Joseph Anton: Memórias
2. “Originais não queimam”
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
A discussãozinha sobre os pronunciam entos do “grupo britânico” não foi m ais que um amuse-bouche. O prato principal foi o acalorado confronto entre os escritores russos e os da área que eles insistiam em que fosse cham ada de “Europa Central” — o próprio Kiš, os húngaros Gy örgy Konrád e Péter Esterházy, o tcheco-canadense em igrado Josef Škvorecký e os grandes poetas poloneses Adam Zagaj ewski e Czesław Miłosz. Estávam os no tem po da glasnost, e pela prim eira vez os soviéticos tinham deixado que escritores “verdadeiros” viaj assem — não os fantoches do Sindicato dos Escritores, m as pessoas do quilate de Taty ana Tolstay a. Os principais escritores da em igração russa, encabeçados por Joseph Brodsky , tam bém estavam lá, e por isso o evento proporcionou um a espécie de reencontro da literatura russa, o que foi com ovente de ver (Brodsky recusou-se a falar em inglês, por desej ar, com o disse, ser um russo entre russos). Entretanto, quando os escritores centro-europeus, esquecendo a ideia italiana segundo a qual a literatura tratava de frases, entregaram -se a veem entes denúncias da hegem onia russa, os russos reagiram m al. Vários deles afirm aram que nunca tinham ouvido falar de um a cultura centro-europeia separada. Tolstay a acrescentou que, se os escritores estavam preocupados com o Exército Verm elho, sem pre podiam buscar refúgio em sua im aginação, com o ela fazia, e lá estariam inteiram ente livres. Tal argum ento não foi bem recebido. Brodsky asseverou, num a form ulação cultural-im perialista quase côm ica, que a Rússia estava em processo de solucionar seus próprios problem as, e que, um a vez feito isso, todos os problem as dos centro-europeus tam bém estariam resolvidos. (Esse foi o m esm o Brodsky que, depois da fatwa, aderiria ao grupo do ele-sabia-o-que-estava-fazendo,-fez-isso-de-propósito.) Czesław Miłosz foi ao palco para discordar de Brodsky em term os estentóreos, e os setenta e poucos escritores no salão assistiram ao espetáculo dos dois gigantes, am bos laureados com o Nobel (e velhos am igos), discutindo furiosam ente em term os que deixaram todos os que ouviram aquilo convictos de que sem dúvida um a m udança drástica estava ocorrendo no Oriente. Foi com o assistir de antem ão à derrocada do com unism o, expressa e representada pelos m aiores intelectuais da região, na presença de seus colegas internacionais: um m om ento inesquecível pelos que tiveram a sorte de estar ali.
Se a história avançava dialeticam ente, com o propunha Hegel, a queda do com unism o e a ascensão de islã revolucionário dem onstravam que o m aterialism o dialético — a reform ulação de Hegel e Fichte feita por Karl Marx, que identificou a luta de classes com o processo dialético — tinha um vício de origem . O pensam ento dos intelectuais da Europa Central no palácio de Queluz, e tam bém a filosofia, bem diferente, do islã radical, cuj a força crescia tão depressa, desm entiam a ideia m arxista de que “a econom ia era determ inante”, de que o conflito econôm ico, expresso na luta de classes, oferecia a m elhor explicação de com o as coisas funcionavam . Nesse novo m undo, na dialética do m undo além do confronto com unism o-capitalism o, ficaria claro que a cultura tam bém era determ inante. A cultura da Europa Central vinha se afirm ando contra o russism o para desconstruir a União Soviética. E a ideologia, com o insistiam o aiatolá Khom eini e seus seguidores, decerto podia ser determ inante. As guerras da ideologia e da cultura estavam ocupando o centro do palco. E, infelizm ente para ele, seu rom ance se tornaria um cam po de batalha.
Ele foi convidado a participar do program a de rádio Desert Island Discs [Discos num a ilha deserta], um a honra m aior, na Grã-Bretanha, que um sim ples prêm io literário. Um a das oito m úsicas que escolheu para levar consigo para sua ilha deserta im aginária foi um ghazal em urdu, com posto por Faiz Ahm ed Faiz, am igo íntim o de sua fam ília que fora, tam bém , o prim eiro grande escritor que ele conheceu. Tratava-se tanto de um renom ado poeta, cuj os versos sobre a partição da Índia e do Paquistão eram os m elhores que j á tinham sido escritos, quanto um criador, um pouco ressentido, de poem as de am or m uito adm irados. Ele aprendera com Faiz que a tarefa do escritor consistia em ser, ao m esm o tem po, público e privado, um árbitro da sociedade e do coração hum ano. Outra de suas escolhas foi, talvez, a m úsica que tocava sob o texto de seu novo rom ance: “Sy m pathy for the Devil”, dos Rolling Stones.
Bruce Chatwin estava para m orrer, e ele o visitou várias vezes. A doença vinha afetando o equilíbrio de sua m ente. Antes ele se recusava a pronunciar as palavras aids ou hiv, m as agora delirava e afirm ava ter encontrado a cura da doença. Disse que estava telefonando para seus am igos ricos, “com o o Aga Khan”, a fim de arrecadar recursos para a pesquisa, e queria que seus am igos literatos contribuíssem tam bém . Segundo ele, os “especialistas” do hospital Radcliffe, em Oxford, estavam “m uito anim ados” e convictos de que ele dera “com algum a coisa”. Bruce tam bém tinha certeza de que ele próprio tinha ficado riquíssim o. Seus livros tinham vendido “um núm ero im enso de exem plares”. Um dia, ligou para contar que com prara um óleo de Chagall. Essa não foi sua única “com pra” extravagante. Sua m ulher, Elizabeth, era obrigada a devolver na surdina suas aquisições e a explicar que Bruce não estava em seu j uízo perfeito. Por fim , seu pai teve de pedir na j ustiça a curatela do filho para cuidar de suas finanças, e isso causou um a triste divisão na fam ília. Bruce tam bém estava publicando um livro, seu últim o rom ance, Utz. Certo dia, ligou para dizer: “Se nós dois form os indicados para o Booker, devem os anunciar que pretendem os dividir o prêm io. Se eu ganhar, vou dividi-lo com você, e você deve dizer a m esm a coisa”. Até então, Bruce sem pre desdenhara o Booker.
O The New York Times pediu-lhe que escrevesse um a recensão de Dear Mili, um conto de Grim m ilustrado por Maurice Sendak, e, em bora ele fizesse questão de m anifestar sua adm iração por grande parte da obra de Sendak, não pôde deixar de com entar que aquelas ilustrações pareciam repetir o que o grande ilustrador j á tinha feito antes. Depois disso, Sendak declarou a entrevistadores que aquela fora a pior crítica que j á recebera na vida e que ele “odiava” seu autor. (Ele escreveu duas outras resenhas, para o j ornal britânico The Observer, em que considerou os livros avaliados, A casa da Rússia e Hocus pocus, m enos significativos do que obras anteriores dos autores. John le Carré e Kurt Vonnegut, autores desses livros, que até então se m ostravam am istosos em relação a ele, tam bém se declararam de relações rom pidas. Essa era a regra da crítica literária. Se você gostasse de um livro, o autor achava que ao elogiá-lo você não fazia m ais do que sua obrigação; se não gostasse, criava inim igos. Ele resolveu nunca m ais assinar críticas. Era um a canoa furada.)
No dia em que chegaram as provas encadernadas de Os versos satânicos, ele recebeu em sua casa da St. Peter’s Street a visita de um a j ornalista que considerava sua am iga, Madhu Jain, da revista sem anal India Today. Ao ver a capa dura, azul-escura, com o grande título em letras verm elhas, ela se em polgou e im plorou que ele lhe desse um exem plar, para que ela pudesse ler durante suas férias na Inglaterra com o m arido. Depois de ler o livro, exigiu entrevistá-lo e que a India Today tivesse perm issão para publicar um excerto. Mais um a vez, ele concordou. Durante m uitos anos, depois disso, ele acreditou que esse excerto foi o fósforo que acendeu a fogueira. E com certeza a revista destacou aquilo que passaria a ser visto com o aspectos “polêm icos” do livro ao estam par parte da m atéria sob o título “Um ataque inequívoco ao fundam entalism o religioso”, a prim eira de inúm eras descrições incorretas do conteúdo da obra, e ao atribuir a ele um a citação — “Meu tem a é o fanatism o” — que desvirtuou ainda m ais o sentido do rom ance. A últim a frase do artigo, “O rom ance Os versos satânicos está destinado a provocar um a avalanche de protestos [...]”, era um convite aberto para que esses protestos com eçassem . O artigo foi lido pelo parlam entar conservador islâm ico Sy ed Shahabuddin, que respondeu com um a “carta aberta” intitulada “Sr. Rushdie, o senhor fez isso com prem editação satânica”, e o processo com eçou. A form a m ais eficiente de atacar um livro consiste em dem onizar seu autor, transform á-lo num a criatura de m otivações indignas e m ás intenções. Estava sendo criado o “Satã Rushdy ”, que daí a pouco m anifestantes enraivecidos exibiriam nas ruas do m undo, que seria enforcado em efígie, com um a língua verm elha para fora da boca, usando um sm oking grosseiro. Nascido na Índia, com o nascera o verdadeiro Rushdie. Ali estava a prim eira proposição do ataque: qualquer pessoa que escrevesse um livro cuj o título contivesse a palavra “satânico” tam bém devia ser satânica. Com o m uitas falsas proposições que floresceram na incipiente Era da Inform ação (ou desinform ação), ela se fez verdadeira pela repetição. Diga um a m entira sobre um hom em um a vez, e m uita gente não acreditará em você. Diga a m esm a coisa 1 m ilhão de vezes, e será o próprio hom em quem deixará de ser digno de fé.
Com a passagem do tem po, veio o perdão. Relendo a m atéria da India Today m uitos anos depois, num a época m ais calm a, ele adm itiu que ela era m uito m ais equilibrada do que o autor do título a fizera parecer, m ais equilibrada do que a últim a frase. Quem quisesse se ofender se ofenderia de qualquer j eito. Quem quisesse ver um incêndio encontraria a faísca necessária. Talvez o gesto m ais prej udicial da revista tenha sido quebrar o tradicional em bargo editorial e publicar a m atéria nove dias antes do lançam ento do livro, num a época em que nenhum exem plar dele tinha chegado à Índia. Isso perm itiu que o sr. Shahabuddin e seu aliado, outro parlam entar da oposição, Khurshid Alam Khan, tivessem rédea solta. Estavam em liberdade para dizer o que bem entendessem sobre o livro, que não poderia ser lido e, portanto, não poderia ser defendido. Um a única pessoa que lera um dos exem plares distribuídos previam ente pela editora, o j ornalista Khushwant Singh, recom endou na revista The Illustrated Weekly of India que o livro fosse proibido com o m edida que tenderia a evitar problem as. Singh tornou-se, assim , o prim eiro m em bro de um pequeno grupo de escritores e j ornalistas em todo o m undo a aderir ao lobby da censura. Khushwant Singh alegou ainda que a Penguin havia pedido sua opinião, e que ele advertira o autor e a editora quanto às consequências da publicação. O autor nunca soube dessa advertência. Se um dia foi feita, ele não a recebeu.
Infelizm ente, os ataques a seu caráter não partiram apenas de críticos m uçulm anos. Num j ornal britânico lançado em 1986, The Independent, o escritor Mark Lawson m encionou um anônim o contem porâneo de Cam bridge que o cham ou de “pretensioso” e que, “ainda no tem po de colégio”, sentia-se “distante dele devido à sua educação”. Ou sej a, o anônim o o considerava culpado por causa de seus anos infelizes na Rugby. Outro “am igo próxim o”, tam bém inom inado, conseguia “entender” o m otivo pelo qual ele podia parecer “grosseiro e arrogante”. E havia m ais: ele era “esquizofrênico”, era “com pletam ente m aluco”, ele corrigia as pessoas quando pronunciavam mal seu nome! e — o pior de tudo — certa vez ele entrara num táxi que o sr. Lawson cham ara e deixara o j ornalista a pé. Essas coisas eram bobagens, coisas de gente tacanha, e havia m uito m ais disso em outros lugares, em outros j ornais. “Am igos íntim os m uitas vezes confessam que ele na verdade não é um a pessoa sim pática”, escreveu Bry an Appley ard n o The Sunday Times. “Rushdie é de um egocentrism o m onolítico.” (Que tipo de “am igos íntim os” falavam de seus am igos assim ? Só os anônim os desenterrados por autores de perfis.) Na “vida norm al”, todas essas coisas m agoavam , m as não teriam grande im portância. Entretanto, no grande conflito que se seguiu à ideia de que ele não era um hom em m uito agradável se revelaria bastante prej udicial.
No século XVIII, lorde Byron detestava o trabalho do poeta laureado Robert Southey, e criticou-o de forma contundente pela imprensa. Southey respondeu que Byron fazia parte de uma “escola satânica” de literatura, e que sua poesia não passava de “versos satânicos”.
A edição britânica de Os versos satânicos foi lançada em 26 de setem bro de 1988, um a segunda-feira, e olhando agora para o passado ele sentia um a enorm e saudade daquele m om ento, em que qualquer ideia de transtorno parecia m uito distante. Durante um breve m om ento naquele outono, a publicação de Os versos satânicos foi um fato literário, tratado na linguagem dos livros. O livro era bom ? Seria, com o Victoria Glendinning opinou no The Times, “m elhor do que Os filhos da meia-noite, por ser m ais contido, m as apenas nos sentido em que a cataratas do Niagara são contidas”? Ou, com o Angela Carter escreveu no The Guardian, “um épico no qual se abriram buracos para deixar entrar visões [...] [um ] rom ance populoso, loquaz, às vezes hilariante, notavelm ente contem porâneo”? Ou seria ele, com o escreveu Claire Tom alin no The Independent, “um a roda que não girou”, ou um rom ance que “despenhava, com asas de cera, rum o à ilegibilidade”, na opinião ainda m ais cáustica de Herm ione Lee no The Observer? Quantos sócios teria o apócrifo “Clube da Página 15”, que reunia leitores incapazes de passar desse ponto no livro?
Em breve a linguagem da literatura seria abafada pela cacofonia de outros discursos — políticos, religiosos, sociológicos e pós-coloniais — e a questão da qualidade, da intenção artística séria, viria a parecer quase frívola. O livro sobre m igração e transform ação que ele escrevera estava desaparecendo e sendo substituído por outro que praticam ente não existia, no qual Rushdie se refere ao Profeta e a seus Companheiros como “vadios e vagabundos” (ele não o fez, m as realm ente perm itiu que os personagens que perseguiam os seguidores de seu Profeta ficcional usassem term os ofensivos), Rushdie chama as esposas do Profeta de prostitutas (ele não o fez, em bora as prostitutas de um bordel em sua im aginária Jahilia assum am os nom es das esposas do Profeta para excitar seus clientes; o livro m ostra as esposas propriam ente ditas vivendo castam ente no harém ), Rushdie usa demais a palavra “foda” (bem , certo, ele a usou bastante). Foi contra esse rom ance im aginário que se dirigiu a fúria do islã, e depois disso poucas pessoas se dispuseram a conversar sobre o livro real, a não ser, m uitas vezes, para concordar com a avaliação negativa de Herm ione Lee.
Quando os am igos lhe perguntavam o que poderiam fazer para aj udar, ele com frequência pedia: “Defenda o texto”. O ataque era m uito específico, m as a defesa quase sem pre era genérica, apoiando-se no respeitável princípio da liberdade de expressão. O que ele esperava, e m uitas vezes achava necessária, era um a defesa m ais particular, em term os de qualidade, com o a que se fez no caso de outros livros agredidos, com o O amante de lady Chatterley, Ulisses e Lolita. Porque aquele era um ataque violento não contra os rom ances em geral ou contra a liberdade de expressão em si, m as contra um a determ inada acum ulação de palavras (sendo a literatura, com o os italianos lhe haviam recordado no palácio de Queluz, feita de frases), e contra as intenções, a integridade e a capacidade do escritor que havia reunido essas palavras. Ele fez isso por dinheiro. Fez isso por fama. Os judeus o levaram a fazer isso. Ninguém teria comprado esse seu livro ilegível se ele não tivesse conspurcado o islã. Essa foi a natureza do ataque, e com isso, durante m uitos anos, foi negada a Os versos satânicos a vida norm al de um rom ance. O livro se tornou algo m enor e m ais feio: um insulto. Havia um pouco de com icidade surreal nessa m etam orfose: a transform ação de um rom ance sobre m etam orfoses angélicas e satânicas num a versão diabólica de si m esm o, e ele m esm o podia im aginar algum as piadas de hum or negro a respeito do livro. (Em breve correriam m undo piadas sobre ele. Já soube do novo romance de Rushdie? Chama-se “Buda, seu puto gordo”.)Para ele, porém , o hum orism o não tinha lugar nesse m undo novo, um a observação j ocosa soava com o um a nota dissonante e a com icidade seria absolutam ente im própria. Com o seu livro se tornou apenas um insulto, ele passou a ser o Insultador, não apenas aos olhos dos m uçulm anos, com o tam bém na opinião do público em geral. Pesquisas realizadas após o “caso Rushdie” m ostravam que a grande m aioria do público britânico achava que ele deveria pedir desculpas por seu livro “ofensivo”. Não seria fácil ganhar aquela discussão.
Entretanto, durante aquelas breves sem anas no outono de 1988, o livro ainda era “apenas um rom ance” e ele ainda era ele m esm o. A Viking britânica organizou um alm oço referente a seus lançam entos do outono, e nessa oportunidade ele conheceu Robertson Davies e Elm ore Leonard. Pôs-se a conversar num canto com esses dois respeitáveis anciãos, e Elm ore Leonard contou-lhe um a história pessoal. Depois da tragédia que fora para ele a m orte da m ulher, ficara a se perguntar com o poderia encontrar outra com panheira para sua vida. Um dia, olhou pela j anela de sua casa em Bloom field Township, um subúrbio de Detroit, e viu um a m ulher. Ela se cham ava Christine, era especialista em j ardins e ia a Bloom field regularm ente para cuidar do j ardim de Leonard. Casaram -se naquele m esm o ano. “Eu não sabia onde acharia um a esposa”, disse ele, “e achei-a bem perto de m inha j anela, aguando m inhas plantas.”
Houve a sequência habitual de leituras e sessões de autógrafos pela Grã-Bretanha. Ele viaj ou a Toronto para falar no Festival Internacional de Escritores, em Harbourfront. Os versos satânicos foi um dos livros indicados com o finalistas para o Booker Prize, j unto com rom ances de Peter Carey, Bruce Chatwin, Marina Warner, David Lodge e Penelope Fitzgerald. (Ele evitou ligar para Bruce, para que o am igo não reabrisse a questão de dividir o prêm io.) A única nuvem no horizonte era Sy ed Shahabuddin, o parlam entar indiano, exigindo que na Índia fossem tom adas m edidas contra aquele livro “blasfem o”, que ele declarou não ter lido, dizendo: “Não preciso entrar num a fossa im unda para saber o que é im undície”, no que ele tinha toda razão, quando se trata de fossas. Durante algum tem po foi possível ignorar aquela nuvem e deleitar-se com a publicação do livro (ainda que, para ser absolutam ente sincero, a publicação de um livro sem pre fazia com que um a grande parte dele quisesse se esconder num buraco aberto a seus pés). Foi então que, em 6 de outubro de 1988, um a quinta-feira, a nuvem cobriu o sol. Seu am igo Salm an Haidar, de um a fam ília am iga da sua havia gerações, e que ocupava o cargo de alto-com issário assistente da Índia em Londres, foi incum bido da difícil m issão de telefonar para inform ar-lhe form alm ente, em nom e de seu governo, que o rom ance Os versos satânicos tinha sido proibido naquele país.
Apesar do trom beteado secularism o da Índia, a partir de m eados da década de 1970 — desde o tem po de Indira e Sanj ay Gandhi —, o governo indiano cedera com frequência a pressões de grupos religiosos, sobretudo aqueles que afirm avam controlar grandes blocos de eleitores. Em 1988, ano em que haveria eleições em novem bro, o fraco governo de Raj iv Gandhi capitulou covardem ente ante am eaças de dois parlam entares da oposição m uçulm ana que não tinham condições de “passar” os votos do eleitorado m uçulm ano para o Partido do Congresso. O livro não foi exam inado por nenhum órgão devidam ente autorizado, tam pouco houve qualquer sim ulacro de processo j udicial. A proibição partiu, estranham ente, do Ministério da Fazenda, que, am parado na Seção ii da Lei Alfandegária, proibiu a im portação do livro. Ainda m ais estranha foi a declaração do m inistério, segundo a qual a proibição “não depreciava o m érito literário e artístico” da obra. Muito obrigado, ele pensou.
Estranham ente — por inocência, ingenuidade e até ignorância — ele não esperara isso. Nos anos seguintes, os ataques à liberdade artística se m ultiplicariam na Índia, e nem m esm o as figuras m ais em inentes seriam poupadas: o arbítrio vitim ou o pintor Maqbool Fida Husain, o rom ancista Rohinton Mistry, a cineasta Deepa Mehta, entre m uitos outros. Mas em 1988 podia-se acreditar que a Índia fosse um país livre, em que a expressão artística era respeitada e defendida. Ele tinha acreditado nisso. Proibir livros era um a coisa que acontecia com bastante frequência do outro lado da fronteira, no Paquistão. Não era coisa da Índia. Jawaharlal Nehru havia escrito em 1929: “Existe um poder perigoso nas m ãos de um governo: o direito de determ inar o que pode e o que não pode ser lido. [...] Na Índia o poder tende a ser m al utilizado”. O j ovem Nehru estava se referido, naquela época, à censura de livros pelos colonizadores britânicos da Índia. Era triste pensar que suas palavras poderiam ser usadas, quase sessenta anos depois, com o um a crítica à própria Índia.
Para ser livre, a pessoa tinha de presum ir a liberdade. E presum ir tam bém que se partiria do princípio de que a obra de um a pessoa fora criada com integridade. Ele sem pre escrevera na presunção de ter o direito de escrever o que quisesse e de que seu trabalho seria, no m ínim o, tratado com o um a obra séria; e sabendo tam bém que os países cuj os escritores não podiam partir desses pressupostos cam inhavam , sem dúvida, para o autoritarism o e a tirania, se é que j á não tinham chegado lá. Os escritores proibidos nos países em que não havia liberdade não só eram proscritos com o tam bém difam ados. Na Índia, entretanto, sem pre existira a presunção de liberdade e respeito intelectuais, a não ser durante o período ditatorial do “estado de em ergência” im posto por Indira Gandhi entre 1974 e 1977, depois de condenada por crim e eleitoral. Ele se orgulhara dessa abertura e se vangloriara dela no Ocidente. A Índia estava cercada por sociedades onde não havia liberdade — o Paquistão, a China, a Birm ânia —, m as continuava a ser um a dem ocracia. Im perfeita, é verdade, talvez até m uito im perfeita, m as livre.
Desde a recepção entusiástica de Os filhos da meia-noite, a reação indiana a seu trabalho fora m otivo de m uita alegria para ele, de m odo que o em bargo à im portação de Os versos satânicos foi um golpe doloroso. Essa dor o levou a publicar na im prensa um a carta aberta ao prim eiro-m inistro Raj iv Gandhi, neto de Nehru, carta essa que alguns com entadores consideraram agressiva dem ais. Ele se queixava das declarações oficiais de que o livro fora banido com o m edida preventiva:
Certos trechos foram apontados com o suscetíveis de distorção e utilização indevida,
presum ivelm ente por fanáticos religiosos sem escrúpulos e outras pessoas assim . A ordem
de proibição foi em itida para im pedir esse m au uso. Ao que tudo indica, m eu livro não foi
considerado blasfem o ou im próprio em si, m as está sendo banido, por assim dizer, para seu
próprio bem ! [...] É com o se, depois de entender que um a pessoa inocente pode ser alvo de
um a agressão praticada por facínoras ou estupradores, o senhor decidisse encarcerar essa
pessoa para protegê-la. Não é assim , sr. Gandhi, que um a sociedade livre deve se
com portar.
Tam bém não era assim que os escritores deveriam se com portar: repreendendo um prim eiro-m inistro. Aquilo foi... arrogância. Foi insolência. A im prensa indiana estava cham ando a proibição “um a decisão de filisteus” e um exem plo de “controle da livre expressão”, m as ele deveria controlar o que dizia.
Mas ele não o fez. “Que espécie de Índia o senhor pretende governar? Deverá ser ela um a sociedade aberta ou repressora? Seus atos com relação a Os versos satânicos serão um indicador im portante para m uitas pessoas em todo o m undo.” Tolam ente, sem dúvida, ele acusou Raj iv Gandhi de estar levando a cabo um a vendeta fam iliar. “Talvez o senhor j ulgue que, proibindo m eu quarto rom ance, está se vingando, tardiam ente, pela form a com o tratei sua m ãe no segundo, m as por acaso pode o senhor estar seguro de que a reputação de Indira Gandhi será m elhor e m ais duradoura que a de Os filhos da meia-noite?” Certo, isso foi arrogância. Havia ali tam bém cólera e m ágoa, m as a arrogância era indiscutível. Muito bem . Era. Ele estava defendendo algo que respeitava acim a de quase tudo, a arte da literatura, contra um exem plo de gritante oportunism o político. Talvez fosse necessário um pouco de arrogância intelectual. Não era um a defesa prática, é claro; tam pouco um a defesa calculada de m odo a m udar a posição de seu adversário. Era um a tentativa de assum ir um a posição de superioridade cultural, e a carta encerrava com um apelo retórico à posteridade, cuj o j ulgam ento não poderia ser conhecido por Raj iv Gandhi nem por ele próprio. “O senhor possui o presente, prim eiro-m inistro, m as os séculos pertencem à arte.”
A carta foi publicada por vários j ornais no dom ingo, 9 de outubro de 1988. No dia seguinte, o escritório da Viking recebeu a prim eira am eaça de m orte. Na terça-feira, um a sessão de leitura program ada em Cam bridge foi cancelada pela universidade, que tam bém recebera am eaças. A nuvem se adensava.
O j úri do Booker Prize de 1988 decidiu rapidam ente. Seu presidente, Michael Foot, parlam entar e ex-líder do Partido Trabalhista, adm irador de Hazlitt e Swift, era um defensor ardoroso de Os versos satânicos. Os outros quatro j urados estavam convencidos dos m éritos superiores do excelente rom ance Oscar e Lucinda, de Peter Carey. Fez-se um a votação, após um a breve discussão, e pronto. Três anos antes, os j urados haviam chegado a um im passe em relação ao côm ico-picaresco Illywhacker, de Carey, e o excelente rom ance A terrorista, de Doris Lessing, sobre o ira. Por fim , resolveram conceder o prêm io a um tertius, o épico m aori The bone people, de Keri Hulm e. Ele j antara com Peter Carey depois do resultado, e disse-lhe que o livro dele deveria ter ganhado. Carey falou do livro que com eçara a escrever. Um de seus m otivos para estar na Inglaterra era fazer certas pesquisas. Havia um a determ inada praia em Devon que ele queria visitar. Ele se oferecera para levar Peter de carro ao sudoeste, e passaram um dia esplêndido viaj ando pela Inglaterra até o “Hennacom be”, onde m orariam , no rom ance de Carey, Oscar Hopkins, quando criança, e seu pai, o bravo Theophilus. Os dois personagens tinham com o m odelos, em m eados do século xix, o escritor Edm und Gosse e o pai, Philip (tal com o Teophilus, naturalista, viúvo e m em bro da Irm andade de Ply m outh). Encontraram a praia, que ficava quatrocentos degraus abaixo do penhasco. Pegaram algum as conchas e vários seixos cor-de-rosa e cinzentos. Num pub, fizeram um alm oço pesado, de carne em m olho escuro e cervej a quente. Durante todo o dia, falaram de am ores. Naquele tem po ele ainda estava com Roby n, que era australiana, com o Carey ; e este pouco antes se casara com um a diretora de teatro de Sy dney, Alison Sum m ers, e estava apaixonado e feliz. Ao chegarem de volta a Londres, tinham se tornado am igos. Ele rom peu com Roby n pouco depois disso, e Peter e Alison se separaram com m útuos ressentim entos, m as, se o am or podia m orrer, isso não significava que não tivesse vivido. Depois de anunciado o resultado do Booker de 1988, ele atravessou depressa o Guildhall para abraçar Peter, dar-lhe os parabéns e sussurrar em seu ouvido que a m oral da história era que o Escritor A nunca deveria aj udar o Escritor B a fazer sua pesquisa, porque com isso o Escritor B usaria essa pesquisa para derrotar o Escritor A no Booker Prize.
Teria sido bom ganhar, m as ele estava feliz por Peter e, na verdade, m ais preocupado com a crescente discussão pública a respeito de seu livro. Um a vitória de Os versos satânicos teria contribuído para repor no prim eiro plano a “defesa da qualidade”. Ao chegar em casa, por volta das onze da noite, encontrou na secretária eletrônica um a m ensagem pedindo-lhe que ligasse com urgência para um clérigo m uçulm ano na África do Sul, m esm o que fosse m uito tarde. O j or na l Weekly Mail o convidara a visitar Johannesburgo para fazer um a palestra num a conferência sobre apartheid e censura. O convite havia sido aprovado pelo “m ovim ento dem ocrático am plo” sul-africano — em outras palavras, tinha o apoio im plícito do Congresso Nacional Africano —, e ele deveria viaj ar daí a quatro dias. “Tenho de falar com o senhor antes de sua viagem ”, dizia a m ensagem . Ele não estava num bom estado de ânim o, devido a um a com binação de problem as conj ugais e do que acontecera nessa noite (foi quando Marianne disse a William Golding que havia escrito um a versão fem inista de O senhor das moscas), m as enfim resolveu fazer a cham ada. Sentou-se na sala quase às escuras e escutou um a voz vinda de outro m undo que lhe dizia que não deveria viaj ar para falar na conferência do Weekly Mail. O dono da voz descreveu-se com o um a pessoa liberal e m oderna, que se preocupava com duas coisas: com a segurança dele e com o m ovim ento antiapartheid. Se ele fosse a Johannesburgo naquele m om ento, a reação m uçulm ana seria intensa e hostil. Essa visita seria perigosa no âm bito pessoal e no político. Um a desavença no seio da coalizão contra o apartheid seria catastrófica e só atenderia aos interesses do regim e racista branco. Ele deveria evitar ser o catalisador dessa contenda e m anter-se distante.
Na m anhã seguinte, ele ligou para Nadine Gordim er, que, com o patrona do Congresso de Escritores Sul-Africanos (Congress of South African Writers — cosaw), era a outra patrocinadora do convite que lhe fora feito. Essa m ulher pequenina e indom ável era um a velha am iga, e um a das pessoas que ele m ais respeitava e adm irava. Ela ficou m uito agitada e contrafeita. Os m uçulm anos sul-africanos, em geral veem entes em sua oposição às restrições do apartheid, am eaçavam um a guerra santa contra o escritor blasfem o e seu livro. A polícia, ao que tudo indicava, não podia ou não queria garantir a segurança daqueles que vinham sendo am eaçados. Havia o perigo de um a cisão no cosaw, pois seus m em bros m uçulm anos am eaçavam desligar-se em m assa, e a perda de recursos daí decorrente seria desastrosa para a organização. O pessoal do Weekly Mail era predom inantem ente j udeu, e havia um a boa dose de desagradável antissem itism o na anim osidade islâm ica. Nadine Gordim er tentara contatar líderes m uçulm anos para solucionar o problem a, e m uitas figuras conceituadas no m ovim ento antiapartheid tinham apelado aos extrem istas m uçulm anos para que recuassem , m as em vão. Um a destacada intelectual m uçulm ana, a professora Fatim a Meer, havia declarado: “Em últim a análise, o que Rushdie ataca é o Terceiro Mundo”. Apesar de toda um a vida de anticolonialism o, ele estava sendo transform ado num opressor, que fizera um “um ataque m al-intencionado a seu passado étnico”. Diante dessa crise, era incrível que o Congresso Nacional Africano nada tivesse dito. Muitas vozes tinham se erguido contra o ataque m uçulm ano, entre elas as de J. M. Coetzee, Athol Fugard e André Brink, m as o tom am eaçador dos islâm icos só aum entava a cada dia. Gordim er m ostrou-se visivelm ente abalada e, com o am iga, protetora. “Não posso levar você para esse tipo de perigo”, disse.
Naquela sem ana, o governo sul-africano tam bém proibiu Os versos satânicos. A ordem de proibição depreciava o rom ance com o sendo um a “difam ação sob um ralo disfarce de obra literária”, criticava sua “linguagem obscena” e dizia que o livro era “repulsivo não só para os m uçulm anos com o para qualquer leitor que defenda valores claros de decência e cultura”. Curiosam ente, a m esm a linguagem aparecia na carta aos “Irm ãos no islã” — evidentem ente, não valia a pena falar às “Irm ãs no islã” — divulgada poucos dias antes, em 28 de outubro, pelo Com itê de Ação sobre Assuntos Islâm icos do Reino Unido. Desse docum ento constavam tam bém as palavras “sob um ralo disfarce de obra literária”, bem com o m uitas das acusações de insulto, im undície etc. Ao que tudo indicava, os racistas brancos da África do Sul estavam copiando palavras ditadas pelo sr. Mughram al-Gham di, que assinava a carta do Com itê de Ação do Reino Unido.
Depois de m uitas conversas por telefone com Nadine e Anton Harber, coeditor do Weekly Mail, disseram -lhe que o cosaw, a despeito de todo o seu radicalism o político, recom endava ao j ornal que retirasse o convite. Ele se entristeceu ao saber que isso provocara um desentendim ento público entre os dois m aiores escritores da África do Sul. J. M. Coetzee se opunha à retirada do convite, alegando que a decisão de viaj ar ou não deveria ser apenas de Rushdie. Já Nadine Gordim er, com im enso pesar, opinou que a questão da segurança era fundam ental. Os dois tinham razão, m as ele não queria que seus colegas de profissão brigassem por sua causa. Ele aceitou a decisão favorável à retirada do convite. No m esm o dia, Tony Lacey, seu diretor editorial na Viking, telefonou para lhe dizer em confiança que Os versos satânicos tinha ganhado o Whitbread Prize de Melhor Rom ance. Era evidente que o “ralo disfarce de obra literária” tinha dado certo.