Joseph Anton: Memórias
4. A armadilha de querer ser amado
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Ela precisava visitar a prim a Carol em Derby shire, depois ele teria um fim de sem ana com binado de longa data com um a am iga, de m odo que não puderam se encontrar por um as duas sem anas. Ela ligou do aeroporto para se despedir, e ele desej ou que ela não fosse. Com eçou a falar dela para os am igos — Bill Buford, Gillon Aitken — e disse ao agente de segurança Dick Billington que queria acrescentá-la à “lista” para que pudesse visitá-lo em Wim bledon. Enquanto pronunciava essas palavras, ele com preendeu que tinha tom ado um a decisão séria sobre ela. “Ela terá de ser investigada, Joe”, disse Dick Billington. A investigação negativa era um procedim ento m ais ágil que a investigação positiva. O passado dela seria exam inado e, se não soasse nenhum sinal de alarm e, ela seria liberada. A investigação positiva levava m ais tem po: a pessoa tinha de ser entrevistada. Havia trabalho de cam po a fazer. “Não vai ser necessário nesse caso”, disse Dick. Vinte e quatro horas depois, Elizabeth tinha passado no teste. Pelo que se pôde apurar, não havia em seu passado tipos sinistros nem agentes iranianos ou do Mossad. Ele ligou para contar a ela. “Quero isso”, disse ele. “Que m aravilha”, ela respondeu, e foi assim que com eçou. Dois dias depois, ela foi a um bar com Liz Calder (que tinha voltado de viagem ) para lhe contar o que tinha acontecido e a seguir foi de bicicleta até a porta da frente da casa de Wim bledon, onde passou a noite. Naquele fim de sem ana, ela ficou lá duas noites. Eles foram à casa de Angela Carter e Mark Pearce em Clapham para j antar e Angela, um a m ulher que não era fácil de agradar, tam bém aprovou. Zafar, que estava de volta a Londres, ficou lá e aparentem ente ele e Elizabeth se deram bem .
Havia m uito sobre o que conversar. Na terceira noite que ela passou na casa de Wim bledon, ficaram acordados até as cinco da m anhã, contando histórias um ao outro, dorm itando, fazendo am or. Ele não se lem brava de ter tido um a noite com o aquela. Algum a coisa boa estava com eçando. Seu coração estava repleto. Elizabeth o enchera.
Haroun estava sendo bem aceito por seus prim eiros leitores. O livrinho, escrito para honrar a prom essa feita a um a criança, talvez pudesse se tornar seu m ais apreciado trabalho de ficção. Ele sentia que tinha sido virada um a página tanto de sua vida em ocional quanto da profissional, o que tornava ainda pior o ridículo m odo com o era obrigado a viver. Zafar disse que queria ir esquiar. “Talvez você possa ir com sua m ãe, eu pago a despesa”, ele dissera. “Mas eu quero ir com você”, disse o filho. Essas palavras dilaceraram seu coração.
Chegaram pelo correio os prim eiros exem plares da versão final de Haroun. Isso levantou-lhe o ânim o. Autografou um a dúzia de exem plares com dedicatória para am igos de Zafar. No de Elizabeth, escreveu: “Obrigado pela volta da alegria”.
Tornava-se cada vez m ais plausível acreditar que o “caso Rushdie” não era digno do transtorno que causara, porque o hom em em si era um espécim e indigno. Norm an Tebbit, um dos aliados políticos m ais próxim os de Margaret Thatcher, escreveu no j ornal The Independent que o autor de Os versos satânicos era “um vilão fora de série [...] [cuj a] vida pública é um a sucessão de atos abj etos de traição a sua educação, religião, pátria de adoção e nacionalidade”. Lorde Dacre (Hugh Trevor-Roper), o célebre historiador, par do reino tóri e “avalizador” dos falsos “Diários de Hitler”, despiu-se de todo em baraço e declarou, tam bém ao Indy:
Fico pensando em com o Salm an Rushdie deve estar vivendo atualm ente, sob a benevolente
proteção da lei britânica e da polícia britânica, a respeito das quais foi tão indelicado.
Espero que não m uito à vontade. [...] Eu não derram aria um a lágrim a se algum
m uçulm ano britânico, irritado com os m odos dele, o em boscasse num a rua escura e lhe
ensinasse a se com portar. Se isso fizesse com que no futuro ele controlasse sua pena, a
sociedade se beneficiaria e a literatura não perderia nada.
O rom ancista John le Carré tinha dito: “Acho que não é dado a nenhum de nós ser im pertinente com as grandes religiões e ficar im pune” e, em outra ocasião: “Muitas vezes, ele teve nas m ãos a possibilidade de livrar a cara de seus editores e, com dignidade, recolher seu livro até que tem pos m ais calm os sobreviessem . Parece-m e que ele não tem m ais nada a provar além da própria insensibilidade”. Le Carré desaprovou tam bém o argum ento do “m érito literário”: “Devem os crer que quem faz literatura séria tem m ais direito à liberdade de expressão do que quem escreve para revistinhas populares? Esse elitism o não favorece a causa de Rushdie, sej a lá o que for o que ela tenha se tornado”. Ele não disse se tam bém teria sido contra o uso do “m érito literário” em defesa de, por exem plo, Ulisses, de Jam es Joy ce, ou O amante de lady Chatterley, de D. H. Lawrence.
O Evening Standard perguntou a Douglas Hurd, m inistro do Exterior britânico e “rom ancista”:“Qual foi seu m om ento m ais penoso no governo?”. Resposta: “Ler Os versos satânicos”.
No com eço de setem bro, ele se encontrou com Duncan Slater, na casa deste em Knightsbridge. A quantidade de im agens e artefatos indianos que havia no lugar revelava que seu dono era um indianófilo acim a de qualquer suspeita, o que talvez explicasse sua sim patia pelo hom em invisível. “Você deveria usar todos os contatos que tem na m ídia”, disse Slater. “Você precisa de m atérias favoráveis.” Nadine Gordim er reunira um a lista de signatários de peso para um apelo ao Irã, entre os quais estavam Václav Havel, o m inistro da Cultura da França e m uitos escritores, acadêm icos e políticos, e Slater sugeriu que o fato fosse usado para induzir um editorial sim pático no The Times, por exem plo. A carta de Nadine Gordim er foi publicada e teve pouca repercussão. Nada m udou. O The Independent declarou ter recebido 160 cartas criticando a declaração de Tebbit e duas em apoio. Já era algum a coisa.
Poucos dias depois, o m inistro do Exterior da Itália, Gianni de Michelis, anunciou que a Europa e o Irã estavam “perto” de um a troca de cartas que redundaria na “suspensão da fatwa” e tornaria possível a norm alização das relações entre os dois países. Slater disse que esse relato estava “se adiantando um pouco às notícias”, m as que realm ente a troika de m inistros do Exterior da Com unidade Europeia tinha o propósito de conversar com seu congênere iraniano, Ali Akbar Velay ati, nos próxim os dias.
Elizabeth com eçou a contar aos am igos m ais próxim os sobre seu novo relacionam ento. Ele, por sua vez, conversou com Isabel Fonseca e lhe contou sobre Elizabeth. Foi aí que soube que Marianne estava voltando a Londres.
No dia em que Haroun e o mar de histórias foi lançado — 27 de setem bro de 1990 —, o Irã e o Reino Unido restabeleceram relações diplom áticas parcialm ente. Duncan Slater ligou de Nova York para dizer que “tinham recebido garantias”. O Irã nada faria para cum prir a fatwa. No entanto, ela não seria suspensa, e a oferta de m ilhões de dólares com o recom pensa (o aiatolá Sanei, autor da oferta original, continuava elevando o prêm io) perm aneceria de pé porque “não tinha nada a ver com o governo”. Slater tentou apresentar o fato com o um avanço, m as m ais parecia um a traição. Nenhum a iniciativa de Douglas Hurd em seu favor era algo em que se pudesse confiar.
O serviço de inform ações e a Divisão Especial pareciam ser da m esm a opinião. Não houve m udança na classificação da am eaça. Ele perm aneceria no nível dois, um degrau abaixo da rainha. Não haveria alteração no aparato de proteção. A casa da St. Peter Street perm aneceria de portas e j anelas trancadas. Ele não seria autorizado a voltar para casa.
Mas ele tinha feito um novo com eço. Na ocasião, era o que m ais im portava. Haroun estava indo bem , e o cenário de pesadelo de Sonny Mehta perm aneceu firm e no âm bito dos sonhos. Os caxem irenses não se insurgiram , instigados pelo nom e de um a ave m ecânica falante. Não havia rastro de sangue nas ruas. Sonny estivera fugindo de som bras e, agora que a luz do dia chegara, seus bichos-papões se apresentavam com o os terrores noturnos vazios que eram .
Ele teve permissão para em ergir brevem ente, sem aviso prévio, para um a sessão de autógrafos de Haroun e o mar de histórias na livraria londrina Waterstone’s, em Ham pstead.Zafar foi tam bém e “aj udou”, passando-lhe os livros a serem autografados, e Bill Buford foi um a presença benfazej a e sorridente. Durante um a hora, ele se sentiu com o se fosse de novo um escritor. Mas não havia com o não perceber o nervosism o nos olhos da equipe de proteção. Não era a prim eira vez que ele notava que os seguranças tam bém estavam com m edo.
Em casa estava Elizabeth. Eles se tornavam m ais próxim os dia a dia. “Estou assustada”, ela lhe disse, “porque fiquei vulnerável dem ais a você.” Ele fez o que pôde para devolver-lhe a segurança. te amo como um louco e não vou deixar você ir embora. ela tem ia que ele ficasse com ela por faute de mieux, que quando as am eaças acabassem ele fosse para os Estados Unidos e a deixasse. Ele lhe falara de seu am or por Nova York e do sonho de lá viver em liberdade algum dia. Ele, cuj a vida fora um a sucessão de rupturas (que tentava redefinir com o “enraizam entos m últiplos”), não com preendia que ela era visceralm ente inglesa, que suas raízes eram m uito profundas. Desde aqueles prim eiros dias ela sentiu que estava com petindo com Nova York. Você vai cair fora daqui e me deixar. quando tom avam um as taças de vinho, surgia entre eles esse tipo de agastam ento. Nenhum dos dois dava im portância a essas irritações ocasionais. Na m aior parte do tem po, estavam felizes um com o outro. Estou muito apaixonado,escreveu ele, sabendo com o era surpreendente que fosse capaz de escrever essas palavras. Sua vida era estritam ente reservada, e ele próprio não teria esperado que o am or encontrasse um m eio de transpor as fronteiras vigiadas de seu estranho exílio interno. E, com tudo isso, ali estava o am or, m uitas noites e fins de sem ana, atravessando o Tâm isa alegrem ente, de bicicleta, à sua procura.
O ódio, com o o am or, tam bém estava no ar. O loquaz gnom o de j ardim do Instituto Muçulm ano ainda vociferava, e aproveitava cada oportunidade para isso. Lá estava ele na rádio bbc dizendo que Salm an Rushdie “tinha sido declarado culpado de um pecado m ortal aos olhos da m ais alta autoridade do islã, e o que restava era a aplicação da punição”. Num j ornal de dom ingo, Siddiqui deixou claro seu pensam ento: “Ele deve pagar com a vida”. Não tinha havido execução algum a na Grã-Bretanha no últim o quarto de século, m as agora a “cólera do islã” tornara aceitável, outra vez, a discussão sobre a “legalidade” do assassinato. As opiniões de Siddiqui encontraram eco no Líbano na pessoa de Hussein Musawi, líder do Hezbollah. ele deve morrer. Sim on Lee, autor de The cost of free speech [O preço da liberdade de expressão],sugeriu que ele fosse enviado à Irlanda do Norte pelo resto da vida, porque lá j á havia m uita polícia m obilizada. O colunista Garry Bushell, do Sun,falou dele com o um traidor de seu país pior que George Blake. Agente duplo soviético, Blake fora sentenciado a 42 anos de prisão por espionagem , m as tinha fugido da cadeia e ido para a União Soviética. Escrever um rom ance agora podia ser entendido seriam ente com o um crim e m ais hediondo que a alta traição.
Dois anos de ataques por parte de m uçulm anos e não m uçulm anos o tinham afetado m ais do que ele pensava. Ele nunca esqueceu o dia em que lhe trouxeram um exem plar do The Guardian e ele viu o que o rom ancista e crítico John Berger escrevera a seu respeito. Conhecia Berger e adm irava especialm ente seus livros de ensaios Modos de ver e About looking [Sobre o olhar], e achava que as relações entre eles eram boas. Procurou ansiosam ente a página de opinião para lê-lo. O choque causado pelo que encontrou, um ataque bilioso de Berger a seu trabalho e a seus m otivos, foi enorm e. Eles tinham m uitos am igos em com um , com o Anthony Barnett, do grupo Carta 88, por exem plo, e durante os m eses e anos que se seguiram Berger ouviu desses interm ediários a pergunta sobre por que tinha escrito um artigo tão hostil. Ele sem pre se recusou a responder.
Não era fácil que o am or de um a m ulher aliviasse o sofrim ento causado por tantos ataques. Era provável que não existisse no m undo am or suficiente para consolá-lo naquele m om ento. Seu novo livro tinha sido publicado, e no m esm o dia o governo britânico se deitava com seus assassinos em potencial. Os cadernos literários dos j ornais o louvavam ; j á o noticiário o execrava. À noite ouvia eu te amo, m as os dias gritavam Morra.
* * *
Elizabeth não tinha proteção policial, m as, para garantir sua segurança, era vital m antê-la longe dos olhos do público. Os am igos dele nunca m encionavam o nom e dela, nem sua existência, fora do “círculo íntim o”. Mas, com o não podia deixar de ser, a im prensa a descobriu. Não havia fotos dela, nem haveria, m as isso não im pediu que os tabloides especulassem sobre os m otivos que um a bela j ovem teria para ficar com um rom ancista catorze anos m ais velho, com a m arca da m orte na testa. Ele viu um a foto de si m esm o num j ornal com a legenda rushdie: perigoso. Era inevitável que se im aginasse que ela fosse m ovida por razões m esquinhas, pelo dinheiro dele talvez, ou, na opinião de um “psicólogo” que se sentiu em condições de j ulgá-la sem j am ais tê-la visto, porque certo tipo de m ulher j ovem era atraída pelo cheiro do perigo.
Agora que o segredo tinha sido revelado, a polícia estava m ais preocupada com a segurança dela e com a dele tam bém . Inquietos com a possibilidade de que ela fosse seguida em sua rota ciclística, insistiram para que se encontrasse com eles em pontos predeterm inados e fosse subm etida à “lavagem a seco”. Tam bém lançaram um com unicado à im prensa, avisando que se m antivesse longe dela, porque a publicidade poderia aum entar a possibilidade de que se com etesse um crim e. Em todos os anos seguintes, a im prensa aj udou a protegê-la. Nenhum a foto sua foi tirada nem publicada. Quando aparecia em público, ela era trazida ao local separadam ente e levada em bora em outro veículo. Ele disse aos fotógrafos que se deixaria fotografar de boa vontade se, em troca, eles a deixassem em paz, e surpreendentem ente foi atendido. Todos sabiam que a fatwa era coisa séria, e todos a levaram a sério. Mesm o cinco anos depois, quando o rom ance O último suspiro do mouro foi indicado para o Booker Prize, ele com pareceu à cerim ônia com Elizabeth, m as ela não foi fotografada. A transm issão pela bbc2 foi ao vivo, m as os cinegrafistas foram instruídos a não focalizá-la, e nenhum a im agem sua foi exibida. Em consequência dessa excepcional abstenção, ela pôde, durante os anos da fatwa, circular livrem ente pela cidade, com o um a pessoa com um , sem atrair a atenção de sim patizantes ou adversários. Ela era discretíssim a por natureza, e o acordo caiu-lhe com o um a luva.
Em m eados de outubro, ele se avistou com Mike Wallace num hotel da zona oeste de Londres para um a entrevista concedida ao program a 60 Minutes. Ao fim dela, Wallace m encionou o fim de seu casam ento com Marianne e perguntou: “Com o você se arranj a para ter com panhia? Tem de levar um a vida de celibato?”. Surpreso com a pergunta, ele obviam ente não podia dizer a Wallace a verdade sobre seu novo am or. Em batucou por um segundo e então, com o que por m ilagre, encontrou a resposta certa. “É bom dar um tem po”, disse. Mike Wallace ficou tão espantado com a resposta que ele teve de acrescentar: “Não, não estou falando sério”. Brincadeirinha, Mike.
Marianne ligou. Estava de volta dos Estados Unidos outra vez. Ele queria falar com ela sobre advogados e form alizar o divórcio, m as ela tinha algo m ais para discutir. Tinha um nódulo no seio que poderia ser “pré-canceroso”. Estava m uito brava com sua clínica geral, que deveria ter descoberto o nódulo “seis m eses antes”. Sej a com o for, lá estava. Ela precisava dele, disse. Ainda o am ava. Três dias depois, ela deu a m á notícia. Era câncer, linfom a de Burkitt, um dos tipos de câncer não-Hodgkins. Ela consultara um especialista do Chelsea and Westm inster Hospital, um certo dr. Abdul-Ahad. Nas sem anas seguintes, ela lhe contou que estava fazendo radioterapia. Ele não sabia o que dizer.
Pauline Melville ganhou o Guardian Fiction Prize com a coletânea de contos Shape-shifter. Ele telefonou para cum prim entá-la, e ela quis falar sobre Marianne. Ela, Pauline, se prontificara várias vezes a acom panhá-la ao hospital durante o tratam ento. O oferecim ento foi sistem aticam ente recusado. Ela voltou a ligar dias depois e disse: “Acho que você deveria ligar para esse doutor Abdul-Ahad e conversar pessoalm ente com ele”.
O oncologista Abdul-Ahad nunca tinha ouvido falar de Marianne, nem trataria um paciente com um câncer com o aquele. Era especialista em cânceres m uito diversos, sobretudo infantis. Aquilo era incom preensível. Haveria outro dr. Abdul-Ahad? Será que ele estava falando com a pessoa errada?
Chegou o dia em que Marianne tinha dito que ia com eçar um tratam ento no Roy al Marsden. Havia dois Roy al Marsden, um na Fulham Road e outro na Sutton. Ele ligou para am bos. Não sabiam de quem se tratava. Mais perplexidade. Talvez ela estivesse usando um nom e falso. Talvez ela tam bém tivesse um codinom e, com o ele tinha o de Joseph Anton. Ele queria aj udar, m as estava num beco sem saída.
Ele ligou para a clínica geral de Marianne e perguntou se poderiam conversar. Disse-lhe que tinha conhecim ento do sigilo m édico, m as que a conversa tinha sido sugerida pelo oncologista. “Que bom que você ligou”, disse a m édica. “Perdi contato com Marianne — você poderia m e dar o endereço e o telefone dela? Naturalm ente, preciso falar com ela.” Ele ficou surpreso ao ouvir isso. A m édica estava havia um ano sem ver Marianne e revelou que elas nunca tinham falado sobre um câncer.
Marianne deixou de retornar as ligações dele. Ele nunca soube se ela tinha sido encontrada pela m édica, nunca soube se ela tinha m udado de clínica, nunca soube nada m ais a respeito. Eles pouco conversaram depois daquilo. Ela concordou com o divórcio e fez poucas exigências financeiras. Pediu apenas um a quantia m oderada para aj udá-la a recom eçar a vida. Saiu de Londres e se m udou para Washington. Ele nunca m ais soube de nada relacionado a doença ou tratam ento. Ela continuou a viver e a escrever. Seus livros, m uito apreciados, foram indicados para os prêm ios Pulitzer e National Book. Ele sem pre a considerara um a escritora de alta qualidade, e lhe desej ava sorte. A vida deles seguiu cam inhos separados e eles nunca m ais se cruzaram .
Não, isso não é verdade. Cruzaram -se um a vez m ais. Ele estava prestes a se fazer vulnerável a ataques, e ela aproveitou a oportunidade para se vingar.
Ele leu um rom ance do escritor chileno José Donoso, O obsceno pássaro da noite, sobre a dissolução do eu. No estado de vulnerabilidade em que se encontrava, essa não seria a leitura m ais indicada. O título fora tirado de um a carta escrita por Henry Jam es (pai) aos filhos Henry e William , que servira de epígrafe ao rom ance de Donoso:
Todo hom em que atingiu ao m enos a adolescência intelectual com eça a desconfiar que a
vida não é um a farsa; que não é sequer um a com édia galante; que floresce e frutifica em
sentido contrário ao das profundezas trágicas da carência essencial em que estão im ersas
as raízes de seu eu. A herança natural de todo aquele que é capaz de um a vida espiritual é
um a floresta indôm ita onde uiva o lobo e gorj eia o obsceno pássaro da noite.
Ele ficou acordado olhando Elizabeth, que dorm ia, e no quarto a floresta indôm ita crescia cada vez m ais, com o aquela outra floresta do m agnífico livro de Sendak, além da qual j azia o oceano além do qual j azia o lugar onde as coisas selvagens estavam , onde havia um a barca especial para que ele usasse; e, esperando na praia, onde estavam as coisas selvagens, havia um dentista. Talvez os dentes do siso tivessem sido um presságio, afinal. Talvez existissem presságios e augúrios e prodígios e profecias, e talvez todas as coisas em que ele não acreditava fossem m ais reais que as coisas que ele conhecia. Talvez, se existissem m onstros de asas de m orcego e vam piros de olhos esbugalhados... talvez, se existissem belzebus e dem ônios... existisse tam bém um deus. Sim , e talvez ele estivesse perdendo o j uízo. O peixe louco, burro e, por fim , m orto é o que sai à procura do anzol.
O pescador que capturou o peixe louco, a sereia que conduziu sua barca especial para as rochas foi o “dentista holístico” da Harley Street, Hesham el-Essawy. (Talvez ele devesse ter entendido que os dentes tinham bastante siso.) Essawy parecia um ator pouco indicado para o papel, em bora lem brasse levem ente um Peter Sellers m ais corpulento, m as o peixe desesperado, preso em seu tanque durante dois longos anos, abatido de ânim o, com a autoestim a gravem ente abalada, procurava um a saída, qualquer saída, e confundiu a m inhoca sinuosa, usada com o isca, com a chave.
Ele teve novo encontro com Duncan Slater em Knightsbridge, e dessa vez havia outro hom em presente: David Gore-Booth, figurão do Foreign and Com m onwealth Office. Tinha participado das conversas com iranianos em Nova York e concordara em inquiri-lo pessoalm ente. Era altivo, sagaz, firm e e direto, dando a im pressão, com o arabista que era, de que suas sim patias não estavam do lado do escritor e sim de seus críticos. Desde Lawrence da Arábia, o fco “pendia” para o lado do m undo m uçulm ano (Gore-Booth se tornaria um a figura im popular em Israel) e suas autoridades frequentem ente exibiam um a irritação autêntica com as dificuldades das relações britânicas com aquele m undo causadas por, vej am só, um rom ancista. No entanto, Gore-Booth disse que as garantias recebidas do Irã eram “reais”. Eles não buscariam executar a sentença de m orte. O im portante agora era baixar a tem peratura em casa. Se os m uçulm anos britânicos pudessem ser levados a prender seus cachorros, as coisas poderiam se norm alizar bem rápido. “Esse lado da coisa”, disse ele, “só depende de você.”
Frances D’Souza ficou otim ista e anim ada quando ele ligou para contar-lhe sobre o encontro com Gore-Booth. “Acho que vai dar em algum a coisa!”, disse ela. Mas o encontro o deixara m uito reticente por causa da m al dissim ulada censura de Gore-Booth ao que ele supostam ente tinha feito. Esse lado da coisa só depende de você. Ter princípios estava sendo reinterpretado com o obstinação. A tentativa de m anter a postura, de insistir que ele era a vítim a e não o crim inoso nesse grande engano, estava sendo tom ada com o arrogância. Estavam fazendo tanto por ele, por que ele se m anteria tão inflexível? Ele tinha causado tudo; teria tam bém de term inar com aquilo.
Essas atitudes, que estavam se tornando generalizadas, pesavam dem ais sobre ele, tornando cada vez m ais difícil acreditar que ele estava agindo da m elhor form a. Algum tipo de diálogo com os m uçulm anos britânicos talvez fosse inevitável. Frances lhe disse que Essawy tinha feito contato com a organização Artigo 19 e se oferecera com o m ediador. Essawy não tinha tanto peso do ponto de vista intelectual, m as, na opinião dela, era bem -intencionado e até benevolente. Esse cam inho parecia vital para ela agora. A cam panha de defesa estava raspando o fundo do cofre. Era preciso levantar 6 m il libras com urgência. Estava ficando difícil convencer a Artigo 19 a continuar financiando a cam panha. Era preciso m ostrar que tinham feito algum progresso.
Ele ligou para Essawy. O dentista foi cortês, falou com delicadeza, disse que entendia o quanto sua vida tinha se tornado desagradável. Ele percebeu que estava sendo paparicado, que lhe falavam com o a um bebê de quem se pretende algum tipo de aquiescência, m as continuou ouvindo. Essawy disse que queria aj udar. Poderia m arcar um a conferência de intelectuais m uçulm anos de “m uito peso” e com isso com eçar um a cam panha no m undo árabe e até m esm o no Irã. “Sou sua m elhor aposta”, disse. “Quero que você sej a um a espécie de Ghazali e volte à religião.” Muham m ad al-Ghazali, pensador m uçulm ano conservador, era o autor da célebre obra Incoerência dos filósofos, em que denunciara com o incrédulos e difam adores da verdadeira fé os gregos Aristóteles e Sócrates e intelectuais m uçulm anos com o Ibn Sina (Avicena), influenciado por aqueles. Ghazali fora contestado por Ibn Rushd (Averróis), o pensador aristotélico de quem Anis Rushdie tinha tom ado seu sobrenom e, no igualm ente célebre A incoerência da incoerência.Ele m esm o sem pre pensava em si com o um m em bro do clã de Ibn Rushd, não de Ghazali, m as com preendeu que Essawy não estava se referindo propriam ente à filosofia de Ghazali, e sim ao m om ento em que Ghazali teve um a crise de fé que foi superada com “a luz que o Altíssim o acendeu em m eu peito”. Ele achava im provável que em seu peito se acendesse a luz do Altíssim o a curto prazo, m as Essawy insistiu. “Não acredito no buraco em form a de deus sobre o qual você escreveu”, disse ele. “Você é um hom em inteligente.” Com o se inteligência e descrença não pudessem coexistir num m esm o cérebro. Esse buraco em form a de deus, o dentista estava lhe dizendo, era im portante não por ser um a cavidade que devesse ser preenchida com arte e am or, com o ele escrevera, m as porque tinha a forma de Deus. Portanto, ele deveria olhar não para o vazio, m as para aquele contorno.
Em circunstâncias norm ais, ele não teria perdido tem po num a discussão dessas, m as as circunstâncias estavam bem longe do norm al. Conversou com Sam een, que ficou desconfiada. “Você precisa descobrir exatam ente o que Essawy está querendo”, disse sua irm ã. Essawy tinha escrito recentem ente um a carta aberta a Rafsanj ani no Irã em que se referia a “esse escritor desprezível”. (“Vai m e perdoar por isso, não vai?”, disse ao telefone, fingido, baj ulador.) E fez um a exigência que se tornaria um enorm e obstáculo: “Você não deve defender o livro”.
Sem pre que ligava para Essawy, ele tinha consciência de estar sendo atraído cada vez m ais para um espaço do qual seria difícil recuar. Mesm o assim continuou ligando, e Essawy perm itiu que ele não se apressasse, encontrasse devagar seu cam inho, no seu próprio ritm o, com m uitos recuos e rodeios, em direção ao anzol que esperava sua boca ávida. A entrevista que dera no program a de tv South Bank Show tinha aj udado m uito, disse o dentista. Suas antigas posições sobre a Caxem ira e a Palestina tam bém foram úteis. Mostrariam que ele não era inim igo dos m uçulm anos. Ele deveria fazer um vídeo reiterando seu apoio às aspirações de caxem irenses e palestinos, que pudesse ser exibido no Centro Cultural Islâm ico em Londres para aj udar a m udar a opinião popular a seu respeito... Talvez, disse. Vou pensar.
Ele nunca soube m uita coisa sobre Essawy com o pessoa. O dentista disse que era bem casado e, de fato, sua m ulher era tão am orosa e prestativa que estava lhe cortando as unhas dos pés enquanto ele falava ao telefone. Essa foi a im agem do dentista que ficou gravada na cabeça dele: um hom em que fazia ligações tendo um a m ulher aj oelhada a seus pés.
* * *
Margaret Drabble e Michael Holroy d convidaram a ele e Elizabeth para passar o fim de sem ana em Porlock Weir, j untam ente com o dram aturgo Julian Mitchell e seu parceiro Richard Rosen. Eram com panhias agradáveis, m as ele estava angustiado, dando nós no cérebro em busca de um m eio de aquietar seus opositores, procurando as palavras a dizer — palavras que ele pudesse dizer — para rom per o im passe. Saíram para um a longa cam inhada pelo verde luxuriante do vale do Doone, e ao cam inhar ele discutia consigo m esm o. Talvez pudesse fazer um a declaração alegando pertencer à cultura islâm ica e não à religião. Afinal, havia j udeus não religiosos; talvez ele pudesse alegar um a espécie de afiliação secular a um a com unidade de tradição e cultura m uçulm anas.
Afinal, ele vinha de um a fam ília indiana m uçulm ana. Essa era a verdade. Seus pais podiam não ter sido religiosos, m as grande parte da fam ília o era. Ele fora sem dúvida fortem ente influenciado pela cultura m uçulm ana; afinal, quando quisera inventar a história de um a religião ficcional, tinha se voltado para a história do islã, porque era a que conhecia m elhor. E, sim , ele tinha se m anifestado em ensaios e entrevistas a favor dos direitos dos m uçulm anos caxem irenses, e em Os filhos da meia-noite situara um a fam ília m uçulm ana, e não hindu, no cerne da história do nascim ento da Índia independente. Com o podia ser cham ado de inim igo do islã com esses antecedentes? Ele não era um inim igo. Era am igo. Um am igo cético, dissidente talvez, m as apesar de tudo um am igo.
Falou com Essawy da casa de Maggie e Michael. O pescador sentiu o peixe na linha e viu que era hora de com eçar a puxar. “Quando você falar”, disse ele, “deve ser claro. Não pode haver am biguidades.”
A polícia perm itiu que ele fosse a um a exibição privada do novo film e de Bernardo Bertolucci, O céu que nos protege.Term inada a proj eção, ele não sabia o que dizer a Bernardo. Não havia nada no film e de que ele tivesse gostado. “Ah, Salm an!”, disse Bertolucci. “É m uito im portante para m im saber o que você achou de m eu film e.” Naquele m om ento, vieram a sua cabeça as palavras certas, com o aquelas outras palavras que lhe vieram à cabeça quando Mike Wallace lhe perguntara sobre sexo. Ele pôs a m ão no coração e disse: “Bernardo... Não consigo falar sobre ele”. Bertolucci concordou, com preensivo. “Muita gente tem essa reação”, disse.
Voltando para casa, ele esperou um terceiro m ilagre, na form a das palavras certas que lhe viessem no m om ento exato, pela terceira vez, e fizessem os líderes m uçulm anos britânicos aquiescer e com preender.
Ele estava finalizando a coletânea de ensaios Imaginary homelands, escrevendo a introdução, corrigindo provas, quando lhe pediram um a entrevista para o program a Late Show, da bbc. O entrevistador seria seu am igo Michael Ignatieff, escritor e hom em de televisão russo-canadense, de m odo que ele podia ter certeza de contar com a sim patia do público. Nessa entrevista, ele disse o que achava que todo m undo queria ouvir. Estou conversando com os líderes muçulmanos para tentar encontrar um ponto em comum. Ninguém m ais queria ouvir falar de liberdade, ou do direito inalienável do escritor a expressar sua visão de m undo com o lhe aprouvesse, ou da im oralidade da queim a de livros e das am eaças de m orte. Esses argum entos j á tinham sido esgotados. Retom á-los agora seria um a obstinação inútil. As pessoas queriam ouvi-lo falando de paz, e com isso a questão estaria encerrada e ele poderia sim plesm ente ir em bora, sair da televisão, dos j ornais, para a m erecida obscuridade, de preferência passando o resto da vida a refletir sobre o m al que tinha causado e a procurar os m eios de se desculpar e consertar as coisas. Ninguém se im portava com ele ou com seus princípios ou com seu livro infeliz. Precisavam que ele pusesse fim àquela situação horrorosa. Há muitos pontos em comum, disse ele, a questão é torná-los mais sólidos.
Ele m ordeu a m inhoca suculenta e não parou nem quando sentiu a ponta do anzol.
Houve um a chuva de reações, com o se ele estivesse cam inhando sobre folhas de outono caídas e as chutasse para cim a. Sam een ouviu pelo rádio que “líderes m uçulm anos m oderados” estavam pedindo ao Irã que anulasse a fatwa. No entanto, “líderes” m uçulm anos britânicos com os quais ele não tinha falado negaram que estivessem negociando com ele. O anão de j ardim pegou um voo para Teerã para instar as lideranças do país a não afrouxar, e seis dias depois o m inistro da Cultura e Orientação Islâm ica, Moham m ad Khatam i — o futuro presidente Khatam i, a grande esperança liberal do Irã —, declarou que a fatwa era irreversível. Quando soube disso, ele ligou para Duncan Slater. “Pensei que você tinha dito que os iranianos iam deixar o assunto m orrer por si”, disse ele. “Vam os voltar a falar de você”, respondeu Slater.
Ele foi ao program a de rádio de Melvy n Bragg, Start the Week ,na m anhã da segunda-feira,e cham ou Essawy de “proem inente figura m uçulm ana” que tinha aberto o diálogo com ele. Falou com Ted Koppel no program a Nightline e expressou a esperança de que as coisas m elhorassem . No Irã, a recom pensa em dinheiro aum entou outra vez: ainda 1 m ilhão para iranianos, m as 3 m ilhões para um não iraniano que fizesse o serviço. Ele falou com Slater. O acordo de Nova York era sim plesm ente um a farsa. O governo britânico precisava agir. Slater concordou em transm itir a m ensagem . O governo não agiu. Ele disse, na televisão am ericana, que estava com eçando a ficar “um pouco perturbado com a falta de reação por parte do governo britânico” a essas novas am eaças.
O pescador com eçou a puxar o peixe para a rede. “Deve haver um a reunião”, disse Essawy , “e você deve ser abraçado por m uçulm anos m ais um a vez.”
Não consultou ninguém , não pediu conselho ou orientação a ninguém . Só por isso ele devia ter com preendido que não estava em seu juízo perfeito. Norm alm ente teria conversado sobre um a decisão im portante com Sam een, Pauline, Gillon, Andrew, Bill, Frances. Não telefonou para ninguém . Na verdade, nem sequer discutiu o assunto com Elizabeth. “Estou tentando resolver isso”, disse a ela. Mas não lhe perguntou o que ela achava disso.
Não chegava aj uda de nenhum a outra direção. Era com ele. Tinha lutado por seu livro e não ia desistir. Seu nom e j á estava conspurcado, de qualquer form a. Não im portava o que as pessoas pensassem dele. Já estavam pensando o pior. “Certo”, disse ele ao cada vez m ais untuoso dentista. “Marque a reunião. Vou com parecer.”
A delegacia de Paddington Green era a dependência policial m ais segura do Reino Unido. No térreo, parecia um a delegacia com um num feioso prédio de escritórios, m as era no subsolo que as coisas aconteciam . Era lá que os m em bros do ira eram m antidos presos e interrogados. E, na véspera do Natal de 1990, foi para lá que ele foi levado para conversar com o pessoal de Essawy. Disseram -lhe que nenhum outro lugar seria aprovado, o que m ostrava com o todos estavam nervosos. Quando adentrou a delegacia de Paddington Green, com suas portas à prova de bom bas e interm ináveis trancas e revistas, ele tam bém com eçou a ficar nervoso. Então, ao entrar na sala de reuniões, gelou. Esperava um a m esa redonda, ou pessoas sentadas inform alm ente em poltronas, talvez tom ando chá ou café. Com o tinha sido ingênuo! O que via agora nada tinha a ver com inform alidade nem sequer com um a pretensa discussão. Eles não tinham se reunido para falar sobre um problem a e chegar a um acordo civilizado. Ele não seria tratado com o igual. Estava sendo levado a j ulgam ento.
A sala tinha sido disposta pelos dignitários m uçulm anos com o se fosse um tribunal. Estavam sentados com o seis j uízes, enfileirados, atrás de um a m esa com prida. De frente para eles havia um a única cadeira. Ele parou na porta, com o um cavalo refugando diante do prim eiro obstáculo, e Essawy aproxim ou-se dele, sussurrando afoito, dizendo que ele precisava entrar, que eram senhores im portantes, que tinham aberto um a brecha em sua agenda, que não deviam ser deixados à espera. Que fizesse o favor de se sentar. Todos estavam à espera.
Ele deveria ter lhes dado as costas e voltado para casa, a salvo da degradação, de volta ao am or-próprio. Cada passo adiante foi um erro. Mas agora ele era um zum bi de Essawy. A m ão do dentista pousada suavem ente em seu cotovelo guiou-o para a cadeira vazia.
Todos foram apresentados a ele, que m al gravou-lhes os nom es. Havia barbas, turbantes e olhos penetrantes, curiosos. Ele reconheceu o egípcio Zaki Badawi, presidente do Muslim College de Londres, “liberal” a ponto de, m esm o condenando Os versos satânicos, dizer que daria abrigo ao autor em sua própria casa. Foi apresentado a um certo sr. Mahgoub, m inistro egípcio de awqaf (dotações religiosas); ao xeique Gam al Manna Ali Solaim an, da m esquita central de Londres, com sua cúpula dourada, no Regent’s Park; e ao xeique Ham ed Khalifa, ligado ao xeique Gam al. Essawy era de origem egípcia e tinha trazido outros egípcios para a sala.
Estava em poder daqueles hom ens, que de início riram e brincaram com ele. Fizeram com entários desairosos sobre Kalim Siddiqui, o m alévolo gnom o de j ardim e cachorrinho dos iranianos. Prom eteram lançar um a cam panha m undial para dar fim à questão da fatwa. Ele tentou explicar as origens do rom ance, e eles concordaram em que a controvérsia tinha base num “trágico m al-entendido”. Ele não era inim igo do islã. Eles estavam dispostos a reconhecê-lo com o m em bro da intelectualidade m uçulm ana. Esse era o desej o m ais sincero deles. Queremos recuperar você para nós. Ele só precisava fazer alguns gestos de boa vontade.
Ele deveria renegar, disseram eles, as declarações de personagens de seu rom ance que atacavam ou insultavam o Profeta ou sua religião. Ele respondeu que vinha afirm ando repetidam ente que não se podia falar da perseguição a um a nova fé sem m ostrar os perseguidores no ato de perseguir, e que era um a inj ustiça evidente equiparar os pontos de vista dele próprio aos daqueles. Bem , então, replicaram , será fácil para você fazer isso.
Ele deveria suspender a publicação da edição em brochura, disseram . Ele respondeu que insistir nisso seria um equívoco, que eles seriam vistos com o censores. Eles disseram que seria necessário um tem po para que suas iniciativas de reconciliação surtissem efeito. Ele precisava criar esse espaço. Um a vez resolvidos os m al-entendidos, o livro j á não seria fonte de preocupação para ninguém e as novas edições deixariam de constituir um problem a.
Finalm ente, ele devia dar provas de sua sinceridade. Ele sabia o que era a shahadah, ou não sabia? Tinha sido criado na Índia cham ando-a de qalmah, m as era a m esm a coisa. Só há um Deus, e Maomé é seu Profeta. Essa era a declaração que ele tinha de fazer nesse dia. Era o que lhes perm itiria entender-lhe a m ão da am izade, do perdão e da com preensão.
Ele disse que preferia m anifestar um a identidade m uçulm ana secular, dizer que tinha sido criado naquela tradição. Eles reagiram m al à palavra “secular”. “Secular” era o dem ônio. Essa palavra não deveria ser usada. Ele precisaria se expressar claram ente com palavras consagradas. Essa seria a única atitude que os m uçulm anos entenderiam .
Tinham preparado um docum ento que ele deveria assinar e que Essawy lhe entregou. Era tosco e cheio de erros gram aticais. Ele não poderia assiná-lo. “Corrij a, corrij a”, eles o apressavam . “Você é o grande escritor, não nós.” Num canto da sala havia um a m esa e outra cadeira. Ele levou o papel para lá e sentou-se para analisá-lo. “Leve o tem po de que precisar”, eles exclam aram . “Você deve ficar satisfeito com o que assinar.”
Ele não estava satisfeito. Trem ia de angústia. Agora se arrependia por não ter se aconselhado com os am igos. O que teriam dito? O que o pai dele teria aconselhado? Ele se viu balançando à beira de um profundo abism o. Mas ouvia tam bém o sedutor m urm úrio da esperança. Se eles fizessem o que estavam dizendo... se o conflito chegasse ao fim ... se, se, se.
Ele assinou o docum ento corrigido e entregou-o a Essawy. Os seis “j uízes” assinaram tam bém . Houve abraços e congratulações. Estava acabado. Ele estava perdido dentro de um furacão, atordoado, cego pelo que acabara de fazer, e não tinha ideia de para onde o turbilhão o levaria. Não ouvia nada, não via nada, não sentia nada. A polícia conduziu-o para fora da sala, e ele pôde ouvir as portas que se abriam e fechavam ao longo do corredor subterrâneo. Depois, a porta de um carro, aberta, fechada. Estava sendo levado em bora. Quando chegou a Wim bledon, Elizabeth estava à espera, oferecendo-lhe seu am or. Suas vísceras estavam em rebuliço. Foi ao banheiro, sentindo-se violentam ente m al. Seu corpo sabia o que a cabeça tinha feito e estava dando sua opinião.
Naquela tarde, ele foi levado a um a entrevista coletiva e tentou passar um a im pressão positiva. Deu entrevistas para o rádio e para a televisão, com Essawy e sem ele. Não se lem brava do que disse. Sabia o que estava dizendo a si m esm o. Mentiroso,dizia . Mentiroso, covarde e tolo. Sam een telefonou. “Você teve um a privação de sentidos?”, gritou-lhe ela. “O que acha que está fazendo?” Sim, você teve uma privação de sentidos,disse sua voz interior. E não tem ideia do que fez, do que está fazendo ou do que pode fazer agora. Tinha sobrevivido todo esse tem po porque podia pôr a m ão no coração e defender cada um a das palavras que escrevera ou dissera. Tinha escrito com seriedade e integridade, e tudo o que havia dito antes sobre aquilo tinha sido verdade. Agora tinha cortado a própria língua, tinha se negado a capacidade de usar a língua e as ideias que eram naturais para ele. Até o m om ento, tinha sido acusado de um crim e contra a fé alheia. Agora ele próprio se acusava, se declarava culpado de um crim e contra si m esm o.
Então chegou o dia de Natal.
Ele foi conduzido ao apartam ento de subsolo de Pauline em Highbury Hill, onde estaria Zafar, para que passassem j untos a m anhã de Natal. Depois de algum as horas Zafar voltou para a casa da m ãe, e ele e Elizabeth foram levados à casa de Graham Swift e Candice Rodd, em Wandsworth. Era o segundo Natal deles j untos. Foram gentis uns com os outros, com o sem pre, e m uito cuidadosos a respeito do que acabava de acontecer, de m odo a não estragar o clim a natalino, m as ele pôde ver a preocupação nos olhos de todos, assim com o eles, com certeza, podiam ver a confusão em seus olhos. O dia seguinte foi passado na casinha de Bill Buford, em Cam bridge, onde Bill preparara um banquete. Esses m om entos eram ilhas em m eio à tem pestade. Depois disso, seus dias foram ocupados com j ornalistas e ele esteve assoberbado com os j ornais. Falou à im prensa britânica, à am ericana e à indiana, para a seção persa do Serviço Mundial da bbc, deu entrevistas telefônicas para em issoras de rádio m uçulm anas da Grã-Bretanha. Detestou cada palavra do que dizia. Estava se contorcendo no anzol que com tanta avidez engolira, e isso lhe fazia m al. Ele sabia a verdade: não tinha se tornado m ais religioso do que fora até poucos dias antes. O resto era pura conveniência. Nem por isso estava dando certo.
De início, pareceu que poderia dar certo. O em inente xeique de al-Azhar saiu em sua defesa e “perdoou seus pecados”, e o advogado do conselho da rainha Sibghat Qadri pediu um a reunião com o procurador-geral para conversar sobre o indiciam ento de Kalim Siddiqui. Mas o Irã continuava intransigente. Kham enei disse que a fatwa continuaria de pé, “ainda que Rushdie se tornasse o hom em m ais religioso de todos os tem pos”, e um j ornal linha-dura de Teerã aconselhou-o a “preparar-se para m orrer”. Siddiqui prontam ente papagaiou essas declarações. E os Seis de Paddington Green com eçaram a dar para trás. O xeique Gam al exigiu o recolhim ento total de Os versos satânicos,o que ele e seus pares haviam concordado em não fazer. Gam al e o xeique Ham ed Khalifa tinham sido duram ente criticados pela congregação da m esquita do Regents’ Park e, pressionados por essas críticas, passaram a abandonar o com prom isso assum ido. Sauditas e iranianos expressaram sua “irritação” com o envolvim ento do governo egípcio na iniciativa de paz, e Mahgoub, diante do risco de perder o em prego, tam bém renegou o acordo.
Ao m eio-dia de 9 de j aneiro de 1991, dia em que Elizabeth fazia trinta anos, ele recebeu a visita do sr. Greenup, que lhe disse com aspereza: “Acreditam os que o perigo tenha aum entado. Recebem os inform ações confiáveis a respeito de um a am eaça específica. Estam os analisando a situação e lhe darem os ciência no devido m om ento”.
Ele tinha caído na arm adilha de querer ser am ado, tinha se com portado com o um tolo, um fraco, e agora estava pagando o preço.