Filho da Terra - Os Quatro Elementos, Volume 2

Josy Stoque · Capítulo 1 de 1 · parte 7/13

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Filho da Terra - Os Quatro Elementos, Volume 2

Prólogo

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 13 partes.

Meus olhos estavam presos no temeroso olhar de Mainá. Aj ude-m e! Eles gritaram para mim, traduzindo seus pensamentos aflitivos. Foi aí que desviei meus olhos para Edmundo, pronto para me mover sobre ele.

Antes que meus músculos se mexessem, no entanto, meu irmão foi atirado contra a parede de pedra e escorregou até o chão, levemente tonto. Voltei minha atenção, aturdido, para Mainá, meio agachada de susto, e ela me retribuiu, espantada. Com o fez isso? Seus olhos me perguntaram. Apenas havia cogitado atacá-lo, mas não havia me movido sequer um milímetro. Olhei novamente para Edmundo que recobrava o equilíbrio.

– Como teve coragem de me atacar pelas costas? Seu covarde! - vociferou.

Não estava preparado para aquilo. Foi então que senti a energia externa se desvanecer como a passagem de uma brisa, voltando para dentro de meu corpo de imediato. Olhei minhas mãos tentando entender o que havia acontecido ali.

Minha distração não me permitiu prever a reação de Edmundo. O grito de Mainá apenas fez com que erguesse meus olhos em sua direção e, pela visão periférica, pudesse perceber o ódio com que meu irmão saltava sobre mim.

Instintivamente, a energia pulou de mim para fora - apenas ao pensamento de me proteger - e atingiu Edmundo direto, jogando-o contra uma pedra. Percebi que havia estendido minhas mãos em sua direção, , sem tocá-lo.

Meu irmão também percebera e dessa vez - como vira com seus próprios olhos - não havia confusão em sua face. Havia horror. Levantou-se em um só pulo, olhando para mim perturbado.

– Aberração! Alienígena! - gritou enquanto corria para fora da gruta. - Você não é deste mundo! Preciso avisar Vitória!

Movi minhas pernas longas e fortes para acompanhá-lo. Quando percebi que Mainá vinha atrás de mim, parei imediatamente e me virei para ela.

– Quem era ele? - perguntou assustada.

– Preciso ir atrás dele antes que conte para alguém sobre você - respondi com pressa.

–Vvou com você - falou decidida.

– Não - retruquei com firmeza. - Espere aqui. Volto assim que as coisas acalmarem. Não será bom se vier comigo. Não quero colocá-la em perigo de novo. Precisaremos de um novo esconderijo para você.

–- Não se preocupe comigo, Lucca. Eu me viro. Estou preocupada com você, mas acho que é bobagem minha. Sabe muito bem se defender, pelo que acabo de ver.

Não tinha tempo para discutir sobre aquela novidade com Mainá. Tinha que alcançar Edmundo antes que ele chegasse até Vitória. Meu novo corpo me levaria até ele a uma velocidade incrível. Curtiria o trajeto com o vento batendo direto em meu rosto. A sensação de força e liberdade me fez sorrir. Desde que tudo começara, era a primeira vez que sentia realmente prazer comigo mesmo.

CIÚMES

 

Tam ires não estava aflita com os detalhes da cena que Marcel lhe descreveu. Im aginava apenas quais seriam os m otivos de Edm undo para sentir tanto ódio de Lucca. Mas não estando lá, seria difícil aj udá-lo com isso.

Balançando a cabeça, se lem brou que ele tam bém podia saber a verdade, talvez até m elhor do que ela. Afinal, não poderia lhe dizer m ais do que ele j á sabia. Sua sensibilidade aos sentim entos não seria útil contra o poder do pensam ento.

Seu sorriso cham ou a atenção de Alexandre, sentado ao seu lado na areia clara e fina da praia.

– No que está pensando? - perguntou.

Voltando seus olhos para o cunhado, se distraiu com a força atrativa que exercia sobre ela. Respondeu logo antes que se perdesse.

– Em Lucca.

– Ah.

Alexandre estava sendo m uito com preensivo e paciente, espantando Tam ires. Ela finalm ente lhe contara sobre a descoberta, porém se abstivera aos detalhes. E ele não a estava pressionando para saber, respeitando seu tem po. Ela pensou de novo com o ele era diferente de seu irm ão.

Porém sua atitude só a fazia se sentir m al pela desconfiança. Não era bem por ele. Mais por Lucca. A precaução se estendera para Carolina e Gustavo tam bém . Som ente Suzane, Marcel e Tam ires sabiam sobre sua chegada. Eram um a unidade agora, pensando e agindo em prol de um a causa m aior. Ainda assim , não conheciam tudo, por isso, não queriam correr o risco de atrair perigo verdadeiro para Lucca. Estavam vigiando-o atentam ente.

Havia contado a Alexandre apenas seu nom e e nada m ais. Marcel lhe pediu para m anter o segredo, não por não confiar nele, m as porque ainda não o conheciam direito.

Toda a inform ação extra que lhe dera sobre a origem da guerra que travariam em pouco m ais de um m ês não fora suficiente para fazê-lo um aliado legítim o. Ele ainda teria que provar seu valor.

O sol desaparecia com rapidez no horizonte e ela suspirou com o fim de m ais um dia.

***

Cortei caminho através do parque, atravessando a área alagada rumo à fazenda. A pé talvez não fosse mais rápido, mas não queria perder tempo voltando ao meu carro. Edmundo tinha alguns minutos de vantagem sobre mim.

Minha mente trabalhava feroz para entender o que havia acontecido na caverna. Aquela mesma força que movia agora meu corpo em alta velocidade tinha, de alguma forma, se extraído de mim e atingido Edmundo. Como, meu Deus!? O que eu era afinal? Nunca a minha verdadeira origem fora tão desconhecida e assustadora. Sempre me achei normal, por mais que não fosse daquela terra. Mas isso estava fora dos limites racionais.

Será que eu realmente era um alienígena? Associei-me a imagem do super-homem e afastei imediatamente o pensamento. Apesar de todas as coincidências, como a pedra - que no meu caso era boa - , a força bruta e a velocidade, ainda não podia aceitar esse tipo de explicação sobrenatural. Que mania ridículo de fazer associações cm heróis de quadrinhos.

Desviei meus pensamentos novamente de minhas dúvidas. Precisava de uma solução para convencer Edmundo a não me entregar. Mas como? O que poderia falar para que me escutasse? Era tão irredutível! Seu ódio o faria contar tudo com o maior prazer. O que Vitória acharia de Mainá? O que ela pensaria de meus poderes sobre-humanos? Também me veria como uma aberração?

O terror me tomou por completo. Imaginar que minha noiva passaria a ter nojo, medo ou desprezo por mim fez meu estômago revirar. Visualizei em minha mente seu rosto e a expressão constante de adoração substituída pelo horror.

Não queria que soubesse quem eu verdadeiramente era, ou melhor, o que eu podia fazer. Afinal, também não sabia quem era e precisava descobrir logo. Talvez um dia lhe contasse tudo, com calma e confiança. Nossa relação permitiria isso.

Confiança. Essa era a palavra que me salvaria hoje. Não podia transmitir toda minha insegurança com relação ao que era. Tinha que demonstrar saber o que estava fazendo. Assim poderia convencer Edmundo.

O exercício de esconder meus sentimentos controversos trouxe com facilidade o autocontrole de volta para minha mente, deixando meus pensamentos ágeis e claros. Eu me concentrei em observar mentalmente as reações e palavras de meu irmão a fim de encontrar uma saída.

Nesse momento, avistei a mansão imponente entre o cenário verde pantaneiro. Sem moderar o passo, saltei os degraus da escadaria e atravessei as grandes portas que estavam abertas. Em dois passos estava dentro da sala de estar da mansão diante dos olhos assustados de meu irmão.

Naquele segundo, soube tudo. Devia ter tido coragem de contar tudo para Vitória. Agora Lucca vai enganá-la novam ente e eu a perderei para sem pre. Finalmente! Seus pensamentos ficaram claros para mim. Não era eu o problema. Era Vitória!

– Edmundo... - sussurrei vitorioso diante da descoberta.

Eu o vi se encolher ao som do próprio nome como se exposto. Vitória se voltou para mim com o sorriso radiante na face.

– Lucca! - exclamou erguendo-se do sofá e correndo em minha direção.

Seus braços doces estreitaram meu corpo contra o seu e a sua boca quente e macia encontrou a minha com vontade. Meus olhos não perderam Edmundo de vista. Com o ela pode am á-lo? Ele é um a aberração! Seus pensamentos ferviam de ciúmes e despeito. Seu rosto moreno ganhou um tom avermelhado, deixando-o parecido com a cor da terra.

Vitória soltou meu corpo interrompendo o demorado beijo e sua mão agarrou a minha com força. Estava evidente a provocação. Sorri para ela com malícia e cumplicidade.

– Aconteceu alguma coisa, querido? - perguntou. - Edmundo teve tanta dificuldade em falar que por um momento pensei que algo de grave tivesse acontecido com você.

Ufa, havia chegado a tempo! O que será que o havia impedido de falar? Medo? Reparei no desprezo com que minha noiva olhou para meu irmão, pude perceber que Vitória sabia de seu interesse por ela há muito tempo. Cogitei quando Edmundo havia sido rejeitado e concluí que deveria ter sido antes de nos conhecermos. Isso explicava a atitude dele nos últimos dias. Antes me odiava por ser o irmão adotivo e intruso que havia usurpado sua primogenitura. Agora me odiava porque

havia roubado o objeto de seu desejo.

– Alguma coisa grave? Não - respondi sorrindo para minha noiva e com a maior cara de pau, me voltei ao meu irmão. - Edmundo?

Dessa vez ele recuou um passo. Seus olhos me diziam o quanto me temia. Não m e m achuque! Mais seguro de mim mesmo, resolvi usar seu medo a meu favor.

– O que está fazendo aqui? - a firmeza de minha voz fazendo-o afastar-se mais.

Mantive meu olhar duro e atento sobre ele como um aviso. Eu o vi lutando para encontrar uma resposta que não resultasse nele jogado contra uma parede outra vez.

– O que você quer com Vitória? - pressionei.

Pensou que estava do lado errado da sala, muito afastado da porta de saída para que pudesse fugir de mim. Como um covarde, nem se preocupou com a imagem que poderia passar para a mulher que desejava. Queria apenas livrar a própria pele. Senti desprezo por sua fraqueza.

– Seja homem, Edmundo! - exclamei.

Seu espanto foi maior quando percebeu que eu respondera a seus pensamentos. Que tipo de aberração você é? Seus olhos me perguntaram. Estava disposto a pressioná-lo ainda mais.

– Responda, Edmundo! - exigi. - O que você queria com a minha noiva?

Meus dedos acariciaram a pele suave do rosto de Vitória enquanto os olhos de Edmundo ficavam injetados de vermelho. Ciúmes, inveja, ódio explodiram de seu corpo. Pela visão periférica, o vi se atirar com ousadia sobre mim. Bem a tempo, afastei-me da pequena mulher pondo-me à sua frente para interceptar seu ataque e garantir sua segurança.

Desastrosamente caímos agarrados sobre a mesinha de centro transformando o vidro em minúsculos cacos quadrados. Fique longe dela! Seus pensamentos gritaram para mim quando o encarei. Suas mãos tentavam agarrar meu pescoço em vão. Usei toda a minha força sobre-humana para impedi-lo de alcançar seu intento. E antes que ele conseguisse se mexer um milímetro sequer, soquei seu rosto para fazê-lo parar de lutar.

– Oh! - ouvi o gritinho apavorado de Vitória.

Olhei para ela a fim de ver se estava bem e seus olhos responderam a minha preocupação. Os dois brigando por m im ? Que lisonj eiro! Enquanto me erguia distraído e intrigado com os pensamentos vaidosos de minha noiva, Edmundo me atacou pelas costas, jogando-me de novo contra os cacos.

Senti a ardência em meu rosto e mãos quando o vidro perfurou minha pele, mas não tinha tempo para me preocupar com os cortes. Precisava reagir antes que Edmundo fizesse um novo ataque. Eu me virei rápido demais para ser natural e com minha perna desferi um golpe certeiro no estômago, jogando-o contra o sofá. Com a força o móvel se arrastou até a mesa da sala de jantar parando somente depois de derrubar três cadeiras.

Tinha que parar os estragos. O coronel ficaria furioso com a destruição. Eu me ergui com um pulo ágil e agarrei Edmundo pela gola da camisa arrastando-o para fora da casa. Ele ainda estava mole e atordoado pelo último golpe.

– Seu verme, me solte! - ainda assim tinha forças para gritar. - Lute como um homem, seu alienígena!

Ouvi os passos curtos de Vitória nos seguindo porta afora. Estava amando o espetáculo e isso me deixou estranhamente tranquilo quanto aos problemas que Edmundo poderia ter conseguido para mim. Pela sua reação soube que jamais acreditaria nele. Ela o desprezava.

Eu, que odiava a violência, estava feliz com minha capacidade de lutar. Apesar disso, não queria continuar com aquilo, ainda mais na frente de Vitória. Era melhor irmos para outro lugar antes que o coronel aparecesse.

Muito mais confiante, encarei meu irmão ao largá-lo depois que descemos a escadaria. Não parecia disposto a sair por baixo naquela luta desigual. Avançou contra mim novamente. Porém, fui mais rápido socando sua face. Edmundo cambaleou ante ao impacto do golpe. Derrotado e mais cheio de ódio do que antes, me encarou de volta. Isso não ficará assim ! Seus pensamentos ameaçaram.

– Chega de briga, Edmundo! - minha voz denotando toda a autoridade que queria, fazendo-o estremecer ao som. - Você veio aqui me procurar? - perguntei ajudando-o a encontrar uma saída digna.

Apenas balançou a cabeça afirmativamente. O roxo do olho se acentuava.

– Agora que me encontrou, podemos conversar em particular. Vamos embora! - Voltei-me para olhar minha noiva. - Amor, volto à noite, está bem?

Paralisada no topo da escada Vitória concordou com um aceno breve. Seus olhos dizendo para mim toda a admiração e excitação que minha atitude despertara nela. Que hom em , m eu Deus! E ele é todinho m eu! Hum , que delícia! Sorri aos seus pensamentos tolos e agarrando o braço de Edmundo - completamente rendido - o empurrei para dentro do carro de meu pai que ele havia pegado para me seguir.

– Então, Edmundo - comecei a conversar enquanto meu irmão permaneceu calado no banco do passageiro. - Por que não teve coragem de dizer a ela?

Sabia a resposta. Porém ele não disse nada.

– Tudo bem. Não importa – falei. - Você não pode contar a ela sobre Mainá porque você enxergou tudo errado.

Edmundo bufou em resposta.

– Olha aqui, Edmundo! - minha autoridade reverberou em seu corpo machucado. - Não devo nenhuma explicação para você sobre nada. - Tranquilizei o tom de voz. - Mas quero te contar a verdade.

Que verdade eu sabia? Teria que blefar muito bem agora.

– Mainá é apenas uma amiga que conheci recentemente. Mantemos nossa relação em segredo porque ela assim o deseja. Mas não tenho nada a esconder ou do que me envergonhar. Sabe que eu trabalho com a história de indígenas todos os dias. Não deveria ter distorcido minha nova amizade dessa maneira.

Silêncio. Somente os pneus de borracha chiavam no asfalto. Sabia que teria que tocar no assunto mais delicado, que eu entendia menos ainda. Então me lembrei de minha autoconfiança e a acionei como se fosse um dispositivo eletrônico.

– Agora preciso que você realmente mantenha em segredo o que viu na gruta. - Meu tom soando mais como uma ordem do que um pedido. - É muito importante que ninguém saiba ainda quem sou de verdade.

Quem eu era? Também queria desesperadamente essa resposta.

Dessa vez consegui a atenção dele. Estou todo dolorido, m as faria tudo de novo. Seus olhos me desafiaram.

– Por que eu faria isso? - disse sua voz.

Eu o fitei com olhos frios e duros fazendo-o se encolher e fugir deles. Edmundo tinha um grande senso de preservação, jamais me entregaria. Não tinha ideia de até onde eu chegaria para impedi-lo.

– Porque eu estou te pedindo! - fuzilei-o. - Em breve, todos saberão o que está acontecendo. - Prossegui como se estivéssemos em uma conversa descontraída. - Mas agora não é o momento certo.

– Você não vai ousar me deixar no vácuo! - exigiu.

– Ainda não posso contar tudo - respondi firme. - Tem muito mais envolvido nessa história. Ela não é só minha. Não tenho o direito de quebrar o sigilo. Você vai ter que confiar em mim.

Meu irmão evitou meus olhos para que eu não pudesse ler seus pensamentos, mas exigi sua atenção. Estávamos muito perto de casa agora e não tinha muito tempo para conseguir a confirmação de que meu aviso teria o efeito que desejava.

– Edmundo?

Finalmente, me encarou. Eu acho que não tenho escolha, não é? Mais um a surra dessa e m eus ossos se despedaçam . Seus pensamentos eram mais sensatos que sua voz.

– Tudo bem, aberração, você tem minha palavra - respondeu petulante. - Mas eu vou querer saber tudo, em breve.

***

Voltei caminhando para o parque já que meu carro estava lá. A promessa de Edmundo seguida de uma ameaça não me deixou totalmente tranquilo. Porém, poderia sossegar por aquele dia. Nem entrei em casa com ele. Dei meia volta e fui ao encontro de Mainá.

Já estava escuro, mas podia ver muito bem o caminho. Era bom porque não chamava muito atenção. As pessoas comuns não poderiam me reconhecer com facilidade. Praticamente estava invisível a outros olhos. Estar sozinho para pensar me deu um grande alívio.

Ter que mentir e interpretar para Edmundo me deixou muito infeliz e desgostoso. Não sabia mais nada sobre mim mesmo. Eu era um ninguém - com alguns talentos a mais -, porém ainda uma pessoa sem sobrenome e sem origem. Eu era o um rosto solitário.

Teria mesmo algum sentido nas lendas que Mainá me contara? Eu me lembrei de seu rosto diante da manifestação física de meus poderes. Seria novidade para ela também? Se fosse, eu não saberia mais o que pensar.

Talvez Edmundo tivesse razão. Talvez eu realmente fosse um alienígena. Era a única alternativa que eu tinha, ainda pouco plausível para mim. Voltei a cogitar histórias em quadrinhos sem me achar ridículo.

Enquanto pensava, a entrada do parque entrou em meu campo de visão estendido. Apressei automaticamente o passo, ansioso para reencontrar a indígena. Meu carro jazia abandonado no estacionamento. Não havia nenhuma outra alma na escuridão.

Não demorei muito para localizar no verde o ponto brilhante da pedra carregada pelo corpo forte da índia. Ela vinha ao meu encontro também apressada.

– O que aconteceu, Lucca? - perguntou analisando com seus dedos os ferimentos em meu rosto e procurando em meus membros.

Seu toque motivou sensações que não deveriam estar ali. Seus olhos lânguidos me chamavam docemente. Resolvi falar logo, antes que me rendesse aos desejos despertados por ela.

– Não foi nada - pousei minhas mãos sobre as dela a fim de parar sua análise.

Automaticamente, me curvei em sua direção. Seu rosto próximo do meu e seu perfume inundou meus pulmões. Luc c a ... Seus pensamentos me chamaram fazendo com que me aproximasse ainda mais.

Aquela atração estivera crescendo durante essa semana que passamos juntos e agora não conseguia me fazer parar. Precisava provar aquela boca carnuda tão próxima que praticamente se oferecia para mim.

O desenho de seus lábios me trouxe à memória a imagem de outro rosto. Vitória. Paralisei onde estava e me afastei de Mainá tão rápido que ela demorou um segundo para me encontrar a distância. Vi seus olhos tentando traduzir minha expressão ofegante.

– Desculpe - sussurrei.

Seu olhar baixou sem que dissesse algo. Ao invés disso, sua voz, mais firme do que a minha, balbuciou uma pergunta.

– Quem era aquele homem?

Queria correr de volta ao seu encontro e tomá-la em meus braços, porém não queria ofendê-la. Afastei a ideia novamente, afinal estava de casamento marcado e pela pergunta, Mainá deixou bem claro a mudança de assunto.

– Meu irmão adotivo - respondi sob controle novamente. - Não nos damos muito bem.

Eu a vi balançar a cabeça concordando, seus olhos estavam furtivos.

– Vitória, a mulher de quem ele falou, é sua noiva?

Meu coração voltou a bater rápido. Havia prestado atenção às palavras de Edmundo. Por um minuto cogitei negar, mas por que deveria fazê-lo? Seria honesto com ela, pela nossa amizade. Era a única pessoa que estava me apoiando nesse momento difícil.

– Sim - respondi simplesmente.

Fiquei esperando que me fizesse a próxima pergunta óbvia: quando seria o casamento? Porém, não o fez. Nisso confirmei seu desinteresse por mim como homem. Concluí que não mexia com ela da mesma forma que ela comigo. Fiquei frustrado.

Depois pensei que Mainá deveria ter uma família. Ou ser prometida para alguém de seu povo. Normalmente eles se uniam ainda muito jovens. A índia era diferente e, portanto, poderia ainda não ser casada apesar da maturidade. Mas nada a impediria de estar prometida para alguém de sua tribo desde o ventre.

Eu afastei o pensamento novamente não me sentindo merecedor de sua afeição. De qualquer forma, sabia que apesar de acreditar que era um deus, me tinha como alguém superior e não semelhante. Enfim, Mainá nunca me olharia como homem capaz de amá-la.

Amá-la, sabia que eu poderia assim como amava Vitória. Porém, era tarde demais para pensar em recomeçar. Resolvi voltar ao assunto que importava.

– Mainá, o que suas lendas dizem sobre o que aconteceu hoje?

A índia voltou seus olhos para mim com a mesma surpresa de mais cedo.

– Achei que não acreditava em minhas lendas - respondeu séria.

Dei de ombros.

– Em que mais eu poderia acreditar? – desabafei. - Nada do que está acontecendo comigo é natural, de qualquer forma. Você é a única que até agora me apresentou algum conhecimento.

Mainá continuou parada na minha frente, refletindo. Seus olhos franzidos pelo esforço mental. Percebi que ela também estava intrigada.

– Não dizem nada - respondeu por fim. - Nada como o que vi. Mas também não sei se compreendi. Precisaria de mais detalhes.

Então lhe expliquei tudo sobre a sensação de força que corria por meu corpo como uma energia e que havia escapado quando senti necessidade de protegê-la das garras de Edmundo. Mainá prestou atenção, fazendo novas perguntas para entender melhor a descrição. Era bom poder contar para alguém.

– Ainda não tenho certeza - respondeu ao final. - Mas pode ser uma primeira manifestação do verdadeiro poder físico do qual as lendas falam.

Eu me senti ansioso e temeroso ao mesmo tempo em saber mais. Mainá viu minha expressão e não acrescentou nada. Lutei comigo mesmo. Parte de mim queria perguntar, outra que ficasse quieto. Aquilo tudo já era bem ruim para eu saber o que ainda estava por vir.

Depois refleti que saber com antecipação me prepararia para a próxima esquisitice que poderia acontecer. Decidi, racionalmente, que por mais estranho que fosse, precisava saber. Forcei o bolo preso em minha garganta e pedi.

– E qual poder seria esse?

Os olhos oblíquos e chocolates de Mainá me perscrutaram com cuidado. Vi a dúvida de que estivesse perguntando aquilo sinceramente. Minha expressão deveria ser implorativa porque seus pensamentos vagaram para meu anseio explícito por respostas. Percebi, então, que nunca seria capaz de esconder meus sentimentos dela.

– A lenda diz - começou cautelosa - que o filho da Mãe Terra e de Tupã - falava tão pausadamente que me dava aflição - seria capaz de controlar e usar como arma - parei de respirar porque a última parte seria a mais importante - os elementos da natureza - finalizou.

Não sei por quanto tempo fiquei em choque, incapaz de me mexer ou falar. Meus olhos presos nos castanhos de Mainá. Seus pensamentos de aflição e receio por mim invadiram minha mente. Eu sinto m uito. Não queria assustá-lo, m as você m e perguntou. Por favor, diga algum a coisa para m im . Diga o que está pensando. E depois de um tempo tentando me fazer sair da cacofonia, seus pensamentos mudaram de direção. Você precisa aceitar, Lucca. Este é seu destino. Você é o Filho da Terra.

DESCOBERTA

 

– É com pletam ente diferente para cada um de vocês - dizia Marcel para Tam ires na confortável e costum eira sala de estar.

– Sim . Com Lucca foi racional e consciente - respondeu a ruiva. - E com igo, em ocional e inconsciente.

Tam ires se lem brava perfeitam ente daquele dia em que toda sua raiva explodiu de seu corpo e atingiu o hom em m ais im portante de sua vida consum indo suas forças. Tam bém se recordava do susto quando sua pequena filha viu aquela energia m achucando seu pai. Um arrepio lhe passou pela espinha.

– Arrã - resm ungou o loiro. - Acredito que sej a relacionado ao tem peram ento de vocês -refletiu ele. - Não há com o prever com o será com os outros.

– Está sendo m ais rápido com ele - afirm ou a ruiva.

Marcel balançou a cabeça concordando, sabia o que a cunhada estaria pensando nesse m om ento. Ir para Corum bá o quanto antes e tinha que dar o braço a torcer de que estava certa. A hora estava chegando.

– E, então, com o está indo com Alexandre? - perguntou desviando do assunto.

– Bem - respondeu esquiva. -, por tudo que ele sabe sobre o outro lado, acredito que sej a o m aior aliado que tem os.

Era para ser Gustavo, pensou ela. Seu sem blante caindo com o peso de sua tristeza. Toda vez que pensava em Alexandre era quase im possível não o associar ao irm ão m ais velho. Precisava parar de sofrer pelas escolhas que am bos fizeram . Talvez estivesse na hora de escrever à Carolina, contando sobre o novo aliado. Isso fê-la se lem brar de pressionar o cunhado loiro e grandalhão.

– Marcel, nosso tem po está se esgotando. Quando vam os para o Pantanal?

Com um a carranca, o rapaz encarou a cunhada, que conseguia irritá-lo m uito m ais do que os ataques de Suzane. Será que todos dessa família são insuportáveis?

– Calm a - respondeu duro. - Antes precisam os resolver o que farem os com Alexandre.

– Tudo bem - concordou im ediatam ente. - Vam os à assem bléia.

– Am anhã - retrucou ranzinza. - Quando Suzane acordar.

***

Foi com grande alívio que Lucca viu o final de sem ana passar e chegar um a nova segunda-feira. As horas foram interm ináveis nas quais tivera que fingir que estava tudo bem diante de sua noiva. Percebera por seus pensam entos - j á que não os externou - que Vitória associou sua perturbação visível a recente briga com Edm undo.

Porém estava errada. Não estivera perturbado, m as sim distraído, analisando sua força sobre-hum ana. A surpresa com que recebera esse novo dom fora substituída por certa satisfação. Que hom em não se sentiria bem em portar um poder além de seu corpo lim itado? Apesar de estranho, era anim ador.

Edm undo o vigiara o tem po todo. Pelo m enos não o perseguiu verbalm ente, m as seus m alditos pensam entos o lem bravam de que estava esperando um a resposta, m esm o tem endo Lucca m ais do que nunca. Entre o sentim ento de terror e de desprezo, havia um a curiosidade hum ana crescente.

A sensível m ãe não deixara de perceber a falsa trégua entre seus filhos. Lucca a vira tentando desvendar os m istérios que perm eavam suas escolhas. Não sabia até onde a m ente astuta de Isabel alcançara, porém não questionou o filho m ais velho, o único com quem teria algum a chance de êxito.

Todos os conselhos que Mainá lhe dera - através dos olhos derretidos - acatara. Ainda não conseguia concordar com suas explicações lendárias. Porém , irracionais ou não, sua m udança era com pletam ente real e tinha que aceitar m ais essa entre outras tantas anom alias.

Prever o que aconteceria era outra história, m as tinha que confessar a si m esm o que estava tentado a descobrir se era verdade. Estava quase disposto a fazer um pequeno teste que lhe m ostrasse se Mainá tinha razão. Preferiu não pensar nisso enquanto se dirigia para m ais um dia de trabalho. Concentrar-se nele com certeza aj udaria a m anter sua m ente ocupada.

No cam inho para o parque, Carlos o distraiu fazendo perguntas sobre os preparativos do casam ento. Isso aj udou Lucca a desvanecer de seu cérebro toda preocupação consigo m esm o. Tam bém não tinha m uito a dizer sobre o evento que aconteceria no próxim o final de sem ana j á que Vitória se encarregara de tudo e antes que entrassem pelo portal de pedra, j á estavam falando sobre o trabalho.

As escavações avançavam rapidam ente enquanto a m aior parte da equipe se dedicava ao grande e desconhecido obj eto lítico. Havia pequenos trechos feridos na peça, provavelm ente corroídos pelo tem po. Porém , parecia estar em bom estado de conservação para alegria de toda a equipe.

Lucca não trabalhava m ais diretam ente na escavação da descoberta. Só supervisionava e orientava o pessoal. Não queria criar novas expectativas com prazos. Arqueologia era um trabalho contra o tem po. Um a ciência que exigia paciência e cuidado.

Viviane Dias era o braço direito de Lucca durante a escavação. Ficava ao seu lado usando sua experiência para orientá-lo. Form avam um a grande dupla. A experiência e a sagacidade. A historiadora estava eufórica com o obj eto, se atrevendo a fazer previsões.

– Acho que você tinha razão, Lucca - disse anim ada. - É m uito grande para que não sej a um artigo religioso. - Pensativa. - Só não vej o nenhum a face ou esboço corporal na parte lim pa.

– Pode estar do outro lado - respondeu. - Estou dividido agora. Não tenho m ais tanta esperança. Pode ser um obj eto sem im portância. Um lítico enorm e e inútil.

A historiadora balançou a cabeça reflexiva. Era frustrante ver tanto do obj eto e ainda não ter ideia do que representava. De um a coisa, no entanto, tinha certeza. Era um a novidade. Algo bem distante das peças para caça e ferram entas rústicas que haviam encontrado até agora e isso j á podia ser considerado anim ador.

Lucca não com partilhava dessa visão otim ista. Se não fosse nada, não valeria todo o esforço e tem po em preendido. Estava ansioso para realizar a grande prim eira descoberta de sua carreira. Não im portava com o. Apenas que fosse um lítico que revelasse seu trabalho para o m undo.

A cabeça de Carlos surgiu acim a das outras ao redor da vala onde estava o obj eto. A fim de tom ar água e descansar cinco m inutos na som bra, longe do sol forte da m anhã, foi ao encontro da dupla que os observava séria. Cam inhava com um sorriso largo, lim pando com um a toalha o suor do rosto e do pescoço.

– Tão sérios! - exclam ou ao se aproxim ar e gargalhou.

O que lhe veio à m ente foi um a cena do Coringa no film e Batm an - O Retorno. Lucca ficaria irritado com sua cultura pouco relevante, m as decidiu não acrescentar essa lem brança.

– Que é isso, pessoal - continuou efusivo. - Vocês sabem que esse é grande!

– Isso estam os vendo, Carlos - respondeu seco Lucca. - Basta saber se é im portante.

– E por que não seria? - espantou-se o m elhor am igo.

A historiadora, que estivera absorta até agora, abriu um grande e barulhento riso. Os dois hom ens a encararam sem entender por um tem po, até que ela retom asse o fôlego e conseguisse falar novam ente.

– Acho que não há trabalho m ais divertido do que o nosso, não é m esm o, m eninos?

A m aneira despoj ada e carinhosa na qual Viviane os tratava não os ofendeu. Ao contrário, fê-los sorrir tam bém , dissipando a tensão. Carlos voltou m ais em polgado à escavação e Lucca para sua observação orientada.

O resto da m anhã passou sem grandes alterações. Lucca e Viviane fizeram poucas m udanças no trabalho a fim de torná-lo m ais produtivo. Ao final do período estavam satisfeitos com o andam ento. Pararam para fazer o horário de alm oço. Todos tão eufóricos que dedicaram apenas m eia hora ao m erecido descanso.

A tarde aum entou o calor. As pausas para beber água e descansar, foram m ais frequentes. Lucca ficou ainda m ais ansioso, revezando com seu pessoal enquanto descansavam . Acabou que ele m esm o pouco descansou, m as não im portava. Seu novo corpo era forte o bastante para suportar esse esforço extra.

Porém , cham ou a atenção de Carlos e Viviane. Não pensara nas consequências de sua atitude diante das duas pessoas que, com certeza, eram observadoras. Mas para que estavam reparando nele? Que fossem trabalhar! Mas a abordagem não dem orou m uito a acontecer. Depois da oitava substituição, Carlos foi o prim eiro a se introm eter.

– Calm a, Lucca - pousou a m ão sobre seu om bro m usculoso. - O m undo não vai acabar se não desencavarm os essa peça hoj e. Vai descansar um pouco tam bém . Você não é um a m áquina.

– Estou bem - respondeu o arqueólogo sem lhe dar ouvidos.

Então foi a vez de Viviane tentar a persuasão.

– Carlos tem razão, Lucca - foi firm e. - Você não pode substituir cada pessoa aqui. E olha que, para eu estar concordando com Carlos, é porque você está m esm o exagerando.

Pela prim eira vez, levantou os olhos para a historiadora parando seu trabalho. Seus pensam entos eram estranhos. O que está acontecendo com ele? Quando se tornou obsessivo e irresponsável? O queixo do arqueólogo caiu pronto para responder, m as desistiu. Estava levantando suspeitas desnecessárias. Era m elhor ouvi-los e realm ente dar um tem po.

Porém , não foi fácil. Enquanto voltava à contem plação, Lucca se torturou com m ilhares de possibilidades. Podia usar sua força sobre-hum ana para cavar m ais fundo. Podia usar sua visão acentuada para não ferir o obj eto. Podia usar a resistência de seu corpo fortalecido para ganhar tem po. E todo seu organism o pedia por essa ação, estar em m ovim ento, ser produtivo.

Outro pensam ento passou por sua m ente, trazido pelos anteriores. Poderia dem over a terra com apenas sua vontade. Depois refletiu se não correria o risco de danificar o lítico, j á que o poder que esse desej o tinha havia se m ostrado suficiente para atirar um hom em m etros distantes. Ainda assim , era um a ideia tentadora dem ais.

Afastou-a logo da cabeça antes que se concretizasse de repente, diante de tantas testem unhas. Com o seria? Um a raj ada de vento forte? Um trem or de terra? Um redem oinho de água? Um raio incendiando parte da floresta? E o que deduziriam se vissem esses fenôm enos? Com certeza, supersticiosos com o eram , diriam logo que era coisa do dem ônio ou um espírito indígena.

Lucca se pegou rindo sozinho. Cham ou apenas a atenção breve da historiadora ao seu lado. Porém , ela nem se preocupou em perguntar. Estava com os olhos vidrados no lítico cada vez m ais exposto através da terra. Tam bém olhava, m as praticam ente não via.

Sua m ente vagava por seus possíveis poderes sobre os elem entos. Seria m esm o possível? Aquela força que continuava crescendo dentro dele poderia m esm o usar os quatro elem entos a seu favor? Em um a luta hum ana, não haveria chance para o outro. E em um a luta sobrenatural? Seria de igual para igual?

Interessante, não podia negar, e testar os lim ites de seus novos talentos dava voltas em sua m ente. Mas onde encontraria outra aberração com o ele? Com certeza era único, com o sem pre fora naquela terra. Talvez um m utante ou um alienígena abandonado nesse planeta. Ou estaria perdido e os seus o estariam procurando por todo esse tem po?

Mas se realm ente existisse alguém por aí, por que nunca o encontraram ? Por que som ente depois de adulto esses dons se m anifestaram ? Por que agora que estava encam inhando sua vida e iria com eçar a vivê-la intensam ente? E que influências teria sobre sua existência? Conseguiria continuar - exatam ente com o tentava fazer - ou precisaria desviar-se do cam inho que traçara para si m esm o?

Um grito o despertou de seu transe.

– O lítico está solto! - era a voz de Carlos.

Lucca forçou passagem entre os corpos exprim idos e suados sobre o vão na terra para chegar perto com sua trena. O form ato do obj eto era nítido. Roliço no centro e com pontas geom étricas - parecidas com quadrados - m aiores que o m eio. Era sem elhante a um a coluna rom ana, porém de tam anho reduzido.

Prim eiro conferiu o com prim ento vertical. Um m etro e quinze. Depois na horizontal. Vinte e dois centím etros. Realm ente era m uito m aior do que qualquer coisa que haviam encontrado até então. E pelo visto não representava nada m ais do que um a grande pedra polida.

– Tudo bem , pessoal - falou acim a da euforia do grupo. - Vam os tirá-lo daí. Todos j untos. - Enquanto o m áxim o de pessoas que cabiam ao redor se aprum ava preparando suas m ãos para erguer o obj eto que deveria ser pesado, continuou. - No três, ok? - Várias aprovações se seguiram - Um . Dois. Três.

Dez hom ens usaram toda sua força física para levantar o obj eto de sua tum ba fria e úm ida. Deslocaram a peça para o chão batido ao pé do buraco onde todos poderiam pisar em segurança. Descansaram um pouco do esforço enquanto Lucca m edia sua profundidade com exatidão. Vinte dois centím etros. Sim etricam ente perfeito.

Agora era a vez da equipe de pesquisadores se aproxim ar e cercar a peça.

Encabeçados por Viviane, o grupo se agachou ao redor do lítico para analisá-lo. Perceberam logo que o estado total era m uito bom , polido com grande esm ero. E que a terra e a água não conseguira danificar quase nada de sua superfície. Iniciaram a lim peza im ediatam ente.

– As m edidas são m uito exatas - com entou Lucca para Viviane. - Nunca vi nada assim antes.

– Interessante - respondeu a historiadora. - Por que todo o cuidado com este obj eto? O que ele tem de tão im portante? Parece apenas um pedestal de pedra.

Pedestal! Com o Lucca não havia associado a im agem antes? Viviane tinha razão. Não podia m esm o ser um a coluna desse tam anho m ínim o. E para que m oradores - que provavelm ente seriam índios - precisariam de colunas? Não tinham tem plos nem casas. Então um a ideia lhe ocorreu.

– Claro! - exclam ou - Um a base, Viviane. Talvez a base de algum ídolo. O pedestal para a adoração de um a im agem divina.

Lucca ouviu o coração da historiadora disparar com a perspectiva. Sorriu.

– Precisam os procurar por inscrições - orientou excitada. - Se for m esm o um artigo religioso, deve haver algum indício em relevo.

O trabalho m inucioso de lim peza prosseguiu com tantas m ãos quanto possível. Lucca pensou com o era estranho ter um obj eto daquele tam anho com pletam ente descoberto - e praticam ente inteiro - e não saber o que significava. Era frustrante e ao m esm o tem po um grande desafio.

A com ichão o pegou enquanto aguardava im paciente pelo final do trabalho. O que daria para poder usar seus grandes poderes agora e m atar logo aquela ansiedade que o corroía. Porém teve que aguardar o fim da lim peza delicada e m eticulosa durante a próxim a hora.

A decepção deu lugar ao entusiasm o no rosto de Viviane Dias. Não havia inscrições naquele lado da peça, m as ela não se deixou abater. Pediu a equipe de escavadores que virasse o obj eto pesado. Antes m esm o de iniciarem a lim peza, perceberam que aquele lado era diferente do outro.

Havia m uita terra incrustada nas frestas do lítico, levando a historiadora a acreditar que era um fundo relevo. O trabalho de lim peza se tornou m ais dem orado devido a m aior quantidade de resíduos e tom ou o resto da tarde. A ansiedade de Lucca não podia ser m edida.

Debruçava-se sobre os colegas historiadores com gana de ver o obj eto. Podia definir m uito bem as linhas dos relevos com sua visão aguçada, m as não podia interpretá-las. Não era sua especialidade e tam bém não podia dizer em voz alta o que estava vendo. Tinha que ter paciência.

Tanto tem po trabalhando com arqueologia e um a novidade o deixava assim ansioso e inquieto. Mas não era algo sim ples. Era a descoberta de sua vida. Significava m uito para ele e para toda a equipe decifrar aquele obj eto. Seriam eternizados na história j unto com todos os indícios encontrados.

Carlos foi solidário com seus sentim entos m onopolizando a conversa. Não saiu de seu lado um só instante e falou sobre frivolidades sem pre que o sentia perdendo a paciência. Um a distração bem -vinda para Lucca. Era m uito grato pelo am igo que tinha, apesar de suas diferenças.

Viviane pôs a m ão na m assa aj udando a lim par os relevos sobre a pedra côncava e reta. Aquele lado era praticam ente todo coberto por inscrições. Levaria um tem po para interpretá-las, m as não im portava. Conquanto que pudesse determ inar o povo, estaria satisfeita em finalizar aquele incrível dia de trabalho.

Lucca ergueu os olhos para o céu. O tom verm elho e laranj a tom ava conta do horizonte onde o sol com eçava a se esconder. A lim peza dem orara m ais do que previra. Voltou os olhos para a peça sob seus pés na qual podia ver com nitidez e perfeição as inscrições. As m ãos de Viviane as tateavam em busca de auxílio em sua interpretação.

Voltou o rosto indecifrável para o arqueólogo ansioso em pé atrás dela.

– Lucca - cham ou.

Ele agachou ao seu lado onde um a pessoa se retirou para lhe dar lugar.

– Ainda não consegui interpretar toda a inscrição – m urm urou. - Mas posso dizer que é indígena. Provavelm ente do povo Guaikuru.

Abrindo um im enso sorriso, Lucca se deu por satisfeito.

– Tudo bem , Viviane. - Pousou am istosam ente a m ão sobre seu om bro - Vam os continuar am anhã. Você deverá trabalhar com sua equipe no escritório para analisar as inscrições. - Ergueu-se de um pulo e falou para o restante. - Pessoal, m eus parabéns por seus esforços hoj e! Bom trabalho! Nossa peça é indígena e vai nos inform ar o que representa assim que os pesquisadores decifrarem as inscrições. Vam os fotografá-la e transportá-la para o m useu.

Entre m urm úrios anim ados e barulhos de ferram entas, se m ovim entaram para cum prir a últim a tarefa do dia enquanto o sol finalm ente se tornava um pequeno filam ento alaranj ado no horizonte do Pantanal, tingindo de ouro a copa das árvores.

***

Eufórico, impaciente, inquieto, ansioso, deslumbrado. Eu me sentia de todas as formas possíveis enquanto via minha equipe se afastar carregando consigo os mesmos sentimentos. Fiquei, precisava compartilhar minha descoberta com minha amiga índia. Ainda mais depois que Viviane identificou o povo que construiu aquele artefato.

Precisava dividir com ela toda a alegria que sentia. Engraçado como tudo se tornou acentuado em meu novo corpo. Até mesmo os sentimentos pareciam ter vida própria, muito maiores e mais audaciosos do que antes. Eu me sentia feliz como nunca me sentira em toda minha vida.

Ainda bem que meu novo corpo tinha força para conter toda aquela explosão sentimental. Provavelmente o antigo não suportaria e se partiria em milhões de pedacinhos alegres e saltitantes. Ri com a imagem que passou pela minha cabeça - já que era para ser bastante assustadora eu acho - e segui o instinto que sempre me levava à Mainá.

Não demorou muito para encontrá-la. A índia deveria estar por perto, vigiando, como sempre. Já me acostumara a isso. Não me incomodava mais. Ainda separados por alguns metros, comecei a falar empolgado contando todos os detalhes importantes daquele dia especial para minha carreira.

Sentamo-nos no chão e continuei falando, deixando-a muda enquanto me ouvia atentamente. Um sorriso permaneceu firme em seu rosto característico e marcante e fiquei internamente ainda mais feliz que compartilhasse de meus sentimentos. Talvez até estranhasse minha tagarelice, era sempre contido e silencioso.

Não pude evitar comparar seu interesse com o de minha noiva. Tão fútil e patricinha, só se preocupava com seu cabelo e com seu guarda-roupa, que deveria estar sempre lotado de roupas de grife que usava apenas uma vez. Era ignorante e não soubera aproveitar sua riqueza para ganhar mais conhecimento. Muito diferente de Mainá que, mesmo diante das diferenças e do preconceito que deve ter sofrido entre o povo branco, estudou até onde queria em escolas e faculdades públicas. Além de ser indígena, ser raiz de nosso povo, também era brasileira, talvez ainda mais que nós, meros mestiços.

– Você encontrou um objeto de meus ancestrais? - perguntou maravilhada e emocionada.

– Sim - respondi com a emoção ainda crescendo em meu peito. - Pena que levamos a peça para o museu. Senão podia mostrá-la para você.

Uma nuvem de decepção cobriu seus olhos chocolate. Eu me arrependi imediatamente de ter sido tão idiota e não ter deixado o objeto no sítio pelo menos por essa noite. Gostaria de vê-la olhando para a peça, encantada. E, quem sabe, ela poderia ajudar na tradução das inscrições. Fui mesmo um imbecil.

– Desculpe! - apressei-me em confortá-la - Eu posso te levar até o museu para te mostrar a peça pessoalmente. Você gostaria?

Não achei que tivesse problema, afinal, ela já havia andado entre meu povo antes. Por que não poderia fazê-lo agora?

– Não - respondeu apressada. - Não posso sair do parque.

– Mas... - comecei a dizer, porém me interrompeu.

– O momento não é propício.

Tentei traduzir sua expressão a fim de entender o que se passava em sua mente. Preferi não especular por muito tempo. Rápido, busquei outra forma de resolver o impasse e dissipar de vez aquela ruga em sua testa.

– Amanhã trago fotografias para você.

Deu certo. O rosto dela se iluminou novamente e trouxe tranquilidade para meu coração. Não suportava a ideia de lhe causar qualquer tipo de dor, por menor que fosse. Eu estava tão flutuante que resolvi agradá-la ainda mais.

– Mainá - chamei tímido mudando de assunto -, gostaria de fazer um teste agora.

Inclinei minha cabeça em sua direção, seu rosto surpreso em expectativa. Seus olhos agarram os meus com força. Não podia mais escapar deles. Eu me peguei atraído, tentado novamente para me aproximar mais e dessa vez seus pensamentos estavam muito silenciosos. Como ela podia fazer isso?

Precisava saber o que ela estava pensando. O que achava da minha presença tão perto. Mas eles continuaram em branco. Minha razão buscou força física para segurar meu corpo contra a sedução irresistível que me puxava para aquela indígena bonita e gentil.

Aquela força que já conhecia e aceitara começou a correr mais rápida por minhas veias, tomando forma e controle de meu corpo. E como na caverna, se extraiu de mim tomando vida própria. Um repentino vento se agitou ao nosso redor vindo sabe Deus de onde.

O ar agitando seus cabelos negros deixou-a ainda mais atrativa. Não, Lucca! Gritei silenciosamente para mim mesmo fazendo a força ganhar mais vida. E os pensamentos de Mainá saltaram para mim como uma torrente. Seus cabelos acobreados ao sabor do vento parecem fogo. São m uito bonitos. O que era aquilo? Ela também estava pensando em minha beleza? E eles continuaram. Seus olhos são de um verde tão único. Hipnotizantes. E vi os dela se derreterem como chocolate lânguidos.

Não! Meu punho se fechou e esmurrou a terra. Pedras e barro explodiram ao nosso redor criando uma cortina marrom acima de nossa altura. O vento os pegou e passou de transparente para um quase vermelho com pontos cinza. O espetáculo foi tão magnífico que voltamos nossos olhos para contemplá-lo.

Sorri satisfeito com meu feito. E testei mais minha capacidade buscando água no rio próximo e a unindo ao redemoinho. A terra se tornou lama e a cortina se condensou ao nosso redor como uma muralha protetora. Estávamos totalmente isolados agora, à mercê de nossa própria vontade.

Sem pensar, estava nadando naqueles olhos, completamente prisioneiro. Mainá também se ligou aos meus incapaz de pensar nada. Também não me permiti mais pensar e deixamos a atração fazer o resto.

Quando estava a apenas alguns milímetros de seus lábios, a grossa cortina, que havia virada terra ressecada sem que percebêssemos, se quebrou em milhões de pedaços de pedra. Olhamos ao redor assustados por um segundo e em seguida desatamos a rir.

– Uau! – exclamei. - Você tinha razão. Realmente posso controlar os elementos - pisquei para ela em cumplicidade. - Este era o teste que eu queria que você presenciasse.

DEFENSOR

 

 

Som ente na noite seguinte Lucca pode levar à Mainá as fotografias da peça de lítico. Queria que ela confirm asse a avaliação de Viviane a respeito da tribo e, quem sabe, desvendar a m ensagem cravada em relevo. As inscrições foram fotografadas em partes para garantir um a boa leitura. O arqueólogo se preocupou em enum erá-las para não perder a ordem correta.

Enquanto a índia observava cada fotografia m uito com penetrada e silenciosa, percebeu que tam bém estava m aravilhada. Perm itiu que o tem po passasse - m esm o se corroendo de curiosidade - e se segurou para não interrom per seu m om ento. Por sua reação, tinha certeza de que se tratava m esm o de seus ancestrais, os Guaikurus.

A feição da indígena m udou enquanto analisava com cuidado as inscrições. Nesse m om ento, Lucca quase a interrom peu. Era fascinante observá-la, m as o silêncio tam bém era enlouquecedor. Ainda assim , respeitou seu tem po. Eram m uito antigas, poderiam ser difíceis de interpretar inclusive para ela.

Manteve a euforia alim entando sua paciência a fim de não pressioná-la e não desanim ar durante a longa espera. Varria com sua aguçada visão a m esm a im agem e procurava em sua face pistas de seus pensam entos. Parecia tão focada que poderia até ter se esquecido de sua presença.

Depois de ontem , hoj e era o dia m ais im portante de sua vida. Graças a Mainá, descobriria tudo sobre o obj eto que o faria entrar para a história da arqueologia. Seria o grande prêm io depois de tantos anos de trabalho e um grande estím ulo para novos obj etivos em sua carreira.

Continuar: parte 8 de 13