Filho da Terra - Os Quatro Elementos, Volume 2

Josy Stoque · Capítulo 1 de 1 · parte 11/13

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Filho da Terra - Os Quatro Elementos, Volume 2

Prólogo

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 13 partes.

SEMELHANÇA

 

Estava cada vez mais difícil suportar aquela crescente dor que parava tempo suficiente para que eu pudesse apenas tomar novo fôlego. Mainá não saía do meu lado e já lhe implorara para descansar, mas se negava veemente.

Minhas forças estavam escassas e acreditava que não se foram de vez porque não as estava usando. Porém, a noite anterior e aquele dia todo eu havia gasto boa parte de minhas reservas energéticas e não podia suportar por mais tempo acordado.

Lutava contra a dor e a inconsciência com medo que se cedesse, nunca mais voltasse ao reino dos vivos. Aquela dor só podia ser o presságio da morte e eu não queria morrer. Resistiria com todo o restante de forças que ainda possuía.

Cada beijo que recebia do meu verdadeiro amor renovava uma centelha de minhas energias e me sentia novamente capaz de suportar. O calor do corpo de Mainá ao meu lado parecia transmitir uma carga nova e não perdia a sanidade por causa de sua presença real e constante.

Pela primeira vez, tive tempo - e precisava manter minha mente distraída - para repensar minha vida. Sempre me preocupei em ser responsável, mas acima de tudo, havia sido em prol dos outros, não de mim mesmo e tinha o dever - e o direito - de ser um pouco egoísta.

Ainda não fazia ideia do que esse novo eu representaria - se Mainá e sua tribo estavam certos ou se era loucura - mas sabia que tiraria dela muito mais do que braços de aço e capacidade mental extra. Devia aos acontecimentos místicos um novo olhar sobre minha própria existência.

Quer fosse por aquela pedra, aquela índia, aquele dom de ler os pensamentos alheios ou os sentidos extremamente aguçados, seria um novo homem por dentro e por fora a partir de hoje.

Era nítida a mudança em mim. Mais do que aceitação, estava me transformando em alguém além de minha própria compreensão. Completamente ciente, eu constatei que por trinta e dois anos não havia vivido, apenas existido.

Não fosse meu trabalho, que fora minha única e verdadeira dedicação, minha vida não faria sentido algum agora. Minha família, que eu tanto amava, não tivera o privilégio real de conviver com meu eu verdadeiro, porque nem eu mesmo tivera a chance de desvendá-lo.

Sabia que provavelmente estava exagerando, porque jamais deixaria de ser quem eu fui até agora. Porém, essa nova visão de mim mesmo, para mim, mudou todo o resto. Efetivamente, não mudava o que eu sentia ou fizesse pelos outros, somente o que fizesse e sentisse por mim mesmo.

Amor próprio nunca fora um ponto forte em mim. Não que me sentisse inferior ou ridicularizado. Mas nunca dera chance a mim mesmo. Eu me privei de muita coisa boa e agora abria meu coração para uma estranha. Encontrava a felicidade.

Mainá não era mais uma estranha para mim. Essas duas semanas ao seu lado foram como vinte anos. Era como se a conhecesse a vida toda. Nem os trinta anos ao lado de meus pais e irmãos me presentearam com essa sensação.

Sentia que não os conhecia. Prova disso era a demora em perceber o problema que Edmundo tinha comigo, ou o sarcasmo de Alice, ou, ainda, os motivos de Vitória em me escolher. Estava cego e não enxergava ninguém de verdade. Nem a mim mesmo.

Havia criado imagens prontas dessas pessoas e as limitara a minha pouca imaginação. O único que conhecia mais profundamente era Carlos. Ele fora o irmão que nunca tive.

Não podia fazer esse tipo de desfeita com Isabel. Minha mãe sempre me conhecera profundamente e se apresentava para mim. Pensando nela agora, lembrei que deveria estar muito preocupada comigo e senti vontade de telefonar para ela para dizer que estava tudo bem.

Mas estaria mesmo? Ainda não tinha ideia de quanto tempo passaria por aquela sensação de morte, mesmo inspecionado pelo pajé de vez em quando. Não sabia se sobreviveria àquela noite. Não tinha o direto de lhe dar falsas esperanças. Se fosse morrer, que ela soubesse da boca de outra pessoa. Um estranho levaria a ela a pior notícia de sua vida.

Uma paz insondável me preencheu. Aspirei profundamente. Minhas pálpebras ficaram pesadas demais para mantê-las abertas. Meu corpo relaxou. A dor diminuiu, mas não cessou. Sabia que o momento havia chegado.

Com um último resquício de consciência forçada, apertei de leve a mão de Mainá. Obriguei as pálpebras a se abrirem mais uma vez. Visualizei o rosto lindo de minha índia princesa. Então, impeli minhas últimas palavras para fora de meus lábios.

– Sempre te amarei.

Mal pude ouvir meu próprio sussurro. Visualizando o sorriso doce de minha amada, me entreguei à escuridão que me cercava.

***

Era m eia noite quando o j atinho recebeu autorização para pousar no aeroporto internacional de Corum bá. Marcel desceu na frente, totalm ente conectado a Lucca, seguindo sua energia viva e forte. Intrigado, percebeu que seus sentidos o guiavam para o lado oposto da cidade.

– Piloto! - cham ou quando o viu descer do avião. - O que tem para lá?

– Muita coisa, m eu j ovem . O Parque Marina Gatass, a Bolívia, outras cidades do estado do Mato Grosso do Sul. O que está procurando?

Marcel não tinha certeza do que responder. Fechou seus olhos - para o piloto, apenas um piscar de olhos - e tentou localizá-lo no cenário que havia visto.

– Um a m ata fechada, m ais com o um a floresta, não um parque, nem um a fazenda. Tem algo assim naquela direção?

O piloto pensou por apenas alguns m inutos antes de responder.

– Sim , tem a reserva Am am baí dos índios Kadiwéus. Fica entre Corum bá e Porto Murtinho. A uns vinte e cinco quilôm etros daqui. É m ata fechada. A aldeia fica lá.

– Você conhece bem o lugar? - perguntou ansioso.

– Sim , conheço, m as não tem com o pousar com um j atinho, por m enor que sej a. Não há espaço para pousar e decolar com segurança. Você vai precisar de um helicóptero. Conheço alguém que pode te aj udar.

O piloto se afastou deixando o trio ao lado do avião sem m ais aviso.

– Ele não está aqui - disse Marcel.

– E você acha que ele está na aldeia? - questionou Tam ires.

– Não tenho certeza, m as eu vej o que ele está em um a m ata fechada e sinto que devem os ir naquela direção. Você não achou coincidência que houvesse um a aldeia indígena para lá?

– Tem razão - concordou. - Só pode ser a aldeia da índia que está com Lucca.

– E a pedra tam bém está naquela direção. Não posso sentir a índia, m as aposto que foi para lá que ela o levou.

Ficaram em silêncio alguns instantes e em seguida Alexandre o quebrou.

– Acho que devíam os saber com o andam as coisas na cidade, para ter certeza de que ninguém está em seu encalço.

– Não, quero vê-lo o quanto antes - exclam ou a ruiva. - Não posso esperar m ais.

– Tudo bem - respondeu Alexandre com preensivo. - Em todo o caso, ainda acho que devíam os dar um a sondada por aqui. Posso fazer isso e encontro vocês depois.

Os dois sabiam que ele conseguiria encontrá-los com facilidade depois das coordenadas apresentadas e m esm o com a proxim idade, poderia senti-los com facilm ente.

– Acho um a boa ideia - retrucou Marcel. - Ligue para o m eu celular se encontrar algum problem a com o qual devam os nos preocupar. Afinal, Suzane alertou sobre os brios do tal coronel e nesse m om ento ele deve estar m ais do que furioso. Se pegar Lucca...

– Meu Deus, você acha que ele corre algum perigo? - sobressaltou-se a ruiva.

– Calm a, Tam ires - apaziguou Alexandre. - Estam os apenas nos prevenindo para não serm os surpreendidos.

O piloto voltou nesse m om ento com boas notícias. Havia encontrado o am igo que ainda estava no aeroporto porque não queria circular pelas ruas da cidade. Ele tam bém adiantou o papel que Alexandre desem penharia inform ando que capangas estavam procurando por Lucca por toda a parte. Ninguém com entou nada a respeito. Não queriam ser pegos pelos hom ens do coronel ou entregar a localização do j ovem .

Tam ires ficou aliviada ao subir no helicóptero e constatar com o piloto que dem orariam apenas dez m inutos para chegar até a reserva. O rapaz era bastante curioso e desatou a fazer perguntas sobre qual o obj etivo dos turistas naquela área. Marcel se saiu m uito bem - era m elhor m entiroso que a ruiva - ao dizer que eram profissionais da área da saúde e que estavam em expedição pelas aldeias do Pantanal.

O piloto ainda questionou o horário e inform aram apenas que vinham de longe e que as conexões só lhes perm itiram chegar agora. Quando o piloto perguntou por que não dorm iriam em um hotel para viaj ar no dia seguinte, Marcel j á perdia a paciência e disse apenas que não tinham verba para a hospedagem . O piloto entendeu o recado e m udou de assunto. Inform ou-os sobre a situação caótica da cidade.

Tam ires m ordia o lábio enquanto ouvia. Teve que se lem brar a ter paciência, pois estaria com Lucca em poucos m inutos. Respirou fundo e pôs-se a observar a paisagem que se desenrolava sob a aeronave. Era exuberante e linda. E m entalm ente iniciou as com parações com os lugares que conhecia.

Marcel tam bém estava preocupado e com eçava a dar razão a Tam ires. Com o sem pre. Tinha que dar m ais crédito a ela a partir daquele dia. Afinal, sabia quem ela era e o que seus instintos podiam dizer. E era m uito m ais que os seus.

Os m inutos passaram tão rápido que o piloto interrom peu os pensam entos do casal para fazer um anúncio.

– Pessoal, estão vendo aquela clareira enorm e logo à frente? - apontou e os dois olharam curiosos. - Ali é a reserva de Am am baí.

***

Um barulho ensurdecedor me despertou de um sono pesado sem sonhos. Abri os olhos com dificuldade, sem reconhecer aquele som. Um vento forte e em círculos agitava meus cabelos contra a face e as copas das árvores. Estaria chovendo?

Mainá se levantou de um pulo, se colocando entre mim e a coisa ruidosa. A aldeia inteira estava agitada. O som ficou mais alto e o vento mais forte quando minha mente entendeu.

– Um helicóptero - murmurei.

No segundo seguinte, também fiquei preocupado. Será que o coronel havia me encontrado? Um horror correu por meu corpo, não preocupado comigo mesmo, mas com Mainá. A fúria do velho também cairia sobre ela e os seus.

Tentei me mexer sem sucesso enquanto via a aeronave metálica descer no centro da aldeia. Mainá postou-se defensivamente em minha frente e senti orgulho de sua coragem, mas que poder seus braços teria contra armas de fogo?

A máquina silenciou. Uma porta se abriu e três pessoas desceram. Não conhecia nenhuma delas. Porém, a mulher me chamou imediatamente a atenção. Alta e esguia, muito pálida, olhos verdes preocupados. Mas, não foi sua beleza que fez parar a minha respiração. Seus cabelos compridos e bem cortados se agitando ao vento pareciam fogo.

Vi o queixo de Mainá descer alguns segundos depois quando conseguiu visualizar as feições da estranha. Seus olhos correram para mim em choque. Os guerreiros da tribo se puseram no caminho dos intrusos, fazendo-os estacar. Todos estavam tão embasbacados quanto nós.

O pajé grunhiu e todos esperaram que se compusesse. Os espíritos estavam se comunicando com ele. Debruçado sobre si mesmo, seu corpo se agitou algumas vezes antes que voltasse a posição ereta. Deu dois passos em direção aos visitantes e sua voz rugiu como um trovão.

– Sejam bem-vindos. Amigos do Filho da Terra são nossos amigos também.

Os estranhos se entreolharam e minhas suspeitas foram confirmadas. A mulher ruiva sorriu para o pajé. Um sorriso lindo e sedutor. Algo totalmente diferente do que já houvesse visto na minha vida. Prendi meus olhos nela enquanto dava um passo em direção ao velho espiritual.

– Obrigada - a voz tão suave e gentil soou. - Viemos falar com Lucca Gonçalves.

– Sim, os espíritos me disseram - curvando-se em uma reverência, o pajé acrescentou -Seja bem-vinda, Filha do Fogo.

Prendi minha respiração novamente enquanto assistia toda a aldeia suspirar de espanto e se curvarem em respeito diante daquela mulher de aparência tão semelhante. Semelhante demais.

– Muito obrigada. - Que educação e suavidade tinha. - Por favor, se levantem. Mostre-me o caminho até o Filho da Terra.

Se não estivesse tão ansioso, teria sorrido com a rapidez de pensamento daquela estranha. Entrou na onda indígena, conquistando sua confiança. Não sabia o que pensar. Talvez ela estivesse ali a mando do coronel Cruz, mas estava curioso para falar com ela.

Vi um sorriso matreiro no rosto do grandalhão loiro que se postou imediatamente atrás dela. Senti cumplicidade por ele já que estávamos pensando a mesma coisa sobre ela. A turba abriu caminho para que o pajé guiasse os estranhos até onde eu estava.

Mainá estava estática na minha frente e não parecia disposta a abrir caminho, ainda que acreditasse no pajé. Devia estar preocupada com minha segurança, já que estava fraco.

Percebi exatamente o momento em que a mulher me avistou. Seu olhar foi de gratidão a preocupação. Ele está bem ?, seus pensamentos questionaram. Sorri ansioso em despreocupá-la. Por que, meu Deus, eu estava fazendo aquilo? Ela era uma estranha para mim. E, no entanto, não parecia.

Lágrimas brotaram de seus olhos com a minha resposta e vi o alívio na expressão de seu rosto e em seus pensamentos. Pararam em frente à Mainá que não abrira passagem.

– Mainá - ordenou o pajé.

– Não sei, não - respondeu temerosa.

Os olhos da ruiva se prenderam no rosto da índia e depois desceram para seu seio. Com certeza ela estava olhando para o ônix. Vi o rapaz loiro também observar a pedra. Uma expressão de compreensão inundou os dois estranhos. Os pensamentos deles eram confusos para mim. Nem tentei preservá-los e entendê-los.

Estava vidrado na ruiva. Em suas feições suaves. Na cor de sua pele. No desenho de seus olhos. Na impressionante cor de seu cabelo. Só podia ser o que eu estava pensando.

– Mainá - ouvir o nome da minha mulher na boca daquela estranha me causou uma comichão. - Lindo nome.

A índia piscou os olhos espantada, mas conseguiu falar.

– Obrigada. - Raspando a garganta, continuou. - Você é mesmo a Filha do Fogo?

A ruiva não se ofendeu com a dúvida de meu amor. Estava totalmente incapacitado de falar alguma coisa, apenas acompanhei seus movimentos precisos. Ela ergueu o braço direito e o apontou para a fogueira. Seus dedos se fecharam enquanto movia o braço para uma árvore a alguns metros de distância. Abriu os dedos e um raio de fogo explodiu no tronco. As chamas se alastraram pelo caule, galhos e folhas e em alguns segundos a consumiram totalmente.

– Desculpe - disse a índia com a cabeça baixa envergonhada.

A ruiva caminhou para mais perto dela até alcançá-la com o braço.

– Não se desculpe - disse suavemente. - Você o ama, eu sei. Está apenas preocupada com sua segurança. Posso entender isso. E tenho que agradecer por todo o cuidado que teve com meu irmão.

Estava em choque. Todas as minhas suspeitas se refizeram naquele momento. Aquela mulher linda, estranha e ruiva era minha irmã. Quando a vi, suspeitei no mesmo instante. Nunca havia visto ninguém parecido comigo naquela terra. Era a primeira vez que me deparava com alguém semelhante a mim em trinta anos. Fiquei feliz.

Afinal, tinha uma família de verdade, mas muitas perguntas. Por que havia me abandonado aqui? Por que nunca tentaram me encontrar antes? Onde ela morava? De onde éramos? O que éramos?

Mainá abriu passagem e a mulher deu um passo e se curvou sobre mim.

– Olá, meu irmão - disse me olhando nos olhos. - Também estou feliz em encontrá-lo. Você nem imagina o quanto.

Passei trinta anos esperando por esse dia, seus pensamentos acrescentaram. Sorri de volta satisfeito que eu era o motivo da alegria e do sentimento de outra pessoa e que preenchia seus pensamentos com preocupação e afeto.

– Passei esses anos todos com uma família adotiva - consegui balbuciar. - Procurei durante muito tempo por vocês, mas nunca achei seu rastro.

A ruiva se sentou no chão ao meu lado.

– Vou te contar tudo que aconteceu antes e depois de nascermos. Meu nome é Tamires do Valle, tenho trinta e três anos. Sou casada e tenho uma filha de dois anos. Morava em Foz do Iguaçu onde fui encontrada quando tinha apenas três anos. Passei toda a minha infância e adolescência em um orfanato, esperando que minha verdadeira família viesse me buscar, mas isso nunca aconteceu.

Eu me solidarizei com minha irmã. Eu tivera sorte. Havia sido adotado por uma família que me amava. Tive pena daquela mulher deslumbrante.

– Não tenha pena de mim, meu irmão - respondeu aos meus pensamentos; fiquei intrigado e uni essa à lista de perguntas a fazer. - Não quis ser adotada. Não me sentia abandonada. Eu me sentia separada. Aos dezoito anos saí do orfanato e conheci Gustavo, com quem me casei anos depois. Ele é empresário e pode me dar uma boa e feliz vida.

Imediatamente fiquei satisfeito com o destino de minha irmã. Alguém a amou e lhe deu a felicidade que ela tanto almejava.

– Sim, fui muito feliz por seis anos, sem nunca me esquecer de minha família perdida. Minha única lembrança era uma pedra preciosa bruta, a ametista, que carregava sempre comigo. Tinha pesadelos frequentes que mais tarde descobri serem lembranças terríveis de nossa infância. Em um deles, vi o rosto de nossa mãe. Naquela noite, essa pedra se acendeu milagrosamente e eu quase morri no rio Iguaçu tentando entender o que aquilo significava.

Prendi a respiração. Pedra e luz incandescente. Aquilo me soou tão familiar. Continuei prestando atenção sem coragem de fazer perguntas. Ouviria seu relato e partilharia de suas alegrias e sofrimentos.

– Isso mesmo, Lucca. Igualzinho aconteceu com você. - Também podia ler meus pensamentos? - Depois desse dia, - droga, ela não me respondeu, então não podia - vários eventos místicos e estranhos aconteceram comigo. A pedra, além de acender, me passava sensações boas, positivas, e eu não podia mais ficar longe dela. Percebi que podia ler os sentimentos das pessoas através de seus olhos e por causa disso descobri que meu marido escondia algo de mim. Foi aí que minha vida virou totalmente de cabeça para baixo.

Ela podia ler os sentimentos. Agora podia entendia o que via em mim para me responder. Nós éramos diferentes, afinal.

– Meu casamento se desestabilizou totalmente e fiquei muito confusa. Além disso, descobri que podia manipular os quatro elementos, principalmente o fogo. Uma notícia na televisão, sobre um alinhamento planetário, mexeu com meu sexto sentido e quis saber se tinha alguma ligação com o que estava acontecendo com a pedra e comigo. Mas não consegui muitas respostas. Depois fui marcada a fogo. - Estendeu o braço direito revelando do lado de dentro uma marca semelhante a minha, próxima ao cotovelo. Era um triângulo de cabeça para cima, sem traço o cortando. - Foi a pior experiência da minha vida. Achei que morreria.

Ah, então ela havia sobrevivido. Também sobreviveria, portanto.

– Esse rapaz loiro e grandão me encontrou ainda naquela noite e me contou toda a verdade sobre o que aconteceu conosco. - Pegou minha mão. - Lucca, acho que já percebeu que não somos deste mundo, não é? - Apenas balancei a cabeça. - Nascemos em um lugar mágico conhecido como Coração da Natureza. É uma espécie de centro da terra onde as forças da natureza se renovam e mantém o planeta vivo. Existem quatro categorias de seres. Os mestres, os sacerdotes, os guardiões e os elementais.

Ouvia fascinado. Podia acreditar em magia. Eu a vivia há duas semanas.

– Os mestres são magos e feiticeiras que vivem no Templo do Conhecimento e ensinam a todos desde crianças. O objetivo dos habitantes daquele reino é conservar e aumentar o conhecimento sobre a natureza e sua harmonia. Os seres humanos de lá são seres sobre-humanos, quando digo isso, me refiro ao nosso intelecto. Nossa mente se expande e podemos usar 100% de nossa capacidade cerebral. Por isso fazemos magia. Também não envelhecemos e morremos, a menos que queiramos ou decidamos viver aqui do lado de fora.

Não queria interrompê-la. Ouviria tudo atentamente absorvendo suas palavras. Nem me lembrava mais de que havia mais gente por ali.

– Os sacerdotes são portadores da chave do portal. Os vigias espirituais e físicos do Coração da Natureza. São a lei e a ordem. Determinam as funções, abrem e fecham o portal. São escolhidos pela própria natureza através de dons especiais que recebem no nascimento. Somente eles podem governar os elementais. Se os mestres são sábios, pensadores, razão, os sacerdotes são coração, encanto e magia em essência. Nossa mãe e avós foram sacerdotes.

Analisei agilmente as novas informações enquanto Tamires inspirava ruidosa antes de continuar sua narrativa.

– Somos os protetores, Lucca, seres únicos nascidos com apenas um propósito: proteger o Coração da Natureza. Nascemos quando há algum perigo. Temos muito dos sacerdotes, porém somos dotados de mais força porque podemos ministrar todos os elementos e ainda conhecer a verdade. Posso conhecer os sentimentos e você os pensamentos de nosso adversário. Nosso nascimento foi previsto por nossa avó, uma sacerdotisa vidente.

Congelei quando ouvi meu nome e quase permaneci sem respirar até o final do trecho.

– A profecia de nossa avó se cumpriu. Nascemos, ela e nosso avô foram mortos sorrateiramente e antes que nossos pais pudessem descobrir quem o fizera, o mago negro, usando todo seu conhecimento e poder sobre magia, conseguiu destronar nossa mãe, a sacerdotisa Luise. Antes de morrer, ela nos fez fugir com a melhor amiga, a mãe de Marcel, e a chave do portal. O Coração da Natureza se congelou para se conservar até o dia em que fôssemos reunidos, cada qual com um pedaço da chave original, já que durante a passagem fomos separados acidentalmente. Trinta anos depois, a Era de Aquário viria junto com o alinhamento planetário para nos levar de volta para casa.

Mainá havia me dito algo sobre aquele evento astronômico e eu não dera importância. Se eu soubesse que aquilo tinha a ver com minha história... Mas como eu poderia imaginar?

– Nosso pai era um guardião, como Marcel. Eles são efetivamente soldados, dotados de poderes únicos e propícios para batalhas, mas por terem pouco motivo para guerra, acabaram como intelectuais. Nosso pai conseguiu fugir depois da morte de nossa mãe e procurou por nós por anos sem sucesso. Dedicou-se ao estudo astronômico para prever o alinhamento e ele conseguiu. Ele era o astrônomo Pedro Tosquini, que foi morto por seu ajudante em Belo Horizonte, Minas Gerais.

Senti a bile subir até minha garganta e a forcei a voltar. Desceu queimando. Quem era aquele verme que havia tirado de mim meu verdadeiro pai?

– Marcel conseguiu me encontrar porque é um rastreador. Da mesma forma que te encontramos agora, mas só foi possível porque sua pedra, o ônix, se acendeu e a energia fez com que passasse por todas as etapas da transformação para se tornar o segundo elemento: Terra. O universo está conspirando a nosso favor, meu irmão. Você não deve saber, mas nasceu dia treze de janeiro e você é regido pelo signo de capricórnio.

– Vamos voltar para nossa terra agora e acabar com esse mago assassino! - exclamei com uma força que não sabia de onde tirara.

– Ainda não é possível, Lucca - respondeu Tamires calmamente. - Só teremos força quando encontrarmos as quatro pedras e os quatro elementos. Ainda faltam dois. Além disso, só seremos capazes de abrir o portal no dia do alinhamento, porque os planetas alinhados aumentarão nosso poder e criarão um sinal para que todos os guardiões sobreviventes, espalhados por este mundo, possam encontrar a entrada oculta do Coração da Natureza.

Tamires sorriu quando viu meu rosto cair.

– Entendo sua ansiedade e fico feliz que esteja disposto a seguir este caminho conosco. Mais do que vingar nossos familiares, salvaremos o lugar de onde viemos e nunca deveríamos ter saído não fosse a intervenção daquele mago. Temos que salvar o Coração da Natureza, porque o equilíbrio desse planeta com toda a galáxia está em jogo. Foram longos e tristes trinta anos. Temos que garantir que os próximos sejam harmoniosos, como a Era de Aquário promete.

Balancei a cabeça compreensivo. Sabia que havia muitos outros detalhes, mas o que ela havia me contado fora suficiente para me convencer.

– Quando partimos? - perguntei.

– Cedo - apertou minha mão. - Assim que Alexandre vier ao nosso encontro com notícias de Corumbá. Quero tirá-lo daqui em segurança.

Estremeci. Minutos atrás, a vida parecia muito mais simples, ainda que estivesse predestinado a lutar contra um mago poderoso. A realidade bateu em meu peito como uma arma. Eu ainda tinha que enfrentar um perigo imediato. A fúria do coronel José Cruz. Se sobrevivesse a isso, aí sim eu poderia cumprir meu destino.

ALIANÇA

 

Alexandre do Valle se inform ou no aeroporto internacional de Corum bá qual eram a direção e o cam inho para chegar à fazenda do coronel José Cruz. Mesm o tem eroso, o atendente do guichê passou a inform ação m ais precisa possível.

– O senhor vai contornar o aeroporto e a pista de decolagem . Vai chegar ao fim do bairro Dom Bosco. Siga alguns quarteirões pela últim a rua até alcançar a Dom Aquino. Siga-a em direção a Bolívia. Quando acabar o bairro, ela vira a Rodovia Ram on Gom es. Ao final de um a curva longa, você vai passar em frente ao Parque Marina Gatass. Continue. A próxim a entrada à sua direita é a da fazenda. Senhor, preciso avisar que o clim a não deve estar bom por lá. Não o aconselharia a ir.

– Obrigado pela descrição detalhada e pelo conselho - respondeu Alexandre.

Quando ganhou a rua, um vento frio soprou uivando e lhe causou arrepios. A cidade parecia um cenário de film e de terror. Não havia nenhum m ovim ento na escuridão. Nem carro, nem pessoas, nem anim ais. Era um deserto de concreto e pixe.

O rapaz bronzeado de trinta e cinco anos, vendo-se com pletam ente sozinho, alongou as fortes pernas e com eçou a correr na direção que foi instruído. Sua m em ória fotográfica havia guardado cada palavra da inform ação conseguida e, portanto, seguiu a risca.

A cada passada, os m úsculos o im pulsionavam para m ais longe. Em poucos segundos ganhou um a velocidade im pressionante. Quem o visse correndo assim , naquele cenário assustador, acharia que o rapaz era algum tipo de m onstro caçando sua presa.

A m ente rápida e eficiente de Alexandre não parava enquanto o vento frio, devido à velocidade, zunia ao seu redor, agitando seus cabelos e roupas. Tram ava um m odo de se aproxim ar sem ser notado. Precisava saber o que estava acontecendo e se alguém tinha algum a ideia do esconderij o de Lucca Gonçalves.

Sua visão aguçada avistou a curva bem antes de alcançá-la. Entrou na periferia de Corum bá com agilidade. Depois de algum as quadras, viu a próxim a curva. O fim da cidade. Apressou-se, ansioso para ganhar a rodovia. Seu corpo respondeu im ediatam ente. Em apenas algum as passadas fez a curva. Mais dois quarteirões e leu a placa com o nom e da rua que indicava seu novo rum o. Entrou nela virando à esquerda.

Inspirou profundam ente recebendo o ar úm ido vindo do verde ao redor da rodovia. Era m uito m ais puro, aberto, livre. Ganhou m ais força captando as energias da natureza do lugar. Era tão vivo. Sentiu-se im ediatam ente ligado, conectado. Sorrindo, correu quase com o um borrão pela estrada deserta.

O único som que chegava aos seus ouvidos, além do uivo do vento, o das águas do rio Paraguai. O céu estava lím pido, escuro e estrelado. A lua brilhava cheia e ilum inava fracam ente o cam inho à sua frente tornando-o prateado. Viu e passou pela curva longa da estrada e em seguida avistou a placa que indicava a entrada do parque.

Passadas adiante, viu a diferença na vegetação à m argem da rodovia que denunciava um a abertura e um a estrada de terra. Virou à direita e percorreu os dois quilôm etros cercado pela m ata cada vez m ais rala dos dois lados. Viu, recortada contra o céu azul m arinho, a enorm e m ansão da fazenda. Reduziu o passo para não cham ar a atenção. Aproxim ou-se usando a som bra das árvores para se esconder.

Cam inhou lenta e silenciosam ente ao redor da sede prestando atenção aos sons em seu interior. Distinguiu apenas um par de passos suaves descendo as escadarias do andar de cim a. Acom panhou seu ritm o. Viu o vulto de um a m ulher passar pela j anela no térreo. Era loira, esguia e baixinha.

Abrindo as portas duplas de vidro de um a das sacadas, a m ulher bonita apareceu sob o luar. Debruçou-se na grade de proteção. Encarou com tristeza a lua e perm aneceu tão im óvel que parecia a im agem de um quadro. Estaria perdida em que pensam entos? Alexandre não ficou ansioso, m as gostaria de poder lê-los.

Seus ouvidos captaram um a respiração pesada vinda do interior da casa, atrás da m oça. Percebeu que ela olhou para trás, despertada pelo som do quase ronco, com um m isto de desgosto e gratidão. Alexandre sorriu ao saber que ela não estava sozinha. Procurou por m ais vestígios de pessoas na casa e não encontrou m ais ninguém .

Quem seria a pessoa dorm indo no sofá? Seu pai? Provavelmente não, pensou. Im aginava que o hom em não dorm iria enquanto não botasse as m ãos sobre Lucca. Estaria ele a cam inho da reserva nesse m om ento? Esperou que a j ovem dissesse algum a coisa em voz alta e elucidasse suas dúvidas.

Ouviu apenas um m urm úrio dentro da casa. A outra pessoa estaria sonhando ou tinha o hábito de falar dorm indo? Prestou o m áxim o de atenção a fim de entender suas palavras.

***

Diante do espelho do banheiro, Edm undo Gonçalves contem plava a própria im agem refletida. Não era feio, m as tam bém tinha que adm itir que não era lindo. Suas feições eram de um hom em robusto, calej adas pelo trabalho sob o sol forte. Seus braços eram grandes e bem desenhados. Sua expressão era taciturna dem ais para um j ovem , dando-lhe um a aparência envelhecida, m as achava que passava um a im agem de segurança.

Por que Vitória Cruz não o via? Por que a palidez estranha de Lucca e suas sardas j uvenis eram m ais atrativas para ela? Seu cabelo ridiculam ente verm elho era tão ofuscante sob o sol. Com pletam ente diferente de seus cabelos escuros, sedosos e brilhantes. Passando os dedos pelos fios negros, pensou que ela poderia apreciá-lo até m ais do que a seu irm ão adotivo. Ele só precisava de um a chance.

O destino - ou sua própria inteligência - o havia posto na hora e no m om ento certo para se aproxim ar de sua am ada. Vitória estava sensível, vulnerável, cheia de dúvidas sobre a fidelidade de seu noivo. Provavelm ente com m uito ódio tam bém , apesar de ainda não ter externado nada além de um a tristeza profunda através de suas lágrim as abundantes.

Só tinha essa oportunidade e não podia perdê-la. Não sabia o que dizer para afastá-la definitivam ente de Lucca. Ela precisava sentir horror por ele. Desprezo. Essa era a chave. Mas com o alcançar esse obj etivo? Não tinha provas efetivas de sua infidelidade. Precisaria m ais do que isso.

Seu rosto no espelho sorriu e o deixou intrigado. Não estava sorrindo. Seu próprio reflexo m ostrou os dentes em um a gargalhada sinistra. Chocado, se encontrou com a parede do lado oposto. Sua im agem continuou m ovendo-se por conta própria. O que significava aquilo? Estaria vendo coisas? Perdendo a sanidade? Estava tarde e não havia adorm ecido ainda. Talvez fosse o cansaço.

Debruçou-se, evitando o espelho, sobre a pia e lavou o rosto com a água da torneira. Lentam ente, ergueu o rosto para o vidro. O m edo de que a sua própria im agem estivesse aprisionada lá tom ou conta de seu ser. Mas, para seu espanto, ela surgiu j unto com o m ovim ento que fez. O receio estam pado.

Suspirou. Apenas im aginara aquilo. Estava tudo bem . Era m elhor descansar um pouco e quem sabe durante o sono conseguisse um a boa ideia do que dizer a Vitória para trazê-la para seus próprios braços. Olhou-se um a últim a vez no espelho. Sua im agem a cópia perfeita de si m esm o.

– Você sabe o que fazer, Edm undo - um a voz m etálica im itava a sua.

Olhou ao redor a procura de outra pessoa. Não encontrou ninguém , evidente. Tem eroso, voltou-se ao espelho. Lá estava a sua im agem com os braços cruzados e m uito sério. Mais do que o habitual. Paralisou.

– Não tenha m edo - seus lábios se m oviam e a voz soou novam ente. - Sou apenas o reflexo de seu subconsciente. Estou aqui para te aj udar.

Em choque, não podia se m over ou falar algum a coisa.

– Você não quer conquistar Vitória de vez e ao m esm o tem po desm oralizar Lucca? Então você j á sabe exatam ente com o fazer isso. Você precisa usar todas as arm as que tem , sem escrúpulos.

Piscando, afastou o m edo e prestou m ais atenção às palavras de si m esm o no espelho.

– Você conhece dois segredos de Lucca. É verdade que m uito superficialm ente, m as isso não te lim ita. Use a im aginação. Im plante a dúvida. Ela será um benefício a seu favor e contra Lucca.

Um sorriso de contentam ento brotou no rosto de Edm undo e seu reflexo o im itou, sem alterar sua pose descontraída.

– Diga a Vitória tudo o que você pensa sobre ele. Tudo em que acredita. Faça-a saber os detalhes do que você viu, do que você sofreu, da conversa que tiveram .

– Sim - sussurrou refletindo. - É claro. Posso fazer isso.

Sua im agem no espelho com eçou a segui-lo em tudo. Seus olhos esbugalhados de ansiedade. Só faltava a lâm pada acesa sobre sua cabeça. Estava agitado e pensativo. Logo reconheceu seus próprios m ovim entos. Seu subconsciente se fora.

– É exatam ente isso que vou fazer.

Movendo-se para fora do banheiro, apagou a luz. Piscou os olhos. Dem orou alguns segundos para que se adaptassem ao escuro. Quando conseguiu, viu o lustre do teto da sala luxuosa. Lem brou-se de onde estava. Na m ansão de Vitória. Conferiu que estava deitado sobre o sofá. Adorm ecera enquanto velava o sono dela no andar superior.

Constatou, com alívio, que a bizarra cena diante do espelho fora apenas um sonho. Sentou-se. Ainda era m adrugada. Sentiu um vento frio soprar em sua direção e olhou para ver as portas da sacada aberta. Sob a luz fraca do luar, percebeu o vulto esvoaçante de Vitória. Escuro ou não, sem pre a reconheceria com facilidade.

Era sua deixa. Levantou-se devagar e cam inhou em sua direção. Com o estava descalço, a m oça não o ouviu se aproxim ar, m as tam bém não se assustou.

– Sem sono? - perguntou postado ao seu lado na grade de proteção.

***

Alexandre, escondido a vários m etros entre as som bras das enorm es árvores, observou a aproxim ação do rapaz e ouvia atentam ente o que falavam . Viu o rosto da m oça se alterar em duas expressões diferentes. Percebeu que ficou desgostosa e depois grata. Que ambíguo!, pensou.

– Não consigo dorm ir apesar de m e sentir exausta - respondeu a m ulher. - Hoj e era para ser o dia m ais feliz da m inha vida.

– Eu com preendo - concordou o rapaz. - Mas tenho que te dizer que foi m elhor assim .

Alexandre prestou bastante atenção na reação da m ulher baixinha. Entre a dor e o despeito, ela lutou para responder.

– Talvez - conseguiu ser educada. - Se ele realm ente não m e am a...

Engasgou na palavra final e não conseguiu continuar. O rapaz troncudo tam bém sofreu um a guerra interna com suas em oções. Entre a fúria e a com paixão.

– Posso apenas te dizer o que eu vi - forçou as palavras a saírem am enas. - Você sabe que eu não tinha um a relação íntim a com ele. Não posso confirm ar seus sentim entos, m as o que eu vi naquela caverna m e disse m uitas coisas sobre ele desconhecia até então.

O rapaz esperou. Parecia indeciso. Mas a m ulher não o deteve, nem o incentivou. E ele levou seu silêncio com o um consentim ento para que continuasse.

– Andava m uito estranho naquela sem ana. Você sabe que ele sem pre foi m uito responsável e o respeito pelos horários era com o um a lei para ele. Porém , não teve um dia sequer que ele chegou do trabalho na hora habitual. Sabia que ele não estava com você, nem com Carlos. Então onde estaria?

Pausou rapidam ente para que os sentim entos tum ultuosos da m oça se acalm assem antes de prosseguir a narrativa.

– Era um sábado. E ele nem esperou escurecer para sair de casa. Achei m uito suspeito. Então resolvi segui-lo. Ele entrou no parque e foi direto para um a gruta. Eu tive um pouco de dificuldade de andar na escuridão, m as ele não dem onstrou nenhum a. Quase o perdi várias vezes.

O rapaz cerrou os punhos tam bém enfrentando seus próprios sentim entos revoltosos. Alexandre quase suspendeu a respiração a fim de não se distrair.

– Na gruta, ele cham ou um nom e. Era diferente. Confesso que não o guardei. Mas suspeitei que era de m ulher. Com um susto, eu o atentei a m inha aproxim ação e o ataquei verbalm ente. Perguntei quem era aquela pessoa que ele fora encontrar ali. Eu o vi perder o chão.

Alexandre observou as reações da m oça. Parecia ainda m ais pálida do que o norm al, os lábios apertados em um a linha fina.

– Mas nada com parado ao que aconteceu quando a própria m ulher entrou na gruta apressada. Era um a índia, toda pintada, praticam ente nua e descalça. Os cabelos longos até o m eio das costas e um a franj a farta em cim a dos olhos. Um a bugra. Nenhum a beleza exótica poderia superar a sua beleza, Vitória, e aquilo m e enfureceu dem ais.

O rosto da m oça ficou verm elho-vivo. Era vaidosa com o as m ulheres fúteis, pensou Alexandre. Estava encantada com o elogio de um hom em que claram ente desprezava e, no entanto, tam bém lhe era grata pela traição ao próprio irm ão. Aquilo era noj ento, m as continuou ouvindo.

– Despej ei m inha raiva sobre ele, o acusei de te trair para realizar um fetiche. Ele ficou paralisado, seus olhos se desviando preocupados com a índia a todo o m om ento. Fiquei enoj ado e senti vontade de m achucar aquela bugra na frente dele. Cheguei a agarrá-la, porém , com um vento m uito forte, fui j ogado contra a parede pelas costas. Voltei-m e esbaforido contra Lucca e antes que pudesse tocá-lo, fui j ogado contra um a pedra.

A m oça prendera a respiração enquanto a narrativa chegava ao seu ápice. Acabou voltada para o rapaz, os olhos presos nele sedentos pelo desfecho daquela história.

– Não entendi por um m om ento com o fui atingido se Lucca não chegou a m e tocar. Ele apenas estendeu as m ãos para m im , Vitória. E eu não falo isso para tentar am enizar o fato de eu ter apanhado dele. Estou salientando a esquisitice da situação. Com o ele conseguiu m e atingir sem chegar perto? - Engoliu em seco, prendendo os olhos sobre a m oça talvez para garantir que ela visse sua sinceridade. - Com o, Vitória? Só tenho um a explicação: Lucca não é deste m undo. Sem pre suspeitei disso e naquele dia tive certeza.

A baixinha m oveu a m ão para a boca. Prim eiro Alexandre pensou que estava abafando seu horror, m as logo percebeu que um risinho escapava dela.

– Não ria, por favor - continuou o rapaz profundam ente ofendido, porém disposto a prosseguir. - Estou sendo sincero com você. Vitória, o convivo com ele há trinta anos. Sem pre o achei estranho. Ninguém pode ser correto com o ele é. Pense bem . Você precisa ver que ele não agia de boa fé. E só tem um m otivo para isso. Esconder sua verdadeira identidade.

A m oça parou de rir. Estava entendendo onde ele queria chegar.

– Você quer dizer que ele só aceitou ficar com igo por causa do m eu dinheiro? -perguntou ela com um a voz m uito baixa.

– É provável. Mas de um a coisa eu tenho certeza, ele não estava sendo ele m esm o este tem po todo. Por algum m otivo, talvez depois que ele conheceu essa índia, se sentiu m ais livre e acabou deslizando. Eu saí daquela gruta, Vitória, e corri para cá para te contar tudo o que eu havia visto, m as ele veio em m eu encalço. Você nos viu brigar, lem bra?

A m oça balançou a cabeça confirm ando. Alexandre estava cada vez m ais curioso para saber onde aquela conversa term inaria.

– Na sua frente, ele não usou de anom alias. Ele queria m anter as aparências. Mas depois que ficam os sozinhos, ele m e am eaçou e m e obrigou a ficar quieto e não te contar nada. É claro que eu não cederia tão facilm ente e o fiz prom eter que m e explicaria tudo. Ele m e garantiu que não podia agora, m as que assim que pudesse, eu saberia.

Confusa, a m oça dem onstrou em suas feições que não tinha certeza se acreditava ou não no rapaz.

– Hoj e cedo, quando acordei, eu estava decidido a im pedir a sua infelicidade, Vitória. Disposto, inclusive, a enfrentar Lucca e te contar tudo. Então descobri rastros deixados por ele que diriam m ais sobre suas verdadeiras intenções do que eu j am ais poderia lhe contar. Logo percebi que ele não havia dorm ido em casa. Minha m ãe m e disse que o Carlos organizou um a festa. E você conhece o Carlos, não é?

A m oça ruborizou devido a raiva dessa vez. Alexandre queria saber m ais sobre a pessoa citada, porém não lhe foi inteiram ente explicado.

– Com certeza ele organizou um a despedida de solteiro e arrastou Lucca para lá. Para ele não ter dorm ido em casa, eu tenho um a ideia do que andou fazendo às vésperas do casam ento e eu não duvido que o próprio Carlos o tenha convencido de desistir e fugir enquanto estava bêbado o bastante para ter coragem de fazê-lo.

O despeito explodiu no rosto da j ovem . Nada de lágrim as. Nada de gritos. Apenas um a expressão tão furiosa quanto sua aparência perm itia. Porque para Alexandre era tão inofensiva quanto um filhote de gato.

– Ele não é digno de você, Vitória. É um a aberração, um usurpador, um alienígena, um m entiroso, um a farsa. Ele não pertence a este lugar, não tem direito de estar ao seu lado e eu quero que você saiba que eu estarei aqui enquanto precisar de m im .

O rapaz esperou um a reação da m oça, enquanto se acalm ava e organizava os sentim entos e pensam entos perturbadores. Ao final de alguns m inutos, perm itiu que Alexandre ouvisse a explosão de sua voz.

– Você tem razão, Edm undo. Lucca não m e m erece. Não depois de tudo que você m e contou sobre ele. Quero que fique. Confio em você.

O casal se abraçou. Alexandre ouviu o som de carros na rodovia que em seguida entraram na estrada de terra que dava acesso à fazenda. Subiu na árvore para se esconder da m ira dos faróis. Cam inhonetes, em alta velocidade, entraram em seu cam po de visão. Pararam em frente à fazenda derrapando os pneus.

Os absortos se livraram um do outro e se viraram ao som dos carros. A m oça, com um a aparência decidida, correu ao encontro dos hom ens e os alcançou na escada de entrada.

– Papai, você o encontrou? - perguntou ao hom em m ais velho que carregava um a espingarda no om bro.

– Ainda não, m inha filha - respondeu tom ando a m oça entre os braços flácidos.

– Tenho um a ideia de onde ele pode estar. - O pai a afastou e a ouviu atentam ente. - Ele não estava com um a indígena? Então, papai, é tão óbvio. Qual a aldeia m ais próxim a daqui?

O fazendeiro não precisou de m ais nenhum a palavra. Voltou-se para os hom ens, tam bém arm ados, e ordenou que voltassem para as cam inhonetes e verificassem as lanternas. A caçada ainda não havia term inado.

A j ovem se aproxim ou do velho e pediu.

– Papai, quero Lucca m orto.

Alexandre sentiu seu corpo gelar com aquelas palavras. Com que facilidade a m oça falava da m orte do ex-noivo! O irm ão de Lucca conseguira acabar com o am or que ela sentia por ele com algum as acusações infundadas. Especulação pura. Sentiu necessidade de avisá-los. Sacou o celular e discou o núm ero de Marcel. Não tinha m uito tem po.

PERTURBAÇÕES

 

Passaram -se dez m inutos inquietantes enquanto Alexandre do Valle, tom ado pelas som bras, aguardava um a oportunidade para atrapalhar os caçadores e fugir dali direto para a reserva sem que fosse seguido. Sabia que talvez não os fizesse desistir de seu intento, no entanto, pretendia retardá-los o m áxim o que pudesse.

Recarregando as arm as, os capangas estavam em volta dos carros em frente à casa. Não havia com o sair sem ser visto. Atirariam sem dó nem piedade ao m enor m ovim ento. O rapaz pegou no bolso da calça um pequeno canivete e o alisou. Precisaria apenas de m eio m inuto para que seu plano tivesse sucesso.

O coronel José Cruz ainda não havia saído da casa. Am parava a filha nos braços, fazendo prom essas de que se vingaria em nom e dela e de sua honra ferida. Vitória estava especialm ente anim ada diante de suas palavras. Parecia feliz porque tivera a grande ideia sobre o paradeiro do ex-noivo.

Edm undo assistia a tudo com certo contentam ento pela acolhida de sua am ada e do fazendeiro. Praticam ente j á se sentia em casa ali na m ansão, parte da fam ília. Com sua autoconfiança reconstruída, as esperanças de conquistar o coração de Vitória seriam renovadas.

Alexandre sentiu o arom a de café fresco inundar a m adrugada. Em breve estaria am anhecendo, refletiu. A criadagem com eçava as atividades do novo dia norm alm ente, com o se aquele fosse tão com um quanto os outros. O cheiro atraiu a m aioria dos hom ens que estava do lado de fora da m ansão. Dando a volta, entraram na cozinha pelos fundos, com o os em pregados, sem que cruzassem com os proprietários na sala.

Um retardatário continuou sentado no banco do m otorista de um a das cam inhonetes, m uito teso e agitado. Alexandre podia ver a adrenalina pulsando em suas veias. Estava sedento por sangue e im paciente para term inar a caçada daquela longa noite.

Alexandre tom ou todo o cuidado para que a atenção do hom em aguçada por horm ônios não pressentisse seu vulto na escuridão se m ovendo com a rapidez e o silêncio de um felino. De árvore em árvore, aproxim ou-se da cam inhonete por trás, sem que o hom em notasse.

Rastej ando no chão de terra batida, esticou o corpo silencioso e tocou de leve o tornozelo do capanga que estava do lado de fora da cam inhonete. Antes que pudesse senti-lo, o hom em pressentiu um a repentina m udança em seu estado de espírito.

Com um bocej o grande e largo, o capanga foi tom ado por um a súbita e inexplicável onda de m al-estar. Seu corpo, um cansaço evidente e nítido. Suas pálpebras pesaram dem ais para que precisasse lutar para m antê-las erguidas. O hom em se rem exeu im paciente no veículo. Alexandre rolou para baixo do chassi.

– Meu Deus, o que é isso? - m urm urou. - Parece até algum a m acum ba.

Levantou-se disposto a afastar aquele desânim o. Cam inhou decidido e resm ungando que se entupiria de café a fim de garantir sua participação no final daquela caçada. Concordou que os outros estavam certos de ir se abastecer na cozinha antes de partirem .

Enquanto via o capanga contornar a casa, Alexandre se arrastou ao redor dos carros. Gastou m enos do que o m eio m inuto planej ado para perfurar com seu canivete todos os pneus das cam inhonetes preparadas para perseguir Lucca. Em seguida, entrou na única que deixara intacta e abaixou o freio de m ão. Com a força sobre-hum ana de seus braços e pernas, em purrou-a em direção a rodovia.

Verificava a todo instante a m ovim entação dentro da casa para se certificar de que não percebiam o extravio. Som ente quando teve certeza de que não ouviriam o som do m otor é que se arriscou a dar partida. Dirigiu em alta velocidade na direção em que sentia a presença de Tam ires e Marcel.

Não havia tem po - nem disposição - para usar a estrada convencional. Aproveitando-se de sua visão aguçada, cortou cam inho entre a m ata, construindo um a nova rota em diagonal direto para a reserva. Sabia que isso lhe pouparia m uito m ais tem po.

Continuar: parte 12 de 13