Joseph Anton: Memórias
2. “Originais não queimam”
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
A prim eira am eaça pelo correio chegou à sua casa em Londres. O Evening Standard inform ou a respeito de um a am eaça islâm ica global de “destruir a Penguin”. O fam oso advogado David Napley exigiu que ele fosse j ulgado de acordo com a Lei da Ordem Pública. Ele e Clarissa levaram Zafar para ver os fogos de artifício da Noite de Guy Fawkes em Highbury Fields. Marianne fez 41 anos, e na hora do alm oço ele foi à cerim ônia de entrega do Whitbread Prize. À tarde ela brigou com ele. Estava oculta na som bra dele, disse, e odiava essa situação. Naquela noite, ainda aborrecidos um com o outro, foram assistir à peça Mountain language, de Harold Pinter, no National Theater. Ele saiu do teatro sentindo que, tal com o os personagens da peça, tam bém estava sendo proibido de usar sua linguagem . Sua linguagem era inadequada, até crim inosa. Ele deveria ser j ulgado num tribunal, expulso da sociedade, até m orto. Tudo isso era legítim o por causa de sua linguagem . O crim e era a linguagem da literatura.
Passara-se um ano desde a m orte de seu pai. Ele estava feliz com o fato de Anis não estar ali para ver o que estava acontecendo ao filho. Ligou para a m ãe. Negin deu-lhe todo apoio, essa gente horrível, disse, m as, estranham ente, defendeu Deus. “Não culpe Alá pelo que essa gente diz.”
* * *
Ele discutiu com ela. Que espécie de deus podia ser inocentado dos atos de seus seguidores? De certa form a, não era infantilizar a divindade dizer que ela era im potente contra os fiéis? Ela teim ou. “Não é culpa de Alá.” Disse que iria orar por ele. Ele ficou chocado. Essa não era a fam ília que ele conhecera. Seu pai tinha m orrido havia som ente um ano, e de repente sua m ãe estava rezando? “Não reze por m im ”, disse ele. “Você não entende? Nosso tim e não faz isso.” Ela riu, m as não entendeu o que ele estava dizendo.
Chegou-se a um a solução, ainda que insatisfatória, para o problem a da África do Sul. Ele concordou em participar da conferência do Weekly Mail por telefone. Sua voz chegou à África do Sul, suas ideias foram ouvidas num salão em Johannesburgo que ele não viu, sem que ele saísse de Londres. Melhor que nada.
O grande xeique de al-Azhar, Gad el-Haq Ali Gad el-Haq: o nom e lhe parecia quase absurdam ente antiquado, um nom e de As mil e uma noites, do tem po dos tapetes voadores e das lâm padas m aravilhosas. Esse grande xeique, um a das m aiores em inências da teologia islâm ica, um clérigo conservador linha-dura afiliado à Universidade al-Azhar, no Cairo, proferiu pessoalm ente, em 22 de novem bro de 1988, um a declaração contra o livro blasfem o. Deplorou a form a com o “m entiras e fábulas im aginativas” eram apresentadas com o fatos. Pediu aos m uçulm anos britânicos que tom assem m edidas legais contra o autor. Instou por atos concretos por parte da Organização da Conferência Islâm ica, um a entidade de 46 m em bros. Os versos satânicos não foi o único livro contra o qual ele investiu, pois aproveitou a oportunidade para renovar suas obj eções a um rom ance do grande escritor egípcio, laureado com o Nobel, Naguib Ma hf ouz, Children of Gebelawi — tam bém acusado de blasfêm ia porque sua narrativa contem porânea era um a alegoria da vida de profetas, de Abraão a Maom é. “Não se pode perm itir que um rom ance entre em circulação só porque seu autor ganhou o prêm io Nobel de literatura”, afirm ou. “Esse galardão não j ustifica a propagação de ideias equivocadas.”
Tam pouco Gad el-Haq Ali Gad el-Haq foi o único xeique egípcio a se dizer ofendido por esses livros e seus autores. O cham ado Xeique Cego, Om ar Abdel-Rahm an, posteriorm ente preso por seu envolvim ento no prim eiro ataque ao World Trade Center, em Nova York, declarou que, se Mahfouz tivesse sido punido, com o deveria, por Children of Gebelawi, Rushdie não teria se atrevido a publicar Os versos satânicos. Em 1994, um de seus seguidores, entendendo essa declaração com o um a fatwa, esfaqueou Naguib Mahfouz no pescoço. Felizm ente, o idoso rom ancista sobreviveu. Logo depois da fatwa de Khom eini, Mahfouz saiu em defesa de Os versos satânicos, denunciando o ato do aiatolá com o “terrorism o intelectual”, porém depois passou para o outro lado, asseverando que “Rushdie não tinha o direito de insultar coisa algum a, principalm ente um profeta ou qualquer coisa considerada sagrada”.
Nom es quase m itológicos o acossavam agora — grandes xeiques e xeiques cegos, os sem inaristas de Darul Uloom , na Índia, os m ulás wahabitas da Arábia Saudita (onde o livro tam bém fora proibido), e, passado pouco tem po, os teólogos iranianos de turbantes em Qom . Ele nunca dera m uita atenção a esses augustos personagens, m as era evidente que, agora, a recíproca não era verdadeira. De form a rápida e im placável, o m undo da religião estava definindo os term os do debate. O m undo secular, m enos organizado, m enos unido e, essencialm ente, m enos interessado, estava ficando m uito atrás. E com isso, um terreno enorm e, vital, foi perdido sem luta.
Enquanto as m anifestações dos fiéis cresciam em núm ero, tam anho e clam or, o escritor sul-africano Paul Trewhela, num ensaio coraj oso em que defendeu o autor e seu rom ance a partir de um a posição de esquerda e em term os absolutam ente seculares, qualificou a cam panha islâm ica com o um a “explosão de irracionalism o popular em m assa”. Essa form ulação im plicava um a pergunta interessante e difícil para a esquerda: com o reagir quando as m assas agiam de form a irracional? Podia “o povo” estar errado? Para Trewhela, “o que estava em questão era a tendência secularizante do rom ance [...] sua intenção (diz Rushdie) de ‘discutir Maom é com o se fosse hum ano’”, e ele com parava esse proj eto com o dos Jovens Hegelianos na Alem anha, nas décadas 1830 e 1840, e com a crítica que faziam ao cristianism o, sua crença de que — nas palavras de Marx — “o hom em faz a religião, e não a religião faz o hom em ”. Em defesa de Os versos satânicos , ele dizia que o livro pertencia à tradição literária antirreligiosa de Boccaccio, Chaucer, Rabelais, Aretino e Balzac, e propunha um a vigorosa reação secularista ao ataque religioso. “O livro não será silenciado”, escreveu. “Estam os vendo o nascim ento, doloroso, sangrento e difícil, de um novo período de ilum inism o revolucionário.”
Havia m uita gente na esquerda — Germ aine Greer, John Berger, John le Carré — para quem a ideia de que as m assas pudessem errar era inaceitável. E, enquanto a opinião liberal hesitava e tergiversava, o m ovim ento de irracionalism o popular de m assa crescia, a olhos vistos, em irracionalidade — e em popularidade.
Ele era um dos signatários da Carta 88, docum ento cuj o nom e (que alguns com entadores conservadores j ulgavam “presunçoso”) fazia referência à fam osa Carta 77, divulgada por intelectuais tchecos dissidentes onze anos antes. A Carta 88 defendia um a reform a constitucional na Grã-Bretanha, e foi lançada num a entrevista coletiva na Câm ara dos Com uns, no fim de novem bro. O único político britânico de prim eira linha que com pareceu à reunião foi o trabalhista Robin Cook, que no futuro seria secretário do Exterior. O período m arcou o apogeu do thatcherism o, e o líder dos trabalhistas, Neil Kinnock, havia, em particular, tachado os propugnadores da Carta 88 com o um bando de “bestas, bobocas e burros”. Não estavam em tram itação proj etos de reform a constitucional naquele tem po, antes que os debates sobre a Devolução trouxessem tantas m udanças para a política britânica. Cook estava lá por causa de sua dedicação à Devolução no caso da Escócia.
Onze anos depois, o relacionam ento am istoso criado naquele dia levaria, indiretam ente, à resolução da crise internacional que cercou Os versos satânicos. Seria Robin Cook que, com o titular do Foreign Office no governo Blair, tom ou a peito resolver o problem a; coube a ele, com seu vice, Derek Fatchett, lutar pela reviravolta e obtê-la.
O ano acabou m al. Em 2 de dezem bro houve um a m anifestação contra Os versos satânicos em Bradford, Yorkshire, cidade de m aior população m uçulm ana na Grã-Bretanha. No dia 3, Clarissa recebeu seu prim eiro telefonem a com am eaças. No dia seguinte, quando ela fazia quarenta anos, houve outro. Um a voz disse: “Vam os pegar você hoj e à noite, Salm an Rushdie, na Burm a Road, 60”. Esse era o endereço dela. Ela cham ou a polícia, que passou a noite toda vigiando a casa.
Nada aconteceu. Mas a tensão aum entou m ais um pouco.
Em 28 de dezem bro houve outro alarm e de bom ba nos escritórios da Penguin. Andrew Wy lie telefonou para lhe contar. “O m edo está com eçando a ser um problem a”, disse.
Isso foi em 1989, o ano em que o m undo m udou.
No dia em que queim aram seu livro, ele levou sua m ulher, am ericana, para conhecer Stonehenge. Ouvira falar da m anifestação program ada em Bradford, e algum a coisa nele reagiu com violência. Não queria ficar esperando o dia inteiro para ver o que aconteceria e depois enfrentar as inevitáveis perguntas de repórteres, com o se não tivesse nada m elhor a fazer que explicar o horror de cada dia. Debaixo de um céu cor de chum bo, partiram para as pedras antigas. Geoffrey de Monm outh disse que Stonehenge fora obra de Merlin. Geoffrey não era um a fonte em que se pudesse confiar, é claro, m as sua explicação era m ais atraente do que a dos arqueólogos — o lugar seria um antigo cem itério ou um santuário de cultos druidas. Dirigindo velozm ente, ele não estava com espírito para druidas. Cultos religiosos, grandes ou pequenos, eram coisa do lixo da história, e ele queria que alguém os pusesse lá, j unto com o resto das infantilidades da hum anidade, com o a terra plana, por exem plo, ou a lua feita de queij o.
Marianne estava num de seus m elhores dias. Havia ocasiões em que seu rosto irradiava um fulgor quase alarm ante, em que sua intensidade habitual atingia níveis fora do com um . Ela era de Lancaster, Pensilvânia, m as nada havia de amish nela. Tinha um estilo pessoal extravagante. Foram convidados para um garden party real no palácio de Buckingham , e ela havia usado um a com binação preta brilhante em vez de um vestido, com um bolero e um chapeuzinho reto, sem abas. Apesar da insistência da filha, ela se recusara a usar sutiã. Ele percorreu os j ardins do palácio com sua m ulher, com roupa de baixo e sem sutiã. Os m em bros da fam ília real, com roupas de cores prim árias, estavam cercados por hordas de convidados, com o cavalos de corrida, cada qual em seu paddock pessoal. Os grupos em torno da rainha e de Charles-Diana eram , de longe, os m aiores. Já o fã-clube da princesa Margaret era constrangedor de tão pequeno. “Fico m e perguntando”, disse Marianne, o que a rainha leva na bolsa.” O com entário foi engraçado, e eles passaram alguns m om entos felizes im aginando o conteúdo da bolsa real. Spray de pim enta, talvez. Ou tam pões. Dinheiro, evidentem ente, não. Nada que tivesse sua efígie.
Quando Marianne estava com a corda toda, era bom estar com ela. Sua vivacidade, seu espírito eram incríveis. Fazia anotações aonde quer que fosse, e sua caligrafia era tão extravagante quanto ela. Às vezes ele se espantava com a rapidez com que ela transform ava experiências em ficção. Quase não havia pausa para reflexão. Histórias derram avam -se dela, e as situações de um dia viravam frases no dia seguinte. E, quando o fulgor ilum inava seu rosto, ela ficava incrivelm ente atraente, ou delirante, ou as duas coisas. Ela lhe disse que todas as m ulheres em sua ficção com nom es com eçados com a letra M eram versões de si m esm a. No rom ance que ela publicou antes de John Dollar, um livro de que ele gostava e que se cham ava Separate checks, a personagem principal tinha com o sobrenom e McQueen: Ellery McQueen, lem brando o escritor de livros policiais. O verdadeiro Ellery Queen fora, na verdade, dois prim os do Brookly n, cham ados Frederic Dannay e Manfred Bennington Lee, que, aliás, tam bém eram pseudônim os, pois seus nom es reais eram Daniel Nathan e Em anuel Lepofsky. O nom e da personagem de Marianne era um a brincadeira baseada no nom e literário de um a dupla de escritores que usavam esse pseudônim o para não expor nom es que, por sua vez, tam bém eram pseudônim os. A Ellery McQueen de Separate checks estava internada num hospital psiquiátrico particular. Sua m ente estava desequilibrada.
Em Bradford, um a m ultidão estava se reunindo diante da delegacia de polícia no Ty rls, um a praça onde tam bém ficavam o prédio da prefeitura, em estilo italiano, e o tribunal. Havia um tanque com chafariz e um a área cham ada de “canto dos oradores”, onde as pessoas podiam falar sobre o que bem entendessem , m as os m anifestantes m uçulm anos não estavam interessados em discursos feitos em cim a de caixotes. O Ty rls era um local m ais m odesto do que fora a praça da Ópera, em Berlim , em 10 de m aio de 1933, e em Bradford apenas um livro estava em questão, não 25 m il ou m ais; pouquíssim as das pessoas ali reunidas saberiam algum a coisa a respeito do evento presidido, m ais de 55 anos antes, por Joseph Goebbels, que gritara “Não à decadência e à corrupção m oral! Sim à decência e à m oralidade na fam ília e no Estado! Atiro às cham as os textos de Heinrich Mann, Ernst Gläser, Erich Kästner”. Obras de Bertolt Brecht, Karl Marx, Thom as Mann e até de Ernest Hem ingway tam bém tinham sido queim adas nesse dia. Não, os m anifestantes nada sabiam daquela fogueira ou do desej o dos nazistas de “expurgar” ou “purificar” a cultura alem ã de ideias “degeneradas”. Talvez tam bém não estivessem a par do term o auto de fé ou das atividades da Inquisição católica, m as, m esm o que carecessem de conhecim entos de história, ainda assim eram parte dela. Tam bém tinham ido ali para destruir pelo fogo um texto herético.
Ele e Marianne cam inharam entre as pedras daquilo que ele queria im aginar com o sendo o m onum ento m egalítico de Merlin, e durante cerca de um a hora o presente passou sem que ele percebesse. Ele pode até ter andado de m ãos dadas com a m ulher. No cam inho de casa, passaram pela Runny m ede, a planície, j unto do Tâm isa, onde os nobres obrigaram o rei João a assinar a Magna Carta. Foi ali que os britânicos com eçaram a se livrar de governantes tirânicos, havia 774 anos. Fica ali tam bém o m onum ento britânico a John F. Kennedy, e as palavras do presidente assassinado, gravadas em pedra, calaram fundo em seu coração naquele dia. Saibam todas as nações, as que nos querem bem e as que nos querem mal: estamos prontos a pagar qualquer preço, suportar todo fardo, enfrentar todas as dificuldades, apoiar qualquer amigo e nos opor aqualquer inimigo para garantir a sobrevivência e o sucesso da liberdade.
Ele ligou o rádio do carro, e a queim a do livro em Bradford era a principal notícia do dia. Logo chegaram em casa, e o presente se im pôs. Ele viu na televisão o que passara o dia tentando evitar. Houvera cerca de m il m anifestantes, todos hom ens. Tinham no rosto um a expressão de fúria, ou, para serm os m ais precisos, faziam caretas de fúria para as câm eras. Dava para ver em seus olhos a euforia que sentiam com a presença da im prensa m undial. Era a euforia da celebridade, daquilo que Saul Bellow cham ara de “glam our da ocasião”. A luz dos refletores era gloriosa, quase erótica. Carregavam cartazes que diziam rushdie não presta e rushdie, engula suas palavras. Estavam prontos para o close-up.
Um exem plar do rom ance tinha sido pregado num pau e depois queim ado: crucificado e im olado. Era um a im agem que ele não conseguia esquecer: os rostos felizes de raiva, exultantes de raiva, convictos de que sua identidade brotava da raiva. E, no prim eiro plano, um hom em cheio de si, com um chapéu de feltro e um bigodinho à la Poirot. Era um vereador de Bradford, Moham m ad Aj eeb — a palavra ajeeb, estranham ente, em urdu significava estranheza —, que dissera à m ultidão: “O islã é um a religião de paz”.
Ele olhava para seu livro queim ando e pensava, naturalm ente, em Heine. Entretanto, para os hom ens e rapazes raivosos de Bradford, Heinrich Heine nada significava. Dort, wo man Bücher verbrennt, verbrennt man am Ende auch Menschen. (Onde se queim am livros por fim tam bém se queim arão hom ens.) Essa frase de Almansor, escrita profeticam ente m ais de um século antes das fogueiras nazistas, fora m ais tarde gravada na Berlin Opernplatz, local daquela velha queim a de livros pelos nazistas. Seriam essas palavras gravadas tam bém , um dia, na calçada do Ty rls para recordar aquele evento, m uito m enor, m as ainda assim vergonhoso? Não, ele pensou. Muito provavelm ente, não. Ainda que o livro queim ado em Almansor fosse o Corão, e os queim adores de livros, m em bros da Inquisição.
Heine era um j udeu convertido ao luteranism o. Um apóstata, diriam alguns, os dados a esse tipo de linguagem . Tam bém ele estava sendo acusado de apostasia, entre m uitos outros delitos: blasfêm ia, insulto, inj úria. Foram os judeus que o levaram a fazer isso, diziam . Seu editor era judeu e pagou a ele para fazer isso. Sua mulher, judia, lhe deu a ideia. Isso chegava a ser engraçado. Marianne não era j udia; e, do j eito que estavam as coisas entre eles durante a m aior parte do tem po, ela não o teria convencido a esperar o sinal abrir antes de atravessar um a rua m ovim entada. Mas naquele dia, 14 de j aneiro de 1989, eles tinham esquecido seus problem as e se dado as m ãos.
Um adm irador desconhecido lhe m andara de presente um a cam iseta. blasfêm ia é um crim e sem vítim as. Mas agora a vitória do Ilum inism o parecia tem porária, reversível. A linguagem antiga fora renovada, ideias derrotadas estavam avançando. Em Yorkshire, tinham queim ado seu livro.
Agora, ele tam bém estava zangado.
“Com o é frágil a civilização”, ele escreveu no The Observer,
com que facilidade, com quanta alegria um livro é queim ado! Dentro de m eu rom ance,
seus personagens buscam tornar-se plenam ente hum anos ao enfrentar com coragem os
grandes fatos do am or, da m orte e (com ou sem Deus) a vida da alm a. Fora dele, as forças
da desum anidade estão em m archa. “Linhas de batalha estão sendo traçadas hoj e na
Índia”, diz um de m eus personagens. “Secular versus religioso, a luz versus as trevas. É
m elhor você escolher de que lado está.” Agora que a batalha chegou à Grã-Bretanha, só
posso esperar que não sej a perdida por inação. Está na hora de escolher.
Nem todos viam as coisas desse m odo. Houve m uitas atitudes evasivas, sobretudo por parte de m em bros do Parlam ento com grande núm ero de eleitores m uçulm anos. Um dos parlam entares de Bradford, Max Madden, j untam ente com Jack Straw, am bos com um digno histórico de defesa da liberdade de expressão, colocaram -se docilm ente do lado m uçulm ano do m uro, j untam ente com outros nom es com bativos do Partido Trabalhista, com o Roy Hattersley e Brian Sedgem ore. Defendendo a peça Perdition, de Jim Allen, Straw escrevera, em setem bro de 1988: “Sua ideia [...] é para m im repulsiva [...] m as ser dem ocrata consiste em conceder o direito de livre expressão àqueles de quem discordam os profundam ente”. Dessa vez, porém , Straw resolveu apoiar aqueles que queriam um a am pliação da lei de blasfêm ia de form a a cobrir todas as religiões (a lei de difam ação blasfem a do Reino Unido só protegia a Igrej a Anglicana) e proibir a circulação de textos que “afrontassem o sentim ento religioso”. (Apesar do que desej ava o sr. Straw, a lei da blasfêm ia foi abolida em 2008.) Max Madden se disse “triste” com o fato de “Rushdie ter intensificado os protestos com relação a Os versos satânicos ao se recusar a dar aos m uçulm anos algum direito de resposta (propus um a breve inserção [no rom ance] que perm itisse aos m uçulm anos explicar por que consideravam o livro de Rushdie insultuoso)”. Seu colega Bob Cry er, tam bém parlam entar por Bradford, opôs-se com ousadia aos m uçulm anos e nem por isso perdeu sua cadeira.
Max Madden o acusou de ser “reticente” em relação a um confronto com seus oponentes. Ele pegou um trem para Birm ingham a fim de participar de um debate no program a Daytime Live, da bbc, com um dos líderes m uçulm anos, Hesham el-Essawy, untuoso dentista da Harley Street que se apresentava com o um m oderado disposto apenas a acalm ar a situação tensa. Enquanto estavam no ar, form ou-se um a passeata diante do prédio da bbc, e os m anifestantes podiam ser vistos pelas j anelas de vidro às suas costas, gritando am eaças. A situação não m elhorou nem se acalm ou.
Um dia depois da queim a do livro em Bradford, a W. H. Sm ith, a m aior rede britânica de livrarias, retirou o livro das prateleiras de todas as suas 430 loj as. Seu diretor executivo, Malcolm Field, declarou: “Não desej am os, de m odo algum , ser vistos com o censores. O que querem os é proporcionar ao público o que ele desej a”.
A cada dia, m aior se tornava o abism o entre o “Salm an” privado que ele j ulgava ser e o “Rushdie” público que ele m al reconhecia. Um deles, Salm an ou Rushdie, ele próprio não sabia ao certo quem , consternava-se com o núm ero de políticos trabalhistas que, por oportunism o, dava força ao clam or m uçulm ano — afinal, durante toda a vida ele apoiara os trabalhistas — e notava com azedum e que “os verdadeiros conservadores da Grã-Bretanha encontram -se hoj e no Partido Trabalhista, enquanto todos os radicais vestem azul”.
Era difícil não adm irar a eficiência de seus inim igos. Mensagens eram enviadas, por fax e telex, de um país a outro, docum entos de um a página circulavam entre m esquitas e outras organizações religiosas, e dentro de m uito pouco tem po todo m undo entoava a m esm a m úsica. A m oderna tecnologia da inform ação estava sendo usada a serviço de ideias retrógradas: o m edieval fazia o m oderno voltar-se contra si m esm o, a serviço de um a visão de m undo que detestava a própria m odernidade — a m odernidade racional, sensata, inovadora, secular, desafiadora, a antítese da fé m ística, estática, intolerante, estultificante. A m aré m ontante do radicalism o islâm ico era descrita por seus próprios ideólogos com o um a “revolta contra a história”. A história, o progresso dos povos ao longo do tem po, era ela própria a inim iga, m ais que quaisquer infiéis ou blasfem adores. Mas o novo, que era a criação supostam ente desprezada da história, podia ser em pregado para reviver o poder do velho.
No entanto, além de adversários, surgiram tam bém aliados. Ele alm oçou com o sírio Aziz al-Azm eh, professor de estudos islâm icos na Universidade de Exeter, que nos anos seguintes escreveria algum as das m ais incisivas críticas ao ataque m ovido contra Os versos satânicos, bem com o algum as das m ais fundadas defesas, com base na tradição islâm ica, do rom ance. Conheceu a escritora Gita Sahgal, m ilitante fem inista e defensora dos direitos hum anos, filha da fam osa rom ancista indiana Nay antara Sahgal e sobrinha-neta de Jawaharlal Nehru. Gita era um a das fundadoras do grupo Mulheres Contra o Fundam entalism o, que tentou, coraj osam ente, opor-se aos m anifestantes m uçulm anos. Em 28 de j aneiro de 1989, cerca de 8 m il m uçulm anos desfilaram pelas ruas de Londres, reunindo-se no Hy de Park. Gita e suas colegas organizaram um a contram anifestação em desafio aos m anifestantes, sendo agredidas fisicam ente e até derrubadas no chão, em bora isso não as tenha detido.
Em 18 de j aneiro, Bruce Chatwin m orreu, em Nice, na casa de sua am iga Shirley Conran.
O rom ance estava para ser publicado nos Estados Unidos — a edição am ericana, bem bonita, chegou à sua casa — e houve am eaças de “assassinatos e desordem ” por parte de m uçulm anos am ericanos. Correu o boato de que havia um prêm io de 50 m il dólares por sua cabeça. Houve discussões acaloradas na im prensa, m as por ora a m aior parte dos com entários editoriais estava a seu favor. “Estou travando a batalha da m inha vida”, ele escreveu em seu diário, “e na sem ana passada com ecei a sentir que estou ganhando. Todavia, o m edo da violência perm anece.” Ao ler esse registro m ais tarde, ele se espantou com o otim ism o que dele transparecia. Mesm o nessa proxim idade com a am eaça vinda do Irã, ele não fora capaz de prever o futuro. De profeta, não tinha nada.
Ele com eçara a levar duas vidas: a vida pública da controvérsia e o que restava de sua vida privada. O dia 23 de j aneiro de 1989 assinalou o prim eiro aniversário de seu casam ento com Marianne. Ela o levou à ópera para assistir Madame Butterfly. Havia adquirido excelentes lugares na prim eira fila do balcão nobre e, no m om ento em que as luzes dim inuíram , a princesa Diana entrou e sentou-se ao lado dele. Ele ficou a se perguntar o que ela pensaria a respeito do enredo da ópera, sobre um a m ulher a quem o hom em , após prom eter-lhe am or, abandona-a e depois volta, j á casado com outra, para despedaçar-lhe o coração.
No dia seguinte, na cerim ônia de entrega do prêm io Livro do Ano Whitbread, seu rom ance, ganhador na categoria Melhor Rom ance, disputava o prêm io com quatro ganhadores em outras categorias, entre os quais a biografia de Tolstói, de A. N. Wilson, e The comforts of madness, o prim eiro rom ance de Paul Say er, ex-enferm eiro de um hospital psiquiátrico. Ele se encontrou com Say er no banheiro m asculino. O rapaz estava passando m al, tam anho era seu nervosism o, e ele tentou tranquilizá-lo. Um a hora depois, Say er ganhou o prêm io. Quando vazaram as inform ações sobre a decisão do j úri, ficou claro que dois dos j urados, Douglas Hurd, secretário do Interior do gabinete tóri, e o j ornalista conservador Max Hastings, haviam elim inado Os versos satânicos por m otivos não totalm ente literários. O barulho das m anifestações havia, por assim dizer, chegado até o j úri e exercido seu efeito.
Ele teve sua prim eira desavença com Peter May er e Peter Carson na Penguin, porque não estavam dispostos a contestar em j uízo a proibição do livro na Índia.
Graham Greene, que desej ava se encontrar com escritores de origem não britânica residentes em Londres, convidou-o para um alm oço. Ele foi a esse alm oço, no Reform Club, j unto com Michael Ondaatj e, Ben Okri, Hanan al-Shay kh, Wally Mongane Serote e alguns outros, entre os quais Marianne. Ao chegar lá, deu com Greene, enorm e, dobrado num a poltrona funda, m as o hom enzarrão pôs-se de pé com um salto e exclam ou: “Rushdie! Sente-se aqui e m e conte com o foi que você conseguiu causar tanta confusão! Eu nunca consegui criar um rolo desses!”. Isso foi curiosam ente reconfortante. Greene percebera com o o coração dele estava pesado e do quanto precisava de um m om ento de descontração e apoio. Ele se sentou ao lado da grande figura, contou-lhe o que pôde. Greene ouviu com toda a atenção e, a seguir, sem fazer nenhum j ulgam ento, bateu palm as e exclam ou: “Muito bem . Alm oço”. Não com eu quase nada, m as bebeu quantidades generosas de vinho. “Eu só com o”, disse, “porque assim posso beber um pouco m ais.” Depois do alm oço, o grupo foi fotografado na escadaria de entrada do clube, com Greene sorrindo no centro da foto com um casaco curto, parecendo Gulliver em Lilliput.
Várias sem anas depois, ele m ostrou essa fotografia a um dos m em bros de sua equipe de proteção da Divisão Especial. “Esse aqui é Graham Greene”, disse, “o grande rom ancista britânico.” “Eu sei”, respondeu o policial, pensativo. “Ele j á foi um dos nossos.”
O livro estava recebendo excelentes críticas nos Estados Unidos, m as no dia 8 de fevereiro ele recebeu um a crítica am bígua de sua m ulher, que lhe disse que iria deixá-lo; no entanto, ela ainda queria que ele fosse ao j antar com em orativo da publicação de John Dollar. Quatro dias depois, chegou ao fim o estranho interregno entre publicação e calam idade.
No Paquistão, 2 m il m anifestantes form avam um a m ultidão que nada tinha de espetacular. Mesm o um político m odesto era capaz de j untar m uito m ais gente nas ruas, e para isso bastaria bater palm as. O fato de só terem reunido 2 m il “fundam entalistas” para invadir o Centro de Inform ações dos Estados Unidos no coração de Islam abad era, de certa form a, um bom sinal. Significava que os protestos não tinham se alastrado de verdade. A prim eira-m inistra Benazir Bhutto estava fora do país na época, num a visita oficial à China, e houve quem dissesse que o verdadeiro obj etivo dos m anifestantes era desestabilizar seu governo. Havia m uito que os extrem istas religiosos suspeitavam que ela fosse culpada do crim e de secularism o, e queriam causar-lhe problem as. Não pela últim a vez, Os versos satânicos estavam sendo usados com o bola num j ogo político que tinha pouco ou nada a ver com o rom ance.
Pedras e tij olos foram atirados contra as forças de segurança e houve gritos de “Cães am ericanos” e “Enforquem Salm an Rushdie”, o de sem pre. Nada disso explicou bem a reação da polícia, que abriu fogo e m esm o assim não conseguiu im pedir que alguns m anifestantes invadissem o edifício. No m om ento em que a prim eira bala atingiu seu alvo hum ano, a coisa m udou de figura. A polícia usou fuzis, arm as sem iautom áticas e escopetas de repetição, num confronto que durou três horas, e a despeito de todas essas arm as os m anifestantes chegaram ao teto do edifício e queim aram a bandeira am ericana, bem com o efígies “dos Estados Unidos” e dele m esm o. Fosse outro o dia, e ele poderia ter se perguntado onde ficava a fábrica que produzia os m ilhares de bandeiras am ericanas que eram queim adas a cada ano em todo o m undo. Naquele dia, porém , um único fato eclipsou tudo o m ais que aconteceu.
Cinco pessoas foram m ortas a tiros.
“Rushdie, você está m orto”, gritavam os m anifestantes, e pela prim eira vez ele achou que eles podiam ter razão. A violência gerava violência. No dia seguinte houve outro distúrbio na Caxem ira — sua am ada Caxem ira, a terra de origem de sua fam ília — e outro hom em foi m orto.
Sangue clamará por sangue, ele pensou.
Ali estava um velho, m ortalm ente doente, na penum bra de um quarto. Ali estava seu filho, falando-lhe de m uçulm anos m ortos a tiros na Índia e no Paquistão. O que causou isso foi um livro, disse o filho ao ancião, um livro que é contra o islã. Horas depois, o filho chegou ao prédio da televisão iraniana com um docum ento na m ão. Um a fatwa, ou edito, era norm alm ente um docum ento form al, assinado pela autoridade com petente e por testem unhas e dado a público com lacre, m as aquilo era apenas um a folha de papel com um texto datilografado. Ninguém j am ais viu o docum ento form al, se é que ele existia, m as o filho do ancião m ortalm ente doente disse que aquele era o edito de seu pai, e ninguém estava disposto a discutir com ele. A folha foi entregue ao locutor da estação, e ele com eçou a ler.
Era o Dia dos Nam orados.