Joseph Anton: Memórias

Salman Rushdie · Capítulo 10 de 11 · parte 3/3

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Joseph Anton: Memórias

9. Sua ilusão milenarista

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Movim entando-se pela cidade havia um hom em que ele criara para ser ao m esm o tem po com o ele e diferente dele; com o ele porque tinha a m esm a idade, era de origem indiana, com um a história britânica e um casam ento rom pido; um recém -chegado a Nova York. Ele queria deixar claro que não podia e não iria tentar escrever sobre a cidade com o alguém nascido e criado em Nova York escreveria. Ele escreveria um outro tipo de história característica de Nova York, um a história de chegada. Mas a anomia e ranzinzice de seu Malik Solanka foram desenvolvidas intencionalm ente para separá-lo de seu criador. A visão um tanto am arga e desencantada da cidade à qual Solanka chegara para se salvar era deliberadam ente, com icam ente, contraditória; ele ficava contra aquilo de que era a favor, reclam ava das m esm as coisas que o tinham atraído àquela cidade. E a Fúria não era um a criatura perseguindo Malik Solanka, arranhando sua cabeça, m as a coisa que ele m ais tem ia dentro de si m esm o.

Saladin Cham cha, em Os versos satânicos, tinha sido outra tentativa de criar um antieu ou um eu-oposto, e era intrigante que em am bos os casos esses personagens que ele escrevera para serem diferentes dele m esm o eram vistos por m uita gente com o sim ples autorretratos. Mas Stephen Dedalus não era Joy ce, Herzog não era Bellow, Zuckerm an não era Roth, Marcel não era Proust; escritores trabalhavam sem pre perto do touro, com o toureiros, j ogavam j ogos com plexos com a autobiografia e no entanto suas criações eram m ais interessantes que eles m esm os. Sem dúvida, isso era sabido. Mas o que era sabido podia tam bém ser esquecido. E ele tinha de confiar na passagem dos anos para esclarecer as coisas.

 

O chão que ela pisa foi declarado vencedor da “região eurasiana” do Com m onwealth Writers’ Prize para Melhor Livro. O vencedor geral seria revelado num a cerim ônia em Delhi, em abril. Ele decidiu que iria. Iria e levaria Zafar com ele. Recuperaria a Índia depois de todos os anos perdidos e às vezes furiosos. (A proibição a Os versos satânicos evidentem ente ainda vigorava.)

Vij ay Shankardass telefonou antes de ele sair de Londres. A polícia de Delhi estava extrem am ente nervosa com a proxim idade de sua chegada. Será que ele por favor podia evitar ser identificado no avião? Sua cabeça calva era m uito reconhecível; poderia por favor usar um chapéu? Seus olhos eram facilm ente identificáveis; poderia por favor usar óculos escuros? Sua barba tam bém devia ser escondida. Ele devia usar um cachecol sobre ela. Calor dem ais? Ah, m as havia cachecóis de algodão... “Salm an”, Vij ay disse cuidadosam ente, “as coisas aqui estão m uito tensas. Estou um pouco ansioso por sua causa.”

Ele não sabia o que esperar. Seria bem -vindo ou rej eitado? Só havia um j eito de descobrir.

Quando desceu do avião em Delhi, sentiu o im pulso de beij ar o chão, ou m elhor, o tapete azul da passagem da pista, m as ficou envergonhado dem ais para fazê-lo sob os olhares vigilantes de um pequeno exército de guardas de segurança. O dia quente envolveu a ele e a Zafar com o um abraço. Em barcaram num velho Hindustan Am bassador branco. O ar-condicionado não estava funcionando. Ele estava de volta.

A Índia vinha correndo de todos os lados. com pre arm adilhas para baratas chilly ! beba água m ineral hello! correr ou m orrer!, gritavam os outdoors. Havia m ensagens novas tam bém . aprenda oracle 81. form e-se em j ava tam bém . E, com o prova de que os velhos dias de protecionism o haviam term inado, a Coca-Cola estava de volta com um a vingança. Na últim a vez que ele estivera na Índia, a Coca-Cola havia sido proibida, deixando cam po aberto para as péssim as im itações locais, Cam pa-Cola e Thum s Up. Agora havia um anúncio verm elho de Coca-Cola a cada cem m etros. O atual slogan da Coca era escrito em híndi transliterado para tipos rom anos: Jo chaho ho jaaye. Que se podia traduzir, literalm ente, por “Tudo o que você desej a há de se realizar”. Ele preferiu pensar nisso com o um a bênção.

buzine, por favor, pediam as placas na traseira dos m ilhões de cam inhões que bloqueavam a estrada. Todos os outros cam inhões, carros, bicicletas, m otonetas, táxis e riquixás m otorizados obedeciam entusiasticam ente, dando-lhes as boas-vindas à cidade com um a enérgica versão da sinfonia da rua indiana. Wait for Side! Sorry-Bye-Bye! Fatta Boy!

Foi im possível seduzir Zafar a vestir o traj e nacional indiano. Ele próprio vestiu um a kurta solta e fresca com calça de pij am a indiano no m om ento em que chegaram , m as Zafar insistiu: “Não é m eu estilo”, preferindo ficar com seu uniform e de j ovem londrino, cam iseta, calça larga de brim e tênis. (No fim da viagem , ele estava usando o pij am a branco indiano, m as não a kurta; m esm o assim , era um progresso.)

Havia cartazes no Forte Verm elho anunciando um show de son et lumière à noite. “Se m am ãe estivesse aqui”, Zafar disse, de repente, “ela insistiria em ver isso.” É verdade, ele pensou, insistiria. “Bom ”, ele respondeu ao filho, “ela esteve aqui, sabe?” E com eçou a contar a Zafar de sua viagem em 1974 e do que a m ãe dele havia achado disto e daquilo — o quanto ela gostara da serenidade de um lugar, ou da agitação de outro. A viagem adquiriu um a nova dim ensão.

Ele sabia que a prim eira viagem seria a m ais difícil. Se corresse bem , as coisas ficariam m ais fáceis. A segunda visita? “Rushdie volta” não era tanto m atéria para notícia. E a terceira — “Ah, ele está aí de novo” — m al soava com o notícia. No longo traj eto de volta à “norm alidade”, o hábito, até o tédio, seria um a arm a útil. Ele planej ou subm eter a Índia.

Seus protetores tinham um clim a de pesadelo sobre suas cabeças, relativo às quadrilhas de agitadores. Na Velha Delhi, onde m oravam m uitos m uçulm anos, estavam particularm ente nervosos, principalm ente cada vez que um a pessoa do público dava o m au passo de reconhecê-lo. “Sir, houve exposição! Houve exposição! Sir, disseram seu nom e, sir! Seu nom e foi cham ado, sir! Sir, por favor, o chapéu!”

Os agentes britânicos m antiveram distância dele. O chefe do Conselho Britânico na Índia, Colin Perchard, recusou-se a dar perm issão para que ele usasse o auditório do conselho para um a entrevista coletiva. O alto-com issário britânico, sir Rob Young, recebeu instruções do Foreign Office para ficar longe dele. Ele tentou não se im portar, lem brando a si m esm o por que estava ali. O Com m onwealth Writers’ Prize era apenas um pretexto. Essa viagem com Zafar era a vitória real. A Índia em si, o prêm io.

Fizeram um a viagem de carro: Jaipur, Fatehpur, Sikri, Agra, Solan. Havia m ais cam inhões do que ele se lem brava, m uitos m ais, buzinando, m ortais, m uitas vezes rodando para cim a deles na contram ão. A cada poucos quilôm etros havia batidas de frente.

Olhe, Zafar, aquele é o altar de um im portante santo m uçulm ano; todos os cam inhoneiros param ali e rezam para ter sorte, até os hindus. Depois voltam para suas cabines e assum em riscos terríveis com a vida deles e a nossa. Zafar, aquilo é um a carroça puxada a trator, lotada de gente. Na época da eleição, cada aldeia recebe ordens de providenciar esse transporte para os com ícios dos políticos. Para Sonia Gandhi, a exigência é de dez veículos desses por aldeia. As pessoas andam tão desiludidas com os políticos que ninguém iria aos com ícios de livre e espontânea vontade. Olhe, aquelas são as cham inés poluidoras dos fornos de tij olos fum egando nos cam pos.

Fora da cidade o ar é m enos im undo, m as ainda não é lim po. Em Bom baim , contudo, entre dezem bro e fevereiro, pense um pouco, aviões não podem pousar nem decolar antes das onze da m anhã por causa da névoa de poluição.

A cada cem m etros m ais ou m enos, eles viam placas que diziam std-isd-pco. pco era personal call office, posto de com unicação pessoal, e agora qualquer pessoa podia entrar num a daquelas pequenas cabines, telefonar para qualquer lugar da Índia ou m esm o do m undo, e pagar na saída. Era a prim eira revolução nas com unicações no país. Poucos anos depois, haveria um a segunda, e centenas de m ilhões de celulares colocariam os indianos em contato uns com os outros e com o m undo com o nunca antes.

Zafar estava com quase 21 anos. Ir com ele a Solan, à casa cuj a posse haviam reconquistado, foi um m om ento em ocionante. Um dia, ela pertenceria a Zafar e ao pequeno Milan. Eles seriam a quarta geração da fam ília a ir lá. A fam ília deles era espalhada e aquele pequeno terreno de continuidade significava m uito.

O ar refrescou, altas coníferas curvavam -se de íngrem es encostas. Quando o sol se pôs, as luzes das prim eiras estações m ontanhesas brilharam acim a deles no crepúsculo. Passaram por um trem de bitola estreita em seu cam inho lento e pitoresco para Shim la. Pararam num a dhaba perto de Solan para j antar e o dono ficou contente de recebê-lo. Alguém pediu um autógrafo. Ele ignorou a carranca do chefe da equipe policial, Akshey Kum ar. Ele não ia a Solan desde que tinha doze anos, m as sentiu-se em casa.

Já estava escuro quando chegaram à casa de Anis. Da estrada, tiveram de subir 122 degraus até lá. Em baixo, ficava o portãozinho e Vij ay lhes deu form alm ente as boas-vindas à casa que ele reconquistara para a fam ília. O chowkidar Govind Ram correu até eles e deixou Zafar perplexo quando se curvou para tocar os pés deles. O céu estava incendiado de estrelas. Ele entrou no quintal sozinho. Precisava estar isolado.

Acordou às cinco da m anhã com a m úsica am plificada e os cânticos do tem plo hindu do outro lado do vale. Vestiu-se e andou em torno da casa à luz do am anhecer. Com seu telhado alto e rosado e as pequenas torres nos cantos, era m ais bonita do que ele se lem brava, m ais bonita do que parecia nas fotos de Vij ay, e a vista das m ontanhas era deslum brante. Era um a sensação m uito estranha andar em torno de um a casa que ele não sabia que de algum a form a lhe pertencia.

Passaram a m aior parte do dia peram bulando na propriedade, sentados no j ardim à som bra de altas e velhas coníferas, com endo os ovos m exidos especiais de Vij ay. A viagem tinha valido a pena: ele sabia disso pela expressão no rosto de Zafar.

 

Os rum ores de sua presença na Índia eram abundantes. Algum as organizações islâm icas prom eteram fazer barulho. Num j antar no restaurante Him ani, em Solan, ele estava com endo um a apim entada versão indiana de com ida chinesa quando foi identificado por um repórter de Doordarshan cham ado Agnihotri, que estava de férias com sua fam ília. Mom entos depois, um repórter da im prensa local chegou e fez algum as perguntas sim páticas. Nada disso era m uito inesperado, m as o resultado desses encontros casuais foi que a trepidação da polícia cresceu m uito e transbordou num a briga. De volta à casa de Anis, Vij ay recebeu em seu celular o cham ado de um policial, Kulbir Krishan, de Delhi. Esse telefonem a fez Vij ay perder a com postura pela prim eira vez em todos os anos da am izade deles. Ele estava quase trem endo ao dizer: “Estão nos acusando de ter cham ado aqueles j ornalistas ao restaurante. Esse hom em m e disse que não agim os com o cavalheiros, não m antivem os nossa palavra e nós, acredite na frase se quiser, ‘falam os fora de hora’. Finalm ente, o suj eito disse que ‘vai haver tum ulto em Delhi am anhã e se nós atirarm os na m ultidão e houver m ortes o sangue estará em suas m ãos’”.

Ele ficou horrorizado. Aquilo estava se transform ando num a questão de vida ou m orte. Se a polícia de Delhi estava tão anim ada no gatilho a ponto de estar preparada para m atar pessoas, tinha de ser detida antes que fosse tarde dem ais. Não havia tem po para gentilezas. Zafar ficou olhando, tonto, enquanto ele deliberadam ente despej ava sua raiva no coitado e tão decente Akshey Krishan (que não tinha culpa de nada) e lhe dizia que, a m enos que Kulbir Krishan telefonasse de novo im ediatam ente, se desculpasse pessoalm ente com Vij ay e garantisse que não havia planos de m atar ninguém no dia seguinte, ele faria questão de dirigir a noite inteira de volta a Nova Delhi para estar esperando na porta do prim eiro-m inistro Vaj pay ee ao am anhecer para pedir que ele tratasse do assunto pessoalm ente. Passado algum tem po desse acesso de raiva, Kulbir efetivam ente telefonou outra vez para falar de “m al-entendidos” e prom eteu que não haveria tiros nem m ortes. “Se falei fora de contexto”, ele concluiu, m em oravelm ente, “então sinto m uito, de fato.”

Ele explodiu num a gargalhada diante do absurdo dessa form ulação e desligou o telefone. Mas não dorm iu bem . O sentido de sua viagem à Índia seria definido pelo que acontecesse nos próxim os dois dias e, m esm o esperando e acreditando que a polícia estava nervosa sem necessidade, ele não tinha com o ter certeza. Delhi era a cidade deles e ele era Rip van Winkle.

Ao m eio-dia e m eia do dia seguinte estavam de volta a Delhi e ele teve um a reunião a portas fechadas com R. S. Gupta, o com issário assistente especial encarregado da segurança de toda a cidade, um hom em calm o e forte. Ele pintou um quadro som brio. Um político m uçulm ano, Shoaib Iqbal, planej ava ir às preces de m eio-dia da sexta-feira na Jam a Masj id e pedir a aj uda do im ã Bukhari para com eçar um a m anifestação contra ele, e contra o governo indiano por ter perm itido que ele entrasse no país. Os núm eros podiam ser grandes e paralisar a cidade. “Estam os negociando com eles”, disse Gupta, “para m anter os núm eros baixos, e o evento, pacífico. Talvez a gente consiga.” Depois de algum as horas de espera em alta tensão, durante as quais ele ficou efetivam ente confinado em seu quarto — “Sir, nenhum m ovim ento, por favor” —, a notícia foi boa. Menos de duzentas pessoas saíram às ruas — e, na Índia, duzentos m anifestantes era um núm ero m enor que zero — e tudo transcorrera sem problem a nenhum . A perspectiva de pesadelo não ocorrera. “Felizm ente”, disse o sr. Gupta, “conseguim os controlar as coisas.”

O que realm ente acontecera? O ponto de vista da segurança era sem pre im pressionante e m uitas vezes persuasivo, m as era apenas um a versão da verdade. Era um a das características das forças de segurança em todos os lugares do m undo tentar capitalizar tudo. Se tivesse havido um a m anifestação, eles teriam dito: “Viu? Todo o nosso nervosism o era am plam ente j ustificado”. Mas não houvera m archa nenhum a, então: “Conseguim os evitar o problem a graças à nossa previsão e à nossa perícia”. Talvez sim , ele pensou. Mas talvez fosse o caso tam bém de que, para a vasta m aioria dos m uçulm anos indianos, a controvérsia em torno de Os versos satânicos fosse roupa velha e, apesar dos esforços do político e do im ã (am bos fizeram trovej antes discursos sanguinários), ninguém podia realm ente se dar ao trabalho de se m anifestar. Ah, tem um romancista na cidade que vai a um jantar? Como é o nome dele? Rushdie? E daí? Essa foi a posição geral da im prensa indiana, quase sem exceção, em sua análise dos eventos do dia. A pequena m anifestação foi notada, m as os interesses políticos particulares de seus organizadores tam bém foram apontados. O roteiro na cabeça das pessoas estava sendo reescrito. A catástrofe prevista — tum ulto, m ortes — não acontecera. O que acontecera no lugar foi extraordinário e, para Zafar e para ele, um evento de im enso im pacto em ocional. O que explodiu na cidade não foi violência, m as alegria.

Às quinze para as oito da noite, ele e Zafar entraram na recepção do Com m onwealth Writers’ Prize no Oberoi Hotel, e desse m om ento até irem em bora da Índia as com em orações não pararam . Eram cercados por j ornalistas e fotógrafos, seus rostos engalanados com sorrisos m uito pouco j ornalísticos. Am igos atravessavam a m uralha da m ídia para abraçá-los. O ator Roshan Seth, que se recuperara recentem ente de um sério problem a cardíaco, abraçou-o e disse: “Olhe só, yaar, era para nós dois estarm os m ortos e ainda estam os fortes e rij os”. A em inente colunista Am ita Malik, am iga da fam ília dele desde os velhos dias de Bom baim , de início tom ou Zafar por guarda-costas do pai (para delícia de Zafar), m as depois relem brou m aravilhosam ente o passado, contou histórias do querido irm ão de Negin, Ham eed, que m orrera j ovem dem ais, havia m uito tem po. Talentosos escritores j ovens — Raj Kam al Jha, Nam ita Gokhale, Shauna Singh Baldwin — foram dizer coisas generosas sobre o significado da literatura dele para seu próprio trabalho. Um a das grandes dam as da literatura indiana em língua inglesa, a rom ancista Nay antara Sahgal, j untou as m ãos e sussurrou: “Bem -vindo à sua terra”. E Zafar foi entrevistado pela televisão, falando tocantem ente de sua própria felicidade por estar ali. Seu coração transbordava. Ele não ousara de fato esperar tanto, fora contam inado pelos tem ores da polícia e se defendera contra m uitos tipos de decepção. Naquele m om ento, as defesas haviam caído e a felicidade se erguia com o um alvorecer tropical, rápida, brilhante, quente. A Índia era sua outra vez. Era um a coisa rara realizar o desej o que se tem no coração.

Ele não ganhou o prêm io, que foi para J. M. Coetzee. Mas aquela foi m ais um a festa de volta ao lar do que um a cerim ônia de prem iação. rushdie na índia: só alegria, m uita alegria. Com o dem onstrava a m anchete hiperbolicam ente afetiva da prim eira página do The Indian Express, o espírito festivo transbordava para a m ídia, afogando as poucas vozes negativas. Em todas as suas conversas com a im prensa, ele tentou evitar reabrir velhas feridas, para dizer aos m uçulm anos indianos que não era, nem nunca tinha sido, inim igo deles, e frisar que estava na Índia para reatar laços rom pidos e com eçar, por assim dizer, um novo capítulo. The Asian Age colaborou: “Vam os virar um a página”. Outra publicação, a Outlook, falou do prazer que a Índia tivesse “se redim ido de ter sido a prim eira a banir Os versos satânicos e suj eitá-lo à perseguição e agonia que se seguiram ”. The Pioneer expressou sua satisfação pela Índia um a vez m ais defender “os valores dem ocráticos e o direito do indivíduo de se expressar”. Num clim a m enos elevado, acusou-o tam bém de im provável m as deliciosam ente ter “transform ado as m ulheres m ais sofisticadas da cidade em colegiais risonhas” que diziam a seus acom panhantes: “Querido, [ele] é capaz de m andar os galãs de Bolly wood de volta para a escola”. Dilip Padgaonkar, do The Times of India, afirm ou, com oventem ente: “Ele se reconciliou com a Índia e a Índia com ele [...]. Algo sublim e aconteceu com ele que deve perm itir que continue a nos fascinar com suas tram as. Ele voltou para o lugar onde seu coração sem pre esteve. Voltou para casa”. O Hindustan Times publicou um editorial intitulado reconsiderar a proibição. Esse sentim ento ecoou por toda a m ídia. No The Times of India, um acadêm ico islâm ico, entre outros intelectuais, apoiou o fim da proibição do livro. Na m ídia eletrônica, as pesquisas de opinião concluíram que 75% dos entrevistados eram a favor de que Os versos satânicos fosse publicado livrem ente na Índia afinal.

Vij ay deu um a festa de despedida para ele. Suas duas tias atrizes, Uzra Butt e a irm ã dela, Zohra Segal, com pareceram , com sua prim a Kiran Segal, filha de Zohra, professora e um dos expoentes do país da clássica escola indiana de dança odissi. Essa era a ala alegre da fam ília, de língua afiada e olhar esperto. Uzra e Zohra eram as grandes dam as do teatro indiano e todo m undo estivera um pouco apaixonado por Kiran em algum m om ento. Zohra e Kiran tinham m orado num apartam ento em Ham pstead nos anos 1960 e durante sua época de Rugby ele às vezes passava férias no quarto extra, vizinho do quarto de Kiran, na porta do qual havia o alerta de um crânio com ossos cruzados. Vij ay Shankardass e Roshan Seth tam bém ficavam no m esm o quarto extra no m esm o período. Os três olhavam curiosos para o crânio e ossos, e nenhum dos três ultrapassou o lim ite.

“Há anos não vej o você dançar”, ele disse a Kiran.

“Volte logo”, ela disse. “E eu danço.”

 

Era uma vez um menino chamado Milan e seu pai, que viviam na margem de um rio mágico. Quem subia o rio na direção da nascente ficava mais jovem quanto mais longe ia. Quem descia o rio ficava mais velho. Quem seguia um dos muitos tributários laterais do rio tinha de tomar cuidado. Podia se transformar em outra pessoa completamente diferente. Milan e o pai desceram o rio num barquinho, ele se tornou um homem, mas quando viu como seu pai tinha ficado velho não quis mais ser homem, quis ser menino outra vez. Então voltaram para casa, ele ficou criança outra vez e seu pai também voltou ao normal. QuandoMilan contou para sua mãe, ela não acreditou na história, achou que o rio mágico era só um rio e não lhe importava de onde vinha, para onde ia e o que acontecia com aqueles que navegavam em suas águas. Mas era verdade. Ele e o pai sabiam que era verdade e era isso que contava. Fim.

“Eu gosto de você, pai. Eu disse que você ia m e fazer dorm ir.”

Ele ainda m orava na casa da Bishop’s Avenue quando estava em Londres, dorm indo em um dos quartos deixados vagos pela polícia, m as isso tinha de m udar. “Vam os encerrar essa história. Estou cheia de viver com você”, Elizabeth disse, m as disse tam bém : “Você sabe que podíam os facilm ente fazer isto aqui dar certo se você quisesse”. Eles brigaram , depois ela quis pegar na m ão dele e brigaram de novo. Foi um m au m om ento. Você não vailevar a melhor nesta história. Você criou esta situação e agora tem de enfrentar as consequências. E em outro dia: Eu ainda te amo. Não sei o que fazer com esse sentimento. Mas um dia, no futuro, eles cam inhariam j untos por um a praia de Goa e seguiriam a route de Cézanne na França e ela iria a Nova York, ficaria na casa dele, se fantasiaria de Morticia Adam s (Milan de Michael Jackson e ele de Tony Soprano) e iriam ao Village para o Halloween.

Carol Knibb m orreu dez dias depois do terceiro aniversário de Milan, m as ele nunca a esqueceu. Sua única avó “de verdade” estava longe e se recusava a pegar um avião por m ais que a convidassem , e ele não a conheceu. Carol era a coisa m ais próxim a que ele tinha e a perdeu. Era novo dem ais para ter um a relação tão próxim a com a m orte.

Helen Fielding telefonou. “Alô, Salm an. Você gostaria de fazer papel de bobo?” Estavam fazendo um film e baseado em O diário de Bridget Jones e ela queria que ele participasse de um a cena num a festa de lançam ento de livro em que Bridget perguntava a um escritor onde ficava o toalete. “Tudo bem ”, ele disse, “por que não?” Atuar era um território atraente. Na escola, ele havia feito o papel (travestido, corcunda, com m eias de lã) da m édica louca fräulein Mathilde von Zahnd em Os físicos, de Dürrenm att. Em Cam bridge, havia sido escalado para alguns papéis m odestos em produções da graduação, um j uiz m edroso em Terror e miséria no Terceiro Reich , de Bertolt Brecht, um a estátua que ganhava vida em O futuro está nos ovos, de Eugene Ionesco, e Pertinax Surly, o aj udante cético do facilm ente enganável sir Epicure Mam m on, em O alquimista, de Ben Johnson. Depois de Cam bridge, veio a Oval House. Ele às vezes sonhara, j unto com Bill Buford, fugir por um ano e se j untar a um a obscura com panhia de verão no Meio-Oeste, para representar alegrem ente com édias absurdas e horríveis m elodram as, m as isso agora estava fora de questão. Uns dois dias fazendo papel de bobo em Bridget teria de bastar.

A cena da festa levou dois dias para ser film ada. Renée Zellweger não largava o sotaque britânico nem atrás das câm eras, de form a que ele teve a estranha im pressão de conhecer Bridget Jones e não a atriz que fazia esse papel. Colin Firth era engraçado e receptivo. “Tenho a esperança secreta de que você sej a péssim o nisto aqui, porque eu não sei escrever livros.” E Hugh Grant o beij ou. Havia um a cena em que ele e Hugh tinham de se cum prim entar com o am igos que não se viam havia m uito e, antes de um a das tom adas, Hugh perguntou: “Você se im porta se eu te der um beij o nessa?”. E então lhe deu um grande beij o na boca perplexa. A cena acabou não entrando na edição final do film e. Seu prim eiro beij o na tela, ele pensou, tinha sido com Hugh Grant e acabara no chão da sala de m ontagem . (O único outro hom em que o beij ou foi o diretor de cinem a Abel Ferrara, que um dia o abraçou num a boate em Nova York e usou a língua áspera. Nessa ocasião, felizm ente, não havia câm eras rodando.)

Foi m ais difícil do que ele esperava interpretar um personagem cham ado Salm an, cuj o diálogo havia sido escrito por outra pessoa. Se ele estivesse num lançam ento de livro quando um a m oça de relações públicas fosse desaj eitada e tola, seu instinto seria ser bom com ela e ele tentou representar dessa m aneira, m as não era engraçado. Quanto m ais gentil ele se m ostrava, m ais engraçada ficava a confusão de Bridget. Jeffrey Archer tam bém participava da cena da festa e estava m uito chateado por não precisar dizer nada. “Eu m e dei ao trabalho de vir até aqui”, ele disse aos produtores. “O m ínim o que vocês podiam fazer era escrever um a ou duas frases.” Não escreveram . O roteiro de Richard Curtis era o roteiro e pronto. Ele próprio tentara escrever um diálogo extra para “Salm an Rushdie” — evidentem ente —, m as tudo acabou sendo cortado da versão final do film e, a não ser por um a conversa que dava para ouvir ao fundo, vagam ente. Alguém perguntava a ele até que ponto seus livros eram autobiográficos e ele respondia: “Sabe, ninguém nunca m e perguntou isso”.

 

Agora tinham um lugar para m orar em Nova York e de perto a Ilusão estava se tornando real. Ela era capaz de dizer coisas de um narcisism o tão grande e m aj estoso que ele não sabia se enterrava a cabeça nas m ãos ou aplaudia. Quando a estrela de cinem a indiano Aishwary a Rai foi considerada a m ulher m ais linda do m undo num a revista, por exem plo, Padm a anunciou para um a sala cheia de gente que ela “discordava seriam ente daquilo”. Seu hum or era im previsível e extrem ado. Sobre ele, ela era reservada. “Vou esperar este verão, depois verem os.” Ela alternava entre fria e quente e ele estava com eçando a se perguntar se a quente com pensava a fria. Ela ficava som bria e fechada durante vários dias e depois um a m anhã havia sol irradiando de seu rosto. Seu diário estava cheio de suas próprias dúvidas. “Quanto tem po vou conseguir ficar com essa m ulher cuj o egoísm o é um a de suas características m ais notáveis?” Um a noite, sentaram -se no Washington Square Park depois de um j antar conflituoso e ele lhe disse: “Esta relação não está funcionando para m im ”. Depois disso, durante vários dias ela foi m uito doce e ele esqueceu por que tinha dito o que dissera. Ela conheceu algum as am igas dele e a m aior parte delas a aprovou. Quando contou-lhe o que haviam dito, as observações positivas que tinham feito sobre seu caráter im portaram m enos do que os com entários sobre seus seios perfeitos. A Playboy francesa descobriu fotos dela nua e publicou um a na capa cham ando-a de sua “noiva”. Ela não se im portou com a palavra e não se im portou com a foto, m as quis ser paga por isso, e ele teve de contratar um advogado francês para trabalhar para ela. Isso é o que estou fazendo agora, ele pensou, perplexo. Minha namorada está nua na capa da Play boy e eu estou negociando o preço.

A m ãe dela telefonou, em prantos, em crise m atrim onial. Queria se separar do m arido, padrasto de Padm a. “Claro”, ele disse de im ediato, “ela pode vir e ficar conosco.” “Nesse dia eu entendi que am ava você”, Padm a disse a ele depois. “Quando você concordou im ediatam ente em cuidar de m inha m ãe.” E, sim , eles se am avam . Durante m uitos anos, ele pensou naquilo com o um grande caso de am or, um a grande paixão, e achava que ela tam bém . Sim , era instável e, sim , talvez estivesse condenado; m as, enquanto estava acontecendo, ele não pensava que era um a ilusão. Pensava que era para valer.

Zafar foi a Nova York e a conheceu. Gostou dela, disse, m as achou estranho ela ser m ais próxim a de sua própria geração que da de seu pai, e disse que eles form avam “um casal estranho, o intelectual e a m odelo”. Mas achou que ela era “boazinha” e “se é isso que você quer, dou o m aior apoio”. Ele certam ente via, com o todos viam , com o era im portante para seu pai a nova vida sem defesas em Nova York e não havia com o voltar atrás.

 

Nesse verão, ele não quis voltar à casa da Little Noy ac Path, m as a viúva de Joseph Heller, Valerie, ofereceu-lhe a casa na Skim ham pton Road, na divisa East Ham pton-Am agansett. Ela havia recebido um convite para ir à Itália e precisava do descanso. “Não arrum ei nada, as roupas de Joe ainda estão nos arm ários, então queria alguém que eu conheça para cuidar de tudo.” A ideia de escrever na m esa de Joseph Heller era ao m esm o tem po estim ulante e desorientadora. “As cam isas dele devem servir em você”, Valerie acrescentou. “Fique à vontade para usar o que quiser.” Não, ele pensou. Seria ir longe demais. Não, obrigado.

Ele ficava m uito tem po sozinho porque Padm a estava trabalhando num film e de Mariah Carey em Toronto, e no fim do verão ele havia term inado um tratam ento de Fúria. Quando voltou à cidade e deu o livro para a m ulher com quem estava tentando construir um a vida nova, ela não teve quase nada a dizer, a não ser sobre o personagem que se parecia com ela. Tudo bem, ele disse a si m esm o, ninguém pode ter tudo. Ele deixou de lado o m anuscrito e saíram à noite. Nas horas tardias da m adrugada, ocorreu-lhe um a ideia. “Estou m e divertindo.” “Coisa, m inha gente, que tenho direito de aproveitar”, ele escreveu no diário.

 

Havia notícias extraordinárias. Os serviços de inteligência britânicos tinham afinal dim inuído a avaliação de risco. Ele não estava m ais no nível dois. Agora era m eram ente um nível três, o que era um grande passo para a norm alidade, e, se as coisas continuassem a correr bem , disseram , dentro de seis m eses m ais ou m enos ele poderia descer para o nível quatro. Ninguém em nível quatro recebia proteção da Divisão Especial, de form a que quando isso acontecesse dariam o caso por encerrado. Ele disse: “Não será um pouco de excesso de cautela? Quando estou nos Estados Unidos pego táxi, ando de m etrô, vou a j ogo em estádio, a piquenique no parque. Aí volto para Londres e tenho de entrar em carros à prova de balas outra vez”. É assim que gostaríam os de deixar as coisas, disseram . Devagar e sem pre. Estam os nisso há tem po dem ais para com eter um erro com você agora.

Nível três! Isso fez com que ele sentisse que seu instinto era j ustificado. Estava tentando m ostrar a todo m undo que podia assum ir sua vida de volta, e havia am igos que achavam que estava sendo bobo; Isabel Fonseca escrevia e-m ails longos e preocupados, dizendo que, se ele não “tivesse j uízo” e contratasse guarda-costas, “o óbvio” seria “inevitável”. Mas agora, m uito devagar, devagar dem ais para seu gosto, a rede de segurança do m undo da proteção estava com eçando a liberá-lo. Ele tinha de continuar provando que estava certo e que os arautos da tragédia estavam errados. Ele ia reconquistar sua liberdade. O nível quatro haveria de chegar logo.

Pouco depois dessa notícia, veio outra im ensa concessão. O estado de seu casam ento havia sido discutido, disse a Divisão Especial, e ficou entendido que em algum m om ento ele haveria de querer, e m uito provavelm ente precisar, m udar-se do lar m atrim onial. Os chefões da Yard, depois de discussões com o sr. Manhã e o sr. Tarde, tinham concordado que ele teria proteção “aberta” durante seis m eses no novo endereço. Depois disso, supondo que não houvesse nenhum a m udança negativa na avaliação de risco, eles confirm ariam o fim do risco à sua vida e a proteção chegaria ao fim . Lá estava finalm ente. A linha de chegada, com eçando a aparecer.

 

Em bora m uitas de suas am igas o apoiassem (nem todas; a crítica Herm ione Lee o viu num restaurante e o cham ou, só m eio afetivam ente, de “canalha”), suas preocupações a respeito de Milan continuavam . E então apareceu outro com portam ento m aluco da m ulher de verdade por trás da Ilusão, um a briga que surgiu do nada e que o encontrou pensando: Eu vou voltar, vou voltar para o bem de Milan, e ele com eteu o erro idiota de m encionar essa possibilidade a Elizabeth, que reagiu com hostilidade, interessada — m uito com preensivelm ente — apenas na própria dor e não nos problem as dele. Ele tentou um a segunda vez e um a terceira. Mas ela estava tão m agoada, tão defendida, que não conseguia reagir. E nesse m eio-tem po, em Nova York, a linda m ulher que o m antinha em servidão im plorou que ele não fosse em bora e acabou adm itindo que tudo o que ele vinha dizendo era verdade, todas as suas críticas eram j ustificadas, m as que queria que desse certo e que daria. Ele acreditou nela. Não podia evitar. Ela estava em seu sonho de futuro e ele não podia desistir. Então ele se afastou de Elizabeth outra vez. Foi sua últim a vacilação, a m ais cruel, a m ais fraca. Ele detestou o que fez.

Os advogados partiram para a guerra. Dez anos tinham se passado desde que com era carneiro com nastúrcios com Elizabeth no apartam ento de Liz Calder. Um ano se passara desde o raio do céu na ilha da Liberdade.

Depois de dois alarm es falsos, dois apartam entos cuj os donos se assustaram com questões de segurança, ele concordou em alugar, por um ano, um a casinha m inúscula que pertencia ao pop star Jason Donovan, que protagonizara José e seu manto technicolor. Quando a notícia circulou, o Daily Insult ficou previsivelm ente furioso que esse hom em , que “odiava a Grã-Bretanha”, agora tivesse policiais uniform izados diante de sua porta 24 horas por dia porque não queria m ais “se esconder”. É muita audácia, sr. Rushdie , disse-lhe o Insult. Elizabeth não queria que Milan fosse à casa nova. Não era seguro, disse. Isso o perturbaria trem endam ente. “Você é um a pessoa egoísta que passa pela vida arrasando a vida dos outros”, ela disse a ele. “Quem você deixou feliz algum dia? Com o consegue conviver consigo m esm o?” Ele não tinha resposta. Mas no fim Milan iria e ficaria com ele. No fim ele e Milan m antiveram um a relação próxim a e am orosa, Milan cresceu e virou um j ovem excepcionalm ente m aduro, educado, determ inado, doce. No fim ficou claro que a vida de Milan não havia sido arruinada e que ele era um rapaz feliz, de coração aberto. Sim , no fim , no fim . Mas antes do fim , infelizm ente, tinha de haver o m eio.

 

O sr. Joseph Anton, editor internacional de origem am ericana, faleceu sem ser lam entado no dia em que Salm an Rushdie, rom ancista de origem indiana, voltou à tona de seus longos anos clandestinos e assum iu residência em Pem bridge Mews, Notting Hill. O sr. Rushdie com em orou a ocasião, m esm o que ninguém m ais o fizesse.

a Thom as Paulsley LaBeef, figura lendária da m úsica rockabilly e country, nascido em 1935. As pálpebras caídas lhe renderam o apelido de Sleepy, “sonolento”. (N. T.)

b Relações antigas deveriam ser esquecidas e nunca relembradas?, prim eiro verso do poem a de 1788 Auld lang syne, do escocês Robert Burns, para um a m elodia folclórica. É a tradicional Valsa do adeus cantada na noite de Ano-Novo no m undo ocidental. (N. T.)

c The Big Rock Candy mountain é um rom ance do escritor am ericano Wallace Stegner. É tam bém um a canção gravada por Harry McClintock em 1928, m as que deve datar do final do século xix. Fala do paraíso im aginário de um trabalhador m igrante, com “pássaros, abelhas e árvores cigarreiras” (the birds and the bees and the cigarette trees). (N. T.)

d Anim al fantástico com duas cabeças em extrem idades opostas do corpo, um a de antílope, um a de unicórnio, da série de livros Dr. Doolittle, de Hugh Lofting, adaptada duas vezes para o cinem a. (N. T.)