
– Oh, desculpe - corrigiu Marcel. - Sei que sua intenção é boa, porém ela não vai ouvir.
Tam ires se ergueu do sofá em um m ovim ento rápido e enquanto cam inhava para dentro da casa, respondeu:
– Não custa nada tentar.
PERSEG UIÇÃO
O Museu de História do Pantanal - o Muhpan - abriga m ais de oito m il anos de ocupação hum ana na região. Nasceu com o obj etivo de preservar e valorizar a cultura do lugar. Localizado no Edifício Wanderley & Bais em um ponto estratégico de Corum bá, está em frente à praça revitalizada no porto, área tom bada pelo Patrim ônio Histórico. A arquitetura dos casarões se m istura entre as várias nações latinas do final do século XIX.
No setor de arqueologia do m useu encontra-se todo o acervo de artefatos escavados pelos escavadores. Pinturas rupestres, petroglifos - gravuras em baixo relevo -, obj etos líticos -rochas e m inerais usados com o m atéria-prim a na fabricação de instrum entos e artigos religiosos-, cerâm icas e fósseis da m ega fauna, estão entre eles.
A peça m ais rara encontrada é a escultura de um a representação fem inina apelidada pelos arqueólogos de Vênus Pantaneira. Já a corum bela é o fóssil de vida anim al m ais antigo do planeta, com quinhentos e sessenta m ilhões de anos de idade, e foi desenterrada em terras do Pantanal.
Era em cim a das raridades que Lucca e sua equipe trabalhavam com afinco nos últim os anos. Porém , até agora, haviam apenas encontrado fragm entos de cerâm icas e pontas de flechas da época da pedra lascada e polida.
No entanto, tinha fé no obj eto que estavam escavando no m om ento. Toda a equipe estava eufórica. O artefato era grande e ainda não dava para identificar com o sendo fóssil ou lítico. A régua estratigráfica, que m edia a profundidade da escavação, dizia que a peça seria de pelo m enos dois m il anos atrás. A fogueira a carvão estava sem pre acesa para que pudessem fazer o teste de carbono e conferir a datação do obj eto im ediatam ente à extração.
Depois do alm oço com Vitória, voltou ao trabalho m ais focado. Ele e Carlos estavam concentrados nesse obj eto que consideravam prioritário. A esperança de que essa seria a grande descoberta de suas carreiras - ou pelo m enos a prim eira delas - estava no tam anho do buraco que abriram nas últim as sem anas e que, no entanto, ainda não revelava o artefato inteiro. O retângulo tinha m ais ou m enos cinquenta por vinte e cinco centím etros e os dois trabalhavam nesse form ato com o obj etivo de identificá-lo.