Guerra e Paz
Primeira Parte
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Em campanha, Rostov dava-se ao luxo de montar, não um cavalo regimental, mas um cavalo de cossaco. Como aficcionado e entendedor que era, arranjara ultimamente um alazão do Dom, de crinas brancas, belo animal, vigoroso e possante, que nenhum outro podia vencer. Montá-lo era para ele um grande prazer. Pensando no seu cavalo, na manhã que chegava e na mulher do médico, nem um só momento lhe vinha à mente o perigo grande que os esperava.
Outrora, Rostov, antes de um combate, tinha medo; agora não sentia o mais pequeno receio. Não porque se tivesse acostumado à metralha (ninguém pode habituar-se ao perigo), mas aprendera a dominar a alma. Acostumara-se, quando ia para o combate, a pensar em tudo menos no que mais importava, a proximidade do perigo. Apesar de todos os seus esforços, não obstante chamar-se a si próprio cobarde, nos primeiros tempos fora-lhe muito difícil chegar àquele resultado, mas com os anos as coisas vieram naturalmente. Lá ia cavalgando, ao lado de Iline, entre os álamos, arrancando, de quando em quando, um ramo que lhe passava junto das mãos, outras vezes aflorando de leve com as esporas o ventre do cavalo, ou, sem se voltar, estendendo o cachimbo ao hússar que o seguia, tão tranquilo e despreocupado como se fosse em passeio. Grande era a compaixão que lhe inspirava o rosto alterado de Iline, que falava muito e se mostrava inquieto. Conhecia por experiência aquela angústia na expectativa do medo e da morte que apertava o coração do porta— estandarte Iline e sabia que só o tempo lhe daria remédio.
Assim que o disco do Sol apareceu numa faixa de céu descoberta, emergindo de entre as nuvens, o vento serenou como se não quisesse perturbar aquela magnífica manhã de Verão após aí, tempestade da noite. Ainda caíram algumas gotas de chuva, mas verticalmente já, e tudo se acalmou... O Sol descobrira-se por completo, surgindo por cima da linha do horizonte e desaparecendo em seguida por detrás de uma longa e estreita nuvem. Minutos depois despontou de novo, mais brilhante ainda, pela parte superior da nuvem, cujos bordos se franjaram, Tudo se iluminou e cintilou. E, como que para saudar esta onda de luz, ouviu-se, lá longe, o troar do canhão. Ainda Rostov não tivera tempo de se dar conta da distância a que estavam a troar os canhões quando surgiu, a galope, dos lados de Vitebsk, um ajudante-de-campo do conde Ostermann Tolstoi com ordem de meterem a trote.
O esquadrão, ultrapassando a infantaria e, a bateria de artilharia, que igualmente aceleraram a sua marcha, meteu por uma ladeira, atravessou uma povoação abandonada pelos habitantes, e outra vez subiu a encosta. Os cavalos estavam cobertos de suor e os rostos dos soldados afogueados pela cavalgada,
«Alto! Alinhar!», gritou a voz do comandante. «A esquerda, marchar!»
Os hússares seguiram ao longo do flanco esquerdo das tropas e foram colocar-se por detrás dos ulanos da primeira linha, A direita, formando uma coluna compacta, estava a infantaria, que constituía a reserva. Por cima dela, na colina, destacavam-se os canhões russos iluminados pela luz clara e oblíqua da manhã. Lá para diante, no vale, divisavam-se as colunas e os canhões do inimigo. As primeiras linhas russas já tinham entrado em acção, trocando vivo tiroteio com os franceses,
Como se ouvisse os primeiros compassos de uma alegre melodia, Rostov regozijou-se com o ruído da fuzilaria, que havia muito não ouvia! Trap, ta, ta, tap! As descargas sucediam-se, ora simultaneamente, ora sucessivas, Depois tudo ficava silencioso, e de repente os estampidos recomeçavam, como se fossem petardos que alguém tivesse pisado,
Os hússares permaneceram quase uma hora no mesmo sítio, o canhoneio recomeçou. Seguido da sua escolta, passou o conde Ostermann por detrás do esquadrão. Parou, trocou algumas palavras com o comandante do regimento e afastou-se na direcção dos canhões instalados na colina.
Pouco depois de ele se ter afastado ouvia-se a voz do comandante dos ulanos gritar: «Formar, colunas! Atacar!» A infantaria, que os encobria, abriu fileiras para deixar passar a cavalaria. Com as flâmulas das suas lanças flutuando ao vento, os ulanos desceram a trote a encosta ao encontro da cavalaria francesa, que se divisava no sopé da colina, à esquerda.
Assim que os ulanos abandonaram a sua posição, os hússares receberam ordem de subir à cumeada para cobrirem a bateria. Enquanto este movimento se executava, algumas balas, gemendo e assobiando, passaram, perdendo-se no ar.
Este ruído, que Rostov há muito não ouvia, ainda mais o estimulou que os primeiros que ouvira, enchendo-o de força e de alegria.
Endireitou-se na sela e pôs-se a observar o campo de batalha, que se descortinava do alto, e com toda a sua alma tomou parte no ataque dos ulanos. Estes caíram sobre os dragões franceses.
No meio da fumarada houve um momento de confusão e cinco minutos depois os ulanos retrocediam a galope, não para o lugar que anteriormente ocupavam, mas um pouco mais para a esquerda. Por entre os uniformes alaranjados dos ulanos em seus cavalos alazões, e também na sua retaguarda, distinguia-se um grupo compacto de dragões azuis montados em cavalos cinzentos.
[XV]
Rostov, com o seu penetrante olhar de caçador, fora um dos que primeiro vira os dragões azuis na cola dos ulanos. Estes fugiam em debandada, e os franceses, que os perseguiam, cada vez se aproximavam mais deles. Já se podiam ver os homens, que lá no sopé da colina pareciam pequeníssimos, investirem agitando os sabres e os braços.
Rostov olhava para o espectáculo como se assistisse a uma caçada. Por instinto, compreendia que, se caísse, naquele momento, COM os seus hússares, sobre os dragões franceses, estes não resistiriam, mas era preciso agir imediatamente, de chofre; de outra maneira seria tarde de mais. Olhou à sua volta. O capitão, que estava a seu lado, também não perdia de vista a cavalaria lá no fundo da encosta.
— André Sevastianitch — disse. — Nós podíamos dar cabo deles...
— Realmente, que golpe magnífico — exclamou o capitão — e se...
Sem ouvir mais, Rostov esporeou o seu cavalo e pôs-se à frente do esquadrão. Não teve tempo de dar qualquer voz de comando; todos os seus homens, impelidos pelo mesmo sentimento, se precipitaram atrás dele. Nem ele próprio sabia como e porque agira daquela maneira. Procedera como se estivesse numa caçada, sem pensar, nem reflectir. Ali muito perto via os dragões que galopavam. Tinha a convicção íntima de que não resistiriam. Sabia que, se perdesse a oportunidade, aquele minuto não voltaria. O assobio das balas excitava-o tanto, tamanha era a impaciência do seu cavalo, que não pudera resistir. No momento em que esporeava a montada, soltando o grito de comando, sentiu atrás de si todo o esquadrão que se agitava, e despediu a trote largo, pela encosta abaixo, direito aos dragões. Mal atingiram o fundo da encosta, os cavalos, espontaneamente, puseram-se a galopar, galope que se tornava cada vez mais rápido à medida que se aproximavam dos ulanos e dos dragões que os perseguiam. Estes estavam muito próximos. Os que iam na vanguarda, ao verem carregar os hússares, deram meia volta, e os da retaguarda pararam. Impelido pelo mesmo entusiasmo de quando se lançava atrás de um lobo, Rostov, lançando à rédea solta o seu cavalo do Dom, precipitou-se através das fileiras desordenadas dos dragões. Um ulano estacou, um soldado de infantaria deitou-se ao chão para não ser esmagado, um cavalo sem cavaleiro veio embater nos hússares. Quase todos os dragões fizeram meia volta. Rostov firmou-se num montado num cavalo cinzento, correu sobre ele. Na sua galopada surgiu-lhe diante uma moita; o seu rico cavalo empinou-se e galgou-a de um salto. Aguentando-se a custo em cima do selim, momentos depois Nicolau verificava ter apanhado o inimigo que se propusera atacar. Este, oficial, naturalmente, como se depreendia do uniforme, todo alapardado sobre o cavalo, galopava a mais não poder, fustigando-o com o sabre. Num abrir e fechar de olhos a montada de Rostov veio embater com os peitorais na garupa do cavalo do dragão, que por pouco não atirou a terra, ao mesmo tempo que Nicolau, sem saber o que fazia, brandia o sabre e feria o inimigo.
De súbito todo o seu entusiasmo se desvaneceu por completo.
O oficial caiu, não tanto em virtude da sabrada que recebera, a qual apenas lhe rasgara o braço um pouco acima do pulso, mas por causa do choque dos dois animais e do medo que o tornou. Refreando o seu cavalo, Rostov procurou-o com a vista para ver o homem a quem acabava de atacar. O oficial de dragões saltava, coxo, um dos pés preso no estribo. Fechava os olhos, franzia as sobrancelhas, cheio de medo, sempre à espera de receber uma nova cutilada, horrorizado, olhando, de baixo para cima, para o hússar. Aquele rosto, pálido e sujo de lama, muito infantil, de cabelos louros, olhos azul-claros, uma covinha no queixo, não era um rosto de guerreiro, um rosto de inimigo, mas a mais simples das caras, uma cara de filho de família. Ainda Rostov não sabia o que ia fazer dele quando o oficial gritou: «Rendo-me!»
Tentando libertar o pé do estribo, sem o conseguir, continuava a fitar Rostov com os olhos azuis espavoridos. Os hússares que acorreram soltaram-lhe o pé e ajudaram-no a montar. Por todos os lados havia hússares a bater-se contra os dragões. Um deles estava ferido, e embora o sangue lhe escorresse pela cara abaixo não largava o cavalo; outro, com um hússar nos braços, cavalgava montado na garupa; um terceiro montava amparado por um hússar. A infantaria francesa acorria em reforço, disparando. Os russos trataram de se retirar, levando consigo os prisioneiros. Rostov ia atrás deles, dominado por uma penosa sensação, que lhe alanceava a alma. Despontava nele um pensa— mento obscuro, complicado, que não compreendia, desde que fizera prisioneiro aquele homem, e sobretudo desde que o atingira com o sabre.
O conde Ostermann Tolstoi acolheu os hússares, mandou chamar Rostov, felicitou-o e disse-lhe que comunicaria ao imperador o seu acto heróico, propondo-o para a cruz de S. Jorge. Quando o chamaram à presença do conde, lembrando-se de que atacara sem ordens superiores, ia convencido de que o iriam castigar por ter agido de moto próprio. Maiores foram por isso a sua surpresa e o contentamento que sentiu ao ouvir as palavras elogiosas de Ostermann e a promessa de uma recompensa. No entanto, o tal sentimento obscuro e penoso continuava a pesar-lhe no coração. «Então, que me está a atormentar?», perguntava a si Próprio, no regresso. «Iline? Não; esse está são e salvo. Procederia eu mal? Não. Não é nada disso.» Qualquer outra coisa o atormentava como um remorso. «Sim, sim, é aquele oficial francês com a covinha no queixo. Ah!, sim, já sei! Foi o meu braço que se deteve quando o ergui para o acutilar.»
Ao ver aproximar-se a leva dos prisioneiros quis tornar a Olhar para o francês. Lá vinha ele, com o seu estranho uniforme, montado num belo cavalo de hússar, lançando em roda olhares inquietos. A ferida que recebera no braço era por assim dizer insignificante. Sorriu para Rostov, com um ar embaraçado, acenando-lhe com a mão, como se o cumprimentasse. Também Rostov se sentiu embaraçado e quase com vergonha.
Durante todo aquele dia e no que se lhe seguiu, amigos e camaradas notaram que, embora não estivesse aborrecido ou zangado, permanecia silencioso, pensativo e concentrado. Não lhe apetecia beber, procurava estar só e dir-se-ia obcecado por uma ideia qualquer.
Rostov não se cansava de pensar na proeza que com grande espanto seu lhe valera a cruz de S. Jorge e lhe fizera ganhar a reputação de herói, dizendo de si para consigo haver ali qualquer coisa que ele não podia compreender. «Então eles ainda têm mais medo do que eu!», dizia com os seus botões. «E é a isto que se chama heroísmo? Foi, realmente, pela minha pátria que eu fiz isto? E que culpa cabe àquele outro com a sua covinha no queixo e os seus olhos azuis? E o medo que teve! Julgava que eu o ia matar. E porque havia eu de o matar? Aliás, tremeu-me a mão. E dar-me-ão a cruz de S. Jorge! Realmente não consigo perceber!»
A verdade, porém, é que enquanto Rostov ia debatendo consigo todas estas interrogações, sem conseguir uma ideia clara do que o perturbava a tal ponto, a roda da fortuna, como tantas vezes acontece, rodava a seu favor. Depois da acção de Ostrovno foi promovido, nomearam-no comandante de batalhão e quando precisavam de um oficial corajoso para qualquer missão a ele se dirigiam.
[XVI]
Quando teve conhecimento da doença de Natacha, a condessa, que ainda não estava restabelecida e se sentia fraca, partiu para Moscovo com Pétia e toda a criadagem. A família abandonou a casa de Maria Dmitrievna e foi instalar-se na sua residência da capital, onde todos se reuniram.
A doença de Natacha era tão séria que, felizmente para ela e para os pais, as causas que a tinham provocado — o seu procedimento e o desmanchar do casamento — foram relegadas para segundo plano. Tão grave era o seu estado que ninguém pensava nas suas culpas e em tudo o que acontecera. Não comia, não dormia, emagrecia a olhos vistos, tossia e corria sério risco, como os médicos davam a entender. Não se podia pensar noutra coisa senão em tratá-la. Os médicos iam vê-la, quer separadamente, quer em conferência, discutiam muito em francês, alemão e latim, criticavam-se mutuamente, prescreviam os remédios mais variados, aptos para curar todas as doenças de que tinham conhecimento, mas nunca pela cabeça de qualquer deles passou a ideia tão simples de que a doença de que ela padecia estava tão pouco ao seu alcance como qualquer dos muitos males de que sofre a criatura humana. Cada homem, com efeito, tem sua constituição particular e traz consigo a sua doença especial, uma doença só dele, nova, complicadíssima, desconhecida da medicina, uma doença que não é dos pulmões, nem do fígado, nem da pele, nem do coração, nem dos nervos, etc., não está descrita nos livros, mas é produto de inumeráveis combinações produzidas pela alteração dos órgãos. Esta ideia simplíssima não podia vir à cabeça dos médicos — pela mesma razão que uma bruxa não pode renunciar aos seus bruxedos —, pois que o mister deles era curar, para isso eram pagos, e a essas funções consagravam os melhores anos da sua vida. Se antes de mais nada, porém, lhes não vinha à cabeça uma tal ideia, é porque sabiam incontestavelmente serem úteis, e o facto é que eram de grande utilidade para todos os habitantes da casa Rostov. Não por fazerem com que a doente ingerisse drogas geralmente prejudiciais, cujo nefasto efeito era, de resto, atenuado por serem tomadas em pequeninas doses. Eram úteis, indispensáveis, inevitáveis pelo facto de darem satisfação às necessidades morais da doente e daqueles que lhe queriam, e é essa a razão por que há e sempre haverá curandeiros, charlatães, homeopatas e alopatas. Davam satisfação aos desejos, perenes no homem, de consolação, à avidez de simpatia que há nele, à necessidade de que se ocupem dele sempre que sofre. Davam satisfação a essa perene necessidade que nas crianças se observa sob a sua forma elementar esfregando o sítio em que se magoam. A criança que se magoa vai logo lançar-se nos braços da mãe ou da ama, na esperança de que elas a beijem e lhe esfreguem o lugar ofendido, e o certo é que se sente consolada assim que obtém estes carinhos. Não lhe passa pela cabeça que as pessoas mais fortes e mais crescidas do que ela sejam capazes de a não socorrer. E com efeito a esperança de um lenitivo, a simpatia que lhe testemunham enquanto a mãe lhe passa a mão pelo sítio lesado, eis quanto basta para a consolarem. Os médicos desempenhavam junto de Natacha o papel da mãe que beija o filho e lhe passa a mão pelo dói-dói. Diziam-lhe que o mal de que padecia se curaria desde que o cocheiro fosse comprar ao farmacêutico da Praça de Arbate, por um rublo e sete grivens, certos pós ou certas pílulas, numa caixinha muito bonita, e ela tomasse esses pós, sem falta, de duas em duas horas, nem mais nem menos, em água fervida.
Que seria de Sónia, do conde, da condessa, se todos tivessem de cruzar os braços em vez de cuidarem em dar-lhe essas pílulas de hora a hora, essas poções mornas, em vez de lhe prepararem esses caldos de galinha e tantas outras coisas prescritas pelos médicos, coisas para eles uma ocupação e uma consolação apreciáveis? Teria o conde podido suportar a doença da sua filha querida se não pudesse dizer consigo mesmo que esta já lhe custara mil rublos e que de bom grado despenderia outros mil para lhe dar alívio, se não pudesse pensar que para a restabelecer não se importaria de gastar outros mil rublos, levando-a a consultar médicos no estrangeiro sem olhar a despesas; se lhe não tivesse sido dado contar a toda a gente que Métivier e Feller nada tinham percebido do estado dela e que Friese acertara com o mal, mas que Mudrov ainda fora mais feliz no seu diagnóstico? Que teria sido da condessa se lhe não fosse dado zangar-se de quando em quando com a doente por esta não seguir à risca as prescrições médicas?
— Assim nunca mais te curas — dizia-lhe ela numa irritação que a fazia esquecer o desgosto —, se não ouves o que diz o médico e não tomas o teu remédio a tempo e a horas! Não é ocasião para brincadeiras, quando tudo isso pode degenerar numa pneumonia — acrescentava, consolada por poder empregar aquele termo científico nem só para ela ininteligível.
E Sónia, que teria feito Sónia pela sua parte se não lhe fosse dada a satisfação de dizer a si mesma que passara, de princípio, três noites sem se despir, sempre pronta a executar pontualmente as prescrições do médico e que ainda então mal fechava os olhos para não esquecer a hora de lhe administrar as pílulas assaz inofensivas da linda caixa dourada? E a própria Natacha, conquanto estivesse sempre a dizer que nenhum medicamento a poderia curar e que todas aquelas drogas eram tolice, ela própria sentia uma certa satisfação ao ver que as pessoas faziam por ela tantos sacrifícios, e tomava as suas poções a horas fixas. E até alegre se sentia descuidando-se do cumprimento das prescrições, por poder mostrar que não acreditava na cura e que não apreciava a vida.
Todos os dias vinha o médico, que lhe tomava o pulso, lhe olhava a língua e gracejava com ela, sem prestar atenção ao seu parecer desfeito. Depois, quando entrava no quarto contíguo, a condessa seguia-o, e ele, com um ar grave e abanando a cabeça pensativamente, afirmava que, embora a situação fosse bastante grave, tinha confiança no efeito do último remédio, que era preciso aguardar e ver, que a doença era sobretudo moral, mas que...
A condessa, procurando dissimular o pormenor, tanto aos seus próprios olhos como aos do médico, introduzia-lhe na mão uma moeda de ouro e voltava sempre com o coração mais aliviado para ao pé da doente.
As características da doença de Natacha consistiam em que comia e dormia pouco, tossia e não tinha ânimo para coisa alguma. Os médicos diziam que ela não podia estar sem assistência clínica e por isso a mantinham na atmosfera sufocante da cidade. Os Rostov passaram o ano de 1812 sem irem à aldeia.
Apesar da imensidade das pílulas absorvidas, das gotas e dos pós em garrafinhas e caixas, caixas de que Madame Schoss, que muito apreciava esse género de bugigangas, fizera uma colecção completa, apesar de a terem privado dos ares do campo, a mocidade venceu. O desgosto de Natacha foi pouco a pouco absorvido pelas impressões da vida quotidiana. Deixou de sentir uma dor tão violenta, que, lentamente, se foi desvanecendo e as forças físicas principiaram a reanimá-la.
[XVII]
Natacha estava mais tranquila, mas não mais alegre. Não só evitava todas as oportunidades de se distrair — os bailes, os passeios, os concertos, os espectáculos —, como nunca na sem que sentisse as lágrimas a borbulhar por detrás do riso. Já não podia cantar. Se se punha a rir, ou se tentava cantar só para si, as lágrimas sufocavam-na: lágrimas de arrependimento, lágrimas choradas sobre o seu inocente passado, que não mais volta— ria, lágrimas de pesar por ter dissipado daquele modo a sua juventude, que tão feliz podia ter sido. O riso e o canto afiguravam-se-lhe como que uma profanação da sua dor. Nem sequer pensava em ser coquette, pelo que não precisava de se reprimir. Dizia Para si mesma que todos os homens agora lhe eram tão indiferentes como Nastásia Ivanovna, o bobo. Uma voz íntima lhe interdizia ainda toda a espécie de prazeres. Já não sentia em si o amor à vida como outrora, no tempo em que fora rapariga descuidada, cheia de esperanças. Lembrava-se, com muitas saudades, dos meses do Outono, da caça, do tio, das festas do Natal, na Companhia de Nicolau, em Otradnoie. Que não teria ela dado Para voltar atrás, um dia só que fosse, a esses felizes tempos! Mas não, tinham passado para sempre. Não a enganava o pressentimento de que nunca mais voltaria a encontrar a alma livre que tivera outrora, aberta, a todas as alegrias. No entanto era preciso viver. Consolava-a pensar que não era mais feliz do que os outros, como imaginara antigamente, mas menos, muito menos feliz do que qualquer outra pessoa. O presente, contudo, pouco lhe importava. Desconfiava dele e perguntava a si mesma muitas vezes: «Que acontecerá mais tarde?» E o futuro também nada lhe dizia. Já não sentia alegria na vida e a vida continuava a passar. A única coisa que desejava era não ser pesada a ninguém, não incomodar fosse quem fosse, embora para si mesma nada pedisse. Conservava-se muitas vezes afastada de todos os que a cercavam e a única satisfação que tinha era junto de Pétia, seu irmão.
Divertia-se muito mais com ele do que com os outros e por vezes a sós com a criança voltava a ser alegre. Quase não saía de casa, e de todas as pessoas que a visitavam uma só lhe era simpática: Pedro. Ninguém era capaz de lhe falar com tanta ternura, tanto tacto e ao mesmo tempo tanta seriedade como o conde Bezukov. Sem dar por isso, sentia bem toda aquela ternura, daí o grande prazer que lhe dava a companhia do amigo. E no entanto nem sequer lhe agradecia. Sabia que a bondade nada custava a Pedro. Tão natural lhe parecia a ele dever ser bom para toda a gente que lhe não advinha daí qualquer mérito. Por vezes Natacha percebia-o embaraçado e confuso na sua presença, principalmente quando ele queria ser-lhe agradável ou então quando receava que a conversa lhe pudesse trazer penosas recordações. Reparava nisso e atribuía o facto ao seu bom coração e sua timidez, que tímido, supunha-o ela, devia ele ser com toda a gente.
Desde aquele dia em que lhe dissera inopinadamente que se fosse livre lhe pediria de joelhos que lhe quisesse e casasse com ele, palavras pronunciadas num momento de profunda emoção, Pedro nunca mais lhe falara dos seus sentimentos e para ela era evidente que aquelas palavras, que então lhe haviam sido de grande lenitivo, não tinham tido mais importância do que o que se diz Para consolar uma criança que chora. Não por Pedro ser casado, mas por Natacha sentir entre eles, no mais alto grau, aquela barreira moral que tanta falta lhe fizera na presença de Kuraguine; nunca lhe ocorrera que das suas relações pudesse nascer amor, não só nela, mas muito menos nele, ou sequer essa espécie de amizade amorosa, só poesia natural entre um homem e uma mulher, como ela conhecia alguns casos.
Depois da Quaresma de S. Pedro, Agráfena Ivanovna Bielova, vizinha dos Rostov em Otradnoie, chegou a Moscovo para orar aos santos moscovitas. Propôs a Natacha que fizesse com ela as suas devoções e esta aceitou a ideia com alegria.
Apesar da advertência dos médicos, que a proibiam de sair de manhã cedo, ela insistiu em fazer as suas devoções, e não era como de costume em casa dos Rostov, ou seja mandando rezar três ofícios na capela particular, mas como as fazia Agráfena Ivanovna, isto é, durante uma semana inteira, sem faltar às matinas, à missa e ao ofício de vésperas.
Esta devoção religiosa agradou à condessa, que no fundo esperava, depois do tratamento pouco profícuo dos médicos, que a oração fosse mais eficaz do que as drogas. E embora receosa, escondendo o caso ao médico, cedeu aos desejos da filha, confiando-a à senhora Melova. Agráfena Ivanovna costumava chamar Natacha às três horas da manhã, e geralmente já a encontrava acordada. Arranjada à pressa, tendo enfiado o seu mais simples vestido e um casaco velho, lá ia a tremer de frio, pela algidez da noite, ao longo das ruas desertas, que a aurora começava já a iluminar. A conselho da companheira, Natacha não se dirigia à igreja paroquial, mas ao templo em que a devota Bielovna dizia haver um sacerdote muito austero e digno. Havia ali sempre muito poucos fiéis. As duas mulheres iam colocar-se no seu recanto habitual, diante do ícone da Virgem, que pendia da parte posterior do coro esquerdo. Um desconhecido sentimento de humildade invadia a alma de Natacha na presença de qualquer coisa de grande e de inacessível quando, àquela hora da manhã, contemplando o rosto enegrecido da Mãe de Deus iluminado pelos círios e a luz da madrugada filtrada pelas janelas, prestava atenção ao ofício divino, que procurava compreender. Se percebia as palavras, os seus sentimentos íntimos fundiam-se com a oração, se as não percebia, ainda lhe era mais grato pensar que o desejo de tudo compreender nascia do orgulho e não era possível saber tudo e que cada qual deve limitar-se a crer e a confiar-se a Deus, que ela, naqueles instantes, sentia reinar no seu coração. Persignava-se, posternava-se e quando não compreendia limitava-se, horrorizada perante as suas inquietações, a pedir a Deus que lhe perdoasse e se amerceasse dela. As orações que proferia eram de contrição. No regresso a casa, a uma hora ainda muito matinal, quando nas ruas apenas se viam os operários a caminho do trabalho, os porteiros que varriam os passeios diante das portas, e toda a gente dormia, Natacha experimentava um sentimento novo para ela, a possibilidade de corrigir os seus defeitos e vir a conhecer ainda uma vida de regeneração pura e feliz.
Durante toda a semana em que se consagrou a estas piedosas práticas cresceu nela este sentimento de regeneração. E a felicidade que era para ela comungar, ou, como Agráfena Ivanovna gostava de dizer, recorrendo a um trocadilho, comunicar com Deus, afigurava-se-lhe tamanha que receava morrer antes da chegada desse bem-aventurado domingo.
Essa venturosa data chegou, por fim, e quando Natacha, nesse domingo memorável, voltou da comunhão, com o seu vestido de musselina branca, foi a primeira vez após muitos meses que se sentiu em paz consigo mesma e a vida deixou de lhe parecer penosa.
O médico, à hora da visita habitual, observou-a e mandou que continuassem a dar-lhe os pós que prescrevera quinze dias antes.
— É preciso tomá-los de manhã e à noite, sem falta — disse, convencido da eficácia da droga —, e com toda a regularidade, se fazem favor. Esteja descansada, condessa — gracejou, fechando com presteza, na palma da mão, a moeda de ouro costumada —, não tarda que a tornemos a ver cantar e divertir-se. Está com muito melhor parecer,
A condessa, olhando para as unhas, cuspiu (Entre o povo russo, cuspir correspondia a um exorcismo. (N, dos T) voltando muito contente ao salão.
[XVIII]
Em princípios de Julho espalharam-se em Moscovo boatos cada vez mais inquietantes sobre a marcha das operações militares; falava-se numa proclamação do imperador dirigida ao povo e no seu regresso à capital. Ora como a 11 ainda se não tinha conhecimento de qualquer manifesto nem de qualquer proclamação, mais exagerados se espalharam os rumores a esse respeito e a propósito da situação. Dizia-se que o imperador abandonava o exército por este estar em perigo, que Smolensk se rendera, que Napoleão dispunha de um milhão de homens e que só um milagre podia salvar a Rússia.
Sábado, 11, recebeu-se o manifesto, mas ainda não fora tornado público, Pedro, que se encontrava nessa altura em casa dos Rostov, prometeu vir jantar no dia seguinte, domingo, e trazer o manifesto e a proclamação, que esperava obter através do conde Rostopchine.
Nesse domingo, como de costume, os Rostov foram ouvir missa à capela particular dos Razumovski. Estava muito calor. Desde as dez da manhã, hora a que os Rostov se apearam da sua carruagem diante da capela, que o vento quente, os pregões dos vendedores ambulantes, a multidão com os seus trajos claros do Estio, as árvores das avenidas cobertas de poeira, o rataplã da banda de um regimento de pantalonas brancas dirigindo-se à parada, o rolar das carruagens ao longo dos pavimentos, o resplandecer de um sol de fogo, tudo se misturava, transmitindo já essa impressão amodorrante, misto de satisfação e de desgosto, que costuma sentir-se numa grande cidade em dia de muito calor. Boa parte da nobreza moscovita, personagens dos conhecimentos dos Rostov, estava reunida na capela dos Razumovski. Nesse ano, por causa dos acontecimentos, muitas das mais ricas famílias haviam ficado na capital, embora habitualmente passassem esses meses nas suas propriedades no campo. Seguindo atrás de um lacaio que afastava a multidão, Natacha, ao lado da mãe, ouvia um rapaz falar dela em voz baixa.
— É a Rostov, a que...
— Que magra, mas ainda assim é uma linda rapariga!
Julgou ouvi-los pronunciar os nomes de Kuraguine e de Boikonski. Aliás, isso acontecia-lhe frequentemente. Estava sempre a pensar que toda a gente falava da sua aventura. Dolorosamente sentida e de coração apertado, que assim estava sempre no meio da multidão. Natacha continuou a andar, com o seu vestido de seda lilás guarnecido de rendas pretas, num passo tanto mais calmo e majestoso quanto maior a vergonha e o desgosto no fundo da alma, Sabia muito bem, e não se enganava, que era muito bonita; mas não sentia com isso o prazer de outrora. Pelo contrário, ultimamente o reconhecer que assim era fazia-a sofrer, sobretudo num dia como aquele, claro e quente, em plena cidade. «Mais um domingo, mais uma semana», dizia de si para consigo, lembrando-se de que ali viera no domingo anterior, «e sempre a mesma vida, que não chega a ser vida, sempre a mesma gente agradável de antigamente. Sou bonita, sou nova e agora também sei que sou bondosa; antigamente era má, mas agora não, tenho a certeza, e assim, em pura perda, vão passando os meus dias sem proveito para nada, sem proveito Para ninguém.» Ficou ao lado da mãe e cumprimentou com acenos de cabeça as pessoas conhecidas mais próximas. Como de costume, examinou os vestidos das senhoras, criticou o porte e a maneira pouco fina como uma delas fazia o sinal da cruz, e ali a dois passos, na estreita capela, pensou com despeito que diziam dela o que ela dizia das demais, mas de súbito, assim que principiou o serviço divino, sentiu-se como que assustada diante da sua própria baixeza e como que aterrada ao ver que perdera de novo a pureza de outrora.
Um velhinho, de venerável aspecto, oficiava, com a serena unção de tão apaziguadora influência na alma dos fiéis. As portas reais abriram-se; a cortina afastou-se lentamente; ouviu-se lá dentro uma voz misteriosa e doce. Lágrimas, cuja causa ela não compreendia, oprimiam Natacha, e uma impressão alegre e enervante a invadiu,
«Ensina-me o que tenho de fazer, como me devo conduzir na vida, como corrigir-me para sempre», orava ela.
O diácono subiu ao púlpito, afastou com o dedo polegar as longas madeixas que lhe saíram do stikar, e depois de ter levado a cruz ao peito leu, em alta voz e solenemente, as palavras da oração.
«Oremos em paz a Deus nosso Senhor!»
«Oremos em paz todos juntos, isto é, sem distinções de classe, sem ódios, unidos no mesmo amor fraternal», disse Natacha para si mesma.
«Oremos para que nos seja dado o reino dos Céus e a salvação das nossas almas!»
«Sim, o reino dos anjos e de todos os espíritos celestes que vivem por cima de nós», pensou ela, ao mesmo tempo.
Quando rezaram pelo exército lembrou-se do irmão e de Denissov. Quando rezaram pelos que andam sobre a terra e sobre o mar, rezou pelo príncipe André, pedindo que o Senhor lhe perdoasse o mal que lhe fizera. Quando oraram pelos entes queridos, rezou pelos seus, pelo pai, pela mãe e por Sónia, e pela primeira vez sentiu quanto era culpada para com eles e quanto lhes queria. Quando rezaram pelos que têm ódio, procurou saber quais os seus inimigos e os que lhe queriam mal, para rezar por eles. Não achou, porém, senão os credores de seu pai e aqueles que com ele haviam questionado. E assim lhe veio à mente Anatole, que tanto mal lhe fizera, e embora o não considerasse no número dos que a odiavam, rezou por ele, satisfeita, como se de um inimigo se tratasse. Só enquanto rezava era capaz de se lembrar serenamente e sem comoção do príncipe André e de Anatole, pois os sentimentos que nesse momento sentia nada eram ao pé do seu temor e do seu amor de Deus. Quando rezaram pela família imperial e pelo Santo Sínodo, ainda se posternou mais contra o solo, persignando-se e dizendo para si mesma que, embora o não compreendesse, lhe era impossível duvidar e que, fosse como fosse, tinha de amar o Sínodo e rezar por ele.
Dita que foi a lektenia, o diácono fez com a estola o sinal da cruz sobre o peito e murmurou:
«Encomendemo-nos, e encomendemos as nossas vidas a Jesus Cristo Nosso Senhor!»
«Encomendemo-nos a Deus», repetiu Natacha no seu íntimo. «Deus meu, entrego-me à Tua vontade», orou ela. «Nada quero nem desejo mais. Ensina-me o que devo fazer, como hei-de empregar a minha vontade! Mas toma-me, toma-me!», murmurou ela mentalmente com exaltação e impaciência, sem se benzer, deixando cair os braços, como se esperasse que uma força invisível, naquele mesmo instante, tomasse conta dela e a libertasse de si própria, das suas mágoas, dos seus desejos, dos seus remorsos, das suas esperanças e dos seus erros.
A condessa, por várias vezes durante o ofício, relanceara os olhos ao rosto recolhido e aos olhos fulgurantes da filha e rogara a Deus que a ajudasse.
Subitamente, no meio da cerimónia, e alterando a ordem que Natacha muito bem conhecia, o sacristão trouxe um escabelo, o escabão que costumava servir para ler as orações da Santíssima Trindade, e colocou-o diante das portas reais. O sacerdote, com a sua sotaina de veludo lilás, emergiu das portas, compôs os cabelos e ajoelhou com dificuldade. Todos os fiéis repetiram o seu gesto, olhando uns para os outros com grande surpresa. Ia-se rezar a oração, recentemente emanada do Santo Sínodo, rogando a Deus a salvação da Rússia, sob a ameaça da invasão estrangeira.
«Senhor Deus todo-poderoso, Deus da nossa salvação», principiou o sacerdote nessa voz nítida, suave e sem ênfase tão característica dos eclesiásticos eslavos quando oram e que tão grande Poder exerce sobre a alma russa.
«Senhor Deus todo-poderoso, Deus da nossa salvação! Concede a Tua graça e a Tua misericórdia às Tuas humildes criaturas e ouve a nossa oração, amerceia-Te de nós e tem piedade.
O inimigo enche de confusão a Terra e quer transformar o mundo num deserto. Este inimigo levanta-se contra nós. Homens criminosos reuniram-se para destruir o Teu bem, para arrasar a Tua fiel Jerusalém, a Tua Rússia bem-amada, para conspurcar Os Teus templos, derrubar os altares e profanar os Teus santuários. Até quando, Senhor, até quando triunfarão os pecadores?
«Senhor todo-poderoso! Escuta-nos a nós, que Te imploramos: ampara com a Tua força o nosso mui piedoso imperador autocrata Alexandre Pavlovitch. Lembra-Te da sua lealdade e da sua doçura, recompensa-o pela bondade com que ele nos protege, a nós, a Tua Israel bem-amada. Abençoa as suas decisões, as suas empresas, as suas obras. Revigora com a Tua dextra todo-poderosa o seu reino e concede-lhe a vitória sobre o inimigo, como a Moisés sobre Amalek, Gedeão sobre Madian, David sobre Golias. Protege os seus exércitos, sustém o arco de cobre debaixo do braço dos que se armaram em Teu nome e cinge-os com a Tua força para o combate. Pega nas Tuas armas e no Teu escudo e vem em nosso auxílio. Que a confusão e a vergonha caiam sobre aqueles que nos querem mal e que eles sejam diante do rosto dos Teus fiéis armados como a poeira diante do vento e que o Teu Anjo todo-poderoso os expulse e persiga. Que uma rede os envolva sem eles darem por isso e que as armadilhas que escondem sirvam para que caiam nelas. Que eles caiam aos pés dos Teus escravos e que eles sejam esmagados pelos Teus exércitos, Senhor! Tens o poder que salva grandes e pequenos. Tu és Deus e o homem nada pode contra Ti.
«Deus de nossos pais! Lembra-Te da Tua generosidade e da Tua graça, que são etcrnas. Não nos afastes da Tua presença, não Te apartes das nossas iniquidades, mas, na grandeza da Tua bondade e na imensidade da Tua misericórdia, esquece os nossos crimes e os nossos pecados. Edifica em nós um coração puro e renova no nosso seio um espírito recto. Fortalece-nos a todos na nossa fé em Ti, revigora a nossa esperança, inspira-nos um verdadeiro amor ao próximo, une-nos a todos para a defesa legítima do património que Tu nos deste, a nós e a nossos pais, e que o ceptro dos ímpios se não eleve sobre a terra daqueles a quem abençoaste.
«Senhor nosso Deus, em quem nós cremos e em quem temos firme confiança, não desiludas a nossa esperança na Tua graça c, faz um milagre para nosso bem. Que o vejam aqueles que nos odeiam, a nós e à nossa fé ortodoxa, e que eles sejam confundidos e que pereçam e que todas as nações saibam que o Teu nome é Senhor e que nós somos Teus filhos. Revela-nos, Senhor, hoje mesmo, a Tua misericórdia e concede-nos a Tua salvação. Regozija o coração dos Teus escravos com a Tua graça. Fulmina os nossos inimigos e aniquila-os debaixo dos pés dos Teus fiéis. És o apoio, és o socorro e a vitória dos que confiam em Ti. Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, agora e por todos os séculos dos séculos. Amen.»
No estado impressionante em que se encontrava, Natacha sentiu-se profundamente abalada por esta oração. Escutando as palavras referentes à vitória de Moisés sobre Amalek, de Gedeão sobre Madian, de David sobre Golias e à ruína de Jerusalém, rezava com toda a doçura e toda a ternura do seu coração. Contudo, não compreendia lá muito bem o que estava a rogar a Deus.
Com toda a sua alma pedia que se lhe purificasse o espírito, que se lhe fortalecesse o coração com a fé e a esperança e que nela reinasse o amor. Era-lhe impossível, porém, orar para que os seus inimigos fossem esmagados quando minutos antes desejara ter ainda mais inimigos para por eles poder rezar. No entanto, não podia duvidar da justiça da oração que se rezara de joelhos. No fundo do seu coração sentia um terror pleno de reconhecimento ao pensar no castigo que fulmina os pecadores e sobretudo no castigo a que a expunham os seus próprios pecados e pediu a Deus que lhes perdoasse a eles e a ela própria e que lhes concedesse a todos, igualmente, o descanso e a felicidade nesta vida. E parecia-lhe que Deus ouvia a sua oração.
[XIX]
Desde o dia em que Pedro, ao sair de casa dos Rostov sob a impressão do olhar reconhecido de Natacha, contemplara o cometa e sentira como que desvendar-se-lhe um novo horizonte, deixara de ser atormentado pelo etcrno problema da vaidade e da loucura de tudo quanto existe à face da Terra. A terrível pergunta: «Porquê? Para quê?», que outrora vinha associar-se às suas ocupações, achava-se substituída não por qualquer outra pergunta ou por qualquer solução, mas pela imagem que guardara dela. Quando escutava ou falava de coisas insignificantes, quando lia ou se inteirava de qualquer baixeza ou loucura humana, não se horrorizava como antigamente. Não estava sempre a perguntar-se a si próprio porque se agitam tanto os homens quando a vida é tão curta e depois os espera o desconhecido. Bastava evocá-la, no aspecto em que a vira pela última vez, e todas as suas dúvidas desapareciam, e não era porque ela desse resposta a estas perguntas, mas porque a sua imagem o transportava num instante a uma região luminosa da alma onde não podia haver nem justos nem culpados, à região da beleza e do amor, as únicas razões pelas quais vale a pena viver. Fossem quais fossem as misérias morais que a existência lhe oferecia, para si mesmo Pedro murmurava:
«Que me importa a mim que fulano roube o Estado e o czar e que o Estado e o czar o tenham cumulado de honrarias? Ontem ela sorriu-me e pediu-me que a fosse ver e eu amo-a e ninguém o saberá jamais.» E a alma de Pedro ganhava a serenidade e a paz.
Pedro continuava a frequentar a sociedade, a beber muito, a levar a mesma vida ociosa e dissipada, pois, não falando nas horas que passava em casa dos Rostov, as demais tinha ele de as preencher de qualquer maneira. Os seus hábitos e as suas relações arrastavam-no vitoriosamente para aquela vida que o absorvia.
Mas ultimamente, quando principiaram a chegar do campo de batalha notícias cada vez mais alarmantes, quando a saúde de Natacha principiou a restabelecer-se e deixou de lhe inspirar aquele antigo sentimento de compaixão, uma vaga inquietação, cada vez mais inexplicável a seus olhos, se apoderou dele. Pressentia que a vida que levava não podia durar muito, que uma catástrofe se preparava que transformaria toda a sua existência, e ei-lo a espiar com impaciência os sinais anunciadores. Um dos pedreiros-livres seu irmão desvendara-lhe a profecia seguinte, referente a Bonaparte, extraída do Apocalipse de S. João.
No capítulo XIII do Apocalipse, versículo 18, diz-se: «Aqui está a sabedoria. Aquele que tem entendimento conte o número da besta; porque é número de homem, e o seu número é seiscentos e sessenta e seis.»
No mesmo capítulo, versículo 5: «E deu-se-lhe a boca para falar grandezas e blasfémias: e deu-se-lhe poder para assim o fazer quarenta e dois meses.»
As letras do alfabeto francês, iguais às do hebraico, podem exprimir-se por meio de algarismos, e atribuindo as dez primeiras letras o valor das unidades e o das dezenas às restantes, o seu valor numérico é o seguinte:
a b e d e f g h i j k
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 20
l m n o p q r s t u v
30 40 50 60 70 80 90 100 110 120 130
x y z
140 150 160
Utilizando este alfabeto cifrado, as palavras l’empereur Napoléon correspondem, pelas suas letras, a uns números que, somados, davam o resultado 666. E aí estava como Napoleão era a, besta de que falava o Apocalipse. Além disso, ao escrever-se, com esse alfabeto, as palavras quarante-deux, isto é, o limite que fora assinalado à besta para «falar grandezas e blasfémias», a soma das cifras obtidas era de novo igual a 666. Resultava, pois, que o poder de Napoleão teria o seu termo em 1812, data em que o imperador faria quarenta e dois anos. Esta profecia impressionara muito Pedro, que frequentemente perguntava a si próprio quem acabaria com o poder da besta, isto é, de Napoleão, e, graças à mesma representação das letras por algarismos e mercê dos mesmos cálculos, deu-se a procurar uma resposta para a interrogação. Escreveu como resposta a essa pergunta: «O Imperador Alexandre? A nação russa?» Calculou as letras, mas a soma era maior que 666. Unia vez em que estava entregue a estes cálculos escreveu: «Comte Pierre Bésouhoff», mas não conseguiu obter o resultado desejado. Alterou a grafia e pós um z no lugar do s, acrescentou a preposição de, o artigo le, mas também sem conseguir o resultado que esperava. Então ocorreu-lhe que, se a resposta à pergunta estivesse no seu nome, seria naturalmente necessário mencionar a nacionalidade. Escreveu então: «le russe Bésouhoff» e adicionando os algarismos obteve como resultado 671. Sobravam apenas cinco letras, e o cinco representava a letra e, a mesma letra e que em francês se suprime do artigo da palavra l’empereur. Suprimindo este e, não obstante resultar um erro, escreveu «le russe Bésouhoff», isto é, precisamente 666. Esta descoberta perturbou-o. Como estava ele relacionado com aquele acontecimento previsto pelo Apocalipse? Eis o que a si próprio não sabia explicar. Mas não hesitou um momento. O amor por Natacha Rostov, o Anticristo, a invasão de Napoleão, o cometa, o número 666, «l’empereur Napoléon» e «l’russe Besouhoff», todo aquele conjunto de factos misteriosos devia amadurecer, tinha de acabar por explodir, impelindo-o para fora do círculo vicioso dos hábitos mundanos moscovitas de que se sentia prisioneiro, e levando-o, por fim, a realizar um acto heróico e— a alcançar uma grande felicidade.