Joseph Anton: Memórias
5. “Estive embaixo tanto tempo que para mim parece o alto”
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Ele se encontrou, pela últim a vez, com Duncan Slater, que tinha sido nom eado em baixador na Malásia. Conversaram durante três horas, e a essência da conversa foi que o “hm g” — Her Maj esty Governm ent, o Governo de Sua Maj estade — estava sendo afetado pela elevação do tom por parte dele, principalm ente em Colum bia. “Hurd adm ite que você tem um eleitorado de respeito”, disse-lhe Slater. “Esse eleitorado não é necessariam ente o dele, m as é grande e im possível de ignorar.” O secretário do Exterior com preendera que o caso Rushdie não podia ser varrido para debaixo do tapete. “Talvez possam os obter o cancelam ento da recom pensa em dinheiro”, disse Slater. Bem , j á seria um bom com eço, ele respondeu. “Mas o Foreign and Com m onwealth Office não vê com bons olhos seus planos de um a edição em brochura.”
No dia do aniversário de Elizabeth, pouco depois disso, souberam que o câncer de Angela Carter havia tom ado os dois pulm ões. Ela tinha dificuldade para respirar, e só lhe restavam sem anas de vida. Haviam contado a verdade a seu filho pequeno, Alex. A ideia de perdê-la era insuportável, m as, com o a m ãe do escritor indiano costum ava dizer, o que não tem remédio remediado está. Duas sem anas depois, Angela convidou-o para um chá. Foi a últim a vez que ele a viu. Ao chegar à sua velha conhecida casa em Clapham , ele viu que ela saíra da cam a e se vestira com cuidado para ele, e estava sentada, ereta, num a cadeira de braços, servindo o chá com o um a anfitriã form al. Era visível o esforço que isso lhe dem andava e o quanto era im portante para ela fazer aquilo, de m odo que tom aram um chá da tarde com o se deve, rindo até onde era possível. “O pessoal do seguro vai ficar furioso”, ela brincou, “porque só paguei três anos de prêm ios num plano novo e enorme, e agora eles vão ter de arcar com isso, m as m eus m eninos vão ficar bem .” Seus m eninos eram o m arido, Mark, que estava sentado em silêncio ao lado deles, com o era de seu feitio, e o filho, Alex, que não se achava presente. Passado algum tem po, ela estava exausta, e ele se levantou para sair, dando-lhe um beij o de adeus. “Cuide-se”, disse ela, e isso foi tudo. Quatro sem anas depois daquele chá, ela m orreu.
Seus am igos m ais chegados — Caroline Michel, Richard e Ruth Rogers, Alan Yentob e Philippa Walker, Melvy n Bragg e outros — estavam planej ando um evento público que ocorreria por ocasião do terceiro aniversário da fatwa, com a presença de m uitos escritores de renom e. Günter Grass concordou em participar, bem com o Mario Vargas Llosa e Tom Stoppard, e os que não poderiam ir — Nadine Gordim er, Edward Said — prom eteram enviar m ensagens em vídeo. O que não estava sendo anunciado publicam ente era que ele próprio apareceria “de surpresa”. O evento se daria na velha sede da guilda dos im pressores e assem elhados, Stationers’ Hall, onde, m uitos anos antes, em outra vida, ele recebera seu Booker Prize.
Aquele j ovem escritor prem iado não teria visto sua editora se recusando a publicar seu livro em brochura, m as os anos dourados haviam ficado para trás. Ele se encontrou com Peter May er na casa de Gillon, e May er por fim abriu o j ogo. Não, ele não antevia o dia em que a Penguin faria um a edição em brochura de Os versos satânicos, em bora garantisse pessoalm ente que continuariam a im prim ir a edição em capa dura; e, portanto, perm itiria que os direitos sobre a brochura revertessem ao autor, de m odo que pudessem tentar algum tipo de publicação consorciada. Todos procuraram ser corteses e afáveis, em bora aquele fosse um m om ento perturbador. O advogado de May er, Martin Garbus, tam bém estava presente, e opinou que nos Estados Unidos talvez fosse possível um consórcio liderado pela Am erican Booksellers’ Association, pelo pen Am erican Center e pela Authors’ Guild. No dia seguinte, ele telefonou para Frances D’Souza e, sem nenhum a autoridade para tanto, afirm ou que ele estava m ontando um consórcio e lhe perguntou se a organização Artigo 19 se disporia a aparecer com o editora do livro no Reino Unido. (Posteriorm ente, Garbus afirm ou no The New York Times que ele estivera por trás da criação do consórcio que publicou o livro, um a declaração de tal m odo oposta à verdade que teve de ser rapidam ente refutada.)
Sua vida se assem elhava a um dia de ventos fortes em que as nuvens corressem pelo céu: prim eiro um tem po som brio, depois súbita claridade, e logo nuvens negras de novo. Um dia depois da reunião com o pessoal da Penguin, nasceu Mishka, a segunda filha de Sam een, no Florence Ward, do Northwick Park Hospital, em Harrow. Ao crescer ela se tornaria um a virtuose do piano, trazendo m úsica para um a fam ília que, até sua chegada, fora com icam ente antim usical.
A Divisão Especial o inform ou de que as m ais recentes inform ações davam conta de que unidades do Hezbollah ainda estavam tentando localizá-lo e m atá-lo. Não havia m udança na avaliação de am eaça, que se m antinha no nível Ridiculam ente Alto.
Andrew reuniu-se, em Nova York, com Giandom enico Picco, das Nações Unidas, que negociara a libertação de m uitos dos reféns no Líbano, entre os quais John McCarthy. Sobre o caso Rushdie, Picco disse: “Estive trabalhando nisso, e ainda estou”. Meses depois, em Washington, D. C., o hom em invisível pôde avistar-se com o negociador secreto, e Picco lhe disse um a coisa de que ele se lem braria sem pre. “O problem a com a negociação de um acordo desse tipo é que se passa m uito tem po esperando o trem chegar à estação, m as não se sabe a que estação ele vai chegar. A arte da negociação consiste em estar no m aior núm ero possível de estações, de m odo que, quando o trem chegar, você estej a lá.”
Em Berlim , o j ornal die tageszeitung deu início à cam panha “Cartas para Salm an Rushdie”. As cartas seriam reproduzidas em duas dúzias de j ornais da Europa e dos Estados Unidos, e Peter Carey, Günter Grass, Nadine Gordim er, Mario Vargas Llosa, Norm an Mailer, José Saram ago e William Sty ron estavam entre os grandes escritores que haviam concordado em contribuir. Quando Carm el Bedford telefonou para Margaret Atwood, a fim de lhe pedir que escrevesse um a carta, Peggy saiu-se com esta: “Ah, puxa, m as o que eu poderia dizer?”. Com sua gélida cara de pau irlandesa, Carm el replicou: “Use sua im aginação”. E houve um grande rom ancista que não contribuiu, m as cuj o telefonem a talvez tenha sido o m ais em ocionante. Foi Thom as Py nchon, outro fam oso hom em invisível, que ligou para agradecer por sua crítica de Vineland no The New York Times Book Review, e para perguntar, solícito, com o ele estava passando. Ele respondeu com o título do clássico cult de Richard Farina, am igo de Py nchon, a quem este dedicou O arco-íris da gravidade: “Estive em baixo tanto tem po que para m im parece o alto”. Py nchon propôs que, da próxim a vez que estivessem am bos em Nova York, se reunissem para j antar. “Ah, que bom ”, disse ele, com o um colegial espinhento e apaixonado: “Ah, sim , por favor”.
Reunir um consórcio de editoras, livreiros, organizações profissionais e pessoas físicas do m undo do livro não fora difícil na Alem anha e na Espanha. Todos queriam participar daquilo que encaravam com o um a defesa im portante da liberdade de expressão. Já nos Estados Unidos, m isteriosam ente, a m esm a coisa estava se revelando bastante diferente. Andrew buscara o conselho do j uiz William Brennan, um dos m inistros da Suprem a Corte am ericana, do fam oso advogado constitucionalista Floy d Abram s e do ex-procurador-geral da Justiça dos Estados Unidos, Elliot Richardson, e todos achavam que a edição em brochura de Os versos satânicos era garantida pela Prim eira Em enda. As oito m aiores editoras am ericanas discordavam . Um após outro, os grandes nom es da indústria editorial am ericana negaram que a liberdade de expressão estivesse em j ogo nessa questão, resm ungando que aderir a um consórcio constituiria um a “crítica im plícita” a Peter May er e à Penguin. Sonny Mehta perguntou a seu autor: “E se as pessoas sim plesm ente não quiserem essa edição, Salm an... e se tudo que elas quiserem é que esse assunto m orra?”. Andrew soube por alguém que a Association of Am erican Publishers estava, na verdade, form ando um cartel oficioso contra a publicação, a fim de apoiar Peter May er (de quem gostavam ) e para se opor aos esforços dele, Andrew, porque, para serem francos, não se im portavam m uito com o m alvisto Andrew Wy lie, cuj o cliente era considerado bastante intragável tam bém . As pessoas não estavam ligando de volta quando ele telefonava. Batiam portas em sua cara. Deu no The New York Times que as iniciativas no sentido da form ação de um consórcio estavam “fracassando”. No entanto, Andrew, e tam bém Gillon, em Londres, m antiveram -se inflexíveis e determ inados. “Nós podem os publicar essa brochura”, diziam , “e vam os publicá-la.”
Um único editor discordou dos dem ais. George Craig, da HarperCollins, disse a Andrew que aj udaria — na surdina. Não autorizaria a HarperCollins a aderir ao consórcio, m as financiaria a im pressão dos prim eiros 100 m il exem plares, providenciaria um artista gráfico para criar um a sobrecapa para a brochura e orientaria Andrew quanto aos problem as relativos a todas as fases da publicação — im pressão, arm azenam ento e distribuição dos livros. Mas até Craig estava nervoso. Não queria que ninguém soubesse que ele tinha algum a coisa a ver com aquilo. E assim , clandestinam ente, às ocultas, chegou-se a um plano de publicação, com o se se tratasse de um grupo de hom ens com chapéus de aba caída e enorm es sobretudos planej ando um crim e em torno de um a m esa, num porão ilum inado por um a única lâm pada nua. A com panhia, cham ada The Consortium, Inc., foi constituída no estado de Delaware. O consórcio era form ado por três m em bros: Gillon Aitken, Salm an Rushdie e Andrew Wy lie. Nenhum editor am ericano — ou britânico, aliás — acrescentou oficialm ente seu nom e ou deu ao proj eto algum apoio financeiro ou adm inistrativo (com a honrosa exceção de George Craig). Andrew e Gillon tam bém aplicaram recursos próprios no proj eto e fizeram um acordo com o autor quanto à divisão dos possíveis lucros. “Nós vam os fazer isso”, disse Andrew. “Estam os quase prontos.”
Ele tinha com prado o apartam ento de Elizabeth e ainda estava esperando que Robert McCrum com pletasse a com pra da casa na St. Peter’s Street. A reform a da casa da Bishop’s Avenue, 9 estava custando um a pequena fortuna e o dinheiro não era m uito. Se, por algum m otivo, a casa da Ham pstead Lane, 30 “caísse”, ele pensou, era provável que não pudesse pagar outro aluguel caro. Talvez tivesse m esm o de aceitar a base m ilitar.
O Dia dos Nam orados estava quase chegando e j á se ouviam os habituais ruídos desagradáveis. A fatwa foi confirm ada, é claro. Um j ornal iraniano cham ou-a de “ordem divina para apedrej ar o dem ônio até a m orte”. Sob seu chapéu-de-sapo, o lacaio britânico do Irã Kalim Siddiqui deitou falação. “Rushdie é o Inim igo Núm ero Um do islã.” Mas dessa vez as reações entusiásticas foram poucas. Na Europa, 115 parlam entares assinaram um a m oção em que expressavam “absoluta solidariedade às dificuldades de longa data enfrentadas pelo escritor” e apelavam a todos os Estados m em bros da União Europeia para que o Irã fosse pressionado a retirar as am eaças. David Gore-Booth disse-lhe que Douglas Hogg e o Foreign Office estavam adotando um a linha “m uito positiva”, m as queriam esperar que passassem as eleições de abril para o Maj lis iraniano. Depois disso, poderiam tentar fazer com que a recom pensa fosse cancelada, e a fatwa, “circunscrita” — ou sej a, fazer com que os iranianos declarassem que ela só era válida em território iraniano — com o prim eiro passo para sua revogação total.
Ele se sentiu um pouco m ais anim ado. Ao m enos a pressão da cam panha de defesa estava forçando o governo a propor novas ideias sobre o caso.
Aconteceu então algo m uito surpreendente. Frances e Saïd Essoulam i, o especialista em assuntos do Oriente Médio da organização Artigo 19, escreveram ao chargé d’affaires iraniano pedindo um encontro para discutirem o caso — e os iranianos concordaram . Na m anhã de 14 de fevereiro de 1992, Frances e Saïd reuniram -se com autoridades iranianas e debateram a fatwa e a recom pensa em dinheiro. Os iranianos cederam quase nada, m as, na opinião de Frances, era evidente que a cam panha pró-Rushdie havia produzido efeitos. Insistiram com ela e com Saïd que o governo britânico não estava interessado no caso. (Quando a im prensa divulgou essa reunião, os iranianos tentaram negar sua realização, e depois alegaram que apenas um “funcionário local” participara dela, e não um diplom ata da m issão.)
Naquele dia houve protestos e declarações de apoio a ele em todo o m undo. Na França, 17 m ilhões de pessoas viram na tv um a entrevista que ele gravara: a m aior audiência j á registrada no país para um program a que não fosse o noticiário do horário nobre. À noite, no Stationers’ Hall, em Londres, ele falou a um a plateia de escritores e am igos, dizendo-lhes: “Eu m e recuso a ser um a não pessoa. Eu m e recuso a renunciar ao direito de publicar m inha obra”. Todos os j ornais britânicos cobriram o evento, com exceção do The Independent, que não fez nenhum a referência a ele.
Angela Carter m orreu em 16 de fevereiro de 1992. Ao receber a notícia pelo telefone, em sua sala, ele chorou. Depois foi convidado pelo program a Late Show a falar sobre ela. Aparecer num program a de televisão era a últim a coisa que passava por sua cabeça, m as Alan Yentob disse: “Angela teria gostado que fosse você”, de m odo que ele escreveu algum a coisa e foi conduzido ao estúdio. Ao chegar lá, disse: “Vou fazer um único take disso. Não vou poder fazer dois”. Depois da gravação, ele voltou para casa. Um a outra versão de seu texto saiu no The New York Times. Ele tinha acabado seu ensaio sobre O mágico de Oz e lem brou-se de que fora Angela quem lhe contara pela prim eira vez as histórias sobre o péssim o com portam ento dos m unchkins em Holly wood, dados a bebedeiras e a prom iscuidade. Ela adorava, em especial, a história do m unchkin que, de porre, ficara preso na privada. Dedicou a Angela seu livrinho. Ao contrário daquele velho em busteiro, Oz, o Grande e Terrível, ela havia sido uma ótima feiticeira, com o ele escreveu no texto do j ornal, e uma amiga muito querida.
Angela tinha deixado um a descrição detalhada do serviço fúnebre, que incluía um a ordem para que ele participasse e lesse um poem a de Andrew Marvell, “Num a gota de orvalho”:
Assim a Alma, essa Gota, esse Raio
Da límpida Fonte do Eterno Dia [...]
.............................
Expressa com ideias puras em derredor
O Céu maior num Céu menor.
Na véspera do funeral, os tabloides publicaram m ais m atérias desagradáveis sobre Elizabeth e as “despesas” que ela representava para a nação. Contudo, não traziam fotografias dela, e a polícia o advertiu de que, se eles fossem à cerim ônia, os paparazzi os caçariam e obteriam um a foto, o que aum entaria o perigo que ela corria. Ele disse então que iriam separados, e a m áscara de sim patia de Helen Ham m ington saiu do lugar. Ele exigia da divisão esforços excessivos, disse, por causa de suas aparições públicas. “Todos os outros protegidos pela Divisão Especial”, ele observou, “têm um extenso program a diário de eventos e vocês não reclam am . Eu quero ir ao sepultam ento de m inha am iga, e a senhora diz que isso é dem ais.”
“Sim ”, respondeu ela, “m as todos os outros protegidos prestam ou j á prestaram um serviço à nação. Em m inha opinião, não é o seu caso.”
Por fim , Elizabeth não foi à cerim ônia, no cem itério de Putney Vale. Não havia lá um único fotógrafo da im prensa. A polícia se enganara, m as não adm itiu o fato, é claro. Tinham feito seu planej am ento para o pior dos cenários, com o sem pre. Ele não queria levar a vida de acordo com o pior dos cenários. Isso o transform aria num prisioneiro deles. Ele não era prisioneiro de ninguém . Era um hom em inocente que tentava levar a vida de um hom em livre.
Michael Berkeley lhe disse, depois, que a presença de tantos policiais na área do crem atório naquele dia ensej ara o seguinte diálogo entre pessoas que saíam da crem ação anterior: “A cerim ônia que vem agora deve ser para alguém m uito im portante”. E, no m om ento em que Michael estava prestes a intervir, sim , um a pessoa muito im portante, era Angela Carter, ouviu a resposta: “Que nada. Vai ver deixaram um bandido sair da prisão de Scrubs para o enterro da m ãe”.
Já os próprios agentes de proteção continuaram tão sim páticos, solidários e prestativos com o sem pre. Certo dia Zafar quis dem onstrar suas habilidades no rugby, e o novo agente, Tony Dunblane — de bigode vistoso e paletós de tweed, com o um pirata suburbano —, levou pai e filho às dependências esportivas em Bushey, e os rapazes se alinharam com o um a linha de defensores para que Zafar pudesse correr e passar a bola. (Zafar tinha prestado seu exam e de adm issão e feito a entrevista na Highgate School e, para im ensa alegria e infinito alívio dos pais, fora aprovado. Ele sabia que obtivera um triunfo im portante, e com isso sua autoconfiança foi às nuvens, com o a m ãe e o pai esperavam .)
Elizabeth vinha se dedicando m etodicam ente à tarefa de escolher m óveis e papéis de parede para a casa nova, com o qualquer casal que passa a viver j unto, e Tony trazia fotografias dos m ais recentes sistem as de som e televisores com tecnologia de ponta, oferecendo-se para m ontar tudo o que escolhessem assim que se m udassem . E, quando Robert McCrum enfim assinou seus contratos e eles chegaram a um acordo para a com pra e venda da casa da St. Peter’s Street, 41, a polícia o levou de volta à casa que não era m ais sua e o aj udou a m eter suas coisas em caixas, que um furgão transportou para um depósito da polícia, onde ficariam até poderem ser levadas para a casa nova. A boa vontade desses hom ens para com outro ser hum ano, que estava “num a encrenca dos diabos”, com o disse Tony Dunblane, nunca deixava de com ovê-lo.
Precisaram de quase cinco horas, com a aj uda de Elizabeth, para j untar todos os pertences de Marianne. Escondidas sob as coisas dela, ele encontrou todas as fotografias que tirara na viagem à Nicarágua em 1986, e sobre a qual escrevera O sorriso do jaguar,seu breve livro de reportagem . E tam bém todos os negativos. (Mais tarde, um a colega de Gillon, Sally Riley, nom eada por Marianne para cuidar de seus obj etos, devolveu-lhe outras descobertas — um a cabeça de pedra da antiga civilização Gandhara que sua m ãe lhe dera, e um a sacola de fotografias dele — não as dos álbuns sum idos, m as fotos rej eitadas e cópias de outras. Pelo m enos algum as lem branças de sua vida pré-Marianne tinham sido resgatadas. Foi ótim o recuperar im agens do nascim ento e da infância de Zafar. O grosso das fotografias desaparecidas, as coladas nos álbuns, nunca foi recuperado.)
As dificuldades do dia a dia — ou aquela calam itosa distorção do cotidiano que se tornara o “dia a dia” para ele — continuaram , com o um invasor, a ocupá-lo. Andrew Wy lie vinha tentando com prar um apartam ento; quando o conselho da cooperativa habitacional descobriu que ele era o agente literário do autor de Os versos satânicos, rej eitou-o. Ao lhe trazer essa notícia, tentando dar a im pressão de que não era im portante, Andrew nunca lhe parecera tão deprim ido. Era um a horrenda recom pensa por tudo o que ele tinha feito, e ainda estava fazendo, em benefício do escritor. Pelo m enos essa história teve final feliz. Não m uito tem po depois, Andrew achou um apartam ento m elhor, e dessa vez o conselho da cooperativa não o rej eitou.
A seguir, a bom ba. Helen Ham m ington o visitou e o punho de ferro em ergiu da luva de veludo. Depois que ele e Elizabeth se instalassem na casa nova, ela disse, a proteção da polícia seria retirada, porque o vice-com issário assistente, John Howley, não estava disposto a arriscar a segurança de seus hom ens num a operação que se tornaria, inevitavelm ente, um a proteção ostensiva.
Aquilo foi um a inacreditável quebra de confiança. Desde o prim eiro dia da proteção, fora-lhe assegurado que ela duraria até que a avaliação de am eaça pelos serviços de inform ações caísse a um nível aceitável. Isso não acontecera. Além do m ais, tinham sido Howley e Greenup, este últim o, seu subordinado, que lhe disseram que havia chegado a hora de ele com prar um a residência perm anente. Haviam lhe garantido, especificam ente, que, se fossem instalados sistem as de segurança adequados, a proteção seria m antida naquela casa, m esm o que ela ficasse conhecida com o sua residência. Tinham -no forçado a com prar um a propriedade não gem inada, com um a área fronteira e dois portões, um eletrônico e outro operado m anualm ente (para o caso de um corte de energia), e com um a garagem integrada, cuj a porta autom ática de m adeira escondia um a chapa de m etal à prova de bala; ele tinha sido forçado a instalar os dispendiosos sistem as de alarm es e j anelas à prova de bala em que haviam insistido, e, m ais im portante, tivera de com prar um a casa com m ais do dobro do tam anho necessário para ele e Elizabeth, de m odo que quatro policiais — dois agentes de segurança e dois m otoristas — pudessem dorm ir nessas dependências e tivessem tam bém sua própria sala. Ele gastara um a m ontanha de dinheiro, sem falar do trabalho que tudo isso envolvia, a fim de atender a todos os pedidos da polícia, e agora que havia gastado tanto e estava preso à casa eles lhe diziam : “O.k., vam os dar o fora”. Não havia palavras para descrever o absurdo daquilo.
O m otivo real era o custo, ele sabia; o custo e a m entalidade dos tabloides, para os quais ele não era digno do custo de ser protegido de form a adequada, ostensiva, com o m uitas outras pessoas eram protegidas.
Naquela época, o público ignorava certas particularidades sobre a fatwa, m as as pessoas que precisavam conhecê-las estavam a par delas, e entre essas pessoas estavam o alvo da ordem de m orte e o vice-com issário assistente Howley. A am eaça não era m eram ente teórica. Havia no Ministério de Inform ações iraniano um a força-tarefa especial incum bida de form ular e pôr em ação um plano para cum prir a ordem de Khom eini. Essa força-tarefa tinha um codinom e e um a cadeia de aprovação. O plano seria form ulado, depois aprovado em diferentes níveis, chegaria ao presidente e, por fim , seria referendado pela liderança religiosa. Esse era o modus operandi norm al no Irã. A força-tarefa que executara o ex-presidente Shapur Bakhtiar quase que com certeza operara do m esm o m odo. O fato de Howley estar disposto a retirar a proteção, sabendo o que sabia, e tão pouco tem po depois do assassinato de Bakhtiar, revelava m uito sobre seu pensam ento. Os m em bros de sua equipe de proteçãohaviam lhe dito, com orgulho: Nunca perdemos ninguém. No entanto, Howley estava lhe dizendo outra coisa. Não nos importaremos se o perdermos. Isso causava... m al-estar.
Ele disse a Elizabeth que ela deveria levar em conta sua própria segurança. Se a polícia o abandonasse, não havia com o prever o nível de perigo que ela correria. “Não vou deixar você”, ela respondeu.
Ele deu um j eito de trabalhar um pouco. Com pletou um a sinopse de O último suspiro do mouro que finalm ente tinha algum sentido. Ele levara m uito tem po para conseguir isso. Tudo de que precisava agora era paz de espírito para poder escrever o livro.
O escritor Scott Arm strong o convidara para falar no Fórum da Liberdade, em Washington, no fim de m arço, e ele desej ava ir. Parecia haver a possibilidade de encontros com políticos e j ornalistas am ericanos de renom e durante a estada na capital. Ele resolveu que usaria a tribuna para expressar suas dúvidas a respeito do com prom isso britânico com sua segurança — com eçar o revide num lugar onde era m ais provável que os m eios de com unicação lhe dessem m aior e m elhor cobertura. Andrew disse que faria tudo o que estivesse a seu alcance para lhe entregar um exem plar de Os versos satânicos em brochura a tem po para o fórum . Isso seria um a resposta aos censores que talvez o fórum gostasse de ver. O livro estava no prelo, enfim . A im pressão fora retardada pela Penguin, que dera um j eito de só assinar o docum ento de reversão de direitos na undécim a hora, e argum entara então que a im agem da capa, hoj e fam osa — duas figuras engalfinhadas em queda, um príncipe e um dem ônio —, lhe pertencia (na verdade, fora tirada de um a antiga m iniatura indiana, Rustam matando o demônio branco, do Shahnama, ou Livro dos reis, cuj o original se encontra num Álbum Clive, no Victoria & Albert Museum ). Por fim , a Penguin desistira de causar problem as e assinara nas linhas pontilhadas. Com isso, as m áquinas de im pressão e encadernação puderam ser acionadas. Depois de todos esses anos, a edição em brochura estava finalm ente com eçando a existir.
Após m uita relutância, a raf concordou em levá-lo a Dulles e trazê-lo de volta num de seus voos de transporte regulares — só m ais essa vez. O serviço não lhe seria m ais oferecido no futuro. Além disso, nessa ocasião pediram -lhe que pagasse não só seu próprio lugar com o tam bém os de dois agentes de segurança da raf que iriam com ele aos Estados Unidos, na ida e na volta. Hum ildem ente, sem alternativa, ele pagou. Nessa época ele se lem brava com frequência de um verso de um a m úsica de John Prine: O braço de papai tem um buraco em que todo o dinheiro some. A fatwa era sua heroína. Obrigava-o a gastar tudo o que ganhava e, em bora pudesse acabar por m atá-lo, nem sequer lhe proporcionava um barato.
Antes que ele viaj asse aos Estados Unidos, Jack “Gordo” “quis dar um a palavrinha” em nom e dos rapazes. Todos eles estavam preocupados com as m udanças que vinham sendo propostas em relação ao Esquadrão “A”. Se essas propostas entrassem em vigor, eles seriam afastados da Divisão Especial e perderiam a condição de investigadores. Protegidos deles ligados ao Partido Conservador estavam m exendo os pauzinhos para que essas m udanças fossem postas de lado, m as a eleição geral era im inente. E se o Partido Trabalhista voltasse ao poder? A m ais recente pesquisa de intenção de voto m ostrava que os trabalhistas tinham um a vantagem de 3% sobre os tóris. Será que ele não poderia pedir a seu am igo Neil Kinnock que os aj udasse, no caso de se tornar prim eiro-m inistro? “Para falar com franqueza”, ele respondeu, “com relação aos trabalhistas, quase tudo o que tem os são vocês.”
O despertador tocou às cinco e m eia da m anhã, e eles pularam da cam a. A segurança levou Elizabeth a Swiss Cottage, onde ela pegaria um trem para o aeroporto de Heathrow, e ele foi levado à base aérea de Brize Norton, através das colinas de Cotswolds, envoltas na névoa m atinal, dando início a sua segunda viagem internacional em três anos.
No Aeroporto Internacional Dulles, ele foi recebido por um a em presa privada de segurança que o Fórum da Liberdade havia contratado pela escandalosa quantia de 80 m il dólares, com o saberia depois. O chefe da equipe, um cam arada sim pático, pediu exem plares da edição em brochura para ele e seu pessoal. Queria m ais de cinquenta exem plares no total. Isso era assustador: qual seria o tam anho da equipe? “Claro”, disse ele, “vou arranj á-los para vocês.”
Ele se encontrou com Elizabeth e Andrew num centro de conferências cham ado Westfields, a dez quilôm etros de Dulles. Ele daria suas entrevistas na suíte do Windsor. Em Bom baim , tinha sido criado num a casa cham ada Villa Windsor, que fazia parte de um a propriedade cham ada Westfield. A coincidência o fez sorrir. Seguiram -se longos dias de entrevistas com j ornalistas irrequietos, excitados m esm o, por causa do enredo de capa e espada. Tinham sido levados ao lugar pela segurança sem saber de antem ão para onde estavam indo. Um a grande em oção. A fatwa era o único assunto que interessava à m aior parte da m ídia. Só Esther B. Fein, do The New York Times, quis falar sobre o que ele escrevia e com o conseguia fazê-lo naquelas extraordinárias condições.
Scott Arm strong, grandalhão, ar profissional, enfronhado até a raiz dos cabelos em questões palacianas, tinha m ás notícias: o encontro com os congressistas agendado para o dia seguinte tinha sido cancelado, segundo a inform ação que ele tivera, depois da intervenção pessoal do secretário de Estado Jam es Baker. Por que Baker teria feito isso? A resposta foi se delineando nos dias seguintes, quando o governo de George H. W. Bush recusou todos os pedidos de audiência e negou-se a fazer um a declaração sobre o caso. O assessor de im prensa da Casa Branca, Marlin Fitzwater, disse: “Ele é apenas um escritor em turnê para o lançam ento de um livro”.
Andrew perdeu as estribeiras e acusou Scott de tê-los enganado. Levantaram a voz. Scott ficou furioso com Andrew, m as sugeriu sensatam ente que guardassem a raiva e procurassem salvar o que pudessem . Jantaram com Mike Wallace e outras pessoas. Nesse j antar, em tom de confidência e buscando a sim patia daqueles augustos j ornalistas, ele revelou a verdadeira natureza do consórcio, assim com o a hostilidade do governo am ericano e a possibilidade de suspensão da proteção proporcionada pelos britânicos.
Chegou a hora do discurso. Ele usava um terno de linho bordô que àquela altura j á estava am arrotadíssim o, m as não havia tem po de trocar. Parecia um professor aloprado, m as talvez isso fosse bom . Estava m ais preocupado com o que ia dizer do que com sua aparência. A linguagem dos discursos políticos lhe era estranha. Ele acreditava em forçar a linguagem , em fazê-la expressar tudo que ele quisesse que ela expressasse, em ouvir o significado de sua m úsica, tanto quanto o de suas palavras, m as dessa vez tinha de ser direto. Diga o que você realmente quer dizer, avisaram -no, explique-se, justifique-se, não se esconda atrás de sua ficção. Im portava que um escritor se desnudasse dessa form a, despoj ado da riqueza da palavra? Sim , im portava, porque a beleza fere acordes no fundo do coração hum ano, a beleza abre portas para o espírito. A beleza era im portante porque beleza é alegria, e alegria era a razão pela qual ele fazia o que fazia, sua alegria com as palavras e com o uso que delas fazia para contar histórias, criar m undos, cantar. E a beleza, agora, estava sendo tratada com o um luxo do qual ele devia prescindir; com o um luxo; com o um a m entira. A feiura era a verdade.
Fez o m elhor que pôde. Pediu apoio e aj uda aos am ericanos, para que os Estados Unidos se m ostrassem com o “am igos verdadeiros da liberdade”, e falou não só da liberdade de escrever e publicar m as tam bém da liberdade de ler. Falou do receio de que os britânicos estivessem se preparando para abandoná-lo à sua sorte. E então anunciou que, depois de m uitas adversidades, finalm ente tinha sido possível publicar um a brochura de Os versos satânicos, e levantou um exem plar do livro. Não era um a edição m uito atraente. Tinha um a horrorosa capa dourada com letras enorm es em preto e verm elho, parecida um pouco além da conta com a tipografia nazista. Mas a brochura agora existia, e isso era bom . Três anos e m eio após a prim eira edição do rom ance, ele conseguia com pletar o processo de publicação.
Havia j ornalistas am igos no auditório, com o Praful Bidwai, do The Times of India, e Anton Harber, do Weekly Mail, que tentara convidá-lo a ir à África do Sul em 1988. Mas ele não estava em condições de ficar para conversar. A equipe de segurança m encionara o “risco de franco-atiradores”. O prédio em frente tinha “ligações com líbios”. Ah, claro, coronel Kadhafi, meu velho amigo, ele pensou. Foi levado em bora às pressas.
A m ulher de Scott, Barbara, tinha se “incum bido” de Elizabeth, que disse a ele que o pessoal da segurança não a deixara entrar na sala de conferência e a fizera sentar-se na garagem . Ela achou graça nisso, m as agora foi a vez de ele ficar furioso. Foram levados para a sala de espera de um senhor de 75 anos, extrem am ente falante, cham ado Maurice Rosenblatt, poderoso lobista liberal que desem penhara um papel im portante na queda do senador Joseph McCarthy. Enquanto Rosenblatt m onologava, Andrew ainda espum ava de raiva por causa do cancelam ento do encontro no Congresso. Foi então que Scott ligou e Andrew foi atender. “Mais tarde lhe direi o im becil que você é”, disse Scott, e pediu para falar com o sr. Rushdie, a quem disse “não devo explicações a Andrew, m as a você, sim ”. Enquanto conversavam , Peter Galbraith, um dos m ais antigos m em bros da Com issão de Relações Exteriores do Senado, que ele nunca tinha visto, m as sabia ser irm ão de John Kenneth Galbraith e — um dado um pouco m ais picante — o j ovem am ante de Benazir Bhutto dos tem pos de universidade, entrou na outra linha para dizer que o encontro no Senado estava de pé. Haveria um alm oço no salão de j antar privativo dos senadores em que seriam recebidos pelos senadores Daniel Patrick Moy nihan e Patrick Leahy, com a presença de m uitos outros. A tem peratura baixou rapidam ente. Andrew se acalm ou e pediu desculpas a Scott, este se sentiu vingado e todos ficaram aliviados. Foram dorm ir exaustos, m as se sentindo bem m elhor.
Era a prim eira vez que ele vinha a Washington, e no dia seguinte ele e Elizabeth tiveram a prim eira visão das cidadelas e fortalezas do poder am ericano. Depois disso, Elizabeth foi deixada explorando os j ardins Botânico e Sm ithsoniano, e ele foi levado ao Capitólio, onde o senador Leahy adiantou-se na sua direção, grande, am istoso, com garras de urso. E ali estavam os senadores Sim on, Lugar, Cranston, Wofford, Pell e o grande hom em em pessoa, Daniel Patrick Moy nihan, alto com o um arranha-céu, com o convinha ao m ais antigo senador por Nova York, gravata-borboleta, m alicioso sorriso profissional. Os senadores ouviram atentam ente a exposição que ele fez da situação, e Sim on foi o prim eiro a se m anifestar, recom endando que o Senado aprovasse um a resolução de apoio. Daí a pouco, todos apresentavam m oções, e foi anim ador, sem dúvida, ver aqueles hom ens levantando sua bandeira. No fim do alm oço (salada de frango, sem possibilidade de álcool), Moy nihan assum iu o com ando e sugeriu que ele e Leahy escrevessem um esboço de resolução para apresentar ao Senado. Era um grande passo.
Andrew tinha providenciado brochuras de Os versos satânicos para todos os presentes, m as agora, surpreendentem ente, os senadores sacavam diversos exem plares de livros anteriores e queriam dedicatórias autografadas para si e suas fam ílias. Ele poucas vezes se im pressionava com sessões de autógrafos, m as aquela foi sem precedentes.
Depois, m ais um a surpresa. Os senadores levaram -no a um a antecâm ara da Com issão de Relações Exteriores, onde havia um a aglom eração de j ornalistas e fotógrafos esperando por eles. Scott tinha “se m atado de trabalhar” e Andrew lhe devia desculpas. Andrew, de fato, pediu desculpas m ais tarde. “Na verdade não fui eu que fiz isso”, disse Scott. “Sou escritor, não publicitário. Norm alm ente tento desvendar o segredo em torno de um caso, não preservá-lo.” Mas sua afabilidade estava de volta.
E ali estava agora o autor de Os versos satânicos, “apenas um escritor em turnê para o lançam ento de um livro”, dando um a entrevista coletiva no centro de poder dos Estados Unidos, tendo os senadores de pé atrás de si com o um grupo de apoio, todos com A Brochura nas m ãos. Se de repente eles irrom pessem num backing vocal, trá-lá-lá, tró-ló-ló, não teria sido nada estranho naquele dia cheio de surpresas.
Ele falou daquilo com o um a batalha num a guerra m uito m aior, descreveu o ataque à liberdade criativa e intelectual no m undo m uçulm ano, e expressou sua gratidão aos senadores reunidos em seu apoio. Moy nihan pegou o m icrofone e disse que era um a honra estar ali a seu lado. Era evidente que ele j á não estava na Inglaterra. Não era o que os políticos diziam dele naquele país.
Jantaram — num restaurante! — com Scott e Barbara Arm strong e Christopher e Carol Hitchens. Marianne estava m orando em Washington, disse Christopher, m as ele achava que ela não diria nada de hostil porque isso poderia atrapalhar seus contatos com as “pessoas que ela quer conhecer”. Com efeito, ela perm aneceu em silêncio, o que foi um a bênção. No dia seguinte, ele gravou um especial de tv de um a hora com o j ornalista Charlie Rose e à tarde fez um program a telefônico de um a hora com John Hockenberry para a npr. Um a m enina de nove anos, cham ada Erin, ligou para perguntar: “Senhor Rushdie, o senhor se diverte escrevendo seus livros?”. Ele disse que tinha se divertido m uito ao escrever Haroun. “Ah, claro”, disse Erin, “eu li esse livro. É um bom livro.” Depois entrou no ar um a m uçulm ana cham ada Susan que chorou m uito e, quando Hockenberry lhe perguntou se ela achava que o sr. Rushdie deveria ser m orto, ela disse: “Tenho de ler m ais sobre o assunto”.
Scott tinha pedido aj uda a seu am igo Bob Woodward e estava m uito com ovido, disse, “pela profundidade do com prom etim ento de Bob”. Woodward conseguira algo m uito especial: um chá com a lendária Katharine Graham , dona do The Washington Post.
No carro, a cam inho da casa da sra. Graham , ele se sentiu tão cansado que quase dorm iu. Mas a adrenalina aj udou, e assim que se viu na presença da grande dam a ficou esperto de novo. A colunista Am y Schwartz estava lá. Ela havia escrito os editoriais sobre ele, disseram -lhe. Nem todos tinham sido am igáveis. David Ignatius, editor de internacional, tam bém estava lá e quis discutir as próxim as eleições iranianas. Don Graham , filho de Katharine, estava “cem por cento conosco”, disse-lhe Scott.
Quase só ele falou. Os j ornalistas do Post perguntavam e ele respondia. Katharine Graham pouco se m anifestou, exceto quando ele lhe perguntou diretam ente por que ela achava que o governo dos Estados Unidos tinha agido de form a tão displicente. “Este é um governo estranho”, disse ela. “Tem pouquíssim os centros de poder. Baker é um deles. É um hom em divertido, parece ter sem pre seu próprio tem ário particular.” Ignatius interveio para reiterar algo que Woodward tinha dito. “O m elhor cam inho para o governo às vezes é por interm édio de Barbara Bush.” Depois da reunião, ele disse a Scott que só podia esperar que o Post o apoiasse agora. “Kay Graham não teria se encontrado com você se a decisão de apoiá-lo j á não estivesse tom ada”, disse Scott. Então tudo tinha dado certo. O The New York Times tam bém tinha dito que sairia em seu apoio se outros j ornais o fizessem . Se Katharine Graham estava dentro, Arthur Sulzberger estaria tam bém . Andrew achou que poderia trazer a editora Dow Jones; Scott, que conseguiria convencer a Gannett. Ele redigiria um a declaração em duas partes para que todos eles assinassem : apoio à publicação da brochura e apoio ao autor contra a fatwa, e, no fim , um pedido ao governo dos Estados Unidos para aderir tam bém ao apoio.
De fato, o The New York Times não tardou a assinar um a declaração de apoio. Com o que energizado pelo encontro com seus rivais de Washington, o The Times publicou um editorial na m anhã seguinte ao chá com a Rainha Kay no qual atacava a Casa Branca e o Departam ento de Estado por sua displicência:
Isso é tristem ente com patível com três anos de evasivas oficiais, desde que o aiatolá
Khom eini denunciou Os versos satânicos com o blasfem o e pediu a m orte do autor e de
seus editores. Desde então, o sr. Rushdie vem vivendo escondido. Seu tradutor para o
j aponês foi m ortalm ente apunhalado, o tradutor para o italiano foi ferido a faca. Ao
m esm o tem po, opositores do regim e iraniano eram assassinados na França e na Suíça. Se
isso não é terrorism o de Estado, o que é? Com tudo isso, a reação do Ocidente tem sido
vergonhosam ente tím ida [...]. Muito m ais coisas do que a vida do sr. Rushdie estarão em
risco se os países do Ocidente não fizerem um a advertência conj unta ao Irã, dizendo que
ele não pode conquistar o com ércio que am biciona se não parar de exportar e estim ular
terrorism o.
As nações agiam segundo seus próprios interesses. Para que o Irã anulasse a fatwa seria preciso m ostrar-lhe que isso era de seu interesse. Isso foi o que ele dissera à sra. Graham , e a Mike Wallace antes dela. Agora o The New York Times dizia o m esm o tam bém .
Elizabeth foi levada a seu avião, e poucas horas depois ele deixou os Estados Unidos no voo d a raf. A boa vida tinha acabado. Em Londres, a polícia não quis levá-lo à cerim ônia em m em ória de Angela Carter no cine Ritzy, em Brixton. Ele caiu na real de supetão, e discutiu durante m uito tem po até que concordaram que ele fosse. Elizabeth iria separadam ente, com o sem pre. O Ritzy, espalhafatoso e decadente, parecia perfeito para Angela. Sobre o palco havia um tríptico pintado por Corinna Sargood em cores m uito vivas, representando araras. E um grande arranj o de flores. Nas paredes havia painéis com cenas de film es. Nuruddin Farah abraçou-o e disse: “Há um a m ulher que quero m uito que você conheça”. Ele respondeu: “Há um a m ulher que quero m uito que você conheça”. Eva Figes abraçou-o tam bém . “É tão bom poder tocá-lo em vez de vê-lo pela tv!” Lorna Sage falou e descreveu à m aravilha a risada de Angela — a boca escancarada num grande ricto, um as sacudidelas em silêncio durante alguns m inutos até que o barulho se fazia ouvir. Ela conhecera Angela depois de ler Heroes and villains e elogiara efusivam ente seus textos. “Devo ter agido de form a m uito esquisita”, ela disse, “porque depois de algum tem po Angela em pertigou-se e disse: ‘Sabe, eu não sou gay ’.” A polícia o fez sair assim que acabou a cerim ônia. Clarissa e Zafar tam bém estavam lá, m as não deixaram que ele os cum prim entasse. “Fui atrás de você, m as você tinha ido em bora”, disse-lhe Zafar m ais tarde. Ele tinha seguido o pai pela porta lateral e viu-o sendo levado às pressas.
A casa da St. Peter’s Street estava vazia, com a m aior parte da m obília em guarda-m óveis, dada para Sam een e Pauline, ou usada para m obiliar o novo apartam ento de Elizabeth perto de Ham pstead Heath. As chaves foram enviadas a Robert McCrum e a venda se com pletou. Um capítulo de vida estava se fechando.
Em 9 de abril, dia da eleição parlam entar no Reino Unido, Melvy n Bragg e Michael Foot deram um a festa na casa de Melvy n em Ham pstead. A noite com eçou em clim a de com em oração, com m uita expectativa em torno do fim dos longos anos de “desgoverno tóri”. Mas, com o correr da noite, ficou claro que Kinnock tinha perdido. Ele nunca vira um a festa m orrer tão rápido. Foi em bora cedo porque era triste dem ais ficar lá entre todas as esperanças frustradas.
Um a sem ana depois, Helen Ham m ington solicitou outro encontro. Ele lhe disse que queria a presença de seu advogado, e Bernie Sim ons foi levado à Ham pstead Lane. Helen Ham m ington parecia pouco à vontade e constrangida ao lhe falar da “revisão de planos” para sua proteção. À m edida que ela falava, tornava-se claro que ela, tendo Howley detrás de si, m udara totalm ente de posição. A proteção ia continuar até que o nível de risco dim inuísse. Se a nova casa “caísse”, eles se adaptariam à nova situação.
Ele tinha de agradecer aos Estados Unidos — aos senadores, aos j ornais — por esse pequeno êxito. Os Estados Unidos haviam tornado im possível que a Grã-Bretanha se negasse a protegê-lo.