Guerra e Paz
Primeira Parte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
— Não desejo, nem desejei a guerra — disse ele. — Obrigaram-me a fazê-la. E mesmo agora — acrescentou, acentuando estas palavras — estou pronto a aceitar todas as explicações que me possa dar.
E pôs-se a expor, pormenorizadamente, as causas do seu descontentamento em relação ao Governo russo. Graças ao tom tranquilo, moderado e até mesmo amistoso que tomou então, Balachov persuadiu-se de que na verdade ele desejava a paz e estava disposto a entabular negociações.
— Sire!... O imperador, meu senhor... — tentou dizer Balachov, quando Napoleão, que se calara, o interrogou com o olhar.
O russo trazia preparado o seu discurso, mas aqueles olhos fitos nele desorientaram-no. «Está perturbado, calma», parecia dizer Napoleão, que examinava, com um imperceptível sorriso nos lábios, o uniforme e a espada de Balachov.
Este, serenando, continuou. Disse que o imperador Alexandre não considerava casus belli suficiente o pedido de passaportes de Kurakine, que este agira por iniciativa própria, sem conhecimento do monarca, que Alexandre não queria a guerra e não assinara qualquer pacto com a Inglaterra.
— Ainda não — interveio Napoleão, mas, receoso de se deixar arrastar pelos seus sentimentos, franziu as sobrancelhas e baixou ligeiramente a cabeça, dando a entender a Balachov que podia continuar.
Exposto que foi quanto lhe fora ordenado que dissesse, Balachov concluiu que o imperador Alexandre desejava a paz, porém que só entabularia negociações com a condição de... Neste ponto hesitou: lembrava-se das palavras que Alexandre não escrevera na sua carta mas que ordenara fossem introduzidas, sem esquecimento, no seu rescrito a Saltikov e que ele fora encarregado de repetir textualmente a Napoleão. Lembrava-se das palavras: «... enquanto houver um só inimigo em armas sobre a terra russa», mas um sentimento muito complexo reteve-lhe a frase, prestes a escapar-lhe, Foi-lhe impossível pronunciá-la, embora o desejasse. Acrescentou: — Com a condição de que as tropas francesas se retirem para o outro lado do Niémen.
Napoleão dera-se conta da perturbação de Balachov no momento de pronunciar estas palavras: o rosto estremeceu-lhe e os músculos da barriga da perna esquerda tremeram-lhe. Sem se mover do sítio em que estava, mas em voz mais alta e mais precipitada, pôs-se a falar. Durante todo o discurso que se seguiu, Balachov, sempre que baixava os olhos, reparava, sem querer, no tremor da barriga da perna esquerda de Napoleão, que se ia acentuando à medida que o soberano levantava a voz.
— Não desejo menos a paz que o imperador Alexandre — principiou ele. — Não fui eu quem durante dezoito meses fez tudo para a conseguir? Há dezoito meses que espero explicações. E que exigem de mim para entabular negociações? — acrescentou, franzindo o sobrolho e fazendo um gesto enérgico com a pequena mão branca e anafada.
— A retirada das tropas para o outro lado do Niémen, Majestade — disse Balachov.
— Para o outro lado do Niémen? — repetiu Napoleão. — Então agora querem que eu retroceda para lá do Niémen? — insistiu, fitando Balachov nos olhos.
Este inclinou respeitosamente a cabeça.
Em vez de lhe exigirem, como quatro meses antes, a evacuação da Pomerânia, agora apenas lhe pediam a retirada para o outro lado do Niémen. Napoleão voltou as costas, num movimento brusco, e pôs-se a andar de um lado para o outro.
— Com que então, exigem de mim que retire para o outro lado do Niémen para entabular negociações? Mas há dois meses queriam que me retirasse para o outro lado do Óder e do Vístula, e apesar disso estão prontos agora a entabular negociações.— Percorreu a sala em silêncio de um extremo ao outro, depois deteve-se novamente diante de Balachov. Este notou que a barriga da perna esquerda do imperador ainda tremia mais e que a sua máscara se havia como que petrificado numa expressão severa. Napoleão conhecia esta sua particularidade: «A vibração da barriga da perna esquerda é, em mim, um grande sinal», costumava dizer.
— Proposta como essa, o abandono do Óder e do Vístula, é para fazer ao grão-duque de Baden, não a mim — exclamou, de súbito, com uma violência que o surpreendeu a ele próprio. Mesmo que me oferecessem Petersburgo e Moscovo, não aceitaria as vossas condições. Dizem os senhores que eu principiei esta guerra! Mas quem primeiro concentrou as suas tropas? O imperador Alexandre e não eu. E vem o senhor falar-me de negociações quando eu já gastei milhões, quando sois aliados de Inglaterra e a vossa situação é má. Propõem-me negociações? Mas qual o objectivo da vossa aliança com a Inglaterra? Que vos deu Ela? — Falava precipitadamente; via-se que o seu discurso não tentava mostrar as vantagens da paz e discutir a viabilidade desta, mas apenas demonstrar quer o seu direito, quer a sua força e provar os erros e as faltas de Alexandre.
Quando principiara a falar, tinha por finalidade, evidentemente, chamar a atenção para as vantagens da sua situação e que apesar de tudo aceitava as negociações. Mas agora, quanto mais falava menos senhor era das suas palavras.
— Diz-se que assinaram a paz com os Turcos?
Balachov inclinou a cabeça afirmativamente.
— A paz foi assinada... — principiou.
Mas Napoleão cortou-lhe a palavra. Havia nele uma necessidade imperiosa de monologar, e prosseguiu com essa eloquência irritada e essa intemperança de linguagem própria, às vezes, das pessoas favorecidas pela sorte.
— Sim, bem sei, assinaram a paz com os Turcos sem terem conseguido nem a Moldávia nem a Valáquia. E eu teria dado essas províncias ao seu imperador, da mesma maneira que lhe ofereci a Finlândia. Sim – continuou — prometera e daria ao imperador Alexandre a Moldávia e a Valáquia, mas a verdade é que essas belas províncias lhe fugiram das mãos. E no entanto teria podido anexá-las ao seu império e sob o seu reinado a Rússia alargar-se-ia do golfo de Bótnia até às embocaduras do Danúbio. Nem a grande Catarina faria mais. — À medida que falava ia ficando mais exaltado.
De um lado para o outro, na sala, repetia a Balachov, quase palavra por palavra, o que dissera na entrevista de Tilsitt. — E teria tido tudo isso devido à minha amizade. Ah, que belo reino, que belo reino! — Repetiu várias vezes estas palavras, parou, tirou da algibeira uma caixa de rapé, de ouro, e sorveu avidamente uma pitada.
— Que belo reino poderia ter sido o do imperador Alexandre!
Olhou para Balachov com ar de compaixão e, como este ia dizer qualquer coisa, interrompeu-o:
— Que pode ele desejar e procurar que eu lhe não pudesse oferecer com a minha amizade?... — pronunciou, encolhendo os ombros. — E pensou que seria melhor rodear-se dos meus inimigos, e que inimigos? Chamou para junto de si os Stein, os Armfeld, os Bennigsen, os Wintzengerode. Stein, um traidor expulso do seu país, Armfeld, um libertino e um intriguista, Wintzengerode, um súbdito francês foragido, Bennigsen, um pouco mais militar que os outros, mas tão inepto como eles, que não foi capaz de fazer fosse o que fosse em 1807 e cujo nome deve despertar no imperador Alexandre tremendas recordações... Se eles prestassem para alguma coisa, vamos, podiam ser úteis — prosseguiu Napoleão, cuja palavra dificilmente lhe obedecia, tantos os argumentos que lhe acorriam para demonstrar o seu direito e a sua força, a seus olhos, afinal, uma e a mesma coisa. — Não, para nada prestam, nem na guerra nem na paz! Barclay, segundo dizem, é o mais esperto deles todos, mas eu não sou dessa opinião, a julgar pelos seus primeiros passos. E eles que fazem? Que fazem todos estes cortesãos? Pfuhl propõe, Armfeld discute, Bennigsen examina. Quanto a Barclay, chamado para agir, não sabe por onde começar. E o tempo vai passando sem nada acontecer de novo, Militar só Bagration. É estúpido, mas tem experiência, golpe de vista e decisão... E que papel desempenha o vosso jovem imperador no meio dessa massa amorfa? Comprometem-no e fazem pesar sobre ele a responsabilidade de tudo. Um soberano só deveria encontrar-se à frente do exército quando fosse general — concluiu Bonaparte, como se estas palavras fossem uma provocação directa ao czar. Ele bem sabia que Alexandre tinha o sonho de ser um grande capitão.
— Há oito dias que a campanha principiou e os senhores não souberam defender Vilna. O exército russo está cortado em dois e foi expulso das províncias polacas. As tropas rebelam-se.
— Perdão, Majestade — interrompeu Balachov, que, com dificuldade, apreendia aquela torrente de palavras — Pelo contrário, as tropas ardem em desejos...
— Sei tudo — interrompeu Napoleão. — Sei tudo e o número dos vossos batalhões tão bem como dos meus. Os senhores nem duzentos mil homens têm em armas e eu tenho mais do triplo. Dou-lhe a minha palavra de honra — acrescentou, esquecendo-se de que esta sua garantia não podia ser tomada a sério —, dou-lhe a minha palavra de honra que tenho quinhentos e trinta mil homens deste lado do Vístula. Os Turcos não os podem ajudar: para nada prestam, e mostraram-no bem quando assinaram a paz convosco. Os Suecos, esses estão predestinados a ser governados por loucos. Tinham um rei louco: mudaram de rei e arranjaram outro, Bernadotte, que logo enlouqueceu também, pois é preciso estar doido para, sendo sueco, assinar uma aliança com a Rússia.
Napoleão sorriu malevolamente e sorveu mais uma pitada de rapé. Cada frase sua sugeria uma réplica a Balachov, que gesticulava, como se fosse pedir a palavra. Napoleão, porém, interrompia-o sempre.
A propósito da pretensa loucura dos Suecos queria dizer que a Suécia se transformava numa ilha, com a Rússia por detrás dela, mas Napoleão vociferava, para lhe abafar a voz. Estava nesse estado de irritação em que as pessoas têm necessidade de falar, de falar, de falar sempre, apenas para provarem a si próprias terem razão. A situação de Balachov era penosa.
Como embaixador, receava comprometer a sua dignidade e sentia dever apresentar objecções; como homem, encolhia-se moralmente perante os excessos de ira sem causa a que o imperador se entregava. Sabia que aquela torrente de palavras não tinha grande importância, que Napoleão, quando voltasse a si, seria o primeiro a envergonhar-se do que dissera. Conservava-se diante dele com os olhos baixos, observando as grossas pernas do imperador e procurando evitar-lhe o olhar.
— Que importam, no fim de contas, todos os vossos aliados? — dizia este. — Também os tenho, os Polacos: oitenta mil homens que se batem como leões. E não tarda que sejam duzentos mil.
E indignado, provavelmente por ter a consciência de estar a mentir e da atitude de Balachov, o qual, dando a impressão de resignado perante a sua sorte, não dizia palavra e se mantinha sempre na mesma atitude, voltou-se bruscamente, veio colocar-se à frente do seu interlocutor e, com violentos gestos das suas mãos brancas, quase gritou:
— Fique sabendo que, se levantarem a Prússia contra mim, eu apagá-la-ei do mapa da Europa.
Estava pálido e desfigurado — pela ira e uma das suas pequenas mãos sobre a outra simulava o gesto de apagar.
— Sim, fá-los-ei retroceder para lá do Dvina, para lá do Dniéper e restabelecerei contra vós essa barreira que a Europa, cega e criminosa, permitiu que desaparecesse. Sim, eis o que vos espera, eis o que ganharam afastando-se de mim — concluiu. Depois, em silêncio, deu alguns passos, os largos ombros agitados por movimentos nervosos.
Guardou a caixa do rapé na algibeira do colete, voltou a tirá-la, levou-a várias vezes às narinas e de novo veio postar-se diante de Balachov. Calado, por momentos, olhou ironicamente nos olhos o general russo, dizendo em voz serena:
— E no entanto que belo reino poderia ter sido o do seu senhor!
Balachov, sentindo ser preciso objectar fosse o que fosse, disse que da parte dos Russos as coisas não se apresentavam sob um aspecto tão tétrico. Napoleão continuou calado, olhando-o sempre com a mesma ironia, naturalmente sem o ouvir. Balachov acrescentou que na Rússia se esperavam óptimos resultados da guerra. Napoleão abanou a cabeça, condescendente— mente, como a dizer-lhe:
«Bem sei, falas assim por obrigação, mas nem tu próprio acreditas no que estás a dizer. Convenci-te.»
No fim da tirada de Balachov, Napoleão puxou de novo da caixa de rapé, tomou outra pitada, e, como se fizesse um sinal, bateu duas vezes com o pé no chão. A porta abriu-se; um camareiro, respeitosamente vergado pela cintura, entregou ao imperador o chapéu e as luvas, outro pôs-lhe na mão o lenço de assoar. Napoleão, sem lhes prestar a mínima atenção, voltou-se para Balachov:
— Assegure, em meu nome, ao imperador Alexandre — disse, pegando no chapéu —, que continuo a ter por ele a mesma devoção de sempre: conheço-o e aprecio altamente as suas grandes qualidades. Não continuo a retê-lo, general, receberá a minha carta para o imperador.
E Napoleão encaminhou-se rapidamente para a porta. Todos os que estavam na sala de espera se precipitaram para a escada.
[VII]
Depois de tudo o que Napoleão lhe dissera, dos seus arrebatamentos coléricos e das suas últimas palavras secas em extremo: «Não o retenho mais, general, receberá a minha carta dirigida ao imperador», Balachov persuadiu-se de que o imperador não só não tinha o mais pequeno desejo de o tornar a ver, mas até evitaria mesmo voltar a encontrá-lo, a ele, embaixador humilhado, e sobretudo testemunha da sua intempestiva exaltação. Mas, com grande espanto seu, foi convidado por Duroe, nesse mesmo dia, para sentar-se à mesa do imperador.
Bessières, Caulaincourt e Berthier eram também convivas do jantar.
Napoleão recebeu Balachov alegre e afavelmente. Não só não deu mostras de molestado ou arrependido pelo que se passara nessa manhã, mas, muito pelo contrário, procurou por o seu hóspede perfeitamente à vontade. Era evidente de há muito estar convencido de que não podia enganar-se e que aos seus próprios olhos tudo quanto ele próprio fizesse estaria bem feito, não porque os seus actos estivessem de acordo com a ideia que ele tinha do bem e do mal, mas simplesmente por ser ele o autor de tais actos.
Voltara muito alegre do seu passeio a cavalo pelas ruas de Vilna, onde a multidão o acolhera e aclamara com entusiasmo. Todas as janelas das casas nas ruas que ele atravessara ostentavam colgaduras e bandeiras com as suas armas e as senhoras polacas haviam-no saudado agitando os lencinhos.
A mesa sentou Balachov a seu lado e não só o tratou amavelmente, mas como se fosse um dos seus cortesãos, como se pertencesse ao número dos que aprovavam os seus planos e deviam alegrar-se com os seus êxitos. Entre outras coisas, veio à fala Moscovo, e Bonaparte interrogou-o acerca da capital, ao mesmo tempo como um viajante, desejoso de se instruir, que colhe informações sobre um país desconhecido que deseja visitar, mas também com a convicção de que Balachov, russo que era, se sentiria muito lisonjeado com esse interesse.
— Quantos habitantes tem Moscovo? Quantas casas? É verdade que lhe chamam Mouscou la sainte? Quantas igrejas tem? — perguntou.
E, ao ouvir que mais de duzentas, observou:
— Para quê tantas igrejas?
— Os Russos são muito tementes a Deus — replicou Balachov.
— Convém notar que grande número de conventos e de igrejas é sempre sinal de atrasada civilização — disse o imperador, procurando a aprovação de Caulaincourt.
Balachov, respeitosamente, ousou exprimir opinião contrária.
— Cada terra com seus usos — disse.
— Mas nada há na Europa que se pareça com isso — voltou Napoleão.
— Que Vossa Majestade me perdoe — tornou o russo —, mas, além da Rússia, há a Espanha também, onde existem, igualmente, muitos conventos e igrejas.
Esta resposta, alusão à recente derrota dos Franceses em Espanha, foi muito apreciada na corte da Rússia quando Balachov aludiu a ela, mas não produziu o mais pequeno efeito na mesa de Napoleão, onde passou despercebida.
Via-se na indiferença das máscaras atentas dos senhores marechais que eles não haviam apreendido o sal da resposta, bem sublinhado pela entoação de Balachov. «Se isso levava água no bico, não demos por tal, o que quer dizer que graça nenhuma tem», pareciam dizer.
Tão bem apreciada foi tal resposta que Napoleão lhe não prestou qualquer atenção e se limitou a perguntar a Balachov quais as cidades atravessadas pela estrada directa para Moscovo. Balachov, sempre de sobreaviso, respondeu que assim como todos os caminhos levavam a Roma, todos os caminhos levavam a Moscovo, que, aliás, eram muitas as estradas e que no número delas se contava a que passava por Poltava, escolhida por Carlos XII. Balachov corou involuntariamente, satisfeito com resposta tão feliz. Mas ainda não acabara de pronunciar o nome de Poltava já Caulaincourt falava dos incómodos da estrada de Petersburgo a Moscovo e das suas recordações da capital.
Depois do jantar foram tomar café para o gabinete de Napoleão, o qual, quatro dias antes, pertencera ao imperador Alexandre.
Bonaparte sentou-se, mexendo o seu café numa chávena de Sévres, e apontou a Balachov uma cadeira a seu lado.
Depois do jantar o homem está sempre numa disposição bem conhecida, a qual, mais persuasiva que qualquer razão lógica, o leva a sentir-se satisfeito consigo mesmo e disposto a não ver senão afeições à sua roda. O imperador estava nessa feliz disposição. Imaginava-se rodeado de amigos que o adoravam. Estava convencido de que o próprio Balachov, depois daquele jantar, também era seu amigo e admirador. Observou-lhe com um sorriso amável e ligeiramente trocista:
— Disseram-me que o imperador Alexandre ocupava esta mesma sala, É curioso, não acha, general? — Não lhe passou pela cabeça que esta observação não podia agradar ao seu interlocutor, visto ser uma prova da sua superioridade, dele, Napoleão, sobre Alexandre.
Balachov, como não podia responder, limitou-se a inclinar a cabeça silenciosamente.
— Sim, há quatro dias, discutiam nesta mesma sala Wintzengerode e Stein — continuou Napoleão, sempre com um sorriso trocista e seguro de si. — Eis o que eu não posso perceber, que e imperador Alexandre se haja rodeado de todos os meus inimigos pessoais. É o que eu não posso compreender... Não teria ele pensado que eu poderia vir a fazer o mesmo? — Formulando a pergunta, a Balachov, sentia-se, evidentemente, arrastado pela ira que o tomara nessa manhã, recordação bem presente no seu espírito.
— Pois é bom que ele saiba que o farei — acrescentou, levantando-se e afastando de si a chávena. — Enxotarei da Alemanha toda a sua parentela, os Wurtemberg, os Bade, os Weimar.... sim, correrei com eles. Trate de lhes arranjar refúgio na Rússia!
Balachov abanou a cabeça, dando a entender que desejava retirar-se e que não ouvia semelhantes considerações senão por lhe ser impossível proceder doutra maneira. Napoleão não dera por coisa alguma; continuou a tratar Balachov não como um enviado do seu inimigo, mas como um homem agora absolutamente dedicado e que devia sentir-se contente com a humilhação infligida ao seu antigo amo.
— Porque assumiu o imperador Alexandre o comando dos seus exércitos? Que significa isso? A guerra é o meu mister, o dele é reinar, não comandar as tropas. Para que assumiu ele uma tal responsabilidade?
Bonaparte tornou a puxar da caixa de rapé, deu alguns passos em silêncio e de repente abeirou-se de Balachov. Com um ligeiro sorriso, num gesto firme, pronto e simples, como se executasse um acto não só importante, mas em extremo lisonjeiro para o general russo, aproximou a mão do rosto daquele homem de quarenta anos e puxou-lhe ao de leve uma orelha.
Receber um puxão de orelhas do imperador era considerado na corte de França uma grande honra e uma alta mercê.
— Então, não diz nada, admirador e cortesão do imperador Alexandre? — pronunciou, ele, como se houvesse qualquer coisa de divertido de na sua presença ser-se cortesão e admirador de outro homem que não ele, Napoleão. — Os cavalos para o general estão prontos? — acrescentou, respondendo com um aceno de cabeça à saudação de Balachov. — Dêem-lhe os meus, têm muito que andar.
A carta que Balachov levou consigo seria a última que Napoleão escreveria a Alexandre. Todos os pormenores da precedente conversa foram transmitidos ao imperador russo e a guerra principiou.
[VIII]
Depois da sua conversa em Moscovo com Pedro, o príncipe André dirigiu-se a Petersburgo para tratar de negócios, dissera ele à família, mas em verdade para se encontrar com Anatole Kuraguine, encontro que ele considerava indispensável. Procurou logo informar-se do paradeiro deste, mas Kuraguine já não estava em Petersburgo, Pedro fizera saber ao cunhado que André o procurava. Anatole obtivera imediatamente do ministro da Guerra uma comissão e partira a incorporar-se no exército da Moldávia. Em Petersburgo, o príncipe André encontrou Kutuzov, seu antigo general, sempre muito bem disposto a seu favor. Propôs-lhe que fosse com ele para o Moldávia, de cujo exército o velho general fora nomeado comandante-chefe. André, nomeado adido ao estado-maior do quartel-general, partiu para a Turquia.
O príncipe considerava inconveniente escrever a Kuraguine desafiando-o para um duelo. Achava que desafiá-lo sem alegar um pretexto plausível seria, da sua parte, comprometer a condessa Rostov; por isso procurava encontrá-lo pessoalmente, o que lhe proporcionaria a oportunidade desejada. Mas também não encontrou Kuraguine no exército da Turquia; este mal soubera da chegada de André regressara à Rússia. Naquele país desconhecido e nas suas novas condições de existência a vida pareceu-lhe mais fácil. Depois da traição da noiva, tanto mais penosa para ele quanto mais procurava esconder o desgosto que sofrera, o meio em que fora feliz tornara-se-lhe insuportável e a liberdade e a independência, que tão caras lhe eram, ainda mais penosas. Não voltara ao estado de espírito que se apoderara dele pela primeira vez diante do céu de Austerlitz e às ideias que tanto gostava de discutir com Pedro e as quais lhe haviam enchido a solidão de Bogutcliarovo e, depois, da Suíça e de Roma. Receava mesmo tornar a evocá-las, a essas ideias, que lhe abriam horizontes luminosos e infinitos. Agora não se ocupava de mais nada senão de interesses práticos imediatos, sem relação com os de outrora, e punha nisso tanto maior ardor quanto mais distantes lhe ficavam as antigas ideias. Dir-se-ia que a abóbada do céu perdida no infinito que tivera por cima da cabeça se transformara de súbito numa abóbada baixa, limitada, que o esmagava, e tudo era nítido e claro, sem nada já de misterioso e etcrno.
De todas as ocupações a que podia consagrar-se, o serviço militar era a mais simples e a mais familiar. Nas suas funções de adido ao estado-maior de Kutuzov ocupou-se com perseverança e zelo do seu mister, surpreendendo o chefe com o afã e a pontualidade do seu trabalho. Não topou com Kuraguine na Turquia, julgou desnecessário ir atrás dele para a Rússia, o que o não impediu de dizer de si para consigo que, apesar do tempo que passara já, se viesse a encontrar Anatole, não obstante o desprezo que tinha por ele e as razões que alegava para o julgar indigno de se bater consigo, consideraria indispensável, no entanto, desafiá-lo, pela mesma razão que um esfomeado que vê um prato de sopa não pode deixar de se atirar a ele. E o certo é que o sentimento de que a ofensa que recebera ainda não fora vingada, que a sua ira ainda não extravasara, continuando entranhada no fundo do seu coração, lhe envenenava a calma fictícia que criara na Turquia graças a uma actividade cheia de zelo e preocupações e de certa ambição e vaidade.
Quando, em 1812, chegou a Bucareste, onde, havia dois meses, Kutuzov passava os dias e as noites em casa de uma amante valáquia, a notícia da guerra com Napoleão, o príncipe André pediu licença para ser transferido para o exército do Ocidente. Kutuzov, a quem o zelo de Bolkonski ofuscava, como uma censura viva à sua indolência, de muito boa vontade lhe deu consentimento, confiando-lhe uma missão junto de Barclay de Tolly.
Antes de se juntar ao exército, que em Maio estava no acampamento d6 Drissa, André passou por Lissia Gori, que ficava no seu caminho, a três verstas da estrada real de Smolensk. Naqueles três últimos anos houvera tantas modificações na sua vida, tantas revoluções nas suas ideias e nos seus sentimentos, vira tantas coisas nas suas viagens no Ocidente e no Oriente, que, ao chegar a Lissia Gori, sentiu uma impressão estranha verificando que a vida ali se mantinha imutável nos seus mais pequenos pormenores. Entrou na alameda e transpôs o pórtico de pedra da residência como se entrasse num castelo encantado. Sempre o mesmo alinho, o mesmo asseio, a mesma serenidade em casa: os móveis eram os mesmos, as mesmas paredes; os ruídos os mesmos; o mesmo cheiro, as mesmas caras tímidas, embora um pouco envelhecidas. A princesa Maria a mesma, já não muito nova, feia e medrosa, vivendo continuamente em terrores e transes morais e assim passando os melhores anos da sua existência sem utilidade nem alegria. Mademoiselle Bourienne não mudara, apreciando alegremente os mais curtos momentos, fabricando para si própria as mais belas esperanças, coquette e satisfeita. «Apenas adquirira mais segurança em si própria», assim pensou André. O preceptor, Dessalles, que ele trouxera da Suíça, vestia um redingote de talho eslavo, mastigava o russo com os criados e era sempre o mesmo pedagogo mediocremente inteligente, mas instruído, honestíssimo e um pouco pedante. O velho príncipe mudara fisicamente apenas nisto: a um canto da boca notava-se que perdera um dente; moralmente estava na mesma. Tornara-se apenas mais irritável e mais desconfiado de tudo neste mundo. Só Nikoluchka crescera, transformara-se, ganhara cores rosadas, e os seus cabelos eram agora castanhos encaracolados, rindo sem saber porquê, divertido com tudo. Soerguia o lábio superior da sua linda boca, tal qual a mãe, a falecida princesinha. Era o único que não queria saber da regra imutável que parecia reinar naquele castelo encantado. Mas, embora as aparências fossem as mesmas, as relações íntimas dos habitantes tinham mudado muito desde que André partira. Havia dois campos opostos naquela casa, estranhos um ao outro e inimigos, que apenas agora na sua presença se aproximavam, renunciando provisória— mente aos seus hábitos. A um desses campos pertencia o velho príncipe, Mademoiselle Bourienne e o arquitecto; ao outro, Maria. Dessalles, Nikoluchka e todas as criadas e amas.
Durante a sua estada todos comeram juntos; sentia-se, porém, um mal-estar geral e o príncipe André tinha a sensação de ser um hóspede a favor de quem se faz uma excepção, e de que a sua presença era um embaraço para toda a gente. No primeiro dia, à mesa, sentindo esse embaraço, quedou-se silencioso, e o velho príncipe, que notava o seu ar pouco à vontade, mostrou-se igualmente taciturno e silencioso, retirando-se assim que a refeição acabou. Quando, pela noite, André o veio ver, e, para o distrair, se pôs a contar-lhe a campanha do jovem conde Kamenski, o pai, de repente, principiou a falar da princesa Maria, acusando-a de ser supersticiosa e de não gostar de Mademoiselle Bourienne, em sua opinião a única pessoa que lhe era verdadeiramente dedicada.
O velho príncipe assegurou ao filho que se estava doente a culpa era de Maria, pois o atormentava de propósito e o irritava, estragando o príncipezinho com os seus excessos de indulgência e as suas tolas histórias. Sabia muito bem que atormentava inutilmente a filha, que a vida dela, em tais condições, era muito penosa, mas também sabia que não podia impedir-se a si próprio de a atormentar e que ela merecia esse tratamento.
«Por que razão o André», dizia de si para consigo, «que vê tudo isto, não me fala da irmã? Naturalmente porque julga que eu sou algum malfeitor ou um velho doido, que, sem motivos, se afastou da filha para se aliar com a francesa? Então ele não me compreende. É por isso que preciso de lhe explicar, é preciso que ele me entenda.» E pôs-se a demonstrar as razões por que não podia tolerar o carácter absurdo da filha.
— Se o pai me não tivesse pedido — volveu André, sem olhar para o príncipe, e era a primeira vez em sua vida que se atrevia a censurá-lo —, não lhe teria falado no caso, mas, desde que o pai pede a minha opinião, vou dizer-lhe francamente o que penso de tudo isto. Se existe entre o pai e Macha qualquer mal-entendido ou desacordo, não posso de maneira alguma acusá-la disso. Pois sei perfeitamente quanto ela lhe quer e quanto o venera. Desde que me pergunta a minha opinião — continuou André, irritando-se, o que, de resto, nesses últimos tempos se lhe tornara habitual —, só lhe direi uma coisa: se há qualquer mal-entendido, a única culpada é a insignificante dessa mulher, indigna de ser amiga de sua filha.
O velho, no primeiro momento, não cabia em si de surpreendido, os olhos fitos em André, mostrando, com um sorriso forçado, a falta do dente, coisa a que o filho não conseguira habituar-se.
— Que amiga é essa, meu caro? Hem! Estás a repetir a lição que aprendeste! Hem!
— Meu pai, não pretendo ser seu juiz — disse André num tom azedo e duro —, mas obrigou-me a isso e eu digo e direi sempre que a princesa Maria não tem culpa, que os culpados... a culpada é essa francesa... é essa francesa...
— Ah! Tu estás a julgar-me!... Estás a julgar-me! — exclamou o velho, em voz serena, e, assim pareceu a André, com um certo embaraço. Mas, de súbito, erguendo-se de um salto, gritou: — Fora daqui! Fora daqui! Não voltes a pôr aqui os pés!...
O príncipe André resolveu abalar imediatamente, mas Maria implorou-lhe que ficasse mais um dia, Durante todo esse dia não viu o pai, que não saiu dos seus aposentos nem admitiu ao pé de si mais alguém além de Mademoiselle Bourienne e de Tikon. Por várias vezes perguntou se André já partira. No dia seguinte, antes da abalada, o príncipe André foi despedir-se do filho. A criança, saudável e de cabelos encaracolados, como sua mãe, sentou-se-lhe nos joelhos. O pai pôs-se a contar-lhe a história do Barba— Azul, mas, antes de chegar ao fim, calou-se, pensativo. Não era na gentil criança que tinha nos joelhos que pensava, mas em si próprio. Procurava em si mesmo, sem nada encontrar, qualquer coisa que lhe dissesse estar arrependido de ter provocado a ira do pai ou penalizado por se ver obrigado a deixá-lo zangado com ele pela primeira vez na sua vida. E o mais importante ainda é que procurava debalde em si mesmo vestígios da sua antiga ternura pelo filho, tentando despertá-la acariciando-o e sentando-o nos seus joelhos.
— Anda! Conta-me o fim — dizia o filho.
Sem lhe responder, fê-lo saltar dos seus joelhos e saiu. Logo que deixava as suas ocupações quotidianas, sobretudo assim que voltava a sentir-se no meio antigo, em que fora feliz, o tédio da existência apoderava-se dele tão intenso que procurava fugir o mais depressa que podia das suas recordações, fazendo por encontrar uma ocupação qualquer.
— Decididamente, vais-te, André? — disse-lhe a irmã.
— Louvado seja Deus que me posso ir embora — respondeu-lhe ele— e só lamento não poderes fazer outro tanto.
— Porque falas assim? — voltou Maria.— Porque falas assim quando partes para essa guerra terrível e ele é tão velho! Mademoiselle Bourienne disse-me que perguntou por ti...
Maria não podia abordar este assunto sem que a emoção lhe fizesse tremer os lábios e as lágrimas se lhe soltassem dos olhos. O príncipe André afastou-se e principiou a passear na sala.
— Meu Deus, meu Deus! Quando uma pessoa pensa que seres desprezíveis podem ser a causa da infelicidade dos outros! — exclamou, com uma raiva que assustou a irmã.
Compreendera que os seres de quem ele falava eram não só Mademoiselle Bourienne, que a fizera infeliz a ela, mas também o homem que o fizera infeliz a ele.
— André, só te peço uma coisa, suplico-te — disse-lhe ela, travando-lhe do braço e fitando-o com uns olhos que cintilavam através das lágrimas.— Vai, compreendo-te — acrescentou, baixando os olhos.— Mas não penses que são os homens a causa das nossas dores. Os homens não são mais do que os Seus instrumentos. — O olhar de Maria passou por cima da cabeça de André, como se ela procurasse, confiante, com os olhos, uma imagem familiar no seu lugar habitual.— As dores são-nos enviadas por Ele e não pelos homens. Os homens são instrumentos, não são culpados. Se estás convencido de que alguém andou mal contigo, esquece e perdoa. Nós não temos o direito de castigar. Um dia compreenderás a felicidade de perdoar.
— Se eu fosse mulher, assim faria. Perdoar é uma virtude de mulher. Mas o homem não deve nem pode esquecer e perdoar. — Embora até então não tivesse pensado em Kuraguine, toda a sua cólera insatisfeita lhe afluiu subitamente ao coração.
«Se Maria me pede tanto que perdoe é porque há muito que eu o devia ter castigado», disse de si para consigo. E, sem responder à irmã, pensou, com uma alegria raivosa, no momento em que encontraria Kuraguine, que sabia no exército.
A princesa Maria ainda suplicou ao irmão que ficasse mais um dia; disse-lhe saber muito bem que o pai sofreria caso ele partisse sem se reconciliarem. O príncipe André respondeu-lhe que podia muito em breve estar de volta do exército e que não deixaria de escrever ao pai, mas que naquela altura quanto mais tempo ali estivesse mais o seu desentendimento se acentuaria.
— Adeus, André. Recorde-se de que as desgraças provêm de Deus e que os homens nunca são culpados. — Tais foram as últimas palavras que a irmã lhe disse no momento da despedida.
«Assim deve ser!», pensava o príncipe André ao deixar a alameda de Lissia Gori. «Ela, pobre e inocente criatura, aqui vai ficar entregue a este velho meio doido. O velho sabe que é culpado, mas não pode modificar-se. O meu pequeno cresce e sorri à vida, a vida, onde, como todos os outros, virá a enganar ou ser enganado. Eu vou para a guerra, porquê? Nem eu próprio o sei, e só desejo encontrar esse homem que desprezo para lhe dar uma oportunidade de me matar e de se rir de mim!» Os elementos de que a sua existência se compunha não deixavam de seios mesmos, mas antes formavam um conjunto uno e agora iam por água abaixo,
E uma série de visões insensatas e incoerentes se lhe foi representando no espírito.
[IX]
O príncipe André chegou em fins de Junho ao quartel-general. As tropas do primeiro exército, sob o comando do imperador, estavam concentradas no campo fortificado de Drissa, as do segundo recuavam, esforçando-se por juntar-se ao primeiro exército, de que as separavam, dizia-se, forças francesas muito consideráveis. Toda a gente se mostrava descontente com a marcha geral das operações, mas a ninguém passava pela cabeça que se pudesse vir a dar uma invasão das províncias russas, ninguém mesmo supunha que a guerra pudesse ultrapassar as províncias polacas de oeste.
O príncipe André encontrou Barclay de Tolly, junto do qual fora nomeado adido, estabelecido nas margens do Drissa. Como não havia qualquer casal ou povoado nas imediações do acampamento, grande número de generais ou dignitários da corte que estavam no exército tinha-se espalhado por uma área de dez verstas em volta, nas melhores casas das aldeias de um lado e outro do rio. Barclay de Tolly alojara-se a quatro verstas do imperador, Acolheu Bolkonski seca e friamente e disse-lhe, com o seu sotaque estrangeiro, que informaria o czar para que se lhe desse algum destino e que entretanto ficaria pertencendo ao seu estado-maior, Anatole Kuraguine, que André supunha no exército, também ali se não encontrava. Estava em Petersburgo, e esta notícia não lhe foi de todo desagradável.
Todo o seu interesse se concentrava agora naquela guerra gigantesca e sentia-se feliz por se ver livre por algum tempo do nervosismo que lhe, causava a lembrança de Kuraguine. Durante os primeiros dias, em que ninguém lhe perguntou fosse o que fosse, deu-se a percorrer todo o campo fortificado, e, graças aos seus próprios conhecimentos e às conversas que teve com pessoas competentes, tratou de formar uma ideia exacto, da situação militar. Um problema, porém, não foi capaz de resolver: o da utilidade daquela posição, A sua experiência da guerra ensinara-lhe que os planos mais cuidadosamente elaborados pouco valor têm, coisa que pudera verificar por si próprio em Austerlitz, e que tudo depende da maneira como se riposta aos ataques inesperados e imprevisíveis do inimigo e da forma como são conduzidas as operações, bem como da capacidade daqueles que as dirigem. Na intenção de obter pormenores sobre este último ponto, procurou, mercê da situação que ocupava e dos conhecimentos que tinha, penetrar o carácter do comando e das pessoas e dos grupos que nele tomavam parte, e acabou por obter do conjunto o quadro seguinte:
Quando o imperador se encontrava ainda em Vilna, o exército achava-se dividido em três partes: o primeiro exército estava sob o comando de Barclay de Tolly o segundo, sob o de Bagration; o terceiro, sob o de Termassov. O imperador encontrava-se junto do primeiro corpo do exército, sem, no entanto, desempenhar funções de comandante-chefe. Na ordem do dia dizia-se apenas que ele estava presente, não que o comandava. Além disso, o imperador, pessoalmente, não tinha junto de si um estado-maior de comandante-chefe, mas o estado-maior do quartel-general imperial.
Sob as suas ordens tinha o chefe do estado-maior imperial, o general quartel-mestre príncipe Volkonski, generais, ajudantes-de-campo, diplomatas, uma turbamulta de estrangeiros, mas a verdade é que não existia estado-maior do exército. Também estavam com o czar, sem missão especial: Araktcheiev, o antigo ministro da Guerra, o conde Bennigsen, o general mais antigo da sua patente, o czarevitch, grão-duque Constantino Pavlovitch, o conde Rumiantsov, chanceler. Stein, antigo ministro prussiano. Armfeld, general sueco, Pfuhl, principal organizador do plano de campanha, Paulucci, ajudante-de-campo general e foragido da Sardenha, Woltzogen e muitos outros. Estas personalidades, embora não desempenhassem funções oficiais, exerciam pessoalmente grande influência, e muitas vezes um comandante de corpo de exército e até mesmo o comandante-chefe não sabiam em que qualidade Bennigsen ou o grão-duque, Araktcheiev ou o príncipe Volkonski lhes perguntavam isto ou aquilo ou lhes davam este ou aquele conselho, ignorando se tais observações provinham do seu comandante ou da parte do imperador, e se era mister ou não executá-las. Tudo isto, aliás, não passava de um cenário. No fundo ninguém se enganava sobre o que queria dizer a presença junto do exército do imperador e de todas essas personagens, as quais, necessariamente, na intimidade, não passavam, de cortesãos.
O imperador não assumira o título de comandante-chefe, mas na realidade tinha nas mãos todos os corpos do exército. As pessoas que o rodeavam eram seus colaboradores. Araktcheiev era o fiel mantenedor da ordem e o guarda do corpo do soberano; Bennigsen, grande proprietário da região de Vilna, parecia limitar-se a fazer as honras do país, quando na realidade era um bom general, útil no conselho e óptimo para conservar de reserva e substituir Barclay. O grão-duque, esse apenas ali estava porque isso lhe dava prazer. O antigo ministro Stein encontrava-se presente na qualidade de conselheiro e por Alexandre ter em alta estima as suas qualidades pessoais. Armfeld era o inimigo implacável de Napoleão e um general muito seguro de si próprio, coisa que sempre impressionava o imperador. Paulucci era ousado e enérgico por palavras. Os generais ajudantes-de-campo estavam onde estivesse o imperador, e finalmente, ponto principal, Pfuhl achava-se presente por ser o autor do plano de campanha contra Napoleão, aprovado por Alexandre, que o considerava perfeito no seu conjunto, sendo ele quem na realidade dirigia todas as operações, Ao lado de Pfuhl, Woltzogen encarregava-se de dar uma forma prática às ideias deste teórico de gabinete, homem violento, cheio de uma tal confiança em si próprio que tinha um soberano desprezo por tudo e todos.
Além destas personagens, russas e estrangeiras, principalmente estrangeiras — e estas, com a ousadia característica de todo o indivíduo que actua num meio que não é o seu próprio, todos os dias propunham novos planos —, ainda havia muitas mais, homens em posições subalternas, que se encontravam ali por os seus superiores lá estarem também.
Entre todas as ideias e opiniões que ganhavam corpo no meio daquela massa de gente inquieta, vaidosa e ávida de honrarias não tardou que André pudesse distinguir correntes bem nítidas, partidos vários e diversas tendências.
O primeiro partido era formado por Pfuhl e os seus apaniguados, teóricos convencidos de que existe uma ciência da guerra fiel a leis imutáveis, como as do movimento oblíquo, do envolvimento do inimigo, etc. Pfuh1 e os seus sequazes preconizavam a retirada para o interior do país, em virtude de leis estritas, fixadas pela pretensa teoria da guerra, e consideravam qualquer infracção a esta teoria como uma prova de barbárie, de ignorância ou de má-fé. A este partido pertenciam os príncipes alemães, Woltzogen, Wintzengerode, e outros, numa palavra, sobretudo os alemães.
O segundo partido era diametralmente oposto. Como sempre acontece, pecava por excesso contrário. As pessoas que dele faziam parte reclamavam a ofensiva na Polónia, a partir de Vilna, e opunham-se a todos os planos traçados de antemão. Ao mesmo tempo que defendiam a ousadia na acção encarnavam o espírito nacional. Por isso eram ainda mais intransigentes nas discussões. Eram os russos: Bagration, Ermolov, que então principiava a elevar-se, e outros ainda. Contava-se então uma anedota de Ermolov. Dizia-se que ele pedira ao imperador uma única mercê: ser promovido a alemão. Os membros deste partido repetiam, lembrando-se de Suvorov, ser inútil conceber lindas teorias e espetar alfinetes num mapa, dizendo que o que era preciso era lutar, vencer o inimigo, não o deixar penetrar na Rússia e não dar tempo a que as tropas se desmoralizassem.
O terceiro partido, aquele que inspirava mais confiança ao imperador, era formado por cortesãos partidários de combinações entre as duas tendências extremas. As pessoas deste partido, pela sua maior parte civis, pensavam e diziam o que geralmente dizem os que não têm convicções, embora desejem mostrar-se convencidos de alguma coisa. Eram de opinião de que a guerra, sobretudo com um génio como Bonaparte (de novo o chamavam assim), exigia combinações profundas e conhecimentos científicos e que de tal ponto de vista Pfuhl era um talento. Nem por isso, no entanto, devia deixar de reconhecer-se que os teóricos são por vezes exclusivistas, Daí que se não depositasse neles uma confiança absoluta. Deviam ouvir-se também os adversários de Pfuhl e o que diziam as pessoas práticas, experimentadas na arte da guerra, preferindo um meio-termo.
Teimavam na necessidade de se manter a posição do Drissa, de acordo com o plano de Pfuhl, e de modificar o movimento dos demais corpos de exército. Embora desta sorte não se alcançasse nem uma nem outra solução, as pessoas deste partido pensavam ser aquele o caminho mais acertado.
A quarta tendência tinha por representante mais saliente o grão-duque herdeiro, que não podia esquecer o desastre de Austerlitz, em que ele se apresentara como numa parada militar, à frente da Guarda, de capacete e plumas, convencido de que num abrir e fechar de olhos esmagaria os Franceses, tendo-se surpreendido de repente nas primeiras linhas, e só com grande dificuldade conseguindo escapar no meio da debandada geral. As pessoas deste partido tinham o mérito e ao mesmo tempo o de— feito de serem sinceras. Temiam Napoleão, reconheciam ser forte e elas fracas e diziam-no às claras. Iam repetindo: «De tudo isto não nos virá senão vergonha, desgraça e a derrota! Já abandonámos Vilna e Vitehsk, Também acabaremos por abandonar Drissa. A única coisa razoável a fazer é assinar a paz, e o mais depressa possível, se não quisermos ser expulsos de Petersburgo!»
Esta opinião, muito espalhada nas altas esferas, obtinha eco também em Petersburgo e junto do próprio chanceler Rumiantzov, que outrossim sustentava o ponto de vista da paz por razões de Estado.
O quinto partido agrupava-se em volta de Barclay de Tolly, não tanto pelo seu valor pessoal como pelo facto de ser ministro da Guerra e comandante— chefe. Os membros deste partido diziam: «Seja como for (era assim que principiavam sempre), é um homem honesto e activo e não temos melhor. Dêem-se-lhe poderes absolutos, pois a guerra não pode ter êxito sem unidade de comando, e ele se encarregará de demonstrar do que é capaz, como aconteceu na Finlândia. Se o nosso exército é organizado e forte e já pôde recuar até ao Drissa sem nenhuma derrota, a Barclay, e só a Barclay, o devemos. Se agora o substituíssemos por Bennigsen tudo estaria perdido. Bennigsen já mostrou a sua incapacidade em 1807.»
O sexto grupo, de que faziam parte os partidários de Bennigsen, dizia, pelo contrário, não haver homem mais activo e experimentado e que fizessem o que fizessem acabariam sempre por recorrer a ele.
E os membros deste grupo demonstravam ser a retirada russa até ao Drissa o mais vergonhoso dos desastres e uma cadeia ininterrupta de erros. «Quanto mais erros cometerem melhor! É a única maneira de compreenderem que as coisas não podem continuar assim», diziam. «Não precisamos de um Barclay qualquer, mas de um homem como Bennigsen, que já se revelou em 1807, e a quem o próprio Napoleão fez justiça. E o único homem a quem todos reconheciam poderes é Bennigsen.»