Joseph Anton: Memórias
5. “Estive embaixo tanto tempo que para mim parece o alto”
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
A casa nova precisava de m uitas obras. Ele ligou para um am igo arquiteto, David Ashton Hill, e o incluiu no núcleo do segredo. David, outro na longa sequência de Am igos Sem os Quais a Vida Teria Sido Im possível, pôs-se a trabalhar de im ediato. Os operários da construção não foram incluídos no segredo, m as ouviram “a história”. A casa deveria servir com o residência em Londres de Joseph Anton, am ericano, dono de um a editora internacional. Sua nam orada inglesa, Elizabeth, estava encarregada da obra e tom aria as decisões im portantes. O em preiteiro da obra, Nick Norden, filho do autor de com édias Denis Norden, nada tinha de bobo. Foi difícil explicar-lhe por que um editor, com o o sr. Anton, queria vidraças à prova de bala nas j anelas do andar térreo, ou um a sala de pânico no andar de cim a. Era estranho que o sr. Anton nunca com parecesse às reuniões, nem um a única vez. A fleugm a inglesa de Elizabeth era tranquilizadora, é claro, e podia-se atribuir a culpa de m uitas das esquisitices do sr. Anton ao fato de ele ser am ericano. Com o qualquer britânico sabia, os am ericanos tinham m edo de tudo. Se o cilindro do m otor de um carro em Paris explodia fora do tem po, todos os am ericanos cancelavam sua viagem de férias à França. Mas a verdade, com o o sr. Anton suspeitava, era que Nick Norden e seus auxiliares sabiam m uito bem de quem era a casa em que estavam trabalhando. Mas nada disseram , preferindo agir com o se tivessem engolido a história, e nenhum deles j am ais deixou vazar um a só palavra para a im prensa. Foi preciso um trabalho de nove m eses para reform ar a casa para o sr. Anton, que ali viveu durante os sete anos seguintes, e o segredo foi m antido durante todo esse tem po. No fim , um agente graduado do Esquadrão “A” confessou que a expectativa deles era de que a casa se tornasse do conhecim ento público em poucos m eses, e que todo m undo na Scotland Yard ficara assom brado com o fato de isso não ter ocorrido durante oito anos, e m ais ainda. Mais um a vez ele teve m otivos para ser grato pela seriedade com que as pessoas reagiram à sua situação. Todos com preenderam que aquele era um segredo im portante; e, por isso, sim plesm ente o guardaram .
Ele pediu a Fitz que prorrogasse o período de aluguel na Ham pstead Lane. Fitz levou a peito baixar o aluguel — “eles vêm roubando o senhor com o quê” — e teve êxito, ainda que a sra. Bulsara lhe suplicasse: “Por favor, senhor Fitz, convença o senhor Hederm an a pagar m ais”. Ele apontou os problem as da propriedade — havia dois fornos na cozinha, nenhum dos quais funcionava —, e ela retrucou, com o se essa resposta fosse um a explicação irrefutável e suficiente: “É que nós som os indianos e cozinham os com fogões a gás”. A sra. Bulsara lam entou a perda da venda, m as continuou a ter um a ideia absurda do valor da casa. No entanto, concordou em reduzir o aluguel. Logo depois, de repente, bateram à porta: eram oficiais de j ustiça, que vinham para “arrestar os bens dos Bulsara”.
Diante do inesperado, a equipe de proteção às vezes apresentava traços com portam entais de galinhas decapitadas. Hum , Joe, com o é m esm o a história que estam os contando? Em nom e de quem a casa está alugada? Joseph Anton, não é? Ah, não é Joseph Anton? Ah, isso m esm o. Rea o quê? Com o se escreve isso? O que nós estam os dizendo que ele é? Ah, ele é m esm o dono de um a editora? Ah, certo. E, Joe, qual é nom e com pleto de Fitz? O.k., é m elhor alguém ir atender à porta. Ele disse: “Melhor m esm o é vocês aprenderem isso”. Naquele m esm o dia, ele escreveu a tal história e a afixou na saleta deles.
Os oficiais de j ustiça tinham ido lá porque os Bulsara não haviam efetuado um pagam ento m ensal de não m ais que quinhentas libras. Fitz resolveu a questão, ligando para o advogado dos Bulsara, que m andou um a carta aos oficiais de j ustiça, por fax, dizendo que o cheque estava no correio. Então isso queria dizer que, teoricam ente, os oficiais de j ustiça poderiam aparecer na casa todo m ês? E poderiam voltar no dia seguinte, se o cheque não tivesse chegado? O que havia de errado com as finanças dos Bulsara? Isso era terrível! Sua casa aparentem ente sólida podia sum ir de um a hora para outra devido aos problem as financeiros dos senhorios, e ele estaria m ais um a vez sem teto nos m eses necessários para as obras na casa nova. Fitz não se perturbou. “Vou falar com eles”, disse. Os oficiais de j ustiça nunca m ais voltaram .
Havia a questão de saúde e a questão correlata do m edo. Ele procurou o m édico — o dr. Bevan, de St. John’s Wood, conhecido da Divisão Especial, que j á tratara de pessoas sob proteção —, que ficou surpreso com as excelentes condições de seu coração, da pressão arterial e de outros sinais vitais. Era com o se sua fisiologia não houvesse notado que ele estava vivendo em circunstâncias estressantes. Tudo estava bem , e não havia necessidade de recorrer aos anj os da guarda habituais dos estressados — Am bien, Valium , Zoloft e Xanax. A única explicação que ele tinha para sua boa saúde (além disso, estava dorm indo bem ) era que a m áquina m aleável de seu corpo havia, de algum a form a, entrado num acordo com o que acontecera. Ele com eçara a escrever O último suspiro do mouro, cuj o personagem central era um hom em que envelhecia num ritm o duas vezes superior ao norm al. A vida do “m ouro” Zogoiby estava passando depressa dem ais, e por isso a m orte vinha se aproxim ando com m ais rapidez do que seria de esperar. A relação da vida do personagem com o m edo era igual à de seu autor. Vou lhes contar um segredo sobre o medo, disse o Mouro. Ele é um absolutista. Com o medo, é tudo ou nada. Ou bem, como um tirano arrogante, ele manda na nossa vida com uma onipotência estúpida, que nos torna cegos, ou bem a gente o derruba, e seu poder se esvanece em fumaça. Mais um segredo: a revolução contra o medo, a trama que leva à derrubada daquele déspota ridículo, não tem muito a ver com a tal da “coragem”. O que a impele é umacoisa muito mais direta: a necessidade pura e simples de tocar a vida para a frente. Parei de ter medo porque, se a minha passagem pela terra seria breve, eu não tinha tempo de ter medo.
Ele não tinha tem po para se sentar num canto e trem er. É claro que havia m uito o que tem er, e ele sentia o duende do m edo a espreitá-lo, o m onstro do m edo, com asas de m orcego, sentado em seu om bro, a m ordiscar-lhe com avidez o pescoço, m as havia com preendido que, se quisesse funcionar, tinha de achar um m eio de espantar os bichos. Im aginou-se capturando os duendes num a caixinha e colocando a caixa fechada num canto do côm odo. Um a vez feito isso, e às vezes era preciso fazê-lo m ais de um a vez por dia, podia seguir adiante.
Elizabeth lidava com o m edo de form a m ais sim ples. Desde que as equipes da Divisão Especial estivessem com eles, pensava, estariam seguros. Nunca deu nenhum sinal de estar com m edo, até o fim da proteção. Era a liberdade que lhe infundia m edo. Dentro da bolha da proteção, ela se sentia m uito bem , durante a m aior parte do tem po.
Ofereceram -lhe a oportunidade de com prar um carro m ais novo e m ais confortável do que os Jaguares e os Range Rovers, j á m eio velhos, da frota da polícia. Era um sedã bm w, blindado, cuj o proprietário anterior fora sir Ralph Halpern, o m ilionário da indústria de confecções e fundador da Topshop, que se tornara m ais conhecido com o “Ralph-cinco-por-noite” depois que um a j ovem am ante vendera a história dela para os tabloides. “Quem vai saber o que aconteceu nesse banco traseiro?”, pensou alto Dennis “Cavalo”. “Mas quem não quer o bim bom óvel de sir Ralph?” O carro valia 140 m il libras, m as estava sendo oferecido por 35 m il, “um a pechincha”, inform ou Dennis. Talvez até lhe perm itissem dirigir o carro ele m esm o, insinuou a polícia, se estivessem fora de Londres e transitando por estradas rurais. E as j anelas à prova de bala podiam ser abertas, ao contrário das j anelas dos Jaguares da polícia. Quando ele estivesse em lugares considerados seguros, poderia respirar ar puro.
Com prou o carro.
O prim eiro lugar a que foi levado no carro novo foi a Spy Central. A sede do Secret Intelligence Service (sis), tão conhecido pelos fãs dos film es de Jam es Bond, ficava à beira do Tâm isa, dando para a Random House, do outro lado do rio, com o se o sis fosse um autor necessitado de um a boa editora. Em seus livros sobre o agente Sm iley, John le Carré cham ara o sis de “o Circo”, porque a sede do órgão supostam ente ficava em Cam bridge Circus, o que significa que os agentes secretos estariam de frente para o Palace Theater, de Andrew Lloy d Webber. Em alguns setores do Serviço Civil, o sis era cham ado de “Caixa 850”, um núm ero de caixa postal antes utilizado pelo m i6. No coração da Espiolândia ficava a pessoa que, na vida real, não era cham ada de M. O diretor do m i6 — isso não era m ais segredo — era cham ado de C. Nas raras ocasiões em que o sr. Anton, da Ham pstead Lane, e, m ais tarde, da Bishop’s Avenue, 9 foi autorizado a transpor essas portas bem protegidas, nunca chegou à toca da aranha, nunca viu C. Quem cuidava dele eram autoridades de outras áreas do alfabeto, autoridades em m inúsculas, digam os assim , ainda que, um a vez só, ele tenha falado num a reunião de várias das letras m aiúsculas do serviço. E por duas vezes ele esteve com os chefes do m i5, Eliza Mannigham -Buller e Stephen Lander.
Nessa prim eira ocasião, ele foi levado a um a sala que bem poderia ser a sala de convenção de um hotel londrino, onde recebeu boas notícias. A “am eaça específica” contra ele fora “rebaixada”. Então o prazo para o assassinato não valia m ais? Isso m esm o. A operação, ele soube, tinha sido “frustrada”. Essa era um a palavra estranha e interessante. Ele sentiu vontade de fazer perguntas sobre essa “frustração”. Depois pensou: Não pergunte nada. Mas perguntou. “Com o é sobre a m inha vida que estam os conversando”, disse, “creio que o senhor deve m e falar um pouco m ais sobre o m otivo por que as coisas m elhoraram agora.” Do outro lado da m esa reluzente de m adeira, o j ovem executivo debruçou-se para a frente com um a expressão am istosa. “Não”, respondeu. Esse foi o fim da discussão. Bem , pelo m enos não era um a resposta clara, ele pensou, inesperadam ente divertido. A proteção das fontes era um a prioridade absoluta para o sis. Só ficaria sabendo o que seu agente de posição j ulgasse necessário. Para além disso, estendia-se a Terra do Não.
A “frustração” de seus inim igos deixou-o, por um m om ento, exultante, m as ao retornar à Ham pstead Lane o sr. Greenup o trouxe de volta à terra. O nível de am eaça ainda era alto. Certas restrições seriam m antidas. Por exem plo, Zafar ainda não teria permissão de ser levado à casa.
Ele recebeu um convite para falar num evento na biblioteca Mem orial Low, da Universidade Colum bia, em com em oração do bicentenário da Declaração dos Direitos. Tinha de com eçar a aceitar esses convites, pensou. Tinha de sair da invisibilidade e recuperar sua voz. Conversou com Frances D’Souza a respeito da possibilidade de se tentar que Václav Havel o convidasse a visitar Praga, de m odo que o encontro que os britânicos tinham tornado im possível em Londres pudesse ocorrer no próprio terreno de Havel. Se o governo de Sua Maj estade estava se afastando do caso, eles teriam de internacionalizar a cam panha de defesa e constranger Thatcher e Hurd, levando-os a se m exer. Ele usaria toda e qualquer tribuna que lhe fosse oferecida para m ostrar que seu caso não era de form a algum a único, que escritores e intelectuais em todo o m undo islâm ico estavam sendo acusados exatam ente dos m esm os crim es de opinião que ele — blasfêm ia, heresia, apostasia, insulto e ofensa —, o que significava que ou as m elhores e m ais independentes m entes criativas no m undo m uçulm ano eram degeneradas, ou as acusações m ascaravam o intento real dos acusadores: asfixiar a heterodoxia e a dissensão. Dizer isso não era, com o certas pessoas insinuavam , argum entação especiosa destinada a atrair m ais sim patia para seu próprio caso ou para j ustificar seus “insultos”. Era tão som ente a verdade. Para defender esse argum ento de form a eficaz, disse a Frances, ele teria de desdizer o que havia dito, desfazer seu Grande Erro, e precisava desdizê-lo sonoram ente nas plataform as m ais visíveis, nos eventos m ais noticiados. Frances era m uito protetora em relação a ele, e tem ia que fazer isso pudesse agravar sua situação. Não, ele dizia, pior seria perm anecer na falsa situação que ele criara para si m esm o. Ele estava aprendendo duram ente que o m undo não era um lugar com passivo, m as que não havia razão para esperar que fosse diferente. A vida era m esquinha para a m aioria das pessoas, e um a segunda oportunidade era coisa rara. Num a revista teatral clássica da década de 1960, Beyond the fringe, o hum orista Peter Cook recom endara às pessoas que a m elhor coisa a fazer no caso de um ataque nuclear “era estar fora da área onde o ataque estiver para acontecer. Mantenha-se fora dessa área”, advertiu, “porque é a área de perigo, onde as bom bas são lançadas”. A form a de evitar a falta de com paixão do m undo por nossos erros consistia, antes de tudo, em evitar com eter esses erros. Mas ele tinha com etido seu erro. Ele faria o que fosse necessário para endireitá-lo.
“Haverá repercussões m esm o que elas signifiquem m orte”, disse o porta-voz do Conselho de Mesquitas de Bradford. “Ao sentenciar à m orte o autor de Os versos satânicos, o j ulgam ento do im ã foi im pecável”, disse o gnom o de j ardim . Enquanto isso, em Paris, um esquadrão da m orte invadiu a casa do ex-presidente do Irã Shapur Bakhtiar, oponente do regim e dos aiatolás e agora exilado, que foi assassinado a facadas j unto com um assistente, no que foi noticiado com o um a “m orte ritual”.
Houve um golpe em Moscou contra Mikhail Gorbatchev, e durante três dias ele esteve em prisão dom iciliar. Ao ser solto e voltar para Moscou, os repórteres que o esperavam j unto ao avião perguntaram se ele agora aboliria o Partido Com unista. Ele m ostrou-se horrorizado com a pergunta, e naquele m om ento, precisam ente então, a história (na form a de Boris Yeltsin) ultrapassou-o e fez com que ele seguisse atrás dela. No entanto, foi ele, e não Yeltsin ou Reagan ou Thatcher, quem m udou o m undo, ao proibir que o Exército Verm elho abrisse fogo contra m anifestantes em Leipzig e outros lugares. Muitos anos depois, o hom em ex-invisível encontrou-se com Gorbatchev num evento em Londres para arrecadação de fundos. “Rushdie!”, bradou Gorbatchev. “Eu apoio totalm ente todas as suas posições.” Houve até um certo abraço. Como assim, todas elas?, ele perguntou ao hom em que tinha o m apa da Antártica tatuado na testa. “Todas”, disse Gorbatchev, através de seu intérprete. “Apoio total.”
Ele estava escrevendo um ensaio sobre o film e O mágico de Oz para seu am igo Colin MacCabe, do British Film Institute (bfi). Os dois grandes tem as do film e eram lar e am izade, e ele nunca sentira com m ais força a necessidade de um e de outra. Ele tinha am igos tão leais quanto os com panheiros de Dorothy na Estrada de Tij olos Am arelos, e estava para voltar a ter um lar perm anente, depois de três anos de pé na estrada. Escreveu um conto distópico, “At the auction of the ruby slippers” [No leilão dos sapatinhos de rubi], que foi anexado ao ensaio. Os sapatinhos capazes de levar a pessoa para casa assim que ela desej ava voltar: qual era o valor dessas coisas num violento futuro de ficção científica em que tudo estava à venda e o lar se tornara um conceito “disperso e danificado”? O ensaio agradou a Bob Gottlieb, da The New Yorker, que publicou um longo trecho dele antes que o livreto do bfi fosse lançado. O ator que fez o papel do legista dos m unchkins, Meinhardt Raabe, leu-o num a casa de repouso em Fort Lauderdale e m andou um a carta ao autor, acom panhada de um presente: um a fotografia em cores de um a cena im portante do film e. Na cena, ele está de pé nos degraus da prefeitura de Munchkin, erguendo um longo pergam inho no alto do qual está escrito, em letras góticas, atestado de óbito. Sob essa legenda, Raabe escrevera com cuidado as palavras Salman Rushdie, com um a esferográfica azul-clara. Ao ver seu nom e no atestado de óbito de Munchkin, seu prim eiro pensam ento foi: Isso é mesmo engraçado? Mas aí ele pensou: Não, eu entendi, o sr. Raabe em sua casa de repouso dispara cartas para pessoas para todo o país, para todo o m undo, ele é outro Herzog arrem essando suas palavras no espaço vazio, só que tam bém tem um a pilha enorm e dessas fotos ao lado da cam a e m anda um a delas com cada carta. É seu cartão de visitas. Ele não pensa: “Ah!, m as sobre esse suj eito em especial pesa um a ordem de m orte, acho que devo ser um pouco m ais cuidadoso”. Ele escreve, assina e põe no correio. É isso que ele faz.
Depois que o livreto foi publicado, Colin MacCabe lhe disse que m uitas pessoas no bfi tinham se assustado por terem sido associadas a um livro do fam igerado sr. Rushdie. Colin conseguira dissipar ao m enos parte de seus tem ores. O livro foi lançado e não houve rios de sangue. Era apenas um livrinho sobre um film e antigo. Mas ele havia com preendido que, antes de poder ser livre de novo, teria de superar os m edos de outras pessoas, bem com o os seus.
O refém britânico John McCarthy foi libertado no Líbano.
As autoridades do Esquadrão “A” decidiram que estava na hora de permitir que Zafar visitasse o pai na Ham pstead Lane, 30. De início, o sr. Greenup sugeriu que o m enino fosse até lá vendado, de m odo a não tom ar conhecim ento da localização da casa, m as isso estava fora de cogitação, e Greenup não insistiu. Naquela tarde, Zafar foi levado para lá, e sua felicidade ilum inou e em belezou o feio interior da casa.
Frances telefonou, alvoroçada. Tinham lhe pedido que contasse a ele, em confiança, que Haroun e o mar de histórias fora agraciado com o prêm io da Writers’ Guild com o o m elhor livro infantil do ano. “Eles adorariam que você pudesse dar um j eito de ir receber seu prêm io.” Claro, ele respondeu, ele tam bém gostaria m uito de estar lá. Procurou Michael Foot, que disse: “Está bem . O clim a m udou. Tem os de ver Hurd de novo e ser m uito m ais duros em nossas exigências”. Ele adorava o apetite de Foot pela luta, que o avanço da idade em nada dim inuía. Isso e sua atração pelo uísque, só rivalizada pela de Christopher Hitchens. Quando ele bebia com Michael, em m ais de um a ocasião tivera de derram ar seu scotch, às escondidas, num vaso de planta.
Ele falou à polícia sobre o prêm io da Writers’ Guild. A cerim ônia seria realizada no hotel Dorchester, em 15 de setem bro. A equipe de proteção em itiu sonoros ruídos de obj eção. “Não sei o que vão achar disso na sede, Joe”, disse Benny Winters. Com sua j aqueta de couro m arrom , ele parecia um pouco um Lenny Kravitz de cabelo m ais curto. “Mas com certeza vam os explicar direitinho a eles.” O resultado dessa explicação foi um a visita do sr. Greenup de cara m ais fechada do que nunca, acom panhado de outra alta autoridade policial, Helen Hum m ington, que no com eço falou pouco.
“Sinto m uito, Joe”, disse o sr. Greenup. “Não posso permitir isso.”
“Você não vai m e permitir ir à Park Lane receber m eu prêm io literário”, repetiu ele, devagar. “Você não vai permitir isso, ainda que um a única pessoa, o organizador do evento, tenha de saber de antem ão da m inha presença, e possam os chegar depois que as pessoas estiverem sentadas para j antar, ficar lá talvez dez m inutos antes da cerim ônia de entrega, receber o prêm io e depois sair antes que a cerim ônia acabe. É isso que você não vai permitir.”
“Por razões de segurança”, disse o sr. Greenup, seriíssim o. “É m uito arriscado.”
Ele inspirou profundam ente. (Sua recom pensa por deixar de fum ar foi um a asm a tardia, m otivo pelo qual às vezes ficava sem ar.) “Sabe”, disse, “eu estava achando que era um cidadão livre num país livre, e que realm ente não cabe a você permitir ou não permitir que eu faça sej a lá que for.”
O sr. Greenup perdeu a com postura. “Em m inha opinião”, disse, “o senhor está pondo em perigo a coletividade de Londres em razão de seu desej o de engrandecim ento pessoal.” Foi um discurso espantosam ente bem com posto — coletividade, em razão de, engrandecimento pessoal —, e ele nunca o esqueceu. Haviam chegado a um m om ento crítico — o que Henri Cartier-Bresson cham ara de le moment décisif.
“Sabe de um a coisa?”, ele disse. “É o seguinte: eu sei onde fica o hotel Dorchester, e por acaso tenho dinheiro para pagar um táxi. Por isso, o que cabe perguntar não é se eu vou ou não vou à cerim ônia. Eu irei à cerim ônia. A única pergunta que o senhor tem de responder é a seguinte: o senhor vai com igo?”
Hellen Ham m ington j untou-se à conversa e disse que ela estava substituindo o sr. Greenup com o o principal agente de posição na Yard. Isso foi um a notícia excelente, extraordinária. A seguir, ela disse ao sr. Greenup: “Creio que provavelm ente poderem os resolver isso”. Greenup ficou quase escarlate, m as nada disse. “Foi decidido”, continuou Ham m ington, “que provavelm ente devem os permitir que você saia um pouco m ais.”
Dois dias depois, ele estava no Dorchester, j unto à nata do m undo editorial, e recebeu seu prêm io, um tinteiro de vidro num suporte de m adeira. Agradeceu aos presentes no salão e pediu desculpas por se m aterializar e desm aterializar no m eio do j antar. “Neste país livre”, disse, “não sou um hom em livre.” A ovação de pé chegou a levá-lo às lágrim as, e ele não era hom em de chorar com facilidade. Acenou para o público e, quando saía do salão, ouviu John Cleese dizer ao m icrofone: “Ah, fantástico. Creio que o show tem de continuar”. Feitas as contas, tinha havido m esm o um pouco de engrandecim ento pessoal. A coletividade de Londres estava segura em seus sm okings, suas casas, suas cam as. E ele nunca m ais viu o sr. Greenup.
O anj o da m orte nunca parecia m uito distante naqueles dias estranhos.
Liz telefonou: Angela Carter fora avisada de que não teria m ais que seis m eses de vida. Zafar ligou para ele aos prantos: “Hattie m orreu”, disse. Hattie era May Jewell, a avó anglo-argentina de Clarissa, fã de chapelões de abas largas e que servira de m odelo para Rosa Diam ond, personagem em Os versos satânicos, diante de cuj a casa em Pevensey Bay, em Sussex, Gibreel Farishta e Saladin Cham cha tinham caído na areia, vivos, depois de ej etados de um Jum bo que explodira. Algum as das histórias favoritas de May Jewell acabaram entrando nas páginas que ele escrevia. Em Londres, em Chester Square Mews, certa vez ela vira o fantasm a de um cavalariço que parecia estar andando de j oelhos, até perceber que ele estava cam inhando no nível antigo da rua, m ais baixo, e por isso só era visível dos j oelhos para cim a; em Pevensey Bay, a frota invasora da Conquista norm anda teria passado por sua sala, porque a linha da costa tinha m udado depois de 1066; na Argentina, os touros de sua estancia de Las Petacas repousavam a cabeça em seu colo com o se fossem unicórnios, e ela, um a virgem , sendo que nem um a coisa nem outra era verdadeira. Ele gostava m uito de suas histórias, de seus chapéus e dela.
Hellen Ham m ington foi vê-lo de novo para dizer-lhe o que a polícia achava que ele poderia fazer de acordo com suas novas regras, m ais liberais. Eles poderiam levá-lo, com hora m arcada, para com prar roupas e livros, depois que as loj as fechassem . Talvez ele quisesse fazer um a expedição de com pras fora de Londres, num lugar com o Bath, por exem plo, e nesse caso poderia ir m esm o com as loj as abertas. Se ele quisesse fazer sessões de autógrafos, isso seria possível fora de Londres. Um am igo dele, o professor Chris Bigsby, o convidara para falar na Universidade de East Anglia, e talvez ele pudesse aceitar convites dessa natureza. Seriam possíveis incursões ocasionais à Covent Garden Opera House, à English National Opera ou ao National Theater. Ela sabia que Ruthie Rogers, coproprietária do River Café, em Ham m ersm ith, era m uito am iga dele, de m odo que talvez ele pudesse ir j antar lá, ou no Ivy, cuj os donos, Jerem y King e Chris Corbin, tam bém facilitariam as coisas. E agora Zafar não só teria permissão para visitá-lo, com o tam bém poderia passar a noite na Ham pstead Lane. A saída do sr. Greenup certam ente m odificara as coisas.
(O que não lhe era permitido fazer: ter um a vida pública, m over-se livrem ente, levar a vida com um de um escritor ou ser um hom em livre aos quarenta anos. Sua vida era com o um a dieta rigorosa: tudo o que não fosse expressam ente permitido era proibido.)
No dia 11 de novem bro teriam se passado m il dias desde o serviço fúnebre de Bruce Chatwin e a declaração da fatwa. Ele conversou com Frances e Carm el sobre a m elhor form a de usar politicam ente esse m om ento. Elas concordaram em realizar um a “vigília” de 24 horas no Central Hall Westm inster. Quando o evento foi anunciado, Duncan Slater telefonou para ele e disse que Douglas Hurd estava pedindo que a vigília fosse cancelada e am eaçando que, se isso não acontecesse, a cam panha de defesa de Rushdie poderia ser acusada — talvez até pelo governo — de retardar a libertação do refém britânico Terry Waite. Michael Foot ficou furioso ao saber disso. “Ceder a am eaças estim ula a captura de pessoas com o reféns”, disse ele. Mas, por fim , o evento foi cancelado a pedido da vítim a da fatwa. Era preciso dar precedência aos direitos hum anos de Terry Waite.
O diretor da Feira do Livro de Frankfurt, Peter Weidhaas, queria voltar a convidar editoras iranianas, m as protestos na Alem anha im pediram que isso fosse feito.
Chegou o m ilésim o dia. Para assinalar a data, ele com pletou um ensaio, “Mil dias num balão”. O pen Am erican Center organizou um a m anifestação e entregou um a carta-protesto às Nações Unidas. Diante do cancelam ento da vigília, seus am igos britânicos leram cartas de apoio num a livraria na Charing Cross Road. Contudo, o j ornal The Independent, que estava se tornando um a espécie de órgão oficial do islã britânico, publicou um artigo do “escritor” Ziauddin Sardar, que dizia: “O m elhor rum o de ação para o sr. Rushdie e aqueles que o apoiam é calarem -se. Um a m osca apanhada num a teia de aranha não cham a a atenção para si m esm a”. A m osca em questão ligou para o editor daquele j ornal e lhe com unicou que não escreveria m ais recensões para suas páginas literárias.
Em 18 de novem bro, Terry Waite foi solto por seus captores. Já não havia reféns britânicos no Líbano. E agora, ele pensou, com o as autoridades tentariam silenciá-lo? A resposta não tardou a chegar. No dia 22, o arcebispo de Cantuária, George Carey, resolveu atacar Os versos satânicos e seu autor. O rom ance, opinou Carey, era um a “difam ação afrontosa” do profeta Maom é. “Devem os ser m ais tolerantes para com a ira m uçulm ana”, declarou o arcebispo.
Ele revidou num a entrevista pelo rádio, e a im prensa britânica opôs-se em peso ao arcebispo. Carey recuou, pediu desculpas e convidou para um chá o hom em cuj a obra ele atacara. O hom em invisível foi levado ao palácio de Lam beth, e lá estava a figura em pertigada do arcebispo, com um cachorro dorm indo diante de um a lareira, e cá estava sua xícara de chá: um a só e, para sua decepção, nada de sanduíches de pepino. Carey pareceu-lhe canhestro e vacilante, sem m uito o que dizer. Perguntado se tentaria interceder j unto a Kham enei, com o um líder espiritual a outro, para que a fatwa fosse revogada, ele respondeu, debilm ente: “Não creio que ele m e dê m uita atenção”. A finalidade do chá não ia além de redução de danos. Logo chegou ao fim .
Corria o boato de que o governo britânico e o iraniano se preparavam para restabelecer plenas relações diplom áticas e trocar em baixadores. Ele precisava de um a tribuna pública com urgência. A data do evento na Universidade Colum bia se aproxim ava e parecia da m ais alta im portância que ele estivesse lá. O problem a era que ainda havia dois reféns am ericanos no Líbano; além disso, não estava claro se ele seria autorizado a entrar nos Estados Unidos. E com o ele viaj aria? Nenhum a em presa aérea com ercial desej ava tê-lo com o passageiro. A polícia inform ou que quase todas as sem anas havia voos m ilitares de passageiros entre o Reino Unido e os Estados Unidos. Talvez ele conseguisse lugar num desses voos. Fizeram -se indagações e, sim , poderiam conseguir-lhe lugar num voo m ilitar. Mas ainda não se sabia se ele poderia viaj ar.
Duncan Slater ligou para desculpar-se pelo “confronto” quanto à vigília dos m il dias e disse que não havia “pressa algum a” para a troca de em baixadores. Ele estava sendo enviado para um posto no exterior, disse, e David Gore-Booth ocuparia seu lugar com o contato no Foreign and Com m onwealth Office. Ele gostava de Slater e sentia apoio nele. Gore-Booth era um hom em m uito diferente: m ais calado, m ais brusco, m ais áspero.
Joseph Cicippio foi libertado em 1o de dezem bro, e o últim o refém am ericano, Terry Anderson, um a sem ana depois. Os am ericanos cum priram a palavra dada e suspenderam o em bargo à sua viagem . Ele poderia ir ao evento na Mem orial Low.
Ele cruzaria o oceano num voo da Roy al Air Force ao Aeroporto Internacional Dulles, em Washington, D. C. Um avião particular, que pertencia, segundo lhe disseram , ao diretor da Tim e Warner, estaria à espera para levá-lo a Nova York e trazê-lo de volta. Em Nova York, ele seria recebido por um grupo de segurança do Departam ento de Polícia de Nova York (New York City Police Departm ent — ny pd). À m edida que se avizinhava a data da partida, esses planos iam sendo alterados, causando-lhe angústia. O avião particular de Washington a Manhattan transform ou-se num carro, depois num helicóptero, e voltou a ser um avião. Andrew tinha planej ado um j antar em que ele pudesse estar com nova-iorquinos influentes, e um “alm oço de artes”, com , talvez, Allen Ginsberg, Martin Scorsese, Bob Dy lan, Madonna, Robert De Niro. Disseram -lhe que ele não teria autorização para deixar seu hotel em m om ento algum , salvo para falar na universidade. Não teria perm issão para participar do j antar na biblioteca Low, m as seria levado até lá para fazer seu discurso e voltaria em seguida para o hotel. Voaria de volta a Washington naquela m esm a noite e pegaria o avião da raf retornando ao Reino Unido. As em baixadas am ericanas em todo o m undo haviam sido postas em alerta de alto nível e haviam sido cercadas de m edidas de segurança adicionais para o caso de haver retaliações islâm icas contra os Estados Unidos por lhe perm itirem entrar no país. Todos com quem ele ou Andrew falavam estavam nervosos, nervosíssim os — a raf, o Ministério da Defesa, a em baixada am ericana, o Departam ento de Estado am ericano, o Foreign Office britânico, a polícia de Nova York. Ele disse a Larry Robinson ao telefone: “É m ais fácil entrar no Jardim do Éden do que nos Estados Unidos. Para entrar no Paraíso, um hom em só precisa ser j usto”.
Quanto m ais se aproxim ava a data do voo, m ais os Estados Unidos recuavam a hora da partida. Por fim , na terça-feira, 10 de dezem bro, Dia Internacional dos Direitos Hum anos, véspera do evento na Universidade Colum bia, ele em barcou no transporte da raf e, de costas para o destino da viagem , deixou o solo britânico pela prim eira vez em três anos.
Foi recebido na pista do aeroporto de Teterboro, em Nova Jersey, por um a carreata de nove veículos, com batedores em m otocicletas. O carro central era um a lim usine branca blindada. Esse era seu carro. O enorm e destacam ento de agentes do ny pd era com andado pelo tenente Bob Kennedy, que naquele dia atendia pelo codinom e “Com andante Hudson”. O tenente Bob apresentou-se e explicou o “roteiro”, interrom pendo a exposição várias vezes para falar no rádio. Câmbio. Hudson na escuta. Aqui fala Comandante Hudson. Entendido. Câmbio final. Hoj e em dia os policiais falavam do j eito que tinham visto policiais falando na tv. O tenente Bob, era evidente, achava que estava atuando num film e. “Vam os transportá-lo pela cidade neste veículo aqui”, declarou, redundante, quando a carreata partiu.
“Tenente Bob”, ele disse, “por que tanta coisa? Os nove carros, as sirenes, as m otocicletas, as luzes piscando, todos esses agentes. Não seria m ais seguro, na verdade, m e levar por ruas secundárias num Buick velho?”
O tenente Bob olhou-o com aquela expressão de piedade reservada aos idiotas de nascença ou aos loucos. “Não, senhor, não seria”, respondeu.
“Para quem m ais vocês fariam um a proteção nessa escala, tenente Bob?”
“Senhor, isto aqui é o que faríam os para Arafat.” Ser equiparado ao líder da Organização para Libertação da Palestina foi para ele quase um choque.
“Se o senhor fosse o presidente dos Estados Unidos, m uitas dessas ruas laterais seriam fechadas, e, senhor, atiradores de elite seriam postos nos telhados ao longo do cam inho, m as em seu caso acham os que isso não seria necessário porque ficaria ostensivo dem ais.”
A carreata de nove veículos, bem discreta, partiu em direção a Manhattan, ao som das sirenes dos batedores de m otocicletas e com as luzes piscando, sem cham ar nenhum a atenção.
Andrew o esperava no hotel. Na suíte presidencial, acolchoados à prova de balas cobriam todas as j anelas, em bora eles estivessem no últim o andar, e pelos côm odos se espalhavam uns vinte hom ens, com arm as enorm es, saídas de film es de ficção científica. Andrew providenciara que ele recebesse duas visitas. Prim eiro veio Susan Sontag, para abraçá-lo e contar-lhe tudo que o pen Am erican Center tinha feito e faria em seu benefício. Depois, Allen Ginsberg chegou por um a porta e Susan teve de sair por outra, de m odo que os dois gigantes am ericanos não se encontrassem . Ele não entendeu por que isso era necessário, m as Andrew explicou que era m elhor assim , para evitar o choque de egos literários, e quando Ginsberg entrou, usando sandálias e carregando um a m ochilinha, logo avaliou a situação e disse com firm eza: “O.k., agora vam os m editar”. Pôs-se a tirar as alm ofadas dos sofás e a j ogá-las no chão. O escritor indiano pensou: Esquisito isso, um americano me ensinando a dizer om shantih om . Só para ver o que iria acontecer, ele disse alto: “Só vou m editar se Andrew Wy lie m editar tam bém ”. Daí a pouco estavam os três de pernas cruzadas no chão, entoando shantih, paz, tendo o exército de hom ens com arm as de ficção científica a observá-los e os acolchoados à prova de balas tapando o sol frio de dezem bro. Quando Ginsberg deu por encerrada a sessão de m editação, distribuiu vários livretos sobre budism o e foi em bora.
Daí a pouco, Elizabeth chegou sem ser anunciada, e o tenente Bob a trouxe à suíte, cercada de hom ens arm ados. “O.k., tenente Bob”, disse ele. “Elizabeth está lim pa. Elizabeth está com igo.”
Kennedy apertou os olhos. “Se eu quisesse m atar o senhor”, disse insanam ente, assum indo sua m elhor expressão Jack Nicholson Alucinado, “ela é exatam ente quem eu m andaria.”
“Com o assim , tenente Bob?”
Kennedy fez um gesto na direção de um a m esa onde havia um arranj o de frutas e queij os, além de talheres e pratos. “Senhor, se ela pegasse um daqueles garfos e o ferisse no pescoço, eu perderia o em prego.”
Andrew Wy lie fazia força para conter o riso, e Elizabeth foi cham ada de Garfista Louca durante o resto da viagem .
Naquela noite saíram na lim usine branca blindada, no m eio da carreata de nove veículos, com os batedores, as sirenes e as luzes piscantes, disparados a cem quilôm etros por hora pela rua 125, rum o ao cam pus de Colum bia, com toda a população do Harlem nas calçadas, assistindo a carreata passar com o um espectro, nada ostensiva, aliás quase im perceptível, e Andrew gritando de prazer diante da loucura de tudo aquilo: “Este é o m elhor dia da m inha vida!”.
A seguir, a com édia de hum or negro, ligeiram ente histérica, chegou ao fim . Ele foi ocultado por um a cortina na biblioteca Low e, quando seu nom e foi anunciado, houve um arquej o de surpresa, e ele se adiantou, saindo da invisibilidade para a luz. Veio então o aplauso, acolhedor, afetuoso. A luz dos refletores incidia em seus olhos e ele não via o salão, não fazia ideia de quem estava ali, m as tinha seu discurso a fazer, seus m il dias num balão a relatar. Pediu à plateia que pensasse em perseguição religiosa e na pergunta sobre quanto vale um a única vida hum ana, e com eçou a longa tarefa de desfazer o Erro, desdizer o que dissera, devolver-se às fileiras dos advogados da liberdade e deixar Deus para trás. Ele teria de desdizer o Erro repetidam ente, durante m uitos anos, m as naquela noite, quando adm itiu seu erro à ilustre plateia em Colum bia e voltou a defender aquilo em que m ais ardentem ente acreditava — a liberdade de expressão é tudo o que interessa, disse, a liberdade de expressão é a própria vida —, ele se sentiu m ais lim po e, na reação solidária da plateia, percebeu com paixão. Fosse ele religioso, teria dito que se sentia perdoado, absolvido de seus pecados. Mas ele não era religioso e nunca m ais sim ularia religiosidade. Era um hom em que se orgulhava de sua irreligiosidade. Não reze por mim, ele dissera a sua m ãe. Você não entende? Nosso time não faz isso.
Term inado seu discurso, a Am érica o pôs para fora sem cerim ônia. Não houve tem po para despedir-se de Andrew ou Elizabeth. O tenente Bob ia no banco da frente da lim usine branca que varava a noite em direção ao aeroporto MacArthur, em Islip, Long Island, e lá estava o avião à sua espera para levá-lo a Dulles, onde em barcou no transporte da raf com vários m ilitares, e logo estava de volta à sua j aula. Mas viaj ara, e falara. A prim eira vez foi a m ais difícil, e todas as dificuldades tinham sido superadas, e à frente dele esperavam a segunda vez, a terceira, a quarta. Podia não haver ainda um a luz no fim do túnel, m as ao m enos agora ele estava no túnel.
* * *
O ensaio “Balão” substituiu o texto da “conversão” na edição em brochura de Imaginary homelands, e enfim ele conseguiu parar de estrem ecer a cada vez que via um exem plar da coletânea. Enfim, pensou, quando os livros chegaram . Esse é o livro verdadeiro. Seu autor é o verdadeiro eu. Sua carga parecia m enos pesada. Ele se libertou do dentista Essawy e deixou aquelas bem tratadas unhas dos pés para trás, para sem pre.
Prezada Religião,
Posso levantar a questão dos primeiros princípios? Pergunto isso porque estranhamente, ou nem tão estranhamente, os religiosos e os não religiosos não chegam a um acordo em relação a quais são eles. Para o grego razoável que abordasse a questão da verdade, os primeiros princípios eram pontos de partida (arche) e nós os percebíamos porque possuímos entendimento/consciência (nous). Descartes e Spinoza acreditavam que, mediante o uso da razão pura e confiando em nossa percepção sensorial do mundo, poderíamos chegar a uma concepção da verdade que pudéssemos reconhecer como autêntica. Por outro lado, os pensadores religiosos — santo Tomás de Aquino, Ibn Rushd — sustentavam que a razão existia fora da consciência humana, que ela pendia ali, no espaço, como a aurora boreal ou o cinturão de asteroides, esperando ser descoberta. Uma vez descoberta, ela era fixa e imutável, porque preexistente. Ela não dependia de nós para existir, ela existia e pronto. Essa ideia de razão desencarnada, de razão absoluta, é um pouco difícil de engolir, principalmente quando você, Religião, a une à ideia de revelação. Porque, com isso, o pensamento acaba, não é? Tudo o que precisa ser pensado já foi revelado, e ficamos presos a essa revelação, eternamente, absolutamente, sem recurso de apelação. “Ajudai-nos, Deus”, poderíamos clamar. Eu estou com o outro time, que acredita que, a menos que os primeiros princípios desse tipo possam ser desafiados por primeiros princípios do outro tipo — encontrando novos pontos de partida, aplicando nossa consciência e nossa consciência sensória de o-que-é a esses pontos de partida, e assim chegando a novas conclusões —, estaremos liquidados, nosso cérebro apodrecerá, e homens de turbantes e barbas longas (ou homens de batina que fingem respeitar o celibato mas abusam sexualmente de meninos) herdarão a Terra. Entretanto, e isto talvez a confunda, em questões culturais eu não sou um relativista e acredito firmemente nos universais. Nos direitos humanos, por exemplo, nas liberdades humanas, na natureza humana e o que ela deseja e merece. Por conseguinte, não concordo com a ideia do professor S. Huntington de que a razão é própria do Ocidente, e o obscurantismo, do Oriente. O coração é o que é, e nada sabe sobre pontos cardeais. A necessidade de ser livre, tal como a inevitabilidade da morte, é um universal. Pode não preexistir, dadoque é consequência de nossa humanidade essencial, mas não é negociável. Eu compreendo, Religião, que isto possa confundi-la, mas para mim é absolutamente claro. Perguntei a meu nous, e ele levantou o polegar. Analise. De qualquer ma neira. Analise. Ah! P. S. E o que dizer desses formulários oficiais paquistaneses (todos eles, para tudo) que insistem em que a pessoa declare sua religião, e não aceitam “nenhuma” como resposta? Escrever “nenhuma” equivale a inutilizar o formulário, e a pessoa tem de preencher outro ou arcar com as consequências, que talvez sejam medonhas. Não sei se isso ocorre em outros países muçulmanos, mastenho a impressão de que é possível que sim. Isso é um pouco demais, não acha,Religião? Beira o fascismo, não é? Que tipo de clube é esse que obriga todo mundo a se associar a ele? Até agora eu pensava que os melhores clubes eram fechados e faziam o possível para afastar a ralé.
Analise isso também. Por favor.
Caro Leitor,
Agradeço suas palavras amáveis sobre meu livro. Deixei claro o ponto elementar de que a liberdade de escrever está intimamente relacionada à liberdade de ler, e que as leituras de uma pessoa não devem ser escolhidas, checadas e censuradas por qualquer clero ou Comunidade Ultrajada? Desde quando uma obrade arte foi definida por quem não gostou dela? O valor da arte está no amor que ela engendra, e não no ódio que provoca. É o amor que faz os livros durarem. Por favor, continue lendo.
Ele tom ou resoluções de Ano-Novo. Perder peso, obter o divórcio, escrever seu rom ance, fazer com que Os versos satânicos fosse publicado em brochura e obter a revogação da fatwa. Sabia que seria incapaz de m anter todas essas prom essas para si m esm o. Entretanto, três ou quatro em cinco estaria bom . Perdeu quase sete quilos nas seis sem anas seguintes. Foi um bom com eço. Com prou seu prim eiro com putador. Com o m uitas pessoas ligadas à m áquina de escrever, ele tem ia que o com putador m udasse sua form a de escrever. Muito anos antes, ele e Fay Weldon tinham feito um a leitura em conj unto em Kentish Town, e na hora das perguntas do público um a m ulher perguntara: “Quando vocês estão datilografando e batem x-x-x em cim a de um a frase, continuam a escrever ou tiram a folha da m áquina e com eçam a página de novo?”. Tanto ele com o Fay tinham respondido que tiravam o papel da m áquina e com eçavam de novo, obviamente. Com o m uitos escritores, ele tinha o fetiche da página lim pa, e a facilidade com que se “lim pava” um a página com esse novo dispositivo m ilagroso bastara para convencê-lo de seu valor. Quanto m enos tem po ele gastasse em redatilografar, m ais tem po lhe sobraria para a redação propriam ente dita. O último suspiro do mouro foi o prim eiro rom ance que ele escreveu no com putador.
A casa da St. Peter’s Street precisava ser vendida. As despesas dele eram enorm es, e esse dinheiro seria da m aior im portância. Em bora os tabloides ainda se queixassem de que ele estava custando ao Reino Unido um a fábula, seus próprios recursos estavam perto do fim . Ele havia com prado (e estava reform ando) um a casa grande em que ele e a equipe de proteção poderiam viver felizes e tranquilos para sem pre, além de um bim bom óvel à prova de bala. Estava com prando um apartam ento de dois quartos em Ham pstead, para que Elizabeth tivesse um endereço residencial “público”, estava com prando esse im óvel no nom e dela, com o um presente. Por sorte, Robert McCrum , da Faber and Faber, quis com prar a casa de Islington, e eles acertaram as condições rapidam ente. Entretanto, o negócio não foi fechado porque a venda da casa de Robert gorou. No entanto, Robert disse que havia outras pessoas interessadas, e que esperava poder resolver a questão de outra form a em breve.