Joseph Anton: Memórias
4. A armadilha de querer ser amado
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
No dia seguinte, a divisão providenciou um a verdadeira festa. Num a lancha da polícia, Zafar e ele subiram e desceram o Tâm isa, velozm ente, indo além da Barreira, e depois voltaram para a sede da polícia em Wapping. Zafar se divertiu com o nunca.
Alberto Vitale, o diretor da Random House, Inc., disse a Andrew que as palavras finais de “Nada é sagrado?” — “Em todo lugar do m undo onde o quartinho da literatura foi fechado, m ais cedo ou m ais tarde as paredes ruíram ” — o haviam com ovido dem ais, e que a Random House estava novam ente interessada em publicar Haroun e o mar de histórias, bem com o os futuros livros de Rushdie. Entretanto, Vitale disse que desej aria no contrato um a “cláusula de fuga” que perm itisse à editora ser indenizada no caso de um livro conter algum a coisa que “pusesse em perigo seus funcionários”. Apesar disso, Andrew e Gillon opinavam que seria conveniente passar para a Random e deixar Peter May er. “Não vou assinar um contrato hum ilhante que contenha essa ‘cláusula de fuga’”, ele disse a seus agentes, acrescentando, para dar ênfase a suas palavras: “Só por cim a de m eu cadáver”. Andrew achava que a Random House não insistiria nisso. Sonny Mehta tinha acabado de ler Haroun e disse que gostara do livro. Daí a poucos dias, o acordo com a Random House estava feito. No entanto, Vitale não quis anunciá-lo. Na verdade, desej ava m antê-lo em segredo durante o m aior tem po possível. Mas Sonny Mehta e Andrew j ulgavam que devia ser preparada um a declaração à im prensa.
Ele era um hom em sem exércitos e obrigado a com bates constantes em várias frentes. Havia a frente privada de sua vida secreta, m arcada por tem ores e hum ilhações, por fugas e esconderij os, por seu m edo de encanadores e outros operários, pela busca incessante de refúgios e por perucas horrendas. Havia a frente editorial, na qual ele não podia dar nada com o certo, apesar de toda a sua trabalheira. A própria publicação de seus livros ainda estava em aberto. Não era possível assegurar que ele poderia dar prosseguim ento à vida que escolhera, que ele sem pre encontraria m ãos dispostas a im prim ir e distribuir suas obras. E, por fim , havia o m undo agressivo e violento da política. Se ele fosse um a bola de futebol, pensava, poderia ser um a bola consciente e participar de bom grado do j ogo? Seria possível para a bola de futebol com preender o esporte em que ela era chutada do com eço ao fim ? Poderia a bola de futebol agir em seu próprio interesse e retirar-se do cam po e do alcance dos pés que a chutavam ?
Peter Tem ple-Morris, m em bro do Parlam ento, era um hom em de cabelos brancos que lem bravam sorvete de baunilha m ole a balançar sobre sua cabeça, um hom em digno e em inente, m em bro conservador do grupo parlam entar anglo-iraniano, um hom em que não se interessava por ele e que agora, quando os reféns am ericanos no Líbano estavam sendo libertados, decidira que a “responsabilidade m oral” pela sorte dos reféns britânicos cabia ao autor de Os versos satânicos, que deveria se abster de publicar seu livro em brochura. Seguiu-se um a avalanche de críticas. O grupo de apoio ao refém John McCarthy declarou que “Rushdie deve pedir desculpas”. O pai de McCarthy, Patrick, culpou-o no Daily Mail pelo fato de John ainda perm anecer com o refém . David, irm ão do refém Terry Waite, disse que os problem as de Rushdie tinham sido criados “por ele m esm o”. E, referindo-se à edição em brochura, acrescentou que “nem sem pre se tem o que se quer”. David achava que essa edição devia ser cancelada e que o autor deveria pedir perdão pela ofensa que com etera. Toda essa hostilidade surtiu seu efeito. O Daily Telegraph publicou os resultados de um a pesquisa Gallup: a m aioria dos entrevistados achava que “Salm an Rushdie deve pedir desculpas por Os versos satânicos”. E fontes lhe disseram , em bora ele nunca tenha sabido se isso era verdade, que William Waldegrave aconselhara privadam ente a Penguin a não publicar o rom ance em brochura, j á que isso afetaria a sorte dos reféns britânicos e a do em presário britânico Roger Cooper, ainda na prisão de Evin, em Teerã.
Era a isso que os atrasos da Penguin os levara. Isso, talvez, fosse o que May er sem pre desej ara: um a razão respeitável para não fazer a edição.
O arcebispo de Cantuária, Robert Runcie, reuniu-se com o sr. Abdul Quddus, do Conselho de Mesquitas de Bradford. Quddus disse ao arcebispo que, em sua viagem recente ao Irã, m em bros do Maj lis iraniano lhe haviam garantido que Terry Waite, o enviado do arcebispo sequestrado por libaneses, estava vivo, m as só seria devolvido se Rushdie fosse extraditado para o Irã. Sua declaração foi reiterada por Hussein Musawi, do grupo xiita libanês Am al Islâm ica, que declarou que um refém britânico poderia ser libertado “se a Grã-Bretanha deportasse Rushdie”, advertindo que, se nenhum a ação fosse tom ada contra o escritor, Terry Waite, John McCarthy e o terceiro refém britânico, Jackie Mann, não seriam libertados. Essa notícia, divulgada pelo rádio em Karachi, deixou sua m ãe extrem am ente assustada, e Sam een teve de consolá-la.
Ele vinha tentando conseguir um a reunião com William Waldegrave, para perguntar o que o governo tencionava fazer para resolver a crise. Waldegrave inform ou a Harold Pinter que o governo — ou sej a, Margaret Thatcher — estava “alarm ado” com a ideia dessa reunião, tem endo que sua realização vazasse para a im prensa. Era público e notório que ele não apoiava o governo Thatcher. A posição do governo parecia ser: Está bem, vamos mantê-lo vivo, mas não temos de vê-lo ou ter um plano de ação. Vamos apenas mantê-lo em sua cai xa, e, se ele fizer objeções a isso, há muita gente pronta a acusá-lo de ingratidão.
Ele se sentia tom ado por um a im ensa lassidão, um a espécie de exaustão nervosa. Cinco anos depois de ter largado o cigarro, voltara a fum ar, furioso consigo m esm o por causa disso, dizendo que não podia deixar aquilo continuar por m ais tem po, m as ainda assim fum ando. “Estou lutando contra a droga”, escreveu, “m as com o ela é poderosa! Sinto a ânsia de fum ar nos braços e na boca do estôm ago.” E em letras m aiúsculas: “vou vencer o cigarro de novo”.
Cinco árabes foram presos em Scarborough, acusados de estarem planej ando executar a fatwa. Zafar, que estava em casa, doente, e não fora à aula, soube disso no noticiário da hora do alm oço e telefonou, fingindo não estar preocupado. A polícia dizia que a notícia era um “exagero da m ídia”, m as, em bora ele não acreditasse nisso, confirm ou a linha de conduta oficial para Zafar, a fim de acalm á-lo.
Marianne enviou-lhe um a carta. “Você saiu em busca da Dúvida e a achou”, escreveu. “E com isso nos m atou.”
“A m aior parte do que im porta em nossa vida acontece em nossa ausência”, ele escrevera em Os filhos da meia-noite. O que ele tinha em m ente não eram ordens de m orte, com plôs para assassinatos, am eaças de bom bas, m anifestações, audiências j udiciais e m aquinações políticas, m as essas coisas tinham invadido sua vida pessoal a fim de com provar as palavras de seu narrador ficcional. Era com ovente saber que suas desditas causavam enorm e preocupação a tantos estranhos que lhe queriam bem . O rom ancista am ericano Paul Auster, que viria a se tornar seu am igo chegado, escreveu um a “prece” para ele. Esta manhã, quando me sentei para escrever, a primeira coisa que fiz foi pensar em Salman Rushdie. Tenho feito isso toda manhã [...]. E Mike Wallace quis aj udar. O fam oso repórter do program a 60 Minutes disse a um executivo da Penguin que “um a outra declaração na linha de ‘De boa-fé’ ou talvez ‘um ou dois passos à frente’” — fosse qual fosse o significado disso — poderia ser levada por ele pessoalm ente a Rafsanj ani e que isso talvez servisse para levar à revogação da fatwa.
Ele conversou com Andrew, Gillon e Frances D’Souza, pedindo-lhes que dessem apoio a essa ideia. “Não devo m e em polgar m uito”, escreveu em seu diário, “m as até a leve possibilidade de liberdade é tão anim adora que não deixo de m e em polgar.” Andrew falou com Mike Wallace e com Kaveh Afrasiabi, pesquisador adj unto do Centro de Estudos do Oriente Médio, da Universidade Harvard. Afrasiabi disse que j á tinha conversado com o em baixador iraniano nas Nações Unidas, Kam al Kharrazi, e com “fontes ligadas a Kham enei”. Repetiu o que Wallace dissera. Se ele fizesse um a declaração “coerente com seus princípios”, Kham enei a acolheria bem e revogaria a fatwa. O Irã estava à procura de um “ponto de ruptura” na crise, e o envolvim ento de Mike Wallace era bem -vindo, pois Kham enei desej ava ter um a boa im agem j unto à m ídia am ericana, para “dim inuir a autoridade de Rafsanj ani”.
Tudo no m undo acabava sem pre em televisão.
Pediram -lhe que fizesse um a declaração, em vídeo, que Wallace pudesse levar a Teerã e exibir na tv de lá. Em seguida, Kham enei conversaria com Wallace na tv am ericana e diria o que precisava ser dito. Saberíam os dentro de poucos dias, disse Afrasiabi, se o Irã concordava em seguir essa linha de conduta, pois fora levado a esperar um a “resposta positiva”. Quatro dias depois, ele telefonou para Andrew e disse que tinha recebido “sinal verde”. Propôs, com o passo seguinte, um a reunião com um certo sr. Khoosroo, prim eiro-secretário da m issão do Irã na onu.
Andrew e Frances conversaram entre si e depois o procuraram . Convinha avançar com cautela, decidiram . Seria crível que aquilo fosse a solução da crise? Não se atreviam a acreditar. No entanto, queriam acreditar. Acreditaram .
Mike Wallace e Afrasiabi reuniram -se com Andrew na agência. Afrasiabi repetiu as exigências iranianas de um a declaração de arrependim ento que seria incluída, como prefácio, à edição em brochura (arre, pensou o autor, m as, por outro lado, não estavam se opondo à publicação da edição em brochura) e da criação de um fundo para as fam ílias dos que tinham m orrido em distúrbios “anti-Rushdie”. Mas Frances D’Souza estava preocupada. Por um lado, disse, havia “sinais” de que o Irã talvez tivesse deixado de financiar o Instituto Muçulm ano, de Siddiqui, e vinha tentando instalar um im ã chefe m oderado no Reino Unido. Por outro lado, ela tem ia que os iranianos estivessem fazendo um “j ogo particularm ente sórdido”. Se cancelassem a fatwa, a proteção policial seria suspensa, e aí ele poderia sofrer um atentado por parte de um a célula fundam entalista, e os iranianos teriam com o negar toda e qualquer responsabilidade. Em algum m om ento, disse, o governo britânico deveria se envolver, a fim de solicitar garantias contra essa eventualidade. Sam een tam bém tem ia que ele fosse m orto se “m ostrasse a cara”. Ele vacilava, desorientado. Estavam acontecendo m uitas coisas ao m esm o tem po. Era difícil avaliar o que era m elhor.
A situação com eçou a se desem aranhar. Os iranianos cancelaram um encontro com Mike Wallace. Queriam se reunir som ente com Afrasiabi, para saber o que tinha sido acertado na reunião com Andrew. E aí, puf! Com o o estouro de um a bolha, o sonho chegou ao fim . A m issão iraniana na onu disse que teria de “consultar Teerã”. Isso levaria pelo m enos duas sem anas. Isso não é sério, ele entendeu. É uma piada. Eles só queriam que eu fizesse a declaração e depois confiasse em que agissem. Confiasse neles. Isso mesmo: uma piada.
Ele parou de fum ar. Depois recom eçou.
Nos dias que se seguiram , o Irã negou que pudesse revogar a fatwa. Kham enei declarou que ele “deveria ser entregue aos m uçulm anos britânicos, para ser executado por blasfêm ia”, e que isso solucionaria os problem as entre o Reino Unido e o Irã. No program a Newsnight, da bbc, Frances D’Souza teve de engolir o espetáculo do “núm ero dois” de Siddiqui, o escocês Jam es Dickie — que ao se converter ao islam ism o adotara o nom e Yaqub Zaki —, convocando esquadrões da m orte a Londres. Rafsanj ani deu um a entrevista coletiva em que tentou acalm ar os ânim os, m as sem oferecer soluções para a crise da fatwa. E pela prim eira vez o governo britânico ofereceu ao escritor um contato. Deveria avistar-se, no fim de sem ana, com o diplom ata Duncan Slater. Antes disso, porém , ele conversou com o j ornalista John Bulloch, do The Independent, especialista em Oriente Médio altam ente respeitado, que voltara recentem ente de Teerã e confirm ou que os iranianos estavam “loucos para resolver essa questão [...] só é preciso um acordo aceitável”. Depois disso, o encontro com Slater foi decepcionante. Slater não tinha nenhum a inform ação sobre iniciativas através de canais indiretos ou secretos ou sobre qualquer atividade de algum a im portância em nível de governo. No entanto, era anim ador estar em contato com o governo e ter certeza de que contava com seu apoio. Ele chegara a um ponto em que se sentia grato por essas m igalhas.
A iniciativa Afrasiabi estava m orta. O hom em de Harvard escrevera um a carta que alterava a “lista de com pras” das exigências. A publicação do livro deveria ser totalm ente suspensa por cerca de doze a quinze m eses, e “Rushdie deve sim plesm ente fazer sua declaração prim eiro; o que ele tem a perder?”. Além disso, disse Andrew, “tenho para m im que Afrabiasi quer publicar um rom ance e está em busca de um agente”. Um a sem ana depois, Kam al Kharrazi, o hom em do Irã nas Nações Unidas, disse a Mike Wallace: “Esta não é a hora para essa iniciativa avançar”. Outro canal indireto fechado.
Ele teve outro encontro com o em baixador Busby, que nessa ocasião se fez acom panhar de Bill Baker, do fbi. Pediram -lhe que esperasse m ais alguns m eses antes de um a visita aos Estados Unidos, m as m antiveram o clim a de gentileza e solidariedade. Busby fez um com entário interessante sobre a iniciativa Afrasiabi. “Talvez”, disse, “o interm ediário fosse o hom em errado para eles.”
No 11o aniversário de Zafar, ele presenteou o filho com um a guitarra elétrica e passou a tarde com ele na casa da Herm itage Lane, ouvindo-o tocar o instrum ento e gravando o que ele tocava. Um dia com o qualquer outro com o m ais im portante ser hum ano de sua vida.
Cosim a havia encontrado um a residência am pla e não gem inada em Wim bledon, bem m ais confortável do que a da Herm itage Lane: um a casa grande, de tij olinhos, com três andares e um a torre octogonal no lado sul. A polícia a visitara e a aprovara. A casa da Herm itage Lane era horrível, m as lhe valera sete m eses estáveis. Chegara a hora de se m udar de novo.
O contrato referente a Haroun e o mar de histórias não tinha sido assinado pela Random House. Andrew procurou Sonny Mehta e Alberto Vitale para saber por quê. Antes da reunião, Sonny com entou com Andrew: “Não acredito que haj a algum problem a”. Portanto, era óbvio que havia. No encontro, Vitale disse que não queria que o contrato fosse assinado “por m otivos ligados a seguros”. Com o estavam negociando a com pra do edifício em que funcionava a editora, não queriam que esse livro se tornasse um estorvo. Dispunham -se a pagar dois terços do adiantam ento acertado, de form a a garantir um a “opção de publicação”, ficando o terço final para ser pago depois que o autor discutisse “questões editoriais” com Sonny. “O autor deve assinar”, disse Vitale, “m as nós vam os dar um tem po.” Andrew ligou para lhe passar essas notícias. “Não”, ele respondeu, furioso. “Cancele o acordo e diga-lhes que vou processá-los por quebra de contrato. Prefiro ficar inédito a ser hum ilhado.” Na m esm a tarde, Andrew voltou a se reunir com Vitale e Sonny, que capitularam . O.k., disseram , eles assinariam . Ele ficou com um gosto am argo na boca, m as ao m enos tinha ganhado um round.
No dia em que ele fez 43 anos, Gillon levou-lhe o contrato para assinar. O docum ento tinha um a “cláusula de confidencialidade”. Ele não deveria com entar com ninguém a existência do contrato até um a data posterior a ser definida de com um acordo com a Random House. Essa cláusula em itia o cheiro inequívoco de tram oia, m as ele assinou o contrato. Quase de im ediato a tram oia apareceu. Sonny Mehta se recusava a publicar Haroun a m enos que o livro fosse reescrito segundo suas especificações.
Fazia dez anos que ele conhecia Sonny Mehta, desde que este cuidara da edição britânica d e Os filhos da meia-noite em brochura, pela Picador Books. Durante todo esse tem po ele o considerara um am igo, ainda que a fam osa reserva de Sonny tornasse difícil a qualquer pessoa aproxim ar-se m uito dele. Sonny era hom em de pouco falar e ainda m enos de telefonar, dado a sorrir enigm aticam ente por trás do cavanhaque e a deixar as conversas e a atividade social a cargo da m ulher, a fulgurante Gita, m as era um hom em de bom gosto, íntegro, profundam ente leal a seus autores, e elegante (blazers de alta qualidade usados com calças j eans j ustíssim as). No caso de Haroun e o mar de histórias, porém , ele se conduziu de form a inteiram ente diferente. Em 26 de j unho de 1990, cham ou Andrew ao telefone para insistir que Haroun fosse reescrito para m udar a am bientação. O “Vale de K”, disse, era obviam ente Kashm ir — ou Caxem ira —, e esse lugar era um verdadeiro barril de pólvora, onde várias guerras tinham sido travadas e foco de intensa atividade de j ihadistas islâm icos. Portanto, era claro que isso tinha de ser m udado. Talvez, propôs, a história pudesse ser am bientada na Mongólia, senão haveria “cadáveres por toda parte” e “Salm an enfrentaria problem as m ais graves do que agora”. Haroun, ele garantiu a Andrew, era um livro m ais perigoso e provocador do que Os versos satânicos.
O autor tentou ver sua fábula infantil através daquela lente distorcida. Contudo, m esm o nessa visão deturpada, o livro só podia ser visto com o “pró-Caxem ira”? O personagem “MasDem ais”, entretanto, era um retrato satírico de um político indiano, e talvez fosse isso que realm ente incom odava Sonny, que vinha de um a fam ília ligada de perto à diplom acia, e cuj a m ulher era filha do m inistro-chefe de Orissa e frequentava os círculos políticos da elite em Delhi. E, se Sonny ficava com tanto m edo de um livro infantil, com o reagiria à ficção para adultos que o autor poderia lhe oferecer no futuro?
O pior estava por vir. O plano de Sonny consistia em realizar todo o processo de produção sem pôr o nom e do autor no livro. Alberto Vitale insistira, estranham ente, em guardar segredo, porque o consulado da Noruega funcionava no m esm o edifício da Random House, e anunciar a publicação de um livro de Rushdie criaria m uito perigo para os noruegueses. Portanto, seria usado um nom e falso, a ser substituído pelo nom e real no últim o m inuto, quando o livro estivesse para ser im presso. Isso era m uito ruim . Parecia indicar um com portam ento assustado — e indicava mesmo — e, quando se tornasse do conhecim ento público que a Random House estava am edrontada dem ais para identificar a autoria desse livro — o que quase com certeza aconteceria —, essa atitude o cercaria de um a aura de “controvérsia” antes que qualquer pessoa sequer o visse, e constituiria um claro convite para que os adversários do autor iniciassem um novo ataque.
Sonny m andou que m ensageiros levassem ao escritório de Andrew recortes sobre a Caxem ira, tirados de revistas e j ornais indianos, para com provar sua preocupação. Havia em Haroun personagens de sobrenom e Butt, e um hom em com esse sobrenom e fora enforcado na Caxem ira havia pouco, “com o deve ser do conhecim ento de Salm an”. De m odo que, agora, “Butt” — que fora o nom e de solteira de sua m ãe; que, grafado “Butt” ou “Bhatt”, era o sobrenom e m ais com um na Caxem ira; e que, em Haroun e o mar de histórias, não era o nom e de um enforcado, e sim de um sim pático chofer de ônibus e, depois, de um a gigantesca ave m ecânica — se tornara um nom e politicam ente explosivo? Era um contrassenso, m as Sonny falava a sério. Andrew insinuou que ele não estava agindo com o um velho am igo de Salm an, ao que ele retorquiu: “Não vej o o que isso tenha a ver com am izade”. E acrescentou: “Andrew, ninguém no m undo com preende este livro tão bem quanto eu”. E Andrew contrapôs, com elogiável com edim ento: “Creio que Salm an acha que ele com preende”.
Tudo isso lhe foi relatado por Andrew de Nova York, ainda na rua, depois de sair do escritório de Sonny. Ele disse a Andrew: “Por favor, suba até a sala de Sonny outra vez e m e deixe falar ao telefone com ele”. Sonny pegou o fone e disse que tinha “certeza” de que suas discórdias poderiam ser resolvidas assim que ele pudesse viaj ar a Londres para discuti-las. Mas as coisas j á tinham ido longe dem ais para isso.
“Sonny, o que eu preciso que você responda”, disse ele, “é o seguinte: você vai publicar m eu livro com o eu o escrevi? Sim ou não?”
“Quando eu chegar aí, conversarem os sobre isso”, Sonny repetiu.
“Não há nada sobre o que conversar”, ele disse a Sonny. “Você vai publicá-lo do j eito que está? Essa é a única pergunta.”
“Não”, respondeu Sonny . “Não vou.”
“Nesse caso”, ele disse ao velho am igo, “por favor, rasgue esse contrato que está diante de você, em sua m esa.”
“O.k., Salm an”, disse Sonny , “se é isso que você quer.”
“Não é o que eu quero”, disse ele. “Eu quero que um editor publique meu livro, e não um livro que está na cabeça dele.”
“O.k.”, disse Sonny , “então vam os rasgar o contrato.”
Ele soube que houvera um a reunião do conselho da Random House britânica algum tem po antes, e que a possibilidade da publicação de Haroun estava no tem ário. A grande m aioria dos votos fora contrária à publicação.
* * *
Num outro universo, era a época da Copa do Mundo. Fazia algum tem po que Bill Buford vinha escrevendo um livro sobre os hooligans do futebol, e viaj ou à Sardenha por ocasião da partida Inglaterra × Holanda, não por causa do j ogo, m as pela sim ples razão de que não queria perder as batalhas, depois da partida, entre as turm as rivais de brigões. Os principais noticiários d a tv britânica daquela noite deram destaque à violência na Sardenha. Um exército de brutam ontes avançava em direção à câm era, brandindo punhos e bastões e gritando “Inglaterra!”. No centro exato da prim eira fila de valentões britânicos, gritando com eles, estava o editor da revista Granta, levando as técnicas participativas do Novo Jornalism o a um nível que George Plim pton e Tom Wolfe talvez não tivessem im aginado. Mais tarde, naquela noite, a polícia italiana investira contra os “torcedores” britânicos, espancando m uitos deles, inclusive Bill, que, enroscado em posição fetal num a calçada, levou vários chutes nos rins. Apesar de suas lesões, ele se dedicou, ao voltar a Londres, a resgatar a carreira literária do am igo.
Haroun estava buscando um a editora. Liz Calder adiantou que a Bloom sbury não se disporia a com petir pelo livro. Christopher Sinclair-Stevenson, que acabara de lançar sua própria editora, pequena e independente, disse que sua em presa era “novata dem ais” para assum ir a obra. Christopher MacLehose, da Harvill, quis apresentar um a proposta, m as a HarperCollins, de Rupert Murdoch, com panhia que tinha a m aior participação acionária na Harvill, o im pediu. A Faber and Faber era um a possibilidade. Mas quem m ais desej ava o livro era Bill, para o novo selo da revista Granta, o Granta Books. “Você precisa de alguém que publique seus livros de form a totalm ente norm al, com a fanfarra e o alvoroço que um novo livro seu m erece”, disse ele. “Você precisa ser apresentado de novo aos leitores com o um escritor, e é isso que pretendo fazer com esse livro.” Até surgir a possibilidade de publicar Haroun, Bill vinha lhe sugerindo que pedissem a Blake Morrison que escrevesse sua biografia autorizada, para que o público conhecesse o hom em , e não o escândalo. Blake era um excelente escritor e faria um bom trabalho, m as o autor não queria expor sua vida pessoal. E, se um dia a história pudesse ser contada, ele próprio queria escrevê-la. Um dia, disse a Bill, eu mesmo a escreverei.
Agora a ideia da biografia estava esquecida. Bill suplicava a Gillon que lhe perm itisse publicar Haroun. Seu entusiasm o era gratificante, e tam bém persuasivo. As obras da Granta Books eram distribuídas pela Penguin. Isso, disse Gillon, poderia ser um a “solução elegante”. Evitaria um rom pim ento com a editora, que poderia levar a um a publicidade prej udicial, e ao m esm o tem po o pessoal da Penguin não estaria envolvido de form a direta. De repente, todo m undo na Penguin ficou satisfeito com isso. Tam bém eles gostaram desse aspecto da solução. Bill disse que a reação do pessoal de vendas tinha sido “m uito positiva”. Peter May er escreveu um a carta em que dizia esperar que isso fosse um recom eço, e ele respondeu que tam bém esperava o m esm o. Todos no escritório britânico queriam que a edição saísse logo, em setem bro, para se beneficiar das vendas do Natal, e a Penguin am ericana concordou. O acordo foi feito e anunciado quase ao ser proposto. A rapidez era im portante. Se Sonny tivesse tem po para explicar aos m uitos am igos no m undo editorial que se recusara a publicar Haroun porque seu autor m ais um a vez apresentara um a bom ba-relógio sem indicar ou adm itir seus perigos, nunca m ais esse autor teria com o publicar livros. Com coragem e determ inação, Bull Buford im pedira que isso ocorresse.
Gita Mehta disse a um am igo com um : “Acho que ele anda m eio chateado com a gente”.
Ele estava com saudade de Marianne. Sabia que não devia tentar reatar com ela depois de tudo o que acontecera, depois do com plô da cia e do diário negro, m as o fato é que sentia sua falta. Quando se falavam pelo telefone, brigavam . Conversas que com eçavam com “Espero que você esteja bem” acabavam em “Quero mais é que você morra”. Mas ainda pairava no ar, entre os dois, a palavra amor, fosse o que fosse que ele cham ava de am or, fosse o que fosse que ela queria dizer com isso. Para sobreviver a décadas de casam ento com o pai dele, colérico, desencantado e alcoólatra, sua m ãe tinha desenvolvido o que ela cham ava de “olvidória”, em vez de m em ória. Ao despertar para um novo dia, ela esquecia o anterior. Tam bém ele parecia não ter m em ória para problem as, e ao acordar só se lem brava do que queria ardentem ente. Mas não fazia nada do que o coração m andava. Ela tinha viaj ado para os Estados Unidos, e fora m elhor assim .
Ele sabia que, por baixo da pressão contínua do que acontecia, estava passando por um a profunda depressão e que suas reações ao m undo tinham se tornado anorm ais. Não zombeis de mim, por favor, dissera Lear. Creio não estar em meu melhor juízo. Talvez ele visse nela a realidade física de sua vida antiga, o ordinário que aquele presente extraordinário usurpara. Talvez fosse isso o que restava do am or entre eles. Era o am or do ontem desvanecido, do depois que ansiava pelo antes.
Tinha consciência de que estava se agravando nele a divisão, aquele fosso entre o que “Rushdie” precisava fazer e a form a com o “Salm an” queria viver. Ele era “Joe” para seus protetores, um a entidade a ser m antida viva; e nos olhos dos am igos, quando podia vê-los, ele percebia alarm e, o m edo de que “Salm an” viesse a ser esm agado sob o peso do que acontecera. “Rushdie” era um a questão de todo diferente. “Rushdie” era um cachorro. Segundo com entários privados de m uitas pessoas em inentes, inclusive do príncipe de Gales num alm oço a am igos do escritor, Martin Am is e Clive Jam es, “Rushdie” m erecia pouca com paixão. “Rushdie” m erecia tudo o que estava recebendo, e precisava fazer algum a coisa para desfazer o grande m al que causara. “Rushdie” precisava parar de insistir em edições em brochura, em princípios e literatura e em ter razão. “Rushdie” era m uito odiado e pouco am ado. Era um a efígie, um a ausência, algo m enos do que hum ano. Ele — aquela coisa — só precisava expiar.
Ruthie Rogers, coproprietária do River Café, ofereceu-lhe um a festa de aniversário. Um a dúzia de seus am igos m ais chegados reuniu-se sob os olhos atentos de nove gravuras da série Mao, de Andy Warhol, na sala im ensa da casa dos Rogers, na Roy al Avenue, um espaço branco, feericam ente ilum inado, com suas j anelas altas sem cortinas, um pesadelo para a Divisão Especial. Ruthie e o m arido, o arquiteto Richard Rogers, tinham sido apenas conhecidos dele antes da fatwa, m as fazia parte da natureza afetuosa do casal aproxim ar-se ainda m ais dos am igos que viviam m om entos difíceis e fazer m uito m ais por eles do que se esperaria. O aniversariante era um hom em necessitado de abraços e beij os, que naquela noite não faltaram . Ele ficou feliz com o fato de seus am igos serem dados a abraçar e beij ar. No entanto, ele tam bém se viu refletido nos olhos deles e percebeu que não estava nada bem .
Estava se dando conta das lim itações da linguagem . Sem pre acreditara na onipotência da fala, no poder da língua. Mas a linguagem não poderia tirá-lo daquela situação. “De boa-fé” e “Nada é sagrado?” não tinham m udado nada. Um am igo paquistanês, Om ar Nom an, queria reunir um grupo de pessoas de “nossa parte do m undo” para explicar aos iranianos que “eles haviam pegado o hom em errado”. Um am igo indiano, o afam ado advogado Vij ay Shankardass, j ulgava que os m uçulm anos indianos poderiam desem penhar um papel na solução do caso. Vij ay se incum biu de falar a alguns líderes, entre os quais Sy ed Shahabuddin, que obtivera a proibição de Os versos satânicos na Índia, e Salm an Khurshid, “o Salm an errado”, condenado por engano pelo im ã Bukhari, da Jam a Masj id, em Delhi, nas orações de um a sexta-feira.
Ele duvidava que arrazoados ou argum entos, os m étodos de pessoas que usavam a linguagem , lograssem m uito êxito. Ele estava com batendo um poder m aior — ou, para usar o vocabulário dos religiosos, um poder superior, um poder que troçava do m eram ente racional e dom inava um a linguagem que superava em m uito as línguas dos m ortais. E esse deus não era um deus de am or.
Ele deixou a casa da Herm itage Lane para sem pre e foi levado, com Zafar, à fazenda de Deborah e Michael em Powy s, onde passaram um fim de sem ana precioso, chutando um a bola de futebol, j ogando críquete e brincando com um Frisbee no cam po. Clarissa desej ara passar o fim de sem ana sozinha, por causa de um novo nam orado, m as naquele fim de sem ana o nam orado term inou com ela, por não aceitar a parcela dos respingos da fatwa que cabia a ela. Clarissa estava levando a situação com m uita força. Ele desej ava que ela fosse feliz.
Depois do fim de sem ana, ele se transferiu, sem cham ar a atenção, para a casa em Wim bledon, m as surgiu um problem a. A proprietária, sra. Cindy Pasarell, ligou várias vezes, para bisbilhotar. Por sorte, estava de serviço um a das agentes de proteção, Rachel Clooney, e, com o foi m ais tranquilizador ouvir um a voz fem inina que um a voz m asculina, a curiosidade da sra. Pasarell arrefeceu um pouco. Depois, telefonou o sr. Devon Pasarell, aparentem ente sem saber das ligações da sra. Pasarell, dizendo que precisava pegar alguns obj etos na garagem . Porventura estavam separados? No dia seguinte, um a pessoa “que trabalhava” com a sra. Pasarell apareceu na porta da casa sem um a razão convincente. A seguir, Cindy Pasarell telefonou de novo, m ais séria. Ela gostaria de conhecer os novos inquilinos para se convencer de que eram “apropriados”.
Em busca de aj uda, ele telefonou para Pauline, que j á tinha trabalhado em todo tipo de peça, desde Longe deste insensato mundo, baseada no rom ance de Thom as Hardy, até a série de tv britânica The Young Ones, e sabia im provisar com o ninguém , de m odo que daria conta desse novo papel. Ele a instruiu com inform ações sobre sua personagem e ela concordou em passar um dia na casa e receber a curiosa Cindy. A situação era, ao m esm o tem po, absurda e perigosa. Ele disse a Bob Maj or que não poderia fazer aquilo de novo, toda aquela sim ulação e im postura. Algum a outra solução teria de ser encontrada. Bob fez ruídos neutros e solidários. Era um soldado raso. Não com petia a ele um a decisão dessa natureza.
Nos dois dias seguintes, o sr. Pasarell foi à casa de novo, sem avisar, para “pegar coisas na garagem ”, e, depois, de novo, “para m eter a chave da garagem pela porta da frente”. Rachel Clooney, um a loira alta e elegante, com um suave sotaque escocês e um sorriso largo, conversou educadam ente com ele, que ficou dentro de seu Granada preto, fora da propriedade, por m uito tem po, assuntando. Num a tentativa de acalm ar as coisas, Pauline, com o a dona da casa, ligou para a sra. Pasarell e convidou-a para um chá, m as ela, em bora tivesse aceitado o convite, não apareceu. Em vez disso, os Pasarell m andaram um a carta de reclam ação ao escritório de Gillon, protestando contra o que cham aram de “ocupação m últipla” da casa. O m edo da descoberta o paralisou. Estaria para se repetir o desastre de Little Bardfield — ele teria de se m udar de im ediato e perder todo o aluguel j á pago, ou devido por contrato? “Isso é horrível”, disse ele a Gillon. “Isso tem de acabar.”
Gillon resolveu o problem a. “Eles estão sendo ridículos”, disse, em seu tom m ais arrogante e desdenhoso. “Estão recebendo um a m ontanha de dinheiro de você. Precisam os dar um a dura neles. Deixe isso com igo, m eu caro.” Mandou para eles, por fax, o que ele cham ou de “carta cai-fora”. Logo depois, telefonou de volta, rindo. “Meu caro, acho que deu certo. Eles responderam por fax, e concordaram em cair fora.” Os Pasarell haviam realm ente concordado que, em troca da elevada quantia que estavam recebendo de aluguel, deixariam de im portunar seus inquilinos. É até possível que tenham pedido desculpas. E as coisas ficaram assim , durante vários m eses.
Nadine Gordim er vinha colhendo assinaturas de europeus em inentes num “apelo ao governo do Irã”. Na casa dos Pinter, ele j antou com Carlos e Silvia Fuentes, e o grande rom ancista m exicano prontificou-se a “arrebanhar chefes de Estado latino-am ericanos”. Enquanto isso, Siddiqui, o gnom o de j ardim , continuava a fazer seus pronunciam entos repulsivos de gnom o, que os gnom os m ais graúdos de Qom e Teerã reiteravam com m aior ressonância. Um fortíssim o terrem oto perto da cidade de Rasht m atou 40 m il pessoas e deixou m ais de m eio m ilhão de desabrigados, m as nem isso fez o assunto m udar. A fatwa era m ais im portante.
Zafar viaj aria por três sem anas. Iria para um acam pam ento de férias com dois colegas da escola, e depois Clarissa o levaria à França com Liz Calder, Louis Baum e o filho de Baum , Sim on. Em sua ausência, havia guerrilheiros paquistaneses a enfrentar.
O film e paquistanês International gorillay (Guerrilheiros internacionais), produzido por Saj j ad Gul, contava a história de três irm ãos — o tipo de gente que, na linguagem de um a era posterior, seria cham ada de jihadis ou terroristas — dedicados a encontrar e m atar um escritor cham ado “Salm an Rushdie”. A m aior parte do film e m ostrava a procura de “Rushdie”, cuj a m orte constituía o final feliz.
O próprio “Rushdie” era retratado com o um sádico bêbado, sem pre com um a garrafa na m ão. Morava num a casa m uito parecida com um palácio, num lugar m uito parecido com um a ilha nas Filipinas (todos os rom ancistas, é claro, tinham casas de veraneio assim ), era protegido por um grupo m uito parecido com o Exército israelense (o que, presum ivelm ente, era um serviço prestado por Israel a todos os rom ancistas), e estava tram ando a derrubada do Paquistão m ediante o artifício diabólico de abrir redes de discotecas e antros de j ogatina naquela terra pura e virtuosa, um plano solerte para o qual, com o o “líder” m uçulm ano britânico Iqbal Sacranie poderia ter dito, a m orte era um a punição leve dem ais. “Rushdie” vestia, do com eço ao fim do film e, um a série de traj es de safári de cores horrendas — verm elhão, berinj ela, cerej a —, e, sem pre que a câm era caía sobre esse pérfido personagem , invariavelm ente com eçava m ostrando seus pés e ia subindo, am eaçadoram ente, até seu rosto. Por isso, os traj es de safári recebiam am pla cobertura, e quando ele assistiu a um videoteipe do film e esses traj es insultuosos o feriram profundam ente. Entretanto, foi estranham ente gratificante ler que um dos resultados da popularidade do film e no Paquistão foi que o ator que fez o papel de “Rushdie” tornou-se tão odiado pelo público que teve de se esconder.
Em certo m om ento do film e, um dos três international gorillay era capturado pelo Exército israelense e am arrado a um a árvore no j ardim do palácio nas Filipinas para que “Rushdie” pudesse fazer suas m aldades com ele. Assim que “Rushdie” esvaziava sua garrafa e parava de açoitar o pobre terrorista com um chicote, assim que saciava sua avidez de violência sobre o corpo do rapaz, entregava aos soldados israelenses o inocente aspirante a hom icida e pronunciava a única frase realm ente engraçada do film e: “Tirem ele daqui”, gritava, “e leiam para ele trechos de Os versos satânicos a noite toda!”. É claro que o coitado desm oronava. Isso não, tudo menos isso, punha-se a im plorar, enquanto os israelenses o levavam .
No fim do film e, “Rushdie” era realm ente abatido — não pelos international gorillay, m as pela própria Palavra, por raios que, lançados por três enorm es Corões que pairavam no céu sobre sua cabeça, incineraram o m onstro. Calcinado diretam ente pelo Livro do Todo-Poderoso: havia dignidade nisso.
Em 22 de j ulho de 1990, o Conselho Britânico de Classificação de Film es (British Board of Film Classification — bbfc) negou licença para exibição a International gorillay, com base no argum ento bastante óbvio de que o film e era difam atório (e porque o órgão tem ia que, concedendo a licença ao film e, o verdadeiro Rushdie abrisse um processo por difam ação e o bbfc fosse acusado de conivência, podendo ser processado tam bém ). Isso criou um dilem a para o Rushdie verdadeiro. Ele estava travando um a batalha em favor da liberdade de expressão, e, no entanto, estava sendo defendido, nesse caso, por um ato de censura. Por outro lado, o film e era um a porcaria. Por fim , ele enviou um a carta ao bbfc em que renunciava form alm ente a seu direito de recurso legal, assegurando ao conselho que não processaria nem o cineasta nem o próprio conselho, e que não queria que lhe fosse concedida “a dúbia proteção da censura”. O film e deveria ser exibido, para que o público visse “o lixo distorcido e incom petente que ele é”. Em 17 de agosto, com o resultado direto de sua intervenção, o conselho aprovou por unanim idade a concessão da licença de exibição. Apesar de todos os esforços do produtor para prom ovê-lo, o film e sum iu sem deixar rastro, porque era muito ruim, e não im porta o que os possíveis espectadores pensassem a respeito de “Rushdie” ou m esm o de Rushdie, eram sabidos e não iriam pagar para ver aquela bobagem .
Para ele, o episódio foi um a lição prática da im portância do argum ento “m elhor às claras do que escondido” em favor da liberdade de expressão — era m elhor dar livre curso m esm o ao m ais repreensível discurso do que varrê-lo para debaixo do tapete, era m elhor contestar publicam ente e talvez ridicularizar o que era repugnante do que lhe conferir o glam our do tabu; e, de m odo geral, podia-se confiar em que as pessoas distinguissem o bom do ruim . Se International gorillay tivesse sido proibido, teria se tornado o m ais cobiçado dos vídeos, e nas casas de Bradford e de Whitechapel rapazes m uçulm anos se reuniriam por trás de cortinas fechadas para exultar com a fritura do apóstata. Às claras, subm etido à avaliação do m ercado, ele m urchou com o um vam piro ao sol e desapareceu.
Os grandes acontecim entos m undiais ecoavam em seu refúgio de Wim bledon. Em 2 de agosto de 1990, Saddam Hussein invadiu o Kuwait e, à m edida que a guerra com o Iraque se anunciava, o Foreign Office britânico apressou-se em restabelecer relações com o Irã. Agilizaram -se os preparativos m ilitares de britânicos e am ericanos. De um a hora para outra, ninguém m ais, do lado britânico ou do iraniano, m encionava o “caso Rushdie”, e Frances D’Souza ligou para dizer que estava m uito preocupada com a possibilidade de que o autor ficasse “esquecido”. Ele telefonou para o parlam entar Michael Foot, que disse que ia procurar saber m ais a respeito. No dia seguinte, Michael disse que o tinham “tranquilizado”, m as seu tom não era nada tranquilizador. O contato no Foreign and Com m onwealth Office, Duncan Slater, pediu-lhe que escrevesse outra “declaração apaziguadora” para o fco ter em m ãos e usar “quando pudesse ser m ais útil.” Era difícil saber, disse ele, com o o Irã reagiria. O país poderia aproveitar a crise internacional com o um m om ento para “resolver seus problem as” com os britânicos, ou j ulgar que agora teria com o forçar o restabelecim ento de relações sem ter de fazer concessões.
Um a biblioteca pública de Rochdale, Lancashire, sofreu um atentado a bom ba.
Ele tinha com binado com Liz Calder que ela lhe em prestaria seu apartam ento em Londres enquanto estivesse em viagem de férias com Clarissa e Zafar, para que ele se encontrasse lá com um j ornalista am ericano e outros am igos. Liz disse que um a colega, um a editora da Bloom sbury cham ada Elizabeth West, iria ao apartam ento de vez em quando para dar com ida ao papagaio, Juj u.
“Talvez convenha você entrar em contato com ela antes de ir”, disse Liz,“assim ninguém terá surpresas desagradáveis.” Ele ligou para Elizabeth e falou-lhe de seus planos. Conversaram por telefone durante um tem po insolitam ente longo, riram bastante e no fim ele sugeriu perm anecer na casa de Liz depois que o j ornalista am ericano fosse em bora e que eles poderiam se encontrar lá para dar um trato básico no papagaio. Um dos seguranças foi a um a loj a de vinhos e com prou, a seu pedido, três garrafas de vinho, entre as quais um a de Tignanello, tinto encorpado da Toscana. E, sob o olhar do papagaio, houve j antar à luz de velas, salm ão, salada de capuchinha e m uito, m uito vinho tinto.
O am or nunca vinha da direção em que se estava olhando. Ficava à espreita, sorrateiro, e desferia um soco na nuca. Nos m eses que se seguiram à saída de cena de Marianne, houvera alguns telefonem as de paquera e, m uito ocasionalm ente, encontros com m ulheres que, ele tinha certeza absoluta, eram m ovidas m ais pela piedade do que pela atração. A últim a au pair de Zafar, um a norueguesa sedutora, tinha dito “pode me ligar, se quiser”. O m ais inesperado de tudo fora um a clara dem onstração de interesse sexual vinda de um a j ornalista m uçulm ana liberal. Essas eram as tábuas de salvação a que ele se agarrava para não afundar. Foi então que conheceu Elizabeth West, e aconteceu o que nunca poderia ser previsto: a identificação, a cham a. A vida não é regida pelo destino, m as pelo acaso. Se não fosse um papagaio sedento, ele poderia nunca ter conhecido a futura m ãe de seu segundo filho.
No fim da prim eira noite ele teve certeza de que queria vê-la de novo, o quanto antes. Perguntou-lhe se ela estaria livre, e ela disse que sim . Eles se encontrariam no apartam ento de Liz outra vez, às oito da noite, e ele se surpreendeu com a profundidade dos sentim entos que j á alim entava por ela. Elizabeth tinha cabelos longos de um intenso castanho-averm elhado, e um sorriso brilhante e despreocupado. Chegou de bicicleta na vida dele com o se não fosse nada, com o se todo o esquem a sufocante de proteção, m edo e lim itações sim plesm ente não existisse. Isso era coragem real e excepcional: a capacidade de agir norm alm ente num a situação anorm al. Tinha catorze anos m enos que ele, e um a seriedade, oculta sob a aparência despreocupada, que m ostrava experiência, insinuando um saber que só pode vir da dor. Teria sido absurdo não ficar perdidam ente apaixonado por ela. Logo descobriram um a estranha coincidência: ele tinha chegado à Inglaterra pela prim eira vez, acom panhado do pai, para estudar na Rugby School, no dia em que ela nasceu. Assim , na verdade, am bos tinham chegado no m esm o dia. Parecia um presságio, em bora ele obviam ente não acreditasse em presságios. “Era um dia ensolarado”, ele lhe contou. “E frio.” Falou-lhe do Cum berland Hotel e de com o foi ver televisão pela prim eira vez — Os Flintstones e a série Coronation Street, então incom preensível para ele, com a im placável e abelhuda Ena Sharples, em burrada, com sua redinha no cabelo. Falou-lhe dos m ilk-shakes de chocolate da Ly ons Corner House e do frango assado para viagem do Kardom ah, e contou-lhe com o eram os outdoors de publicidade: abra um a banana, da Fy ffes, e água tônica da schhhhh... você j á sabe, da Schweppes. Ela disse: “Você pode vir outra vez na segunda? Eu faço o j antar”.
A polícia ficou preocupada com um a terceira visita ao m esm o endereço em quatro dias, m as ele bateu o pé e cederam . Naquela noite, ela lhe contou um pouco sobre sua vida, e, em bora tenha sido reticente a respeito de m uita coisa, ele sentiu de novo a dor da infância dela, a perda da m ãe, o pai idoso, a estranha vida de Gata Borralheira com os parentes com os quais ficara. Havia um a m ulher cuj o nom e ela não quis m encionar que tinha sido m á para ela, a quem se referia apenas com o a mulher que cuidava de mim na época. No fim , ela encontrou a felicidade com um a prim a m ais velha cham ada Carol Knibb, que se tornou um a segunda m ãe para ela. Tinha estudado literatura na Universidade Warwick. E gostava dos livros dele. Houve longas horas de conversa, depois se deram as m ãos e se beij aram . Quando ele olhou para o relógio eram três e m eia da m anhã, a essa hora a carruagem j á tinha virado abóbora havia m uito tem po, ele disse, e na outra sala havia policiais extrem am ente m al-hum orados e cansados. “Muito interessado”, ele escreveu em seu diário. “Ela é brilhante, delicada, vulnerável, bela e adorável.” O interesse dela por ele era inexplicável e m isterioso. São sem pre as m ulheres que escolhem , ele achava, e ao hom em restava agradecer sua boa estrela.