Guerra e Paz

Liev Tolstói · Capítulo 9 de 18 · parte 3/5

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Guerra e Paz

Primeira Parte

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

As pessoas que constituíam a sétima categoria pertenciam a essa espécie de criaturas que sempre se encontram na roda dos jovens soberanos e que eram sobretudo numerosos junto do imperador Alexandre: generais e ajudantes-de-campo apaixonadamente devotados mais ao homem que ao soberano, que o adoravam sincera e desinteressadamente, como acontecera a Rostov em 1805, e que atribuíam ao imperador não só todas as virtudes, mas também todas as qualidades humanas. Essa gente, ao mesmo tempo que exaltava a modéstia do seu imperador, que se escusara a chamar a si o comando das tropas, censurava tão excessiva modéstia, declarando só desejarem uma coisa: que o seu soberano bem-amado vencesse essa desconfiança exagerada, declarasse francamente que tornava o comando do exército, organizasse em torno de si um estado-maior de comandante-chefe e, depois de se ter aconselhado junto dos técnicos, práticos mais experimentados, conduzisse ele próprio no campo de batalha as suas tropas, a quem a sua presença, só por si, encheria de um entusiasmo desbordante.

O oitavo grupo, o mais importante de todos — em relação ao anterior na proporção de noventa e nove para um — era constituído por pessoas que não queriam nem a paz, nem a guerra, nem a ofensiva, nem campos entrincheirados em Drissa ou em qualquer outra parte, nem Barclay, nem o imperador, nem Pfuhl, nem Bennigsen: não procuravam senão uma coisa, para eles mais substancial que tudo o mais: o maior número possível de vantagens pessoais e de diversões. Nestas águas turvas de intrigas e de enredos que formigavam no quartel-general do imperador era possível atingir situações que noutra altura se não poderiam conseguir. Um, para não perder uma situação vantajosa, era hoje partidário de Pfuhl, amanhã do adversário deste, e depois de amanhã afirmava não ter opinião sobre determinado ponto, e isto apenas para evitar assumir responsabilidades e agradar ao imperador.

Outro, desejoso de se colocar bem, chamava sobre si a atenção do soberano fazendo muito barulho a propósito de unia, observação que o imperador fizera na véspera, discutia, gritava no conselho, batendo no peito, desafiava para duelo aqueles que não eram da sua opinião e tudo isto para demonstrar que estava pronto a sacrificar-se pelo interesse geral. Um terceiro, entre dois conselhos, e na ausência dos seus inimigos, solicitava muito simplesmente auxílio pecuniário por motivo dos seus fiéis serviços, convencido de naquele momento não haver tempo para lho recusarem. Um quarto procurava encontrar-se sempre, como que por acaso, esmagado de trabalho ante os olhos do imperador. Um quinto, para alcançar um objectivo ardentemente ambicionado — sentar-se à mesa imperial —, demonstrava encarniçadamente a justeza ou a falsidade de uma opinião recentemente adoptada e para tal servia-se de argumentos mais ou menos sólidos e justos,

Toda esta gente não pensava noutra coisa senão em caçar dinheiro, cruzes, categorias, e nessa caçada não seguia outra pista que não fosse o penacho da mercê imperial, e assim que verificava que esse penacho se voltava para determinado ponto, todo esse enxame de zangãos batia as asas na mesma direcção, de tal sorte que se tornava por assim dizer impossível ao imperador fazê-lo girar noutro sentido. Em presença da incerteza da situação, da gravidade de um perigo iminente, que dava a todas as intrigas um carácter muito alarmante, no meio daquele remoinho de intrigas, de ambições e conflitos entre pontos de vista e tendências diferentes, na confusão daquela gente de nacionalidades várias, este oitavo grupo, o mais numeroso, exclusivamente preocupado com os seus interesses pessoais, contribuía de maneira singular para tornar a marcha geral mais difícil e complicada. Fosse qual fosse a questão que se levantasse, este enxame de zangãos, sem ter ainda resolvido um problema, tratava de voar para outro, ensurdecendo com os seus zumbidos e abafando cada vez mais as vozes sinceras que tomavam parte na discussão.

Na altura da chegada do príncipe André ao exército acabava de se constituir um novo partido, cuja voz apenas principiava a ouvir-se, Era o partido das pessoas idosas, sensatas, com experiência de assuntos políticos e que sabiam, sem partilhar nenhuma das opiniões contraditórias enunciadas, examinar objectivamente tudo quanto se passava no quartel-general, procurando maneira de acabar com a incerteza, a indecisão, a confusão e a fraqueza.

Esta gente dizia e pensava que o mal provinha antes de mais nada da presença do imperador e da sua corte militar junto do exército, que se haviam transplantado para o campo de batalha os hábitos de versatilidade, de hesitação e de indiferentismo, talvez próprios da corte mas fatais no exército, e que o papel de um soberano era o de reinar e não o de comandar tropas, e que a, única saída para a situação consistia na partida do imperador e da sua corte. Bastava a sua presença para paralisar cinquenta mil soldados, indispensáveis para assegurar a sua guarda pessoal, e que o mais medíocre dos generais— chefes, sentindo-se independente, valia mais que o melhor deles enleado pela presença e pela vontade soberana do imperador.

Quando o príncipe André vivia em Drissa, sem ocupar-se em quaisquer funções definidas, o secretário de Estado, Chichkov, um dos membros mais influentes deste partido, escreveu uma carta ao imperador, que Balachov e Araktcheiev concordaram em assinar também.

Aproveitando a autorização que lhe fora concedida de apreciar a marcha geral das operações, propunha ao soberano, em termos respeitosos e salientando a necessidade de acordar o valor bélico do povo da capital, que abandonasse o exército.

Esta necessidade de animar o moral do povo, de chamá-lo à defesa da pátria, acção que mais tarde se tornou eficaz com a presença pessoal de Alexandre em Moscovo e que veio a ser uma das razões principais da vitória russa, foi exposta ao imperador e por ele aprovada, ficando decidida a sua partida.

 

[X]

Ainda esta carta não fora entregue ao imperador quando um dia Barclay, durante uma das refeições, disse a Bolkonski que Sua Majestade desejava vê-lo para o interrogar sobre a Turquia e que devia apresentar-se a Bennigsen nesse mesmo dia às seis horas.

Nessa mesma altura chegou ao quartel-general do imperador a notícia de um novo avanço de Napoleão que podia tornar-se perigoso para o exército, notícia esta que depois se reconheceu ser inexacta. Pela manhã, o coronel Michaux percorrera com o imperador as defesas de Drissa e provara que aquele campo entrincheirado construído Por Pfuhl, e que gozava da fama de obra-prima de técnica, destinado a vir a ser a ruína de Napoleão, não só não passava de uma utopia mas poderia vir a ser a perda do exército russo.

O príncipe André apresentou-se no alojamento de Bennigsen, que estava instalado numa casa senhorial nas margens do rio. Não encontrou nem Bennigsen nem o imperador, mas Tchernichov, o ajudante-de-campo do czar, recebeu Bolkonski e explicou-lhe que o soberano fora, na companhia do general Bennigsen e do marquês Paulucci, inspeccionar, pela segunda vez nesse dia, as fortificações do campo, sobre cujo valor defensivo principiavam a correr sérias dúvidas.

Tchernichov lia um romance francês à janela da primeira sala. Esta dependência servira provavelmente outrora de salão; ainda lá se via um harmónio, sobre o qual se empilhavam tapetes. A um canto estava a cama de campanha do ajudante-de-campo de Bennigsen. O ajudante-de-campo estava presente. Provavelmente cansado por algum divertimento ou por muito ter trabalhado, dormitava na cama de campanha, Duas portas abriam Para esta dependência: uma, em frente, dava directamente para o antigo salão, a outra, à direita, para um gabinete. Através da primeira ouvia-se falar alemão e de longe em longe francês. No antigo salão, por desejo do Imperador, reunira-se não um conselho de guerra, pois o czar gostava das designações vagas, mas um grupo de pessoas cuja opinião queria conhecer rias circunstâncias actuais. Não era um conselho de guerra, mas uma espécie de reunião de personalidades selectas para esclarecer certos problemas para interesse próprio do imperador. Tinham sido convocados: o general sueco Armfeld, o ajudante-de-campo Woltzogen, Wintzengerode, a quem Napoleão chamava o súbdito francês foragido, Michaux, Toll, o conde Stein, que não era militar, e finalmente Pfuhl, que, como André veio a perceber, era a trave mestra do caso de que se tratava. André teve ocasião de o examinar muito bem, pois Pfuhl chegou pouco depois dele e passou pelo salão, detendo-se um momento a falar com Tchernichov.

A primeira vista, Pfuhl, com o seu uniforme de general russo mal feito, e que lhe ficava tão mal que parecia disfarçado, deu-lhe a impressão de alguém muito seu conhecido, embora nunca o tivesse visto antes. Parecia-se muito vagamente com os Weirother, os Mack, os Schmidt, com tantos outros generais teóricos que ele tivera oportunidade de ver em 1805, embora fosse mais típico que todos os demais. Nunca vira um alemão que reunisse a tal ponto os traços característicos de todos os alemães.

Pfuhl era de pequena estatura, mas de sólida compleição, bacia larga e omoplatas ossudas. Tinha a cara sulcada de rugas f, os olhos profundamente enterrados nas órbitas.

Devia ter passado uma escova pelos cabelos, à frente e nas têmporas, mas atrás mechas soltas pendiam, ridiculamente. Entrou lançando à sua roda olhares inquietos e furiosos, como se tudo receasse na vasta sala em que penetrava. Segurando na espada desajeitadamente dirigiu-se a Tchernichov, perguntando-lhe em alemão onde estava o imperador. Era evidente que desejava atravessar a sala à pressa e desembaraçar-se das saudações e dos cumprimentos habituais para se instalar diante de um mapa, o seu elemento natural. Fez com a cabeça repetidos e breves acenos, enquanto ouvia Tchernichov, e teve um sorriso irónico quando este lhe disse que o imperador examinara o entrincheiramento que ele, Pfuhl, construíra segundo as suas teorias. Numa voz rude de baixo, como é própria dos alemães muito seguros de si, resmungou para si mesmo: «Imbecil... está tudo estragado... Daqui não sai coisa que preste.» (Em alemão no texto original. (N dos T.) O príncipe André, que não conseguia perceber distintamente o que ele dizia, quis afastar-se, mas Tchernichov apresentou-o a Pfuhl, dizendo que ele acabava de chegar da Turquia, onde a guerra findara vitoriosa, Pfuhl mal o olhou: disse rindo: «Devia ter sido uma rica guerra táctica.» (Em alemão no texto original. (N dos T.) E com um riso desdenhoso penetrou na sala onde se ouviam vozes.

Pfuhl, irritável por natureza e propenso à ironia, estava evidentemente furioso por terem ousado na sua ausência examinar o seu campo entrincheirado, atrevendo-se a criticá-lo. Mercê daquela rápida entrevista com Pfuhl, e graças ao que vira em Austerlitz, não foi difícil ao príncipe André ficar com uma ideia muito nítida de tal personagem. Pfuhl era criatura de uma só peça e de uma teimosia tal que seria capaz de afrontar o martírio em defesa das suas ideias; era como só os Alemães sabem ser, pois só eles são capazes de uma cega confiança nas noções abstractas, na ciência, isto é, no conhecimento pressuposto da verdade absoluta.

O Francês é um homem seguro de si, persuadido de que, pessoalmente, quer pelo espírito, quer pelo físico, exerce uma irresistível sedução tanto nos homens como nas mulheres. O Inglês também, goza da mesma segurança por estar persuadido de que é cidadão do Estado mais bem organizado do mundo, e daí saber sempre, na sua qualidade de inglês, que o que deve fazer e faz é indiscutivelmente perfeito. Pelo seu lado, o Italiano tem confiança em si próprio porque facilmente se emociona, esquecendo-se ainda mais depressa de si e dos outros. Ao Russo também não falta confiança, visto que tudo ignora e nada quer saber e estar convencido de que ninguém pode saber seja o que for. No que diz respeito ao Alemão, porém, esse é o pior de todos, mais obstinado que ninguém e mais desagradável para todo o mundo, convencido de que conhece a verdade, ou seja a ciência que ele próprio fabrica, para ele, a verdade absoluta.

Evidentemente Pfuhl era assim mesmo, Tinha na sua mão uma ciência: isto é, a teoria do movimento oblíquo, colhida na história das guerras de Frederico, o Grande, e vai daí tudo quanto observava na história das guerras recentes a seus olhos não passava de insensatez, barbaria e um tremendo caos. Tailtos eram os erros nelas cometidos que a bem dizer nem sequer mereciam o nome de guerras. Como não acertavam com a sua teoria, não podiam mesmo ser objecto de estudo,

Em 1806, Pfuhl fora um dos autores do plano que conduzira a leria e a Auerstaedt, mas o resultado dessa campanha não lhe Provara a falsidade da sua teoria, Pelo contrário, em sua opinião haviam sido precisamente os desvios dela as únicas causas do seu malogro e por isso dissera com ironia, muito contente de si próprio, coisa que lhe era peculiar: «Imbecil... está tudo estragado... vai tudo por água abaixo... » (Em alemão no texto original. (N dos T.)

Pfuhl pertencia à família desses teóricos que de tanto amarem as teorias em si acabam por esquecer-lhes os fins, ou seja a sua aplicação prática. Por amor da própria teoria odiava tudo quanto fosse prático, recusando sistematicamente prestar atenção a esse aspecto. Até o próprio fracasso lhe dava satisfação, uma vez que o insucesso provocado pela violação da teoria na sua aplicação prática só servia para lhe provar a ele a justeza da teoria que professava.

As poucas palavras que trocara com o príncipe André e Tchernichov sobre a guerra em curso foram pronunciadas no tom de quem sabe de antemão que tudo correrá mal e nada mais pode fazer senão lamentar que assim seja. O tufo de cabelos que lhe fustigava a nuca e as têmporas penteadas a preceito estavam a dizer isso mesmo com particular eloquência. Entrou na sala contígua e imediatamente se principiou a ouvir a sua voz rabugenta de baixo.

 

[XI]

Ainda o príncipe André não tivera tempo de ver desaparecer a figura de Pfuhl quando entrou, apressadamente, o conde de Bennigsen. Cumprimentando— o com um aceno de cabeça, penetrou no gabinete depois de ter dado ordens ao ajudante-de-campo. Como o imperador vinha logo atrás dele, tinha pressa de tomar algumas disposições antes de o receber. Tchernichov e André vieram até à escadaria da entrada. Com ar fatigado, o imperador desmontava. O marquês Paulucci dirigiu-lhe a palavra. O czar, inclinando a cabeça para a esquerda, ouvia, descontente, o que Paulucci lhe dizia, e este exprimia-se com uma violência desusada. O imperador, que evidentemente queria pôr ponto final naquele discurso, principiou a andar, mas o italiano, muito afogueado pela exaltação de que se achava possuído, esquecendo as conveniências, foi-lhe no encalço, falando sempre.

— Quanto aquele que aconselhou este campo, este campo de Drissa — dizia Paulucci, enquanto o imperador, subindo os degraus da escada, fixava o príncipe André, que, de momento, parecia não conhecer. — Quanto aquele, Sire — teimava ele num ímpeto de quem não pode dominar-se —, que aconselha o campo de Drissa, não vejo outra alternativa senão a casa amarela (Hospital de alienados, geralmente pintado de amarelo (N, dos T.) ou a forca.

Sem esperar pela conclusão do discurso e como se não tivesse ouvido o que dizia o italiano, o imperador, que acabava de reconhecer Bolkonski, dirigiu-se-lhe, muito cortês:

— Gostei muito de te ver: entra para a sala em que eles estão reunidos e espera lá por mim.

O czar penetrou no gabinete, onde o seguiram o príncipe Piotre Mikailovitch Volkonski e o barão Stein, e a porta fechou-se.

O príncipe André, servindo-se da autorização do imperador, entrou com Paulucci, a quem conhecera na Turquia, no salão onde estava reunido o conselho.

O príncipe Piotre Mikailovitch Volkonski desempenhava então as funções de chefe do estado-maior do imperador. Veio do gabinete com uns mapas que desdobrou em cima da mesa do salão. Depois pôs à assembleia as questões acerca das quais desejava conhecer a opinião dos presentes. Recebera-se durante a noite a notícia — que depois veio a saber-se, aliás, ser falsa —, de que os Franceses se propunham contornar o campo de Drissa.

O primeiro a usar da palavra foi o general Armfeld. Inesperadamente, para enfrentar as dificuldades que se levantavam, propôs que se ocupasse uma posição completamente nova e que nada justificava (salvo o desejo que tinha de fazer ver que também podia ter uma opinião) a retirada das estradas de Petersburgo e Moscovo, posição essa na qual, segundo ele, o exército devia concentrar-se para ai aguardar o inimigo. Via-se perfeitamente que este plano de há muito estava elaborado pelo seu autor, o qual, se o expunha naquele momento, era menos para responder às questões formuladas, a que, aliás, nenhuma resposta dava, que para aproveitar a ocasião de o tornar conhecido, Era uma dessas numerosas propostas, nem melhor nem pior que qualquer outra aos olhos de quem quer que fosse sem a menor ideia do que aquela guerra viria a ser. Houve quem a combatesse e quem a defendesse. O moço general Toll, com mais ardor que nenhum outro, criticou esse plano, e, extraindo da algibeira um manuscrito, pediu licença para proceder à sua leitura. Nessa exposição, amplíssima, propunha um plano de campanha inteiramente oposto ao de Armfeld e de Pfuhl. Para o refutar, Paulucci aconselhou a ofensiva e o ataque, única solução, em seu parecer, para arrancá-los a todos da incerteza e da ratoeira, nome que dava ao campo de Drissa, onde se encontravam. Durante a discussão, Pfuhl e o seu intérprete Woltzogen — era obrigado a fazer passar através dele todas as suas comunicações com a corte mantinham-se calados. Pfuh1 limitava-se a fungar desdenhosamente e a voltar as costas, mostrando que nunca desceria a refutar as tolices que ouvia. Quando o príncipe Volkonski, que presidia ao debate, lhe pediu que expusesse a sua opinião, limitou-se a dizer:

— Para quê? O general Armfeld propôs-lhe uma posição magnífica com as retaguardas descobertas. Podem escolher, igualmente, ou o ataque desse senhor italiano, que também é óptimo, ou então a retirada, que é melhor ainda (Em alemão no texto original. (N, dos T,). Para que pedem a minha opinião? Os senhores sabem tudo melhor do que eu.

Quando Volkonski franziu o sobrolho, dizendo pedir-lhe a sua opinião em nome do imperador, ele levantou-se, exaltando-se de repente, e prosseguiu:

— Estragaram tudo, complicaram tudo: toda a gente queria saber mais do que eu e agora recorrem a mim. Como reparar o que está mal? Nada há a reparar. O que é preciso é aplicar exactamente os princípios que eu estabeleci — afirmou, batendo com o dedo ossudo em cima da mesa. — Onde está a dificuldade da situação? Tolices! Kinderspiel! (Brincadeira de crianças. (N, dos T)

Aproximou-se da mesa e pôs-se a falar muito depressa, enquanto ia batendo no mapa com a ponta do dedo seco, demonstrando que nenhum acontecimento imprevisto poderia modificar a eficácia do campo de Drissa, que tudo fora previsto e que se de facto o inimigo tentasse um movimento de flanco acabaria inevitavelmente por ser aniquilado.

Paulucci, que não sabia alemão, interrogou-o em francês. Woltzogen acorreu em auxílio do seu chefe, que falava mal o francês, e traduziu as suas explicações, seguindo-o com muita dificuldade, pois Pfuhl demonstrava, cada vez mais rápido, que, tudo, tudo, fora previsto no seu plano, não só o que acontecera, mas também o que viria a acontecer, e que se presentemente algumas dificuldades se levantavam o mal advinha de o não terem executado tal qual. E continuava a fungar ironicamente, prosseguindo na sua demonstração. Por fim deixou de argumentar pela mesma razão que um matemático desiste de apresentar provas de um problema demonstrado, Woltzogen substituiu-o, e continuou a expor, em francês, as ideias de Pfuhl, dizendo de vez em quando: «Não é verdade, Excelência?» (Em alemão no texto original. (N, dos T) Pfuhl, como um soldado que na excitação da batalha se põe a disparar contra os seus camaradas, gritava, furioso, a Woltzogen:

— Pois claro, pois claro, para quê tantas explicações? Tanto Paulucci como Michaux refutavam Woltzogen, » mesmo tempo, em francês. Armfeld dirigia-se a Pfuhl em alemão. Toll explicava em russo a Volkonski o que todos eles diziam. O príncipe André ouvia e observava em silêncio.

De entre todas aquelas personalidades, a que lhe despertava maior simpatia era Pfuhl, esse homem irascível, decidido e doidamente seguro de si próprio. De todos quantos ali estavam era aquele o único que nada queria para ele, a ninguém tinha inimizade. Apenas pretendia uma coisa: pôr em execução um plano assente numa teoria que lhe custara anos de trabalho. Evidentemente que era ridículo e desagradável com a sua permanente ironia, mas apesar de tudo inspirava respeito, graças â absoluta devoção pelas suas ideias. Aliás, em todos os discursos pronunciados, à excepção de Pfuhl, havia um traço comum, coisa que se não verificava nos do conselho de guerra de 1805: sentia-se neles uma espécie de terror pânico, conquanto dissimulado, perante o génio de Napoleão, e esse pânico transparecia nos argumentos mais insignificantes. Estavam convencidos de que aquele homem era capaz de tudo, esperavam vê-lo aparecer em toda a parte ao mesmo tempo e o seu temido nome servia a cada um para dar um golpe de morte na posição do adversário. Só Pfuhl se atrevia a considerar bárbaro Napoleão, pela mesma razão que considerava bárbaro qualquer que se opusesse às suas teorias, Além do respeito que Pfuhl lhe inspirava, o príncipe André sentia por ele uma espécie de piedade. Pelo tom que tomavam os cortesãos ao dirigir-se-lhe, pelo que Paulucci se permitira dizer ao imperador, e sobretudo pelo amargor e pela violência de que as suas próprias palavras vinham repassadas, era evidente todos estarem certos, e ele mesmo já desconfiava disso, de ser chegada a hora da sua ruína. Eis porque, não obstante a sua segurança e a sua acerba ironia de alemão, causava dó, com as melenas empastadas nas fontes e os tufos de cabelo a caírem-lhe na nuca. Embora dissimulasse os seus sentimentos por detrás de umas maneiras irritadas e desdenhosas, via-se que estava desesperado por ver fugir-lhe a ocasião única de verificar em vasta escala as suas teorias e de poder prová-las aos olhos do mundo.

Os debates prolongaram-se por muito tempo e quanto mais se prolongavam mais exaltados se mostravam os contendores, que gritavam e faziam alusões pessoais, e menos probabilidades havia de extrair qualquer conclusão prática de tudo quanto se dissera.

No meio de toda aquela confusão de línguas, de todas aquelas hipóteses, de todos aqueles planos, de todas aquelas contradições e de todos aqueles gritos não pôde o príncipe André deixar de se mostrar surpreendido que fosse possível falar-se tanto. Enquanto estivera no exército várias vezes fora levado a pensar que não havia nem podia haver uma ciência da guerra e que por isso mesmo se não devia falar num suposto génio militar. E eis esta ideia confirmada agora com a plena evidência da verdade. ,Como falar-se em teoria e ciência numa matéria em que as condições e as circunstâncias são desconhecidas, não podendo ser definidas de antemão, e em que as forças actuantes mais dificilmente ainda podem ser determinadas? Nunca ninguém soube nem nunca ninguém poderá saber qual a posição do nosso exército e a do inimigo dentro de vinte e quatro horas e qual a acção deste ou daquele destacamento. Partindo do princípio de que na primeira fileira, em vez de um poltrão que debande a gritar: ’Estamos cortados!’ se ouve, em seu lugar, um moço, valente e decidido, gritando ’Hurra!, aí temos como um destacamento de cinco mil homens vale mais de que um corpo de exército de trinta mil. Esse o caso de Schöngraben. O que não impede que, noutra altura, cinquenta mil homens debandem diante de oito mil. Assim acontecera em Austerlitz. Como falar em ciência numa matéria em que, como sucede com todas as coisas da vida prática, nada pode ser previsto antecipadamente e tudo depende de circunstâncias imponderáveis cuja importância surge de um momento para o outro, sem que ninguém saiba quando chegará a sua hora? Armfeld sustenta que, o nosso exército está cortado: Paulucci, pelo contrário, afirma que colocámos o exército francês entre dois fogos; Michaux diz que o campo entrincheirado de Drissa é desvantajoso, pois o no lhe fica na retaguarda, enquanto Pfuhl mantém ser precisamente isso que lhe dá força. Toll propõe um plano, Armfeld propõe outro.

«Todos estes planos são igualmente bons e igualmente maus e as vantagens de cada um deles não podem tornar-se evidentes senão no próprio momento em que os acontecimentos vierem a cumprir-se. Porque falta então toda a gente em génio militar? Será génio aquele que saiba abastecer a tempo de biscoitos o exército e envie Fulano para a direita e Sicrano para a esquerda? A verdade é esta: os génios militares são brilhantes e poderosos e há uma multidão de cobardes sempre pronta a lisonjear o poder, chamando a tais homens génios e atribuindo-lhes qualidades extraordinárias. Em vez de génios, os melhores generais que eu conheci eram estúpidos ou pouco sérios. Bagration, por exemplo, o melhor de todos, como o próprio Napoleão o reconheceu. E Bonaparte? Lembro-me perfeitamente da sua máscara cheia de suficiência na batalha de Austerlitz. Um bom militar nem precisa de ser génio nem de ter qualidades especiais. Pelo contrário, deve ser desprovido do que há de melhor e de mais elevado no homem: o amor, a poesia, a ternura, a dúvida filosófica, filha da experiência. Deve ser limitado, estar persuadido de que é de alta importância tudo quanto faz. De outro modo faltar-lhe-á a persistência; só assim será um valoroso capitão. Que Deus o de — fenda de amar alguém, de se afeiçoar seja a quem for, de ser compadecido, de pensar no que é justo e no que o não é. Compreende-se que desde tempos imemoriais se tenha inventado para galardão seu a teoria do génio, pois, em verdade, representa o poder. O êxito ou o desaire de uma acção militar não podem ser-lhe atribuídos, mas ao soldado que nas fileiras grita: ’Estamos perdidos!’ ou então exclama ’Hurra!’ Somente nas fileiras um homem pode servir convencido de que é útil!»

Assim pensava o príncipe André enquanto ouvia as discussões e só deu por si quando todos se levantaram e Paulucci o chamou. No dia seguinte, durante a revista, o imperador perguntou a André onde desejava prestar serviço. E foi então que ele para sempre perdeu os seus créditos junto da corte pedindo que o deixassem prestar serviço na frente de batalha, em lugar de se deixar ficar na comitiva do soberano.

[XII]

Antes do princípio da campanha, Rostov recebera uma carta dos pais onde estes o informavam sumariamente da doença de Natacha e do seu rompimento com o príncipe André, rompimento que lhe explicaram como tendo sido provocado pela irmã, e de novo lhe rogavam que pedisse baixa do exército e voltasse para junto deles. Nicolau, quando recebeu esta carta, não tentou sequer obter licença ou autorização para deixar a tropa, e escreveu aos pais a dizer-lhes estar muito zangado por causa da doença de Natacha e do malogro do seu noivado, e que faria todo o possível para cumprir os desejos deles. A Sónia escreveu separadamente:

Adorada amiga do meu coração.

Nada, a não ser a honra, me impediria de regressar a

casa. Mas neste momento, na altura em que se inicia u campanha, considerar-me-ia desonrado, não só perante os meus camaradas mas aos meus próprios olhos, se preferisse a minha felicidade ao meu dever e ao meu amor pela pátria. Esta será, porém, a nossa última separação, podes crer: assim que a guerra acabar e se eu for vivo e tu ainda me quiseres, deixarei tudo e correrei a apertar-te para sempre contra o meu coração fervoroso e apaixonado.

E, com efeito, só o início da campanha retivera Rostov e o impedira, como prometera, de voltar a casa para casar com Sónia.

O Outono em Otradnoie, com as suas caçadas, o Inverno, com as suas festas do Natal, e o amor de Sónia prometiam-lhe toda uma perspectiva de serenas alegrias e o, sossego de uma fidalga vida que ele outrora não conhecera e tanto o seduzia agora. «Uma esposa dedicada, filhos, uma boa matilha de cães com dez ou doze casais de vigorosos galgos, os trabalhos agrícolas, os vizinhos e as funções que competem à nobreza...», pensava Nicolau.

Mas havia guerra e impunha-se-lhe ficar no regimento. E como tinha de ser, Nicolau Rostov, por índole, parecia satisfeito com a vida assim que levava no exército, procurando torná-la agradável.

No regresso da licença fora acolhido com grande alegria pelos camaradas. E, encarregado da remonta, trouxera consigo da Pequena Rússia óptimos cavalos, que muito o entusiasmaram e lhe mereceram as felicitações dos chefes. Durante a ausência fora promovido a capitão e quando o regimento foi colocado em pé de guerra, com os efectivos reforçados, deram-lhe o comando do seu antigo esquadrão.

A campanha principiou, o regimento foi enviado para a Polónia, dobraram os soldos, chegaram novos oficiais, praças novas, cavalos, e especialmente passou a reinar na tropa a animação de todas as novas campanhas. Rostov, que apreciava as vantagens da sua posição, entregou-se inteiramente aos prazeres e aos deveres do serviço militar, sabendo perfeitamente que mais tarde ou mais cedo teria de abandonar o exército.

As tropas tinham evacuado Vilna por diversas e complicadas razões: razões de Estado, razões políticas e tácticas. Cada passo à retaguarda era pretexto para toda uma rede de complicações de interesses, de combinações, e todo um jogo de paixões do estado-maior. Para os hússares do regimento de Pavlogrado esta retirada, na melhor estação do ano, com abastecimentos em abundância, não passava de uma agradável excursão. Tudo quanto fossem tristezas, inquietações, intrigas, era com o quartel-general no seio do exército ninguém perguntava para onde iam e qual o motivo daquela retirada.

A única coisa que levava a tropa a lamentar ter de bater em retirada era o facto de se ver obrigada a mudar do alojamento a que estava afeita, renunciando à bela polaca local. Se porventura algum dos oficiais se lembrava de pensar que as coisas não corriam bem, logo tratava de se sentir alegre, como é próprio de todo o bom soldado, e não pensava na situação geral, preocupando-se exclusivamente com as suas ocupações imediatas. De princípio estiveram alegremente acantonados em volta de Vilna, travando conhecimento com os proprietários polacos e preparando-se constantemente para as revistas que eram passadas pelo imperador e outros altos postos militares.

Depois vieram ordens para retirarem sob Sventsiany e destruírem os abastecimentos que não fosse possível transportar. Sventsiany ficou memorável para os hússares, pois esse acampamento veio a ser conhecido por todo o exército pelo «campo dos borrachos», sendo muitas as queixas que se receberam por virtude de as tropas, que tinham ordem para se abastecer junto dos habitantes, haverem requisitado aos proprietários polacos, em matéria de abastecimentos, cavalos, equipagens e tapetes. Rostov lembrava-se muitíssimo bem de Sventsiany. No próprio dia da chegada vira-se obrigado a meter na ordem o sargento, nada podendo conseguir dos soldados do seu esquadrão, que se tinham emborrachado, bebendo cinco barris de cerveja velha roubada. Depois de Sventsiany cada vez recuava mais até ao Drissa, e ainda para além do Drissa, aproximando-se das fronteiras russas.

A 13 de Julho, pela primeira vez, o regimento de Pavlogrado tomou parte numa operação séria.

A 12, pela noite, levantou-se uma grande tempestade com forte chuva e granizo. O Estio de 1812 foi particularmente assinalado por numerosas tempestades.

Dois esquadrões do regimento de Pavlogrado acampavam numa seara de cevada pisada pelos homens e pelo gado. Chovia a cântaros, e Rostov, mais o moço oficial Iline de nome, a quem tomara sob a sua protecção, abrigaram-se numa cabana construída ao deus-dará.

Um oficial do regimento, de grandes bigodaças, que regressava do quartel-general e fora surpreendido pela chuva, entrou no abrigo de Rostov:

— Acabo de chegar do estado-maior, conde. Já ouviu falar da façanha de Raievski?

E o oficial pôs-se a contar o que soubera acerca da batalha de Saltanovka.

Rostov, voltando o pescoço, onde a chuva penetrava, fumava o seu cachimbo e ouvia, com ar distraído, olhando de vez em quando para Iline, todo encolhido junto dele. Este oficial, um rapazote dos seus dezasseis anos chegado havia pouco ao regimento, era agora tratado por Nicolau como ele o fora, anos antes, por Denissov. Iline fazia por imitar Rostov em tudo e dir-se-ia enamorado dele como uma mulher.

O oficial da bigodaça, Zdrzinski, contava, enfático, como o dique de Saltanovka era agora as Termópilas russas e como o general Raievski aí realizara uma façanha digna da antiguidade. Raievskl, sob intenso fogo inimigo, conduzira os seus dois filhos até ao dique e lançara-se na batalha com eles a seu lado. Rostov escutava o relato não só sem uma palavra que encorajasse o narrador, mas inclusivamente com uma cara que dir-se-ia envergonhada pelo que ouvia, embora nada tivesse que objectar. Depois de Austerlitz e da campanha de 1807, sabia, por experiência própria, que quem conta um episódio militar nunca fala inteiramente verdade, como com ele próprio acontecera então. Além disso, já era bastante experimentado na guerra para saber que nada se passa no campo de batalha como as pessoas o imaginam ou como é costume virem a contá-lo mais tarde. Por tudo isso, não lhe agradava o relato e também porque não morria de amores por Zdrzinski, que, com as suas bigodaças, tinha o péssimo costume de se debruçar sobre o interlocutor, estando a ocupar muito espaço na acanhada choupana. Rostov olhava para ele sem dizer palavra. «Em primeiro lugar, no dique em que se deu o ataque deve ter-se produzido uma tal barafunda e uma tal compressão que mesmo ainda que Raievski tivesse levado consigo os filhos, esse acto apenas poderia ter impressionado os dez ou doze homens que o rodeavam», pensava Rostov. «Os outros não podiam ter visto com quem é que Raievski pusera os pés no dique. E aqueles que porventura o tivessem visto não deviam ter sentido uma impressão por aí além, pois a verdade era esta: que lhes importavam a eles os sentimentos paternais do general, quando eles próprios estavam a dar o corpo ao manifesto? E depois, o destino da pátria não dependia da tomada de tal dique. Não vinha, pois, a propósito falar-se das Termópilas. E para que servia aquele sacrifício? Que ideia era aquela de arriscar a pele dos próprios filhos no campo de batalha? Eu, por mim, nunca me lembraria de expor assim roeu irmão Pétia, nem mesmo Iline, que não é meu parente, embora seja um belo moço. Pelo contrário, tudo faria para o deixar em lugar seguro. E Rostov assim ia pensando enquanto Zdrzinski falava, embora não lhe passasse pela cabeça dizer a alguém o que lhe ocorria naquele momento: a sua experiência pessoal dizia-lhe que era inútil. Sabia que todas aquelas histórias tinham por fim a glorificação dos exércitos russos; por isso o melhor era não pô-las em dúvida. E eis o que estava a fazer.

— Já não posso mais! — disse, por fim, Iline, que percebera que a algaraviada de Zdrzinski não agradava a Rostov. — As botas, a camisa, estou todo a escorrer. Vou tratar de arranjar outro abrigo. Parece-me que a chuva está a passar.

Iline abalou e Zdrzinski abalou também.

Cinco minutos depois já Iline estava de volta, patinhando na lama.

— Hurra! Rostov, despacha-te! Encontrei! A duzentos passos temos uma taberna, e os nossos já lá estão. Ao menos podemos enxugar a roupa. E está lá a Maria Henrikovna.

Maria Henrikovna era a mulher do médico do regimento: uma jovem e bonita alemã com quem ele se casara na Polónia. Ou porque não tivesse recursos para deixar a mulher em qualquer outra parte, ou porque não quisesse separar-se dela, nos primeiros tempos de noivado levava-a sempre consigo atrás do regimento, e os ciúmes que isso lhe causava tornaram-no motivo de troça entre a oficialidade.

Rostov embrulhou-se no capote, e, chamando Lavnichka, mandou que levasse as suas coisas para a taberna. E lá foi com Iline, patinhando na lama, debaixo da chuva, que ia passando, no meio das trevas da noite, de onde em onde iluminadas pelos relâmpagos longínquos.

— Rostov, onde estás tu?

— Aqui. Olha, isto é que são relâmpagos — iam dizendo um para o outro.

 

[XIII]

A kibitka do médico estacionava diante da porta da taberna, onde já estavam quatro ou cinco oficiais. Maria Henrikovna, uma lourita alemã, roliça de carnes, de casaco e de touca de dormir, estava sentada, em lugar de honra, num grande banco, O marido, o médico, dormia atrás dela. Rostov e Iline foram recebidos com joviais exclamações e grandes risadas. — Ena! Vocês estão muito alegres por estes sítios! — disse Rostov, rindo.

— E vocês, porque estão vocês aborrecidos?

— Ah!, vêm em bonito estado! Deitam água por todos os lados! Nada de inundar o salão.

— É proibido sujar o vestido de Maria Henrikovna.

Rostov e Iline trataram de descobrir um recanto onde pudessem mudar de roupa sem ofender o pudor da mulher do médico. Passaram para o outro lado do tabique, para aí se despirem, mas o cubículo, iluminado por uma candeia pousada em cima de uma arca vazia, estava inteiramente ocupado por três oficiais que jogavam as cartas e por nada deste mundo lhes quiseram ceder o lugar. Maria Henrikovna então ofereceu-lhes a saia, que tirou para esse fim, com que eles fizeram um reposteiro, atrás do qual, auxiliados por Lavruchka, que lhes trouxera um carregamento de roupa, despiram as fardas molhadas e vestiram outras enxutas.

Acenderam a estufa desmantelada, Depois arranjaram uma tábua, que colocaram sobre duas selas de montar, cobriram-na com a gualdrapa de um cavalo, puseram-lhe em cima um samovar, uma cantina e meia garrafa de rum, e, tendo pedido a Maria Henrikovna que fizesse as honras da casa, juntaram-se todos à sua volta. Um deles ofereceu-lhe o lenço de assoar para enxugar as roliças mãos: outro pôs-lhe debaixo do,—, pés, para os resguardar da humidade, o seu capote de hússar: um terceiro tapou a janela com o seu para não deixar entrar o vento, e um quarto deu-se a afugentar as moscas da cara do médico para ele não acordar.

— Deixem-no em paz — exclamou Maria Henrikovna, com um sorriso jovial e nada tímido. — Está a dormir, porque passou a, outra noite em claro.

— Impossível, Maria Henrikovna — replicou o oficial —, temos de ter cuidado com o doutor. Talvez seja a maneira de ele ter pena de nós quando for obrigado a cortar-nos um braço ou uma perna.

Só havia três copos. A água, de tão suja, tornara impossível saber se o chá estava forte ou fraco de mais, e no samovar apenas havia beberagem para seis copos. Contudo era uma satisfação para todos receber o seu copo, à vez, e por ordem de antiguidade, das mãos rechonchudas, de curtas unhas, e nada limpas, de Maria Henrikovna. Naquela noite dir-se-ia que todos os oficiais estavam realmente enamorados dela. Até os que se encontravam atrás do tabique a jogar as cartas acabaram por deixar o jogo, vindo juntar-se em volta do samovar, dispostos a fazer a corte a Maria Henrikovna. Ao ver-se rodeada de tantos moços distintos e corteses, a mulher do médico não cabia em si de contente, embora procurasse esconder essa satisfação e estivesse receosa de que o marido entretanto acordasse.

Havia apenas uma colher. O açúcar era de sobra, mas não se conseguia dissolvê-lo na beberagem. Foi por isso resolvido ser ela a mexer o açúcar de todos, cada um por sua vez. Rostov, depois de ter deitado rum num copo, pediu a Maria Henrikovna que lhe mexesse o chá.

— Mas o senhor não tem açúcar — exclamou ela, sorrindo sempre, como se tudo o que ela, dizia ou o que os demais diziam fosse engraçadíssimo e se prestasse a um segundo sentido.

— Não preciso de açúcar, o que eu queria era vê-la a mexer o meu chá com a sua linda mãozinha.

Maria Henrikovna acedeu e pôs-se à procura da colher de que alguém se havia apropriado.

— Mexa com o seu dedinho, Maria Henrikovna — disse Rostov —, ainda será mais gostoso.

— Mas está muito quente! — protestou ela, toda ruborizada de satisfação.

Iline pegou num jarro de água, deitou-lhe dentro algumas gotas de rum e aproximou-se de Maria Henrikovna, a quem pediu que o mexesse com o dedo.

— É a minha chávena — disse ele. Ponha lá o seu dedinho que eu bebo tudo.

Unia vez despejado o samovar, Rostov pegou nas cartas e propôs-se jogar aos reis com Maria Henrikovna. Tiraram à sorte, para ver quem seria o parceiro dela. Rostov propôs, e foi aceite, que quem fosse rei teria o direito de beijar a mão de Maria Henrikovna e aquele que perdesse seria obrigado a preparar um novo samovar para o médico, quando este acordasse.

— E se o rei for Maria Henrikovna? — perguntou Iline.

— Já é rainha! E uma ordem sua é uma lei.

Assim que principiou o jogo, por detrás de Maria Henrikovna ergueu-se a cabeça toda esguedelhada do médico. Havia algum tempo já que estava acordado, ouvindo o que se dizia. E via-se perfeitamente que aqueles ditinhos alegres nada tinham, para ele, de engraçado ou divertido. Era triste e aborrecida a sua expressão. Sem saudar os oficiais, coçou a cabeça e pediu licença para sair, pois vedavam-lhe o caminho. Mal ele desapareceu, todos romperam num estrondoso riso, o que fez com que Maria Henrikovna corasse muito, razão por que ainda ficou mais atraente aos olhos dos companheiros. Quando voltou a entrar, o médico disse à mulher, a qual perdera a vontade de rir e o olhava como se aguardasse, ansiosamente, a sentença que ele ia lavrar, que deixara de chover e que era melhor irem dormir para a kibitka, pois de outra maneira lhe roubariam as suas coisas.

— Se quiser mandarei uma sentinela... até duas — disse Rostov. — Não se preocupe, doutor.

— Eu próprio me encarrego de fazer de sentinela! — acrescentou Iline.

— Não, meus senhores, os senhores dormiram bem, mas eu há duas noites que não prego olho — disse o médico, sentando-se de má catadura ao pé da mulher, à espera que a partida acabasse.

O aspecto carrancudo do médico, que olhava a mulher de soslaio, ainda lhes tornou a cena mais divertida, e alguns deles não puderam reter o riso, rompendo em gargalhadas para que buscavam justificações adrede. Quando o médico e a esposa foram alojar-se na pequenina kibitka, os oficiais deitaram-se no chão, cobrindo-se com os capotes molhados. Mas muito tempo levaram antes que adormecessem: ora se punham a comentar o ar carrancudo do médico e a jovialidade da mulher, ora vinham à porta espreitar o que se estava passando dentro da kibitka.

Por várias vezes, Rostov, cobrindo a cabeça, tentara dormir, mas os ditos deste e as saídas daquele não lho consentiam, e as conversas recomeçavam, bem como as gargalhadas infantis, joviais, sem tom nem som, que rompiam de todos os lados.

 

[XIV]

As três horas da manhã, ainda não tinham conseguido conciliar o sono, apareceu um sargento com ordem de retirarem imediatamente para a aldeia de Ostrovno.

Sem deixarem de palestrar e de rir, fizeram os oficiais apressadamente os preparativos da partida, e de novo acenderam o samovar, metendo-lhe dentro a mesma água suja. Rostov, sem aguardar que o chá estivesse pronto, tratou de abalar para o esquadrão. Já era dia, deixara de chover, as nuvens abriam clareiras no céu. Sentia-se frio e humidade, sobretudo os que tinham em cima, do corpo roupas mal secas. Quando saíram da taberna, Rostov e Iline, ao passarem, lançaram um olhar, através da semi-obscuridade da madrugada, às cortinas de couro da kibitka, todas reluzentes da chuva, por baixo das quais se estiraçavam as longas pernas do médico, e para o seu interior, onde se descortinava, numa almofada, a touca de noite de Maria Henrikovna, ouvia-se lá dentro ressonar.

— Realmente, é uma linda mulher — disse Rostov para Iline.

— É encantadora! — replicou Iline, com a gravidade dos seus dezasseis anos.

Meia hora mais tarde estava o esquadrão alinhado na estrada. A voz de comando «Montar!» ressoou. Os soldados persignaram-se e montaram a cavalo. Rostov tomou o comando da coluna e gritou: «Marchar!» Os hússares, quatro a quatro, no meio do estrépito das patas dos cavalos na lama da estrada, do entrechocar dos sabres e do rumor das conversas surdas, puseram-se a caminho ao longo da ampla estrada orlada de álamos, atrás da infantaria e da artilharia, que caminhavam na vanguarda.

O vento varria rapidamente as nuvens de um azul-violáceo, todas avermelhadas lá para os lados donde nascia o Sol. Ia clareando cada vez mais. Via-se agora nitidamente a erva rasteira e frisada que corre sempre ao lado das estradas vicinais e que estava toda repassada da chuva da véspera. Os ramos dos álamos, todos molhados também, balançando ao vento, despediam gotas de água brilhantes. As caras dos soldados desenhavam-se cada vez mais distintamente. Rostov, com Iline, que o não deixava um só momento, cavalgava, ao longo da berma da estrada, entre duas fileiras de álamos.

Continuar: parte 4 de 5