Filho da Terra - Os Quatro Elementos, Volume 2
Prólogo
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 13 partes.
Desviou das árvores m aiores e passou por cim a das m enores. Causou algum estrago a natureza e isso o entristeceu. Minim izou os destroços o m áxim o que pode, desviando-se sem pre que possível. A bússola interna de Alexandre não perm itia que desviasse do rum o certo.
Quilôm etros distantes se sentiu m ais seguro, m as não reduziu a velocidade. Com eçou a rir sozinho im aginando as caras dos capangas e do coronel quando descobrissem a pequena destruição que havia deixado para trás e a ausência de um dos carros.
***
Vitória estava dividida entre seu ódio por Lucca e seu futuro incerto. Sem pre fora um a m ulher organizada, planej ava seus passos com antecedência, apesar dos im provisos da vida e seu gênio im pulsivo, m as no fim , as coisas acabavam , m esm o que de m aneira torta, do j eitinho que queria.
Era a prim eira vez que falhava. E aquele era o m aior anseio de sua vida badalada e ociosa. Tornar-se casada - bem casada - garantiria sua estabilidade, seu futuro e sua felicidade. Fortuna, am or e um a fam ília que podia fingir cuidar, quando na verdade apenas a exibiria com o um troféu.
O casam ento com Lucca seria m ais do que um a união. Seria um a vitória sobre aquela terra escura, úm ida e chata. Vitória fora feita para brilhar, estar em evidência e, consequentem ente, nutrir a invej a alheia com orgulho e satisfação. Além de sua beleza, sua falsa felicidade seria o desfecho perfeito para sua linda e exuberante história de vida.
Vitória nunca teria filhos m orenos, com o o povo daquela terra. Com Lucca, eles seriam branquinhos e lindos. Talvez até ruivos. Am ava a diversidade e a excentricidade, m as som ente as cores que achava belas, brilhantes e claras. A única pessoa m orena que am ava era a m ãe que nunca conheceu.
Talvez por isso a tivesse em tão alta conta. Criara um a im agem perfeita de sua m ãe, m as não fazia ideia de quem ela realm ente fora. Im aginava-a bela, elegante e de boas m aneiras. Com o um a m ulher desprendida, capaz de am ar incondicionalm ente, resignada e coraj osa.
Por seu pai tinha verdadeira adoração. Era seu exem plo e sua força. Sem pre estava disposto a fazer qualquer coisa por ela e Vitória o am ava por isso. O coronel havia lhe ensinado que valia tudo quando estava em j ogo sua vontade e felicidade. Tam bém lhe ensinou sobre o orgulho, a honra e a vingança. O preconceito se instalara inevitavelm ente a partir do m om ento em que se sentiu superior aos outros.
Pensando em seus conceitos de vida, Vitória refletiu - ao parar os olhos sobre o estranho im óvel a um canto da sala - sobre o que a fizera aceitá-lo tão facilm ente. Talvez sua evidente sinceridade, ou talvez o m odo com o a olhava. Antes sentira repulsa por sua adm iração, m as agora, estava lisonj eada.
Talvez se devesse ao seu ego ferido. Precisava curá-lo e nada com o um novo galanteio para tratar a ferida que ainda sangrava. Analisando-o agora, percebeu que era um hom em forte, sério e com traços bem m asculinos. Chegou a ter curiosidade de com o seria beij á-lo.
Depois, pensou. Agora tenho uma vingança para colocar em prática antes do sol raiar. Porque quando ele nascer, eu serei uma nova mulher. Pronta para preencher a próxima página em branco do livro da minha vida. Lançou um sorriso ao seu adm irador que a observava deslum brado e quase fê-lo se desm anchar.
Virou-se para seu pai que apressava a partida da tropa. Satisfeita, contou m ais de vinte hom ens, m uito bem treinados e arm ados. Aquela aldeia, que ousara refugiar um condenado, sofreria as consequências de sua escolha. E desej ou que a prim eira a cair fosse a tal índia que lhe roubara Lucca.
Seguiu o pequeno exército porta afora, m as quase teve um sobressalto quando a voz de seu pai soou com o um trovão na m adrugada fria. Em consequência, várias arm as foram apontadas ao redor procurando um alvo invisível.
– O que aconteceu aqui?
Os capangas se aproxim aram do prim eiro veículo onde o coronel estava estático e furioso. Com as lanternas, revelaram o que lhe causou tão perplexidade.
– Quem furou todos os pneus? - vociferou novam ente.
Ninguém soube responder. Ninguém havia visto nada. Depois de vários novos berros, o fazendeiro, verm elho de ódio, verificou que faltava um a cam inhonete. Fez m etade dos hom ens vasculharem as redondezas a procura da pessoa que havia feito aquilo. Com certeza alguém que queria proteger Lucca.
– Não tem os m ais tem po a perder – ordenou. - A outra parte vem com igo para a reserva.
Na garagem enorm e atrás da casa ainda havia um a cam inhonete e um utilitário m enor, tam bém com tração nas quatro rodas. Quatro hom ens foram nas cabines duplas e dois nas caçam bas, arm as em punho, prontos para defender a retaguarda caso houvesse um a em boscada ou um ataque surpresa.
Vitória assistiu aquilo com a adrenalina a m il. Sentiu-se a m ocinha a ser defendida em um film e de ação. Aquilo a deixou tão excitada que o olhar profundo e sedento de Edm undo sobre ela lhe acendeu um apetite diferente. Cam inhou em sua direção com firm eza - sem pensar- disposta a saciar aquela sede.
***
Edm undo viu a expressão da m ulher am ada se alterar bem diante de seus olhos. Um fogo subiu por seu corpo e se concentrou em sua cabeça. Seus braços e m ãos form igaram , lhe im pedindo de m exer um m úsculo sequer. Não dem orou nem três segundos para que ela encurtasse a distância entre eles.
Sem pre sonhara com o m om ento em que a teria nos braços. Seu corpo frágil, pequeno, quente e m acio palpitando sob seus dedos enquanto o acariciava. Sua boca carnuda e doce entregue para que a saboreasse a seu bel prazer. Seu perfum e invadindo seu corpo com o um intruso desej ável e apetitoso.
Sonhara inúm eras vezes e de diversas form as. Mas j am ais teria im aginado assim e naquele m om ento tão im provável. Cruzando a sala com um passo firm e e decidido, Vitória parou som ente quando se chocou contra o corpo de Edm undo. Seus braços o envolveram decidida e instintivam ente a apertou.
Ao longe, ouviu o som dos carros em alta velocidade. Que o coronel não voltasse agora. Seria feliz por pelo m enos um m om ento, caso, depois de satisfeita, Vitória o rej eitasse novam ente. Não im portava, contanto que pudesse prová-la um a única vez.
Vitória o j ogou contra o sofá e caiu sobre ele. Seu beij o ardente e desesperado tinha sabor de vingança e desej o. Sentim entos tão am bíguos, porém m uito fortes. Urgente, se pôs a tirar-lhe a roupa. Respondeu com a m esm a ânsia e despiu sua am ada.
Seu corpo pálido, em contraste com o seu, era lindo e brilhante. Com o ela era bela nua! Seu cabelo dourado cobria seus om bros com delicadeza. Por m ais que ela m erecesse gentileza, estava desesperado dem ais por senti-la. Suas m ãos a apertaram com força e sua boca vasculhava sua pele deixando vergões verm elhos.
Vitória gem ia de prazer, incentivando-o a prosseguir com o quisesse. Edm undo a tom ou em seguida brutalm ente. Am ou-a com força com o se quisesse fundir seus corpos. Desespero e urgência ditavam seus m ovim entos.
Os gritos da m ulher o deixavam m ais afoito e suas unhas rasgaram sua pele. Prazer adicional foi inj etado em seu corpo, aum entando sua força e ritm o. Percebeu que Vitória perdia o fôlego e se concentrou em lhe proporcionar o m aior prazer que um corpo pode sentir.
Chegaram ao clím ax j untos com um gem ido prolongado e um aperto forte. Jogaram -se no sofá exauridos, respirando rápido a fim de acalm ar o bater frenético de seus corações. Edm undo pensou que fazer am or com Vitória havia sido m uito diferente de qualquer outra experiência que tivera antes. Fora a m elhor da sua vida.
Mas o que aquilo significaria a partir de agora?
***
Depois que Tamires desligou o celular, voltou a falar com Marcel sobre suas inquietações. Precisávamos organizar a nossa fuga em segurança enquanto aguardávamos o tal Alexandre que eu ainda não conhecia, mas já haviam me explicado que também era um guardião e que estava do nosso lado.
– Como você está se sentindo? - perguntou minha irmã mais velha.
– Ainda fraco, mas a dor já passou - respondi.
Mainá não se manifestara desde que ouvira, ao meu lado, toda a narrativa de Tamires. Parecia nervosa e evitava olhar direto e prolongado para mim. Sabia o que isso significava. Ela não queria que eu soubesse seus pensamentos. Que tipo de perturbações estaria a afastando de mim?
Tinha que refletir sobre as coisas que ouvira, mas minha agitação não ajudava muito. Corria sério perigo. Ouvira muito bem minha irmã falar em armas de fogo. Não teríamos chance de escapar se chegassem à reserva. E não queria colocar aquela gente toda em perigo.
Devia ter pensado em uma fuga mais cedo. Ter ido direto para o aeroporto e pegado um avião para Campo Grande, ou qualquer outro destino. Não importava de verdade. Só precisava estar longe dali e o povo de minha amada estaria em segurança.
Pensando melhor, o esforço talvez fosse em vão. Provavelmente o coronel pensaria na reserva em algum momento da caçada e acabaria me procurando lá. E se não estivesse ali quando eles chegassem, talvez descontasse toda sua fúria e frustração sobre aqueles inocentes.
Outra dúvida me ocorreu. Será que tinha o direito de privar a tribo Kadiwéu de sua princesa? Levá-la comigo seria afastá-la dos seus. E sabia que essa escolha não teria volta. Estava condenado e nunca mais poderia colocar meus pés no Pantanal. Era justo condenar também Mainá por um crime que não cometeu?
Não, não era. Egoísta, não sabia mais viver sem ela. O que fazer então? Ficar e morrer ou fugir e morrer? Porque viver longe de Mainá seria o mesmo que não viver mais. Talvez se desse a escolha a ela, amenizasse minha culpa e meu remorso.
– Mainá - chamei, apertando sua mão que já segurava a minha.
A índia se inclinou sobre mim com ansiedade. Seu rosto a centímetros talvez para abafar nossa conversa íntima.
– Sim, Lucca - respondeu com um suspiro.
– Queria te fazer uma pergunta e quero que seja sincera.
A indígena esperou que eu continuasse para desvendar o segredo escrito nos meus olhos.
– Estou em dúvida se devo ou não ir com eles, apesar de ter dito com veemência que iria.- Seu rosto revelou espanto. - Só preciso saber uma coisa antes de me decidir. - Expectativa palpável. - Você iria comigo?
Dois fios de lágrimas escorreram de seus olhos e me preocupei em tê-la ofendido.
– Se você não quiser, é claro que não a forçarei a ir - acrescentei logo.
Entre as lágrimas que tentava enxugar, vi um sorriso doce e tímido brotar em seus lábios. Riu e fiquei sem compreender o que se passava naquela cabecinha.
– Eu com medo de que não quisesse que fosse com você enquanto você está com dúvidas de que eu não queira ir - ria Mainá.
Sorri ao entender seu impasse e a tomei nos braços antes de falar.
– Não me imagino mais sem você.
Mainá me apertou com força já livre das lágrimas tolas e inseguras.
– Você ficaria se eu dissesse que não queria ir, mesmo se isso fosse sua sentença de morte?
Olhei no fundo dos olhos dela antes de responder.
– A vida não teria sentido sem você.
Mainá me beijou com paixão. Nossa conversa não passara de um sussurro, mas ouvi um risinho doce que logo reconheci. Tamires pode ouvi-la com certeza. Corei enquanto ainda a beijava. Pelo menos, seus cabelos esconderiam minha vergonha. Afastando-se do meu beijo, minha amada respondeu.
– Não quero ser a causa de sua morte. Muito menos o desvio em seu caminho. Vou com você.
Ainda ousei insistir.
– Mainá, é sério. A gente não precisa enfrentar uma luta...
Seus dedos taparam minha boca e me fizeram engolir as palavras.
– Shiiii... Você deve seguir seu destino, assim como estou seguindo o meu.
Sorri. Lá vinha ela novamente com aquela história de destino. Apesar de minha relutância, uma parte de mim estava ansiosa para participar dessa guerra mística. Seria interessante e no mínimo excitante. Eu iria enfrentá-la com todo o prazer e garra assim que pudesse me levantar daquela rede.
Ouvi Marcel e Tamires conversando e me trouxeram novamente à realidade.
– Qual o horário do nosso voo? - perguntou o loiro.
– Seis e vinte - respondeu a ruiva conferindo o relógio. - Se Alexandre não chegar em cinco minutos, nós o perderemos e o próximo só depois da meia noite.
– Hum, do jeito que este coronel está obstinado, limites territoriais não o segurarão. Ainda mais se tiver tempo para nos encontrar.
Tentei me levantar, precisava começar a me movimentar para testar minha força. Mainá me amparou sem me obrigar a continuar deitado. Gostava disso nela. Não era mãezona. Era uma guerreira e me tratava como igual. Nada de proteção exagerada, apenas apoio incondicional.
Um som alto de motor forçado no último fez com que eu, Marcel e Tamires virássemos nossas cabeças para a direção que só revelou a mata aos nossos olhos. O barulho de árvores sendo derrubadas e arrastadas nos espantaram.
– O que foi? - sussurrou Mainá.
Tamires se virou para nós aflita.
– Acho que eles estão chegando!
Um minuto se passou e então a índia também ouviu a ruidosa aproximação.
– Estão vindo em alta velocidade, passando por cima de tudo que vêem! - exclamou Marcel.
Como o povo guerreiro que era, a tribo toda paralisou esperando a chegada dos estranhos. As mãos empunhando suas armas. Não temiam o confronto.
Feixes de luzes dos faróis vazaram entre as folhas e prendi a respiração. Concentrei-me em sentir minha força caso fosse preciso usá-la para proteger a todos.
No segundo seguinte, uma caminhonete escura achou passagem entre os troncos e avançou sobre nós, freando a centímetros de nos atingir. A grade da frente do veículo estava muito amassada, o capô danificado. Galhos estavam presos sob o chassi e entre as rodas e os para-lamas. Enquanto todos aguardavam o ataque abismados, um homem moreno e alto saiu do veículo e veio em nossa direção.
– Hei, pessoal, sou eu - anunciou.
Tamires e Marcel se adiantaram sorrindo.
– Alexandre! Que susto você nos deu! - exclamou o loiro.
– Achamos que fosse o coronel e seus capangas - acrescentou a ruiva.
– Não - respondeu com um sorriso discreto. - Eles estão atrasados. Garanti que não conseguissem me seguir e tomei uma rota alternativa.
– Estou vendo o estrago que fez na floresta! - repreendeu Tamires.
– Infelizmente - retrucou penalizado - Mas foi por uma boa causa.
Todos sorriram afinal, aliviados.
– Ainda assim, precisamos nos preparar - acrescentou o moço moreno. - Vão arranjar um jeito rápido de vir.
Dirigiu-se à caçamba da caminhonete e tirou de lá algumas armas. O rosto claro de minha irmã quase ficou transparente de choque.
– Você não está pensando em usá-las, não é? - perguntou temerosa.
– Se for preciso - respondeu seriamente Alexandre. - Tome, Marcel. - E jogou ao loiro uma das armas.
Excitado, os olhos brilhando, Marcel pegou-a no ar. Analisou-a com cuidado, provavelmente tentando identificar seu funcionamento.
– Você, pelo menos, sabe usar isso? - perguntou Tamires para Alexandre assustada.
O rapaz engatilhou a arma e disparou contra um dos pneus do veículo praticamente morto. Talvez tenha sido o tiro de misericórdia.
– Acho que dá pro gasto - respondeu.
Marcel o imitou e perfurou outro pneu. O estrondoso som do disparo seguido da explosão da borracha fez com que tapássemos os ouvidos.
– Então, qual é o plano? - perguntou o guardião moreno.
– Levantar voo imediatamente! - respondeu simplesmente o guardião loiro.
Sem dizer mais nada, iniciaram os preparativos. Marcel e Alexandre colocaram as armas desengatilhadas dentro do helicóptero. Tamires veio em nossa direção.
– Lucca, Mainá, precisam se preparar o mais rápido possível.
Concordei e Mainá foi para dentro da maloca buscar suas parcas coisas. Não tinha mais nada. Somente ela. Então me concentrei em ajudar os outros.
Em seguida, me dirigi ao cacique e pajé que nos observavam. Curvei-me em reverência.
– Obrigado pela acolhida e desculpe por trazer perigo a sua tribo.
– Que os espíritos guiem seu caminho, Filho da Terra - com a mão erguida, o pajé Unaí me abençoou.
Piatã deu um passo e me apertou em um abraço que quase quebrou minhas costelas. Como era forte aquele velho! Coisa de índio. Afastou-me mantendo a mão sobre meu ombro.
– Obrigado você por nos honrar com sua presença. Siga em paz, Lucca. Cumpra seu destino e seja feliz.
Mainá saiu da maloca e foi tomada pelos braços da mãe e dos irmãos. Logo percebi o rosto sério e preocupado de seu irmão mais velho. Com certeza era aquele que sempre a protegera e que me encontrou quando eu era apenas uma criança. Ele estava cercado por mulher e filhos.
A despedida com o irmão foi mais singela.
– Se cuida, Mainá. - sussurrou o homem indígena.
– Você também, Apuã. Obrigada por tudo.
Em seguida foi a vez do cacique se despedir da filha. O pajé a abençoou. Toda a tribo, em uníssono, nos desejou sorte e boa viagem.
Estava tão entretido com aquela gente - o povo de minha amada - que nem percebi que o piloto já havia ligado o barulhento motor do helicóptero. Tamires, Alexandre e Marcel seguiram para a máquina, bem no centro da aldeia, abaixando-se para se proteger.
Peguei a mão de Mainá e segui atrás deles. A adrenalina fervendo dentro do meu corpo. Podia sentir a força estabilizada agora. Eu era um novo homem. A pedra brilhando no peito de meu amor me deu certeza de que seria uma vida nova e incrível. Contanto que ela estivesse ao meu lado, podia suportar qualquer coisa. Inclusive uma guerra mística e um mago poderoso.
Olhei para ela e sorri. Ela me retribuiu com confiança. Entramos no helicóptero e nos sentamos ao fundo. Marcel ia à frente com o piloto. Tamires e Alexandre sentados defronte conosco. Mainá e eu olhamos para fora enquanto a aeronave levantava voo. Acenamos nosso último adeus.
Senti um aperto no peito enquanto nos distanciávamos do chão batido. Não estava dizendo adeus somente àquelas pessoas que acabara de conhecer. Também dizia adeus à terra na qual fora criado. À minha carreira de arqueólogo. Aos meus amigos. Aos meus familiares.
Acima de tudo, estava dizendo adeus a uma vida antiga, repleta de tristezas, falsidade, interesse e escuridão. Agora via a vida com clareza diante de meus olhos e não devia sentir falta daquele passado obscuro. Seguir em frente era o melhor futuro que podia escrever para mim mesmo.
Não podia pensar somente em mim. Havia aquela índia linda que me entregara a sua vida e me acompanharia para onde eu fosse. Ela me admirava e acreditava no meu destino. Não podia decepcioná-la. Havia também minha irmã, que acabara de conhecer. Ela também contava comigo para que nos vingássemos daquele que havia dizimado nossa família e nos separado ainda pequenos.
E havia eu mesmo que nunca seria feliz se não dissesse adeus a meus antigos e pequenos sonhos. Eu tinha um mundo inteiro para conquistar. Provavelmente não receberia as honras que a profissão me garantiria, mas com certeza minha missão seria muita mais nobre e muito mais duradoura. Estava fazendo o que era certo.
A distância deixara a tribo e seu povo muito pequenos. Eu os vi como formiguinhas sobre o solo. Ninguém na aeronave ousava quebrar o silêncio. Somente o próprio motor e o girar das hélices rugiam.
Mas estava enganado. Um novo som preencheu meus ouvidos e o reconheci imediatamente. Automóveis. O coronel e seus capangas haviam chegado. Fiquei feliz que fosse a tempo de me verem fugir. Assim não amolariam a tribo, mas fiquei temeroso porque as armas que tinham poderiam danificar nosso único meio de transporte.
Enquanto milhões de ideias para combatê-los e garantir nossa fuga me passavam pela cabeça, ouvi um disparo seguido de uma explosão que clareou o céu por apenas um milésimo de segundo. A guerra havia começado antes do previsto.
No horizonte, uma linha vermelha surgiu. O sol apontava para o início de um novo dia.
FUG A
Im paciente, o coronel José Cruz fez com que seus hom ens saíssem da estrada e se esgueirassem pela m ata para ganhar tem po. Qual não foi sua surpresa quando, poucos quilôm etros adiante, percebeu um cam inho aberto na floresta à força e m uito recente.
Os estragos não eram grandes, porém nitidam ente um a cam inhonete havia passado por ali. Talvez a que lhe fora roubada. Com os olhos verm elhos de ódio, ordenou que seguissem por aquele cam inho. Tinha certeza de que ele os levaria direto para a reserva.
O fazendeiro pôs-se a pensar que Lucca Gonçalves, o traidor m iserável, tinha um cúm plice. Alguém m uito esperto. Não tinha certeza se conhecia alguém na cidade - m uito m enos entre as relações do rapaz - que tivesse aquela sagacidade, m as quem m ais se arriscaria para protegê-lo?
Edm undo, o delator, não havia m encionado ninguém . Nem m esm o aquele j ovem e liberal rapaz que se dizia m elhor am igo dele e por sua expressão na hora que o irm ão o acusou, Carlos Aguiar não sabia nada sobre a tal índia. Estava tão perdido quanto todos os outros.
Ninguém da fam ília o entregaria, a não ser Edm undo, que o odiava por m otivos óbvios. Mas eram tão ignorantes quanto ele. Jam ais teriam capacidade de organizar um a fuga e um ataque sorrateiro com o aquele. Parecia coisa de profissional. Mas quem poderia estar do lado daquele rapaz? Quem , em santa consciência, arriscaria o próprio pescoço nessa luta perdida?
Será que realm ente estaria perdida? O coronel estava aflito com a dianteira conquistada por seu adversário. Quando iniciou a caçada, tinha certeza de seu rápido sucesso. Agora, m ais de doze horas depois, só tinha m uitas dúvidas de que ainda conseguiria pegá-lo. Era apenas um a esperança que não se dissipava.
Além disso, o coronel Cruz estava decidido. Não desistiria nunca. Enquanto não encontrasse aquele ordinário não sossegaria. Não m orreria em paz. Não continuaria a vida tranquilam ente. Ainda bem que tinha um a grande fortuna para m antê-lo nessa j ornada.
Pensou em Vitória, sua filha adorada. Pagaria a ela um a viagem , talvez para a Europa. Ela não m erecia assistir aquilo. Deveria se distrair, se divertir, ser j ovem , afinal. Tinha certeza de que ela am aria a ideia. Decidiu que, assim que voltasse da reserva, faria a proposta a ela.
Voltou a m ente para Lucca e consequentem ente para Edm undo. Sabia m uito bem qual era o interesse do rapaz naquela história. Vitória. Assim que percebeu seu olhar sobre ela, soube quais eram seus m otivos. Ele a am ava. Talvez - depois que o conhecesse m elhor - fizesse por m erecer a m ão dela.
Enquanto o autom óvel sacolej ava sobre o terreno pedregoso, seus pensam entos foram povoados novam ente por seu destino. A reserva de Am am baí. Não sabia nada sobre os índios que viviam ali. Desde que chegara naquela terra, não ouvira m uito sobre eles. Apenas um a ou outra notícia sobre greves em frente a FUNAI sabe-se lá por que m otivos.
Ouvira dizer que eram natos guerreiros. Ministraram bem arcos e flechas e tinham conhecim entos sobre ervas que podiam m atar um hom em sem que percebesse o que o atingira. Eram , portanto, adversários perigosos.
Ainda assim , não tinha ideia do que encontraria quando chegasse lá. Será que o haviam adotado com o parte da fam ília som ente porque um a de suas índias se entregara para ele? Teriam esse tipo de relação? Talvez estivesse escondido entre eles sem que soubessem , ou talvez nem estivesse lá, concluiu.
Bem , se realm ente estivessem encobrindo o desgraçado, pagariam caro por isso. Antes que pudessem reagir, usaria artilharia pesada para m atar o quanto conseguisse. Ninguém ficaria no cam inho entre sua vingança e Lucca. E a FUNAI teria que atualizar seus dados sobre aquela tribo indígena.
À frente, o cam inho cheio de curvas - que desviava das árvores m aiores - o levava com facilidade. Quando se decidira por aquela rota, não tinha ideia que seria tão fácil transpô-la. O tolo que o usara para enganá-los deixara rastro suficiente para revelar sua passagem .
Sorriu m aliciosam ente. Se tinha um a coisa que o coronel se orgulhava, era de sua astúcia e senso de oportunidade. Fora assim que crescera na vida, conquistara terras e fizera grandes negócios. Considerava-se im batível. Portanto, era certa sua vitória, inclusive nesse caso de honra.
Um som estranho cortou a m adrugada logo m ais adiante. Estava baixo ainda, por isso não soube defini-lo. Viu um a linha fina, verm elho e laranj a, aparecer no horizonte. Em alguns m etros, o som aum entou. Ergueu seus olhos para o céu. Entre as copas das árvores, avistou um helicóptero.
Espantou-se. Antes que pudesse saber o que pensar, um tiro de arm a de fogo soou. Olhou para trás para procurar pelo autor do disparo - que o fizera sem seu consentim ento - a tem po de ver um dos atiradores, na caçam ba da cam inhonete onde estava, cair para fora do carro, atingido pela bala.
Olhando furiosam ente para o ponto cinza no céu onde a aeronave se m ovia, berrou.
– Atirem no m aldito helicóptero!
***
O silvo de vários disparos foi a resposta à explosão certeira de Marcel. Todos no helicóptero viram - m enos o piloto e Mainá - que a pontaria do loiro fora certeira em um dos atiradores do coronel. Eles m al os haviam identificado e foram alvej ados. O grandalhão não teve tem po de esboçar um sorriso quando a retaliação veio.
Alexandre se j untou ao rapaz para com bater os atiradores. Lucca e Tam ires assistiam horrorizados. Não queriam aquele derram am ento de sangue.
– Tam ires, m ande fogo neles! - vociferou Marcel.
– Você ficou m aluco? - exclam ou a ruiva. - Não vou m atar ninguém ! E m uito m enos correr o risco de colocar fogo na floresta e na aldeia.
– Tem razão! - gritou Lucca acim a do som das hélices. - Estam os m uito perto ainda.
– Depois a gente usa a água, Tam ires - retrucou Marcel. - Manda brasa.
– Precisam os fazer algum a coisa efetiva - acrescentou Alexandre taticam ente -, senão serem os derrubados.
Lucca pensava m ortificado. Viu os olhos tem erosos e horrorizados de Mainá ao seu lado. O que poderia fazer para salvá-los sem perder outras vidas? Pense, Lucca, pense!, exigiu a si m esm o. Estavam falando dos dons. Mas é claro!
– Terra! - gritou. - Aproxim ando-se da j anela do helicóptero, apontou a m ão para a m ata.
Todos viram espantados o trem or que se seguiu. Era um terrem oto - de pequenas proporções é claro -, porém suficiente para desestabilizar os veículos.
Com preendendo im ediatam ente o plano do irm ão, Tam ires se uniu a ele e um a fenda se abriu na terra.
Da aldeia a tribo assistia a batalha pronta para aj udar. Porém , o cacique teve m edo de perder sua gente, por m ais que sua filha estivesse naquele helicóptero. Confiara sua vida àquele hom em que se dizia deus, portanto, esperaria que ouvisse seu cham ado e usasse sua força sobrenatural para salvá-los. O trem or foi o prim eiro sinal de que o Filho da Terra estava operando. Sorriu, satisfeito.
Antes que pudesse frear, a pam pa despencou no buraco que se abria à sua frente, j ogando o capanga que estava na caçam ba sobre a lataria e em seguida para o chão, se contorcendo de dor. O capô do autom óvel fincou na fenda deixando as rodas de trás suspensas no ar.
Um estava inoperante. Faltava outro.
Dando a volta, a cam inhonete perseguia o helicóptero sem cessar os disparos. Teve que fazer um desvio para tam bém não cair na arm adilha. Ninguém nos carros tinha algum a ideia de com o aquele terrem oto se sucedera. O Brasil não era vitim ado por esse tipo de catástrofe, m as não tinham tem po para refletir sobre isso.
Os hom ens presos na cabine do utilitário saíram pelos vidros abertos. Dois foram socorrer o capanga ferido e os outros, pegando as arm as nas caçam bas, continuaram a disparar contra o helicóptero.
– Valeu a tentativa, Lucca - agradeceu Marcel -, m as terra não foi suficiente.
Tam ires e Lucca se entreolharam e tiveram um a conversa silenciosa. Fogo está completamente fora de cogitação, pensou a ruiva e o irm ão concordou com um aceno. Terra não funcionou por muito tempo, continuou ela. Vamos tentar ar! Com um gesto, Lucca desviou o olhar e se voltou para a j anela. Tam ires seguiu seu exem plo.
As m ãos de am bos, apoiadas sobre o vidro, incitaram um vento furioso. Sorte que estavam cada vez m ais longe da aldeia, assim poderiam canalizá-lo som ente contra os atiradores. Um redem oinho se form ou, parecido com um a tem pestade vertical, porém sem relâm pago e sem água.
Infelizm ente, a anom alia varreu as árvores que cruzaram seu cam inho. Com horror - e ainda m ais sem entender o que acontecia -, o coronel e seus capangas viram aquela tem pestade de vento ir em sua direção. Os tiros cessaram um pouco antes de serem atingidos. Os braços tentando proteger os rostos.
O vento pegou a cam inhonete e a levantou do chão. Tam ires vacilou e a força do redem oinho dim inuiu. As rodas do carro tocaram a terra novam ente. Lucca a olhou e ela correspondeu. Eu não posso matá-los, ela pensou.
– Vam os apenas m antê-los presos pelo tem po que conseguirm os - respondeu o irm ão.
Tudo bem!, disse em pensam ento Tam ires. Lucca não tinha certeza de conseguir sozinho. Com o apoio da irm ã, ficava m ais seguro de alcançar seu obj etivo. O piloto e Mainá voltaram a respirar, ele estava bastante confuso, porém se concentrou em m anter aquela m áquina voando para a sua própria segurança.
– Tem com o voar m ais alto? - perguntou Alexandre largando a arm a.
O piloto aum entou a distância entre a m áquina e a terra.
– Acho que não devem os ir para Corum bá - disse Marcel.
– Nem tem para quê - respondeu Alexandre. - Vam os direto para Cam po Grande.
– Velocidade m áxim a, m eu caro! - pediu o loiro.
Lucca e Tam ires m antinham os olhos presos em seus alvos, concentrados. Apesar da distância que ganhavam com velocidade, ainda podiam vê-los perdidos dentro do redem oinho de vento. As arm as haviam se espalhado e espatifado contra troncos de árvores. Os irm ãos sorriram . Haviam conseguido retardá-los sem que precisassem feri-los fatalm ente.
Am anhecia rápida. O céu clareava em degradê revelando um dia bonito pela frente. A luz traria m ais perigo tam bém . Os olhos dos hum anos com uns poderiam vê-los bem e até perseguir o helicóptero com m aior facilidade, desviando-se dos obstáculos com antecedência.
Finalm ente, a distância cresceu o suficiente para perdê-los de vista. Porém , Lucca e Tam ires continuavam vigiando preocupados. Retiraram as m ãos do vidro e viram o redem oinho se desfazer. Não acreditavam que o coronel tivesse desistido. Apenas o haviam despistado por um tem po.
Trocaram um olhar significativo. Acho que ganhamos uns cinco minutos de vantagem, pensou a ruiva. A tentativa de concordar de Lucca foi um a careta. Com um sorriso triste, ela acrescentou: Ele não vai desistir, não é? O irm ão balançou a cabeça negativam ente. Am bos suspiraram .
***
Horrorizado, José Cruz pensou que era o fim do m undo. Prim eiro um terrem oto, depois um tornado? Onde estava? Ainda no Mato Grosso do Sul? Será que havia sido abduzido para um a terra desconhecida repleta de catástrofes clim áticas com o aquelas? Provavelm ente era m esm o o fim daquele planeta.
Quando a cam inhonete ergueu do chão, quase teve um infarto. O vento deveria estar acim a de cem quilôm etros por hora! Nem havia tido tem po de absorver isso e, com um baque, os pneus tocaram a terra novam ente. Olhou para seus hom ens e eles estavam tão em choque quanto ele próprio.
O zunido do vento não perm itia que ouvissem m ais nenhum outro som , por isso, não tentaram falar. Ao contrário, protegiam os olhos e os ouvidos com o podiam . Troncos de árvores se chocaram contra a lataria assustando-os horrivelm ente. Mantiveram a cabeça abaixada para se protegerem dos detritos.
Por isso, não viram quando um tronco m aior de árvore se m oveu na direção do autom óvel se chocando com tanta violência que am assou a porta do carona. A lataria se envergou e se m oldou ao corpo do capanga sentado ali. Ele gritou de dor quando a estrutura da porta o atingiu. Provavelm ente havia quebrado algum osso.
O grito do hom em foi tão assustador que um arrepio percorreu o corpo do coronel e dos outros. Um barulho veio de trás da cam inhonete e se lem braram da caçam ba. O hom em solitário usara a arm a de apoio contra a grade do vidro traseiro, porém seus dedos não suportaram segurá-la m ais tem po. Seu corpo foi pego pelo redem oinho e depois de girar algum as vezes, foi atirado contra um a árvore.
O coronel ficou com os olhos presos naquela cena grotesca. Os outros abaixaram para não assistir o fim do colega. Todos pensavam que haviam provocado o diabo e que ele próprio subira do inferno para acabar com a vida deles. A partir daquele dia, nunca m ais seguiriam os passos m alucos e suicidas do fazendeiro. Nem que tivessem que fugir tam bém para se livrar de suas loucuras sanguinárias. Não ganhavam para m orrer e não correriam m ais riscos por ele. Que se danasse sozinho com seu ódio.
Constataram espantados que, pela prim eira vez, o coronel tivera realm ente que lutar. Até aquele dia, suas caçadas sem pre tiveram êxito im ediato. Ninguém havia escapado. Talvez o velho tivesse perdido o tem ível respeito que am edrontava a população. Alguém tivera a audácia de enfrentá-lo.
E por que eles tam bém não poderiam ? Claro que podiam . Tinham todo o direito sobre a própria vida. Aquele hom em cruel era apenas m ais um rico. Não era dono de ninguém . Talvez, se tivessem reagido antes, ele nunca teria se apossado do que era de todos. Afinal, não viviam m ais na época feudal e ele não era seu senhorio.
Aquilo tudo era tão arcaico que não era possível que não enxergaram isso antes. Estiveram cegos de m edo. Mas tam bém sabiam usar arm as e poderiam m uito bem se defender de quem quer que ele pagasse para se vingar deles. Poderiam m orrer, m as estariam lutando por eles m esm os, não pelas causas inj ustas daquele m onstro.
Ele que fosse apenas dono de seus negócios e cuidasse deles ao invés de tentar controlar os outros. Estavam tão decididos que com eçaram a trocar olhares procurando apoio entre si, j á que estavam apenas pensando e não falando em voz alta.
Enquanto o tem po passava e a tem pestade de vento não, o fazendeiro lem brou-se de Deus. Com m edo de m orrer e deixar seus negócios e a filha am ada para trás, tentou se lem brar de com o rezar e da tal m isericórdia divina. Prom eteu que m udaria se Ele o livrasse da m orte certa. Pediu perdão por seus pecados e im plorou para que não fosse punido por eles.
Por minha filha, Deus!, rezava. Ela só tem a mim nesse mundo. O que será dela se eu morrer? Juro que desisto de vingança e doo uma parte de meus rendimentos para os pobres, principalmente aqueles que enganei para conquistar minha fortuna. Faço qualquer coisa, Deus, para ser poupado. Se o Senhor realmente existe, por favor, me salve!
O vento dim inuiu repentinam ente e então parou. Dem orou um segundo para que o coronel percebesse que suas preces haviam sido atendidas. Piscou inúm eras vezes incapaz de acreditar em seus olhos. Um sorriso brotou em seus lábios. Nem pensou em agradecer e antes que se m ovesse, seus hom ens praticam ente pularam para fora do carro, m esm o o que estava ferido. Seguiu-os.
– Hei, aonde vocês vão? - disse em tom de ordem . - Acho que a cam inhonete ainda anda. Vam os continuar a perseguição!
Os capangas o ignoraram . Vendo um dos hom ens m ancando, dois se prontificaram a aj udá-lo. Iam exatam ente pelo cam inho oposto ao que o coronel desej ava. O fazendeiro, furioso, extravasou toda sua inj úria.
– Bando de covardes! – gritava. - Não preciso m esm o de vocês, seus m aricas! Vão, corram para a saia da m am ãezinha, seus viados! Cam bada de frouxos, não sei com o eu acreditei que trabalhava com hom ens! Vocês são um as m ulherzinhas!
Cuspiu em direção a eles sem atingi-los. Continuaram andando sem olhar para trás, indiferentes à sua fúria. Deixou-os, afinal, e pôs-se a se equipar com as arm as. Teve que procurá-las pela m ata e não encontrou pelo m enos um a em bom estado. Largou-as onde as achou j unto com os galhos arrancados pelo vento.
– Diabos! - vociferou.
O hom em religioso de alguns m inutos atrás voltava a clam ar pelo dem ônio, esquecendo-se com pletam ente do Deus que havia atendido seu pedido e lhe doado m ais um tem po de vida nesta terra. Entrou no carro e dirigiu em disparada procurando pelo céu um sinal de seu alvo.
***
Edm undo se regozij ava enquanto velava o sono de Vitória em seus braços. Seu corpo sem inu o aquecia. O silêncio da m anhã era um a prom essa de um novo futuro. Havia conquistado seu coração m uito m ais depressa do que pensara. Não haviam trocado um a palavra sequer, apenas se am ado loucam ente.
Não saber seus pensam entos e seus m otivos não o torturava. Já bastava que ela o aceitasse e o desej asse daquela m aneira. Já estava m ais do que claro que lhe dava um a chance e por sua cara, sabia que Vitória havia gostado m uito do resultado de sua escolha.
Sem pre soube que pudesse fazê-la feliz. Sentia com o se tivesse sido feito para satisfazê-la, para alegrá-la, para am á-la. Jam ais encontraria um adm irador m ais devotado, m ais am ável, m ais persistente e com preensivo. Podia m uito bem entender sua natureza volátil e seu gênio fútil. E ficava encantado com ele.
Entendia que sua posição social e seu dinheiro m oldaram sua personalidade. Assim com o os m im os de seu pai e podia m uito bem aceitar isso, porque se fosse rico, seria do m esm o m odo com ele. Não com o era hoj e, m uitos serm ões e nenhum apoio.
Sem pre desej ara e se im aginara rico. Sonhara por m uitos anos em conquistar essa condição. Um a oportunidade lhe fora tirada no nascim ento e a outra era um grande desafio. Talvez por sua posição e riqueza, Vitória tenha cham ado sua atenção prim eiram ente. Depois, sua beleza e personalidade m arcante.
Apesar de terem frequentado a m esm a escola, havia um a barreira invisível entre eles. O desej o de transpô-la foi o prim eiro sentim ento que o inundou ao vê-la pela prim eira vez. Em seguida, a segunda oportunidade lhe acendeu na m ente. O casam ento com aquela deusa seria sua passagem para o m undo que tanto sonhara.
Era um m isto de interesse e paixão que Edm undo sentia por Vitória. O desej o pela riqueza era tão im enso que se tornou a única obsessão de sua vida. Em tudo canalizava esse ardor incontrolável. Traduzia todos os sentim entos que possuía - tanto am or quanto ódio - através desse único anseio.
Lucca conquistara seu ódio pelo m esm o m otivo que Vitória o seu am or. Dinheiro, posição social, reconhecim ento, oportunidade. O bastardo fora dotado pela graça e o talento de atrair tudo de positivo para si. A adm iração dos pais, dos professores, dos coleguinhas, da faculdade, do prim eiro em prego e da profissão. Até m esm o Vitória havia sido atraído por ele sem que fizesse qualquer esforço.
Por que tudo tinha que ser fácil para Lucca e para ele não? Não era j usto. Sua frustração foi seu com panheiro inseparável, construindo um a grande am argura. Invej a e ciúm es foram os novos sentim entos que traduziram sua revolta contra o irm ão, os pais, o m undo.
E não tivera nenhum escrúpulo ao se deparar com a única oportunidade, em trinta anos, de acabar com a vida daquele que havia destruído seu sonho. Agarrou-a com unhas e dentes. Agora estava satisfeito com o resultado. Muito m elhor, j á que estava realm ente realizado.
***
Alexandre observava Lucca atentam ente. Estava com um a cara péssim a. O peito nu coberto de arranhões e vergonhões verm elhos. Tam bém estava m eio suj o. Desviou o olhar para Mainá, o rosto e o corpo todo pintado, os cabelos bagunçados cheio de folhas e alguns trapos tam pando som ente o essencial. Tam ires estava im pecável, com o sem pre, m as tam bém não tivera que se arrastar na terra com o ele m esm o. Preferiu nem conferir o estrago em suas próprias roupas.
– Acho que som os um grupo que cham a m uita atenção - disse em voz alta.
Todos realizaram a m esm a análise que fizera anteriorm ente constatando que tinha razão. Se quisessem passar incógnitos no aeroporto, teriam que com eçar agora m esm o. Tam ires deu graças a Deus por ter pensado em levar um a pequena bolsa consigo com algum as m udas de roupa e m aterial de higiene.
– Lucca, troque de lugar com igo - pediu a irm ã. - Deixe-m e cuidar de Mainá.
Percebendo o que a cunhada pretendia, Alexandre sacou de sua própria bolsa um par de roupas lim pas para que Lucca se trocasse. Encontrou tam bém um chapéu e óculos escuro. Passou para o rapaz.
– Acho que passarem os com o turistas com uns desta m aneira – disse. - E precisam os esconder esse seu cabelo verm elho. É cham ativo dem ais.
Lucca sorriu de volta se sentando ao lado do rapaz m oreno. Sem pudor, tirou a calça rasgada e suj a, e vestiu a roupa lim pa. Nunca havia usado chapéu antes, m as achou a ideia ótim a. Os óculos esconderiam suas feições e, portanto, seria m uito m ais difícil reconhecê-lo se o descrevessem . Alexandre tam bém se trocou rapidam ente.
– A propósito, - lem brou o m oreno - você está com celular?
Achando a pergunta estranha, Lucca tateou os bolos da única peça que usava até agora.
– É m elhor dar fim nele por aqui, ainda em Corum bá, para não o usarem para nos rastrear – explicou.
Com preendendo e m esm o sem encontrar o aparelho, o rapaz j ogou tudo j anela abaixo. Seu rastro term inaria ali, naquele ponto da m ata.
Tam ires se concentrou em passar lenços um edecidos no rosto e nos braços de Mainá para retirar a pintura, usando dem aquilante para agilizar. Tirou da bolsa um vestido de verão florido, soltinho, para que ela pudesse usar por cim a dos trapos indígenas. Tam bém lhe deu um de seus óculos escuros, o Dolce & Gabanna.
– Vou m udar seu cabelo, está bem ? - anunciou a ruiva.
Mainá m al teve tem po de concordar e Tam ires j á a estava virando de costas e penteando seus longos e em baraçados cabelos em um alto rabo de cavalo. A índia nunca havia usado esse penteado antes, nem m esm o quando andava entre os brancos. Voltando-a para analisar o resultado, a ruiva pôs-lhe o óculos e passou um gloss em seus lábios de cor bem natural. Penteou a franj a de lado, em um penteado m ais m oderno. Pronto, não parecia m ais um a índia. Era m ais um a turista.
– Você ficou m uito bonita - constatou Lucca.
Tim idam ente, a índia sorriu e pediu um espelho para se ver. Ficou encantada com o que um óculos de sol, um batom e um a borracha de cabelo fizeram em sua aparência. Era um m ilagre. Parecia com um dos brancos. Podia andar entre eles sem cham ar nenhum a atenção. Devia ter usado este truque na escola e na faculdade.
– Ficou m esm o m uito bonita - concordou Tam ires sorrindo.
***
O som do helicóptero estava tão longe que m esm o dirigindo em alta velocidade, José Cruz m al podia segui-lo. Ele era um pontinho tão pequeno no céu que volta e m eia sua visão em baralhava ou um a nuvem atrapalhava. Circulava há apenas cinco m inutos e não tinha m ais certeza de estar indo na direção correta.
Com eçou a refletir para onde iam . Se estavam em um helicóptero, poderiam se dirigir para qualquer lugar. Aquele tipo de aeronave podia pousar em qualquer área. Um cam po de futebol, um topo de prédio, um parque. Tinha tantas possibilidades que seria im possível sim plesm ente adivinhar seu destino. E m esm o que conseguisse segui-los, não conseguiria detê-los sem arm as.
Mas não queria voltar para casa ainda. Não queria encarar o olhar ansioso de sua filha à espera de sua vitória sobre o inim igo. Não queria ver a decepção estam pada em sua face. Não queria que ela pensasse que havia falhado. Insistiria seguindo seus instintos que sem pre lhe aj udavam nas horas de dificuldade.
Com eçaria seguindo possíveis pistas. Voltaria a Corum bá e tentaria conseguir inform ações sobre a aeronave e seus ocupantes no aeroporto. O segundo lugar que iria, se não houvesse algo válido por lá, seria Cam po Grande. Usaria tam bém um avião particular para seguir esse rastro.
Sabia que, para chegar a Corum bá, havia a estrada e o céu. Se vieram pelo céu, os dois únicos lugares onde poderiam ter passado em todo o estado seriam os dois aeroportos. Eram os m aiores do Mato Grosso do Sul e recebiam a m aior parte dos voos. Sorriu porque estava indo pelo cam inho certo.
Uns m etros a frente, avistou algo estranho entre as árvores. Parecia tecido. Aproxim ou-se e parou a cam inhonete. Desceu do veículo e sacudiu o pano na m ão que parecia um a peça de roupa. Seria de Lucca? Estaria no cam inho certo?
Franziu o cenho. Observou m elhor os trapos e não reconheceu nem o m odelo, m uito m enos quem seria o proprietário. Estava com pletam ente im prestável. Olhando m elhor a roupa, tam bém não a reconheceu. Largou aquela porcaria por ali m esm o. Devia ser de algum pervertido que usara a floresta para dar suas escapadinhas.
Voltou para o carro. Olhou seu celular e teve um a ideia. Contatou a operadora e inventou um a história. Disse a atendente que seu genro havia desaparecido, com certeza fora sequestrado, e precisava da aj uda deles para localizá-lo através do aparelho celular. Consultou a agenda e passou o núm ero para a m ulher.
Pedindo que aguardasse por alguns instantes, a prestativa atendente deixou a linha m uda. O coronel j á ligava o GPS da cam inhonete para usar as inform ações que ela lhe passasse para localizar o desgraçado do Lucca. Se tudo funcionasse com o previsto, nem precisaria correr para os aeroportos.
Alguns m inutos depois, a m ulher voltou para a linha e lhe passou as coordenadas do GPS com a localização do aparelho celular. Grato, disse que ligava de novo caso precisasse. Desligou e digitou as inform ações no aparelho de seu carro.
Em alguns segundos, o ponto verm elho que indicava sua localização piscou furiosam ente. O eletrônico lhe passou as instruções para chegar ao seu destino. Engraçado, estava voltando pelo cam inho que havia tom ado. Com o perdeu a direção do helicóptero desse j eito? Só podia ser a floresta e suas árvores todas iguais.
Quando deu por si, estava de volta a Corum bá, em frente a um a casa que não conhecia. A luz e as indicações do GPS diziam que estava no lugar que desej ava. Sua garganta se apertou ao reconhecer o carro de Lucca na garagem . Seus olhos se estreitaram . Então se deu conta de que fora enganado novam ente.
– Maldição! - berrou para que o vento levasse sua fúria até Lucca.
***
Com alívio ouviram pelos fones a conversa do piloto com a torre de controle do aeroporto de Cam po Grande. Autorizado o pouso, em alguns m inutos desciam do helicóptero. Marcel ia à frente, decidido. Alexandre e Tam ires de m ãos dadas logo atrás. Lucca e Mainá transbordavam de felicidade. Estavam a salvo. Em m inutos estariam em um avião que os levaria para bem longe dali. Mas...
– Onde estam os indo? - perguntou Lucca.