Guerra e Paz

Liev Tolstói · Capítulo 9 de 18 · parte 5/5

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Guerra e Paz

Primeira Parte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

Na véspera daquele domingo em que fora lida a oração, Pedro prometera trazer aos Rostov a proclamação do imperador e as últimas novas sobre o que se passava no exército, que procuraria obter junto do conde Rostoptchine, com quem estava em boas relações. Na manhã em que se apresentou em casa deste encontrou ali um correio que acabava de chegar do exército. Este correio era um dos melhores dançarinos dos bailes de Moscovo, e, conhecido seu.

— Não quererá ajudar-me? — disse-lhe o correio — Trago uma mala cheia de cartas para pessoas de família.

Entre essas cartas havia uma de Nicolau Rostov dirigida ao pai. Pedro tomou conta dela. Por seu lado, o conde Rostoptchine entregou-lhe a proclamação do imperador ao povo de Moscovo, que acabava de receber, as últimas ordens do exército e o último apelo por ele redigido. Ao percorrer as ordens do exército, Pedro descobriu, na lista dos, mortos, dos feridos e dos agraciados, o nome de Nicolau Rostov, que fora condecorado com a cruz de S. Jorge, de 4ª classe, pelo acto de bravura que cometera em Ostrovno, e na mesma ordem do exército a nomeação de André Bolkonski para comandante de um regimento de caçadores. Embora não lhe parecesse muito agradável lembrar aos Rostov o nome de Bolkonski, não quis deixar de lhes comunicar a boa nova da distinção concedida, e, resolvendo ser ele próprio a levar-lhes as outras ordens do exército, a proclamação e o apelo, à hora do jantar, tratou de lhes mandar imediatamente a relação impressa e a carta.

A conversa que teve com o conde Rostopchine, o ar inquieto e azafamado deste, o encontro com o correio e as más novas do exército que o último lhe comunicara despreocupadamente, o boato que corria segundo o qual se haviam descoberto espiões em Moscovo encarregados de distribuir panfletos em que se dizia que Napoleão prometera ocupar as duas capitais antes do Outono e as conversações sobre a chegada do imperador, esperado no dia seguinte, tudo concorria para agravar a agitação e a inquietação em que andava Pedro desde a aparição do cometa, e sobretudo depois do começo da guerra.

Havia muito que lhe ocorrera a ideia de alistar-se no exército, e já o teria feito se, por um lado, não pertencesse à sociedade maçónica, a que estava ligado por um juramento, e a qual pregava a paz perpétua e a abolição das guerras, e, por outro, não tivesse visto como avultado número de moscovitas vestia o uniforme militar com grande alarde de patriotismo, coisa que, sem que ele soubesse muito bem porquê, o fazia sentir-se um pouco envergonhado de dar esse passo. A causa principal do seu retraimento, no entanto, era aquela vaga convicção de ser ele «l’russe Bésouhoff», quem representava o número 666, e de que a sua participação na grande obra de destruição do poder da besta estava decidida desde toda a etcrnidade, facto que o levava a pensar, por conseguinte, não dever tomar por si próprio qualquer resolução, mas esperar pelo que fatalmente tinha de acontecer.

 

[XX]

Em casa dos Rostov, como era costume todos os domingos, havia algumas pessoas íntimas a jantar.

Pedro chegou mais cedo para encontrar a família só. Engordara tanto nesse ano que, se não fosse a sua grande estatura, estaria disforme. Os seus largos ombros e a sua grande robustez aguentavam perfeitamente aquela obesidade.

Subiu as escadas resfolgando e murmurando qualquer coisa entre dentes. O cocheiro não lhe perguntara se devia esperar; sabia muito bem que teria de aguardar até à meia-noite. Os lacaios de Rostov haviam-se precipitado para o ajudar a despir o casacão e tomarem conta do chapéu e da bengala. Deixava-os sempre no vestíbulo, como costumava fazer no clube.

A primeira pessoa que ele avistou foi Natacha, Ouvira-a mesmo antes de a ver quando despia o casacão ira antecâmara. Dava-se a exercícios de solfejo no salão, como Pedro sabia que ela não voltara a cantar desde que adoecera, o som da sua voz foi para ele uma surpresa muito agradável. Entreabriu a porta de mansinho e viu-a com o seu vestido lilás, o que levara à missa, andar de um lado para o outro cantando. Estava de costas quando ele abriu a porta, mas, tendo-se voltado bruscamente, descobriu, assombrada, a sua espessa figura, Corando muito, correu para ele.

— Estou com vontade de cantar outra vez — disse ela. — Ajuda-me a passar o tempo — acrescentou, como que a desculpar-se.

— Muito bem.

— Estou muito contente por ter vindo! Sinto-me hoje tão feliz! — continuou com a mesma animação de outrora, animação que Pedro lhe não via há muito. — Sabe? O Nicolau teve a cruz de S. Jorge! Estou cheia de orgulho por ele!

— Sim, bem sei, fui eu quem mandou a ordem do exército. Mas não a quero importunar— acrescentou, dispondo-se a passar ao salão contíguo.

Natacha deteve-o.

— Conde! Acha que faço mal em cantar? — disse, corando, enquanto o interrogava com os olhos.

— Mas... porquê? Pelo contrário... Porque me pergunta isso?

— Não sei — replicou ela precipitadamente. — Não gostava de fazer fosse o que fosse que lhe desagradasse. Tenho tanta confiança em si! Nem calcula a importância que tem para mim e o bem que me tem feito!— prosseguiu ela, no mesmo tom, sem reparar que Pedro ia corando à medida que ela falava.— Ah!, também vi nessa mesma ordem do exército que ele está na Rússia, ele, Bolkonski — pronunciou o nome em voz baixa e precipitadamente —, e que voltou para o exército. Que acha? Crê que virá a Perdoar-me? — acrescentou, em voz sumida, como se receasse que as forças lhe faltassem antes de acabar a frase. — Acha que ficará para sempre zangado comigo? Diga. Que lhe parece?

— Acho... — volveu Pedro — que nada tem a perdoar-lhe... E se eu estivesse no lugar dele...

Por associação de ideias, transportara-se, subitamente, ao momento em que, para consolá-la, lhe dissera que se estivesse livre lhe pediria de joelhos que se casasse com ele, e os mesmos sentimentos de piedade, de ternura, de amor lhe encheram o coração e as mesmas palavras de então lhe vieram aos lábios. Natacha, porem, não lhe deu tempo de pronunciá-las.

— Oh, o Pedro... o Pedro... — articulou a palavra com exaltação — o Pedro é muito diferente. Ninguém conheço melhor, mais generoso, mais nobre e não pode haver outro. Se o não tivesse a meu lado então, e agora mesmo, não sei o que teria sido de mim, pois...

De súbito encheram-se-lhe os olhos de lágrimas. Voltou a cabeça para o lado, ergueu o caderno de música para esconder a emoção que a tomava e pôs-se a cantar, passeando na sala de um lado para o outro.

Nessa altura Pétia entrou no salão.

Era um rapazinho de quinze anos, fresco e rosado, com grossos lábios vermelhos, que se parecia com Natacha. Estava a preparar-se para entrar na universidade, mas ultimamente, tanto ele como o seu camarada Obolenski, congeminavam, às escondidas, fazer-se hússares.

Pétia precipitou-se a falar do problema ao seu homónimo. Pediu-lhe que se informasse se o aceitariam no corpo de hússares.

Mas Pedro, sem o ouvir, continuava a andar de cá para lá. Pétia travou-lhe do braço para lhe chamar a atenção.

— Então, como vão as minhas coisas, Pedro Kirilovitch? Por amor de Deus! É a minha única esperança! — exclamou Pétia.

— Ah, sim! O teu caso? Os hússares? Hei-de falar nisso, hei-de falar nisso. Hoje, sem falta.

— Então, meu caro, então! Arranjou a proclamação? — disse-lhe o velho conde assim que o viu. — A condessa foi à missa, à capela dos Razumovski. Rezaram uma nova oração. Parece que é muito bonita. Ela assim o diz.

— Sim, arranjei — redarguiu Pedro — O imperador chega amanhã... Haverá uma reunião extraordinária da nobreza e faia-se num recrutamento de dez por cada mil homens. E os meus parabéns!

— É verdade, é verdade! Louvado seja Deus! E do exército, que notícias há?

— Os nossos recuaram outra vez. Estão já nas proximidades de Smolensk, segundo se diz — replicou Pedro.

— Meu Deus, meu Deus! — exclamou o conde. — E onde é que tem a proclamação?

— A proclamação! Ah!, sim!

Pedro pôs-se a mexer nos bolsos e não pôde dar com ela. Sempre revolvendo as algibeiras, ia beijando a mão à condessa, que entretanto penetrara na sala, e lançando olhares inquietos à sua roda, preocupado com Natacha, que deixara de cantar e não aparecia.

— Ora que isto, não sei onde a meti — disse ele.

— Perde tudo! — murmurou a condessa.

Natacha entrou nessa altura na sala com um ar enternecido e emocionado e sentou-se, sem dizer palavra, a olhar para Pedro. Ao vê-la na sala, o rosto deste, triste até então, iluminou-se de súbito, e, continuando nas suas pesquisas, olhava-a de vez em quando.

— Eu vou procurá-la. Devo tê-la deixado em casa. Com certeza...

— Vai chegar tarde para o jantar.

— É verdade, e o cocheiro foi-se embora.

Mas Sónia, que fora procurar os papéis ao vestíbulo, encontrara-os no chapéu de Pedro, onde ele os guardara cuidadosamente debaixo da vira, Pedro ia principiar a ler.

— Não, depois do jantar — atalhou o velho conde, que se preparava para apreciar devidamente a leitura.

Durante o jantar, em que se bebeu champanhe à saúde do novo cavaleiro de S. Jorge, Chinchine contou o que se dizia na cidade: falou na doença da velha princesa georgiana, no desaparecimento de Métivier, na história de um alemão que fora conduzido à presença de Rostoptchine, a quem disseram que se tratava de um champignon, mas que, como o próprio Rostoptchine contara, mandara soltar dizendo que não era um champignon francês, mas apenas um velho cogumelo alemão.

— Sim, sim, deitam-lhes a mão, deitam-lhes a mão – disse o conde —, e já tenho dito muitas vezes à condessa que não fale francês. Não é momento para isso.

— E querem saber? — voltou Chinchine. — O príncipe Galitzine contratou um preceptor russo, está a aprender russo. Começa a ser perigoso falar francês pelas ruas.

— Então, Pedro Kirilovitch, quando recrutarem a milícia, lá verei a cavalo — disse o velho conde.

Pedro estivera silencioso e pensativo durante toda a refeição. Fitou o conde, que o interpelava, sem parecer tê-lo compreendido.

— Sim, sim, a guerra! — exclamou ele. — E eu, que belo guerreiro! De resto, é tudo tão estranho! Realmente não percebo coisa alguma. Não sei, sou um homem com muito pouca propensão para a guerra, mas nos tempos que correm ninguém pode responder por si.

Depois do jantar, o conde instalou-se tranquilamente numa poltrona, e, com grave semblante, pediu a Sónia, que tinha fama de pronunciar muito bem, que lesse a proclamação.

«Dada em Moscovo, a nossa primeira capital.

«O inimigo atravessou com forças consideráveis as fronteiras da Rússia. Vem assolar a nossa pátria bem-amada», leu Sónia, meticulosamente, com a sua vozita fina. O conde ouvia-a de olhos fechados, suspirando de vez em quando em certos passos. Natacha, na sua cadeira, muito atenta, ia fixando, escrutadoramente, ora o pai ora Pedro. Este, sentindo que ela o olhava, evitava voltar-se para o seu lado. A condessa, sempre que havia uma frase solene na proclamação, abanava a cabeça num ar descontente e desaprovador. Em tudo aquilo via apenas que os perigos que ameaçavam o filho estavam longe de acabar. Chinchine, a boca franzida num sorriso trocista, preparava-se evidentemente para aproveitar todas as oportunidades que se lhe oferecessem para fazer espírito, quer a propósito da leitura de Sónia, quer do que o conde diria, quer ainda da própria proclamação, à falta de qualquer outro pretexto.

Depois de ter lido os passos relativos aos perigos que ameaçavam a Rússia, às esperanças que o imperador depositava em Moscovo e sobretudo na sua gloriosa nobreza, Sónia, em voz trémula, principalmente por virtude da atenção que lhe prestavam, chegou ao fim:

«Não tarda que nós próprios nos encontremos entre o nosso povo nesta capital e em outros locais do nosso Império, prontos a deliberar e a guiar todas as nossas milícias, tanto as que actualmente cortam o passo ao inimigo como as que se vão formar para combatê-lo onde quer que ele se encontre. Que a perdição em que ele quer precipitar-nos recaia sobre a sua própria cabeça e que a Europa, liberta da escravidão, glorifique o nome da Rússia!»

— Muito bem! — exclamou o conde, entreabrindo os olhos humedecidos e fungando por várias vezes, como se lhe dessem sais a cheirar. E acrescentou: — Basta uma palavra do imperador, e estamos prontos a tudo sacrificar, sem poupar nada.

Ainda Chinchine não tinha tido oportunidade de proferir o seu gracejo sobre o patriotismo do conde quando Natacha correu para o pai.

— Que pai encantador eu tenho! — exclamou ela, beijando-o, e ao mesmo tempo relanceava de novo um olhar a Pedro com uma galanteria inconsciente, que acordava nela ao mesmo tempo que a alegria.

— Isto é que é uma patriota! — disse Chinchine.

— Não sou patriota, sou apenas... — ripostou Natacha, ofendida. — Ri-se de tudo, mas isto não é para rir...

— Que há nisto que dê vontade de rir...? — observou o conde. — Basta uma palavra sua, e todos nós nos levantaremos... Nós não somos como os Alemães...

— Repararam que a proclamação diz: «prontos a deliberar»?

— Ou seja para isso ou para qualquer outra coisa.

Nesse momento Pétia, a quem ninguém prestava atenção, aproximou-se do pai, e, muito corado, numa voz entrecortada, ora vibrante ora quase surda, disse-lhe:

— Pois bem, pai, dir-lhe-ei agora, e a si também, minha mãe, se assim o querem; digo-lhes: deixem-me ingressar no exército, porque não posso mais... e é tudo...

A condessa, aterrorizada, elevou os olhos, apertou as mãos uma na outra e disse para o marido:

— Aqui tens! Foi isto o que tu conseguiste!

Mas o conde imediatamente baixou o calor do seu entusiasmo.

— Bom, bom — disse ele. — Olhem para este guerreiro. Não digas tolices! Trata mas é de ir para a escola.

— Não são tolices, pai. Obolenski Fédia é mais novo do que eu e também vai para a guerra. Além disso, por mais que faça, não sou capaz de estudar agora, que... — Pétia calou-se, corando até às meninas dos olhos, e concluiu: — a pátria está em perigo.

— Basta, basta! Deixa-te de disparates...

Mas o pai ainda agora disse que estava pronto a sacrificar tudo.

— Pétia! Já te disse que te calasses! — gritou o conde, trocando um olhar com a mulher, a qual, muito pálida, não retirava Os olhos do seu filho mais novo.

— E vou dizer-lhe... Pedro Kirilovitch lhe dirá...

— Já disse, são disparates. Ainda ontem era um menino de mama e já hoje quer ser soldado. Bem, bem, já te disse o que tinha a dizer-te.

E o conde, pegando na proclamação, naturalmente para voltar a lê-la no seu gabinete, antes de ir para a cama, dispunha-se sair.

— Pedro Kirilovitch — disse ele —, venha fumar um cigarro...

Pedro estava muito perturbado e indeciso. Sentia postos nele a todo o momento os olhos brilhantes e animados de Natacha, com uma insistência que não era apenas amabilidade.

— Não. Parece-me que vou para casa...

— Que diz? Para casa? Mas o senhor vinha passar a noite connosco... Vem poucas vezes a nossa casa. E esta... — continuou o conde, bonacheirão, apontando para Natacha — esta só parece alegre na sua presença.

— Sim, mas esqueci-me... Tenho de voltar a casa sem falta... Uns assuntos... — replicou Pedro, pressuroso.

— Bem, então adeus — disse o conde, retirando-se.

— Porque se vai embora? Porque está tão perturbado? Porquê? — perguntou-lhe Natacha, fitando-o provocadoramente nos olhos.

«Porque te amo!», teria ele desejado dizer, mas não abriu a boca e corou até à raiz dos cabelos, baixando a vista.

— Porque seria melhor para mim visitá-los menos vezes... Porque... Não, seriamente, é porque tenho uns assuntos...

— Porquê? Diga-me porquê... — teimou Natacha, num tom decidido. De repente, porém, calou-se.

Os dois entreolharam— se, receosos e confusos. Pedro procurou sorrir, mas não pôde. No seu esgar havia sofrimento. Beijou a mão de Natacha em silêncio e desapareceu.

Pedro decidiu não voltar a casa dos Rostov.

 

[XXI]

Pétia, depois de tão formal negativa do pai, fechou-se no quarto e chorou amargamente. Todos fingiram não dar por coisa alguma quando ele apareceu para o chá, triste e calado, com os olhos todos vermelhos.

No dia seguinte chegava o imperador. Alguns dos criados de Rostov pediram licença para assistir à chegada do czar. Naquela manhã Pétia levou muito tempo a vestir-se e a pentear-se e pôs um colarinho de homem. Franzia as sobrancelhas diante do espelho, esboçava grandes gestos, encolhia os ombros. Finalmente, sem dizer nada a ninguém, pôs o chapéu e saiu pela porta de serviço, procurando não ser visto. Decidira ir directamente ao local onde estivesse o imperador e explicar a um dos camaristas — pensava que o imperador andava sempre rodeado de uma nuvem de camaristas — ser o conde Rostov e que, não obstante muito novo, era seu desejo servir a pátria, e que a sua pouca idade não podia ser obstáculo quando se tratava de uma coisa assim e que estava disposto... Preparara uma série de lindos discursos para recitar ao dito camarista.

Pétia contava ser bem sucedido ao apresentar-se ao imperador precisamente porque era uma criança — pensava, inclusivamente, assombrar toda a gente com a sua juventude —, e, no entanto, na maneira como arranjara o colarinho, na forma como se penteara, no seu andar grave e moderado, procurava dar a impressão de ser um homem feito, A medida, porém, que ia avançando, mais distraído se mostrava com a multidão que afluía ao Kremlin, esquecendo-se de manter o ar grave que convinha. Ao aproximar-se do palácio, tratou de não deixar que a multidão o arrastasse e pôs-se a distribuir empurrões para a direita e para a esquerda, com ar ameaçador. Na porta da Trindade, apesar de toda a sua energia, a multidão, que provavelmente ignorava as suas intenções patrióticas, de tal modo o comprimiu de encontro à muralha que ele não teve outro remédio senão ficar ali parado espera que as carruagens que passavam sob o arco, estrondeando, houvessem desfilado. Ao pé dele estava uma mulher do povo, um lacaio, dois negociantes e um soldado reformado. Depois de algum tempo imobilizado, Pétia, sem esperar que desfilassem todas as carruagens, quis passar adiante dos demais e resolveu abrir caminho à força de cotovelos. Porém a mulher que estava a seu lado, a primeira pessoa a ser acotovelada, interpelou-o, colérica:

— Que é lá isso, senhorito? Não vê que estão todos à espera? Onde vai com essa pressa?

— Assim todos nós podíamos caminhar — corroborou o lacaio, que, servindo-se também dos seus cotovelos, o empurrou de encontro a um malcheiroso recanto da porta.

Pétia passou a mão pela cara coberta de suor e deu um jeito ao colarinho todo amarrotado que com tanto esmero pusera, à imitação das pessoas crescidas.

Reconhecia já não estar com aspecto decente e que se se apresentasse ao camarista não o deixariam aproximar-se do imperador. Mas recompor-se e sair daquele labirinto não lhe era possível. A certa altura viu passar um general conhecido da família. Pensou pedir-lhe que o ajudasse, mas logo reconsiderou, achando que isso não era atitude digna de um homem como ele. Assim que acabaram de desfilar as carruagens, a multidão precipitou-se c, arrastou-o consigo até à praça, coalhada de povo. Havia gente Por todos os lados, até em cima dos telhados, Assim que desembocou na praça ouviu distintamente o repicar dos sinos que enchia todo o Kremlin e o burburinho da turba-multa. De súbito abriu-se uma clareira entre a multidão, todas as cabeças se descobriram e mais uma vez toda a gente se lançou para diante. Pétia, esmagado pela multidão, mal podia respirar. Todos gritavam: «Hurra! Hurra! Hurra!» O pequeno erguera-se na ponta dos pés, empurrava os vizinhos, agarrava-se a eles, mas nada mais podia ver além da multidão que o cercava.

Em todos os rostos havia o mesmo entusiasmo e o mesmo carinho.

Uma vendedeira, a seu lado, rompeu em soluços, e as lágrimas caíam-lhe pela cara.

— Paizinho, meu anjo, meu paizinho! — balbuciava ela, enxugando as lágrimas com as mãos.

«Hurra!», continuava a ouvir-se por todos os lados.

Por momentos, a multidão imobilizou-se, e de novo se lançou para a frente.

Pétia sem dar conta do que fazia, de dentes cerrados e os olhos esbugalhados, precipitou-se também, distribuindo socos e gritando: «Hurra!» Dir-se-ia que naquele momento estava pronto a matar os outros e a matar-se a si. A seu lado, pessoas com expresses idênticas e igualmente selvagens, soltavam os mesmos clamores.

«Finalmente, lá está o imperador!», pensava ele. «Ah!, mas como apresentar-lhe a minha petição? Seria um atrevimento!» Nem por isso deixava contudo de furar a multidão desesperadamente, e por cima dos ombros dos que iam diante dele pôde ver um espaço livre com uma passadeira encarnada. No mesmo momento, porém, a multidão recuou, pois os polícias que estavam na frente tinham repelido os que haviam chegado perto de mais do cortejo na altura em que o imperador, vindo do palácio, entrava na catedral de Uspenki. Foi então que Pétia recebeu de repente uma grande pancada na cabeça e se sentiu de tal modo esmagado pela multidão que a vista lhe toldou e caiu sem sentidos. Quando voltou a si, um dignitário da igreja, com um rabicho de cabelos brancos na nuca, vestindo uma sotaina azul desbotada, naturalmente um sacristão, amparava-o com uma mão por debaixo de um braço, enquanto com a outra o protegia da vaga da multidão.

— Iam matando este rapazinho! — clamava o sacristão. — Não vêem?... Cuidado!... Está esmagado, esmagado!

O imperador entrava na catedral. A multidão apaziguou-se outra vez e o sacristão levou consigo Pétia, muito pálido, mal podendo respirar, até ao pé do rei dos canhões. Várias pessoas se compadeceram de Pétia e a multidão refluiu, de súbito, direita a ele, comprimindo-se à sua volta. Os que estavam mais .perto desapertaram-lhe o fato, obrigaram-no a sentar-se no pedestal do canhão, manifestando a sua revolta contra os que o haviam Posto em tal estado.

«Podiam tê-lo liquidado! Sempre te digo! É um crime! Olhem para ele, pobre miúdo, está branco como a cal da parede!» murmurava-se na turba.

Não tardou que Pétia voltasse completamente a si. As faces tornaram a ficar coradas, a dor passou e graças a esta passageira indisposição pôde conseguir um bom lugar em cima do canhão, donde esperava poder ver agora perfeitamente o imperador no seu regresso da catedral. Não pensava mais, porém, na sua petição. Vê-lo que fosse já era uma grande felicidade.

Durante a cerimónia na catedral, em que se celebrava um serviço de acção de graças pelo regresso do imperador e outro pela conclusão da paz com os Turcos, a multidão dispersou-se. Apareceram então os vendedores de kvass, de rosquilhas de amêndoa e de sementes de papoula, de que Pétia gostava muito; soltavam os seus pregões enquanto a multidão tagarelava. Uma vendedeira expunha o xale rasgado e dizia quanto lhe custara, outra garantia estarem as sedas por um preço doido. O sacristão que salvara Pétia falava com um funcionário sobre as personalidades que oficiavam com Sua Eminência. Por várias vezes pronunciou a palavra «concílio», cuja significação Pétia ignorava. Dois comerciantes novos chalaceavam com duas moças que rilhavam nozes. Todas estas conversas, principalmente a dos rapazotes com as moças, coisa própria para o interessar na sua idade, não lhe despertavam a mais pequena curiosidade naquele momento. Ali estava empoleirado no pedestal do canhão, comovidíssimo, a pensar no imperador e no amor que lhe tinha. E a dor e o medo que experimentara quando se vira por terra, juntos ao entusiasmo que sentia, ainda lhe tornavam mais memorável aquela hora solene.

De repente estrondearam tiros de canhão ao longo do cais — eram salvas para comemorar a paz com os Turcos —, e a multidão arrojou-se em peso para aquele lado na esperança de desfrutar o novo espectáculo. Pétia quis fazer o mesmo, mas o sacristão, que o tomara à sua guarda, não consentiu. Ainda as salvas não tinham cessado quando saíram apressadamente da catedral oficiais, generais, camareiros, e atrás deles outra gente que caminhava menos apressada, Todos os presentes se desbarretaram e a multidão que ocorrera ao cais de novo afluiu àquele lado da praça. Finalmente quatro senhores de uniforme de gala apareceram à porta. «Hurra! Hurra!», gritou a multidão,

«Qual é? Qual é?», perguntava Pétia com lágrimas na voz, mas ninguém lhe respondia. Toda a gente estava embasbacada com o espectáculo. E, escolhendo ao acaso uma das quatro personagens que mal podia distinguir através das lágrimas de alegria que lhe inundavam os olhos, foi a ela que consagrou todo o seu entusiasmo. Gritou «Hurra!», numa voz arrebatada, e ali mesmo resolveu definitivamente, custasse o que custasse, que a partir do dia seguinte seria soldado.

A turba correu atrás do imperador, acompanhando-o até ao palácio e em seguida dispersou, Era tarde, e Pétia, em jejum, sentia-se alagado de suor, que lhe gotejava da testa. Não saía, porém, de ao pé dos basbaques, cada vez mais raros, mas ainda muitos nessa altura. Enquanto durou o banquete do imperador deixou-se ficar diante do palácio, a olhar para as janelas, sempre à espera de um acontecimento qualquer, e cheio de inveja, ao mesmo tempo, quer dos dignitários que chegavam para tomar parte no jantar, quer dos lacaios que serviam à mesa e que se viam através das janelas.

Durante o banquete, Valuiev, lançando um olhar para a rua, disse:

— O povo ainda espera tornar a ver Vossa Majestade.

O jantar estava no fim, o imperador levantou-se, a trincar ainda um biscoito, e apareceu à varanda.

«Nosso anjo! Nosso pai! Hurra! Nosso pai!...», gritava a multidão, e Pétia com ela. E de novo as mulheres e alguns homens também, mais discretamente, em cujo número se contava Pétia, choraram lágrimas de alegria.

Um pedaço de biscoito que o imperador tinha na mão caiu sobre o parapeito da varanda e daí para a rua. Um cocheiro, de avental, que estava mais perto, precipitou-se para apanhá-lo. Os que se encontravam nas imediações lançaram-se sobre ele. Vendo o que, o czar mandou lhe trouxessem o prato dos biscoitos e despejou-o do alto da varanda. Os olhos de Pétia injectaram-se de sangue. O perigo de ser pisado ainda mais o excitava, e precipitou-se. Não sabia porquê, mas sentia que precisava absolutamente de um dos biscoitos arrojados pela mão do imperador e por nada deste mundo teria desistido do seu intento. Na sua carreira atirou ao chão uma velha que ia deitar a mão a um deles, a qual se não deu por vencida, embora de joelhos em terra. Tinha, porém, o braço muito curto. Pétia deu-lhe uma joelhada, apanhou o biscoito, e, para não ficar atrás dos outros, gritou de novo: «Hurra!», mas desta vez numa voz rouca.

O imperador recolheu-se e então a maior parte do povo dispersou.

«Eu bem te disse que era bom esperar. Aqui tens, conseguimos vê-lo!», dizia-se, alegremente, no meio da multidão.

Apesar da alegria que experimentava, Pétia não estava satisfeito por voltar para casa; o prazer daquela jornada findara para ele. Por isso, em vez de regressar ao lar, dirigiu-se a casa do seu camarada Obolenski, que tinha quinze anos e ia ingressar no exército. Quando voltou a casa, Pétia declarou resoluto que fugiria se o não deixassem alistar-se. E no dia seguinte, embora sem ter dado ainda a sua autorização formal, o conde Ilia Andreitch foi informar-se de qual seria a melhor maneira de alistar o filho sem o expor demasiado.

 

[XXII]

No dia 15, de manhã, três dias depois dos acontecimentos relatados, grande número de carruagens estacionava diante do Palácio Slobotski.

Os salões estavam cheios de gente. No primeiro havia nobres envergando os seus uniformes; no outro, comerciantes de grandes barbas, com as suas condecorações e os seus cafetãs azuis.

Na sala da nobreza tudo era bulício e agitação. Diante de uma grande mesa, sob o retrato do imperador, em cadeiras de alto espaldar, sentavam-se as personalidades mais importantes, mas a maior parte das pessoas deambulava pela sala.

Toda esta fidalguia, a mesma gente que Pedro encontrava todos os dias no clube ou a quem visitava, vestia uniformes de épocas diferentes, do tempo de Catarina, de Paulo, de Alexandre, ou então a farda vulgar da nobreza. Mas esses uniformes, no fundo bastante parecidos, davam um aspecto estranho e fantástico a essas figuras, jovens ou idosas, tão diferentes e ao mesmo tempo tão conhecidas. Os mais extraordinários eram os velhos: desdentados, calvos, meio cegos, cobertos de uma gordura amarelenta ou então magros e rugosos. A maior parte permanecia sentada, sem dizer palavra, e, se alguns se levantavam para conversar, iam instalar-se ao pé dos mais novos.

À semelhança do que acontecia com os rostos da multidão estacionada na praça em que estivera Pétia, também na expressão desta gente se reflectiam as mais variadas preocupações: a expectativa de um acontecimento memorável ou a recordação do facto mais banal da vida, uma partida de boston, um bom jantar preparado pelo cozinheiro Petrushka, a boa saúde de Zenaida Dmitrievna e coisas do mesmo teor.

Desde manhã muito cedo que Pedro, que a custo se enfiara no seu uniforme de fidalgo, muito apertado, se encontrava na sala. Uma grande emoção o dominava. Esta reunião extraordinária, não só da nobreza, mas dos próprios comerciantes, aquela reunião das diversas classes, os estados gerais, despertava nele uma revoada de ideias há muito abandonadas, embora profundamente arreigadas no seu espírito, relativas ao Contrato Social e à Revolução Francesa.

As palavras da proclamação anunciando que o imperador iria a Moscovo para deliberar com o seu povo confirmavam-no na sua maneira de ver. E na suposição de que se preparava, nesta ordem de ideias, qualquer coisa de importante, que há muito esperava, ia e vinha, observava, prestava o ouvido às conversas, sem de resto nada encontrar em parte alguma que viesse ao encontro dos pensamentos que o absorviam.

Foi lida a proclamação, que despertou entusiasmo, depois formaram-se grupos fazendo comentários. Além dos assuntos triviais de conversa, Pedro reparou que se falava do lugar em que deviam ficar colocados os marechais da nobreza quando entrasse o imperador, da data do baile em sua honra, e as pessoas perguntavam umas às outras se deveriam reunir-se por distritos ou por províncias, etc. Sempre porém que se falava da guerra e do objecto preciso daquela reunião, só se diziam coisas vagas e indecisas. As pessoas preferiam ouvir a falar.

Um homem de certa idade, com ar marcial, bonita figura e farda de oficial da marinha reformado, falava numa das salas a um grupo de pessoas que o rodeavam. Pedro aproximou-se e pôs-se a escutar.

O conde Ilia Andreitch, com o seu cafetã de voivoda do tempo de Catarina, cirandava com um sorriso nos lábios por meio da multidão, tudo gente sua conhecida. Aproximando-se igualmente do grupo, apurou o ouvido, com esse ar bonacheirão que tinha sempre em tais casos, enquanto abanava a cabeça aprovadoramente. O marinheiro sustentava opiniões muito atrevidas, como podia depreender-se da expressão dos que o ouviam e do facto de pessoas que Pedro conhecia como pacíficas e serenas se afastarem dele com modos reprovadores ou contradizendo-o. Abrindo caminho até meio do grupo, Pedro, depois de escutar por algum tempo, convenceu-se de que quem falava era realmente um liberal, mas um liberal de uma natureza muito diversa da sua, o orador tinha uma voz de barítono, sonora e cantante, comia os rr e abreviava as consoantes, uma dessas vozes que costumam gritar: «Apraz, o meu cachimbo!» e coisas idênticas. Falava com e entono e a segurança de quem está habituado a mandar.

— E então? Que tem que os de Smolensk tenham oferecido milícias ao imperador? São eles quem faz as leis? Se a digna nobreza da província de Moscovo assim o entender, tem outras maneiras de mostrar a sua dedicação. Já esquecemos a milícia de 1807? Só ganharam com isso os ladrões e os filhos de pope...

O conde Ilia Andreitch, sorrindo docemente, abanava a cabeça, aprovador.

— E então? De que serviram ao Estado os milicianos? De nada. A única coisa que fizeram foi arruinar as nossas propriedades. Ainda o melhor é o recrutamento... Se assim não for, aqueles que voltarem da guerra nem serão soldados nem camponeses, mas malandros, malandros, nada mais. Os nobres não poupam a sua vida, todos nós lá iremos individualmente e levaremos connosco os recrutas. Basta que o imperador chame por nós, e estaremos prontos a morrer por ele — concluiu o orador, cada vez mais entusiasmado.

Ilia Andreitch engasgava-se, de tão contente, e ia dando cotoveladas a Pedro, pela sua parte desejoso de dizer alguma coisa também. Deu alguns passos em frente, arrebatado pelas circunstâncias, mas sem saber ao certo o que ia dizer.

Mal abriu a boca, logo foi interrompido por um senador desdentado, de expressão inteligente, mas furibunda, que estava ao lado do orador. Via-se ser homem habituado a presidir a debates, e falava numa voz serena, mas precisa.

— Suponho, meu caro senhor — disse, com a sua boca desdentada —, não termos sido convocados para discutir o que é preferível para o imperador na hora que passa: o recrutamento ou a milícia. Temos de responder à proclamação com que o imperador nos honrou. Quanto a escolher entre o recrutamento e a milícia, deixemos que o poder supremo decida...

Pedro encontrou logo uma saída para a exaltação que o tomava.

Estava indignado com as vistas curtas e com as limitações que o senador queria impor às opiniões da nobreza. Deu um passo em frente e interrompeu-o. Ele próprio não sabia o que ia dizer, mas pôs-se a falar com vivacidade, usando palavras francesas intercaladas num russo assaz livresco.

— Perdoe-me, Excelência — principiou ele. Era íntimo do senador mas entendia dever dar-lhe esse tratamento. — Embora eu sei a da opinião deste senhor... — Engasgou-se. Era sua intenção dizer: meu muito digno preopinante... — Deste senhor... que não tenho a honra de conhecer, suponho que a nobreza não foi convocada apenas para exprimir a sua simpatia e o seu entusiasmo, mas também para discutir as medidas que entenda úteis à pátria. Suponho — prosseguiu ele, cada vez mais animado — que o próprio imperador ficaria descontente se visse que não passávamos de proprietários de campónios postos às suas ordens para... carne de canhão, em vez de um... conselho.

Vários circunstantes afastaram-se ao verem o sorriso desdenhoso do senador, além de acharem que Pedro empregava uma linguagem muito livre. Só Ilia Andreitch aprovou o discurso deste, tal qual como havia aprovado antes o do marinheiro, o do senador e em geral de todos quantos fossem os últimos a falar.

— Suponho — prosseguiu Pedro — que antes de discutirmos estas questões devemos pedir respeitosamente ao imperador que nos comunique o número de soldados de que dispomos e a situação em que está o nosso exército e então...

Mas Pedro não pôde continuar. Interpelaram-no de três lugares distintos. E o mais violento dos seus antagonistas foi um homem que ele conhecia havia muito, seu parceiro no jogo do boston, sempre nos melhores termos com ele, um tal Stepan Stepanovitch Adraksine. Este tal Stepan Stepanovitch envergava o uniforme, e, ou fosse por essa ou por outra razão, Pedro viu diante de si um homem completamente diferente. Com uma súbita cólera senil pintada no rosto, gritou para Pedro:

— Em primeiro lugar, devo chamar-lhe a atenção para o facto de não termos o direito de formular tais perguntas ao imperador, e, em segundo lugar, ainda mesmo que a nobreza russa tivesse esse direito, o imperador não podia responder-nos, A marcha das nossas tropas está subordinada à do inimigo. Ora vão ora vêm...

Outra voz ressoou, a voz de um homem de estatura média, dos seus quarenta anos, que Pedro outrora vira em casa das ciganas e que conhecia por batoteiro. Completamente outro, talvez também mercê do uniforme que vestia, avançou para Pedro, interrompendo Adraksine.

— O momento não é para discussões — disse ele —, mas para agir: temos a guerra em casa. O nosso inimigo avança disposto a esmagar a Rússia, a profanar os túmulos dos nossos antepassados, a levar consigo as nossas mulheres, os nossos filhos. — Ao dizer estas palavras o orador bateu no peito. — Levantar-nos-emos todos, daremos tudo ao nosso pai, o czar! — Gritava com os olhos injectados fora das órbitas, e na multidão ouviram-se algumas palavras de aplauso — Somos russos e não pouparemos e nosso sangue na defesa da fé, do trono e da Rússia. E se somos dignos filhos da nossa pátria, deixemos de lado todas essas quimeras. Mostraremos à Europa como a Rússia é capaz de se levantar pela Rússia.

Pedro teria querido replicar, mas achou melhor não abrir a boca. Tinha percebido que as suas palavras, independentemente das ideias que exprimissem, teriam menos repercussão que as daquele nobre exaltado.

Ilia Andreitch, lá atrás do grupo, aprovou também o orador. Quando este terminou o seu discurso, alguns dos presentes voltaram-se para ele e exclamaram:

«Muito bem! Muito bem!»

Pedro teria querido dizer estar pronto também a todos os sacrifícios monetários, e em homens igualmente, e até a sacrificar-se a si próprio, mas que entendia ser preciso conhecer a situação para lhe dar remédio. Não o pôde fazer porém. Toda a gente gritava e falava simultaneamente. Ilia Andreitch não tinha tempo de os aprovar a todos. E o grupo aumentava, dispersava-se, refazia-se, até que, finalmente, no meio do rumor das conversas, lá foi, através da sala, direito à grande mesa. Não só Pedro não lograva dizer uma única palavra, como o interpelavam grosseiramente, repeliam-no, voltavam-lhe as costas, como se ele fosse um inimigo comum, Não é que estivessem descontentes com o sentido do seu discurso — tinham esquecido por completo o que, ele dissera depois dos que haviam falado em seguida —, mas aquela multidão excitada necessitava de um objecto palpável que amasse ou odiasse. Pedro, eis o bode expiatório. Muitos foram os oradores que falaram ainda, e todos eles no mesmo tom. Alguns discursavam bastante bem e de maneira original.

O director do Mensageiro Russo, Glinka, a quem saudaram, ao reconhecê-lo, gritando: «O escritor! O escritor!», disse que «o Inferno devia ser repelido pelo Inferno», que «vira uma criança sorrir à luz dos relâmpagos e ao ribombar dos trovões», mas ele «não era uma criança».

«Sim, sim, o ribombar dos trovões!», repetia-se lá para trás, nas últimas filas.

A multidão aproximou-se da grande mesa onde, de uniforme de gala, se sentavam as personalidades da alta nobreza, septuagenários de cabelos brancos uns, outros calvos. Pedro tinha-os visto quase todos, quer nas suas próprias casas, com os seus bufões, quer no clube, sentados às mesas do boston. As conversas nem por isso cessaram. Uns após outros, e às vezes ao mesmo tempo, iam os oradores tomando a palavra, comprimidos contra os altos espaldares das cadeiras. Os que estavam atrás notavam o que o orador precedente não dissera, para se darem pressa de o expressarem. Outros, no meio daquele calor e daquele apertão, procuravam no cérebro as ideias que lhes escapavam para que os outros as tomassem. Os nobres conservavam-se nos seus tronos, olhavam uns para os outros, um pouco sobressaltados, e na expressão dos seus rostos apenas se percebia estarem cheios de calor. No entanto, Pedro sentia-se emocionado também e aquele desejo de tudo sacrificar pela pátria que palpitava em todos os discursos acabou por comunicar-se-lhe. Não renegava qualquer das suas convicções, mas sentia-se confusamente culpado e que— na justificar-se.

— Apenas digo que seriam mais fáceis os nossos sacrifícios se soubéssemos quais as necessidades a enfrentar — gritou, procurando dominar a outras vozes.

Um velhinho que estava perto de Pedro encarou-o, mas logo o distraíram os gritos que ressoaram na outra extremidade da mesa.

«Sim, Moscovo render-se-á! Será a expiadora», gritava alguém.

«É um inimigo da humanidade!», vociferou outra voz. «Deixem-me falar... Os senhores sufocam-me!...»

 

[XXIII]

Naquele momento entrou na sala, apressadamente, por entre a multidão, que se afastava, o conde Rostoptchine, de uniforme de general, banda militar a tiracolo, queixo proeminente e olhos coruscantes.

— Sua Majestade o imperador está a chegar — disse ele — Venho lá de dentro. Creio que na situação em que nos encontramos não temos muito tempo para discutir. O imperador dignou-se reunir-nos, bem como aos comerciantes. É dali que virão os milhões — acrescentou, apontando para a sala contígua. — A nós cabe-nos formar a milícia e não nos pouparmos a nós próprios... É o menos que podemos fazer.

Entre os notáveis que se sentavam em volta da mesa principiou uma espécie de conselho. Tudo se dizia em voz segredada. E depois da algazarra anterior era triste ouvir aquele rouquejar de velhos, emitindo as suas opiniões um por um. Dizia uma voz: «Estou de acordo»; e outra, para variar a fórmula, murmurava: «Sou da mesma opinião.»

Ao secretário foi dada ordem de inscrever a resolução seguinte da nobreza moscovita: «Os Moscovitas, seguindo o exemplo dos habitantes de Smolensk, darão dez homens por mil com equipamento completo.» Em seguida levantaram-se, satisfeitos por poderem desentorpecei, as pernas, afastando as cadeiras com fragor, e espalhando-se pela sala, de braço dado, dando à língua.

«O imperador! O imperador!», gritaram daí a pouco, e toda a gente se precipitou para a entrada.

Em passos largos, pelo meio de uma fila de nobres, o imperador caminhou sala dentro. Em todos os rostos havia uma curiosidade respeitosa e assustada. Pedro, bastante longe, não pôde distinguir muito bem as palavras pronunciadas. Compreendeu apenas que o imperador falava do perigo em que se encontrava o império e das esperanças que tinha na nobreza de Moscovo. Outra voz respondeu ao imperador para lhe comunicar os termos da resolução que acabava de tomar-se.

— Meus senhores — disse o imperador em voz trémula. Um ligeiro sussurro percorreu a multidão, que instantaneamente se calou, e Pedro ouviu distintamente a voz simpática e comovedora do soberano, que dizia: — Nunca duvidei da dedicação da nobreza russa. Mas hoje sinto que ultrapassou as minhas esperanças. Agradeço-vos em nome da pátria. Meus senhores, mãos à obra, o tempo e precioso...

O imperador calou-se, a multidão comprimiu-se à sua roda e exclamações de entusiasmo irromperam de todos os lados.

«Sim, e o que é mais precioso ainda... é a palavra do czar», dizia, soluçando, nas ultimas filas, Ilia Andreitch, que nada ouvira e tudo compreendera à sua maneira.

Da sala da nobreza o imperador passou à dos comerciantes. Esteve ali perto de dez minutos. Pedro, e como ele tantos outros, viram-no abandonar a sala com lágrimas de reconhecimento a bailar-lhe dos olhos. Como depois veio a saber-se, mal principiara c seu discurso aos comerciantes, as lágrimas saltaram-lhe dos olhos e foi em voz trémula que pronunciou as últimas palavras. Quando Pedro o viu saía ele da sala acompanhado por dois dos assistentes, Um deles era seu conhecido, um grande produtor de álcool; o outro era administrador local, de rosto magro e amarelento, barba rala. Ambos choravam. O magro tinha lágrimas nos olhos, mas o outro soluçava como uma criança, repetindo constantemente: «Majestade! Ofereço-vos a minha vida e a minha fortuna!»

Naquele momento Pedro não desejava outra coisa senão mostrar que para ele não havia obstáculos e que estava disposto a tudo sacrificar. Lamentava o seu discurso de tendências constitucionais. Procurava uma oportunidade para o fazer esquecer. Ao saber que o conde Mamonov oferecia um regimento inteiro, declarou imediatamente ao conde Rostoptchine que daria mil homens e se encarregaria da sua manutenção.

O velho Rostov não pôde contar sem lágrimas, à mulher, que o ouvia, o que se tinha passado, dando desde logo a Pétia o consentimento que ele pedia e indo ele próprio alistá-lo.

No dia seguinte o imperador partiu. Todos os nobres que tinham sido convocados despiram o uniforme, retomando os seus hábitos, tanto em casa como no clube, e foi resmungando que deram ordem aos intendentes respectivos para a formação das milícias, surpreendidos eles próprios dos seus oferecimentos.